file_name region transcript audio/VPA01.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Pois não. [vocalização] Não começou há muitos anos, mas os anos que tem, já chega para destruir o mar. audio/VPA02.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Uma sorte de faneca, mas chama-lhe a gente aqui, desculpando a impressão, fodão. audio/VPA03.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Não ago-. É, é. Não, mas agora é melhor. audio/VPA04.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Eu vou para sessen- Eu vou para sessenta e cinco. Tenho Ouça, eu tenho eu tenho sessenta e seis. Tenho se- Eu nasci em 19. Porque o meu pai, o meu falecido pai, foi para a guerra de 14. E foi daqui, fo- foi mobilizado [pausa] em 16. Em 16 foi ele mobilizado. E, e eu, ele A guerra acabou em 18, [pausa] e eu nasci em 19, mas estive um ano sem me, sem, sem sem baptizar, sem registar. audio/VPA05.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Pois era. Mas olhe, eu, eu vou-lhe dizer. Eu não tenho medo que a senhora me prenda. Eu, quando fui para a pesca do bacalhau, [pausa] passei eu e os meus camaradas passámos as melancolias. Passámos fome, trabalho, sem descanso. Chegávamos a trabalhar [pausa] cinquenta e duas horas sem dormir. audio/VPA06.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Pois não. Era só naquelas horas. Quando a comida era fraca nós, bem. Porque ali havia dias que se comia melhor do que outros. Quando era assim aos domingos e quintas-feiras, davam-nos aquela carne de orça – carne de cavalo, carne de cavalo! Aquela carne de cavalo, se fosse [pausa] bem preparadinha, comia-se bem. Havia um que se comia bem. Mas havia outra [pausa] que era desta cor – era preta. Aquela, mesmo se viesse preparadinha bem à moda – à nossa moda, não é? – comia-se bem, minha senhora. Mas aqui assim, havia bandejas de comida daquela que ia toda para o lado. Tudo. [vocalização] Ninguém a punha à boca. Não senhor. Mas havia uma, que era a entremeada… Essa, essa era só para os oficiais, homem. A nós davam-nos uma vez por acaso, daquela carne. Deus me livre! Que miséria! Naquele tempo só havia era miséria! audio/VPA07.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É. Não, não é deste género, não. Era de fio. Essas redes foram roubadas [vocalização], roubaram-nos na Espanha. Essas redes, roubaram-nos na Espanha – no mar de Espanha. Olhe que naquele tempo podia-se ir ali, andava-se lá por a pela Espanha, sabe? E andei pilhei E andávamos também ao badejo – ao badejo! Muitos badejos que ajudei a apanhar! Num barco aqui Ân- chamado Âncora do Mar. audio/VPA08.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Ainda se lá aparece qualquer um, ainda aparece de vez em quando algum no rio de Caminha, mas mas não há, não há, não há por cau- das águas. Não há que a explo- a exploração é muita. É. E depois outra: o peixe aqui é pouco, porque a exploração é muita e a navegação também é muita. E sabe que o peixe – olhe, assim como o robalo, como a truta, como o como esses peixes – os barcos fazem muito barulho, com estes motores, e o peixe também espanta. O peixe foge. O peixe é como nós. audio/VPA09.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Morreu cansado. Os médicos disseram disseram mesmo: "Este rapaz morreu cansado". E foi foi na praia mesmo que ele morreu. audio/VPA10.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Agora com molho nunca comi. audio/VPA11.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Punham a secar naquelas coisas. E até depois, lá cá que há rapazes que andavam comigo ao bacalhau levavam. Seco, aquilo Seco, que aquilo era muito bom. Aquilo, se for a aquecer aquecido de um lado e doutro, aquilo por acaso é bom. audio/VPA12.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Secos. Faz de conta, secos, que é é pedras mais altas que estão no fundo [pausa] e torna-se… Há pedras – Deus me livre! – que uma pessoa, com os aparelhos que tem, com a sonda… Há pedras que é para aí, quê? Têm para aí vinte ou trinta metros de altura. audio/VPA13.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Não. [vocalização] Onde é que está mais encapelado, em geral, é nas pontas. Faz de conta, acolá é uma ponta, onde é que está aquele castelo, não é? E nas pontas é onde é que o mar se encapela mais. Porque onde é que faz uma enseada, o mar fica mais calmo. Mas onde é que onde é que ele mete as pontas para fora é quando o mar se encapela mais, [pausa] porque vai apanhar fundo mais baixo e como vai ali mais [pausa] . E até para o vento é pior, porque nas pontas faz sempre mais vento. Se for como uma enseada, faz calma. Onde é que apanha uma ensea- uma enseada, nos bicos nos bicos, faz sempre mais mais vento. Mais vento e mais [pausa] e o mar mais mais [pausa] agitado. audio/VPA14.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) E agora, [pausa] anda-se o ano inteiro, não se apanha uma lagosta. audio/VPA15.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Era, era. Para lhe ir ajudar, porque naquele tempo vivia-se mal. Eu, quando me casei, já se vivia melhor alguma coisita – não era muito, mas [pausa] já se vivia melhor. Mas disse: "Tenho duas filhas e dois filhos, se me chegar a notícia a casa – porque depois sei [pausa] aquilo que me fazia falta – se me chegar a notícia que os meus filhos que gazearam a escola"… Se eles não aprenderem, aí está certo. Não somos todos iguais, as cabeças não são todas iguais e . Mas se eles me gazearem a escola, eu, o remédio que lhe dou é queimar-lhe as mãos. Mas queimo-lhas mesmo! E depois vou para o médico com eles, que é para se eles lembrarem: "Olha, isto foi de meu pai, foi por eu não apr- não querer ir para a escola". Por acaso não tive essa sorte. Todos eles [pausa] deram bem, graças a Deus, deram bem. Mas eu hoje sinto-me [pausa] envergonhado até, de não saber ler, sabe? É que eu [pausa] tenho boa ideia, fui sempre mestre dos barcos, tirei a carta de marinheiro, tirei a carta de mestre, tirei tudo isso e sou analfabeto! audio/VPA16.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Muita lágrima chorei! Eu passei tanto mau tempo no mar, e tanto mau tempo que aqui esta terra, toda ela chorava. Porque andávamos a trabalhar em Matosinhos, [pausa] e eu, como queria fazer das tripas coração, dizia assim: "Agora vou morrer". O barco tinha uma telefonia, que eu falava para a, para a para a minha patroa, para a minha mulher. E eu falava com ela. E ela: "Ai Jesus, anda-te embora, homem"! Eu estava tão longe! Doze horas de viagem! E andava eu aos E ainda havia os peixes! Quando Onde havia era pescada, onde os havia! Ora, aquilo, nem queira saber, muitos dias foi assim. Havia tripulantes que diziam assim: "Eu, [pausa] ia-me embora, que este homem parece [vocalização] um doido, mas aqui é que ganho dinheiro"! Eles chegaram a ganhar quinhentos contos num ano! audio/VPA17.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Claro, assim não passa nada. Eles fazem, que eu também já fiz. Não cá. Cá a trabalhar no com os portugueses não, mas já fiz. [vocalização] E estes todos também. E este colega também estava, que andávamos os dois no mesmo barco, num belga. E fizemos. audio/VPA18.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Para viver, não há mais de madeira, não senhor. Para viver, não vejo aqui nada. Não senhor. Eu nasci [pausa] nes- Eu nasci numa barraca [pausa] de madeira mesmo madeiramento, [pausa] tudo de madeira. De madeira. Olhe, eu, quer que lhe diga, eu nasci [pausa] num ponto, minha senhora – desculpe que lhe diga – cheio de piolhos, pulgas, percevejo, ratos, de tudo. Eu vivi no meio disso tudo. E depois é que veio, mais tarde – isso já era eu casa-… Depois já era casado eu. E depois, quando eu era casado é que veio [pausa] uma lei de Lisboa – ou donde fosse, do Porto, ou donde fosse – de dar aqui uma desinfecção por toda esta zona, uma des- uma desinfecção . [pausa] Que botavam de criolina e ha-… Havia aqueles pós para matar os piolhos e tudo, e percevejos e tudo. Daí para cá, minha senhora, é que nunca mais se viu esses bichos. audio/VPA19.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) A gente, depois, amanhava-a. Chegava aqui à praia, não metíamos isto, era areia. Escuchava. Tirávamos-lhe a cabeça e tirava-se a tripa. Depois lavava-se muito bem lavadinha em água, nesses tais cestos. E depois, havia outros cestos maiorzinhos que esses, e a gente acamava-as acamava-se. Punha assim toda redondinha, muito bem lavadinha, assim. Era giro. Assim Assim tudo acamadinho, tudo, tudo. Depois aquilo ia para as praças [pausa] e aquilo a gente chegava lá… As pesso- A gente mandava e as pessoas lá vendiam aquele peixe, que tinha muita saída. "Olha a sardinha de Âncora"! Era gostosa, era boa, era arranjadinha aqui, lavadinha com água do mar e tudo. Era bom. audio/VPA20.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Mas houve quem visse! Mas não lhe fadava, não o fadava, sabe? A vizinhança viu tudo, a carri- uma carrinha amarela. audio/VPA21.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Fomos a [vocalização] portos muito diversos estrangeiros. E naqueles países Bem, era uns é nuns países bons! Está bem que uma pessoa [pausa] tinha lá intérpretes portugueses… Tinha intérpretes portugueses, [vocalização] que sabiam a nossa língua, não é? Mas uma pessoa não os compreendia, àquela gente. E naquele meio daquela gente também era gente boa – os estrangeiros, por esse mundo fora. Na Gronelândia, fomos a [vocalização] p- fui a um porto, o porto de Basques, levar um… Até fomos levar um cunhado meu, que partiu uma clavícula aqui e foi espontado para paraSan Jones. O comboio levou-lhe uma noite – uma noite toda a andar de comboio. E aquela gente era boa! E nesses pesqueiros do mar [pausa] havia muito peixe. Ai Jesus, que de peixe havia! Meu Deus! audio/VPA22.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Aqui é para a gente passear. E no mar, há [pausa] pontos que dá mais peixe de que outros. Está-me a perceber? Porque há pedaços de mar, aqui assim na nossa costa – seja aqui, seja em qualquer país – há pedaços de mar [pausa] que tem mais peixe de que outros lados. Porque o peixe não é no mar não é certo. O peixe no mar não é certo! Há aqui um cardume de peixe muito grande. Ali já não há nada. Vai-se para aquele pesqueiro, pode haver peixe. Vai a outro pesqueiro que já não há nada. Chamavam-lhe isso pes- assim: pontas de pedra no meio do mar. audio/VPA23.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) E E [vocalização] cheguei a vender a sardinha a dois tostões e a coroa a três tostões o cento. Estão aqui que o digam. E as regateiras, as compradeiras não as queriam, vinham carros – carros de vacas, com licença, de vacas – carregar aqui [vocalização] a sardinha para ir para o estrume. audio/VPA24.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Muito. Cham- Bem, aí, chamamos-lhe cardume, chamamos-lhe montes de sardinha. "Ai, que grandes montes de sardinha"! Já não se- Já não damos, muitas v- muitas vezes, não lhe damos nome de cardume. Damos: "Ai, que montes de sardinha vai acolá"! audio/VPA25.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Isso. É, é . Mas agora também é raro caçar isso. audio/VPA26.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) E, essas sondas são eléctricas, e o peixe apanha aquele choque. E depois dão uns tiros [pausa] – nós, aqui os portugueses, não, mas aqui os espanhóis dão uns tiros [pausa] fortes na água para o peixe, para a sardinha andar meia tola para a caçarem. E esse peixe está cheio de sangue na espinha. audio/VPA27.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) [vocalização] Era a fieira. Nós, quando é ia para largar um ferro desses na pedra – na pedra, na pedra – amarra a ponta do cabo à [vocalização] à unha e o e outro cabo vem aqui à argola. E aqui a argola leva assim um bocadinho de fio – seja um fio qualquer, não é. Encaixou aquele fio, aquele fio arrebenta [pausa] e vai desencaixar e vai desencaixar acolá à unha à unha do ferro. audio/VPA28.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Naufragar… Foi o barco ao fundo. Naufragaram, até morreram todos. [vocalização] Eu, por acaso, at- nesse naufrágio, eu estava lá à beirinha. Estava lá à beirinha, mas estava muito temporal. Estava muito vento de leste, mesmo vento de terra, luar, muito lua- luar bravo, via-se via-se tudo. E o barco, esse barco ia largar anzóis – o tal troler do congro, o safio, o tal troler, [pausa] os tais trolers que eu lhe disse, o troler do congro, o safio, o troler. Ia a largar – o barco também já era velhinho – e pega mesmo daqui à como daqui à terra, assim, como daqui àque- ali àque- mesmo ali, olhe. O barco enc-, conforme bateu na pedra, o barco esc-, para mim, escanou, e morreu tudo. Morreu tudo, morreram. E depois deram falta do barco. Nós, ali à beirinha, não não pensámos nada. E depois lá foi o barco que eu andava, lá foi t-, também foi lá ao [vocalização]. Foi procurar. Que a minha senhora estava na cama a dormir, nem soube, nem sabia de nada. E vieram dois homens engarrados ao agarrados aos anzóis, ao troler esse. Vieram dois homens agarrados ao troler. Mas apareceram todos. audio/VPA29.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Havia muito pilado aqui . Era a terra mais que havia pilado era esta. Aqui, havia mais pilado de que terra nenhuma, e este mar aqui era explorado por, po-, por os poveiros por os poveiros, [vocalização] assim por todos dessas nações que estão aí , dessas terras que estão por aí abaixo. Era, era. audio/VPA30.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Então não pescávamos! Pescávamos com o anzol! audio/VPA31.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Cheio de sangue, até. Cheio de sangue. Tem, por aca- por acaso tem. E aquilo, tem que uma pessoa, conforme se vêem vem, pegar nas asas, pimba, matá-la logo. Mata-se Mata-se-lhe logo, que é para elas morrerem, senão esgardunham e mordem à gente. Mordem, Deus me livre! Aquilo é é um bicho lixado. Aqui não há disso. Não. Aqui não há disso. audio/VPA32.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) como daqui a acolá. Foi preciso içá-las até aqui. Que estão estão aí, aí aí gente que, na minha companhia na minha família, que que o digam. Mas Mais pareciam dois monstros! audio/VPA33.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Tremelgas. Aí, já vejo aí tremelgas. audio/VPA34.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Ajudei a trazer muitos, mas foi do arrasto, aqui assim, nesta terra mas foi q-. Que nós íamos buscar o peixe, naquele tempo, aos navios belgas, aos arrastões belgas [pausa] que vinham… Os belgas, os bélgicos, vinham para aqui para este mar a arrastar aqui ao ao linguado – ao linguado, à pescada, ao que calhava. E nós íamos lá pedir o resto do peixe: fanecas, cações, raias, sorelo. Isso davam à gente, davam-nos à gente. audio/VPA35.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É a xaputa, que é é muito gorda. Olhe aind- olhe ainda ontem, ainda ontem comi! Ainda ontem comi, que deram uma à minha mulher, que v- vinda da Espanha. Aquilo em filetes! Olhe, comi ontem à ceia. Palavra de honra! Foi lá uma ra- Foi lá uma rapariga, uma minha vizinha, no sábado, no sábado, a um casamento [pausa] duma prima, e deu-lhe três, para trazer para, para para a casa. E ontem deu uma à minha mulher, cozinhou ontem à ceia, para comermos ao… Oh! E bem, e eu não gostava daquilo. Antigamente [vocalização], uma pessoa botava-as fora. Uma pessoa, antigamente, as xaputas, botava-as fora até! E agora vale tanto dinheiro! A conserva da- Aquilo para a conserva, ali na a da Espanha, para a conserva, aquilo é um colosso, a xaputa! Agora, é um colosso, aquilo! Filetinhos! Eu não gostava daquilo mas já um par de vezes que co- que comi! audio/VPA36.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É o magorro do polvo, é. audio/VPA37.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Chama-se isso é as casinhas – casinhas de alo- de alojamento de, de de pesca. audio/VPA38.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É por causa do do Diabo não entrar lá dentro, a- as feiticeiras. É. Aquilo é por causa das feiticeiras não entrar lá dentro. audio/VPA39.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Eu também não queria crer, sabe? Só que sou crente numa coisa. Sou crente em Nossa Senhora, No- em Nosso Senhor. Sou católico, sou crente. À missa não vou. Desculpe, minha senhora. Eu à missa não vou. Mas não proibo privo de ir as minhas filhas e a minha mulher à missa. Ai, Deus me livre! Palavra de honra! Eu não proibo privo a minha mulh-. A minha mulher vai todos os domingos à missinha. Vai! Ai Jesus! E as minhas filhas até, quando estão aqui, que vêm da França, vão todas todos à missa. Vai tudo! Eu é que não vou. Vou sim, à missa, quando for só, [pausa] assim quando é que às vezes eu sou sou, dos fes- de um festejo qualquer, duma, duma duma festa, aí é que sou obrigado a ir à missa para, para a, para a, por causa do, de, de, de se- de ser mordomo, de se-, de se-, de de ser da direcção. Mas eu não Eu sou católico. audio/VPA40.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É escuro, não é? Está dia, não é? E vem aquele nevoeiro… Eu, quando vinha aquilo, minha senhora, os pulsos eram assim, olhe. As mãozinhas eram assim. Eu só chorava: "Ai, que eu não posso"! audio/VPA41.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Era barcos-de-boca-aberta. Eram, sim senhora. E nós de- tínhamos aqui muitos! Era [pausa] muito barco, mais do que agora! Mas muito mais, e maiores do que estes! Porque uma pessoa Quando era à vela, aquilo os barcos andavam bem. O barco quando era à vela… Ai Jesus! Ainda o pessoal às vezes até pedia uma aja- uma rajadinha de vento, para não remarmos. Jesus, meu Deus! Andava uma pessoa às vezes a remar toda a noite, todo o dia… Era um caso sério antigamente! Antigamente era horror! audio/VPA42.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Para conservar. E a minha mulher foi que fez o sarrabulho. Sabe quantas pessoas eram à mesa? Éramos vinte – não eram muitas – eram vinte e quatro pessoas à mesa. Para um sarrabulho, vinte e qua-… É um Era um baptizado! audio/VPA43.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Não, as árvores não. Agora est- Frutos, frutos. Mas agora está tudo… Agora não… Ele não… Por aqui não era muito frio. Mas havia farrapas que era isto! Pedaços de farrapas, daquelas . Ai que alegria! audio/VPA44.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) A ova da pescada e do sável. Ah! Que colo-! E do robalo, e do badejo! Ai Jesus! A ova é muito boa! audio/VPA45.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Eu quando tinha aqui… eu qua- Eu tive já uma infecção. Apanhei Apanhei-a no bacalhau, uma infecção do estômago e duodeno. E os médicos só passaram esse peixe – [vocalização] badejo, faneca – grelhado. Sabe para que era? Que e- Algum bocadinho, qualquer coisa que tivesse de gordura, para [pausa] ficar na brasa. E assim eu não fui operado. E assim curei-a. Três meses ali. Três mesinhos ali a come-, [vocalização] a fazer aquele regime. Lá foi embora. Agora não como não como pedras porque são duras. audio/VPA46.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Le- Bem, às vezes ficam. E, quando estão maiorzinhos, lá vão. audio/VPA47.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Para mim, é o pargo-mulato. audio/VPA48.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) E houve aqui um barco que já caçou cento e tal corvinas, o que é que era a- eram assim, assim, assim tod-, tod-. Depois, daí para cá, as corvinas nunca mais apareceram nesta terra. E eu, se tenho sessenta e seis anos – sessenta e sete anos – nunca vi. Desde que foi nessa ocasião que foi veio esse barco com elas, nunca mais se, se… apareceu aqui uma corvina. Ai, ai! Não sei que peixe… E aqui migrava muita muito disso. Havia aqui muita coisa disso. Não sei que rumo levou esse peixe. Porque aqui não aparece uma corvina! Não sei, que aqui não aparece nada, aqui na em Âncora. Pode aparecer para outros lados, mas menos aqui em Âncora. Nunca mais se viu aqui uma corvina dessas. E aqui havia muitas. audio/VPA49.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) É. Esposende [pausa] é para cá é para cá do rio – do rio de Esposende. E Fão [pausa] é para lá de Esposende. Passa-se a ponte, e depois ali é que é Fão. – Olhe o mau tempo! – E nós íamos vender ali o peixe. Está a perceber? Porque ali não havia autoridades, nem sabiam [vocalização] donde é que vinha aquele peixe. Porque aqui era proibido. E nós íamos vender [pausa] às tais prainhas de Fão – chamamos nós –, às prainhas de Fão. Esse peixe, olhe, Jesus! Trazíamos trazíamos raias, trazíamos cações, trazí- Trazíamos raias, trazíamos cações, trazíamos [pausa] congros, trazíamos polvos, trazíamos fanecas, trazíamos [pausa] sorelo, trazíamos ro- os tais bêbedos! audio/VPA50.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Ou um besuguinho pequeno. audio/VPA51.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) E fanecas. Fanecas boas! E eu pus-lhe uma linhinha pa- para ele. Ele estava assim à ré, assentadinho. E eu à proa, porque tinha mais blindança para alar a poitada e tudo. E eu pu-lo à ré com uma linhinha. Ai, e pilhou! Ele era tão nov- nov-! Eu só me ria. E eu tanto me ri que depois comecei a chorar! Caiu uma trovoada! Caiu uma tem- uma trovoada, veio um um trovão! Depois, deu em cair chuva, caiu uma faísca em cima daquele sanatório, que manda um estampido – que ele ele tem lá, ele tem lá pa-, rai-, tem,- tem lá o [pausa] pára-raios, tem. E caí- E aquela faísca deu um tam- um estampido que veio para ali: "Ai, meu pai, que vamos morrer todos"! "Ó meu filho, não te assustes"! E eu fui acolá à, à à poitada, à corda, alei, alei a poitada. Eu, ali naquele tempo, eu tinha força como um leão, Jesus! audio/VPA52.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Ai, eu dantes dançava tão bem! Ó minha senhora! Palavra de honra! Eu dan- Eu sabia dançar! Eu não havia festas nenhumas que não fosse. Eu não havia bailes nenhuns que não fosse. Bem, eu, [pausa] também era livre. Olhe que eu cheguei a ir… [pausa] Eu lá sei onde é que cheguei a ir aos bailes, homem! Eu era perdido! A sério. Eu era perdido por os bailes. Palavra de honra! Tempos, tempos que já passaram! audio/VPA53.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Para os campos, para os campos. Era. Para cultivar. Porque aquilo tinha muita a espadilha tinha muita gordura. audio/VPA54.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Não, nada. Aquilo não leva nada de salga. Olha, tenho lá eu. Tenho lá [pausa] dessa maga – dessa tripa da sardinha. Tenho lá na arca. Tenho lá na arca, fechadinha, congelada. Sabe para que é? Que é para um dia para ir para a pesca. Já tem para aí alguns três meses, aquela maga. Está na arca. Tem que estar tudo fechado – sabe? –, que é para não cheirar à, ao… Está [pausa] fechada, arrolhada bem com um [vocalização]… num num tacho que tenha rosca, e lá es- e lá está essa maga. Chamamos-lhe ao… À ti- À tripa da sardinha, chamamos-lhe maga. Aqui ao norte é tudo maga. audio/VPA55.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Só se aproveita o fígado, para fazer óleo. Aquilo, olhe, aquilo é uma coisa especial, para reumáticos. E eu ando assim coisa, porque aqui não o há. Isso acabou, homem. Nós tínhamos tanto e tanto! Aos litros dele, engarrafado! E tudo foi embora. Dar aqui, dar acolá, [pausa] dar acolá, ficámos sem nenhum. Porque o fa- o falecido meu pai, aqui em Caminha, um velhote que era do tempo dele – eram amigos – andava de andava de muletas nas perninhas – nas muletas – e deu-lhe esse deu-lhe esse óleo. – Até eu também ainda curei aqui um. – Disse-lhe: "Toma lá, vais fazer o que eu te digo. Pegas neste óleo, aquece-lo ao lume, quentinho, hem". E ele então na cama: "Esfrega bem onde é que tens essa ". Olhe, pois o homem, quando foi dali a um mês, já andava a pé. E eu curei aqui um primo meu também, com esse óleo. Aqueci-lho Estava na cama, aqueci-lho, aqueci, fui-lhe fui dar aquelas esfregações, a um primo meu – por acaso já morreu, mas não foi dessa doença. Dei-lhe aquelas esfregações naqueles ossos, olhe, começou a andar, pronto. Aquilo é bom! Muito bom, muito especial, aquilo. Isso aqui já desistiu. audio/VPA56.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Nós também aqui chamamos, também aqui. Chamamos-lhe candorca ou ou arroazes. Nós chamamos-lhe aqui esses também dois nomes. Porque isto é um isto era um animal [pausa] que escorraçava muito o peixe. Jesus, escorraçava o peixe todo! E até atira-, também também atirava com o peixe à costa – pelo menos o robalo. Isto! Era a candorca, peixes bravos. Chamávamos nós: "peixes bravos". Mesmo peixe bravo! Era o peixe mais bravo que tínhamos aqui era a candorca. audio/VPA57.mp3 Vila Praia de Âncora (Caminha, Viana do Castelo) Vê aquelas bolinhas que estão ali? Esta é a que se dá aos porcos. E esta não. Esta da- Esta apanha-se para para estrume. audio/CTL01.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Só que o de fiar o linho [pausa] era: tinha um bocadinho de pau cá no fundo [pausa] e outro bocadinho de ferro. E o da lã era todo de pau. audio/CTL02.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Mas as rocas, eu nós fizemo-las sempre nós. Roquinhas que aquilo davam… Era uma maravilha! audio/CTL03.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Sabe. [pausa] Dá-lhe as respostas que lhe nós damos. audio/CTL04.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Exacto. audio/CTL05.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Olha o que te eu digo. Eu ainda tenho m- ainda tenho mantas das que fiz com o linho. audio/CTL06.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Gastavam. audio/CTL07.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Crestar as colmeias. Crestar as colmeias. audio/CTL08.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Pagou Pagou o carvalho – como é ir aqui à à Câmara, ou [vocalização] onde à Junta da Freguesia – , pagou [pausa] o carvalho, e ficou o carvalho. Caiu de velhinho. audio/CTL09.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Nós costumamos lhe fazer assim. audio/CTL10.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Ele hoje é pouco para… audio/CTL11.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Porque por qualquer coisa diz-se: "Ah, é mel de enxame novo! É melhor"! audio/CTL12.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Pois não. audio/CTL13.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Gra– Grande e magro. Pois fugiu. audio/CTL14.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Quando nós éramos pequenas, [pausa] que íamos [vocalização] com o gado, falava-se que de ter que há pessoas que perdem a fala [pausa] com o medo dele. Sim… Eu, a mim, nunca me aconteceu. Mas falava-se que há pessoas que ficam sem fala. Querem falar e não podem. audio/CTL15.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Eles di- Eles, é proibido; mas eles caçam. audio/CTL16.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) E de maneira que [pausa] era uma ideia errada dos antigos. audio/CTL17.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Pois. O Melgaço. Mas aqui não. Porque fora a uma vindima [pausa] e [vocalização] andávamos a apanhar uvas… Quando se apanham as uvas, não é?, em Setembro ou Outubro; em Outubro, que é quando se apanham – e [vocalização] e foi onde eu conheci o ouriço-cacheiro. Mas aqui nunca vi. audio/CTL18.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) procuram uma a maneira. E então, d- dizia-lhe o [vocalização] avô para o neto, dizia: é a coisa mais [vocalização] fácil que há. Que ela, claro, com aquela pressa que vai e já é crescida, fica sempre um bocadinho de rabo de fora. audio/CTL19.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Pois era. Nós dávamos-lhe [vocalização] … Dizíamos assim: "Armade-lhe a lo- a lousa aos pássaros para os apanhar". Por isso é que te eu digo que… Mas eu nunca nunca fiz. Mas Mas [pausa] falávamos assim uns com os ou- os outros. Mas eu nunca fiz. audio/CTL20.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Agarra-lhe no cabedal. Agarra [vocalização] audio/CTL21.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) [vocalização] É tudo com ervas. audio/CTL22.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Agora é Agora é a televisão que anuncia. audio/CTL23.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Nem todas as pessoas faziam. audio/CTL24.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) [vocalização] Sim senhor, sim senhor. Obrigava a miséria. No teu tempo, tu tens razão, que não; mas no nosso, [pausa] fazíamos tudo. audio/CTL25.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) É a que nasce. Aqui, já se não semeia. Estes campos já não são de [pausa] de semear. audio/CTL26.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Acho melhor. Antes que me queime as pernas. audio/CTL27.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Mas, para sim, para desempatar número um, a minha senhora [pausa] desempatou o número quatro, quando é que tinha [vocalização] a filha dezoito anos, a que está a mais velha. audio/CTL28.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Sim senhor. audio/CTL29.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Ponha ali. audio/CTL30.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) E foi onde eu comecei a minha vida. audio/CTL31.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Era, era. audio/CTL32.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Depo- Depois de fazer aquele desmancho, ainda teve sorte. audio/CTL33.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) E depois [vocalização], ela decerto ia, pois. Elas faziam-lhe aquel- aquela… Elas faziam-lhe aquilo é porque se ia embora. audio/CTL34.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Não. Nós chamávamos-lhe a mosca das vacas. Mas aquela aqui às casas não vem. Aquelas só anda onde ao gado. audio/CTL35.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Agora, já não há. audio/CTL36.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Só o da batata. Por qualquer coisa, até se chama [pausa] a uma pessoa que seja muito, muito, quer-se dizer, muito aborrecida, diz-se-lhe: "Pareces o escaravelho da batata". Porque ele, a gente está sempre a deitar o deitar-lhe o veneno e ele sempre a aparecer! audio/CTL37.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) [pausa] Haver, havia assim essas conversas. [vocalização] Eu nunca vi. audio/CTL38.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Valha-me Deus! Ora Ora, eu arrecadei as ovelhas às quatro, por via de ver se via o homem. Não o vi. audio/CTL39.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) É, é. E então, ao estar ali o [pausa] o sol mais [vocalização] mais ou menos a prumo daquilo, diziam: "Ah! Há que ir comer. Deve ser meio-dia". audio/CTL40.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Nevoeiro. Quando é o [vocalização] questão de estar Quando é o [vocalização] que estando, está fechado, que está [pausa] tudo escuro, que se não vê [pausa] daqui para para ali para a estrada, chamamos-lhe nevoeiro. audio/CTL41.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Noventa e se-. E quer-se dizer, e lia! Aparecia com o livro à porta: [pausa] "Que queres? Aqui não há tia Aldina nem tio Aldino. Vai-te embora". Ela bem percebia que eu que ia à procura deles. audio/CTL42.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) O tal buraco, que é o buraco que diz que era onde estava a santa, diziam os antigos. [pausa] E diziam que era, então [vocalização]… Está a cobra; está o lagarto… E diziam que era a cobra e o lagarto que queriam chegar lá, mas que não conseguiam. Por milagre da santa, que não conseguira conseguiram. audio/CTL43.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) "Senhor [vocalização] Professor, agora vou falar eu. Olhe, Senhor Professor, eu nem vou dizer ao contrário [pausa] ao que disse. Mas só vou dizer uma coisa. O senhor podia ter dormido as noites todas, sabe? Podia ter manda- dormido as noites todas; e e mandava o cavalo [vocalização]; e, e e ficava tudo arrumado, Senhor Professor". "Que diz, senhor Alfredo, tal"?… "[vocalização] Ó Senhor Professor, ó filho, isso não vai a lado nenhum, Senhor Professor. Isso não vai a lado nenhum, Senhor Professor. O senhor anda-se a armar em enfermeiro, anda-se a armar [pausa] em doutor, mas não é. Os doutores são estes senhores e é quem tem que frequentar aqui isto". Que ele era regedor, naquele tempo, e era era [vocalização]… "E mais nada, Senhor Professor". E o professor [pausa] calou [pausa] diante deles. Estava-lhe a vender o peixe, mas, claro, estava ele ali, que ele, ele ele aparecia sempre. É claro… audio/CTL44.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Eu já lhe contei essa história [pausa] de que eu, [pausa] claro… [pausa] Deu-me liberdade. [pausa] Que eu não sou contra… Eu detesto aquelas pessoas que trabalham e não se lhe paga o d- o valor delas. Detesto aquela pessoa que, que lhe que lhe fuja com o valor a quem o tem. Aquele que trabalha tem que ganhar. Mas o caso que é é que aquele que não trabalha, aí é que está o diabo! Comigo já já a raça era assim toda. E então, a minha mãe falecida, quando me viu lá de certa maneira, que eu estava preparado para ir para a França, diz: "Nos- Nosso filho, a única coisa que se lhe dá é liberdade. Ele que determine os negócios dele como entender". [pausa] Nunca me arrependi. audio/CTL45.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Todas as árvores que que se lhe não corta têm-na. audio/CTL46.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Agora esta não Desde que tive esta, nunca mais se lhe pôs barro. audio/CTL47.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Com torrões. audio/CTL48.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Eh! Como ele vai haver? Ele não tem chovido nada. Mas diziam-nos os antigos, diziam assim: se- ainda se que não chova em todo o ano, se chover em Abril e Maio, que chegava bem. audio/CTL49.mp3 Castro Laboreiro (Melgaço, Viana do Castelo) Lá vai ao milho. Ela Ele queria-se fazer de grande. Pensava que a rapariga que estava à espera dele, mas ela disse-lhe como era. audio/PFT01.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) um tal pião, que era para apanhar os milhos. Está a compreender? audio/PFT02.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) E o javali, é o milhão e as batatas. Os passarinhos é o milho, é tudo. Isto é uma miséria. audio/PFT03.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) É. As sobras desta água. As sobras da água de que a gente [pausa] deixaria de, de, de, de [pausa] de gastar. Porque daqui era donde a população Desde lá de cima donde vocês me enc- donde vocês me encontraram, a água ia toda lá para cima, [pausa] à cabeça, [pausa] das mulheres. Porque elas eram a que ti-, a que, a que tinham a [pausa] a que tinham a preocupação de ter a água em casa. O banho, [vocalização] a gente viria aqui, ou então tiraria [pausa] a água [pausa] nos poços e deixaria-as nos tanques – como há por aí muito tanque, por aí – e então a gente vinha cá tomar banho. Porque não havia banho de chuveiro, com luxo como hoje, com água quente, como nós temos. Quer dizer, houve uma transfor- uma transformação muito grande. Portanto, isto [pausa] são as sobras que esta, que esta, que esta [pausa] deste nascente. O nascente nasce ali, [pausa] ali naquele canto. Isto agora está sujo porque [pausa] como eu [vocalização] como acabei de dizer, não é preciso. audio/PFT04.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Numa tábua. Eu aqui tenho então é para fazer o linho. audio/PFT05.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Durante a época, faz [vocalização] sete renovas. audio/PFT06.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Não sei. [vocalização] Eu sei orações, quando me deito e quando me [pausa] levanto e assim. audio/PFT07.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Mas não é, não é assim que me pedem. Eles pedem um conto, uma comparação: Fundões. De que é que foi gerado, de que é que veio este nome? Era uma Era uma fundição. Acho que era uma fundição de ferro, mas quem é que sabe? audio/PFT08.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Amassar o pão, para ele ir para o forno. E [vocalização] depois só se deixa de se amassar, desde que ficaram [pausa] as mãos limpas. Tem que ficar as mãos as mãos limpas. Não pode ficar a m- a massa agarrada às mãos. Depois então é que se apanha, apanha-se e vai-se fazendo assim, aprainando, aprainando, pa- bota-se para cima, aprainando, depois vira-se daqui para ali, daqui para acolá, e depois cobre-se bem cobertinha com um lençol já próprio para cobrir o pão, um cobertor ou uma manta, por cima, depois quando ele começa de abrir assim uns g- uns gricheirinhos, assim, e se e que está a abrir, a gente trata de tender. Depois, pesa-se [vocalização] – tem a gente ali a balança – pesa-se e põe-se assim, por ci- por exemplo, por cima desta arca, é uma coisa maior, mas põe-se assim aqui por cima, para pesar, só, e depois é que trata de se tender. Depois dá-se-lhe aquelas voltinhas, a gente vai daqui, vai dali, tumba, tumba, e depois [pausa] vira-se com o de baixo para cima, e depois vai a gente assim por a masseira adiante, fica assim aquele bolinho muito azado. Depois, a gente b- mete-o ao forno, tem que ter farinha na pá, porque senão, agarra na pá, e mete-se lá para o forno. audio/PFT09.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) [vocalização] O primeiro dente que me partiu foi a comer pão duro, em casa daquela mulher onde fomos ver o p- a pioca. [vocalização] Foi em casa da mãe dessa mulher. Meu dentinho, que eu até chorei por ele! O pão era muito duro, andávamos lá na malhada, eu ia cheia de fome, queria comer… Afinal fui a partir a côdea, o dente, trupa! Ora pronto! Fiquei eu desdentada! Agora os que tenho tive que os comprar. audio/PFT10.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Oh! Ia, varria, varria bem varrido. Depois, aquele bo-, aquele aquele [vocalização] [pausa] borralho, punha-o cá para a frente do forno. Quando acabasse de meter o pão ao forno, ia com o ranhão, botava assim para a frente do forno para pôr cor ao pão. Pu-, se ain- Se ain- o pão n- não tiver cor, não se podia pôr a porta. Depois que visse o pãozinho já com cor, fechava-se a porta, enquanto não estivesse [pausa] cozido. Depois, se estivesse cozido, a gente abria a porta, ia com a gancha, mexia-o dum lado para o outro, para não estar em cima d- sempre daquele lugar. Porque havia lugares, que havia que ele já estava [pausa] já [pausa] passado, havia lugares que estava quente e a gente mudava para lá. Depois tirava-se, pronto. audio/PFT11.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) É, iam. [vocalização] Eu também lá ia quando não tinha o forno, mas depois a, a a ladrona [pausa] roubava a massa da masseira e ia, botava aos ia botá-la aos porcos, à pia. E uma vez uma vez foram lá [vocalização] um cão [pausa] foram lá dar com um com um avental dela, não teve tempo de a levar para casa, e o cão agarrou na [pausa] naquele avental de, de fa- de massa e correu pelo povo fora. E depois foi um falatório. E depois a mim também me fez igual. E eu, está claro, um dia disse assim: "Ai, ó Almira, tu não te demores a ir para o forno que [vocalização] é preciso acarrar a água". Que ela, ela a [vocalização] ladrona, bota-se à… [vocalização] Se vou acarrar a água, tenho que ir buscá-la à fonte, e ela cá faz a fateixa. Ele estava a nevar, nevava muito, eles não puderam ir. Eu peguei e digo: "Bem". Depois dizia-me ela: "Vai buscar a água. Vai buscar a água, que é preciso. Vem outro freguês para cozer". Ela o que queria era que me eu desandasse. E eu fui. Quando vim, já estava a fateixa feita. Apareceram os meus filhos, o meu mais velho e a minha filha. E eu disse assim: "Raio vos parta. Ela a excomungada já fez a fateixa". Diz: "Ó minha mãe, não se aflija que eu vou dar com ela". Lá andámos debaixo da masseira, duma caixa grande, num pilheiro, onde ela tinha [pausa] para aí obra duma broa em cima, para trás do forno, e o meu filho lá foi dar com ela. Diz: "Ó minha mãe, aqui está". Depois eu [vocalização], está claro, andei, andei pela picueta. Depois fui lá para me tornar a cozer mas já [vocalização]: "Ai, eu não tenho vagar, ah não tenho vagar". "Então já enriqueceu com a com a massa que me roubou? Já enriqueceu"? "Ai menino Jesus perdoai-me, já que ela não me quer perdoar"! Digo: " [vocalização] Que te perdoe Deus ou o Diabo". Nunca mais! Depois digo: "Bem, tratem de me comprar um forno". Depois um senhor que mora ali nos Jorjais, ali à borda da estrada que [vocalização] até lhe chamam, é, era can-. É cantoneiro, o que é agora está reformado. Era de Amarante. Acho que é o que é o carteiro. É, é. Era de Amarante. E eu disse: "Ó senhor Aristipo, o senhor quando for a Amarante, traga-me um forno". Disse: "Trago, sim senhor. E trago um para o Freixo". Trouxe-me então o meu, e trouxe um para o Freixo. Olhe dei em o cozer foi. Nunca mais me roubou mais nada. audio/PFT12.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Era assim comprido, assim umas tábuas, assim. Era assim comprido. Depois por baixo uma tábua grande e depois dos lados umas tábuas assim, outra dali e depois assim no- nos cimas, assim umas tabuinhas. audio/PFT13.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Ah! Primeiro, pois chama-se [pausa] pessoal para pegar nos porcos. Mas é uma trabalheira. Eles, coitadinhos, a gente cria-os e depois vê-os vê-los assim morrer à violência; é triste. [vocalização] Eu, [vocalização] fugia! Eu não os queria ver [vocalização] ap- agarrar, coitadinhos. A gente [vocalização] chamava-os para o quintal: "Andai Anda cá, coitadinhos". Eles, então, deitavam-se ao pé da gente: "ah, ah, ah". A gent- A gente ranhava-os e eles então abriam as pernas. [vocalização] Quando eles vinham para os matarem, não era preciso andar atrás deles. Eu chamava só: "Pequerruchos, pequerruchos, pequerruchos". E eles então vinham para o quintal. Chegavam, [vocalização] mas os homens não estavam lá. Tinham que estar [pausa] que que ele os [vocalização] porcos não os vissem. [vocalização] Agarrava logo um numa perna, outro noutra, outro no rabo, outro na- [vocalização] nas orelhas – toca para cima do banco. Às vezes, ele até botava pouco sangue, porque aquilo era de súbito. E depois, com uns alguidares, a gente botava-lhe sal, um bocadinho de alho, folha de loureiro, uma es- uma espiguinha de centeio, que era para, para para o sangue [vocalização] tomar melhor. Depois a gente tinha já os potes da água a ferver; ia-se para cima, porque eles depois, [pausa] dês que estão os porcos [pausa] já mortos, [vocalização] tratam de de lavar um lado, não é? Quando o viram para o outro lado, tem que a gente vir com um prato de de sangue cozido [pausa] e uma, e uma garra- uma caneca de vinho e uns copos num prato, para eles comerem comer o bocado de sangue cozido e a pinga. Depois lavavam o out- Quando lavasse lavassem o outro lado, [pausa] tornavam a beber, [pausa] mas já não comiam sangue. Depois, ia-se pendurar, penduravam-se pendurava-se até [vocalização] alguns aqui, outros em baixo. Chegámos a matar aos quatro. audio/PFT14.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) [vocalização] Quando não são Se são gordos. Agora, quando são magrinhos, é só ma- é só carne magra. Mesmo até [vocalização] as bandas são magrinhas. Agora o sorr-, o o cerro é que é um bocadinho mais gordo, mas também tem magro. Nós temos sempre sorte com os porcos. audio/PFT15.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Está Anda com ele e [vocalização], depois, chega-as aqui a comer. Chega-as ali, onde ver vir que há pasto, que elas às vezes não vão. E ele vai, com o pau, e xaronda-as para [pausa] para onde há de comer, para elas virem vir fartas à noite. audio/PFT16.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Ah, antigamente vinham. [vocalização] Vinha um amolador… [vocalização] Já há muitos anos não vem. Trazia uma roda. Trazia lá uma coisa, lá punha, com a mão ali e com o pé, [pausa] ali com o pé. O homem depois fazia andar aquela roda e daí fazia andar a [pausa] o esmeril. Compunha muito as [vocalização] tesouras, as facas, [vocalização] as navalhas de barba e – já não me barbeio – compunha guarda-sóis. É. Vinha. Agora, já por aí não vem. Já há muitos anos, muitos. Já não vem nada. audio/PFT17.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Faziam ce- Oh, faziam [vocalização] cestas de duas asas, faziam de quatro asas, cestas pequeninas, grandes, para [pausa] as mulheres, as raparigas fazerem a fazer na meia. Faziam de [pausa] diversas madeiras, de cor… É. Faziam muito lindas. É umas madeiras que havia, ficavam amarelinhas. Eu tinha ele era um irmão, que trabalha de carpinteiro também era. [vocalização] Também em [vocalização] rapazito novo, quando andava com as ovelhas. Quando andava com as ovelhas no [pausa] por lá, tinha vagar… Fazia-se rocas para as mulheres fiarem fiar. [vocalização] A gente de primeiro não não estava a ver televisão. A gente agora [pausa] tem a televisão, passa o tempo na televisão. Antigamente as mulheres fiavam o linho, [vocalização] lã e [vocalização] [pausa] faziam serão a fazer fazerem n- na a meia, [pausa] outras [vocalização] botavam remendos às roupas, outras cosiam os meiotes. Hoje já nem cosem os meiotes! audio/PFT18.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) É um pássaro que é, é já me pôs bem medo. Eu estava [vocalização] acordada, até estava a rezar o terço. Tenho-o sempre também debaixo da cabeceirinha. Ó, vê ali? Ó. Estava a rezar o terço e ouvi assim uma coisa: uuuu turururururu. "Ai, que virá para aí"? Depois continuei a ouvir, mas só, só [pausa] só pia de noite. Põe muito medo, aquele ladrão. E depois eu digo: "Olha, é o pássaro-cabra". audio/PFT19.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) [vocalização] Jogar a a reca. Ag-, A- Agora é a porca, mas naquele tempo era é jogar a reca. "Ó fulano, vamos jogar a reca? Va- Vamos jogar o eixo"? O eixo [vocalização] era pôr-se assim… As meninas, quando eram pequeninas, também deviam fazer. Punham-se assim debruçadas e depois vai um a cavalo, depois vai outro e depois vai outra, vai outra, oh! audio/PFT20.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) E foi assim que arranjei [pausa] a metê-lo no Sanatório [pausa] Marítimo do Norte. Foi com o Doutor Adalfredo, de Alijó, e o Doutor… – parece-me que era Doutor Adelfo. Depois também já não tinha [pausa] – o quê? – um rim. Um Doutor que olhou também por o meu marido – parece-me que era Doutor Adelfo – era um Doutor be- até bem-parecido, forte, e tinha duas meninas. Uma vez ainda lhe levei [pausa] uma duzinha ou duas de ovos e a menina quis a cesta. E a mãe disse assim: "Olhe, minha senhora, a minha menina [vocalização] está a agr- a agradar uma cestinha" – que faziam os que estavam no a-, no nos hospitais, e depois fazem umas cestinhas muito arranjadinhas, pequeninas. "A menina queria a cestinha. Mas a Se a senhora pudesse deixar, preferia de que aos ovos". Eu disse assim: "Eu deixo a cesta e os ovos". E lá ficou. E ela ficou toda contente. audio/PFT21.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) ah, pois, o meu filho. Eu, eu queria ficar zangada com eles, ao menos uma temporada, mas o meu filho disse-me assim: "Ó mãe, a senhora tem que ficar contente com todos. Não se pode aí ficar raivoso. Deixe lá. Nós ficamos com a casa – que é esta casa, tenho lá em baixo outra –, nós ficamos com a casa e eles ficam com o resto das terras". Olhe que eu não fiquei nem com uma hortinha onde plantar uma couve. Ficaram eles com tudo. [pausa] E eu só fiquei com esta casa. Mas já fui eu [pausa] e os meus filhos quem a compusemos, que foi tudo abaixo, que era de paredes, como está aqui, de paredes, e aqui eram quartos de madeira. Está madeira debaixo deste quarto, desta casa. Ainda nem se queimou nem se utilizou. E os meus filhos E os meus filhos e o meu genro foram quem compuseram isto tudo. E pagámos a, a quem. Foi tudo composto, mas foi o que eu fiquei. E eles têm bons lameiros. Lameiro bom que [pausa] que lhe dá bons contos. [pausa] E assim. Mas depois aborreceu-se muito e depois ficou assim. Mas o meu filho pediu-me muito [pausa] para ficar contente: que não se podia andar raivoso. "Deixe lá, não vale a pena. Nós [pausa] não enriquecemos assim. Cada um tem de [vocalização] o ganhar onde estiver e [vocalização] deixe lá as terras. Não se importe". E não quis. E nós cá ficámos com isto. E pronto! E depois, ficámos contentes, que ele não quis que a gente ficasse zangada. audio/PFT22.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Porque eu tenho medo, [pausa] até de ir à vila! Olhe, fui lá tanta vez – [pausa] por a doença do meu homem e tudo, que tinha de ir por remédios e e de ir lá e [pausa] – e tanta vez fui e não tinha medo. Sabia-se onde ia, à- ali às farmácias. Agora – modifica tudo – está tudo modificado e aqui é uma coisa e ali é outra [pausa] e a gente também já não tem tino para saber [pausa] nada. Eu não tenho, não. Ah, tenho oitenta anos! [vocalização] Já irei para os noventa, sei lá! Mas, eu até me parece que não tenho tanto, que ainda sou criança. audio/PFT23.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Ainda. Pronto e foi assim. E os outros criei-os todos. Tinha uma irmã de dois, de dois aninhos, [pausa] e os outros todos por aí fora. audio/PFT24.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Eu por mim digo, se m- [vocalização] se me entrasse, como dizem que entra, o fim do mundo – eu, por mim, não devo lá chegar – mas que dizem que: "Queres [pausa] ser desta lei, ou queres aquela, ou queres a lei de Deus"?, eu preferia [pausa] que me matassem mas queria a lei de Deus, não queria cá… Então, ele a gente vai à igreja e vê o Nosso Senhor morto, crucificado. Viveu e morreu [pausa] por os pecadores e a gente [vocalização] não há-de querer essa lei? Eu quero, quero sim senhor. audio/PFT25.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) O cavalo ia a passar, ela puxou-a – [pausa] porque com o andamento do cavalo, passou a silva – e fez-lhe sangue – no cavalo, não foi nele. Mas ele ia transformado no cavalo… Pronto, ficou o príncipe ali de pé, ao pé de- [vocalização] ao pé dela. Olhou, e vem ela. Ora quanto ele não ficou satisfeito! Abraçou-se a ela, trouxe-a para casa [pausa] e casaram-se! audio/PFT26.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Elas estão direitas. Aqui, aqui não têm… Há lugares que as põem presas e assim, em certos lugares, mas aqui não. Aqui têm-nas no quinteiro e e mugem [pausa] para as tigelas e botam para a panela [pausa] e faz bem. E faz bons queijos, [pausa] também jeitosos. audio/PFT27.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Aqui há uns em Souto que são jeovás. E até foi o que me fez compôs esta casa. O Senhor Adrião, de Souto. E é jeová. Nunca foi [pausa] e depois [pausa] devotou-se a ser. E andou aqui nesta minha casa e tudo e [vocalização] e às vezes dizia-me assim. E eu ainda [pausa] falava com ele com confiança. M-, e eu Mas sei que ele é jeová. E há lá em Souto mais de quantos [pausa] jeovás. Deve ser. Há aí uns três ou quatro. E assim. E eu, [pausa] eu digo a verdade. Eu só não gosto daquela lei por uma coisa. O Ao mais, por as outras, eu [vocalização] tanto me dá de ser daquela como não ser. Agora, dizer eles… Que as senhoras também podem não saber, também são novas, também podem não saber. Mas eu [pausa] ouço dizer, de há muitos anos, [pausa] que [vocalização] Nossa Senhora só teve o um filho, e to- e foi tocado na testa. Que Nosso Senhor [vocalização] ped- falou-lhe para ser mãe – [pausa] de Nosso Senhor – e que não fazia mal nenhum, que ela não queria. Era uma mocinha nova e queria honra e vergonha, não é? Não queria ser casada. Assim como somos nós. Porque quem se casa, já se sabe o que o que atura com os maridos, não é? E Nossa Senhora não quis. E os jeovás dizem [pausa] que a Nossa Senhora – nisso é que eu não gosto que eles deles, por eles dizerem dizer isso – dizem que Nossa Senhora que teve mais do que um filho, que fez que fez como as outras mulheres. E eu isso não é que… Não tem padre nenhum, nem igreja nenhuma, nem livro nenhum de [pausa] católico, de religião, que diga que Nossa Senhora [pausa] que foi como nós fazemos com os nossos homens. Casamo-nos para dormir com eles e fazer os amanhos que eles querem fazer, não é? Sim, as senhoras são meninas, [pausa] deverão ser. audio/PFT28.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) O meu homem esteve doentinho tantos anos, tantos, tantos, tantos e eu não andei em bruxedos, nem em lado nenhum, porque ninguém o curava. Ainda fui a Porto de Rio com ele e bem ainda gastei. E [vocalização] E lá, havia lá uma mulher, que ela veio do Brasil, e diz que curava tudo; e meteu-lhe as mãos ao meu marido, que ele era da espinha – tinha um colete de gesso um colete de gesso – [pausa] e ela meteu-lhe aqui as mãos, por aqui, e queria que lhe eu tirasse o colete. Digo: "Não, não tiro que senão depois tenho de ir a C-". Foi a Coimbra [pausa] duas vezes botar o colete [pausa] de gesso, porque a doença era na espinha. E [vocalização] e ela tinha Ela metia-lhe a mão por ali: " [vocalização] A senhora tem que lhe tirar este colete. Se lhe lho não tira, não cura". Digo: "Não, o colete não lhe tiro. Porque senão tenho de lhe ir botar outro". Que depois ele não podia andar. E [vocalização]: "Ah, não têm tem fé". E pronto. E Eu vim-me embora com ele. Viemos embora. audio/PFT29.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Porque era era, era um [vocalização] [pausa] uma paixão ver depois assim uma menina, toda a vida, marrequinha – que chamam-lhe marrecos, não é? E assim aleijadinhos. Era uma tristeza, não era? Então aconteceu-me a mim. Aconteceu, aconteceu. audio/PFT30.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Não dava aqui a volta para entrar. Depois tivemos de o levar para a capela. O mais Mas já estava aqui deitadinho, e a mesinha posta, com com as toalhas que tenho, aí, nessa mala. Tenho essa mala cheia [pausa] delas. audio/PFT31.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Digo esta oração toda no meio de cada mistério, a rezar o terço, à noite, quando se vai à [pausa] casa do morto e reza-se por a- por aquela pessoa e digo esta oração cinco vezes. Em cada mistério sua sua vez. E muitos não dizem nada disso, não a sabem. Nem a rir. Foi uma mulher, que esteve a servir em ca- em casa duns padres [pausa] e – mulher é de Maçada até – e depois aprendeu e ensinou-ma. E eu escrevi-a num papelinho e aprendi-a. Depois, durante esse tempo todo, eu era que ia rezar a casa dos mortos quando morriam. Mas agora, [pausa] já não [vocalização] podia. Tinha medo de me equivocar. Porque a gente Olhe, viu agora que [pausa] que que eu já ia a dizer e já [pausa] parei? Que [pausa] a gente fica equivocada, e depois está muita gente, e [vocalização] não tinha, já não tinha cabeça. Só sendo muito, muito, muito, por muita necessidade, ao mais já não já não vou fazer nada dessas coisas. E agora muita gente já nem quer [pausa] que estejam ao pé dos mortos e a rezar. Não quer estar a rezar. Depois a gente, está assim a gente, a casa cheia de gente, não é, e os donos bem gostam [pausa] que rezem. Mas eles não gostam de estar a rezar, querem mas é estar a rir-se e a conversar. [vocalização] As senhoras bem devem saber, que é assim por lá, mas primeiro aqui era assim. audio/PFT32.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) É. Isso não sei dizer. Não sei dizer, que nunca… Nem nunca procurei nada disso, mas dizem assim, tem gente… Mas primeiro, até se dizia que, primeiro, que havia mais essas coisas. E até assim bruxas, que andavam be- nos rios e [pausa] e assim. Agora, já nem se fala quase nada nessas coisas. Digo eu, não sei. audio/PFT33.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Andam a jogar a [vocalização] , a jogar o quê? A cabra-cega. Eu não sei a que é que jogam, essas coisas, para aí! [vocalização] Eu [pausa] nunca usei muito isso. Que é como já lhe acabei de dizer: logo desde nova, pequenina, eu fui servir e depois vim, vim para para a minha vida, nunca andei como [vocalização] andam agora, nunca tive esses vagares. audio/PFT34.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Era u- uma corrente mas tinha a coisa para não aleijar, para não partir partirem a- as pernas e e coiso. audio/PFT35.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Madorros. audio/PFT36.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Só com eles é qu-. Também sego sem eles, mas não faço nada. Nem fazia. Aq- Aquilo é de proteger mas também… [pausa] Eu se for segar sem eles, parece que é a palha muito amorosa, parece que eu não a agarro bem. Fui habituado desde criança com aquilo. audio/PFT37.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Cheguei. Oh, ia além arranjá-los e e coisa. audio/PFT38.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Fica. Bom, AB|po– às vezes pode só [pausa] estar dois dias. Mas também pode estar três ou quatro. Ele tem que dar a prova. Bem, há muitos que o vindimam que o [pausa] que o metem para as pipas até de sete graus. Mas eu não gosto. Eu, eu gosto de o meter azedo. Eu, cá no quando o meu vinho, quando entra para o lagar está sempre a cinco, quando acaba do lagar está para aí a um ou dois, só. Primeiro, a gente [pausa] metia-o assim cedo e [vocalização] ficava assim, parece que adocicado, [pausa] e o vinho nunca se aguentava. E o vinho quer entrar, para ele ficar bom e coiso. audio/PFT39.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Bem, alguns dizem. Não, nós aqui não. Ele aqui é passar o vinho a limpo. Ou engarrafar ou passar a limpo. Quando a gente di- Como agora, vou ter uma pipa dele engarrafado, agora tenho lá outra [pausa] que eu não tenho garrafões para o meter, lavo a- as outras e passo para ela. É passado a limpo. audio/PFT40.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Era, é. Quando ardia era, era aí, a gente, [pausa] a gente fazia só aquilo de [vocalização] mais de Inverno. Que a gente botava, daqui lá para aquele cabeço, arrimava para lá com ele, era um calor! Então aquilo faz Até aquilo faça… Carago! Era um brasume brasão que… Depois ia aquilo e aquilo coiso. Depois a gente tinha um pau comprido, [vocalização] ranhava aquilo, vinham os grandes vinham vindo para cima, não é, e o carvão queimado ia descendo para baixo e o outro [pausa] vinha vindo para cima. [vocalização] Ainda há aí uma rapaziada aqui [pausa] que já me tem dito: " [vocalização] Temos que ir fazer um bocado de carvão". Porque [pausa] a forja é uma coisa, [pausa] a forj-, [pausa] é u- a forja é uma coisa que [vocalização] que dá muito jeito. audio/PFT41.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) E daqui amanhã, ainda mais [vocalização] há-de dar, porque isto, o povo agora foge todo, [pausa] mas deixe que [vocalização] em a ceia [pausa] sendo tudo toda igual, você há-de ver muitos que hão-de vir para cá. Isto ainda vai ser tudo granjeado. audio/PFT42.mp3 Perafita (Alijó, Vila Real) Há aqui um regato, conforme vai estes ribeirozitos. E havia ali, também – que é tudo em la- [vocalização] tudo em lameira – carvalhadas e e coiso. E havia, ao longo do ribeiro, por aí fora, vindo por aí acima, também havia esses [vocalização] esses negrilhos. Mas olhe, ve- veio um [vocalização]… Não sei que doença isso foi… Ali para o lado de Murça, também me disseram [pausa] que a doença deu ne- nessas árvores, secou tudo. audio/AAL01.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Que faça mal. audio/AAL02.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Então, por exemplos, isto agora aqui, por exemplos, era uma terra que estava deserta, não é? A primeira coisa que a gente fazia nisto era agarrar numa máquina – agora, que dantes era tudo à mão do homem, não era? –; mas agarrar numa máquina e romper a terra, aí um metro de profundidade – está o senhor a compreender? –, um metro de profundidade. E Em depois, naquele ano, ficava assim. Quando era no, no segundo Que era para ver se deitava mais algumas ervas bravas, algumas coisas para, sim, para a terra ficar mansa, por completamente irrompida, assim barrada, como lhe chamam, não é?… E de forma que, depois, quando era para o ano, aí ao São Miguel, ao São Miguel, aí à em Fevereiro, agora neste tempo, mais ou menos, Fevereiro, Março, é que ele [pausa] ia outra máquina – outra máquina ou à mão [vocalização] – abria-se outra vala, tudo assim alinhado e [vocalização] plantava-se o o bacelo, como a gente lhe chama, o bacelo. O bacelo é aquela [pausa] par- aquela [vocalização], sim, aque- aquele coiso, [vocalização] aquela planta que [vocalização] que é brava, não é? É o produtor directo, como a gente lhe chama. Não é bem o produtor directo. É o americano. Chama-se-lhe americano. E de forma que depois aquilo é enxertado. Ao fim de dois anos ou até – algumas até dão enxertia logo naquele ano –, se elas agarrarem bem, quando é naquele ano, dão enxertias. E há também quem faça o seguinte: há quem [vocalização] quem faça a coisa, enxerta fo- fora parte e põe já tudo já em manso. Também há quem faça essa coisa. Mas eu encontro que aquilo em bravo que é melhor porque fica mais arreigado e é e a cepa dura mais tempo. Dura mais tempo porque fica logo mais… Sim, o bravo é mais resistente do que é o manso [pausa] e aguenta-se mais com a sede. Aguenta-se mais com tudo. E depois, como a raiz é brava e o, e a e a cepa é mansa, está a compreender, assim é que é que dá mais resultado. Pelo menos, aqui, faz-se isso assim. audio/AAL03.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Não, o vedonho é outra casta. A gente, os vedonhos, chama-lhe vedonhos à qualidade das parreiras, aquilo aqui no Alentejo. À qualidade das uvas é que a gente lhe chama vedonhos. Por exemplos, este é um vedonho, aquele é outro, assim como lhe a gente disse – não é? –, aqui. É aqui o estilo aqui do coiso. E é, e aque- E aquela qualidade de vedonho – como a gente lhe chama – [vocalização] dá cachos, mesmo até sem ser enrolados. Me- Mesmo até os rebentos que rebentam rebentem pela cepa acima, [vocalização] dá cachos. [pausa] Ao passo que estes, e muitas outras qualidades, já não são assim. [pausa] Já são doutra maneira. Já não deitam tantos, não é? Alguns deitam cá mais acima; outros mais abaixo. É conforme as qualidades, não é? audio/AAL04.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois, pois. Sim, sim. audio/AAL05.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) E mesmo os potes para ferverem nunca podem ficar cheios. Fica só Um terço tem que ficar vazio – em vazio. Por exemplo, se o se o pote leva [vocalização] – chama-lhe a gente – um almude, é de vinte litros; se um pote leva dezoito, coze com doze, que é para em depois para ter coiso, para ferver e depois não en- para não entornar. Assim, quando em depois começa a cair é que a gente vai despejando de um para o outro – não é? – para ficar cheio. E depois, em estando as graínhas tudo no cimo e que esteja completamente cozido, como a gente lhe chama, a gente prova, não é? Quando [vocalização] já sabe a vinho, [vocalização] funde-se então com estes canudos. A gente tira, tira o vinho todo, e fica o bagaço. Que em depois o bagaço é que é que vai ali para o alambique e para fazer a [vocalização] para fazer a aguardente – que é o [vocalização] bagaço, como a gente lhe chama, a aguardente, não é? Nós, aqui, é aguardente; mas há quem lhe chame bagaço, não é? audio/AAL06.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Quinhentos e trinta escudos. audio/AAL07.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Por exemplos, se, se era mui- se a eira era muito grande e que havia muita égua, muito macho, muita mula, muita coisa para fazer aquilo e muito homem… Aquilo, por exemplos, aqueles lavradores grandes, era logo ali uma quantidade de carga – chamava-lhe a gente uma carga, uma carga são vinte molhos. [vocalização] Que aquilo era era tudo carregado era de, sim, fazia logo uma quantidade de, de de cargas. Mas, quando era assim pequeno, como a gente aqui tinha, [vocalização] a gente, era aí quatro cargas de cada vez era como a gente fazia, sempre quatro cargas. Nós, aqui, era sempre aí quatro cargas era o que a gente debulhava. audio/AAL08.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Uma manada que tivesse um [vocalização] negalho. Eu chamo-lhe com um negalho enrolado. Chamava-lhe a gente um negalho. audio/AAL09.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) O O negalho era só para, só em, a coisa que tinha só a utilidade que tinha era para não deixar espalhar com o vento e aumentava a paveia ou a a manada. Porque, se a gente começasse [pausa] a ceifar [pausa] e [vocalização] que não fizesse aquele negalho, não era capaz de apanhar tanto com um coiso. E de forma que com quando a gente tinha a mão cheia já – o feixe da mão cheia – atava-lhe o negalho. E em depois segurava com estes dois dedos de cima; e estes de baixo apanhavam mais pão. Está a compreender? Que até usavam umas dedeiras de propósito para [vocalização], para para ser mais comprido para. À uma para não cortar [pausa] os dedos e à outra para descer mais comprido do do que os dedos, para apanhar mais m-, m- – sim, para a manada ser maior, não é? audio/AAL10.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Até outras vezes, dentro de sacos, não é? Aquilo também se enchia. Também se enchia sacos e punham. Nós cá, por acaso, cá no tempo dos meus pais, era tudo cheio de sacos. Sacos grandes! Punha-se aquilo; havia uns sacos mesmo grandes que levavam aí… [pausa] Muito! Levavam aí seiscentos quilos ou mais. E de forma que a gente punha aquilo assim à roda das paredes e enchia-se aquela coisa. audio/AAL11.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) As duas coisas conjun- conjuntas é que é o pio. audio/AAL12.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) É que se chamava ladrão. audio/AAL13.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) E depois, então, aquilo era lavrado [pausa] com charruas, assim [vocalização] puxadas até por duas ou três juntas de bois – charruas grandes [pausa] que havia aí assim. Isto há coisa duns [vocalização] à volta dum duns cem anos ou coisa assim que apareceram aquela, aque- aquelas charruas grandes. Foram as pare- Foram aqui para Castelo de Vide. Foram uns ingleses que trouxeram para cá aquilo, que eram os [vocalização] primeiros donos aqui do prado. Umas charruas muito grandes, puxadas por três juntas de bois, bois ou vacas [pausa] ou parelhas. audio/AAL14.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) E tenho ouvido falar até a mais pessoas. audio/AAL15.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. audio/AAL16.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Mas como como eu semeio de dois arcos, vou metade faço o arco mais pequeno, assim, ao contrário. Um vai assim e o outro, em depois, vai assim. audio/AAL17.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Era uma festa, não é? Alguns até Que isso era muito difícil de aparecer uma maçaroca mesmo roxa. Mas como havia já alguns que já tinham, assim já de há muito tempo – outros até as pintavam –, levavam aquilo no bolso e quando era der : "Olha que eu tenho uma roxa"! e tal e coiso – só para se agarrarem às cachopas a darem [vocalização] umas beijocas, umas coisas. audio/AAL18.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Não, não. [vocalização] Punham eles tudo. O que é que juntavam e não podiam amassar todos no mesmo dia. Ou no mesmo dia! Um hoje e outro amanhã! Aquilo o forno levava ali três ou quatro tabuleiros – não é? – até três ou quatro [pausa] fregueses, e de forma que juntavam e escolhiam, mais ou menos, a hora e o coiso e, que era para cozer tudo para não gastar tanta lenha. Por exemplos, uma [vocalização] fornada dava para lo- logo para todos. audio/AAL19.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) E de forma que… Agora, como é que é que se chamava aquilo, não, não não sei. Não. O nome daquilo não sei. Isso já foi já há tanto ano. audio/AAL20.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) [vocalização] Que ele, ainda hoje, há essa tradição, [pausa] cá. Nós [vocalização] Bem, nós cá, no tempo da minha mãe, quando nós éramos miúdos, era sempre as papas do dia dos Santos. Era sempre o almoço do dia dos Santos era papas. audio/AAL21.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) É boa! Mas olhe que eu, [pausa] eu tenho a impressão que que ele que havia ainda lá disso. audio/AAL22.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Para Para quem moer. Para quem mói. Vêm aqui buscar as azeitonas, levam para o lagar, e [vocalização] e em depois, metia-lhe metiam-lhe de maquia doze por cento. audio/AAL23.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Não, não. Aquilo, [vocalização] em sendo assim uma quantidade assim [vocalização] já grande [vocalização], é tudo. Aquilo chama-se uma prensada. Em dando para uma prensada, que leva à volta de quatrocentos quilos, já se pode [vocalização] já pode o indivíduo trazer o azeite dele. audio/AAL24.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Eles têm duas instalações. ag- [vocalização] Agora, em fazendem o resto das outras é que fica tudo ali junto, já. Fica já ali a garagem. Fica casa [pausa] para tudo, não é? audio/AAL25.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois, é capaz de ser. audio/AAL26.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. Não, mas este é assim pequenino. audio/AAL27.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. audio/AAL28.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Que ele enquanto não chega lá a tal enxadinha [vocalização] a cavar e a escolher aquilo tudo bem e a deitar para trás para se secar com o sol, [vocalização] cá para mim não vai. E isso custa muito dinheiro. audio/AAL29.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois, não tenciona vir para cá. Depois, tem que arrendar isto a outras pessoas. Isto os arrendamentos, [pausa] já se sabe, [pausa] que [vocalização] não há como as coisas estandem nas mãos dos donos, está a compreender? Porque este arrendamento meu, se estivesse na mão da dona estava pior, [pausa] sem dúvida nenhuma. Porque ela [vocalização] – e o espelho está lá em casa –, porque ela tem u- tem uma propriedade mesmo muito grande, que é uma herdade mesmo, e grande. Ela até tem duas herdades, uma até foi ocupada. Tinha tanto que até ocuparam uma. [pausa] E [vocalização] a outra está na mão do filho. E Que o filho é é lavrador [pausa] mas está muito longe. A vi- Ele, este ano, até que me comprou a vinha a mim, porque ele tem uma vinha [pausa] quatro ou cinco vezes maior do que a minha e não teve um cacho para comer, está a compreender? Já me encomendou vinho para para levar para casa. Já está a ver com- Já está a ver como aquilo está tratado. audio/AAL30.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. E depois já kuˈmɛsi começam já começa as árvores a rebentar; já começam vinhas e [vocalização] essa coisa toda; e a coisa, em depois, também já não… Tudo fora do tempo também não não é bom. É que à altura de chover, costuma-se a dizer que: "a inverno inverna do Natal nunca faltou", mas este ano faltou. Na altura do Natal, por exemplos, na no tempo da azeitona é quando pertence a chover. Porque o [vocalização] a azeitona é uma das coisas que: chove agora, e [vocalização], em estando bom, já se já se trabalha. E nas terras, não é assim. Se estiver agora uma semana a chover, duas semanas [pausa] e [vocalização] coisa, mesmo que alivie, já não é tão depressa que a gente mexe nas terras. audio/AAL31.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) aquilo é um aquilo é um cabo dos trabalhos. Logo a primeira, a [vocalização] gente chega ali Por exemplos, uma vinha é queimada hoje – com numa noite de geada, queima-se a vinha toda, como a minha se queimou há dois anos; foi toda queimada; aquilo ficou completamente destruído, está a compreender? –, mas se tiver, se, ao fim de quinze dias, começa a rebentar outra vez. E depois chegam cá o [vocalização] os indivíduos a ver – lá os técnicos –, a ver aquilo, vêem aquilo a rebentar, mas não dizem logo que [pausa] que aquilo que já nunca mais dá nada. É que as batatas e a vinha que se me queimou há dois anos, ela deitou muita rama ainda, mas o que é que já não deitou fruto – mesmo as batatas e tudo, está a compreender? E, depois chegam: "Ah, então o que é que você quer? Então, isto está tudo verdinho", está tudo assim, está tudo assado, e tal e coiso. Mas é que o fruto é que abalou, está a compreender? E portanto, ao fim e ao cabo, mesmo aqueles que há dois anos tinham as colheitas na no seguro, pouco lhe deram ou quase nada. Não deu quase para o trabalho de andarem com essa coisa. audio/AAL32.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Não sei quanto é a minha reforma. Não sei. audio/AAL33.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) é capaz de já dar qualquer coisa. audio/AAL34.mp3 Sapeira (Castelo de Vide, Portalegre) Está a ver? Ali num sítio daqueles! Parece impossível, mas com- mas ele aquilo lá foi feito [vocalização] e ninguém deu por isso. audio/AAL35.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Bem, e depois, [pausa] meu pai faleceu, tinha eu treze anos. E [vocalização] E então, daí, [vocalização] deu-se o caso [vocalização], é claro, arrumei-me então à arte. Digo assim: "Bem, isto já não dá nada o campo, também". Arrumei-me à arte. Trabalhava, então, ali numa quinta do prado, ali em baixo. Trabalhei ali, à roda dos vinte anos, lá. Fazia um biscatito assim nos domingos, cá em casa, mas o mais trabalhava ali, assim de jorna. E depois então acabei por pôr loja por minha conta, até à data de hoje. Faço [vocalização] cinquenta e sete [pausa] no dia quatorze de Junho. Portanto, enfim, cá estamos. E isto [vocalização] já se sabe. E então [vocalização], é claro, isto aqui é cla- apanha um meio muito grande – ainda é o que vale –, porque só o concelho [pausa] não me governava. Apanha então o concelho de Marvão, aqui o concelho de Portalegre e [vocalização] vêm nas camionetas, no- nos tractores e trazem o serviço aqui. E então [vocalização] aqui vou fazendo [pausa] aquilo que posso. O que não posso, é claro, [vocalização] digo logo que não posso; mas, enfim, cá se vai a gente andando. E [vocalização] E, enfim, é claro, os meus pais, coitados… É claro, naquela altura, no melhor, o meu pai faltou-me. E depois, nós éramos quatro irmãos [pausa] e [vocalização] ficámos só com minha mãe. E eu, como sendo o mais velho, é q- é que fui sempre o mais escravo. Mas, [vocalização] enfim, até à data de hoje não estou repeso. Tenho trabalhado muito; mas [vocalização] a gente, em tendo saúde, o trabalho não mata ninguém. Até ainda a gente anda melhor, não é? E é assim. O mais, pronto, [vocalização] é claro! Agora [vocalização], [vocalização] a questão de [vocalização], assim, de [vocalização] [pausa] disto das carroças tem um problema, por exemplo, a gente disto das ferragens… Eu tenho é agora uma umas rodas novas para fazer e as ferragens não há maneira de virem. Estou farto de apitar o mesmo que me fornecia para cá. Pois, às vezes, podia ser [vocalização] a falta de dinheiro, ou coisa, ou tal. Não senhora! Quer dizer, é aquela [vocalização] maneira dos tipos não, não se não se torcem. Quer-se dizer, em não sendo coisas assim de grandes quantidades, coisas pequenas não ligam. E em depois, pronto. Eu acabei. Não tinha [vocalização] aparelho de soldar. Não o tenho aqui porque a casita é muito pequenina. Tenho ali no no meu rés-do-chão, [pausa] e uma máquina onde estão, uma maquinetazita onde… Por exemplo, isto agora, [pausa] vou fazer umas portas – agora afracou aí um bocado o serviço e [vocalização] eu [vocalização] tomei esse compromisso –, umas portas aqui para um vizinho. E então, agora, é o que vou fazer, umas portas em castanho. E [vocalização] E assim se vai levando. Mas, quer dizer, na tal maquinazita, dá-me para aparelhar isto. Agora corto isto nos comprimentos e vou lá; aparelho; e, depois, aqui, é já só armá-lo. E então, é assim. Mas não tenho aqui. Não tenho aqui porque isto [vocalização] a casita é muito pequenina e, além disso, não é minha, porque [vocalização] a dona não não tem lucro nenhum [pausa] em ter isto [vocalização]… Ela já havia de ter vendido isto há mui- há muito tempo. Agora é que pôs aí os escritos [pausa] mas [vocalização] nem sei quanto elas pedem por isto. Aquilo não hão-de pedir pouco. E eu estou [pausa] Dentro da razão, quero eu ficar com ela. Mas se a casita fosse maior, eu, é claro, tinha aquelas maquinetas, tinha-as aqui e, enfim, aquilo, tinha tudo mais a jeito. Assim, tenho ali no meu rés-do-chão, enfim, para me safar. E então assim é que é a vida. audio/AAL36.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) E não estão a pagar aos outros. audio/AAL37.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Porque [vocalização] aquilo, é claro, as pessoas têm vantagem. Aquilo tem assim o animal… Tem vantagem por isto: quer dizer, para para fazer assim um rego, uma coisa, a charrua não é tão prático como, como como aquilo. E então, quer dizer, para limpar assim um rego ou emarjar assim terra para [pausa] para géneros, assim para feijão, para essas coisas assim, para milho, e então isto, dizem eles que dá resultado. audio/AAL38.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) O argolão O argolão é de ferro. Isto Isto é tudo em madeira. E [vocalização] então leva um argolão… Um argolão, suponhamos que é [vocalização] que é isto. audio/AAL39.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. E assim é que é. audio/AAL40.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Por exemplos, está está o limão. O limão é [vocalização], suponhamos, esta peça. Isto é o limão. Isto [pausa] é a taleira. E isto são as travessas. Leva quatro travessas. O O limão fica aí [vocalização] com um metro e [vocalização]… Sendo carro, fica com dois metros e vinte. E sendo carroça, fica com um metro e sessenta. É uma diferença muito grande. audio/AAL41.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Pois. audio/AAL42.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) [vocalização] O próprio eixo [pausa] das carretas essas antigas… Que eu lembro-me disso, ainda. Mal é, mas ainda me lembro. Ainda vi algumas três ou quatro carretas dessas aí a trabalhar. E então o eixo, por exemplo, era isto; suponhamos que era isto, o eixo. [vocalização] E então isto aqui é o o batente. O eixo vinha assim. Vinha assim. Vinha assim aspirado à ponta. Tudo em madeira. E então, quer dizer, era assim uma parte agu- aguda, mas aquilo era um madeiro [vocalização] enorme. E então, quer dizer, isto metia na roda. e E assim é que é, mas aquilo era um chiadeiro enorme. Quer dizer, era assim aspirado que era por causa de ter aqui grossura para se aguentar. Mas em depois, aquilo era [vocalização], é claro, era era preciso andar-lhe sempre a deitar toucinho. E [vocalização] até os [vocalização] os homenzitos trabalhavam com os carros [pausa] e diziam: " [vocalização] O amaldiçoado carro come mais [vocalização] toucinho do que eu"! E então os gajos, volta e meia, não se queria saber do chiadeiro: "Deixa chiar para aí, que o raio que partem o carro"! E assim é que era. audio/AAL43.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) E então fazem um furo [pausa] aqui no eixo. E então aquilo, então, fazem aquela chaveta que é para a segurança da, da da bucha. audio/AAL44.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) quer dizer… Até por acaso esta, eu que o que hei-de fazer é [vocalização] é tirar a [nome], que é porque [vocalização] a copa [pausa] voltou ao contrário. Porque esta copa, que tem o que tem para trás tem que vir para a frente. Tenho que a meter numa prensa que ali tenho, que [vocalização] aquilo até também é importante. Está ali [vocalização] [pausa] entalada, mas até, se fosse preciso, tirava-se. Leva uma É uma roda de ferro [pausa] que assenta em cima d- da burra. Em depois, vai esta roda para cima da roda de ferro. E vai em depois o fuso aquele. [pausa] Apanha aqui a burra. Depois aperta-lhe o fuso valente. E então a gaja [pausa] tem tem que vir. Tira-se então aqui [pausa] um bocado, aqui na circunferência da madeira, [pausa] que, é claro, ela, como vem para a frente, é claro… E depois [pausa] fecha, que é por causa deste bocado aqui, [pausa] que é para a para a roda tomar copa [pausa] para fora. Porque se não tirar este bocado, [pausa] quer dizer, se eu fosse a ferrar que não lhe tirasse este bocado, ainda era ainda ficava pior que o que está. audio/AAL45.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Chegam aí, coitados, à à rasca. Pronto, a pessoa sempre os desenrasca. Às vezes, com Olhe, até, por acaso, estive a acabar um serviço que é a carroça do Aleixo, que abalou há bocado – havia de ser aí umas dez horas. e [vocalização] E digo assim: "Então o tipo, daqui a nada, vem ver do serrote e não está"… Lá fui então a ver se, por causa dele, [pausa] de lhe ser agradável. Mas, é claro… Até porque é interessante: [vocalização] o homem nem tem carroça, nem coisa nenhuma; ele nem é cá freguês. Mas só para lhe ser agradável… Enfim, a gente costuma-se a dizer: "do bem vem tudo". audio/AAL46.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Passa-se-me cada uma também interessante. [vocalização] Chega-me aí um senhor [pausa] a rogar-me parafusos e fusos de carroça. Digo: "Olha, então isso está já agora por aí acabado. Como é que é"? Mas o senhor era tão delicado! Que era da da Ponte de Sôr. E o homem diz assim: " [vocalização] Oh diacho, então venho cá acima e nu- e o senhor não me fica com coisa nenhuma"? e tal. Digo-lhe Digo: "Ouça lá, então o senhor mande-me lá vir uma, uma uma caixa de de fusos", e tal. E diz o homem assim: "Sim senhora, isso é já". Bem, é já, mas aquilo veio mais depressa que o que eu julgava. Manda-me aquilo pelo Caminho de Ferro. Eu Uma caixa tão pequena! Mas nunca calculei que o homem que… E ainda fui ali algumas duas vezes à Central procurar por a, por por a encomenda – por a, por a, por a por a encomenda dos fusos. Afinal, dá-se o caso… E [vocalização] dizia-me assim o [vocalização] o homem da Central: "Não, não há lá nada, amigo Albino, não há lá nada". Não há Ele não há lá nada, mas havia! Paguei cento e setenta escudos de de estar lá uma coisa tão pequena, uma caixinha assim, de estar lá só, parece-me, cinco ou seis dias. Digo assim: "Olha [vocalização] já me abala. Jurei de nunca mais"! Com um ca- Têm custado a gastar. Eu vou-os gastando assim, agora… audio/AAL47.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Eu também acho. audio/AAL48.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Quer dizer, fica [pausa] carunchosa, uma coisa assim… E arde. Tira a resistência à madeira. Tira, exactamente, tira. Porque o o ar é que é que seca a madeira. O ar [pausa] é que é que seca a madeira. E então é assim. audio/AAL49.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Já nunca dá; o castanho nunca dá mais o bicho. audio/AAL50.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) para carregar aquelas grandes pedras, com as rodas assim… Olhe, ainda não há muito tempo que arranjei uma, [pausa] uma zorra, [pausa] ali para o para a Aline, é verdade, [pausa] com as rodas muito baixinhas. Digo: "És zorra e bem zorra". Então, pois! Ah, ah! Deu-me um trabalho aí a forrar as boas das rodas. Digo assim: "Eh pá, vocês com a falta… Muita zorra para ali há, ainda"! audio/AAL51.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Não há outro, se calhar. audio/AAL52.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) E então, pôs-lhe ele, um dia que esteve cá, e quando [vocalização]… Ele, mataram-no quando quando daqui abalou. Em Portalegre é que o mataram. Este. Esta estátua que que ali está. E pôs a isto Castelo de Vide. audio/AAL53.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) E [vocalização] diz assim o [pausa] então, o tal poeta: "Oiça cá, como é que é a sua graça"? – a sua graça, como era o seu nome. "Sou fraquelente", disse-lhe o tal carpinteiro. "Sou fraquelente". "Está bem. Então, ouça lá, ó senhor fraquelente, eu [pausa] vou-lhe [vocalização] aqui anotar o [vocalização] a pensar uns [vocalização] estudos [pausa] à sua vida". "Ah, faz favor", e tal. "E o senhor será capaz de me responder, depois de eu dar os meus ditos, as minhas palavras"? "Ah, isso é que não sabemos. Não sei como o senhor fala. Agora em o senhor falando, pode ser que eu lhe saiba responder". "Bom, então vamos experimentar", [pausa] o poeta dizia para o outro. E começou ele, então, o poeta – tome sentido agora: [vocalização] "O que faz um fraquelente [pausa] de roda deste madeiro, [pausa] empregando as tuas forças quase há um ano inteiro"? audio/AAL54.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) E depois, morreu a mãe. [pausa] Morrendo a mãe, ficaram os dois, [pausa] um que estava a casa do pai, do padrinho, e outro estava [pausa] a casa da, [pausa] da da mãe. A A rapariga é que estava a casa da mãe; o rapaz é que foi para casa do padrinho. E depois, pensou ele, pensaram eles os dois, depois que morreram [pausa] o pai deles os dois, o pai e a mãe, ajuntaram-se ajuntarem-se os dois irmãos. O outro veio lá de casa do padrinho – o [vocalização] padrinho também faleceu, de qualquer maneira –, ajuntaram-se os dois. [vocalização] Estandem juntos os dois, lá pensaram eles [pausa] a fazer o seguinte: a fazerem [pausa] um assinado, um, um um assinado à maneira de um testamento, um assinado qualquer, [pausa] para quando… Ele qualquer deles alguma vez havia de morrer. Ou um ou outro, não era? Até, por acaso, podia-se dar o caso de morrer morrerem no mesmo dia. Mas não, não se deu. Ora, não se dando, e morreu – e f- lá fizeram e foi lá fazerem a tal escritura [vocalização], assinada pelos dois –, morreu [pausa] a rapariga primeiro. [vocalização] Ele, com o desgosto, lá foi ao acompanhamento da, da da irmã e tal e tal. Mas ela ficou lá e ele voltou. Pois, que ele ainda estava vivo, voltou. audio/AAL55.mp3 Castelo de Vide (Castelo de Vide, Portalegre) Vamos embora aí [pausa] por esse mundo fora. Vamos embora, que isto, se ali vamos para a nossa vila, para a nossa terra, isso é aí um [vocalização] falatório medonho. audio/AAL56.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Também. Pois bem, é um, um abriu aquela coisa, além, num astro, mas [pausa] não teve força e ficou ficou no meio. Apagou-se lá em cima. audio/AAL57.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Têm Têm uns picozinhos. Pois bem, mas não, isso são isso são poucas; há poucas as que têm isso esse… audio/AAL58.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Pois. Há aí, pois Então, tem que há é que dizer que é a amora. É a amora que nasceu na ponta da silva. Deu a flor e depois deu a amora. E aquilo também se come. Ora, mas eu agora, ia lá agora pa- para as silvas! audio/AAL59.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) [vocalização] Será cego. Será assim que eu estou quase também, senhor. Eu também vejo muito mal! Eu, se soubesse ler, estas letras não era capaz de as ler. Não sei ler, mas se soubesse, isto não era não era para mim já. Já vejo muito mal. Não vê, é a idade, também já é muita, homem! Um homem em tendo setenta e quatro anos, ou [pausa] próximo dos setenta e cinco, já não há nada que não se lhe chegue. audio/AAL60.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Isso é um cachimbo. Usa-se pouco já isso agora. [pausa] Já se usa pouco. Mas isso não deve de fazer tanto mal como [vocalização] como a fumar o cigarro. audio/AAL61.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Ah, então isso é a descansar. Está a terra a descansar para depois dar um produto melhor. audio/AAL62.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Às vezes, até [vocalização] havia umas ervas do campo que a gente… Pois bem, a fome, às vezes era já muita, ia a gente… Chamam-lhe Chamavam-lhe pialhos, pialhos duma coisa , um… Também se conhece por erva azeda. Ia a gente, comia aquilo e roía aquilo. Chegava-se a um ervilhal aonde havia haviam ervilhas – conhece o que são as ervilhas? –, era [vocalização] colher e toca de comer. Grãos e tudo. Hoje – então pois hoje! – alguém alguém faz essas coisas? Isso hoje já não; já ninguém… Hoje já ninguém trata des- desse assunto. Ninguém, ninguém. Roubava-se muito. Desde que houvesse, por exemplo, uns figos ou uns cachos ou ou um, qualquer uns melões, umas melancias, roubava-se muito. Hoje, o pessoal não sei se anda mais abastecido e não não se frequenta qualquer coisa que se roube. Nem a uma vinha, nem a uns figos, nada; nada disso [pausa] frequenta já. E noutro tempo, não escapava nada. Aquilo era, desde que a pessoa pudesse, figos e [vocalização] cerejas. Ai eu! Ainda levei algumas sovas! Ainda levei algumas sovas, que apa- que me apanhavam [vocalização] às cerejas – doutra gente, está claro! Ora pois, tudo aquilo pertencia tudo ao mesmo, a haver fome. audio/AAL63.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) É g- É guardada. Isso é Fica também duns anos para os outros. Mas, quer dizer, em ficando duns anos para os outros, dá-lhe em dar um bichinho que lhe chamam a ponilha. Dá-lhe em dar aquele bichinho e a castanha parece que se põe assim um bocado [vocalização] descorada, põe-se assim um bocado diferente da cor que na- da cor natural. Pois e. Mas há aí [pausa] certa gente que sabem tratá-las. Quando é o fim dum ano, estão iguaizinhas às novas. Mas é preciso [vocalização] uns tratamentos. Os tratamentos é que não sei como são. Não sei o que lhe fazem. Mas fazem-lhe uns tratamentos quaisquer. Dão-lhe umas voltas, umas vezes para ali e depois para aqui. Dão-lhe aquelas voltinhas. Aquilo depois, por fim de tempos, por fim de um ano, rendem a mesma coisa que rendem as novas. E a vista é a mesma. Mas é preciso tratá-las. Se não as tratar, aquilo [pausa] levam caminho. Pois, assim é que é. audio/AAL64.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Estive a servir em dois patrões. De ambos os dois tinha cabras. E depois, estive num – foi onde estive primeiro –, primeiro, comecei a guardar os cochinos – porcos, com sua licença –, e depois passei a guardar cabras, mais tarde. E depois passei a trabalhar lá na casa: fazer serviço, tudo, a regar, a regar uma horta, [vocalização] ceifar, ceifar trigo… [vocalização] Topava àquilo que calhava; topava a tudo. E depois, dali mudei para outras. Estive então lá dois anos [pausa] a guardar cabras. E depois, no fim dos dois anos, saí; vim-me embora. Comecei então a trabalhar assim no campo. A minha vida tem sido assim de [pausa] limpeza de oliveiras… É o que eu tenho feito também mais é isso. Limpeza de oliveiras, podar; é o que tenho feito mais é isso. audio/AAL65.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Tinha a gente medo, não viesse a pessoal lá da, fug- que vinham fugidos, e que chegavam, por exemplo, aqui, ou que queriam mal ou queriam que a gente lhe desse [vocalização] [pausa] coito ou assim. E a gente [vocalização] não, pois bem, nem ninguém queria dar coito a essa gente. Pois claro, era [pausa] era também contra, naturalmente, cá o, à nossa [pausa] à nossa nação e em depois não. Mas houve aí eu vejo que muita gente ainda aí que fugiram aí para baixo. A gente ouve dizer que fugiram para aí. Não se sabe se era é nem se não. [vocalização] O mais, nunca a gente ouviu dizer, aqui assim… Nunca dizem mais nada, lá da guerra. Ouvia a gente dizer: "Hum, houve aqui houve aqui um combate, houve além, fizeram isto, fizeram aquilo". audio/AAL66.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Pois, era o tempo da pobreza. Pois. [vocalização] Então Foi só o contrabando que usei foi aquele. E foi pouco tempo. Foi aí só uma questão aí de dois meses, talvez. Pouco tempo. Ainda bem não, tiraram-nos os coiros, olha, acabou-se. Acabou-se o negócio. audio/AAL67.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Custa-me muito a andar que sou… Tenho uns defeitos. Sou quebrado, sabe? E depois, custa-me também assim a andar. E depois, dá a gente qualquer coisa ao correio [pausa] e o homem faz lá isto tudo muito muito bem, muito de boa vontade. É um correio, um homem muito fielzinho, [pausa] e faz lá estas coisas. Ora, mas isto, pouca gente lá vai, a Marvão. Ah, muitas vezes tratar assim de outras vidas quaisquer, de outras coisas, [pausa] lá vai. audio/AAL68.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Para sul, também. Mas isso já pertence ao c- ao concelho de Portalegre. Aqui São Julião. audio/AAL69.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Isso já são Já está o céu nublado. São nuvens: [vocalização] " [vocalização] Hoje Hoje há nuvens; hoje está o céu nublado". Ele aqui nem se diz nublado. Eu cito-lhe até a palavra que aqui se emprega: " nuvrado". O pessoal aí, o corrente é : "Ah, o céu hoje está nuvrado; [vocalização] hoje está nuvrado". audio/AAL70.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) A motor. A motor. Isso, à vela, [pausa] era raro que… Às vezes, assim nos domingos, é que se juntava por aí uma [pausa] uma rapaziada e metiam-se num barco à vela para irem comer uma caldeirada [pausa] à outra banda. Mas [vocalização] era quase sempre um [pausa] um vapor. audio/AAL71.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) E nas noites de temporal, quando [vocalização] chovia muito e que a ribeira tomava água, eles [vocalização] atiravam com os barris para a ribeira e a ribeira trututututu. E quando passavam, passavam [vocalização] ali às portas, o ao Aqueduto [pausa] das Águas Livres, não é? E a guarda [vocalização] não sabia se era o barril nem se era uma pedra que vinha a rebolar trazida pela enchente, por ali abaixo. audio/AAL72.mp3 Porto da Espada (Marvão, Portalegre) Tanta coisa, [pausa] tanta coisa que a gente viu. Depois Pois havia aí o Ferro de Engomar e eram Os Charquinhos e ele ainda havia um outro, [pausa] que eu não me recordo mas era… Parece-me que eram três [pausa] restaurantes. E era para ali que vinha a estúrdia… A estúrdia de Lisboa [pausa] era precisamente para esses, Quebra-Bilhas e companhia. Como é Ah, era o Ferro de Engomar. Havia um restaurante também ali em Benfica que era o Ferro de Engomar. audio/AAL73.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) Ora então, nós estávamos aqui em Portalegre e daqui [pausa] fomos para Lisboa. [pausa] [vocalização] Estivemos ali em Moscavide, à entrada de Lisboa, à espera que que aquilo houvesse a revolta, mas [pausa] não houve. Aquilo ficou assim, [pausa] sem efeito. Ficou sem fôlego. audio/AAL74.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) Cá no nosso sítio, é um andaval de vento é um, é um. Ainda esta noite, ele passou um grande a- [pausa] ar de vento. Não sei se foi [pausa] toda a gente que o ouviu, mas houve uma uma hora ou hora e meia que foi uma grande andaval de vento, esta noite. audio/AAL75.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) [vocalização] Coisas que eu não compreendo. Não compreendo isso por que é que lhe chamam, se é por ser muito antigo se é por, se por que é. É que Por isso é que eu não compreendo. Não lhe sei [pausa] fazer essa explicação [pausa] por que lhe chamam um arco-de-velha. audio/AAL76.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) [vocalização] O que põem ali para as pessoas não passarem umas por outras são balsas. São as balsas. audio/AAL77.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) Mas isso é o milhafre – [pausa] chama-se cá um milhafre – é que pára, aos bocadinhos. audio/AAL78.mp3 São Salvador de Aramenha (Marvão, Portalegre) Ah, a gente é o nome que lhe dá [vocalização] [pausa] é este. Mas há quem lhe [pausa] quem lhe dê outros nomes. Quando são pequeninos, isto é uma boa-nova. Dizem: "Olha uma boa-nova", quando são pequeninos. [vocalização] Em sendo grandes, é uma pousa-loura grande. audio/AAL79.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Ah, a gente compreende, pois. Isso Se A gente compreendemos ele bem. audio/AAL80.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Pois, uma estrela-boieira, que lhe chamam. audio/AAL81.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Pois, põe lá aqui ele põe lá ali este figo ao sol para que se ele seque. audio/AAL82.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Pois, essas é que são os malhõezinhos, que a gente lhe chama, não é? Sa- São malhões pequeninos [pausa] e os outros [vocalização] são malhões grandes. audio/AAL83.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Bem, cá [vocalização], o pastor em andando a guardar o [vocalização] as ovelhas, [vocalização] que lhe abalem para além umas poucas, diz assim: "Ah, já se atalharam as ovelhas". É um atalho. audio/AAL84.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Isso é uma esquiloa. Isso parece-me que lhe dizem uma esquiloa, isso do padre. audio/AAL85.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Uma pracela ou não sei quê, ou uma francela ou… Ele era qualquer coisa assim. A minha mãe toda a vida fez queijo. Mas eu já me não recordo. audio/AAL86.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) [vocalização] É, é É "ficáficáficáficá" [pausa] é que lhe chamam. E os porcos [pausa] sabem, não é? "Cá"! E vêm logo a correr para o pé da gente. audio/AAL87.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Do talho. audio/AAL88.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Isso agora [pausa] não lhe sei dizer. audio/AAL89.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Pois. audio/AAL90.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) "Feche a porta". Isso é a gente quando O meu [pausa] gaiato, quando entra ou que sai, por causa de não entrarem as moscas é que eu digo: "Fecha a porta". audio/AAL91.mp3 Alpalhão (Nisa, Portalegre) Não. As fronhas é as das travesseiras. audio/AAL92.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) E que mais? audio/AAL93.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) Ah, as três-marias parece-me [vocalização] ! É. É as três-marias! Eu já tenho ouvisto falar o que é que. É as três-marias, é. Então, mui- já tenho ouvisto dizer muitas vezes isso porque. audio/AAL94.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) Uma lapa. audio/AAL95.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) Há Há uma que faz mal ao gado [pausa] que não me lembra o nome dela. É É erva, é uma, uma É a tal erva, uma espécie de erva-dos-lagartos. Ele dão-lhe Ele dão-lhe outro nome – que faz muito mal [pausa] ao gado, que está às vezes no meio do feno, que eles até têm medo de gadanhar aquele feno – mas é que eu não me lembro do o nome dessa erva, agora. audio/AAL96.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) Não conheço. Nós aquilo é é o que vai-se buscar para esfrunhar. Aquilo [pausa] é o pau comprido, e tem a folha e tem a folha sobre, sobre quer dizer, larga, e depois aguça e depois tem um bico ao cimo da folha. Picam, vá. [vocalização] Aqui é só o esfrunhador, o esfrunhador. audio/AAL97.mp3 Nisa (Nisa, Portalegre) Por exemplo, o freixo. [vocalização] A faia também na- A faia, parece-me que essa também nasce. audio/PAL01.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Ora, é claro, isto é [pausa] o [vocalização] que se está a ver. Eu, pelo menos, vejo assim. Vejo que isto é mesmo da natureza. audio/PAL02.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Pois eu [pausa] – para te explicar melhor [pausa] – tinha aí alguns bocadinhos de terra [vocalização] e estava estava limpo. Nascia [pausa] as tais ervas que era úteis para os animais [pausa] [vocalização] e essas ervas desapareceram e assim, de repente, [pausa] a terra se tapou toda da tal erva. E então, diziam: "Ah, mas"… Dizendo eu: "E quem trouxe essas sementes para aqui"? Dizem outros: "Ah! [vocalização] Foram os ratos, trouxeram as sementes". Qual era o rato que trazia – assim como um bocado que eu tinha ali em baixo que já o vendi até, porque não me dava resultado – qual era o, o o rato que trazia, às costas, aqui [vocalização] dois ou três sacos [pausa] de sementes?! É mentira, não pode ser! Não há rato nenhum que faça uma coisa dessas! Só daqueles ratos [pausa] assim mai- maiorzinhos. Ora, é claro! Já se vê que aquelas coisas é [pausa] nascido mesmo pela natureza. Nasce aí num telhado, [pausa] nasce também aquela erva ali por uma rachazinha na na parede, [vocalização] [pausa] muitas coisas assim. Quem é que traz essa semente? Dizem eles: "Ah, foi o passarinho [pausa] que trouxe". Então no tempo que havia tantos passarinhos, [pausa] de todas as qualidades – que hoje [pausa] quase [pausa] que não há passarinhos; [pausa] só para aí desses pardais, aí, do telhado – nesse tempo não havia, [vocalização] o passarinho não trazia sementes. Ora, é claro. Outros [pausa] dizem que é do vento. Noutro tempo, fa- havia uns temporais mais fortes do que há agora – não traziam sementes daqui e dalém. Mas agora, [pausa] há umas terras [pausa] que ch- que se cultivavam [pausa] – ou que se cultivam ainda [pausa] ou ou que se cultivavam [pausa] muitos, muitos anos; e, então, não nascia umas certas ervas. Há aí uma [vocalização] uma moita, [pausa] que se chama [pausa] [vocalização] táguedas; [pausa] e, então, deixa-se de cultivar esse terreno um ano ou dois; assim, nasce todas aquelas moitas. Donde é que vieram essas moitas? Foi o vento que trouxe de aonde? [vocalização] A semente, trouxe de aonde? Foi o passarinho que trouxe dois ou três sacos daquilo no bico para…? Não! Qual é o passarinho que pode com uma coisa dessas? É mentira, pois é claro. Portanto, a natureza [pausa] é que forma isto tudo. audio/PAL03.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Por acaso tenho [pausa] um filho ali em Alcantarilha e que está lá uma horta – que era da mulher, é claro. E quando ele casou, [vocalização] foi [vocalização] eu [pausa] ia para lá e tratava daquilo. Mandei [pausa] charruar [pausa] um tractor [pausa] dois canteiros de terra – mais compridos do que isto, é claro e mais largos – [vocalização] que nunca era semeado de regadio, [pausa] era de sequeiro. [vocalização] E de maneira que [pausa] semeei lá uns nabos [pausa] e um [vocalização] e uns rabanetes [pausa] e [vocalização] e outras coisas mais – principalmente; [vocalização] não vale a pena estar a citar muita coisa. Semeei uns umas leiras de s- de rabanetes. [pausa] Precisamente, [vocalização] a estrema como o sol faz [vocalização] de sombra, assim [pausa] era, suponhamos, a leira do sequeiro [pausa] com [vocalização] a parte da das leiras que fiz [pausa] no regadio. E então, os rabanetes nasceram. Mas [pausa] não tinha [pausa] aonde é que se pusesse uma agulha que não picasse numa tal erva dessas que [vocalização] que eu digo que nasceu. Porque é que nasceu aqui, na leira, e na, e da e de fora da leira para além, a terra é limpa como tem estado sempre, há tantos anos? Mas como foi que nasceu? [vocalização] De aonde é que veio aquela erva, [pausa] a semente daquela erva, para nascer ali só [pausa] só na na parte da leira? Mas como? Mas [vocalização] como é que veio isso? audio/PAL04.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Uma daroeira. Ora, um homem [pausa] um empregado nas Finanças, um homem que que estuda, [vocalização] ou que estudou, para adquirir aquele [pausa] aquele lugar; [vocalização] e dizer [pausa] a um analfabeto, [pausa] dono da propriedade, [pausa] que ele que ficava bem com só aquela fa- árvore carregada de fruto – uma daroeira, com aquelas bagas. Ora, é cla-. Ora, isto [pausa] [vocalização] isto [pausa] é aqueles [pausa] que se estudaram. audio/PAL05.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E não querem, [pausa] e, e [pausa] e não quero ainda [vocalização] Eu, hoje, já não acerto já bem, que a minha cabeça já está já está fraca. Mas [vocalização] esses rapazes [pausa] que discutiam comigo – esses ga- esses estudantes – a propósito de muitas coisas, nunca me venceram. audio/PAL06.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Isto anda aqui no chapéu [pausa] porque para evitar o gripe, [pausa] para evitar a febre, [pausa] dores de cabeça, [pausa] todas essas coisas assim. [pausa] E as pessoas, como dizem que cheira mal, não querem saber nada disso. Não, não. Eu, para mim, cheira-me bem. audio/PAL07.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Ora, no outro dia, ia para ir [pausa] ir vê-la, chega logo o homem da [pausa] da agência, [pausa] que me veio participar [pausa] que ela que tinha morrido. E pronto. Em vendem a pessoa assim [pausa] ou com uma idade [pausa] ou, ou ou mal ou qualquer coisa, [pausa] uns têm consciência, outros não têm. Não é o doutor. audio/PAL08.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Os doutores, eles eles, os homens não são culpados. Os homens estudaram. [pausa] Mas eles [vocalização] os medicamentos, [pausa] vêm vêm os viajantes, vêm com as amostras e [vocalização] e, então, depois dali e tal, tal, isto é para isto, isto é para aquilo e é para aquilo e os homens, [pausa] sobre os dados que o doente dá, assim eles receitam. Mas receitam, não foram eles que fizeram os medicamentos, não são eles que fazem, [pausa] é o que está na farmácia. Será bom? Não sei. E depois, a gente aquilo falha: "Olhe, isso ponha de parte, agora vamos a experimentar isto". E vão à experimenta. [pausa] Pronto. [pausa] Os homens coitados não não têm culpa. Não se pode condenar o o doutor. audio/PAL09.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Pois, as pessoas vão com a moda [pausa] que vem além de longe. É porque aqui, antigamente, [vocalização] essa história do peixe, [vocalização] agora ouvíamos falar que em Lisboa [pausa] que as varinas apregoavam lá carapau [pausa] e aqui era charro. Agora, as mulheres, mesmo daquele charrinho [pausa] pequenino, assim, [pausa] também lhe dizem também lhe chamam carapau. E, então, charro já não se usa. audio/PAL10.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E então, [pausa] com um [vocalização] charruete, [pausa] com uns uns tirantes, uns animais a a puxar, aqui lavrava-se. Com uma, uma, uma Com um animal só. [vocalização] Agora, [pausa] com os tractores, [pausa] os tractores vão lavrar, [pausa] aquilo [pausa] prejudica [pausa] o arvoredo, [pausa] prejudica a terra. [pausa] Com o peso [pausa] do do tractor, acalca ali a terra. E andam com os ganchos a arranhar por cima e por baixo está mais acalcado que esta calçada. E [vocalização] o as raízes do arvoredo, [pausa] aquilo rebenta aquilo tudo. Portanto, [pausa] tudo para evitar de se gastar dinheiro. Por outro lado, [pausa] os pais [pausa] tinham, suponhamos, dois ou três filhos ou um ou fosse lá o que fosse, [vocalização] [pausa] o pai já estava cansado [pausa] e era os filhos que faziam esse serviço, [pausa] esse trabalho. Ou seja aceifar, ou seja todas essas coisas. Recolher, [pausa] recolher os produtos. E agora não. O filho criou-se, foi para a escola [pausa] e da escola [pausa] foi estudar para outra escola maior e depois empregou-se. audio/PAL11.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E de maneira… [pausa] Nem para eles, eles semeiam. [pausa] Nem para eles! Onde é que eles mesmo trabalhandem trabalhando, em ganhando o dinheiro, podiam semear alguma coisinha para eles. Enquanto comiam daquilo que eles recolhiam, [pausa] estavam a gozar daquilo. Mas não: "Eu, tenho muito dinheiro. Ah! Vou-me à praça com-, f- e é mais barato do que andar trabalhando e coiso e tal". E não querem. Já ninguém quer trabalhar. De maneira que os os campos estão todos abandonados. Ninguém já [vocalização] faz nada. audio/PAL12.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Toda a minha vida, [pausa] ouvi falar [pausa] que o mundo, [pausa] antes dos dois mil anos, que acabava. E muita gente diz: "Não acaba". Ele tem sido – da forma que eu tenho conhecido isto – todos os anos pior, todos os anos pior, todos os anos pior. E as coisas, como os profetas diziam, assim tem ido. [vocalização] Sim, tem-se ido tem-se ido [pausa] passando. [vocalização] E então, quer dizer, o mundo, [pausa] isto isto, isto não acaba. Mas isto não teve nem princípio nem fim. Mas quero dizer o seguinte: é de nossa vida – [pausa] bem, eu [pausa] penso nisto porque os outros [pausa] porque tenho ouvido dizer – a nossa vida acaba. [pausa] Ou seja em fome, ou seja em guerra, ou seja lá como for, acaba. E depois, o passar disto; e depois, vem outra geração [pausa] fazer vida novamente. É claro. E esta vida que nós estamos aqui, agora – que há mil e tantos anos, bem, que temos esta vida – virá outra [pausa] doutra família, doutra doutra geração, formar isto novamente. E isto vai-se aproximando. Tudo quanto os profetas disseram e escreveram, aquilo [pausa] tem tem-se aproximado tudo. audio/PAL13.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E aquela mulherzinha dizia: "Ai meninas! Isto [pausa] há-de vir esse tempo; há-de vir essa grande grandeza. E depois, quando estar tudo na maior grandeza, olhe que há-de vir tudo para baixo". Quer dizer, vir outra vez à miséria. Ele vai caminhando para isso. Pelo menos, os campos [vocalização] na- já não produzem nada, já não produzem nada. E is- A fome tem que vir. E de maneira: "Olhe, há-de vir tempo [pausa] que as mulheres [pausa] hão-de andar com os homens, como os galos andam com as galinhas". Realmente. E é assim. "Olhe, não há-de se conhecer os homens das mulheres"! Pois, muitas vezes, não se conhece. Vão aí, [vocalização] vêm [vocalização] quatro, cinco, seis, tudo com a me- com o mesmo fato. Não se sabe. E o cabelo curto de também [vocalização]. Não sei já qual é o macho nem qual é a fêmea. E, às vezes, anda aquele rebanho junto, e e, depois, às vezes, [vocalização] vão dormir pensandem que é que são todas fêmeas e há algum algum macho ali no meio! audio/PAL14.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Mas há aí um homem, que mora além daquele lado daquele serro, que me tem contado isto [vocalização] algumas vezes. E depois, um dia, ele estava-me contando isso e, depois, chegou a mulher e ele perguntou à mulher. A mulher confirmou [pausa] que, realmente, era verdade o que ele estava dizendo. Além, para São Bartolomeu, havia para lá um [vocalização] um lavrador, um proprietário, [vocalização] que tinha muito trigo [pausa] para ceifar. Ou andavam, iam Foram ceifar [pausa] o trigo naquele dia. E tinha – lá naquela herdade – tinha lá [pausa] uma casinha. [vocalização] E então, ele foi [pausa] e diz: "Ó moço, olhe, não se ceifa. Isto está o tempo aí de chuva, águas brandas. [vocalização] E, então, depois vamos atar o trigo, isto tudo molhado, depois isso amolece. Ah, não se ceifa"! Diz-lho [vocalização] Disseram eles assim: "Ó senhor Fulano, o melhor é a gente ceifar. Pode vir para aí alguma água [pausa] forte que, depois, deite o trigo abaixo. [pausa] E, depois de o trigo estar em baixo, é muito ma- é mais mau de ceifar [pausa] e pode prejudicar mais". "Eh, não. Isto, nem Deus nem o Diabo [pausa] leva nada daqui"! Disse ele esta palavra. Que eu não gosto de dizer esta palavra que eu disse. Eu não gosto de falar nesse nome. E de maneira, começa a chover, ele abrigou-se aqui no vão da porta. Veio o vento, levou o telhado. E ele ficou abri- aqui no vão da porta, entre as paredes, a- abrigado. Acabou de chover [pausa] e foi ele [pausa] ver o trigo. E vê A ver o trigo, que ele só só fazia assim. E ele não queria saber nem de igrejas, nem disto, nem [pausa] de coisa nenhuma. Não queria saber de nada. Andava [pausa] a ver o trigo e só fazia… A ver… A ver o trigo dele rasinho, tudo traçado, no chão e a seara dos vizinhos toda boa. "Ora esta"! Ele só abanava a cabeça, de ver os vizinhos tudo tudo bem e a dele tudo raso com a terra. Foi para ca-. Não disse nada. Foi para casa, mandou [pausa] a [vocalização] família [pausa] se ir vestir. "Mas para quê, homem"? "Vistam-se lá, vistam-se lá". [vocalização] Puseram-se a cavalo na carrinha, a [vocalização] cavalo da carrinha, sem saber para onde iam. E, depois, chegaram lá ao povo [pausa] de São Bartolomeu, volta a carrinha por o lado da igreja. E foram para a igreja. E a família, a mãe, o [vocalização] mari- ti a mulher e os filhos [vocalização] admirados [pausa] daquele trabalho. Ele não dizia nada. Se ele é vivo, ainda hoje diz que vai à igreja. Mas não deve de ser vivo. audio/PAL15.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Exacto. É, mas eu como não sei dizer, disse logo assim. audio/PAL16.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Rhum-rhum. E de maneira que, às vezes – lá, lá longe – aparece um [pausa] a falar natural, como fa- apareceu, aqui há anos, um fulano, Armelindo não sei o quê e falava natural, na televisão. E ele assim: "Ah, aquele fulano é aquele fulano é bruto"! "Então porquê, homem? Então o homem não está a falar bem"? "Não, pois então o homem está a falar para toda a gente perceber! Está a falar para toda a gente perceber, é bruto! Agora, aquele aquele que fala que não se percebe, esse é que é um homem inteligente"! "Ah, bom! Então o homem não está a falar bem? Então, já não os percebo eu [vocalização] é a vocês. Então, se [pausa] dizem que aquele [pausa] que fala [pausa] que não se percebe que é esse que sabe falar e agora aquele que está a falar bem, natural, para toda a gente perceber, dizem que fala bem também. Então, não sei. Não sei qual é que fala bem". audio/PAL17.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E depois, em tendo aquilo já mais ou menos aquilo, são eles que fazem e a gente : "Ora essa é, tinha que ser. Hum! E então aquilo"! E, então, começou o padre e esses dois rapazes: " [vocalização] Cooperar, cooperações, cooperar, cooperações". Não citaram mais palavras nenhuma. Não sei que reunião foi aquela. audio/PAL18.mp3 Porches (Lagoa, Faro) com a minha linguagem d-, com quem eu fui vivi; [vocalização] Sim, convivi co- tudo com pessoas atra- atrasadas, como dizem. Dizem que [pausa] que os antigos [pausa] que eram todos uns atrasadinhos. Mas, [pausa] por causa dos atrasa- dos atrasados, vou citar mais uma palavra. E, assim, vou vou indo, vou sempre dizendo. audio/PAL19.mp3 Porches (Lagoa, Faro) E eu, naquela conversa, naquela conversa, digo assim: "O quê? Vocês estão para aí a falar mas vocês não sabem o que dizem, homem". "Mas homem"… "Ouça lá, homem, explique-me lá isso: como é que as nuvens se formam para chover e como é que elas se desformam? Sim, o tempo está limpo, mas ago- formou-se aqui uma nuvem e [vocalização] foi, foi, foi, foi e choveu. Como foi que essa nuvem se formou? E como foi qu- que adquiriu água para chover"? Responde o tal, o ta- o tal fadista: "As nuvens [pausa] formam-se [pausa] e e chove com o bafo da nossa boca". Começa: "Ha, ha, ha, ha. E formam-se aquelas nuvens com a saliva. É as pingas de água". Digo eu: "Sim. É verdade. Acredito. Porque no dia da feira de Agosto, em Portimão, [pausa] o pessoal é muito; começa tudo a bafejar, a bafejar, com o calor e forma-se aquelas tempestades e aquelas tempestades e chove. E Como no Inverno, anda a gente – toda a gente – com o bafo encolhido, por isso não chove". E fui-me embora. Oh, pois é claro. Ora, é claro, se as nuvens se formam [pausa] e [vocalização] e vai, vai, vai e se dispersam. Às vezes, começo eu assim a olhar – formou-se, além, umas nuvenzinhas – começo eu a olhar , a olhar, a olhar, a olhar, a olhar e vai, vai: se umas, se é para se formar, vão-se f- formando maiorzinhas e outras vai, vai, vai, vai, vai, desfaz-se em vento e [vocalização] pff, ficou sem nada. Mas e-, sobre isto também eu tenho olhado para muito. Mesmo o céu está alto, mas o meu olho ainda [vocalização]… De maneira que eu não sei. Ora [vocalização], andandem na escola, [pausa] se é que o professor [pausa] onde é que, que eles com quem eles estudaram, se é que ensinou [pausa] aquilo [pausa] assim, [pausa] pois não tenho dúvida que é um professor inteligente. audio/PAL20.mp3 Porches (Lagoa, Faro) Porque é o seguinte, sabe, [vocalização] é porque há pessoas [vocalização] que dizem uma palavra [pausa] que não é próprio. Não é assim, [vocalização] não Não é bem assim. Houve uma falta de letras ou com letras a mais ou qualquer coisa, conforme o hábito de falar. [vocalização] E, nessa altura, há além um outro e repreende. E, às vezes, ele repreende ainda para mais mal. Mas, embora ele repreender para bem, também se po- admite-se, é claro. [vocalização] E, então, essa pessoa [pausa] parece-lhe mal: "Oh Dom, você sabe mais do que eu, ou isto ou aquilo ou aqueloutro". Parece-lhe mal. Eu não. Nunca me parece mal [pausa] se me repreenderem numa palavra que eu [pausa] proferisse mal. Porque eu Antes pelo contrário, agradeço. Porque se eu eu errei, ou, ou quer dizer, errei, não foi bem um erro. Foi porque [vocalização] não sei ler e, então, não disse a palavra… Muitas vezes convivido Nasci neste meiozinho pequeno, que até mesmo mesmo o professor que eu tinha aqui – e a professora, que tínhamos aqui, e, às vezes, a falarmos uns com os outros – também dava, às vezes, um pontapé [pausa] bastante grande. Embora falassem bem com [pausa] outras pessoas [vocalização] mais coiso mas a falarmos uns com os outros, muitas vezes, lá vai, com o hábito da convivência. [vocalização] E [vocalização] E então, [vocalização] é muito natural, a gente [vocalização], a convivermos com os outros aqui no campo [vocalização], pois a gente não sabe, muitas das vezes, quase nada. audio/PAL21.mp3 Alte (Loulé, Faro) E o marco, [pausa] para direito da linha, tem que se ver um outro. audio/PAL22.mp3 Alte (Loulé, Faro) Não. Vai-se pondo [pausa] um golpe aqui, outro golpe além; vai-se pondo, passo a passo. Por exemplo, não chega a um passo, vai-se pondo dentro do rego, quatro, cinco grãos ; quatro, cinco grãos e vai-se pondo. E depois volta-se para cá, vai-se pondo o guano. audio/PAL23.mp3 Alte (Loulé, Faro) Porque para albarda ou para [vocalização]… Seja um selim ou seja uma sela, é raro se ferir o animal. audio/PAL24.mp3 Alte (Loulé, Faro) saltar de lá para fora. E esses aí, da argola, são mais falsos. [pausa] Os da argola são mais falsos. A gente, às vezes, pendura. Fica às vezes pendurado, [pausa] se o animal é é bravo. Às vezes, dá mau resultado. Porque é ele que salta e, ali, não tem tempo de tirar os dois pés e lá fica um [pausa] pendurado. audio/PAL25.mp3 Alte (Loulé, Faro) Que era o mal da vaca era no entrefolho. audio/PAL26.mp3 Alte (Loulé, Faro) E leva alhos. audio/PAL27.mp3 Alte (Loulé, Faro) cheira logo. Mas a arrúdia então não é para comer, não é para coisa nenhuma. audio/PAL28.mp3 Alte (Loulé, Faro) Eu queria dizer [vocalização], eu ta- eu estava a ver, mas aqui não se semeia, não. audio/PAL29.mp3 Alte (Loulé, Faro) Era uma farelada. audio/PAL30.mp3 Alte (Loulé, Faro) Pois, a massa também está lêveda. O pão quando estando lêvedo, está a farinha, a [vocalização] a massa é mais leve. audio/PAL31.mp3 Alte (Loulé, Faro) Mas antigamente não. Antigamente, era o celeiro. Ali se juntava o grão, ali se juntava o trigo, ali se juntava o feijão, ali se juntava o milho, ali se juntava a cevada e ali se juntava tudo. audio/PAL32.mp3 Alte (Loulé, Faro) Pois, está claro. Que ela quando tendo de setenta centímetros de grosso, já se pode tirar a cortiça virgem. audio/PAL33.mp3 Alte (Loulé, Faro) É a mesma coisa. Porque [vocalização] É o azinho, porque a [vocalização] madeira [pausa] corta-se, já deixou de ser azinheira, passou a ser azinho. audio/PAL34.mp3 Alte (Loulé, Faro) Isso também eu sei que é sangri- que é sangrar. Agora, [pausa] lá como é que eles chamam, lá dão o nome no norte, não sei. É isso que a gente precisa de saber. audio/PAL35.mp3 Alte (Loulé, Faro) I- Isso que tu dizes também eu sei. Agora, o que a gente aqui estava a fa- a falar é: traçar o [vocalização] pé da árvore. Hoje, já têm um aparelho, a máquina, a serra eléctrica, que já não dá esse trabalho que dava antigamente. Antigamente, era com um serrote, um serrote de traçar, e [vocalização] ou então com uma machada. Com uma machada, com um machado! audio/PAL36.mp3 Alte (Loulé, Faro) para ser queimado, bem entendido, para respirar. Eu não sei ler, homem, mas porque eu… Falta-me o estudo. Eu tenho lá uma filha e um filho que gostava que eles andassem para a frente, que soubessem mais que a minha raça toda. Isso sempre eu desejo. audio/PAL37.mp3 Alte (Loulé, Faro) No Alentejo é que usam isso, aqui não. audio/PAL38.mp3 Alte (Loulé, Faro) No ninheiro é onde é que ela costuma a pôr. Costuma sempre a pôr no ninheiro. E outras nãotêm não têm lugar certo. audio/PAL39.mp3 Alte (Loulé, Faro) O peru? Isso era, isso é Isso era dentro da igreja [pausa] é que a gente comia, lá na na missa do galo. audio/CLC01.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Há aí uma canoazinha pequeninha [pausa] que ele ia sempre à à castanheta. Mas dá um trabalho! Um gajo ficava todo… Aí esse homem ficou [vocalização] paralítico disso. audio/CLC02.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Também, mor- [vocalização] olhe, moro moro longe também. audio/CLC03.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Às vezes, até tira-se e come-se [pausa] cru. audio/CLC04.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Eles aqui dá pouco valor. Eles dão pouco valor a este. audio/CLC05.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Chama-se gaivotas e chama-se gavinas. audio/CLC06.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Aqui não há. Há pouco, muito pouco. Eu agora vê-lo! Aquilo é mais nas Áfricas. Este também aqui [vocalização] não há. Aquilo Que é mais nas Áfricas. audio/CLC07.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Ah, bem! Era Eram branquinhos. audio/CLC08.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Ariosto. audio/CLC09.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Tinha que ir antes de a gente a gente deixando secar. A gente sente-se que está lá marcado [vocalização]… audio/CLC10.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) [vocalização] Dura Ele dura bastante tempo para ela, para, para a cavala. A cavala sendo gorda, [pausa] ela dá um ranço. Então, [pausa] para não dar esse ranço, ela está no frigorífico. audio/CLC11.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Quer dizer, [pausa] vieram [pausa] tive tive uma filha [pausa] que foi do tempo dele. [pausa] Mas [vocalização] ainda dei-lhe o estudo. [pausa] Paguei. [pausa] Paguei a uma professora particular [pausa] para lhe dar a escola. audio/CLC12.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Trabalhei para da- para dar a escola a eles. audio/CLC13.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Pois não há. audio/CLC14.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) É proibido por causa da malha. audio/CLC15.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Que era para A gente queria-se meter a mão na água para am- para amolecer – [pausa] para aquilo ficar m- mole – para a gente poder pegar no aparelho. audio/CLC16.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Po-, Es- Este é o alfonsinho. [pausa] Este é o alfonsinho. [pausa] Este é o largo; este é o estreito. [pausa] Há duas qualidades de alfonsinho, [pausa] está a compreender? Mas a gente chama-se o [vocalização] o estreito [pausa] e o largo. audio/CLC17.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Charuteiro. Matava-se dois, três. Diz também que não se matava esse peixe, também. E matava-se também meros , [pausa] também com esse peixe. audio/CLC18.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Está compreendendo a compreender? Mas não há cá muito. [pausa] Está a compreender? Sa- Sai da, do do mar para a rua [vocalização] quando o sol cresce. E aqui é o [vocalização] raro a gente mata- aqui é ra-. Nunca se vimos este peixe. audio/CLC19.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Não, não, não, não. Não há Não há disso desse. Não há disso desse. audio/CLC20.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Mas só menos dinheiro , que Nosso Senhor não deita dinheiro do [vocalização] . Isto Isto o dinheiro é para o João das Festas, é para o [vocalização] para o Cavaco Silva, para o Mário Soares, para r- ricos. Ele seja de dos ricos, [pausa] os pobres fica ficam sempre abaixo de zero. audio/CLC21.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Não há, não há, não há. audio/CLC22.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Tudo aranha. audio/CLC23.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Par-de-gatas. audio/CLC24.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Dá pequenino e dá grande. audio/CLC25.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) É o mesmo. audio/CLC26.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Chama-se a boca. audio/CLC27.mp3 Câmara de Lobos (Câmara de Lobos, Funchal) Aqui nos restaurantes tem. audio/CLC28.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Era com o arpão. Era trancada com o arpão. E depois era morta com a lança. Matava-se. Quando tinha-se [vocalização] uma média de [vocalização] quinhentos metros de corda, [pausa] e tinha-se [vocalização] as baleeiras [pausa] ali, quando a gente trancava trancava-as, a gente deitava bandeira, [pausa] para uma baleeira vir para o pé da gente. [pausa] Porque [vocalização] estava ocasiões que a baleia levava [vocalização] levava aquelas cordas todas. [pausa] E então, vinha a baleeira. [pausa] A gente passava a corda. Ela passava a corda da – da outra baleeira para a nossa. [pausa] Era encadeada na nossa na nossa corda. Quando ele acaba- levava as nossas linhas, já ficava presa para outra [pausa] – para outra embarcação. audio/CLC29.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Era o remo do do estalote. [pausa] O estalote. [pausa] E depois [vocalização] o arpoador [vocalização] largava o arpão, a su- o seu remo. Punha-se à proa. Botava no Botavam o arpão [pausa] pronto para quando chegar a [vocalização] ao o cachalote, trancar. audio/CLC30.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) a forquilha. audio/CLC31.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Pois. Sim, sim. A barba. Barba. audio/CLC32.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Pois. [pausa] É. [pausa] Elas [vocalização] Aquela mergulha. [pausa] Que a gente a visse elas ela fazer assim – torcia o rabo, esgarrou para ali –, a gente já via que ela estava mudando. [pausa] Já estava a mudar de rumo. [pausa] Estava a mudar para outro lado. audio/CLC33.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Sim senhor. audio/CLC34.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Isso é o [vocalização] é o que a gente chama – que mata-se muito cá – peixe-porco. audio/CLC35.mp3 Caniçal (Machico, Funchal) Come-se cá nada! A gente aqui não tem nada que aproveitar disso. [pausa] A gente [vocalização] o que o que aproveita é, quando ele se chega à borda, [pausa] matar e assoprar. E ele vai como um balão [pausa] em cima da água. audio/PST01.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Sim, isso é mergulhias, que isto este faz. Por exemplo, tem-se uma uma parreira que tem uma vara comprida; a gente leva-lhe ao chão rente ao troço, abre-se uma vala e ela vai nascer acolá. audio/PST02.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Sulfato em pó. [pausa] Baralhava-se no enxofre [pausa] e depois enxofrava-se. E não, e não apodrecia não apodrecia. Agora Agora é até ter lavagem e lavagem e lavagem lavares e lavares e lavares; olhe: apodrecem sempre cada vez mais. audio/PST03.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Isso é rabisca. Isso é para os miúdos a [vocalização] rabiscar. audio/PST04.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) pôr a corda à volta para tirar água-pé. E depois deita-se o bagaço fora. audio/PST05.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) A gente chama-se aquilo [vocalização], oh, [vocalização] é uns paus que a gente põe ali. audio/PST06.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) O pêlo era todo cortado, primeiro, para então depois começar a continuar a acartar vinho. audio/PST07.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Não faz falta que ela estava perdida. Se um dia ele não aproveitasse, a gente não sabia, eles não sabiam dela. audio/PST08.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) E é um lugar E é um lugar que dá [pausa] dá, [pausa] chovendo, não precisa regar. Dá mesmo sem regar. Mas é preciso chover. audio/PST09.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) a nossa vida. audio/PST10.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Sim senhor. audio/PST11.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Isso é que é o sarapatel. [pausa] É um jantar. audio/PST12.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Acaba tudo, tudo, tudo. audio/PST13.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Salgar. audio/PST14.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Estraga-se. audio/PST15.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Ah, muita gente bordava. Nem Nem tudo. Assim para noivos ou [vocalização] para coisa, nem toda a gente borda. Há gente que borda muito mal feito. Na casa de bordados, mais depressa passa mas, às vezes, ainda está certas casas que mandam trabalho para trás. [pausa] E agora praticamente já m- muitas casas fecharam. audio/PST16.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Ninguém quer trabalhar. audio/PST17.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Ah ant– Ah, antigamente cá, os poucos casais que havia, quase tudo tinha o seu forno. audio/PST18.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Depois minha mãe varria aquela coisa e deitava a cevada… audio/PST19.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) Se há formiga-branca neste Porto Santo! A gente sentia ela roer. A gente sentia elas roer. A esta porta deste lado, a parte esquerda, eu já nem lha podia abrir, porque se eu lha abrisse, ela ia trazer o aro consigo. Porque o aro estava só com aquela casquinha! Quem lha forcejasse para ela abrir lha abrir ou para ela fechar lha fechar, ela ia vir sempre. [vocalização] M- Missagras iam ia desapegar aquele pedaço do aro e ia vir sempre. Deu um trabalhão e [vocalização] ainda se ficou devendo [vocalização] [pausa] a tanta gente mas, agora, graças a Deus, já pagámos. audio/PST20.mp3 Camacha (Porto Santo, Funchal) é que faz o comer. audio/PST21.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) Meus irmãos todos nenhum tom-, ne- nenhum teve moinho senão só eu. audio/PST22.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) Por dentro, tem roda, tem carrete, tem moega. Olhe, a moega é esta. [pausa] Está caindo dentro da moenda. audio/PST23.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) O tempero era uma barrinha assim deste tamanho. [pausa] Depois, em baixo, [pausa] tinha u- uma agulha – a gente chamava-se a agulha – [pausa] que ia abaixo e tinha-se assim um pau atravessado – que a gente chamava-se [vocalização] [pausa] o pau da agulha – [pausa] e tinha um encaixezinho, que a agulha se assentava e quando a gente queria que a pedra levantasse ou arreasse, para o tempero da farinha, a gente tinha a tal barrinha – que era o que chamava-se o tempero de a abaixar ou altear. audio/PST24.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) Pois. audio/PST25.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) Não, obrigada. Tenho pena [pausa] – tenho pena! [pausa] – em não saber. Mas também agora?! audio/PST26.mp3 Tanque (Porto Santo, Funchal) Há de madeira e também havia em pedra [vocalização], metida no [vocalização] patamal, que a gente chama se chama lhe chama, [pausa] também havia, mas a maioria era tudo de escada de pau, [pausa] de madeira. audio/MST01.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Leva. [pausa] Mas eu até acho que ele que é por aí mais caro. audio/MST02.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) As pessoas de dantes, assim mais mais velhas, noutro tempo, é que costumavam. Mas agora não. audio/MST03.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) E é assim. audio/MST04.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Aqui diz-se azinagre. Praticamente n-, n- o nome dela é água ruça, que sai depois de sair de além. audio/MST05.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Pois. audio/MST06.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) De maneiras que isto tem tem mesmo tendência… A vida agrícola está muito mal má! audio/MST07.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Ele já cá está muito caro… Logo, logo Logo agora o adubo! Agora o adubo, nem [vocalização] a gente, nem que o queira comprar caro, aquilo nem aparece. audio/MST08.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) A relha é um pedaço de ferro. É um pedaço de ferro assim – é assim deste género – e que vai então por cima do do rabiço, enfia assim e a relha é que é que lavra. audio/MST09.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Pois. audio/MST10.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Então, quando o gado era bravo, para se amansar, era sempre . Punha-se o jugo porque antes que queiram fugir não podem. E a canga, podiam fugir, ou tirar a cabeça, ou partir um cangalho . Só partindo os chifres é que se safava. audio/MST11.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Porque Do que eu tecia. [vocalização] E depois mantas, farrapos, [pausa] algodão. audio/MST12.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Tudo logo assim . Se começa naquesta tem que se acabar sempre naquesta. audio/MST13.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Para a gente Para a gente aqui vir tecer nestes [nome] [vocalização] aqueles fios, [pausa] e para ver as casinhas todas como é de ma-. E a ver bem e a ver bem, volta e meia deixa uma sem nada, que até é muito raro [vocalização] de ver aquilo… São duas que entram… E quando a gente [pausa] acha uma sem nada – que se engana muita vez –, tem que partir u- uma ao meio. Fica já ali uma um bocadinho de ranhura no pano. Já não fica o pano tão bom! Mas [vocalização] tem que se tirar um de lado para se. Ou senão tem que se meter aqui. Faz a gente aquele fio que entre no carretel… [pausa] Pe- Pega no fio, e ata aqui no fio e ta- e mete-o aqui na- naquelas duas casinhas e leva aquele fio encomendado até ao fim. Vai o fio até ao fim da teia. Vai-se acrescentando o fio até que lá chega ao fim, para não fazer falta aqui no pano. Porque [pausa] qualquer ranhura [vocalização]… Eu pus aqui isto que era para tecer estes, estes estes tapetitos para fazer uma passadeira. audio/MST14.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) E aquilo foi nervos que. Com as penas e tal, foi nervoso nervos que lhe subiu à cabeça e ela [pausa] pôs-se muito mal. audio/MST15.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Era, era O dos bicos era o sedeiro. audio/MST16.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Bom, mas ele não foi nenhum. Mas eles r-, r- Aqui não está. Ele tem de estar nalgum lado. Eles de cá não abalaram, sem os levar levarem, não abalavam de cá. Vamos lá ver onde estão. Eles podem por aí estar. Mas aqui não estão. Que eu venho aqui para para ver as coisas do tear e não os encontro cá. audio/MST17.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Ainda compram a linhaça [vocalização] – linhaça, umas malvas [pausa] – para para quem sofre dos intestinos. Que até é muito bom! Mas para… muito Era muito aplicada a maça [vocalização]… Aquela linhaça, muito aplicada para as para as para as pneumonias de antigamente. Que ele Aquilo não havia injecções, não havia nada. Era só cu- Era só curada com os com os beberes barbeiros! [vocalização] Nós tínhamos que operar com procurar aquelas coisinhas todas . [pausa] Tinha muito préstimo, a linhaça. Então não tinha! audio/MST18.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Que eu gostava muito d- daquilo. Mas aquilo era uma roda grande [pausa] e aquilo era longe . [pausa] E aqui- [vocalização] e- [vocalização] Elas estavam além e a gente chegava estava aqui para trás, que [vocalização] aquele fio [vocalização] a tocar à roda , a tocar à roda e [vocalização] fia-se tanto linho. E depois eu tinha então um fuso também. [pausa] E aquele fuso enfiava… Aquele fuso ia enrodilhando enfiando aquela lã, enrodilhando enfiando aquela lã, fazia uma maçaroca grande. audio/MST19.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Ah, isso já há muitos anos. Já há muitos anos porque é como digo: então eu, eu já casei [vocalização]… Bom, eu ainda casei com no tempo de minha mãe. Mas [vocalização] já há muito tempo, já há muitos anos. Havia uma data de anos que tinham acabado com aquilo. Já lá vão talvez mais de [vocalização]… E eu já há cinquenta anos que estou casada. Ou cinquenta e tal. Já, já. Já lá vão muitos anos. Já não dou conta dos anos que isto que isto há . audio/MST20.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Porque a gente esque- Naquela altura, a gente não tinha nada: não tinha um retrato, não tinha nada d- dos pais . Hoje já não. Hoje já toda a gente tem. Ainda bem que fazem tirar as coisas à gente que é para a gente as ter. audio/MST21.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Com que agora, depois que a arranjou agora já: " Vês que já tiveste dinheiro? Já, já Já houve dinheiro para. Arranjámos a casa e ainda ficámos com dinheiro". E já pus a luz [vocalização]. Já aí está a água canalizada, mas quem sabe lá quando virá – na minha cabeça é no Verão… Mas já lá está. A [vocalização] luz ainda foi porque eles não me deixaram arranjar tão depressa. Eu queria arranjar logo apenas arranjei a casa, mas "Ai! Não há dinheiro! Não há dinheiro! Não há dinheiro! Não há dinheiro"! Os filhos abundam. É para eles, não é para mim. Agora, já s- se se acabar a luz já está. Bom [vocalização], já é preciso pôr o candeeiro. Não se vê [vocalização] a comer ou aqui para ver. Já não vê nada. "Agora já? Já dás graça à luz"? "Ah, mas eu estava [vocalização] não havia dinheiro". "Mas houve dinheiro, não houve"? audio/MST22.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Mas a mãe é que é que se escolhem os nomes. As mães agora [pausa] é que é que escolhem os nomes. Não é os pais. audio/MST23.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) São ferragens para carro, [pausa] para puxar o gado. audio/MST24.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Se a senhora desse rai- volta a isto, isto é muito grande! audio/MST25.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) A vida tem sido Muito dura a gente! Muito dura a gente! A Ele trabalhar toda a vida nisto, muito a gente dura! audio/MST26.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) O que é que ele já se usam pouco, agora. Porque os homens velhos já já vão acabando e estes já não precisam de trabalhar. Agora só as máquinas é que trabalham. audio/MST27.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Pois. Tinha assim além naquela cova. Assim além, também tinha uma coisa que metia. Tinha assim um pauzinho pequeno. Porque aquilo Também aqui andava um. Assim além, naquela cova assim além tinha assim [pausa] uma uma falhazinha. E a gente metia além aquele aquele pauzinho, apertava-o… [pausa] Pronto, andava assim. audio/MST28.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Pois. Punha-lhe assim uma chapa de ferro assim debaixo. audio/MST29.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Fueiros. Tenho-os eu ali. Ainda os ontem tirei do carroço. Também os aqui meto. audio/MST30.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Vamos além ver o carro velho. Diz que querem ver o carro velho. audio/MST31.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) [vocalização] A seara que tenho está cá na coisa de sua avó: é além aq- aquela seara que além está diante, cá na quinta. audio/MST32.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Sim, há muita maneira de a gente trabalhar. audio/MST33.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Com o vento, saía tudo. audio/MST34.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Muitas pessoas não sabem não sabem esta coisa, como a gente apanhava as sementes. audio/MST35.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) [vocalização] Bom, [vocalização] se já é assim grande, é uma pipa. A gente leva mil litros, leva oitocentos litros ou leva mil e quinhentos litros. É assim. Quando é assim mais pequeno, chama-se-lhe um pipo. audio/MST36.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) É assim. audio/MST37.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Dá-lhe a gente Eu tenho lá. Eu, Ele na minha casa, tenho lá. Tem lá a gente assim… Malha. Até Que ele até com um pau se malha. A gente assim com um pauzinho pequeno: tuca-tuca-tuca. A gente malha. audio/MST38.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Ah, não tem. Está o milho empinado, vai o pessoal, tira assim a maçaroca. Conforme está o milho espetado na terra, a gente vai, tira a maçaroca. Tira além nas vazilhas as vaginhas que a gente traz. E aquela palha lá fica empinada encanada. Depois vai os ratos, apanham aquela o que podem comer, e o que não podem pode lá fica. audio/MST39.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Depois caía daqui, caía o pau todo. Só ficava a fibra. audio/MST40.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) Sempre tinha que fazer o contra-. Ou pouco ou muito, sempre tinha que fazer contas com ele. audio/MST41.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) A gente [vocalização] levantava-se ainda de noite a juntar os molhos. Depois acabava de ajuntar os molhos, depois comia ali uma buchazinha. Depois, lá para essas nove ou dez horas ia a gente ao almoço, tomava a gente o almoço. Depois vinha o meio-dia ia a gente a jantar. Depois vinha ali [pausa] por essas cinco horas da tarde, ia a gente a merendar. Era a merenda. – Está quedinha! – Depois vinha ali [vocalização] já à noite era a ceia. audio/MST42.mp3 Monsanto (Idanha-a-Nova, Castelo Branco) [vocalização] Eram as farinhas que não andavam boas – está caladinha, anda lá. As farinhas não andavam boas e depois iam para o forno, e o forno, ao cozer, largava a côdea d- do miolo. Mas isso não era sempre. audio/FLF01.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Que a gente sempre puxa por [pausa] onde fomos criados. Isso é sempre. audio/FLF02.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É mastraços, vá bem. audio/FLF03.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Cidreira. Cidreira há. Agora segurelha, eu não… audio/FLF04.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Não? audio/FLF05.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Mas há aqui dessa árvore! audio/FLF06.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Agora pode haver. audio/FLF07.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Mas [vocalização] há quem diz que as aves comem muitos desses bichos da terra – não sabe? Por isso é que eles não comem a novidade toda. audio/FLF08.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Não. audio/FLF09.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Que são as avezinhas de Nossa Senhora. Foram escondendo as pegadas [vocalização] do animal para não direm ao encontro de [pausa] onde ele está. audio/FLF10.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Aqui no Verão… audio/FLF11.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Agora eles acolá é… Até ali no meu estaleiro do milho eles se metem ali para fazerem o seu ninho. E E ali em baixo tem uma terra que às vezes a gente está trabalhando na terra e eles estão a fazer uma chiada lá dentro! audio/FLF12.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. audio/FLF13.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Que ele estava sempre cheio deles! audio/FLF14.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Eu não sei como é que se chama. audio/FLF15.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Sim senhor. audio/FLF16.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pois, tendo várias terras, pode-se cultivar um ano numa… Como o Por exemplo, batata branca – às vezes, o meu marido diz: "Olha, a gente já há anos que faz naquela terra batatas brancas, há-de-se mudar agora para outra terra". Para n- A novidade também não quer sempre [vocalização] na mesma terra. Dá melhor se for [vocalização] mudado. audio/FLF17.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Isso, isso mesmo! Isso mesmo! [vocalização] E estendia-se na terra três semanas. Quinze dias pela primeira banda e, depois, [pausa] amaçava-se e tornava-se a estender por a outra banda. [pausa] O linho. Estava muito tempo sobre a terra. E depois disso, então, era no sedeiro. audio/FLF18.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Nunca soube fiar nem lã, nem nada. Nunca soube fiar. Era sempre na roda [pausa] é que fiava. audio/FLF19.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Naquele órgão de cima, naquele naquele último de lá de trás. Era assim. E aqui quase que era três pessoas. Eu cheguei a estar muitas sozinha, mas [pausa] era três pessoas para para botar as teias. Era uma atrás, aguentando a teia, esticadinha. Era outra andando com o órgão – que o órgão era furado, metia-se um pauzinho. E era uma adiante com o restelo. Também não, não Não viu também o restelo? O restelo é um pau grandote, [vocalização] furado, com com tornos todos, todos, todos, todos, tudo. Que a gente botava lá, nalguns – era conforme [vocalização] o tamanho da teia. Nalguns [vocalização] botava-se um cabrestilho inteiro; noutros botava-se só meio cabrestilho; era conforme. Que era para fazer a medida do [vocalização] do pente – não sabe? Era assim. E [vocalização] pronto. E depois era E depois era… Se o pente estava enfiado, era a- acrescentado de nó, direitinho – os- os de cima e o- e os do pente –, acrescentado de nó. Nó por cima da unha. E se o pente estava despido, era, era enfiar-lhe era enfiar assim um fio, um fio em cada em cada palma. audio/FLF20.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Pois há-de ser, pois há-de ser, pois há-de ser. Há-de ser, há-de ser, há-de ser, há-de ser, há-de ser. audio/FLF21.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Eu disso nunca experimentei. audio/FLF22.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Ah! Eu sei! É aquelas canas que que se ficam atrás da roupa do pente. Porque elas, às vezes, não queriam dir para trás e botavam um contrapeso para para fazer desandar uma coisinha. audio/FLF23.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Muita a gente muita a gente foi buscar! audio/FLF24.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) É sim senhora. É. É sim senhora. audio/FLF25.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) É na- sempre na roda e é a- e é assim [vocalização] uns retalhinhos. Minha irmã cardava e eu fiava. A gente também estava até, às vezes, passante da meia-noite. audio/FLF26.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Foi com com gente de fora. As primeiras teias que eu teci, eu chamava uma pessoa para a botar no tear – não sabe? Que eu não tinha [vocalização] não tinha confiança em mim de a botar. E um dia meu pai disse: "Olha, tu [vocalização] esta é que vais botar no tear e eu também te quero dir ajudar". Que ele tinha visto – a mãe dele tecia muito, minha avó. Ele também tinha visto muita vez. "Eu, eu Eu quero dir ajudar também. E tu é que a vais botar. Não se chama ninguém desta vez". E era dezasseis varas [pausa] – para cobertores. Está bom. A gente foi – e era numa casa velha que a gente tinha lá. Fomos para lá botar a teia. A gente botou a teia e ela ficou bonzíssima. Nunca mais se chamou ninguém para botar a teia. audio/FLF27.mp3 Costa do Lajedo (Lajes das Flores, Horta) Claro! Claro! audio/FLF28.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Esta é a queiró que a gente chamuscava os porcos noutros anos. Antigamente, não era com o maçarico, que não havia gás. Era com queirós. audio/FLF29.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É, é. audio/FLF30.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pronto. audio/FLF31.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pois [vocalização] a gente, antigamente, era com com o com um machado, era com serrotes; mas hoje já há moto-serras que é mais depressa para [pausa] pa- para cortar as árvores. audio/FLF32.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) A minha filha mais velha chegava a ajudar o pai a lavrar. E [vocalização] E o meu marido conta que o pai morreu ele tinha onze anos e que a mãe que p- que é que lavrava as terras. audio/FLF33.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Espera aí… audio/FLF34.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Ah, sim senhor. Sim senhor. audio/FLF35.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Para cavar. audio/FLF36.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É no cabo. A gente chama-se o cabo [vocalização] para trás. audio/FLF37.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Isso tudo Esses todos é sacho. Agora, tem duas classes, de cavar a terra – dos grandes. Uns, a gente aqui – mesmo o de São Miguel – trata-o por sacho de São Miguel. E tem outro que é mais com a volta. A gente tem o s- o sacho mais com a volta. audio/FLF38.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Era com a foice. audio/FLF39.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Dava muita perca. audio/FLF40.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Exacto. audio/FLF41.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Às pontas da canga. [pausa] Ele diz que dia ao palheiro buscar. audio/FLF42.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Uma junta de vacas ou de bois. audio/FLF43.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Ele sabe-os mesmo fazer, senhora! Ele é que os faz mesmo! audio/FLF44.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Olhe, essa ainda começou para pintar. audio/FLF45.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Vamos fazer um serão de milho. audio/FLF46.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Ah, para o chapéu. Para os colchões não… audio/FLF47.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Estaleiro. audio/FLF48.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Aventej- Com que é que se aventeja? Pois é com- com umas latas ou com baldes ou assim… Pega-se pelo ar e e vai-se deixando cair a semente. E E [vocalização] o que é mais leve – que é a pragana – vai o vento vai levando. audio/FLF49.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Não. audio/FLF50.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. O mais é no gorção. audio/FLF51.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. [vocalização] Árvores de fruto. audio/FLF52.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Hão, sim senhora. audio/FLF53.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. audio/FLF54.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Vai-se comprar… Já está na loja; mas [vocalização] aí para baixo hão adegas. Mas aqui não há. audio/FLF55.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) [vocalização] É um jantar do Espírito Santo. audio/FLF56.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Está deserta. Mas agora estão recuperando as casas. Não sei se é o governo se quem é. Já estão Recuperaram várias casas e já estão cobrindo. E já está a estrada até lá, que não estava! A gente nem tinha luz, nem tinha água, nem tinha estrada. Para irmos à Fajã era dois quilómetros de distância. Para dirmos à missa, dirmos à escola e e à loja, tudo o que se precisava, ficava a essa distância. A água, era aqui à Ribeira Grande também, que ficava muito distante: um quilómetro ou mais para se vir buscar água. audio/FLF57.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Antigamente, era mais difícil tratar do gado. Agora, eles estão dentro dos contentores. E, antigamente, eles diam só nos porões amarrados – não sabe? Era mais difícil de chegar ao pé deles do que não é agora. Agora, eles abrem os contentores, eles estão ali amarrados, eles só lhe deitam a comida. É mais fácil. audio/FLF58.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Com Nas orelhas tinham o seu sinal, registado pela Câmara – está percebendo? Cada pessoa tinha o seu sinal na. Na orelha da das ovelhas, conheciam o seu sinal! Que isso era registado na Câmara. audio/FLF59.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Alguns são muito tolos! audio/FLF60.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pois. audio/FLF61.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) N- Não senhora. Pois [vocalização] a vaca estando acostumada [vocalização] a andar por fora, pára. Se é mansa ou está amarrada, pois pára ali para se ordenhar. Mas hão outras que não querem parar sem comida! [pausa] Sem uma maçaroca de milho ou assim uma coisa, é! Tem que ter comida! E elas acostumando-se a ter a comida, não param! audio/FLF62.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pois, há pessoas que fazem queijo para vender e e outras deitam na máquina para vender. Está ali um posto – não sabe? – que [vocalização] vai para a fábrica que está em Santa Cruz. Ele anda pelas freguesias ajuntando, aquele carro –, ajuntando o leite, que vai para o posto. Que eles fazem manteiga, fazem queijo [pausa] – para mandar para fora. audio/FLF63.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) O E que é que se fazia? Aquilo la- lava-se bem lavado e e salga-se – está percebendo? Tem-se salgado uns dias e depois torna-se a lavar bem lavado e e põe-se em vinagre e mais uma coisinha de sal, dentro dum garrafão. Parte-se aos bocadinhos. Eu partia assim aos bocadinhos e [vocalização] punha depois de – já se sabe – de estar bem lavado. [vocalização] Punha-o no vinagre e botava-lhe mais sal; enxogalhava aquilo bem enxogalhado. O bom, quem tem o no frigorífico, aguenta muito tempo. E então, deitava mais uma percentagem do que não desse coalho da loja. Mas fazia o queijo a mesma coisa, com essa coalheira. audio/FLF64.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Pois olhe, há-de ter aí uns [vocalização] dois metros, dois metros e meio, coisa assim. Põe-se em quatro, [vocalização] presa no pau – em quatro ou, ou em ou em cinco, como a gente vê para ficarem todas ao nível. E pendura-se, então, onde se quer fazer o lume. Faz-se o lume por baixo delas. No primeiro dia ninguém as põe assim, porque se for com muito lume, elas arrebentam todas – escacham. É preciso ser só [vocalização] à maneira que a gente vai vendo. E vão-se virando no pau. Têm-se aí, [vocalização] aí uns quinze dias. Sempre todos os dias a fazer lume, a virá-las dum lado e doutro, para ela curar bem curadinha – a linguiça. E [vocalização] depois, quando a gente vê que a linguiça que está bem curadinha, [vocalização] tira-se para fora, lava-se bem lavada – já se sabe –, que ela tem muito fumo. E [vocalização] E então, 'estrala-se' em graxa; ou há pessoas que guardam na caixa – também podem-na guardar assim. Há pessoas que também que que a guardam sem a estralarem: botam-lhe a graxa, então, bem fervendo – a banha – bem fervendo, em cima. E aí está a linguiça para todo o ano. audio/FLF65.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Já tem outro sabor. audio/FLF66.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) A minha filha [pausa] já criou em casa. Que a minha filha tem cinco porcas, que ela cria. E [vocalização] E alguns, a mãe ou não tem peitas bastantes para o filho mamar – o bacorinho – ou [vocalização] ou não os quer e é preciso eles [vocalização]… Com uma chucha, chegam a a se criarem em casa. audio/FLF67.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) A porca é que fazia. audio/FLF68.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Na Alguns anos convida-se os vizinhos. Mas, hoje em dia, já eu tenho os meus genros [pausa] e o meu filho, é que a gente é que arranja. audio/FLF69.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É, sim senhora. audio/FLF70.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É, sim senhora. audio/FLF71.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Hoje é de carne. audio/FLF72.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. Sim. [vocalização] Pico [vocalização] ali, miudinho, umas três, quatro cebolas – quanto mais uma coisinha, melhor. Roso, bem rosadinho. Depois de aquilo estar rosado, se tenho polpa de tomate, junto-lhe, se tenho tomate, junto-lhe. Junto-lhe vinho branco – [pausa] não sabe [vocalização]? – a fazer o molhinho. E aí caldeia [pausa] o que tem picadinho. Mas deixo estar então – que eu esqueci-me de dizer –, deixo estar ali [vocalização] coisa duma hora, que é para aquilo tomar [vocalização] o gosto dos tempêros. audio/FLF73.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) É. audio/FLF74.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Mas ainda hão. audio/FLF75.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Nunca tinha ouvido. audio/FLF76.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) Ai é? audio/FLF77.mp3 Fajãzinha (Lajes das Flores, Horta) E muitas vezes estavam apanhando os xemenos ou o musgo nas terras e chegava o – nas relvas –, chegava o lavrador e corria com elas. audio/MIG01.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) A gente é grelo. audio/MIG02.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Era em vimes. No tempo, ainda apanhei aqui nessa casa, era em vimes. Era audio/MIG03.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É. O tempo do linho é esse, que eu que me lembre. audio/MIG04.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Tudo gado. A gente trata isso tudo gado, não é? audio/MIG05.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E faziam capachos, no tempo, de junco. O joio é uma coisa mais miúda do que isso, mas rija. O an- O animal não gosta disso. É uma erva ruim, não é? É uma erva que não era boa. audio/MIG06.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E outros dizem que é chifres. Eu ele ouvi dizer que é um corno. audio/MIG07.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Esse monte tinha um nome: é [vocalização] é o monte do esterco. A gente cavavam… Deitavam aquilo sempre para ali. Ao fim de tempos é que cavavam aquele monte e deitavam numa serra direita, assim toda direita. Faziam ali umas paredes e aquilo estava ali em cozimento. Ao fim de tempos, tornavam a dar outra cava nesse esterco. Sempre nos currales! E depois é que acartavam isso para as terras. audio/MIG08.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Aquilo era… audio/MIG09.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Tiravam uma, deitavam outra. Quando aquela não estava boa, deitavam outra até gastar a manteiga, não é? audio/MIG10.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Não, por enquanto, não gosto de ver matar. audio/MIG11.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Graxa [pausa] é antes de ir para o lume. audio/MIG12.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Ah, ele havia muitos. Aquilo havia. Nesta freguesia havia. Ele havia muitos. audio/MIG13.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) só para isso. audio/MIG14.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Pediam… Mas pediam a pessoas. Sempre para doenças sempre ajuntava pessoal e iam levar ao hospital. audio/MIG15.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Eu julgo que não… Para o Para o melrinho ficar vivo. audio/MIG16.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E agora a agulha – que é para eu dizer ao senhor a agulha –, a gente se queria a farinha mais fina, a gente dava na cunha [pausa] para fora; s- se ele… o freguês se queria a farinha a farinha mais redonda, a gente dava na cunha para dentro, para fazer a fi- a farinha mais grossa. audio/MIG17.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E depois ia levar. Sim senhor. audio/MIG18.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Era, sim senhor, porque a a urze é que se c- é que cria mais. audio/MIG19.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Come, sim senhor. Isso é muito bom para o gado. O gado quando se habitua a comer isso assim tenrinho, [pausa] até engorda. audio/MIG20.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Cá nos Açores. audio/MIG21.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) para tapar, para não se perder. Porque ele era tudo tapado com banha! Mesmo o chouriço, hoje em dia, é tapado num boião com banha, para ele para ele não se perder. Com banha de porco! audio/MIG22.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É. audio/MIG23.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Não senhora. Não senhora. A gente tratam isso salsa-parrilha. audio/MIG24.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Com as pontinhas, sim senhora. Erva-molei-. A gente tratam aí isso a erva-moleirinha. Esta é a erva-moleirinha. audio/MIG25.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E ela vai rasteirinha sempre no chão, essa… audio/MIG26.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Mas a gente já sabiam que aquele lado estava [pausa] estava roto, não é, e deitavam-lhe um bocadinho daquilo e aquilo era como uma cola, pegava ali. Isso é a erva-ferro. audio/MIG27.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Isso é trepadeira, mas dizer o nome dela… [vocalização] Aqui há muitas trepadeiras também onde se trepam pelos muros. audio/MIG28.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Pois, pois, pois. audio/MIG29.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Exactamente. Alastra muito. É, é. audio/MIG30.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Mesmo o cimento, [vocalização] quer dizer, a gente tem é lá cimento, e ela adere-se… E adere [vocalização]… Encontra Encontra terra e estende-se. E estende-se. É preciso que a gente vá cortando, porque senão enleia também [vocalização]… Estende-se muito. audio/MIG31.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É trepadeira. audio/MIG32.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Pois. audio/MIG33.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) A galocha era mais de trabalho. A tarola já servia para ir à missa, já servia para para ir namorar… As raparigas novas, de tarolas, já se podiam apresentar ao pé do noivo com a tarola; com a galocha, era mais um calçado de trabalho. audio/MIG34.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) [vocalização] Não. É assim. A rosca é assim mais ou menos com muita perna. audio/MIG35.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Alimenta-se das folhas . [pausa] E alimenta-se mesmo da batata, esse tal. audio/MIG36.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É rosca. A gente dá o nome dessas coisas é tudo rosca. audio/MIG37.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) A joaninha. audio/MIG38.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Aqui dão na… audio/MIG39.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Não sei como é que isso vieram para cá. audio/MIG40.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Teia. audio/MIG41.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Cortando-lhe a cabeça, então é que ela… audio/MIG42.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Obrigado. audio/MIG43.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É uma recordação, não é verdade? audio/MIG44.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Eu faço. A gente, depois, a gente puxam aqui [pausa] para levar a manta para o seu lugar para começar a trabalhar. audio/MIG45.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Uma está sentada ali puxando a teia. A outra está aqui com uma varinha nesse tornozinho enrolando – que é enrolando isso. E eu estou aqui sentada [pausa] com o restelo. Que a gente chamam aquilo restelo. Que é tudo cheio duns [vocalização] uns coisinhas… Eu é que estou ali porque ele essas cabeças têm que ser muito bem feitas, porque senão, depois, descabeça [pausa] – ali. Porque eu, eu já eu aqui já tenho a prática e vou-lhe dando sempre o jeito – porque isso vai sempre apertando –, que é para não fazer… Porque se a gente porem sempre no mesmo tear, isso faz um rolo assim e d- e descabeça. Até que eu já disse: "Eu, quando eu fizer um órgão novo" – porque isso, ele essa parte chama-se um órgão –, "eu, quando eu fizer, eu vou fazer mas vai ser com a madeira à maneira de [vocalização] "… Qualquer pessoa pode carregar que não tem aquela ciência de fazer cabeça. Porque a gente estão sempre olho ali, olho ali para ele [vocalização] para ir sempre, [pausa] para para isso: estas linhas, que é a teia, ir sempre puxando para dentro. audio/MIG46.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) portanto, a bater certo: tanto igual de um lado, como igual do outro. Já se sabe, a gente fazem vários feitios. Não é só desse [vocalização]… É os retalhos também é que mandam. audio/MIG47.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Branca que é o [vocalização] assim: é um [vocalização] montinho aqui e outro aqui, tudo, tudo… Como a flor do pessegueiro! audio/MIG48.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) É. O senhor faz favor de me dar para aqui. É [vocalização]… A gente sem isso, a gente não trabalham. [pausa] Porque isso é: eu tendo isso e não tendo o espetinho… audio/MIG49.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Mas eu também, depois, deixei disso. [pausa] Agora peguei foi por curiosidade. audio/MIG50.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Não sei. Porque a gente, quase sempre, a gente, [vocalização] apertavam era com o dedo. Quase sempre. A gente [vocalização] estavam aqui. E aquilo é mais uma coisa que a gente fazem é sentadas. audio/MIG51.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Urdindo. audio/MIG52.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Oitocentas gramas. Uma libra é oitocentas gramas porque eu cheguei a ter as pedras – e eu acho que ainda tenho isso guardadas por aí. Mas eu não sei donde foi que eu as pus. Eu tenho a balança mas já muito [vocalização] velhinha. Ela está arrumada nu- é numa caixa. Eu embrulhei-lhe e arrumei-a. audio/MIG53.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Ele [vocalização] eu tenho a quarta classe. audio/MIG54.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) E isto é tudo, ele [vocalização] tanto o liço, como a haste, eu é que faço tudo com a minha mão. Ele esse trabalho não é ninguém que o faça, eu é que sei fazer tudo. audio/MIG55.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) A gente tem- Eu tenho aí um- três ou quatro feitios de de cartas. audio/MIG56.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Agora a gente chamam é o milho-mulato. audio/MIG57.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Exactamente. Estão pastando. audio/MIG58.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Sim. audio/MIG59.mp3 Ponta Garça (Vila Franca do Campo, Ponta Delgada) Ele a gente davam outro nome aquilo. Não me recordo. audio/OUT01.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E aquela correia que passa?… audio/OUT02.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Mas olhe que a… audio/OUT03.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E enguias. audio/OUT04.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Este ano não os há. audio/OUT05.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) É o tal pau de zimbro. audio/OUT06.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E, e [vocalização] E chamamos-lhe… Há aí quem lhes chame as fuseiras; e há aí outros que lhes chamamos [vocalização] roquelhas. audio/OUT07.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois, muito amarelo. audio/OUT08.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Não tinha o lombo que tenho hoje! audio/OUT09.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Mesmo o criador, ele comia mais a cria disso! Gostava muito. No Inverno era por onde é que as botava, assim por essa urze, [pausa] que havia muita. audio/OUT10.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) É assim mais ou menos. audio/OUT11.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E, portanto, [pausa] ainda sei o que digo, já sou velha mas [pausa] mas não, não sou [vocalização] não sou intrujona. Porque, olhe, eu tenho visto pessoas às vezes estarem a falar com pessoas civilizadas… Eu tenho falado com tan- com tanta pessoa civilizada, sou sempre a mesma, sempre! audio/OUT12.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pelo mais fino. audio/OUT13.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Depois a gente ele [vocalização] o linho fino é conforme o quiserem. Até podem assedá-lo três ou quatro vezes para ser… Quanto mais assedarem, mais fino quando se coze. audio/OUT14.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ah! Está bem! audio/OUT15.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Rhum-rhum. audio/OUT16.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Outras vezes, dum papelão bonito. Eu, eu f- Eu sei-lhos fazer os cartapácios. audio/OUT17.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E lá E lá puseram mas depois, para começar a tecer, ninguém era capaz. Porque ela estava enfiada doutra maneira que enfiávamos nós. E eu [pausa] entrei lá e disse assim: "Tem que ser assim". E é que fazia cruz para tecer e forte ficou. Teci por aí assim um bocadinho. Ela já me pediu que lha fosse a tirar. Mas eu [pausa] não posso, não tenho vagar. Já há muitos anos que está lá aquilo, já estará por aí até podre. audio/OUT18.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Sim. audio/OUT19.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. Eu sei. Eu já há bem tempo que eu o não fiz, mas se me puser a fazê-los, sei. Sei-os fazer. audio/OUT20.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) E depois tem as parafitas dos lados. Tem as parafitas e depois em cima das parafitas tem umas serrilhas, em baixo, nas mesas em cima tem outra outra serrilha, onde encaixa… A, a do A que nós trabalhamos encaixa na outra para que ele não se saia daquelas serrilhas, para ele trabalhar bem. audio/OUT21.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Não. Ele era lá agora! Ele o tear do pardo era muito largo. Eu ainda teci teias de pardo no meu tear mas era estreito, para fazerem calças. [pausa] Olhe que um ano eu estava a tecer – chamam-lhe a carvalha –, dia dois de Maio, e uma grande nevada a cair e eu a tecer pardo, ele aqui num [vocalização]… Porque ele aquele tear era mais largo que os meus e fui lá tecer a teia de pardo aqui para uma vizinha. audio/OUT22.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Eu ainda fiei… Ainda fiamos aqui oh, oh, oh… Porque o senhor Arcádio, ele era daqui de Outeiro – já morreu, morreu o ano passado – e ele trouxe para cá muita fiadeira da lã, mas era outras qualidades de lã. Enfiávamos aquela lã no meio como um – numas máquinas –, no meio de dois fios brancos. E aí ele ganhávamos bem dinheiro nessas máquinas. audio/OUT23.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen. É isso que nós fazemos. Faz-se sempre uma cruz. E depois, ele em estando lêveda, acende-se o forno. Roja-se com lenha. Há uns ro- uns paus para ranhar os ladrilhos. Chamamos-lhe ladrilhos ou ro- ao chão do forno. Eu também tenho aí um forno, bem grande. [pausa] E [vocalização] E depois em estando rojo e o pão lêvedo, varremos o forno bem varrido… audio/OUT24.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Depois quando está acabado de o forno rojar, varre-se e e mete-se o pão ao forno. Passado [vocalização] um pouco tempo… O trigo leva menos tempo [pausa] a cozer. A gente ti- tira um pão, vê… Se está leve lêvedo [pausa] tira-se o pão. [vocalização] E é assim. É assim que se faz o pão. audio/OUT25.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) É. Está bem. audio/OUT26.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Devem cozinhar até muito bem. audio/OUT27.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) [vocalização] Que era para aproveitar a farinha que ficava. audio/OUT28.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ai, isso gostei tanto daquela broa! Estava Sabia-me mesmo bem! audio/OUT29.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) A bola. Noutros sítios chama-se forno. Chama-se a bola do forno. audio/OUT30.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Assim. Varre-se o [vocalização] o borralho para cá. audio/OUT31.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ah! … audio/OUT32.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ai sim? audio/OUT33.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Também é pia. audio/OUT34.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Não, não, não. Ele, a nós, também, o meu sabia-os matar e depois, ultimamente, até os matavam os outros. audio/OUT35.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Rhum-rhum. audio/OUT36.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) [vocalização] Não. Depois tira-se, não é? Depois de estar o unto pegadinho e teso, que que arrefeça, tira-se, enrosca-se num papel. Muitas vezes ainda o pusemos aqui a [vocalização] ao gelo, há algum tempo, no tempo dele. audio/OUT37.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. Exactamente. audio/OUT38.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ai é? Então também se chama rojão a um torresmo. audio/OUT39.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ah, pronto. audio/OUT40.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Para aqui não. Nem nunca… audio/OUT41.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois é. audio/OUT42.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Também se assam. audio/OUT43.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ah, pois sim! Mas agora já me pesa o rabo! audio/OUT44.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. audio/OUT45.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) para se defenderem defender ele o [vocalização] dono. audio/OUT46.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois, hum, pois. Matavam-se e depois botavam nas nas crias, nas patas das crias. Diz que era muito bom. audio/OUT47.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) O cele- [vocalização] O respiradouro, a don-, o a casa delas, donde elas estão. audio/OUT48.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pronto, foi uma beleza! Até para o outro dia foi uma beleza. audio/OUT49.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. audio/OUT50.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Já são próprios para isso. audio/OUT51.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois então. Tenho-o ali! audio/OUT52.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Que a roubam. audio/OUT53.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Ai é! audio/OUT54.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) O enxerto empeça a puxar, a puxar, a puxar, a puxar até que se forma a parreirinha. audio/OUT55.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. audio/OUT56.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Pois. audio/OUT57.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) Põe-se-lhe um peso [pausa] bom, ao bagaço, com umas tábuas; e um, e um primeiro umas tábuas depois uns pesos em cima para sair aquele aquele vinho que tiver mais. Para o outro dia, a gente pega e faz aguardente. audio/OUT58.mp3 Outeiro (Bragança, Bragança) é espremido. audio/CBV01.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não? audio/CBV02.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Justamente. E cortava a terra. E os outros tinham… O charrueco ia [vocalização] rompendo logo a terra. audio/CBV03.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] O [vocalização] Na limpeza das oliveiras… A gente pode chegar ali mais abaixo, que é para lhe eu mostrar [pausa] o coiso. audio/CBV04.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Esses quinze anos estive em coisa, em [vocalização] em Alhandra. Trabalhei na agrícola lá na em Alhandra [pausa] e depois o patrão, um dia, diz-me assim para mim: "Isto [pausa] está a chover, nem é para quem, nem é para quem o dá nem é para quem o ganha, nem é para quem o dá a ganhar". [pausa] E eu pensei assim, digo: "Bem, eu vou para a Câmara. Lá ganho mais dinheiro [pausa] e, no fim, ainda este ainda me vai dar dinheiro a mim". E então, foi assim que eu fiz. Abalei e depois quando tinha folgas lá [pausa] ia trabalhar para ele. audio/CBV05.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Está feito em alvenaria, mas feito por mim. audio/CBV06.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV07.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Fiz também isso muita vez. Mas muita vez. audio/CBV08.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) dos que já morreram! Porque [pausa] hoje aparece tanta problema desses, de coisas antiguíssimas que [pausa] passou deste para aquele, daquele para o outro, do outro para o outro, mas o nome ainda é de um, às vezes, que quem sabe já quando foi que ele que morreu. [pausa] Hoje já não vai sendo tanto isso porque eles vão apertando isso [pausa] e é bem feito. audio/CBV09.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E depois é a sementeira. audio/CBV10.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) É isto Isto. Eu, por acaso por acaso, cá na minha casa, há isto tudo. audio/CBV11.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] E então [pausa] diz que não havia gente para dar ao maró, para amarroar o trigo e passou a ser [pausa] a coisa. "Ah, vocês deitam trigo?! Não tenham medo porque o trigo, há muito trigo partido". Eu comecei a deitar e o outro começou a deitar. [pausa] Mas [pausa] eu achava aquilo demasiado! Quando faltavam dois dias para acabar a folha [vocalização] e o guarda – que era o irmão do patrão – chega assim perto de mim, encostou-se assim ao pau e diz assim: "Ó senhor André, arrime-lhe aí obra para o chão". E eu [pausa] pus o sementeiro no chão e faço aqui assim: "Ó senhor Anfícrates, fazia favor vinha aqui ao pé de mim". O homem foi. E indiquei aqui assim: "Senhor Anfícrates, faça favor ponha lá assim um dedo no chão, mas não seja em cima de um bago de trigo. Ponha lá assim um dedo aí no chão mas que não leve nenhum bago de trigo adiante". O homem começa a olhar para o chão e diz assim: "Eh pá, efectivamente. [pausa] Olhe, deixe ir isto assim conforme vai". Digo assim: "Então eu já estou a achar demais! Você ainda me vinha dizer para arrimar mais"?! Bem, esse dia à noite [pausa] pensaram mudar de herdade, [pausa] ir a sementeira para outra herdade e ficou, fica- ficaram dois dias de sementeira no coiso. Foram fazer as contas: naquela folha havia quatro moios de trigo a mais. Veja você: quatro moios de trigo! audio/CBV12.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Eu depois abalei de lá e fui para a Câmara. Dessa vez que eu fiz essa mudança, fui para a Câmara. Mas passava lá à porta. [pausa] Um dia entra entro lá dentro do do pátio e digo assim: "Senhor Anfidemos, [vocalização] venho-lhe aqui fazer uma procura". No fim duns dias já depois de aquilo estar tudo nascido. [vocalização] "Que tal está a sementeira do Almo"? – Que era essa herdadola –. "Que tal está a sementeira do Almo? Que tal está lá o trigo"? E diz ele assim: "Está bom, ó tio André". "Mas ouça lá: está bom para me fazer jeito ou está mesmo de verdade bom"? "Não. Está mesmo de verdade. Está bom". "Então e diga-me uma coisa: e então a alpista no Terracha"? – Era outro sítio –. "A alpista no Terracha, que tal está a alpista"? [vocalização] "Está boa". "Mas está boa para me fazer jeito [pausa] ou está de verdade mesmo boa"? "Está mesmo de verdade. Está boa". E eu volto-me para ele e digo-lhe aqui digo eu aqui assim: "Ouça lá, senhor Anfidemos, você lembra-se daquilo que lhe eu disse ali? Que os patrões dão cabo da sementeira e depois os trabalhadores é que ficam com a carga? Se eu fizesse como você queria… Se ela está boa, então não ficava boa de certeza"! Porque o caso é este: ora, eu via muito bem o que ia fazer. Mas quando o vento me dava de costas, eu fazia assim e abria [pausa] a semente à minha vontade. Mas quando o vento me dava de caras – aquilo era uma semente leve –, não podia ser eu levar elevar essa largura, porque eu na- a semente não alcançava a largura que eu que eu queria. E então [pausa] levava a largura que eu via que podia alcançar – por causa do vento. De maneiras que o homem não f-… Ah, e quando eu acabei de dizer aquilo, ele diz assim: "Ó tio André! Essa não vem embalde. O que você está a dizer eu já estava à espera que você dissesse isso". "Ai sim? Então se você estava à espera era porque você via que efectivamente que era verdade o que lhe eu tinha dito". audio/CBV13.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E então sempre dá mais resultado [pausa] assim. O que se deve semear é fava boa. Não é semear qualquer sucata. Não acham? Não sei… Mas desde que seja fava boa… O ano passado, ali , [pausa] quando eu colhi as favas que estavam secas, havia arrebentos com flor! audio/CBV14.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Digo eu assim: "Vá, vomecê não tem que fazer, pegue aí numas canas e vá espetando aí umas canas que é para me eu regular". Ele assim no lar andava assim baixo. [vocalização] Abaixava-me. Então ele depois que não queria que eu me empinasse para semear a terra. [vocalização] Era [vocalização] Jesus! "Eh pá, tu assim não. Que então assim depois dás-me cabo da sementeira". "Pronto, mas eu abaixo-me". Eu abaixava-me e ele abalava, coiso, e eu endireitava-me. [vocalização] "Bem, [pausa] já vens outra vez de pé"?! Digo assim: "E é se quer, que eu de pé vou melhor". Bem, o resultado daquilo: aquilo nasceu ali em menos de nada. Ah! Ele depois diz-me assim para mim: "Eu estou para ver outra coisa. Então e como é que tu re-… Como é que se isto rega"? [pausa] "Mas o senhor está a fazer conta de vir regar isto"? "Não. [pausa] Quem a rega Quem a rega és tu". "Então, se sou eu, eu que estou a fazer assim lá sei como é que a hei-de regar. Não esteja a pensar que eu que estou a semeá-la assim e que não sei como a hei-de regar. Sei"! audio/CBV15.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Eu, assim é que me tem acontecido. O meu pai que Deus tenha [pausa] era um bom trabalhador [pausa] e era um bom hortelão. Mas eu não sei. Eu hoje aí numa horta não faço nada já como se como se fazia nesse tempo. E este, já lá foi o hortelão [pausa] quatro ou cinco vezes. Em bem me não agradando a fatia, venho-me embora. Mas como também depois não encontro outra coisa melhor, volto lá. E ele então recebe-me sempre. Recebe-me sempre. [vocalização] E vão para lá outros hortelões. Mas eu quando lá chego tenho que emendar sempre o que o que eles não foram capazes de fazer. E hortelões de grande fama, de grande nome, de grande coisa! audio/CBV16.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Que é para sair a água. audio/CBV17.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Olhe [vocalização], ali nesta herdade [pausa] ao fundo da horta, havia lá um sítio [pausa] que todo o Verão tinha água no cimo da terra. E eu digo assim para o patrão: "Porque é que você não manda ali abrir [pausa] uma vala [pausa] além para o ribeiro? Há aí tanta pedra. Faz-se ali um, um Faz-se ali um cano [pausa] em pedra seca". "Começa tu com ideias"! "Então , [pausa] vomecê com o pessoal que aí traz, há uma certa altura que avaga certos serviços, e então, nessa altura, vomecê pode mandar para lá o pessoal e faz-se a vala. Manda para além as parelhas acartar pedra. Eu faço Eu faço o tubo". "Está bem". Fez-se. A ág- a água, por baixo Aquilo por cima era barro preto. Mas no fundo daquela, aquela fundura [pausa] era areão, cascalho, terra lavada – e a água a aparecer de todos os lados! Bem, digo-lhe eu assim para ele: [vocalização] "Ouça lá, então se você me deixasse fazer além uma presa , [pausa] além, que eu punha a água a correr aqui a esta altura do t-, aqui ao nível da terra"? [pausa] – diante dum que lá estava que era o guarda. E diz ele assim: "Tu estás maluco, pá! Então tu não vês que aqui que que é um terreno muito mais alto do que é além, onde tu estás a dizer que vai dar água para aqui"?! "Não é isso que lhe eu estou a dizer, homem"! "Então o que é que tu estás a dizer"? "Se vomecê autoriza eu fazer além uma represa, que eu ponho a água a correr do fundo do ribeiro aqui ao nível da terra. Mas de além aqui tem que fazer uma vala. Mas aqui há-de correr aqui ao nível da terra". "É o que eu digo: tu estás maluco"! E eu faço assim para ele: "Ouça lá, [pausa] e se isto aparecer feito [pausa] como eu estou a dizer, o qual é que é o maluco"? [pausa] "Era eu. Mas não sou, porque isso nunca pode isso nunca pode ser. Isso nunca pode ser". "Está bem"! Ele [pausa] abala para Lisboa [pausa] e deu as ordens ao guarda. O guarda no outro dia de manhã: "Uns vão para aqui", "outros vão para além", "outros vão para outro lado". E eu faço assim para o guarda: "Ouça lá, agora era melhor era uma altura boa para se fazer além a presa". "Então ele já deu ordem"? "Já"! [pausa] "Então, olhe, leve os que quiser e vá para lá". "Não. Não é preciso levar muitos. [pausa] Comigo, três. Vão mais dois aí desses. A gente vamos lá fazer aquilo". Cheguei lá, dei a vala de empreitada aos outros dois e eu fui fazer a presa. No fim, faço assim para os outros: "Eh pá! Eu enganei-me"! Porque estava a ver aquilo que os outros [pausa] viam mas não viam. "Eu enganei-me"! "Então"? "Então?! [pausa] Então, esta empreitada minha é maior ca a que à sua de vocês. Então vocês depois não me vêm ajudar"? "Não. Então cada um acaba a empreitada que apanhou". "Bem, já sei que fiquei fiquei à rasca eu"! Eu a pensar cá para os meus botões: "Mal vocês sabem que eu que acabo a empreitada e voc- e fico eu a olhar para vocês". Eu acabei a empreitada, pus uma pedra em cima do do coiso, mas logo lá no fundo ficou um um tubo. A água estava a sair para o ribeiro à mesma. [pausa] E digo eu assim: "Bem, vocês disseram que que cada um acabava a sua empreitada. Vá lá ver quando é que acabam a sua. Eu agora pus a rolha ali no coiso. Eu não quero Eu não quero encher isto de água ainda agora. Isto há-de ser cheio de água mas não é agora. Tem que passar aqui uns dias para assentar a terra, e estas pedras, esta coisa que eu aqui pus, mas vocês têm que acabar de abrir isso". "Pode largar a água que a água não vem cá, homem"! Toda a gente dizia que a água que não ia lá! Não era só o patrão: era o guarda, era os carreiros, era… Toda a gente que andava lá. Aqueles dois que andavam lá comigo também diziam que a água que não corria. Eles diziam que a água que não corria. Digo eu assim: "Bem, eu vou largar a água, mas eu não quero lama dentro do ribeiro". Porque a água quando chegava aquele sítio voltava para o ribeiro. "Eu não quero lama dentro do ribeiro. Se lá cair a lama para dentro do ribeiro, vocês depois têm que a ir tirar". "Pode largar a água à vontade". Eu tiro a rolha, a água vai. E começam eles assim: "Eh! Eh pá, olha lá a já lá a água que vem"! Bem, a terra, uma foi para o ribeiro, outra foi para fora. É claro. Aquilo era uma base de conversa. "Eh pá! Essa é boa! Então a nossa terra daqui parece muito mais alto! Essa é boa! Então, hem? Então não viam vocês"?! Bem , [pausa] quando foi à noite, chegou o patrão. Foi logo a ver do Ângelo que era o [vocalização] o guarda. "Então, Ângelo, então quem tem andado o que é que andou o pessoal a fazer"? "Uns foram para aqui, outros foram para além, outros foram para outro lado, e tal. O André foi fazer a presa". "A presa"? "Pois, ele como vomecê diz que já tinha dado a ordem". "Onde é que ele está"? "Está lá na casa lá em baixo". "Vai lá chamá-lo". [pausa] Eu em vez de ir lá para o lado donde ele me chamou, não. Fui assim: à roda havia ali uma capoeira, fui à roda da capoeira. Quando cheguei lá ao fundo da capoeira, chegou ele, estava eu do outro lado. Digo assim: "Então, o que é que vomecê quer"? "Quero ver o que é que tu andaste andas para aqui a fazer". "Ah, está bem"! Mas sabia eu Sabia até de modo o que é que ele queria. Quando o outro me disse, eu cá [vocalização] sa- sabia já aquilo tudo de cor e salteado. Bem, marchámos, chegámos lá, o homem lá viu a água a correr. "Sim senhor. Está certo"! Marchou. Digo eu assim: "Ouça lá"! "Então o que é"? "Eh pá, eu ainda não estou despachado". "Então"? "Eu agora quero saber qual é que é o maluco". "Ah, então nesse caso sou eu"! audio/CBV18.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV19.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV20.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Tem muito enleio. audio/CBV21.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Ah! Pois é! Coisas que eu fiz! audio/CBV22.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. [pausa] Que é que é [vocalização] para, para para andar o [vocalização] o trilho [vocalização] à volta, e e até se faz os possíveles para o trilho não ir ao chão. Porque o trilho com aquelas lâminas [pausa] morde no chão. audio/CBV23.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não. Foi só para perguntar e se sabia. Olhe… audio/CBV24.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Exactamente. Exactamente, exactamente. [pausa] Exactamente às nozes de cá. A parte lá de dentro é exactamente. As pernas e tudo, era tudo igual. audio/CBV25.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pronto! audio/CBV26.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Eu não vou buscar os outros. Estou eu aqui. Porque já se tem passado alturas de eu estar em sítios aonde haver abastecimento d- de coisas que eu gosto tanto e nem olho para elas. Parece que só de estar a vê-las que fico bem. [vocalização] Uma ocasião ali naquela [pausa] horta da de Mateus, veio para lá um homem mais velho de do que eu [pausa] para meu ajudante. O homem coitado nunca tinha estado assim numa coisa daquelas. Há uma altura qualquer vai-se colher abrunhos… Mas era no tempo que havia abrunhos; agora não há. Eh amigo! Uns além assim rosados, outros até assim quando estavam maduros assim até além… [pausa] E até enjoavam! Além amarelos, além coiso! O homem a- a colher os abrunhos, diz ele: "Eh pá"! E eu olhava assim para ele, dizia assim: "Eh pá! [vocalização] Esse é mal-empregado ir para a cesta"! Mas e- Mas eu mesmo com aquela ideia [pausa] de ele odiá-los. "Coma esse, homem! Esse é mal-empregado ir para a cesta"! [vocalização] Eu, às vezes, apanhava um: "Eh! Es- [vocalização] Este é mal-empregado. Tome lá este"! O homem apanhou um fartão de abrunhos! [pausa] Que eu, às vezes, dizia-lhe assim: "Camarada, então não come nem um nenhum abrunho"? "Vai-te amolar mais os abrunhos, homem"! audio/CBV27.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Eu, agora um dia destes, até dei além à- [pausa] àquela vizinha além da frente – tem uma bolaria… Chamei-a aqui e tinha aqui cinco [pausa] colhidos: "Olha, vai ali acima daquele banco e apanha lá o que está alá". Ela abalou logo toda contente e diz assim: "Calha-me bem, porque eu não tenho lá nenhuns nem uns em casa". audio/CBV28.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV29.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Depois eu marchei pela Rua do Comércio abaixo e o homem atrás de mim a falar sozinho. O homem a dizer assim: "Mas então, eu não conheço o homem de lado nenhum [pausa] e agora o homem faz-me um trabalho destes?! Mas então o que seria isto? Isto seria algum milagre de Deus"? O homem a falar sozinho! Chega cá em baixo, cá de perto da árvore e diz-me ele assim: "Vamos ali beber um copo". Digo: "Olhe, eu acabei de beber agora. Vá lá vomecê beber o copo. Ouça lá, você está contente ou não está contente"? "Estou, sim senhora". "Eu também estou contente à mesma. Pronto"! audio/CBV30.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não, não vale a pena. audio/CBV31.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Ah! O mosto, ah, isso era o isso era o [vocalização] bagaço, a parte do bagaço. Quando era aquele [vocalização] aqueles restos do bagaço [pausa] – sim, aquilo tem mesmo o nome de bagaço – [vocalização] é que é que [vocalização] chamavam-lhe o mosto. audio/CBV32.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [pausa] Eu soube isso, mas agora não me recorda. audio/CBV33.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Com uma vara. [pausa] Ou que fosse de oliveira ou que, ou [vocalização] ou que fosse com um varejão – com um varejão! –, porque isso era então uma vara grande de [vocalização] de castanho. Mas isso já se não vê. Agora o que se vê por aí é canas-da-Índia. audio/CBV34.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV35.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Mas Já não. Aos anos que aquilo está parado, que aquilo não trabalha. Mas quando eu era gaiato, ainda lá fui algumas vezes e vi lá os homens a trabalhar com aquilo. E então aquilo era com uma com umas palancas, metia-se metia assim um num buraco e andavam assim à roda e com com aquele peso [pausa] para espremerem espremer as [vocalização] as seiras. E assim é que é o o trabalho feito naquele tempo. Agora? Ai, valha-me Deus! audio/CBV36.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Aquela levada que tinha um aqueduto para quando havia cheias [pausa] grandes, para não ir água demasiada para dentro da vala. Caía ao açude para baixo. audio/CBV37.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Punha uma certa porção de sal. [vocalização] Foi Punha o fermento, [pausa] que era fermento que se guardava em casa, um bocadinho de massa, [pausa] para fazer o fermento. Aquilo era desfeito dentro da água e depois aquilo ficava metido na massa. Mas era desfeito… [pausa] Por exemplos, era posto numa tigela de molho, [pausa] hoje, já para se amassar amanhã de manhã. Ficava toda a noite e depois no outro dia desfazia [pausa] aquilo conforme o fermento estava. Às vezes podia estar já enresinado alguns bocadinhos e não dar para desfazer. Mas [pausa] desde que estivesse assim dentro de uma certa ordem, aquilo, com a mão, desfazia, e depois era deitado para dentro da, da da coisa. Mas se havia alguns caroçozinhos daqueles, eram tirados para fora. Eram passados por um pano para dentro da massa. Aquilo não era deita- assim deitado à massa; era [vocalização] passado ou por um passador ou por um pano ralo [pausa] para para ser amassado. audio/CBV38.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Não, não era só no lagar. Quer dizer, em casa quem quem queria fazer quando tinha assim o pão mole… Era com pão mole é que é que se fazia aquilo. Naturalmente, se fizesse com pão duro, era capaz de ele não … Era capaz de não de não saber tão bem. [vocalização] Aquilo Quer dizer, aquilo ainda não era lá bem pelo paladar que tivesse [pausa] especial. É [vocalização] Era um estilo, era uma moda. audio/CBV39.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Era a pá. Punha… Conforme era o tamanho que tinha a pá e conforme era a prática que a pessoa tinha, punha [pausa] um, dois, [pausa] ou três pães em cima da pá e zás! audio/CBV40.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Então, o linho [pausa] era semeado [pausa] e depois – aquilo, é claro, era semeado basto; e era uma coisa basta –, e depois era colhido. Quando era que estava feito, que deitava a [vocalização] semente – tinha a semente, deitava a flor na ponta –, deitava a semente e depois aquilo era colhido e era posto assim às mancheias. [vocalização] Não era a fazer molhos grandes. Era assim às mancheias. Aquilo depois ia… Aquilo ia secando. Secando, e depois de estar seco [pausa] é que havia alguém que gramasse aquela coisa. Porque eu, por acaso, gramei dois anos [pausa] isso, o linho. audio/CBV41.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. Cada um tocava em sua maniota. [vocalização] O gajo quando parou estava estafado! [pausa] E faz assim para mim: "Ó alma dum raio, que não sou capaz de lhe tirar a maniota da mão"! [vocalização] audio/CBV42.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não, não. Assim esgarra. Então, isso era o que usavam ali no lar. Era [vocalização] uma coisa com um gancho. E, e, e E agora ali, quando foram os primeiros anos, não faltou eu tirar-lhe os ramalhos secos, esgarrados assim dessas condições. A roca [pausa] colhe muito bem a fruta [pausa] mas há-de-se pôr a gente a direito, o mais direito que possa, [pausa] com o ramo de aonde está a fruta [pausa] e a empurrar para lá. [pausa] Nem Não é a puxar para cá. Quem puxar para cá, ela fica lá. É a empurrar assim a direito com o ramo. audio/CBV43.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV44.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Aqui já há muitos anos [vocalização], aqui, estas áreas aqui, era aqui combatida dos lobos. E os lavradores queixavam-se [pausa] que, de vez em quando, [pausa] ovelhas, cabras, coisas dessas assim, os lobos perseguiam isso aí. E depois, a serra de São Mamede é que era que pagava, [pausa] que era o quartel do, do dos lobos. [vocalização] E então os lavradores [pausa] fizeram uma reclamação ao Estado [pausa] e e fizeram uma batida na serra na serra de São Mamede, aos lobos. Apanharam tantos como é que se lá não fossem. [vocalização] Eu fui lá. [pausa] A gente fomos começar aí para o lado de Alegrete – é que a gente começou na serra – direito mesmo à serra de São Mamede. [pausa] Oh pá, então eu, [pausa] eu passei a sítios [pausa] tinha que fazer assim aos pinheiros para ser capaz de passar! [pausa] Porque era pinheiros que davam para vergar. Mas no sítio onde eu passei, dali para baixo, havia ali [vocalização] um coiso qualquer de [vocalização] de corrente de água, e lá em baixo havia um rochedo, e ao fundo do rochedo fazia um grande pego [pausa] de água. E lá donde estava pus-me a contar o pessoal que estava lá. Ao Ao pé desse pego contei lá trinta pessoas! Estou convencido que de, de de mim até lá aonde estavam esses, não ia não passou lá ninguém. [pausa] Os lobos tinham lá muito campo para lá ficarem. Não passou lá ninguém porque o caso era este: é que [vocalização] o mato, juntamente ao- aos pinheiros, [pausa] era muito. E então a carumba ia caindo em cima daquele mato, ia acamando o mato. Mas acamava até um certo ponto. Havia vezes que eu levava assim um pau e punha o pau assim e sumia-se-me o pau [pausa] todo [pausa] para chegar ao chão. [pausa] E outras vezes eu não punha o pau, eu punha lá os pés, ia logo para baixo, [pausa] até chegar ao chão. Era a carumba que estava [pausa] no coiso. Parecia que era o chão mas não era o chão. Era o mato que estava debaixo da carumba. audio/CBV45.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV46.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Isso era depois de a terra estar lá posta [pausa] é que ficava [pausa] uns buracos assim [vocalização] perto do chão. [pausa] . E depois assim ao meio d-, do, do da altura do do coiso [pausa] ficava também outros buracos na terra [pausa] para coiso. E ficava um no cimo. E quando [pausa] o lume perseguia um sítio daqueles buracos , [pausa] via-se logo. Por o fumo, via-se logo que o lume que estava a trabalhar forte naquele sítio. Punha-se-lhe um terrão em cima [pausa] e se se visse que aquilo que estava a demasiar um bocadinho, punha-se-lhe terra para cima que era para tapar a respiração, que era para o lume não ir lá. Porque se o lume começasse continuasse lá a fazer, fazia era cinza; não fazia carvão. audio/CBV47.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Porque [vocalização] era ruim. Era bom por um sentido, mas era ruim por outro. Se a pele Se a lã ficava para fora, [vocalização] mal qualquer coisinha de água, aquilo encharcava logo. [pausa] Se a lã ficava para dentro, [pausa] ficava o casco para fora, [pausa] começasse a apanhar água, apodrecia depressa. audio/CBV48.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Para sair. audio/CBV49.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Aquele patrão ali onde eu estive, quando eu comecei a conhecer aquilo, ele tinha ali um pastor muito antigo. [vocalização] O homem ganhava [pausa] sessenta ovelhas. [pausa] O homem tinha de polvilhal sessenta ovelhas. E de comer! Ia buscar o comer ao monte. [pausa] Ele deu [pausa] Aquele homem [vocalização] foi dos homens que eu conheci aí [pausa] mais exemplário nessas coisas foi aquele homem. O pastor começou a envelhecer [pausa] e tinha lá um filho [pausa] – foi toda a vida a ajuda do pai –, esse é que ficou a ser o pastor. [pausa] O pai mandou-o para casa, [pausa] mas o filho todos os meses [pausa] lhe ia levar o dinheiro; [pausa] e levava-lhe [vocalização] um tanto de farinha [pausa] para eles amassarem para terem pão. [pausa] Faz de conta, quer dizer, se lhe havia de dar o pão, dava-lhe a farinha; porque dar-lhe o pão, tinha que todas as semanas ir lá levar o pão, não era? Assim, levava-lhe a farinha, eles amassavam. Esta semana amassavam [vocalização] uns tantos quilos; e para a semana amassavam outros tantos quilos; e assim é que é que que a pessoa se… Antes dest- Muito antes destas coisas [vocalização] serem conforme são , [pausa] hoje! audio/CBV50.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Passavam todas. audio/CBV51.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Foi a admiração, lá da tal quinta onde eu estive, foi o homem que me diz assim para mim: "Ó senhor André, vomecê é capaz [pausa] de debulhar o cizirão"? Eu tinha por jeito dizer assim [vocalização] sempre: "Ah! Dá-se-lhe um jeito"! E eu fui para lá com o tal mangual, [pausa]debulhei aquilo, [pausa] ensaquei-o limpei-o, ensaquei-o, [pausa] eu depois digo-lhe para ele, digo: "Olhe, já pode mandar buscar o cizirão; já está [pausa] coiso". Mas eu [pausa] a debulhar o cizirão e a pensar assim: ora lá na minha terra toda a gente tem zanga a isto [pausa] porque isto, onde quer que é que aparece, começa a crescer e a agarrar-se [pausa] a isto, àquilo… E aquilo cresce sei lá o quê! E aqui semeiam semeiam isto. audio/CBV52.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Se tinha Se tinha [vocalização] boas condições. Aquilo vai uma gente, umas pessoas qualqueres [vocalização], talvez com aparelhos – que eu nunca assisti a isso – [vocalização] inspeccionar o animal. E [vocalização] se por acaso não não der [pausa] lá ao coiso que é o coiso, eles não registam aquilo. audio/CBV53.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Serve para sempre. audio/CBV54.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Mas dantes havia muito isso e agora não há. audio/CBV55.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E, e s- E caía ali para dentro duma coisa qualquer que eles tinham a aparar. audio/CBV56.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Isso, isso, isso, i- Isso servia era para dar [pausa] aos porcos. audio/CBV57.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Umas eram cheias duma qualidade de carne e as outras eram cheias doutra. audio/CBV58.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois, também, também, também. Também era [vocalização] metido juntamente como a outra carne. Porque [vocalização] aquilo, [pausa] às vezes, sim, há uma carne que vai sempre apartada para aquela intenção. Mas, muitas vezes, carne mesmo que costuma ir noutras coisas, metem-nas e depois o tempero é que faz aquilo. Porque [vocalização] os chouriços têm um tempero; [vocalização] as cacholeiras têm outro tempero; os mouros têm outro tempero. Têm um tempero assim diferente; mas, mais ou menos, quase imitante. Porque a gente depois vai comer [pausa] e [pausa] não dizemos que tem tudo o mesmo gosto. Não. Cada uma coisa tem o seu gosto. Mas [vocalização] eu , [pausa] era uma das carnes que eu… Eu gostava da carne toda. Do porco, gostava. Era da carne que eu mais gostava que é a que eu não posso comer agora. [vocalização] Mas não não se pode dizer [pausa] que [vocalização] que a carne que havia carne de porco que era ruim. Eu achava-a toda boa mas a que eu gostava mais era das cacholeiras. audio/CBV59.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E se ele devia favores ao patrão! audio/CBV60.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Então, era uma maneira de traver de travadeira. [vocalização] Era uma coisa para travar. Porque e- ela fazia assim mas se não levantasse a mão, ela não chegava lá às oliveiras. E então, levantando a mão, chegava às oliveiras. E as Era gaiato quando eu vi isto. Eu ia a passar pela estrada e vi a a vaca levantar a mão para ch- para ser capaz de chegar aos ramos das oliveiras. audio/CBV61.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) ia lá logo para a palha. [pausa] Eu ia, levantava o pano cá na frente e tirava o o- e tirava os ovos. Bem, eles quando viram aquilo: "Eh homem dum filha da puta! Então não arranjou mesmo uma ideia para os para as galinhas não comerem os ovos"! Você sabe quando foi no fim para aí duns três meses ,[pausa] as galinhas o que não foram capaz foi desfazer o cordel, mas à roda do cordel, [pausa] picadela agora, picadela logo, picadela e picadela, picadela, até que o cordel saiu todo de lá. E as galinhas passaram a ir pôr lá debaixo do pano. Mas como aquilo estava tapado, [pausa] elas não viam, punham os ovos e não os comiam. Mas ,[pausa] com a continuação, começaram a comê-los, lá mesmo debaixo. "Eh, rapaz! Espera, vou fazer isto doutra maneira". Arranjei daquelas sacas que vem que vinham com o, com o, com o com o adubo – que era aquele plástico grosso –, tirei as outras sacas que lá estavam e pus aquelas. [pausa] Pois elas com muito tempo também alargaram os buracos! audio/CBV62.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não [vocalização]. Os fracos [vocalização] eram caseiros [vocalização]. audio/CBV63.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) É a mesma coisa. Onde quer que elas apanhem uma entrada, é aí que elas se aquartelam. audio/CBV64.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV65.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Digo: "O que tu precisavas" – quando era assim –, "tu precisavas eras de ser engatado a uma carroça"! [pausa] Quem diz uma carroça diz um carro de mão que já vai uma pessoa a guiar. Já Se a pessoa não empurra o carro de mão ou não o puxar, ele não vai. audio/CBV66.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E então é o pimplego. [vocalização] Isso é Isso também é uma praga levada da breca. Nos favais, aonde é que isso carrega, isso [pausa] dá cabo até dum faval. audio/CBV67.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Então nalgum no outro naquele dia estávamos aí… Às vezes, quero ir buscar algu- alguma coisa. " [vocalização] Vou além buscar aquela bengala". Chego além: "Mas o que é que eu vinha aqui fazer"? audio/CBV68.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Não. É para mais É para mais encarnado. audio/CBV69.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/CBV70.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Mas tenho aí dessas. Tenho. Aí há mais. audio/CBV71.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) [vocalização] Não é muito pequenina; é assim de meia média. É assim de meia média: nem é pequenina, nem é grande. É assim uma [vocalização] coiso. Mas não sei que raio de ferrão tem o bicho [pausa] que em bem elas aparecendem, [pausa] os animais, aquilo é o cabo dos trabalhos. audio/CBV72.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) E em bem em bem lhe partindem a casa, eles morrem. Porque ele [vocalização] os gajos são criados dentro da casa. [pausa] Em lhe faltando a casa, morrem. audio/CBV73.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Mas eu sacudi-o assim: "Eh pá"! Esmaguei-o todo ali debaixo duma pedra. [pausa] Mas depois de ter esmagado – isto era gaiato –, depois de ter esmagado o pássaro o bicho, digo eu aqui assim: "Grande avaria eu fiz! Então eu estive a pegar bulhar com o animal, então o animal ia a fugir de mim, eu corri atrás dele"! O animal via que não era capaz de me dar saída, voltou-se contra mim. audio/CBV74.mp3 Cabeço de Vide (Fronteira, Portalegre) Pois. audio/MIN01.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Assim começou [vocalização] vai duns três anos já. audio/MIN02.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Dos sessenta e cinco. É, é. E eu tenho setenta. audio/MIN03.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Tudo muito caro! Olhe que agora qualquer [vocalização] artista aqui [vocalização], ele é [vocalização] cem escudos por hora e [vocalização]… A trabalhar! Um artista? Oitenta e [vocalização] e noventa e cem. Veja lá! E se ao menos, muitas das vezes, se desembaraçassem serviço, não é? Mas às vezes estão a [vocalização] que passem as horas! audio/MIN04.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Não, não. Eu tecia por encomenda. Quem encomendava, às vezes, davam até o, a, o [vocalização] a lã e assim [vocalização]. E [vocalização] a gente tecia e depois ia levar. Ganhava aquele bocadinho, só. audio/MIN05.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Vamos vivendo. audio/MIN06.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) Não como de manhã. Mesmo quando me deram comprimidos para tomar agora quando estive assim, tinha de tomar dois [vocalização] ao almoço, ao meio do almoço. E depois tomava um às dez horas [pausa] do dia. E depois tomava outro antes de do comer ao meio-dia. E depois ao meio do comer – a m- a meia hora antes do comer e logo ao meio do comer – dois. E depois de tarde outro, [pausa] às sete da tarde. E an- [vocalização] E antes do comer, meia hora, outro. E depois ao meio do comer outra vez. Mas eu de manhã não comia, não os tomava. Sim, os de de manhã só só tomava o que tomava às dez horas, o mais não tomava mais nenhuns que não comia. Bebo o gole da cevada… Pronto, já estou! [vocalização] A gente passa. Chega-se a uma certa idade já a gente está feito, a gente não precisa de muito comer. É assim. audio/MIN07.mp3 São Lourenço da Montaria (Viana do Castelo, Viana do Castelo) A vida é assim! Tem que ser! audio/MIN08.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) Andei na escola aqui, andei. Era uma professora, era lá da beira do Porto. Ali do Porto, ou fosse ali de [vocalização] Penafiel, para ali. Morreu agora há pouco. Mas devia de morrer… Devia ter uma idade boa. É. Pois é. É assim. audio/MIN09.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) É. E aqui assim na [vocalização] , quando era no meão, tinha então assim também umas chapas em ferro… Agora, por fim, já se usavam uns parafusos. Agora eu, agora não tenho. Agora esbandalhei tudo, senão inté amostrava-lhe alguns velhos. Agora vem – há-de estar aí a chegar logo – umas [vocalização] já é tudo em fe-. É. É de ferro. audio/MIN10.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) Eram as cestas. audio/MIN11.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) Com a casca do milho. É, é. E é assim. audio/MIN12.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) Não trouxestes? audio/MIN13.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) É, é. audio/MIN14.mp3 Bade (Valença, Viana do Castelo) "Xau", "xau" , "xau" , "xau" , ou "xau" . Parece que é americana a palavra. Oh, "xau" , "xau" . Oh, "xau" . Para dizer "até logo" dizem "txau" ou "xau" . audio/MIN15.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Muito respeito. Muito respeito um para o outro. Respeitou-me como [vocalização] se fosse irmã dele e [vocalização] . E ia [pausa] Os meus pais iam para Viana, eu ficava em casa com os meus irmãos porque era a mais velha… Eram nove irmãos [pausa] e eu era a mais velha deles todos – não é? – e é que trabalhava no campo, e é que os levava… Tinha vaquinhas para lhe tirar o leite, e fazia assim… E pronto, ele ia para nossa casa, pronto! Um dia foi, ele [verbo] a tropa… Queria casar antes de ir para a tropa; eu não, que devia ser muito canalha. Deu a tropa, dezoito meses, na Póvoa do Varzim. Veio em Maio. Depois a minha mãe, não sei se estava chateada, disse: "Ó rapaz! Tu, a mi- a minha filha para ti já não é"! "Ai, tia Armanda! Só Deus do céu é que nos há-de desapartar um do outro"! "Então 'casende-vos'"! A minha mãe emprestou-nos cem mil réis naquele tempo. Pronto, fui ao padre. O padre queria… Viu-lhe a nota de cem mil réis, já queria [pausa] cem mil réis por casar. [vocalização] Diz ele logo: "Não. O senhor abade casou fulano c- o primo com primo. E [vocalização] E eu que não sou nada, quer-me cem mil réis e ao outro levou menos". Casámos na mesma altura. Esse rapaz até morreu agora na França. E então ele pegou e [vocalização] pronto. Diz: "Então dai-lhe lá". E casámos, quedámos, viemos para aqui para à dos meus sogros. Estive aqui sete anos com os meus sogros, Deus lhe perdoe. Depois fomos para o moinho – que acolá em baixo há outro moinho. Abaixo deste, há outro moinho, e outro lá em baixo. E nós depois fomos para lá… [pausa] Mas depois então é que quando as crianças começaram a crescer, viemos para aqui outra vez. Lá não tínhamos [vocalização] assim a conveniência – a casa era só uma e não tínhamos. Tornámos a vir para aqui e depois os falecidos faleceram… Estamos aqui. Agora os meus filhos, um tem uma casa aqui adiante [pausa] – tem aqui uma casa –, a rapariga tem lá adiante outra, e outra está em, em Lavra- em Ponte da Barca casada… E o meu [vocalização], meu fi-, o meu mari- os meus filhos queriam comprar isto. É recordação do pai – não é? Como o pai nasceu aqui… E o pai nunca saiu daqui para lado nenhum. Nadinha! audio/MIN16.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Porque eu fui criada nisso, eu sei. audio/MIN17.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Não cozia . Nada! Porque não tem ligação. Nunca na vida pode… Se ficar Se cozer o pão sem mistura, ele é áspero, não, não não tem liga. audio/MIN18.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Pois. audio/MIN19.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Nem na- Às vezes, a minha mãe [vocalização] nem nas feiras me dava. E eu já tinha aqui os meus filhos pequeninos e, às vezes, trazia um trigo – que eram três por dez tostões – e chegava aqui dava um cachinho poucochinho a cada um. Era broa é que a gente fazia! audio/MIN20.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Uma horita. E depois ao fim daquela hora, tor- a gente torna tudo a varrer, tudo varridinho – [pausa] aquelas folhas saem torriscadas que vêm do lume, não é? Pronto, está o pão cozido. audio/MIN21.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) E por aí punham lá o forno e iam lá cozer. Mas é mais perigoso, que o lume pode apanhar ar, sabe? Quando estejam Quando estejam a assar… O forno a arder, convém estar sempre tudo fechadinho. Em se abrindo o forno para o ar, pode-lhe custar a vista. audio/MIN22.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Está bem. audio/MIN23.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Ora! Está a ver a vaidosa! Mesmo agora que não anda ande nada à cabeça! Agora era é na mão ou ao ombro! audio/MIN24.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Já morreu isso tudo. audio/MIN25.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Ah! Redes, também havia. Havia. audio/MIN26.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Como matador de porcos também era alinhado, pescador de lampreias [pausa] igual, de peixe, tudo. O que eu so- aprendi, [pausa] fazer um barco, fazer as rodas das azenhas, tu- eu fazia isso tudo. E quando não podia fazer, chamava gente que me ajudasse. audio/MIN27.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Os besouros do sono, é. Eu nunca matei nenhuma aranha por causa disso! Vi a inteligência dela! [pausa] Estava quietinha, eu não a via! Estava dentro da casotinha que parecia [pausa] algodão! E sentiu [vocalização] a teia da aranha a bulir co- com a mosca, e ela lá foi, zás-zás, zás-zás, apanhou-a, [pausa]chupou-lhe o sangue, e a m- a mosquinha [vocalização] a dar com as asas e com tudo. Parou, deixou e depois veio-se embora outra vez. E ela caiu abaixo. Chupou-lhe o sangue! Eu nunca matei nenhuma aranha! Até quando vejo aí no quar-, na na banheira, que elas caem que não sobem, eu agarro num coisinho e boto-as para fora. audio/MIN28.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) [vocalização] Tem sítios que não mas tem outros, por acaso, que tem. Aqui o meu vizinho, aqui o o Antonino, que isto é do Antonino, [vocalização] tem um muro também por baixo por o. É o caminho por aí fora. Eu tenho a parede de cima, ele tem a parede dele debaixo. audio/MIN29.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Pois. audio/MIN30.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Não senhor. É [vocalização]: afunda-se e a água nasce mas depois é tirada com um motor. audio/MIN31.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) É. [pausa] A que estava no moinho estava no moinho. E a outra estava em baixo… Agora, com certeza – eu já há muito que lá não passo –, agora, se calhar, até já já apodreceu por lá. audio/MIN32.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Pois. [pausa] Pois, pois. Se estivesse o tempo bom. audio/MIN33.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) e e dobra e depois mete-se no mete-se ao jugo para cima. Eu tenho. Eu tenho aí um também desses. audio/MIN34.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) É. audio/MIN35.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) Foi s-, foi Foi, sim senhora. Foi sempre a trabalhar nas terras. audio/MIN36.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) à mão. Mas, mas Mas nós nós era com o malho. E depois a gente deitava, fazia-o num feixe, e ia-o levar ao tio Antipas. Ele tinha um [vocalização], tinha um [vocalização], um [vocalização] um engenho – vi-lho fazer – que tinha assim uma [vocalização] umas rodas, umas rodas da de botar a água. E depois ele sempre com a mão, a [vocalização] sempre a enrodilhar, fazia à moda du- dumas mantas grandes. Chamávamos-lhe nós mantas, porque era assim. A gente depois trazia-o, de vir assim, trazia-se, [vocalização] espartia-se – dizíamos nós espartir. Fazia-se assim: punha-se assim às manadas, assim às manadas. A gente tirava-o da, da da coisa, da [vocalização] da manta – chamávamos nós a manta, pronto – e [vocalização] e depois punha-se às manadas. Punha-se às manadas, a gente depois punha-o ao sol para ele, para ele ficar para corar, branquinho. Depois de corar, [vocalização] espadelava-se-lhe. Era com a com a espadela [vocalização] a espadelar em cima dum… Ele era um… Tinha a gente assim um [vocalização] um cortiço de cortiça, à moda de… E a gente depois espadelava com a espadela e [vocalização], e [vocalização] para, para ele ficar maciinho, para ele ficar bom – para ele ficar bom. audio/MIN37.mp3 Arcos de Valdevez (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo) E era num cortiço, era. audio/FIG01.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) É. E este é que era o chá da horta, que faz bem aos estômagos, olhe. audio/FIG02.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Olhe, isto é montraste. Também há aí muito aí à nossa porta. audio/FIG03.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) fininha e depois… audio/FIG04.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Ainda Ainda conheço tudo! Então eu, graças a Deus, cultivei tanta tralha! audio/FIG05.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Sim, sim. É, é. audio/FIG06.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Pois é. audio/FIG07.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) É. É assim. audio/FIG08.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Era, era. audio/FIG09.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Toda a vida assim fazíamos. audio/FIG10.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Já não me lembra. É. Também as coisas que se passa muito tempo… audio/FIG11.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Olhe, além agora, quando andava a gente às castanhas, era o que mais lá aparecia, que eu lhe dava pontapés. [pausa] É, é. audio/FIG12.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) É, que afastam as moscas. audio/FIG13.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Ainda não experimentei. [vocalização] Faço assim chás, quando assim é que estou constipada, mas assim, com mel e assim, mas [vocalização]… audio/FIG14.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) [vocalização] Servia só para feitio e para sombra. audio/FIG15.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) a madressilva. Como a celidónia, é. audio/FIG16.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Também [vocalização] diziam que eram de amieiro. Também. audio/FIG17.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) É o que mais se agora cria é [vocalização]… E também também o tal [pausa] bracejo. audio/FIG18.mp3 Assanhas (Celorico da Beira, Guarda) Andaram a estudar. audio/FIG19.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Isso era uma coisa muito boa! audio/FIG20.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) É feita uma cova. [pausa] Depois, dali, é feita uma fogueira. Põem-lhe as cepas tudo em cima. Põem-lhe em cima a arder e fica ali quanto tempo a arder. No final de aquilo estar tudo ardido, em brasa, escolhem um bocado de terra fina, põem-lhe primeiro umas ramagens por cima, e depois tapam com terra fina, porque, se for grossa, o calor vem-se embora e [pausa] e depois arde. Depois, quando vão à procura dele, já lá não está. audio/FIG21.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Sim senhor. E na horta… audio/FIG22.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Pois. audio/FIG23.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Sim senhor. audio/FIG24.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Está bem. Então arranje-se e a gente vai falando pelo caminho abaixo. audio/FIG25.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Bola. A bolita. É uma bolita. audio/FIG26.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Então, eu agora fiquei ainda com algum; está todo cheio de bicho!… audio/FIG27.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) trazia-o cozido. audio/FIG28.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) e já não querem o pão negro! audio/FIG29.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) E depois punham-lhe a sega porque sempre cortava mais para para se cortar o terreno. audio/FIG30.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) que faz regadeiras que faz todas essas coisas. [pausa] É isso que o senhor aí tem? audio/FIG31.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Defendem-se. audio/FIG32.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Ah! audio/FIG33.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Sim. audio/FIG34.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Quando foi? Aqui há um tempo, lá em cima na serra sentia-se perdizes [vocalização] bravas e coisa. [pausa] E eu passei por lá – andava à caça –, ele quando alevanta um um [vocalização] … "Já andam a tirar as perdizes"! Atirei ao gavião, ao tal gavião. [vocalização] Quando deixou uma perdiz – [vocalização] já levava uma perdiz! audio/FIG35.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Numa excursão. E [vocalização] diz-me o chofer: "Você fica na camioneta ou vai para alguma pensão"? "Não. Quero ficar numa pensão". "Olhe, se quiser, venha para o pé de mim. Venha para a mesma pensão que não o servem mal". Bem para lá fui. [pausa] Nós deitámo-nos deitámos era perto de meia-noite. Quando foi aí daí a bocado: "Hum, que raio! Não sei que é aquilo"! Pois sim. Que resultado? [pausa] Lá consegui outra vez dormir outro bocadito. Bem não, [pausa] acendo a luz… Ai Jesus! Começa uma pequenita que lá tinha o o chofer: "Quero-me ir embora! Quero-me ir embora"! Acordou logo para ali mais gente e tudo. Eu acendo a luz, vou ver, levanto o travesseiro, vejo… Era cada um! [vocalização] Abri a porta e digo: "Ó gente porca do caneco"! Abri a porta, vim-me embora cá para fora e vim-me direito à camioneta. Quando [vocalização] chego junto da camioneta, estavam lá mais três aqui de Ribamondego – dois irmãos é que era –, dois irmãos, que estavam também aqui, [pausa] que tinham ido em excursão… Eu digo: "Então, vocês também já aqui"?! "Oh, deixe-nos aqui! Deit- Fomos ali para uma pensão, diz que era tão limpa e os percevejos levantavam-nos no ar. Tivemos que fugir"! "Olha, ainda bem que já não fui só eu"! [vocalização] audio/FIG36.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Quando é nas feijocas, que a gente semeia as feijocas, tem que a gente andar a matá-las porque senão não cria nada. Comem a flor, picam a flor, e pronto, vai-se embora. audio/FIG37.mp3 Figueiró da Serra (Celorico da Beira, Guarda) Para ir fazer o alqueve, quer dizer, é uma lavragem [pausa] que se faz de qualquer maneira. [vocalização] É alqueve, pronto! audio/ALV01.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois. audio/ALV02.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Põe a brita para por quase uma espécie de vingança, que ele já não precisa disso. audio/ALV03.mp3 Alvor (Portimão, Faro) E não E não há que se fechem. Não pode ser assim. A gente conhece que têm que ganhar. Eles estão ali… Eu ganhar da minha vida e eles ganharam da deles! Mas não poderá ser assim tudo à barrigada. Que mais tarde quem tem fome morre. [vocalização] E a coisa prolonga-se pelo lado do mal… Sempre a gente explorar o outro, matar o outro, explorar, explorar! Queremos é igualdade, mas quer dizer [pausa] tudo viver de barriga cheia. "Só para mim"! Então e como é os outros? Como é os nossos filhos? É porque eu hoje tenho negócio que os meus filhos amanhã podem ir lá trabalhando. E a gente temos que levar-lhe alguma coisa. Porque a gente, nós precisarmos de alimento, precisamos. Mas temos que ser iguais . E não somos. Ainda somos menos que era-se antigamente. Agora ainda é cada vez pior. Sim, se aquele vende a dezano- a vinte nove, ele, se puder, vende a trinta e cinco, o outro vende a quarenta e nove, e coisa e tal. E a gente já sabe que temos que ganhar, temos… Porque hoje é assim. É demais, explora-se é demais! E cada vez pior! audio/ALV04.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Dá ao Algarve! E fora do Algarve! Além de a gente pagarem e [vocalização] coisa e que vamos arriscados. Ainda se tivesse uma barra boa, nova ou assim uma barra escapatória, ou um rio escapatório, melhor, ainda se trabalhava [pausa] mais à foita. E como o filho de Alvor é arrojado e é trabalhador… Malandro não é, o marítimo não é! Não é, minha senhora, não é. audio/ALV05.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Foi muita… Alguns, vários foram, mas não era muita. E a classe marítima também foram. Também foram também os pedreiros, foram… Mas, aí para baixo, aí para baixo para Quarteira, e de Pêra para baixo é que foram mais. Assim aqui foram mas não era muito esta classe. Foram muitos – foram alguns – mas não era assim de dizer foram deixamos falta, não senhora. Podia ser. A gente, isto é, a terra tem muito do pessoal, podia ir [pausa] cinquenta ou sessenta ou setenta, mas há terras que foram mais de duzentos ou trezentos, aí dos arredores. audio/ALV06.mp3 Alvor (Portimão, Faro) E E a casa dos pescadores agora é junto. E é um homem só. Isso é pouco. audio/ALV07.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A vida do pescador é assim. audio/ALV08.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A sardinha também faz mal. Muito bom peixe, mas faz mal a doenças. Agora qualquer doutor pode receitar comer um besuguinho, comer uma safia… Nada faz mal. E a faneca então é a principal. A faneca então é que não faz mal a pessoa nenhuma. O peixinho branco, o peixinho branco não faz mal, tenha a doença que for. audio/ALV09.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Porque matando a criação é que não lucram nada. audio/ALV10.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois. audio/ALV11.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Tem… É exactamente… Quem a vê e não conhece diz que é igual, mas não é igual. O outro peixe é mais saboroso, é outro peixe melhor. A gente diz que é igual. audio/ALV12.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Bateu no barco [pausa] e bate em qualquer pessoa… Já tem batido numas [vocalização] certas pessoas. Que o peixe vem… Eu acho que o peixe, quando vem, quando avoa fora de água, fecha os olhos. Se ele visse, ele desviava-se. Ele vem daquela direcção, seja para onde é que for, ele ate- aterra. audio/ALV13.mp3 Alvor (Portimão, Faro) uma espécie acinzentada [pausa] e comprida. Há corvinas de [vocalização] quarenta, cinquenta e quase sessenta quilos. audio/ALV14.mp3 Alvor (Portimão, Faro) É o peixe que dá mais filetes, em bondade, em bons, é a xaputa. A xaputa é um peixe bom! É um peixe do alto. Às vezes vem à terra [pausa] com as sardinhas, vem à terra, mas retira sempre. É só um peixe sempre da fundura. É a xaputa. audio/ALV15.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Também rente à terra, é a viúva. Junto com o sargo, há a viúva. Não há tanto enquanto c- cardume, mas há. [pausa] Aparece. audio/ALV16.mp3 Alvor (Portimão, Faro) E há duas Aqui há duas qualidades de pargo: há pargo-vea-… [vocalização] Agora é que eu me lembrou: há pargo dourado, [pausa] que tem uma malha [pausa] na cara. Será esse que o senhor diz. É o pargo dourado. audio/ALV17.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Não é muito próprio para o doente. É um peixe mais seco. audio/ALV18.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Exactamente, é a sarda. [pausa] A sarda é bestial. Ele é um peixe, [pausa] é gordo, [pausa] mas é um peixe que num instante faz-se mole. audio/ALV19.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Aí É bom para comer. [pausa] É bom para comer, mas o que é, a gente olha, como é pequenino… É assim um peixe muito branco, muito luzidio… Ele parece-me que [pausa] há duas raças, há uma que não cresce muito, é assim tamanho de um dedo e há outros maiorzitos. Mas que ele é bom para comer, é. Nos rios é que cresce mais um bocadinho. Na Fora da barra nunca crescem muito. audio/ALV20.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois era. audio/ALV21.mp3 Alvor (Portimão, Faro) É uma serra completamente. audio/ALV22.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Tem a serra no rabo. Uma serra com três quinas: para dentro enfia e para fora não pode-se tirar. Já tem sido um caso muito sério. A serra é assim do lado de trás. Enfia… A serra é assim. Vai enfiando. Indo para dentro, não se pode tirar. Aquilo é Uma picada daquilo é uma é uma desgraça. audio/ALV23.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Agarra-se sim, agarra-se… Mas aqui é pouco, lá na costa norte é que há mais. Mas não quer dizer que não haja, mas ele é é raro quando se vê. E é a lampreia. audio/ALV24.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Sim. Já não tive cómodo [pausa] e agora tenho. audio/ALV25.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Eu fui um, um um escravo em escr- escravidão… Quando quis orientar a minha vida – porque nada tinha, é claro, as coisas são assim, e eu fui um escravo –, eu cheguei a d- a me deitar ao mar, de noite, ir daqui [pausa] a remo. Ia-me deitar além à barra, de noite, ao mar, com água pelos peitos, nu, [pausa] para vencer a maré, para vencer a vida, para não voltar para trás, por causa que a maré não deixava a gente seguir. Porque não tinha-se motores, não tinha nada. Cheguei a ir nu. Chegava de fora da barra, dentro do Hugo, a tremer com o frio, quase quase a rilhar com a frieza. A gente chegávamos ao Hugo, que não tinha medo nenhum. Pois, e agora, agora, a pessoa já vai mais [pausa] tendo mais tremor, mais medo! Ele nunca me olhava a nada, nunca tinha medo nenhum! E mesmo… [vocalização] Então, que eu, eu andei vários anos aqui à vela, ao dia. Ia ao dia. Mas o senhor agora pode perguntar, pode calhar ali, ou pode perguntar a qualquer pessoa: o tio Aprígio, o rapaz que está lá abaixo, que já foi contramestre. Sem ser Aprígio há dois: há o tio e o sobrinho. Aprígio foi contramestre. Aprígio! E eles dizem-lhe… Se um qualquer querer dizer mal, mas os outros não deixam. À confiança. audio/ALV26.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Eu parece-me que aquilo do bacalhau já não é coisa existente. Mas eu, a pesca que eu não corri foi o bacalhau. Tenho corrido várias pescas, mas à pesca do bacalhau ainda não nunca fui. Era para ir mas não fui. E talvez tivesse razão de não ir. Isto, [pausa] é sacrifícios. audio/ALV27.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Também tem a ova. Tem a ova tal e qual que [vocalização], enfim… Tem ovos como a galinha. Tem, nos ovos grandes, tem um género de ovos pequenos. Os ovos grandes, acho que os ovos grandes galados vão levar aos pequeninos. E têm daqueles… [vocalização] Arrumam-se aí em certas [pausa] moitas, certas arvorezitas, e [pausa] tiram aquilo fora. E daquela ovazita pequena é que nasce o choco. Portanto, aquilo gera. E a gente vê ele gerar dentro. A gente às vezes esborracha, é uma coisita preta. A ova é preta. A ova é branca, mas quando está no choco, deixa-a agarrada àquelas pernadas de árvores, deixa a água preta. E a gente às vezes esmigalha, vê o choquinho pequeno, gerado. [pausa] Muitos, vários. Oh, o choco tem muitos! Muitos, muitos, muitos, muitos! É centos. audio/ALV28.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A tartaruga. Com a aguagem apanha-se. Não quer dizer que haja sempre. De Inverno pouco aparece. audio/ALV29.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Há várias qualidades de peixe que até ainda nós não se conhecemos. Eu apanhei aqui há tempo um peixe – já há duas vezes que apanho aquele peixe – [pausa] e não sei que peixe é. [pausa] O peixe não é muito grande. É um peixe aí dalgum palmo. E não sei que peixe é. Tenho que Conheço vários homens do arrasto, conheço vários colegas e não sei que peixe é. Eu amostrei-o [vocalização] a alguns poucos deles e não souberam [pausa] dizer que peixe é. Já há duas vezes que apanho aquele peixe. Apanhei ele quando era rapazinho e apanhei no outro dia, já o ano passado. Eu não sei que peixe é. Um peixe desconhecido! Portanto que ainda não está tudo… audio/ALV30.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A tonina é uma espécie de uma mulher. É criadeira como a mulher. A tonina é uma cri- é criadora como a mulher. [pausa] Portanto que E chora e tudo, quando os filhos… Quando apanham uma, elas começam a chorar. Os filhos começam a chorar como as crianças. Tal e qual uma criança. E é até amiga do homem. A tonina é um peixe que… [vocalização] A gente vai para o mar e se a gente tiver lá toninas, a gente começa a assobiar, elas vão, andam sempre de roda da gente. Não fogem. Não têm medo da gente. Mas já houve um tempo, aqui há uns três anos, que foi proibido de ela as apanhar. Que é um bicho é um bicho que tem muita inteligência. E agora apanham… [vocalização] É um peixe que antigamente não era conhecido para comer. [pausa] O peixe não faz mal à pessoa. A gente pode estar… Pode estar muito rente, e não faz foge. É como a mulher. É criadora como a mulher. Acho que ela só cria dois. Dois. É como a mulher. Só têm dois. É mamífero. [pausa] É claro, lá tem as mamas. É o destino da vida. Mas mamam na mãe como a como mama a mamam na mulher. E é um peixe. É. Tal e qual como a mulher. audio/ALV31.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Entra para dentro. Come figos. Se junta-se muito de roda das figueiras, come os figos. Come. E o E o alcatraz é só peixe. audio/ALV32.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Há. Ali para cima do Vidigal. [pausa] E há o lontro. Isso é escondido, [pausa] porque eu ainda não vi, mas há. Comem peixe, tendo só do peixe… O lontro , [pausa] diz que é uma espécie dum canito pequeno, muito gordo. Ainda não vi mas há [pausa] e há. Às vezes a gente nas valas vê aí os buracos, que só saem de noite. [pausa] Já temos apanhado. [pausa] É o lontro. audio/ALV33.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois. audio/ALV34.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Ou que seja funel. O funel, quando é azul, muito rente à lua; quando é mais espaçado, lá é o circo. Adivinha chuva, adivinha tempos. audio/ALV35.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A estrela da manhã nem em todos os tempos dá, nem em todos os períodos. Agora dá. [pausa] Mas nem em todos os períodos dá a estrela da manhã. É como o cajado e o sete-estrelas. Eu tinha marcado. [pausa] Parece-me que era a vinte e dois de São João [pausa] que aparecia [pausa] o cajado. E tinha marcado o período do antigamente . Mas agora já vai-me [pausa] esquecendo. Sabia quando nascia o cajado e sabia quando nascia… audio/ALV36.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Sim, quem não tem nunca pode comprar. E as ideias não são iguais. Há quem diga assim: " [vocalização] Ah, isto é comer e beber enquanto são novos. E a gente cada qual tem a sua ideia". E eu digo então: "Comer e beber é depois de ir mais para a idade". Sendo novos, forramos e depois quando se chegar à idade mais avançada, já não se pode trabalhar, temos então é que comer e beber… Na idade é que é; uma pessoa quando se é novos, poder, que pode-se. Se se puder; e se não se puder, paciência. Mas da idade é que precisa a gente de ter mais conta. E há o contrá-. Há alguns que dizem: " [vocalização] Ah sendo isso de novos, é gastar e beber"… E mais tarde em sendo velhos?! Quando eles queixam-se quando a gente estamos a dar alguma coisa aos nossos filhos. É porque o diário do marítimo não é certo – se for só um diário. [pausa] Se fosse corrido, pois eu não me importava. Este ano ga- Este mês ganho dez, sei já que para o outro mês ganho cinco. Depois Pois eu não me importo, vou vivendo assim. Tenho o meu ofício. Mas não. Eu posso hoje ganhar seis, sete ou oito e para o mês que vem posso não ganhar senão dois ou três. [pausa] E assim como posso ganhar dez ou doze ou quinze ou vinte. Vou numa traineira e poupo o mais que eu puder. Portanto temos que deixar de moralizar umas pelas outras. Desde hoje temos que levar a vida [pausa] quando ela trama. "Olha eu agora vou-me alargando mais, pois tenho a vida mais larga"! A gente vai-se alargando conforme vai-se podendo. Tem Tenho sido períodos ruins, anos ruins, e anos bons de pesca. E tem tenho sido também anos de muitas fases pouco. Faltas é claro. Porque quem trabalha nunca sente muita falta, mas há anos mais melhores que outros. Há anos que a pesca falha. E aqueles que tem que nunca nada colhe pois estão mais mal… [pausa] Porque a gente não é não é uma coisa certa. A gente está acostumado, a gente diz assim: "Bom, este mês ganhei dez ou doze contos; vou-mos gastar". Mas lá vem outro mês que vem, não vem nada. A gente tem que deixar de pôr por umas coisas por as outras. Por isso deixa-se umas reservazinhas, vai-se deixando às vezes conforme se pode. Ah, não havendo doenças… A minha mulher é que tem sido… Eu tenho sido saudável. A minha mulher é que tem sido doente. audio/ALV37.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois, era seis – seis, seis, oito. Seis de cada lado [vocalização] e o contramestre e o d- e o mestre era oito. Mas isto hoje em dia já não há nada à, à [vocalização] à acção de braço. Aquilo também é chato de remar. Um motor ali é uns cinquenta contos. Pequeno, não precisava de grande coisa. Que o barquinho é um barco grande, mas aquilo é levinho. Se anda com oito remos, se conduz a remos, então com motor, qualquer motor serve. E aquilo não é para ir lá fora; aquilo é só para salvar debaixo do mar. E é um barco que dá uma rodada no mar, volta-se e põe-se direito à mesma. Às vezes, se é precisar ata-se com correias. Aquilo não faz mal. Baldeia a gente, a gente fica com t- todo cheio de mar e [pausa] na mesma está despejado. Até há um barco para levar umas camisolas de lã se a gente se molhar. Quer alguma coisa, uma coisa também há do outro barco. É um salvação. E o outro barco, às vezes, ele ia pôr o barco além para o mar e a gente de vez em quando ia ali. E é uma grande coisa. E assim não temos… And- Anda-se com medo, não temos nada aqui. audio/ALV38.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Quando cai assim muita chuva? [pausa] Pois, a gente, às vezes, quando cai muita chuva, diz: "Eh! Que pé-d'água"! O pé-d'água é fe- "Eh! Um pé-d'água forte"! audio/ALV39.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois. audio/ALV40.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A gente também estamos em Portugal, também cá há branco. Cai a geada, cai o… Cai a geada!… Cai o orvalho, uma espécie de neve, fica-se brancos e não está frio. Mas cá em Portugal é diferente. Desde a hora que cai branco, já está frio. Já é, já é Já é [vocalização] o gelo. audio/ALV41.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Porque os rios não têm saída. O que é vem é do mar para dentro. Portanto, desaguou, vem, é a baixa-mar e é a preia-mar. Quando a maré enche, [pausa] fica cheio, e, quando a maré é vaza, fica escorrido. audio/ALV42.mp3 Alvor (Portimão, Faro) São solveiros, são solveiros. audio/ALV43.mp3 Alvor (Portimão, Faro) A gente diz… A gente, às vezes, diz assim: "É bocados de gelo". Desde a hora que tenha água gelada, é bocados de gelo. audio/ALV44.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois, pois. audio/ALV45.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois a gente cá na nossa… O que eu tenho t- O que eu sei é: [pausa] dias grandes, marés maiores; noi- dias pequenos, marés mais pequenas. E a maré não é toda igual. Conforme os dias é que regula as marés. Se a noite ser grande, sendo a mesma maré , [pausa] a maré é mais grande; que a noite seja pequena, a maré é mais pequena, é a do dia maior. Que a maré não é toda igual. Quando agora, por exemplo, agora na parte dos dias grandes, a maré do dia é maior e a da noite é mais pequena. Quando chegar à parte das noites grandes, d- das noites grandes, a maré é grande; e os dias são pequenos, a maré é mais pequena de dia. É os dois períodos. Os Os mais mares igualam com os dias. [pausa] Quanto mais no- as noites… Quando chegar às noites aí grandíssimas de Inverno, a maré da noite é sempre maior que é a do dia. E agora é a maré do dia maior, porque igualam. audio/ALV46.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Uma coisa moderna que há. Apareceu agora. Isto aparece coisas modernas, não é? audio/ALV47.mp3 Alvor (Portimão, Faro) [pausa] Pois é assim isto. audio/ALV48.mp3 Alvor (Portimão, Faro) O meu avô, Deus me perdoe, dizia [pausa] que… Moravam ali… Morava ali na rua ao pé do outeiro do lagar, naquela rua em que a casa derrubou a parede, e levantou-se, uma noite de luar, alevantou-se e disse: "Ó Cândida! Mas que lindos cantos tão lindos que está a- que eu estou ouvindo! Dança agora, roda agora! Mas que cantos tão lindos que eu estou ouvindo! Não estás ouvindo? Estou ouvindo, para a quinta do Aqueronte uns cantos tão maravilhosos! Ainda não ouvi uma coisa tão maravilhosa"! E afinal, diziam que lá as bruxas antigamente que iam dançar, faziam aquelas grandes rodas. E a minha avó diz assim: "Anda para dentro que isso é bruxas"! Isso desexistia, isso desexistiu. Não se ouve falar dessas coisas. E realmente muita gente dizia [pausa] que havia. E até, [vocalização] a respeito de bruxedo, até havia um fulano em Alvor , [pausa] que era muito assim… É claro, há pessoas mais [pausa] judias que outras, judeus que outras. Era muito judeu e não se queria crer em nada. Ele um dia teve umas falas com uma mulher e a mulher diz assim: "Deixa estar que há-de pagares"! Diz ele assim: "Há-de pagar eu? Pago sim. Diz-se que és bruxa mas comigo não tens entrada. Não há bruxas; nem há bruxos nem há bruxas". E ele andou, andou – porque ele o homem saiu de casa [pausa] a umas tantas horas da noite [pausa] –, e o homem saiu de casa e se-, e o e sentiu um empurrão. Sentiu um empurrão: "Mas o que é isto? Mas o que é isto? Mas então o que é isto"? As palavras não eram ditas, levar chapadas da cara! Deram-lhe tantas e tão poucas que até um empurrão lhe deram, foi contra uma porta [pausa] e ficou estendido. Foram dar com ele estando estendido quase morto. Esteve mais de sete ou oito dias de cama. audio/ALV49.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Pois diziam que era… Diziam a pessoa que isto – aquela que foi jogar-lhe os cacos – que era bruxa. audio/ALV50.mp3 Alvor (Portimão, Faro) Acabou a sina. Nunca mais se ouviu dizer que ele era lobisomem. Queimaram-lhe a roupa. Pois sucedeu essa se deu cá. audio/ALV51.mp3 Alvor (Portimão, Faro) E antes disso, diziam que na Quinta da Rocha apareceu [pausa] uma coisa – quando os homens andavam na [vocalização] nos [nome] –, apareceu uma coisa rente à borda de água, um raio jogou-se ao mar atrás deles, que eles fugiram com medo. Havia um mês ou alguns quinze dias. [pausa] E a gente [pausa] assustado. Diz o meu avô assim: "Não tenhas medo, homem! Também és medroso! Olha que aquilo é um lontro". Que era para eu cá não ter medo. Digo eu assim: "Não [vocalização]. Eu, um lontro ouço dizer que é do tamanho de um canito pequeno e aquilo é tão grande"! Eh, aquela coisa surgiu outra vez, deu aqueles longos urros [pausa] e, para se saber que não era lontro, ardeu [pausa] uma chama de fogo [pausa] – encarnado! Agora é que eu não me lembro se era encarnado no princípio, se foi verde no princípio. Mas não tenho é bem a certeza. Mas parece-me que foi encarnado no princípio. [pausa] E depois foi verde. Tal e qual uma festa, quando se faz aquelas chamas, uma labareda de fogo a arder, a praia a arder em chama, em faíscas, [pausa] e depois fez-se em verde. E o meu avô diz assim: "Eh rapaz, dá-me aí fogo"! E eu olhei para ele: "Ó senhor, tenha juízo, tenha vergonha. O que é que vossemecê está fazendo"? "Dá-me aí fogo para eu acender o cigarro". [pausa] E mais tarde é que me diz: "Ápio, aquilo é uma alma perdida"! audio/SRP01.mp3 Serpa (Serpa, Beja) A fa-, a ge- A gente daqui [vocalização] acha-se diferença, porque, quando se entra aí em qualquer casa ou numa rua, se se ouvir falar, a gente diz logo: "Este, por o falar, de Serpa não é"! [pausa] E parte das vezes não sabe a terra que é, mas di- a gente diz logo: "De Serpa não é"! "Só se daqui em volta"! O que se conhece mais [vocalização] melhor, que a gente sabe logo donde ele é, é se for de Baleizão. [pausa] Do povo de Baleizão, se estiver aqui um baleizoeiro falando aí diante de qualquer, e depois a gente for a passar por uma rua, diz: "Aquele tipo é de Baleizão"; ou "Aquela senhora é de Baleizão". E já se for de qualquer das outras aldeias aqui em volta, o fulano diz: "De Serpa não é"; mas qual é a aldeia, não é m- não é muito bom de se conhecer. audio/SRP02.mp3 Serpa (Serpa, Beja) A gente lhe chama o nascente! audio/SRP03.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Não. A gente, pois, "neve". "Choveu muita neve". "Ele choveu muita neve". "Os terrenos estão tapados de neve". Pois. audio/SRP04.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Que traziam para para outra pessoa que que lhe encomendava. Pois. Que havia dificuldades no governo de vida e iam. Mas agora não. Porque os não não faziam ligações. Agora, agora já não faz falta: o que há num país há noutro. E se as coisas faltam, os governos mandam vir dum lado para o outro, tudo aos mesmos preços. Já não vale a pena qualquer arriscar-se a uma coisa dessas tão grandes como se eles arriscavam como se eles arriscavam. audio/SRP05.mp3 Serpa (Serpa, Beja) [vocalização] Um talhão, costuma a gente a dizer um talhão de terra, chama-lhe a gente uma terra uma terra que fica para para obrar, para cultivar. Tanto pode ser para para… O talhão [pausa] pode ser para para batata, como pode ser para semear novamente de hortaliça no outro ano a seguir de vá- de várias qualidades. Porque a gente está a trabalhar numa horta, diz assim: "Olha, que a- arranja-se aquele talhão daquela terra". E o patrão pode dizer… E a gente pode dizer assim: "Ó patrão, então e aquilo será para semear o quê"? "Deixar ver! Vamos arranjar aquele talhão e quando aquele talhão estiver arranjado, aos depois logo se vê o que é que a gente havemos de semear. Esperamos a época". Que depois lá vêm as épocas, que depois vão a ver às vezes aquilo que mais pode produzir. Os valores! E depois lá vêem os jornais: "Ah, na época tal, se criar esta hortaliça, produzo mais. Se criar a outra, pode produzir menos"… audio/SRP06.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Olhe… audio/SRP07.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Por- Porque a gente [vocalização] diz também: "Vou roçar". E o outro pode dizer assim, a outra pessoa pode dizer assim: "Então vai roçar o quê"? Porque roçar há de muitas maneiras: há roçar a erva, há roçar o mato, há roçar uma mata de de pinho [vocalização] que que está muito basta – não é assim? – que pode ser aliviada, e é por essa a razão. E assim, uma roça já sabe que é só mato [pausa] completamente bravo, mato que não produz. E se for para uma roça, como a gente tem este coiso, já pode ser uma mata que que costuma-se [vocalização] a plantar a mata semeada de almástica, [pausa] mata de eucalipto, de pinheiro, do sobro, da cortiça. E dá o caso a gente ver que é demais,o patrão vê que é demais, para não estar a gastar mais ordenados, semeia ao moitão. E depois faz o seguinte: aquilo é marcado com umas canas, ou sejam uns paus tanchados mais altos com m- com coisas, depois vai o, vai o diz diz para o para aquela pessoa: "Olhe, está a ver? Pegas nesta nesta fouce" – chama-lhe a gente uma fouce, [vocalização] ou uma gadanha, com um cabo –, "olha, agora vais gadanhando isto" – quando está mais ou menos desta altura –, "vais gadanhando e vais deixando um aqui, outro aqui e outro aqui". Quer dizer, aquilo depois é puxado, é posto em moitão, aquilo secou. [pausa] Depois de secar, eles chegam, passou-se-lhe com uma máquina por cima e aquilo estra- estrançou. Se não querem assim, o que é que faz? Quando aquilo está seco, puxa-se para um lar onde o lume não chegue, dá-se-lhe fogo, e aquela cinza é espalhada para o pé da da planta. E a terra é cavada, novamente afofada, [pausa] para a planta avivar. audio/SRP08.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Voltar atrás novamente com o animal, tinha que trazer de volta e depois tinha que novamente cortar, passar… Se o Se aquele rego estava feito aqui, ficava este quadradinho – suponhamos que era esta loba –, já o homem tinha que fazer duas vezes, passar aqui para encostar, para fazer a margem seguida. Porque depois atrás vinha o encarregado, que andava a ver, diz assim: "Então, já deixaste além uma loba". Pois – ouviu? "E a terra está crua"! Que a essa loba chama-se depois a terra crua. Porque a terra crua, a semente ficava ali em cima, vinha a bichareza, comia. E se ficasse com pouca terra em cima, a raiz ficava na terra que estava crua – ouviu? – e a raiz não gerava e a planta não se criava. E depois da se- a seara começava a crescer e ficava assim aquelas manchas na seara, tal e qual como está estas nodinhas aqui nesta mesa. E então, vá, a gente, muitas das vezes, como se calhou, como eu, como outros… uma pessoa às vezes fica lá: "Ah, está lá longe, passar"! Mas eles vinham vindo, vinham vindo: "Alto lá, pché! Tu é que andaste além! [pausa] Volta lá atrás! Tens que lá passar"! [vocalização] E eu: "Homessa"! Depois começavam os outros companheiros: "Eh, fulano"!… [vocalização] a zangarem, a dar ferro à gente, para coisa… "Eh, fizeste isso mal feito. Não devias ter feito. Eh, coisa e tal"… A dar aquele ferro à gente, para se zangar. "Eh, outra vez?! Eh"! E logo: "O encarregado viu. O encarregado viu". "Não houvera de ver"! Porque depois, se não vir, mais tarde, representa-se o patrão – a passear a terra, quando vê a seara nascida e tal, vão vendo –, vão a passear a terra com o encarregado, vão passeando, passo a passo, vão passeando… Onde quer que houver esta tal dita loba que fique, que a semente não esteja voltada… Porque a semente caiu em cima deste assento de terra, mas essa dita terra tem que ser toda arrancada ao contrário. Tem de ficar toda em cima. Se cair terra daqui para aqui, e esta terra não ficar voltada assim, a semente não se cria bem. E assim, se a terra está aqui, o tal dito charrueco passou aqui, voltou este rego ao contrário. Se voltou aqui e a semente ficou no mesmo sítio, a semente não foi mexida, a semente ali é conhecida sempre. E eles vão: "Queres ver? Estás a ver aqui onde a terra ficou crua"? Eles depois já… Depois já já não é nome de loba. Só é nome de loba quando se está lavrando. E depois de de se voltar as costas, que eles vão ver, já não se chama já não se chama loba. Chama-se: "Ora vês! A terra aqui ficou crua! Tanto ficou crua que a semente [vocalização] não se cria; está-se conhecendo"! audio/SRP09.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Os antigos. E E se fora charrueco, era o mesmo lema, tinham mesmo mesmo nomeação de de aiveca. audio/SRP10.mp3 Serpa (Serpa, Beja) A A [vocalização] braçado. É ao braçado. A gente semear semeando assim é se- é semear a braçado. E semear no rego, já era as mulheres que faziam isso. [pausa] Isso já eram as mulheres. audio/SRP11.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Pois. audio/SRP12.mp3 Serpa (Serpa, Beja) A vez de cada um é, suponhamos, como eles dizerem aqui assim: "Ouve lá"! [vocalização] – dando-se eles bem, [pausa] que às vezes, aparecem assim e depois aparecem arrevidades. Mas deixemos isso. Dando-se eles bem, diz assim: "Olha lá, [vocalização] a que horas é que tu começas a regar"? [pausa] "Então porquê"? [pausa] "Oh! Eu queria começar – suponhamos – de manhã". "Olha lá, também faz jeito. Olha, tenho que ir fazer outro serviço – ou vou picar [pausa] um um feijão que tenho semeado – e depois tu regas na parte da manhã e na parte da tarde rego eu". E eles olham um para o outro: "Olha lá, também está bem, pronto. Fazemos assim". E assim se fica. Um rega na parte da manhã, o outro foi fazer outro serviço e na parte da parte regou o outro, [pausa] o outro inquilino. audio/SRP13.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Aquele monte de terra chama-se-lhe uma presa. audio/SRP14.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Ceifada, chama-se-lhe o restolho. audio/SRP15.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Agora as partes e os nomes disso, já não. Isso já não já não havia no meu tempo. audio/SRP16.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Era limpo. Que o vento é que ia soprando e a gente ia puxando. audio/SRP17.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Vai p- Vai para o palheiro. E se não tiver, faz-se uma serra. audio/SRP18.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Ah! A flor do… É a A barba é outra coisa que fica na maçaroca. [pausa] Não é flor… [pausa] Uma espigada?… O milho está… Espigada, ele não é. Um homem às vezes… Assim, de repente, às vezes… Um homem quando está a lidar com as coisas, tudo, tudo lhe vai ali à medida. [pausa] A maça- A maçaroca, o espigo… [pausa] A bandeira! A bandeira – percebes? A bandeira do milho. audio/SRP19.mp3 Serpa (Serpa, Beja) E os E os espinafres, pode ser aplicado é para o feijão, que é próprio, que é o… Mas já isso é uma coisa mansa que se cria mais nas nas hortas. E a outra já é já se torna uma coisa brava. É brava já se cria assim ao campo, como se cria outra coisa qualquer. O que é é que é muito é muito perguntado também. audio/SRP20.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Ah! Quando está em flor? De De começar a cair? A gente o que diz: "Olha a flor está a cair! Terá falta de quê? Será enxoframento"? Pode ser falta de enxoframento. audio/SRP21.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Com Com a prancha apertava –ouviu? – [pausa] e o vinho corria para uma outra para umas outras tinas de madeira que eles ali tinham e dali conduzíamos com umas mangueiras… Lançava-se ali a mangueira, tinha um motorzinho pequenino, que aquilo era uma caixinha deste tamanho – porque que tinha para aí dez ou quinze centímetros de quadrado –, uma caixazinha pequena, um motorzito, e aquilo conforme ele ia correndo para ali com com uns tubozinhos, assim ia correndo lá para logo para os potes grandes de conserva. E depois ele ia, conforme aquilo ia correndo o vinho, assim tinha ali umas… audio/SRP22.mp3 Serpa (Serpa, Beja) É o mostro do vinho. Pois. Que é o doce! audio/SRP23.mp3 Serpa (Serpa, Beja) … Está bem. audio/SRP24.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Há o É o capacho. Há o O capacho é aquilo e a seira é fechado. É que a seira é fechada. Aquela que está ali em aberta é o capacho. E a seira… Aqui, agora, seira, já não fazem disso. Agora já é tudo capacho. É que a seira, é assim em volta, como está ali, mas tinha metade voltado para dentro. E ficava um ovamento assim solto, por a banda de dentro. Pois. Pois. Que isso era a seira. E agora, a seira, isso já desexistiu; agora já é só o capacho. audio/SRP25.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Pois. [pausa] Isso pode. Fica à ponta da vila, daquele lado. Então, Até estão lá a trabalhar – o pessoal e tudo. [pausa] Fornece a farinha aí para, para a para as casas de comércio, [pausa] que vendem. audio/SRP26.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Esta parte aqui é é a volta que eles têm, que é um pano, para tapar a farinha, para a farinha cair toda ali à à rés. Senão a farinha de- deita mãos a avoar. E mesmo assim avoa ela muito, [pausa] que se agarra às paredes. audio/SRP27.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Que vende Que vende o pão é um padeiro. audio/SRP28.mp3 Serpa (Serpa, Beja) A do do coiso é o bastão –essa grada! Pois. E a outra miudinha é que é a holândia! audio/SRP29.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Mil, cento e nove. audio/SRP30.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Dos dois anos, ovelha! E seja ele macho, passar a carneiro! audio/SRP31.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Propriamente, essa das coisas são mesmo os próprios moirais, que todos [vocalização] aprenderam a fazer essas coisas. Agora, estes modernos, não sei se saberão, se não. Mas noutro tempo, os moirais é que faziam isso. Os próprios que as guardavam é que faziam isso. audio/SRP32.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Não. Po- Põe-se uma em ci- cima de cada um. Em cima de cada cincho é uma. Pois. audio/SRP33.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Para engordar, há diferentas diferentas comidas, conforme o [vocalização] dono queira o tempo em que ele leve a engordar. Pode ser com farinhas próprias, só de uma qualidade, que seja milho, como pode ser o milho feito em farinha, como pode ser a fava, só por si, deitada de molho para não escaldar [pausa] a boca. Porque chega a pontos que faz doer o dente ao animal. É um bocadinho deitada de molho, ele aí torna-se mais macio, o animal come mais – ouviu? Como pode ser o gramijo, como pode ser com a cevada, como pode ser com um [vocalização] trigo que que [vocalização] seja ruim, que tenha muitas impurezas, que não seja aceitado no celeiro – que mandam fazer em farinhas, juntamente aquelas sementilhas, e aquilo desfaz aquilo tudo, trás! Pode ser dado em seco, dentro dumas vasilhas, como pode ser feito em travia. [pausa] E a E a porção [pausa] é conforme o o dono tiver o compromisso, ou ele tenha falta do dinheiro. Diz assim: "Dentro de de dois meses, tenho que pôr os porcos [pausa] à matança". Chama-se deitar os porcos à terra. É quando eles firmam o cu no chão que já se não são capazes capaz de levantar. Digo: "O porco já está com o cu no chão que tem que se… Tem que ir para a matança". Tem que deitá-los a terra. Enquanto eles andam por si, é porque estão leves. E quando o porco põe o cu no chão, que levanta as mãos só para cima, digo: "Prontos! Já se não pode dar mais comida porque ele já não põe mais carne e não aumenta mais". Está é prejudicando. Porque come e não põe mais carne. E então, nessa altura, sentou o cu no chão, vai para a matança. Chegou-se ao pé do comprador que estiver comprometido: "Olhe, tenho lá então [pausa] uma vara de porcos. Tenho quarenta, tenho cinquenta, tenho cem… Estão prontos a vender". "Quantas arrobas podem ter"? "Olhe, podem ter quatro, podem ter cinco… Vamos a pesá-los". Nessa altura são pesados [pausa] e o dono [pausa] aliviou-se dessa carne. audio/SRP34.mp3 Serpa (Serpa, Beja) Foçar é quando encontra e depois come. Que depois quando encontra a comida que ele gosta, depois foça à pergunta dela. Mas primeiramente vai rastejando ao cheiro. Ele vai andando, vai rastejando, chegou ali encontrou o cheiro duma erva qualquer ou uma raiz que ele gostou, e então começou a foçar, arrancou a raiz da erva, que é para ele a comer. Que há várias várias ervas que eles gostam, não pegam na rama, e vão à pergunta da raiz. [pausa] E então vai rastejando. Encontrou, começou a foçar, para descobrir a raiz para comer. audio/SRP35.mp3 Serpa (Serpa, Beja) De laine. [pausa] Laine. Linha de laine. audio/LVR01.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Porque quando quando aquela era sobreira – que ainda hoje ela lá está –, já havia lá sobreiros por todo o lado! Mas eram pequenos e são pequenos. Pequenos, que era a árvore normal! E aquela é que é uma coisa desmarcada. É a sobreira da Amoreira. Chama-lhe a gente a sobreira da Amoreira. audio/LVR02.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Esgalhar era cortar [pausa] a lenha [pausa] para renovar o sobreiro. Porque o sobreiro se não for tratado – [pausa] como tudo, como tudo na vida –, se não for tratado, chegam a pontos, phhh, começam-se a perder. Começam a secar. E secam-se. Estão-se a secar muitos, muitos, muitos. E muitos des-, dessas secas que por aí há, muitos dizem: "Ah! É moléstia". Sim senhora! Que seja uma moléstia! Mas a moléstia é derivado [vocalização]… Não é como eles faziam antigamente. Hoje, o tempo Os lavradores aqui, na nossa área e nas outras áreas, tinham gados, tinham… Não tinham tractores, tinham [vocalização] b- bois e [vocalização] parelhas e era tudo lavrado todos os anos… De anos a anos, era lavrado e semeado! E por cima de, por exemplos, quinze, dez a quinze, a dezasseis anos, ou de vinte em vinte anos, passava uma folha de esgalha, ficavam esgalhados. A árvore [pausa] rebentava de novo, ficava toda… audio/LVR03.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Torna-se mais grossa. Tem mais criação. É mexida a terra, [vocalização] tem mais criação, torna-se mais grossa. É: dentro do mato torna-se mais delgadinha mas também se torna muitíssimo boa. Por isso é que dizem que a cortiça de dentro do criada no mato, que se torna mui melhor. Mais macia, mais mais [vocalização] l- lisa, pronto! audio/LVR04.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) E era assim que se governava a gente. E era assim que se a gente vivia! audio/LVR05.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Pois, dá o bugalho. Pois. audio/LVR06.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Lá para o lado doutras coisas, não quero! audio/LVR07.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Pois. audio/LVR08.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) comerem durante a noite. audio/LVR09.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Quem é que anda a pé?! Só eu, que vou aí pelas estradas afora passear de manhã… Já hoje fui [vocalização] mais a mulher, fomos passear, mesmo a chover… Mas a chuva estava poucochinha. Eu nem nem cheguei a abrir o guarda-chuva. audio/LVR10.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Pronto, era [vocalização] Pastagem para os gados. Pastagens. Bom, pastagem é uma qualquer, mas aquilo é mesmo pastoreio para o gado. Mesmo uma erva para para pastoreios. audio/LVR11.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Acarravam. E a gente nessa altura dormia. Quando era ali ao fim de duas duas horas, três horas, de elas estarem ac- acarradas, começavam-se a levantar, começavam a comer e a gente ali vinha – ala! – vindo a trazê-las. Pronto! Vínhamos vindo atrás delas. Outras vezes, se estivéssemos a dormir, quando acordávamos de manhã – tantas vezes que me aconteceu! – e elas abalavam e eu não dava notícia… De manhã: "Ora, o raio das ovelhas abalaram"! Começava a escutar, ouvia o chocalho… "Olha, olha lá por onde elas andam"! Levantava-me Abalava, ia lá ter com elas. audio/LVR12.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Onde é que Até que esse gado anda sempre à parte. [pausa] Esse, quando é assim pessoas que têm rebanhos de vário gado, trazem-se as vitelas sempre à parte, que é para para não se juntarem com as outras vacas, por causa da [nome] do boi. Para não andarem, para não serem cobertas – enquanto não tiverem idade. Em tendem idade, vão para o rebanho das vacas que é para ir ser irem ser cobertas. audio/LVR13.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Exactamente. audio/LVR14.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Não é em todas as bandas, mas há tipos que usam isso. audio/LVR15.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Claro. audio/LVR16.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) já nada diz respeito cá aos, aos aos lavradores. audio/LVR17.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) As outras é [vocalização] o alfeiro. Pronto. Estão alfeiradas, porque não têm… Não têm Não dão leite, são alfeiras. audio/LVR18.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Tudo tem a sua coisa, pronto! audio/LVR19.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Quando era ali em Janeiro, tinha ali duzentos, ou trezentos, ou isso – conforme fosse a herdade –, porcos gordos, e isso estava ali tudo a andar. audio/LVR20.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Pronto! E está a festa feita. Porque já não se Mas eu matei muito porco. Comecei a matar logo muito novo muito cedo. Mas agora já não pode ser. audio/LVR21.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Olhe, dias que eu lá vou, vou logo lá. Dias que tenho de ser obrigado a lá ir por qualquer coisa, vou logo lá comprar carne. audio/LVR22.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Então, como é que chamavam às… audio/LVR23.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Podem acontecer. audio/LVR24.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Ajudo aquilo que eu puder. Pronto! O que é que quer que eu faça? Sou assim. audio/LVR25.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Pois, pois. Um ferreiro é um operário. Um ferrador, que ferra bestas, é um operário. Um tosquiador é um operário. Isso são operários. audio/LVR26.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) A gente tirando ser uma plaina, tirando ser um cepilho… audio/LVR27.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) De salgueiro. audio/LVR28.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Sim senhor. audio/LVR29.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) A qualquer coisa, a várias coisas. Sim senhor. audio/LVR30.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) O saca-rabo já é outro. Isso é ouriços. audio/LVR31.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Sim, senhor. audio/LVR32.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Mas está mal! Aí está mal. Mas era uma rola brava. Essa era uma rola, era para ser uma rola brava. audio/LVR33.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Olhe, e estes pretos que?… audio/LVR34.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Qualquer dos nomes… Qual é, eu não sei. audio/LVR35.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Sim senhora. audio/LVR36.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) "Deus te acrescente que é para muita gente"! audio/LVR37.mp3 Lavre (Montemor-o-Novo, Évora) Ah! Pode-se apagar. audio/ALC01.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Têm um um aparelho, com uns dentes de ferro, [pausa] e arrancam. E depois passam [pausa] com aquilo duas e três vezes. Destroem aquilo tudo. Depois passam com uma grade de discos – mas isso é com um tractor! audio/ALC02.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Para ficar a semente Para ficar o campo tudo todo completo com semente. audio/ALC03.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Para regar? Então é preciso mangueiras, é preciso [pausa] o diabo do, do da electricidade para pôr os coisos a trabalhar. audio/ALC04.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) [vocalização] A água vinha por cima também com com uma uma espécie de, de duma engrenagem, num dum veio, que tinha. Corria assim numa corrente, depois vinha e a água vazava. Mas isso era mais era mais custoso. Isso acabou. audio/ALC05.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Dá-se a folga à terra com outra seara. audio/ALC06.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Pagava-se a ele. Chegava-se à noite, se ele precisasse do dinheiro, levava já o dinheiro. [pausa] Muitos chegaram a trabalhar para mim, e à noite já precisavam do dinheiro para comer e [vocalização] e eu dava. audio/ALC07.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Aquela [vocalização] Aquilo era, era [vocalização] era debulhar a pé de besta. audio/ALC08.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Então, é, era A gente, essas pás, era empregado o nome 'pá de pejo' que era para ir para as maninhas para pejar a lama. E essas pás servia também para a eira. Era igual. Era igual. [pausa] Da eira Da eira, era pá, era forquilha, era crivo, era ciranda [pausa] e era forcado. É o trabalho todo da eira era este todo. audio/ALC09.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) A abeca. audio/ALC10.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É a mesma coisa. Ser o leito e ser a caixa é a mesma coisa. audio/ALC11.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Chamava-se fueirinhas. As fueirinhas. audio/ALC12.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Mas lá era um carro. audio/ALC13.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Têm… Eles têm um nome daquilo, têm; mas eu não me lembro. audio/ALC14.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) E às E às cebolas também. Também se faz a rafa ráfia e pendura-se, dura dura até pelo Inverno dentro. audio/ALC15.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É uma vinha – [pausa] uma fazenda! Ele qualquer nome destes se se emprega. [pausa] Em vinha Se tem tem cepas, é uma vinha, [pausa] que tem lá vinha. E se tem, e se não E se está nua para semear outras searas, uma fazenda. audio/ALC16.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Como antigamente era como lhe eu estou a dizer. Era pisada a pé [pausa] dentro dum tanque. Depois estava ali a ferver [pausa] dois dias ou três. Conforme lhe ela ia dando a graduação, ia-se tirando a graduação com um pesa. Quando chegava ali [pausa] a dois, tirava-se fora, que era para ele não não perder a força. Depois ia para dentro das vasilhas. audio/ALC17.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) [vocalização] As folhas saíam e a azeitona ficava ali, em cima dum pano limpo, que era para depois de já estar limpa para ele a gente pôr dentro duma canastra. audio/ALC18.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) O O fardo? O fardo já é feito da fábrica, [pausa] com, com umas com uns arcos da de folha. audio/ALC19.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Pois. Isso é uma faxina. Depois é [vocalização] serrado aqui ao meio. E depois, daqui, metia-se uma cunha e batia-se com uma marreta, abria. Fazia a as achas. audio/ALC20.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) E não se vê já um homem aqui perto fazer um forno de carvão – [pausa] mesmo dentro da charneca. Não se vê. Já [vocalização], agora, mesmo o carvão, [pausa] se há algum, é lá para o Alentejo! [pausa] Que está aí dois carvoeiros: [vocalização] aquele ali nem tem carvão, quase nunca tem; e está aí outro ali… [pausa] É mesmo pouco que vem para aí. [pausa] É mesmo pouco que vem para aí! audio/ALC21.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Não, por cima nada. Era só a manta deles, a cobertura. [pausa] Quando era assim de Inverno que – o que fazem? – vão para um lado qualquer com o gado, se não têm casa, encostado a uma chaparra, vão buscar um bocado de mato e fazem uma cabana. [pausa] Chama-se aquilo uma cabana. audio/ALC22.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Até, às vezes, os lá do matadoiro, o chefe costuma dizer: "Quantas reses traz"? [pausa] "Quantas reses traz"? "Tantas". [pausa] Esta coisa do perguntarem nomes e coisa, nunca é um nome próprio. Há uns: "Quantos novilhos traz"? "Quantas vacas traz"? "Quantas ovelhas traz"? "Quantas cabras traz"? E outros: "Quantas reses traz"? [vocalização] Eh [vocalização], isto tem muitos nomes que que se emprega disto! Não é dizer-se assim que [pausa] tem só este nome. audio/ALC23.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Cornos, isso é [vocalização], é j- é já mais prático de dizer-se mas [vocalização] é feio. audio/ALC24.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Pois. audio/ALC25.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Depois está a remoer. Está a remoer, e vai desgastando. Até que esse silo vai para os intestinos e depois vai para as fezes. audio/ALC26.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) O, o O pastor emprega sempre o nome, [pausa] aonde ele fica, de aposento. Tem lá o comer, tem lá a manta, tem lá as coisas todas. E depois emprega: "Vou ali para o aposento". [pausa] Se tem uma casa Se tem uma casa feita aonde vai o gado, para a malhada, tem lá algum monte de casas, vai para o aposento também. Que ele emprega sempre o nome do aposento. audio/ALC27.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) A, A tá- A tábua [vocalização] era a mesa. Chamava-se a mesa. audio/ALC28.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Pois. audio/ALC29.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É É leitão, é bácoro e é marrã. Todos estes nomes ele tem, [pausa] quando é pequenino. audio/ALC30.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Olhe até as cascanholas, os rapazes andavam a roer por a rua. As cascanholas de [pausa] das unhas. audio/ALC31.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Pois. Está bem. audio/ALC32.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É um pombal. audio/ALC33.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Mais nada. É só o que eu conheço é aquilo. audio/ALC34.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Jornal. audio/ALC35.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Está a ferrar. audio/ALC36.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) E depois é é as pernadas de, de daquela árvore é que é cortadas e depois aquilo é descascado, e é ap- aplainado com uma faca como ele tinha. Depois fazia as correias para as canastras. audio/ALC37.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Uns é por gosto; outros é porque vivem daquilo. audio/ALC38.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) "Está derramado"! audio/ALC39.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É só osso, muito pequenino, ali a qua- quase a arrastar a arrastar pelo chão. A gente nem nem conhece as pernas da melga. Só se conhece é ela a avoar. audio/ALC40.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) E só prejudica é as searas. audio/ALC41.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Não. Joaninha é que é que se a gente emprega cá. audio/ALC42.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Douradinha não é! audio/ALC43.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É às riscas. E o licanço é [vocalização] comprido [pausa] como a cobra, mas o lombo dele é tudo em risquinhas. [pausa] Tem a cor [vocalização] assim uma espécie de cinzenta. [pausa] Isso é o licanço! audio/ALC44.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Há um, há [vocalização] Houvia ele muitas ervas dessas que se fazia chá, mas ele o nome dela é que eu não sei. audio/ALC45.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Agora aquele aquele que se come [pausa] é que deve ser é o cuco. audio/ALC46.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) Sim. audio/ALC47.mp3 Alcochete (Alcochete, Setúbal) É salgueiro. [pausa] Isso é sempre… Nasce sempre ao pé da água. audio/COV01.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois é. audio/COV02.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois é. audio/COV03.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Olhe, ainda agora vim para aqui, deixei-o a moer. audio/COV04.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) E [vocalização] não fui. Só saí Só saí um dia, andei ainda um bocadito e [vocalização] matei um coelho, mais nada. Não tenho vagar. Não tenho vagar de sair. Não tenho vagar. Muito, muito trabalho! audio/COV05.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois. audio/COV06.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois claro. audio/COV07.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) e o coração e os e os impulmões e e depois comiam aquilo e depois… Antes de ir para a outra carne! audio/COV08.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Ah, sim, sim, sim. audio/COV09.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) É família! audio/COV10.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Arquibaldo. audio/COV11.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Estava lá assentado. Era amigo dela. Assentado! Ela era Ela era solteira. audio/COV12.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) E ele veio da, acabou o tempo dele, veio da da tropa, foi para a França. audio/COV13.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Vou. Vou abrir a água para ali para cima. audio/COV14.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pch, não presta para nada! Não presta para nada! E se a agricultura estivesse mais desenvolvida, os adubos… A gente vai comprar os adubos caros, ah, a o que o que a gente vende!… Então, uma vaca, a gente agora quer vender uma vaca, então e ele se ele não estiver registado, não a pode vender. audio/COV15.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Aquela vinha tudo desprezado! Eu logo o que lembra-me assim: ó que esta gente não terá?… Que é que eles comem? audio/COV16.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Aí está. [pausa] Isto um dia, você lembre-se – que não é no meu tempo, porque eu, [pausa] eu estou no fim da vida –, mas um dia as senhoras ainda hão-de ver que o povo ainda se há-de agarrar à terra ou há-de morrer de fome. audio/COV17.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) É. audio/COV18.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) E a gente, olhe, e que ainda é outra coisa que ele dizia: que para a fim do mundo que a gente que não havia de conhecer o Verão do Inverno senão pelas folhas. Nós estamos a chegar aí. audio/COV19.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Sabe? audio/COV20.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) E depois assim foi – sabe? –, assim foi. E a- E arranjei e paguei aquilo tudo, sabe? audio/COV21.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Morria, coitado! Então… audio/COV22.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Já estava boa [pausa] e ele também. E lá foram outra vez ambos os dois para Agualva. audio/COV23.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Claro. audio/COV24.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) É isso. audio/COV25.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Como eu [vocalização] conheço bem o caminho. Oi, Jesus! Conhecia bem o caminho e o homem não morria! [vocalização] Habilitou-se… audio/COV26.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) E o meu pai vinha de noite, já tarde de noite, com uma camada de neve, e vinha de lá para cima, e chegou lá e esse homenzito andava a pedir, a mendigar, a pedir uma esmola aqui, outra esmola acolá. Andava a mendigar. Ele chegou lá e ia ele no carreirito e o homem estava a morrer. O meu pai botou-lhe a mão para cima: "Eh, patrão! Eh, patrão! Eh, patrão"! Conheceu-o. E ele foi e [vocalização] a gente não já não falava. Só Só mexia com uma perna. O meu pai volta para trás e foi à Felgueira chamar… E conheceu logo que- quem ele era e foi ter com a à casa do filho e disse: "Eh rapaz, olha que o teu pai está ali arriba a morrer". Ele [pausa] começou a chamar, vieram uns à Felgueira para cima, chegaram lá, mais o meu pai, ainda mexeu com a perna na mesma. O homem morreu com o frio, de noite! audio/COV27.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois, pois. audio/COV28.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Chegamos a Paçô e ele foi lá para o outro lado e nós viemos para cá. audio/COV29.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois também não. audio/COV30.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Foi como eu: olhe, de princípio comecei, pedia a Deus, [pausa]queria deixar de comprar milho. Não comprar, ter milho que chegasse [pausa] para a para a minha gente! Deus deu-mo. Pedia… Comprava centeio, pedia a Deus que Deus me desse [pausa] centeio para não andar a comprar. Deus deu-mo. Pedia a Deus que Deus me desse vinho para não andar a, a c- a comprar vinho. Deus deu-mo, homem! Eu estou de bem com Deus! audio/COV31.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Vê? audio/COV32.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Lá debaixo. audio/COV33.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Dá resultado. audio/COV34.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Morde. Eles andam à a rapar e apanham aquele bicho… Aquele bicho é um bicho que a gente escope – um bichinho pequeno, assim –, você escope e ela larga logo um [vocalização] um sangue. audio/COV35.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois. E depois [vocalização] diz ele assim: "Oh, isso não faz mal nenhum"! "Ah, não? Então espere pelo resto"! Quatro meses, [pausa] lá foi o homem embora. audio/COV36.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) A galá-la. audio/COV37.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Nada! audio/COV38.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Os outros não tinham burro nenhum; não queriam saber. Mas eu Mas eu via essa essa gente da Farrapa, com as cangalhas – aquilo é feito quase como duas canastras mas mas em madeira, por cima da coisa para levar… E, às vezes, vinham aí os ciganos e traziam os filhos metidos ali dentro. audio/COV39.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Pois. Ou, se tivesse, se fosse aqui do lugar, podia viver nas dele – fazer as minhas e viver nas dele. Isso era conforme. audio/COV40.mp3 Covo (Vale de Cambra, Aveiro) Eles vêm. audio/PIC01.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) E então isto vai-se botar de molho, que eu hoje então estou aí por casa, vou ver se hoje e amanhã se faço isso. Porque o Bal- E depois eu entrego ao Balbo, e o Balbo depois entrega à senhora, [pausa] para ser melhor, não é? audio/PIC02.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Sim, são duzentos escudos. Eu p-, eu pego Eu pego de manhã [vocalização] às sete horas e acabo à noite, para aparelhar os vimes e essas coisas todas. Tenho que fazê-los mal feitos [vocalização] para ver se adianto. Larguei de fazer vimes. audio/PIC03.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) E é bruxas. [pausa] Mas eu parece-me que eu botei numa mala ainda livros dos tais ainda aí. audio/PIC04.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Havia um casal que tinha três filhos, mas [pausa] este mais velho [pausa] não ti- não era bem aberto, assim, era meio toleizão. [pausa] E [vocalização] o mais moço mais a mãe, eram pobrezinhos, o que é que fazem? O mais moço disse: "Ó pai, eu vou-me correr terras"! E o pai disse: "Ó filho, tem este irmão que não é bem, bem que é mei- meio atoleizado, porque é que não estás com nós aqui em casa, para ajudares o pai e a mãe"? Ele disse: "Não, pai. Nós somos pobres e vê-se tanta [pausa] gente rica. [pausa] Eu vou correr terra para ver se ganho [pausa] rolha, para a gente ser ricos como os nossos vizinhos". [pausa] E o pai vai: "Pois hás-de ir, filho"! [pausa] Chegou lá um dia, ele disse: "Ó pai, vou caminhar hoje"! E [vocalização] o pai disse: "Pois hás-de. Vai quando quiseres. Agora, tu queres a minha benção ou queres dinheiro"? [pausa] E vai o filho, virou-se para o pai, ficou assim a pensar e disse: "Pois, o [vocalização] a benção do pai é muito bom, mas o dinheiro ainda é melhor. Eu vou-me governar vai ser com o dinheiro, não vou-me governar com a benção do pai". O pai deu-lhe um saco de dinheiro e ele caminhou. [pausa] Foi andando [pausa] por essas terras fora, quando chegou a um certo lugar [vocalização], o homem com o saco do dinheiro às costas – que o pai não deu-lhe a benção; lá caminhou, o pai não deu-lhe a benção –, um saco de dinheiro às costas, os ladrães viram-no, deram-lhe fogo, mataram-no, roubaram-lhe o dinheiro. A cabo de um ano, o acima d-, deste deste mais moço – ac- acima do mais moço – disse: "Ó pai, o meu irmão com certeza que não aparece é que vai muito bem. [pausa] Também vou-me correr terras". E o pai disse: "Ó filho, pois então eu fico só com mais tua mãe e este desgraçado aqui… Mas se quiseres dir, vai". [pausa] Pegou em si, aparelhou-se para caminhar. E o pai foi assim: "Mas [pausa] queres a minha benção ou queres dinheiro"? E ele disse: "Ó pai, eu antes quero dinheiro que o meu irmão governou-se foi com o dinheiro; eu também quero-me governar é com o dinheiro, [pausa] que é melhor". Lá caminhou. A cabo de um ano, nunca mais houve resultado nenhum [pausa] de família nenhuma deste desse casal. [pausa] O mais tolo, que era tolo, o mais velho, foi assim: "Ó pai, eu era houvera de ir correr terras que os meus irmãos estão bem! Não aparecem, então estão bem"! E o pai disse-lhe: "Ó filho, tu hás-de ir, se quiseres dir. O que é que queres? Queres dinheiro ou queres a minha benção"? "Ó pai, o dinheiro é muito bom, mas eu antes quero a benção do pai". E o pai vai, deitou-lhe a benção, deu-lhe uma coisinha de dinheiro para a viagem, e lá caminhou. Som de passos – Viva! – E lá caminhou. Foi andando, andando, e quando vai [pausa] encontrou uma velha – [pausa] muito velha! [pausa] Ele, ao mesmo tempo, encontrou um homem, um perfeito homem, um homem de corpo. [pausa] E vai o homem – com um cão pintado de branco e de preto, um cão muito grande, e com uma espada muito grande –, [pausa] e vai o homem foi assim: "Homem, o senhor [pausa] para onde é que vai"? Mas este tolo levava um bordão de ouro, um b- que o pai lhe tinha oferecido. "Homem, vou correr terras". "Homem, o senhor, onde é que foi buscar este bordão"? "Oh, isto é uma oferta que o meu pai [vocalização] me deu". "Olhe o senhor, [pausa] se o senhor desse-me este bordão, eu dava-lhe esta espada e este cão. [pausa] Olhe, este cão faz tudo o que a gente lhe manda; e esta espada também faz tudo o que a gente manda. Se o senhor disser: "Minha espada, corta o pescoço [pausa] àquele homem ou àquela senhora", corta logo; se o senhor mandar este cão fazer uma maldade qualquer, ele faz também". "Diacho! Isto é uma oferta do meu pai e eu vou-me correr terras, mas o senhor, se é assim, o senhor… Ou então eu dou-lhe o bordão". E o homem vai, dá o bordão e o outro dá o cão e dá a espada. Caminhou. Foi andando, andando e quando é que encontra… [pausa] Mais adiante, encontra um indivíduo e pensa que é o mesmo homem: "Mas eu vou experimentar esta espada". O homem tinha-lhe dado a volta para ver se roubava a espada e o cão a ele. E era um homem muito gordo. Ele foi assim: "Minha espada, corta o pescoço àquele homem"! A espada saiu de da mão do homem, foi lá e cortou o pescoço do homem. Ficou muito contente. Caminhou com a espada e com o cão. Foi andando, andando, muito ao longe, por longe, e quando encontra outro homem. "Homem, isto hoje é que é o mesmo homem. Eu matei-o. Mas é que é o mesmo homem". [pausa] Mais um homem com uma espada e com um cão igual – igual ao seu! E vai o homem, chegou-se para ele: "Homem, o senhor, [pausa] por onde é que anda"? Mas ele roubou o bordão ao [vocalização] ao outro que tinha matado. E ele vai, foi assim: "Ah, pois este cão… Ando por aí correndo terras, topei ali fora um senhor, assim, assim, e trazia dois bordães, e depois ele perguntou se eu queria trocar o bordão pelo cão e por esta espada, que esta espada fazia assim, assim, assim, desta forma, e o cão fazia… Afinal, eu troquei". "Homem, este é um irmão meu. A gente anda… Somos dois ladrães, andamos roubando". [pausa] "Se ele não tem precisão deste cão e desta espada, eu também não tenho precisão da minha do meu cão e da minha espada. O senhor quer-me trocar este meu cão e esta espada esta esp-, p- pelo seu bordão"? E vai: "Sim senhor". E vai o tolo, vai, troca logo. Ficou com duas espadas e com dois cães. Pegou em si, foi andando e foi assim: "Não, eu vou matar aquele homem. Ó minha espada, mata aquele homem"! E vai, mata o homem com a espada. Porque ele estava com medo de ele o querer roubar. Já muito longe, muito longe – mas tirou o bordão outra vez, isso tirou o bordão –, topa uma velha muito feia, uma velha muito gorda e muito feia! "Homem, o senhor e tal, o que é o senhor faz por aqui"? A velha conheceu os cães [pausa] e as espadas. "Ah, correndo terras, porque os meus irmãos foram, no passado, assim e assim"… E vai ela disse: "Olhe, o senhor, quem é que lhe deu estes cães ao senhor"? "Ah, foram dois homenzinhos que eu topei acolá fora. Eu trazia um bordão três bordães e cada um queria o seu, deram-me estes cães pelos bordães". "Pois, olhe o senhor, estes homens, os tais, eram meus filhos. São meus filhos. Ele são dois ladrães. Andam adiante roubando e matando, e eu ando atrás com este assobio pondo-os vivos. Portanto, se eles não têm precisão [pausa] deste [pausa] da espada e dos cães, eu também não tenho precisão deste assobio. O senhor quer -mo [vocalização] trocar este assobio por este bordão? Ele quer-me trocar o [vocalização] o bordão por este assobio"? "Sim senhor". [pausa] Vai, o homem, troca. O homem chega mais adiante, foi assim: "Ó minha espada, traça o pescoço àquela velha"! E a espada vira para trás e traçou o pescoço da velha. E ele disse: "Agora vou experimentar se o assobio se é [pausa] se é certo". Vira para trás, bota o pescoço da velha encostado, assobia, a mulher fica viva. Vai de carreira. "Minha espada, corta o pescoço daquela velha"! Cortou, deixou a velha morta e caminhou. Foi em cata Foi em cata de em cata dos irmãos – por os irmãos. Foi andando, andando, muito longe, e quando vai, chegou a uma aldeiazinha [pausa] e vê tudo ali a a falar: "Fulano morreu; fulano [vocalização] morreu; fulano, o bicho comeu" e calou-se. Ele calou-se muito bem caladinho e sai para baixo, sai para uma cidade. Quando chega à cidade, vê a esc- a cidade toda escura, tudo de luto: [pausa] janelas fechadas, cortinas pretas, tudo de luto. E pega em si, foge pa- para a aldeiazinha. Chega acima à aldeiazinha, e pe- [pausa] pega ali a falar, [pausa] e quando dizem que era um… Havia no mato, [pausa] nas serras, [pausa] um bicho de sete cabeças, [pausa] chamado fera. E tinha arrasado a cidade ao rei, que o rei tinha de dar uma sentinela todos os dias. E o rei vai, o que é que faz? Pega em si e bota uma sentinela todos os dias naquele lugar, onde aquele bicho tinha dito ao rei; [pausa] que se o rei não botasse, o bicho chegava à cidade, arrasava a cidade. Mas eram tantos, já estava o povo todo virado contra o rei, e o que é que o rei faz? O rei tinha uma filha. E o rei vai e bota por bilhetes, por sorte, quem é que ia [pausa] para cima, para guarda. Todos os dias a guarda faltava! Não tinha… Quantos caíam lá, quantos faltavam! Ia cada dia um guarda para o bicho comer, bem se sabe. E a cidade, quando lhe botou saiu a sorte à filha do rei para ela dir, a cidade botou logo luto. E este homem sabe disso e pega em si e perguntou [pausa] onde é que era isso. E eles disseram onde é que era e a que distância da aldeia. Ele aproxim- Ele no dia adiante, àquelas horas que disseram que a filha do rei saía de casa, ele aproximou-se fora da casa do rei. O rei vestiu a roupa toda melhor que tinha à filha. Os vestidos todos que ela tinha melhores, vestiu-os todos, em si. E caminhou, um um carro pô-la lá naquele lugar. E ele estava ali ao pé quando viu a carruagem a sair com ela, foi assim: "Arranca-lhe Olhos! Agora, Portais"! – que era o nome dos cães. "Faz favor de acompanhar aquela mulher onde é que ela vá ter". E os cães largaram-se atrás da carroça. E o homem ficou cá. Quando tinham Estando a mulher lá, vieram-se embora… Quando chegou Os cães voltam para trás, vieram-se ficar com o homem… Pegou no homem e caminhou; o homem, foi-o sempre a guiar, o cão – ouviste? Os cães foram guiando o homem! Quando chegou lá, estava a filha do rei [pausa] a chorar. E ela perg- E ele perguntou [pausa] ela o que é que tinha. E ela esteve dizendo. Esteve contando que que era um bicho, se [vocalização] uma fera de sete cabeças, que tinha pedido ao rei [pausa] todos os dias uma sentinela, e que depois que já estava [vocalização] muito pessoal já morto, e, com o horror, já estavam virados ao rei, e que o rei botou foi [pausa] por sortes e que tinha saído a sorte a ela para ir lá para cima, e que ia morrer. E ele disse: "Não morres"! E ela foi assim: "E o senhor como é que [pausa] sabe que eu não morro"? "É que não morres! [vocalização] Dá-me um beijo. [pausa] Tu não morres"! E vai ela, sabia que ia morrer e dá-lhe um beijo. Ele vai com a sua espada por trás e corta a beira do vestido. Demorou a abraçar a ela e corta a beira do vestido e meteu na algibeira. Esteve ali assim: "Está bem. Eu vou-me deitar aqui mais tu. Vais-te sentar [pausa] e eu vou-me deitar a minha cabeça no, no no teu colo. Quando tu sentires este bicho, acorda-me, que estou muito cansado"! E ela disse: "Sim senhor". Deitou-se. Ela assentou-se no chão, ele deitou a cabeça no no colo dela, e ela faz [pausa] confiança em ele dizer que ela não morria e coisa; mas sempre a chorar, julgando também que ia morrer também, e dizia que ele fosse retirado, que retirasse que ia morr- que morriam os dois. E ela vai, pega, [pausa] no seu choro, a coçar-lhe assim na cabeça; e ele vai e pega no sono. [pausa] E ele vai, quando sente o chão a estre- a estremecer. Sente o chão a estremecer e vai, acordou-se espantado. "O que é isso"? E ela disse assim: "Pois é o bicho que já vem chegando"! "Então não me dizias nada"? Ela disse: "Porque é que tu vais morrer? Morres"! "Não morro"! O bicho vinha chegando. Uma arazinha longe, e ele foi assim: "Minhas espadas, cortam aquelas sete cabeças duma vez"! A espada foi, e cortou-lhe as sete cabeças duma vez. E ela ficou lá. E ela vai e disse logo que casava com ele. Era uma filha dum rei! E ele disse que sim. E [vocalização] E ele foi às cabeças e cortou… Ele tinha sete línguas. Cortou-lhe sete pedacinhos das línguas. Embrulhou num pedacinho do vestido dela [pausa] e meteu na algibeira – arrumado na algibeira. E ela, quando chegou à hora… A sentinela Todos os dias ia uma sentinela para cima àquela hora. Chegou Eles chegaram lá acima com a sen-, com a com outra sentinela, com ou- [vocalização] outra guarda, estava estava a rapariga viva. Não a trouxeram, deixaram-na lá, porque ela estava viva. Voltam para baixo, quando viram este bicho morto. Mas o homem tinha desaparecido. Isso o homem tinha desaparecido. O homem disse que vinha depois ter a casa, até ao palácio. Porque o homem tinha desaparecido. Depois vai para cima o rei e vai esta tropa do rei, para cima, buscar esta mulher que "estava viva", "estava viva". Há uma grande alegria e quando toca a botar o o bate-fora, sol- pois viram o bicho morto, cortado, com cabeça e isso, tudo picado. Quem é que tinha matado aquele bicho, casava com a filha. E a filha vai e disse quem é que tinha sido. Tinha sido um homem com dois cães, com duas espadas. Esteve-lhe lá dizendo, ao, ao ao pai. [pausa] E quando se parece, um sapateiro vai e reclama que ele que tinha cortado as cabeças do bicho, e que tinha salvado a filha do rei. [pausa] Toca o rei a chamar o sapateiro para o sapateiro casar com a filha. A filha quando viu o sapateiro disse ao pai que não era ele. E ficou sem falar. Mas o pai, como ele tinha palavra de rei, e obrigou a filha, como ele tinha dito, a casar a casar com ele. Estavam-se aparelhando para casar e este homenzinho vinha cá à aldeia e ouvia dizer que a filha do rei que tinha escapado e tal, mas que ia-se casar com um sapateiro, tal, e esta coisa assim. E o gajo andava por ali e vai na véspera do dia de ele se estar a casar e manda os cães lá à casa do rei, ao quintal, fazer perca, lá ao quintal do rei. E os cães foi fazer perca ao quintal do rei. Os cães eram como uns cristães, tudo o que se mandava fazer, eles faziam. [pausa] Bem, tal com tanto foi que foram fazendo perca, foram fazendo perca, tanto o rei que não pôde e vai… Mas ele ela quando viu os cães disse ao pai: "Ó pai, o cão do esposo"! Dizia ao pai. Só a fala que ela dizia é quando via os cães. Os cães caminhavam, o rei não sabia nada dos cães. Ninguém sabia mais dos cães. O rei Foram andando e na véspera de casar e tanto foi que o rei obrigou-a e fechou o sapateiro e ela num quarto, [pausa] para casar com ele. Não havia maneira nenhuma! Quando no dia do casamento, obrigada a casar, [pausa] veio o dia do casamento e toca a caminhar para ele para se casar, aparelhar-se para se para se casar. Este homenzinho que era dos cães e da espada e sabe o dia do casamento e vai, bota-lhe à casa do rei [pausa] a pedir uma esmola. Ela, vestida de noiva para casar com o sapateiro, sem falar com o sapateiro, e quando vê este homenzinho disse: "Ó pai, o"!… "O" queria dizer que o seu noivo, o seu marido, que era aquele. Toca a chamá-lo para dentro. Chamam o homenzinho para dentro, toca o homem já confessa: "Sim senhor. Por acaso foi assim passado". Então o homem esteve contando a sua vida como é que tinha sido, com os seus pais e os seus irmãos, essas coisas todas. E, por acaso, se o rei se quisesse saber a ve- bem a verdade, tinha os sete… Porque tinha vestido sete vestidos à sua filha, e todos os sete cada um de sua cor, e puxou o [vocalização] pa- os sete vestidos pa- [vocalização] – os sete pedacinhos de vestidos – para [vocalização] para [vocalização] testemunhas. Toca o rei de ir à roupa da filha, que ele não tinha dado por isso ainda. Foi na roupa da filha, os sete vestidos todos cortados pela beirinha. E disse assim: "E o senhor para provas ainda, se quiser saber, vai às sete cabeças, vê se não faltam sete pedacinhos de língua. Também estão aqui". Bem, toca [vocalização]… Já não se casou o sapateiro. Toca o sapateiro, toca a chamar a tropa toda e [vocalização] perguntar a ele o que é que se fazia a ele. A filha vai, toca o a tropa e o pessoal, a vizinhança toda ali, a ver um [vocalização] de justiça com o sapateiro. Foi chamar quatro cavaleiros dos seus, para uma encruzilhada do caminho, amarraram o sapateiro e [vocalização] por uma perna e por um braço e e meteram-lhe às esporas o cavalo e rebentaram o sapateiro ali. E lá ele casou, o tolo… Está o tal tolo casado com a, com a com a filha do rei. E era tolo. audio/PIC05.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) É. É mais próprio para assim para miudezas do que ser assim para coisas de casa. O Baldomero é assim. audio/PIC06.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Ou nuns tabuleiros de lata, ou uns que a gente tem. Por exemplo, uns alguidarinhos antigos de barro, ou então nestes pírex que nós temos, que a gente deita… Mas eu, eu faço diferente. Eu ponho o peixinho em cima dumas folhas de vinha, ponho a assar juntamente com o bolo, o peixe fica rosadinho, tiro-o para fora; lá ponho dentro do meu pirexinho uma roldanazinha de cebola, ponho o meu peixinho, lá vai outra vez, ou uma coisinha de manteiga ou uma coisinha de de gordura; torno a pôr outra roldanazinha de peixe, outra roldanazinha de cebola, e aí é que faço então o meu guisadozinho. Outras vezes também o roso, e faço então como quem faz o molhinho a carne: só com a sua jamaicazinha, um pauzinho de canela, o seu colorau, e e lá lhe faço aquele molhinho só assim como é quem faz a carne, sem levar cebola… Assim é que eu faço o peixinho. Para ficar saboroso! Deita-se uma coisinha de malagueta, também é um petisco, com um copo de vinho! Risos Não é verdade?! audio/PIC07.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) É. Ele o fumeiro então é só dois pauzinhos que a gente põe. Ele é duas vergas e dois pauzinhos atravessados e vamos pondo a linguiçazinha estendida, ele quando se acende o forno ou se faz a sopinha. Porque ele aí nessa altura a gente não usa o fogão; faz-se é: uma grelha com a nossa lenha para dar aquele calor para enxugar a linguiça. Claro que o fogão não dá calor para enxugar a linguiça. Por isso é que a gente… Com lenha é que a gente faz. É isto assim. audio/PIC08.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Ela trabalhava em va-… Ela também trabalhava [vocalização] cá em Lisboa, que ela trabalhava por conta dum alfaiate. Trabalhou muito ano por conta dum alfaiate – onde ela estava. Eles estiveram cá há dois anos. Foram lá para a França, e estiveram cá há dois anos. Ela prometeu-nos vir dali a cinco anos. Vamos a ver. Tenho é muitas saudades dos miudinhos, que eram uns miudinhos que ainda não tinham um ano e eram gémeos! Mas muito branquinhos, muito gordinhos, muito lourinhos, avermelhadinhos até do cabelo. Eram tanto engraçados, filhos da minha alma, mas é tanto longe! Já no fim Eles estranhavam mas depois… Eles estranharam muito mas já no fim [pausa] ficavam comigo, aqui de noite, a dormir. E a mãe ia, às vezes, dar um passeio, mais o marido, iam ver-me isto aí, que ele gostava também de lhe amostrar isto aí e ela já e ela gostava. Só estranhava muito é que não tínhamos luz. Mas nós agora temos luz. Assim como a minha casa, a gente chega-se à noite, eu faço o meu serviço aqui brancamente com a luz. Já é então uma animação. A gente estava aqui, vivíamos muito apertadinhos sem uma luz, sem águas, sem nada… Águas, a gente tem nos nossos tanques, mas agora a luz, credo, Pai do Céu! É claro, é uma animação! Foi o melhor que fizeram foi a luz! audio/PIC09.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Sim. E quase sempre para cima. É sempre bom. audio/PIC10.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Mais. Andei vários anos no atum. Vinte e três, creio eu, ou vinte e quatro. Vinte e quatro. Depois larguei e já estou aqui à baleia já havia já também há uns três anos ou quatro. Quatro é que é. Quatro. [pausa] Quatro. [pausa] E é isto, minha senhora. audio/PIC11.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Ora é. audio/PIC12.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Mas essa fábrica trabalhou vinte e oito anos [pausa] sem nunca prestar contas a sócios. Depois veio o senhor Basílio, Bebiano Basílio, comprou essa fábrica, tal, depois quis fazer aí umas propostas para c- para a compra de óleo… Isso até meu irmão é que poderá explicar uma coisa melhor. [pausa] No fim ao cabo, ela está fechada. audio/PIC13.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Sim senhora, sem coisa nenhuma. Era estendida a re- a renda numa numa toalha ou [pausa] estendida em cima duma mesa, e elas com o próprio dente da baleia… Eu ainda me lembro disto, mestre Balduíno; sou mais novo, mas lembro-me disto, da tia Carlota da Ladeira. audio/PIC14.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) O carapau. E a gente aqui é chicharro. A gente trata o chicharro mais grado, chicharro, e o mais miúdo, chicharro; e no continente trata-se o mais miúdo, carapau, e o mais grado é o chicharro. Portanto, é o carapau do continente, aquele miudinho, que é os bimbelos. audio/PIC15.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Sim senhora, é sempre sete. [pausa] Até porque, vamos, a capitania, a lei da capitania permite é sete mesmo. Não pode ir menos. Às vezes vão com menos, com falta de gente, vão com menos. Mas Mas a lei da capitania é sete. A emb- [vocalização] A embarcação é p- é para usar sete homens. audio/PIC16.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) É, sim senhora. audio/PIC17.mp3 Ribeiras (Lages do Pico, Horta) Exa-! Ali não há! Ali [vocalização] a gente olhamos uns para os outros, às vezes, a baleia ajunta-se ao bote, anda com ele às costas, ele enche água duma banda, safa da outra… Nessa altura é que a gente se lembra de Deus. Até aí nunca… Depois: "Deus nosso Senhor, Jesus dê-nos isto, dê-nos aquilo", mas naquelas alturas a gente grita mais. Depois quando vem para a terra já se esqueceu mais um bocadinho. E é assim! audio/PIC18.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Mas não pega bem. audio/PIC19.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Era um padre que era pobre – pobrezinho, coitado, mesmo! Eu não o conheci mas ouvi dizer. Vivia numa aldeia qualquer mas era muito amigo do bispo. Escreviam-se. E o povo, o povo como gostava muito do padre, e pegaram-no a auxiliar muito, com dinheiros, [vocalização] muita coisa, para ele viver. E ele foi ficando mais mais divertido e coisa, a conviver com aquela gente toda, com senhoras, com senhores, e no entanto que levou uma criada para casa. E depois resolve a fazer uma casa nova. Faz uma casa muito bonita, muito linda! Como o bispo era muito amigo dele, e ele o que é que faz? Escreve uma carta a convidar o senhor bispo para vir visitá-lo. E o senhor bispo quando pôde, lá foi-lhe fazer a visita. Ora, ficaram muito contentes por lhe amostrar a sua casa, foi amostrando a casa, mostrando… Entanto, entraram pela porta da sala e até que chegaram à cozinha. Foi vendo, mostrando a casa toda. Quando chegaram à cozinha, o bispo pergunta: "Ó padre, bem, tu tens uma criada certamente"? "Tenho, sim senhor"! "Homem, mas eu vi só um quarto de cama. Gostava de ver o quarto da cama da criada". Diz ele: "Ó senhor padre, a gente fica juntos". Diz ele: "Ora, óróróróró, paciência! Ó homem, mas não sabes que é grande pecado ficar juntamente com a tua com a criada"? Diz ele: "Mas a gente fica com um tabuão entre o meio da gente". E ele vai assim: "Ó padre! E quando vem a tentação"? Diz ele: "Tiro logo o tabuão"! audio/PIC20.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Cortou-lhe o pescoço ao irmão. E vai… Mas ele tinha o assobio da velha e a gordura da velha, que a velha tinha botado os outros vivos. Corta o pescoço, o rei vai, manda logo prender o o que era marido da mulher, que era para mandar matar. Ela disse que não se mandava, que tinham a gordura, que era da velha, e tinham ele o o assoprador, que era da velha, punham-no vivo. Toca ali de ligar o pescocinho ao homem, toca a oleá-lo todo, assoprou o homenzinho mas o homem não ficou vivo. Lá ficou então o outro em casa do rei, e o rei pôs o outro rico e os pais todos ricos. Estão além Estavam nas suas casas vivendo, no outro dia passei lá, estavam bem bonitos! audio/PIC21.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Mas Mas a gente já no meu tempo era – agora no meu tempo – era muita força de petróleo, muita força de petróleo. audio/PIC22.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Eu [pausa] Faço a cama, e depois de fazer a minha cama, limpo o meu pó, e depois de limpar o meu pó, varro a minha casa. Assim é que eu faço. audio/PIC23.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) É porque não gostam, porque o fazer da comida agora dentro do caldeirão, já vai um cheiro a fumo, sendo na grelha; e o caldeirão não se pode pôr no fogão, porque é muito grosso, gasta muito gás; e mesmo, tem os pezinhos, não assenta bem no no fogão. Tem que ser é na grelha, o caldeirão. Na hora da comida não é tanto saborosa! audio/PIC24.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Para Para a gente escaldar uma fornada de bolo, e eram também para se acartar figos… Era tudo em selha, tudo de cedro! Mas agora já não há cedro, já vão se amanhando é com [nome]. Ainda há selhas, que selhas antigas ainda duram muito ano, que eu também tenho uma – selha dos figos. audio/PIC25.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Mais ou menos assim ali de litro… E outro aí mais de litro, também ali um litro e meio. Eram umas bilhas boas. A gente, às vezes, enchia-se ali três, quatro bilhas de água e deitava num caldeirão que dava para escaldar sete, oito bolos. Eram umas bilhas boas! audio/PIC26.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) E até dentro duma tigela! E dentro de um alguidarinho destes de barro [pausa] cheguei eu a comer! A tia Hermengarda velha, que era aqui do lado de cima de minha casa, fazia ali a sua tachada de funchos e fazia a sua fornada de bolo no forno, como eu fiz hoje. Pegava ali num bolo, migava dentro daquele alguidarinho, tirava daquele caldeirão – porque naquele tempo era caldeirão – de funchos, virava em cima daquele bolo, dava-lhe um mexerú, ele ficava o bolo e os funchos tudo caldeadinho. Eram seis e sete ali de roda do alguidarinho, era aquele que mais padejava com a sua colherzinha para a boca. Esses eram uns funchos saborosos! Agora é com toda a fidalgaria e todas as etiquetas… Também andam aí magrinhos e naquele tempo eram sequer gordos! audio/PIC27.mp3 Bandeiras (Madalena, Horta) Eu já nem sequer me recorda o que é cantar. audio/PIC28.mp3 Ribeira do Meio (Lages do Pico, Horta) O outro é que a gente usa. audio/PIC29.mp3 Ribeira do Meio (Lages do Pico, Horta) Não? Não custava. audio/PIC30.mp3 Ribeira do Meio (Lages do Pico, Horta) Aqui, não se usa; agora, no continente, usa-se. audio/PIC31.mp3 Ribeira do Meio (Lages do Pico, Horta) Pois, também se usa. Esses que andam à pesca da lagosta utilizam aquilo. audio/PIC32.mp3 Madalena (Madalena, Horta) Não. É conforme os ventos. Por exemplo, lá o vento de oeste, [vocalização] mete mar; a partir do oeste para cima, mete mar, o mar de oeste; aqui a partir de oés-noroeste, que é a partir de oés-noroeste para baixo, de cima da te- até ao Faial, pelo norte, mete aqui o mar do norte [pausa] na coisa – principalmente de Inverno. É muito perigoso então! Pois a gente, as marés, as correntes, a gente sabe… [vocalização] A gente sabe as marés p-, p- por onde é que vão, a gente quer quer ir pescar ao goraz, a gente tem que ancorar é direito à pedra. Por exemplo, pode fazer areia em volta da da pedra, ou ali mais metros, ali, por exemplo, vinte metros desviados, a gente marca-se. A gente, qualquer lugar que vai pescar, é assim, [vocalização] a gente marca. É sempre marcado. A gente marca-se por terra, por casas, por [vocalização] por cabeços, por essas montanhas que se vê aí. A gente faz as nossas mar- marcações das pedras. Todos os marinheiros, uns marcam-se por umas, outros marcam-se por outras; tudo no mesmo sítio. Uns marcam-se duma maneira, outros marcam-se doutra, mas todos vão lá ter a esses lugares que de pesca. A gente chegou: "Olha, a maré vai para o sul", a gente bota… Porque é a tal… Ele a gente chama a poita, que é uma pedra amarrada no cabo, que é de ancorar; a gente chegou mais ao norte, ancorou, porque a maré depois bota para o sul; e a gente aí temos as nossas coisas de pescar. Os nossos engodos, os tais engodos, bota-se ao mar. A isca, a isca é a cavala, a sardinha que se compra de… Vai-se comprar ao Faial. A lula, o chicharro, que é o carapau… audio/PIC33.mp3 Madalena (Madalena, Horta) Aqui [vocalização] , aqui não. Aqui, por exemplo, [pausa] como eu, [pausa] eu tenho do- dois barcos… Tinha um barquito pequeno, uma lanchinha pequena, e depois vimos esse barco no estaleiro, que é este maior que tenho, porque os meus irmãos tiraram-me o juízo que devia-se comprar e que assim e que assado. E eu é que comprei e é meu. É tudo meu. E eu faço duas soldadas à embarcação, às duas embarcações. Quer que vaia uma ao mar, quer que vaia as duas, eu só faço duas soldadas. Faço, porque eles são meus irmãos, não vou explorá-los. Se fosse outras pessoas que fosse de fora, pois eu não podia fazer duas soldadas. Mas eles como são meus irmãos e ajudam-me muito, portanto eu também não quero comer o trabalho deles. [vocalização] Sei que a despesa está em cima de mim porque eu é que dou tudo, é que compro os preparos, é anzóis, é arame, é a seda, é… Tudo o que é necessário para o barco, eu é que compro tudo. Eles Só o que sai ali de que é do do monte, que a gente chama, que é do dinheiro todo junto, só sai o combustível, mais nada. Mas o resto, eu é que dou é que dou tudo. Portanto, não é muito. [pausa] A bem dizer, uma soldada uma soldada é para para arder ali nos preparos. audio/PIC34.mp3 Madalena (Madalena, Horta) Com a marca do pescador. audio/PIC35.mp3 Madalena (Madalena, Horta) É francês mesmo. É um belíssimo rapaz. É de Paris mesmo. É dono duma fábrica de roupa de senhora. Veio aqui o primeiro ano aqui, aqui à pesca juntamente com um tio francês, também, que já tinha vindo acá à pesca; depois queriam ir aqui aos ilhéus aqui, mas não tinham barco; como eu estava ali, falaram comigo se eu queria ir, e eu disse que sim. Fui. Chegaram cá ao porto, perguntaram: "Quanto é"?, e eu disse que não era nada. Lá tive a pachorra de andar com eles. Disse que não era nada, eles deram-me o peixe – até tinham apanhado duas anchovas e ainda se viu um mero –, deram-me o peixe e deram-me trezentos escudos. Eu até nem queria pegar no dinheiro, eles lá me deram o dinheiro; depois se [vocalização] disseram se queria se eu podia ir ao outro dia, eu disse a eles que sim; e lá continuámos, fomos criando amizade e hoje em dia somos grandes amigos. audio/PVC01.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) E quando era da que o rio ia grande… Ele quando o rio ia grande, era preciso uns poucos de barqueiros. audio/PVC02.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Aquando ele depois morreu, ele [pausa] apareceu aqui no esteiro; e outra senhora apareceu ali na povoação em Janeiro de Cima; e a outra senhora v- conseguiu-se salvar, foi bater ali numa fraga, e agarrou-se à fraga e começou a gritar, e as pessoas de estavam na cama, foi tudo a correr, ainda a conseguiram tirar. Os outros dois já só apareceram uns dias depois. audio/PVC03.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Já ia Quando chegou lá já ia morto. Isto há pouco tempo. audio/PVC04.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Para a água correr, que ia pa- para as presas, e depois a gente ia-se tapar a presa, que ia regar… Isto era era lindo, lindo! audio/PVC05.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Dá bom sabor! audio/PVC06.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) que era já era para fazer sacos… Que Que primeiro não vinham sacas; não vinha adubo, não vinham sacas. Era para a gente [verbo] para azeitonas e para apanhar feijões. audio/PVC07.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Pois. Claro. audio/PVC08.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Com o fungo. audio/PVC09.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Sim senhor. audio/PVC10.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Sim senhor. audio/PVC11.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Exacto. audio/PVC12.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Era só o azeite puro. A gente ia-o passando a pouco a pouco, devagarinho… Ele E fazia-se a calda primeiro! E depois no fim de fazer a calda… Porque agora o azeite não é caldeado como era naquela altura. Naquela altura era caldeado nas seiras, aquilo é que era com água a ferver, ia sempre… [pausa] Era sempre caldeado. audio/PVC13.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Sim, a gente sabia se ele… A gente sabe a altura que tem ele do azeite dentro da, dentro do do pote. audio/PVC14.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Tornava-se a dar outro aperto e então com aquele aperto e com aquela água a ferver é que a gente passava o azeite para a outra tarefa. audio/PVC15.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Pois. É, é o que se chamava um ganhão. audio/PVC16.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Que a agricultura tem assim destas coisas, é. audio/PVC17.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) É. audio/PVC18.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) tirava-se o vinho, e fa- e fazia-se a aguardente bagaceira. audio/PVC19.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) E depois era depois era… Ele no fim de maçado, era tascado. audio/PVC20.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Rhum-rhum. audio/PVC21.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Era. Eram os caminhos. Pois, era o caminho. Eram os caminhos – não era? –, que era um caminho que ele passavam lá uns poucos. audio/PVC22.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Não. Não, não cantava. audio/PVC23.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Um aquecedor. audio/PVC24.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Rhum-rhum. audio/PVC25.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Ai é? audio/PVC26.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Já cá houve mas pouco. Aquilo [vocalização] ainda dão muita despesa para se criarem e tudo, e não querem andar com aquele trabalho. audio/PVC27.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Risos Foi o tio Bertoldo, vós conhecei-lo também. Lá foi buscar a mulherzinha, esteve então muito tempo de ca- na cama, muito tempo sem ir, sem se sem caminhar. audio/PVC28.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) Andaram com muitos pesos depois ficaram… Pois. Claro! audio/PVC29.mp3 Porto de Vacas (Pampilhosa da Serra, Coimbra) a sete anos é que torna é que torna a calhar. audio/EXB01.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) A gente aqui é a Senhora do Socorro, a Senhora do Socorro. audio/EXB02.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) É. Era tudo diferente do que é agora, não é? audio/EXB03.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois então! Pois se as fazendas são nossas, a gente é que tem os prejuízos, a gente é que está a criar a caça! Tiramos uma licença de quatro contos ao Estado, paga-se um porte de armas de [vocalização] de cinco contos e tal, paga-se mais três contos e tal de de seguro de de espingarda, e [vocalização] passa paga-se um conto de réis de uma uma vacina dum cão, paga-se mais um conto de réis de duma licença dum cão… Então, a gente tem gasta uns poucos de contos na, na nas licenças, e tudo, e não tem ordem de caçar naquilo que é nosso?! audio/EXB04.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB05.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) É, fazia-se a água-pé, que é o que os homens bebiam no trabalho. audio/EXB06.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) E [vocalização] era uma miséria, pronto. Antigamente era uma miséria. Isto agora, o pessoal agora está todo rico! audio/EXB07.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Parece algodão em rama. audio/EXB08.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Meu Deus! audio/EXB09.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) calavam-se e não abriam a porta. Pronto! audio/EXB10.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Eu vinha a quarenta e cinco quilómetros, mas era uma carreira já por conta da casa [pausa] é que levava a gente e trazia. Depois fazia… Eu pedia… Eu gostava de fazer sempre a noite [pausa] para de dia ir trabalhar outra vez: ia dar serventia a pedreiros. audio/EXB11.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Comprei um tractor, comecei outra vez a amanhar, comecei outra vez a meter gado ali. Vá outra vez para o campo! audio/EXB12.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) devagarinho, e [vocalização] até que cheguei a salvar muitas crias assim. audio/EXB13.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Estava sujeitos de se aleijar. audio/EXB14.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Eu cheguei a andar de bico de pé meses inteiros! audio/EXB15.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Rhum-rhum. audio/EXB16.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Ah! audio/EXB17.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois é, pois é. audio/EXB18.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB19.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB20.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Foi uma maravilha! audio/EXB21.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pronto, era assim. audio/EXB22.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) É o enxerto. É o enx- É enxerto de garfo. audio/EXB23.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Dum ano para o outro dá logo uva. audio/EXB24.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Já não tem idade conhecida! audio/EXB25.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) E tenho ali outro, por causa de não… Que ele [pausa] o tempo tinha alturas que me [vocalização] deitava o fumo pelo fumeiro abaixo, enchia-me as casas todas de fumo. Digo eu assim: "Deixa estar que eu hei-de comprar um [vocalização] um fornozinho pequenino para pôr ali". A gente também já somos menos e [vocalização] e, se for preciso, coze-se até nem que seja duas vezes por semana. E depois ele pensei comprar então o forninho. Aquele ali não leva rodado nenhum. Tenho a cana, mas é para pôr as brasas assim para o lado, que é para depois puxar com o rodo. Depois tiro a brasa toda para dentro dum caldeiro, que está assim à boca do do forno, e depois é que molho um pano e ponho [pausa] enrolado no no rodo, e [vocalização] e lavo o forno todo por dentro, fica todo lavadinho. audio/EXB26.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Arradador. É arradador, pois. audio/EXB27.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) mas este telhado aqui é muito mais baixo que o outro; o outro era muito mais alto. Como não apanha bem o espigão para cima, quando o tempo está dali, ele faz ele moer e recolhe abaixo e enchia as casas de fumo. Eu depois tive que comprar outro para ali, que a mulher, às vezes, fartava-se de ralhar comigo. audio/EXB28.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Rhum-rhum. audio/EXB29.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB30.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Esse quando não fosse para a arca, estava no fumeiro até se comer todos. Tinha que ser comido naqueles dois meses, ou coisa assim, porque senão ganhava ranço. audio/EXB31.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) E quando é o tal pão de milho a molhar-lhe – no tutano, o pão de milho – e comer com uma batatinha?! Isso é um manjar do diabo! audio/EXB32.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) É. Chamam-lhe um galo capão. Não, não Não faz filhos. audio/EXB33.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB34.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Eu tenho pouca sabedoria disso! audio/EXB35.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) vai-se pagar as rendas ao senhorio, pronto. Onde o senhorio só tem a arreceber o dinheiro e passar o recibo e mais nada. audio/EXB36.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB37.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) É, é. audio/EXB38.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Era a adiafa. audio/EXB39.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB40.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. Pois. audio/EXB41.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois, pois. audio/EXB42.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) E outros não tinham, passavam-se. audio/EXB43.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois. audio/EXB44.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Rhum-rhum. audio/EXB45.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Tinha sete ovos. audio/EXB46.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Pois, não sei. audio/EXB47.mp3 Enxara do Bispo (Mafra, Lisboa) Já nos escusou-se de andar assim a a bandejar. audio/TRC01.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Para o ano que vem. Sim, sim senhor. [pausa] De forma que o homem vai para a sua casa e trata de arranjar bezerros, compra dois bezerros, três bezerros; há pessoas que oferecem um bezerro também dado – que eu também ofereço um todos os anos – percebeu? –; [vocalização] e há os benfeitores que vão engordar aqueles bezerros um ano inteiro. Quando é ali quinze dias perto de ele dar a sua função, ele vai convidar os seus amigos e parentes – quem quer e entende – para a sua casa, para durante aquela semana irem para lá rezar o terço e mais ele todos os dias à noite, [vocalização] amassar o pão do Senhor Espírito Santo – não é? –; e [vocalização] na quinta-feira há a folia dos bezerros; na sexta-feira há a matança dos bezerros, que eu vou matar os bezerros e vão pessoas ajudar-me a matar os bezerros – não é? –, [pausa] cozer o sangue; no na sexta-feira, ou seja, no sábado, faz-se [vocalização] a distribuição da carne [pausa] com os convidados e por os pobres – não é? –; vão partir a carne e fazem a distribuição da carne; porque depois é: tem que se salgar a carne que é para a sopa de domingo, têm que fazer alcatras para aquele pessoal no domingo e [vocalização] também há umas rodas de carne que são feitas para trazer aqui para o teatro para distribuir no domingo pelas pessoas que vêm aqui, no dia do bodo; e lá faz-se então o jantar em casa do imperador que dá a função – pode ser para duzentas pessoas, pode ser para trezentas, pode ser para quatrocentas – não é? –, tanto seja que seja as pessoas que ele convida, faz-se esse… audio/TRC02.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Batacozes. É as mãos de vaca; a gente faz umas alcatras donde tira esse molho para a sopa; [pausa] a gente deita-o na panela; quer dizer, água, deita-se a que precisa – não é? –, e [vocalização] meio litro de vinho branco – parece-me que já [pausa] repeti isso. E [vocalização] quando a carne está cozida, a gente tira a carne; e depois de tirar a carne é que a gente faz um tempero final. A gente [pausa] tempera… Eu tempero as panelas todas, provo e acho uma ou outra um pouco mais insonsa, já não vou-me temperá-la para as outras. Com uma concha, passo-as todas de uma para a outra, é uma mistura, e depois então torno a provar, porque ele pode haver uma que tenha um bocadinho de mais e outra que tenha de menos. E assim, eu misturo o caldo todo e dá o paladar todo por igual. Quer dizer, e depois é que a gente então tira as sopas. Nessa altura, enquanto a sopa se cozeu, [pausa] a gente tivemos várias pessoas a picar sopas e [vocalização] encher as terrinas, que são aquelas que estão ali. A gente tem aquelas pessoas a encher as terrinas e [vocalização] quando está tudo preparado, a gente tira a sopa e abafa. Ora, depois de a gente abafar a sopa, já temos a carne abafada – porque foi cozida, tirou-se e depois é que se preparou a sopa. Temos então é os homens a deitar as mesas: toalhas, copos, gardana- – oh, diacho!, guardanapos, bem digo –, e [vocalização] os talheres completos, e a encher os jarros de vinho para distribuir nas mesas, preparar as travessas para encher a carne, preparar o pão de leite para poder deitar nas mesas. Quer dizer, todas essas coisas que são necessárias, as pessoas que estão a ajudar a trabalhar vão preparando tudo para quando chegar à altura do banquete, a gente não estar à espera duma coisa ou outra. Já está tudo em ordem para quando começar o banquete, pega tudo a seguir. É a razão, é o Quer dizer, o estilo cá do nosso jantar do Espírito Santo é este. audio/TRC03.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) mas com muito gosto. audio/TRC04.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Portanto, aproveitavam a ir matá-los à praia, para receber esse subsídio. Mas depois de esse subsídio ter dexistido, eu mato-os mesmo na casa do do imperador, pois. Vão a enfeitar, por exemplo… Então, aquele é amigo comigo e eu tenho um domingo, e ele mora, por exemplo, aí mais para baixo, e eu peço e vou-me a casa dele enfeitar. Vai a filarmónica e, às vezes, vai cantadores – não é? –, tem cantoria… audio/TRC05.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) As pessoas que estão aqui são precisamente, quer dizer, uns procuradores só para trabalhar, não para ganhar nada, só para zelar esta casa. O que tem: uns trabalham este ano, os outros trabalham daqui a um ano… E a gente vai nomeando, uma vez um, outra vez outro. audio/TRC06.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É uma tradição antiga, mas uma tradição – como é que eu hei-de dizer? – que [pausa] torna-se às vezes até… Para mim, eu sinto-a muito, é uma tradição que eu sinto-a e choco muitas vezes [vocalização] quando vejo aquelas crianças todas sentadas a comer, porque aquilo ali não há defeitos. Aquilo são as pessoas que sentam ali à mesa, às vezes, cento e cinquenta e a duzentas crianças – não é? – e quer esteja insonso, quer esteja salgado, quer esteja mal cozido, quer esteja bem cozido, para aquelas crianças está sempre bom, [pausa] está a perceber? Aquilo ali não há defeito. É das pes- É dos jantares que eu gosto imenso de assistir é ao jantar das crianças e que o faço sempre. Em toda a banda que vou, dá-se sempre o jantar das crianças. audio/TRC07.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) No domingo da manhã recebe uma alcatra e um pão de leite [pausa] e ao meio-dia recebe uma terrina de sopas. [pausa] Esse criador é convidado para a semana inteira, para as- para assistir naquela casa a semana inteira, se quiser estar mais a família, [pausa] comer disso que houver e [vocalização] estar mais aquelas pessoas durante aquela semana. audio/TRC08.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Portanto, isso é uma responsabilidade duma mulher que toma esse cargo para cozer as massas. Isso leva [pausa] sete dias a cozer, de dia e de noite. Essas mulheres nunca se deitam na cama. Durante o dia e durante a noite, aquela mulher está à boca do forno, sempre, sempre, a aquecer o forno, a [vocalização] meter massas, tirar massas. E a outra está a mandar então várias mulheres, [pausa] a amassar, depois vão tender – não é? –, outras vão tomar a presa à massa… Quer dizer, tomar a presa é fazer a mistura da massa com ovos e leite e açúcar – não é? –, e quando está preparada já com os ovos, e o leite, e o açúcar, o fermento, isso, quando deitam dentro, então é que as outras pegam todas a amassar… Levam ali três horas a amassar num alguidar. [pausa] Três horas, não é não é cinco minutos. É muito tempo. E isto é o giro durante a semana, quer dizer, é até cozer as brindeiras da visita; quando se acaba as brindeiras da visita, pegam a cozer [pausa] o pão de leite [pausa] para [pausa] a folia, que é no dia de enfeitar os bezerros, na quinta-feira… audio/TRC09.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Porque precisa cozer o pão da sopa [pausa] para o domingo; precisa cozer o pão de leite para o sábado. Quer dizer, continua sempre; as cozeduras continuam as mesmas. Os bezerros continua-se é a fazer as fitas. Na quinta-feira, [pausa] da manhã, aquelas raparigas a fazer as fitas, [pausa] de papel fino, de várias cores, para enfeitar os bezerros. Na quinta-feira. audio/TRC10.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Era os foliões que faziam, era, sim senhor. Agora, depois disso então, há o desfile, que é o cortejo, direito a casa do imperador, [pausa] e vêm os cantadores – se se acontece a ter os cantadores – e os cantadores se passam em casa dum desses que criou uma rês daquelas, pois pára a música e os cantadores ali [vocalização] dizem cada um duas cantigas dedicadas dedicadas ao criador. Chegam ali, por exemplo, à sociedade aqui da freguesia, pois também [pausa] param e [vocalização] dizem duas cantigas [pausa] cada um [pausa] à sociedade. Ele chegam à casa do senhor padre – não é? –, pois a mesma coisa. Chegam aqui a passagem do teatro e a igreja, [pausa] pois dizem duas cantigas à igreja, dizem duas aqui ao teatro e dizem duas ao cemitério, [pausa] quer dizer, pelos irmãos que já lá estão – não é? – e que zelaram isto. Cantigas bem feitas! [vocalização] Se passam na minha casa, pois, como mestre da função, também [vocalização] [pausa] dirigem também duas cantigas. audio/TRC11.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Até Até a casa do imperador. Quando chega a casa do imperador, [vocalização] os bezerros quando chegam à porta, os criadores pegam na cabeça aos bezerros e eu vou buscar a coroa do Senhor Espírito Santo [pausa] e [vocalização], com o ceptro, eu benzo os bezerros todos. Quer dizer, faço-lhe uma cruz na testa – não é? – e em cima da [pausa] da suã, depois vou arrumar e vai-se arrumar os bezerros. Nessa altura, há ali também uma distribuição de pão e vinho a toda a gente. Toda a gente come e bebe ali na quinta-feira. E depois a seguir há o terço. audio/TRC12.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Come-se. audio/TRC13.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Depois quando esses homens chegam, pois há ali uma distribuição, [pausa] da manhã, de um bocadinho de massa doce – não é? –, um calicezinho de aguardente, porque aquele ar é frio, da manhã cedo, e depois a gente pega a cortar carne. Ora [vocalização], cortar carne, aquilo ele tem várias divisões: eu vou dividindo carne para alcatra, vou dividindo carne para sopa, vou dividindo carne para esmolas. Porque depois há umas esmolas dadas aos convidados: um quilo e meio de carne a cada casa. A quem ele convidou, está a perceber? Portanto, eu vou cortando: a carne que é própria para sopa, eu vou apartando para sopa; a carne que é própria para alcatra eu vou apartando para alcatra; a carne que é própria para fazer um presente bonito para dar a este ou àquele, pois eu vou-a cortando. E continuo ao domingo, até acabar ao sábado, até acabar a carne, sempre desta forma. À maneira em que eu vou partindo, ele já vai distribuindo; são crianças que vão distribuindo por casa dos convidados a quem ele convidou. Aí por volta das dez horas, pois a gente resolve um almoço – não é? –, com bifes. Às vezes, bifes grelhados que eu faço mesmo na ocasião. Até que já se deu de eu estar a partir a carne – não é? –, e mais colegas meus a ajudar e, para não dar o trabalho às mulheres, a gente amanha uma grelha e [vocalização] a gente faz ali um braseal e ali a gente grelha os bifes – não é? –, e a gente come mesmo ali, quer dizer, [pausa] uma coisa de risada – não é? –, uma festa que a gente faz ali, a beber uns copos, até acabar as carnes. E [vocalização] quando se acaba de partir as carnes, eu então, nessa altura, tenho as alcatras para fazer. Faço as alcatras [pausa] e salgo a carne que é para a sopa. Quer dizer, preparar tudo para o dia seguinte – que é no domingo – estar tudo em ordem: estão as alcatras feitas, [vocalização] a carne da sopa salgadinha, do sábado, que é para no domingo de manhã então é que a gente prepará-la para a sopa. audio/TRC14.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Para fazer uma alcatra eu tenho de botar uma média de três quilos de carne dentro num alguidar. [pausa] Eu tenho que deitar um bocado de banha – ou seja gordura, como queiram chamar –, [vocalização] meia barra de manteiga, uns [vocalização] três, quatro dentes de alho –, quer dizer, isto são moídos –, cebola picada miudinha… audio/TRC15.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É do sábado para o domingo. É, sim senhor. audio/TRC16.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Quer dizer que parece que estão todos nomeados já esses. audio/TRC17.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) E as pessoas então, enquanto isso se está a cozer, as pessoas estão já a picar sopas. E há um homem encarregado a deitar uma folha de hortelã em cada uma terrina de sopa. Ali debaixo das sopas. Como também se deita nas panelas um galhinho de hortelã em cada uma panela. audio/TRC18.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Acabou. Na segunda-feira, este homem que deu esta função, na segunda-feira tem lá os seus convidados para lavar as louças – não é? – e preparar tudo para vir fazer a entrega aqui de tudo quanto… Também tenho muitas pessoas lá a trabalhar na segunda-feira. audio/TRC19.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois é, porque também vai fazer mais do que aquilo que ele pode. audio/TRC20.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Que ainda mesmo assim, todos esses que dão funções, [vocalização] muitos são ajudados. Há um, dá uma saca de farinha, o outro [vocalização] dá um bezerro, o outro dá gordura. Quer dizer, há muitas pessoas que oferecem muitas coisas mesmo. Muitas! audio/TRC21.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Ele tira no primeiro bodo. Já sabe que de hoje a oito dias que o Senhor Espírito Santo que vai para sua casa à noite. Depois de o outro dar o seu jantar e de terminar o bodo, já sabe que ele que vai para sua casa. Nessa altura já vai enfeitar a sua casa e vai cozer a sua massa para esperar as pessoas que vão lá levar o Senhor Espírito Santo. audio/TRC22.mp3 Biscoitos (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC23.mp3 Biscoitos (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Com o rabusco. Há anos que eu tenho enchido… Ah senhor, ele teve aqui cerrados, aqui n- aqui nesta lomba, que uma quarta de chão dá mais duas – o tio Elmano vai dizer que é três –, três pipas de vinho, uma quarta de chão. "Oh, é um nabo"! Aquilo para encher um cesto de duas asas, para encher um cesto de duas asas era nu- numa vara. Eu cheguei a ver, ainda era acolá em baixo, num cerrado que era do meu pai, naquele cerrado de baixo, era uma haste [pausa] que estava ali. Um ce- A gente nem sequer usava o ce- os cestos de vindima – como a gente dizem o mais pequenino – a gente nem sequer usava o cesto de vindima. [pausa] Aquilo era um instante para encher um cesto! Mas também aqui para baixo um homem passa um alqueire de chão [pausa] para encher, às vezes, um cesto, porque não tem vinha, também já não tem vinha, que isto aqui para baixo está tudo despachado. Eu cá das vinhas que eu trabalho hoje… Eu faço é muitas vinhas, mas das vinhas que eu trabalho hoje, aquilo é tudo para mim [pausa] e não ganho nada. [pausa] A gente passa um alqueire de chão para dar para dar o barril de vinho e há-de ter algum de menos! Aqui para baixo está tudo despachado. É onde fazia o vinho melhor. audio/TRC24.mp3 Biscoitos (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Não cabia bem debaixo da bica do lagar. audio/TRC25.mp3 São Brás (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois, pois, pois. audio/TRC26.mp3 São Brás (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Uma flor seca nos topos das escadas e não sei que mais… Não, mas eu não… Não, não vendo. Pode ver, estas comprámos a cinquenta escudos; quatro contos que me dessem agora, eu não vendo. Primeiro E vinha com com água destilada e mais não sei quê que vinha de… audio/TRC27.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) O bar- Com o barco parado, com a poita ao mar. audio/TRC28.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC29.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Ele a gente A gente, a gente nem sequer ficava parados vez nenhuma. Quem fica parados é esses que andam a passear! A passear. A gente, a gente quando via que não havia vento, a gente arreava o pano para baixo e toca a remar. audio/TRC30.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Para o Pico. A gente, a gente tinha muita vez que vinha aqui para o Negrito, [pausa] a remos. A gente a gente, a ge-, aí pe- aí penava muito. A remos! [vocalização] E depois a gente demos em cramar que o trabalho que era muito, [pausa] depois é que deu em botar para o Pico. O Pico ainda foi pior, que eles eles, eles davam a conta de todo o azeite à gente o que queriam. Roubavam à gente! audio/TRC31.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) A diferença que é é, por exemplo: ele vai-se com a maré cheia bater a rede, guindar com pedras… Por exemplo, bota-se a rede, encostada às pedras, e guinda-se com umas pedras para ver se o peixe dá na rede, que é para ficar malhado. E de E de amajoar, é – por exemplo –, é, por esta hora, eles deitam as redes agora dentro do barco e vão amajoá-las. Deitam assim a rede a rede encostada às pedras, esticadinho assim, com uma para fora, um bocadinho, e amanhã é que vão alevantá-las. Amanhã ou à meia-noite, é assim, conforme. audio/TRC32.mp3 São Mateus da Calheta (Angra do Heroísmo, Angra do Heroísmo) Para ir à regata, a gente topa aí dois ou três rapazes que queiram fazer aquilo mas nem já para eles saberem remar também, [pausa] porque eles já não sabem. audio/TRC33.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É muito interessante! audio/TRC34.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Claro. audio/TRC35.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Não, não, não. Deixa-me chegar ao que eu quero chegar, homem! Portanto, esses indivíduos vão pagos. O senhor chega lá e diz… E o Os indivíduos que estão encarregues de fazer a cantoria dizem: "Vais Tu vais cantar com fulano"! audio/TRC36.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) ah, sim – na can- ali na cantoria. É mui- Isso é muito engraçado! audio/TRC37.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Portanto, é ele Por isso é que eu lhe estou a dizer: o marchante é possível que se refira a marechal, sei lá! E no entanto, a gente chama-lhe marchante. É o É a forma de pronunciar. De escrever não sei, porque até nunca escrevi, eu. Quer dizer, nunca nunca precisei de escrever! [pausa] Se eu precisasse de escrever, isso eu tinha que ir… Tinha que ir ao dicionário procurar essa palavra. Tinha que eu mal mal sabia escrever. audio/TRC38.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Nós descontamos, nós temos coisa; só que temos no regulamento em que não podemos dizer que estamos… Temos que estar satisfeitos. [vocalização] Os americanos usam, [vocalização] portanto, assumem a nossa lei. Fazem regulamentos entre a sua e a nossa. Pois quando lhe dá certo a deles, eles empregam; quando a nossa lhe dá prejuízo já será uma complicação escolher entre as duas, qual é que vai dar certo. [vocalização] E o sindicato nada faz ali dentro, [pausa] que talvez não fosse os meios de salvação. Até porque eu acho que o sindicato está a trabalhar muito mal ultimamente. Por tudo e por nada, levam logo o pessoal à greve. Mas eu não vejo razões para isso. Acção de quê?!… audio/TRC39.mp3 Praia da Vitória (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) E para o sol, mesmo para o sol, ou ao pôr ao pôr da da lua, a gente s- a gente sabe! audio/TRC40.mp3 Praia da Vitória (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Porque ele se apanhar um homem na água, come-lhe inteiro, mas não faz mal ao barco. A gente também apanha muitos deles. Ele há o marracho, há o [nome] bravo, que eu [vocalização] nu- nunca vi… Mas há há meros que já apanhei centos deles, meros. Baleia também já já vi, em Vila Franca já já vi… Ainda há pouco tempo vimos algumas cinco a passar por aí. Já vimos elas ir daqui para ali – assim cinco seguidas! Mas então eu não eu não fiquei muito contente, porque ainda era era meio escuro, a gente íamos para a pescaria quando eu senti: "Pschiii"! E eu disse ao meu pequeno do meio, mais do meio: "Ó Cecílio, isso é baleia. Repara na vaga". "Isso é é toninha"! "Isso é baleia que vem aqui do, do que o bufar é de baleia". Cinco! Muito grandes! Isso é os nomes que eu… Ai, o crongo… audio/TRC41.mp3 Praia da Vitória (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Há. Há e há um bichinho na areia que a gente apanha na rede, uns bichinhos assim deste tamanhinho, [vocalização] que a gente trata aranhas. [pausa] É que [vocalização] têm têm espinha aí pela cabecinha. Aquela espinha pretinha, se a gente se trancar naquela espinha, naquela e então se for no mês de Maio, [vocalização] é de uma pessoa… Grita todo o dia e toda a noite [vocalização] e tem que ir levar injecçães ao hospital e a mão fica parece um pão de massa sovada. É uma coisa terrível. E coisa coisa, coisa mais mais terrível como aquilo eu nunca vi! E já me tranquei, [vocalização] muita vez até, é dores que… Agora, quando há mesmo… [vocalização] O pio- O pior sítio é o mês de é o mês de Maio. audio/TRC42.mp3 Praia da Vitória (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Depois a gente dizia… Toda a gente dizia: "a trombeta". audio/TRC43.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Não! Eu acho mal aquilo! Acho mal aquilo. audio/TRC44.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Ah, eu sei. [pausa] Vai casar aí na tropa e fica na tropa até passar o seu tempo. [pausa] Coisas tudo de canalha! [pausa] Pois já se sabe que é canalha! Se ele não fosse canalha, deixava-se sair do castelo primeiro e depois é que se casava. Dava tempo! Mas [pausa] vai-se casar. [pausa] Deixa casar para baixo que Nosso Senhor há-de dar pão! É coma se costuma a dizer. audio/TRC45.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) A roupa vale uma grande coisa! A gente anda sempre quentes! A gente anda sempre quentes e quando a gente ia tirar… Eu cá sou assim. Quando a gente ia tirar da gente para fora, é preciso deixar arrefecer. Não é sair para a rua logo. Mesmo o calçado, deste calçado de canos, [pausa] é preciso ele a gente deixar arrefecer porque aquilo está tudo num calor lá dentro que é medonho! E então aqui estas coisas!… Isto era de canos compridos. [pausa] Marquei-lhas a mais, grandes a mais, para meter meias de lã [pausa] por dentro, que ele só com estes meiitos, isto ele é é frio para o para a gente. E eu cheguei-lha … Comprei-lhas de mais para mor de calçar meias de lã em cima destes meiitos para ficar com o pé quente. A gente estamos quentes, se a gente descalçar aquilo dos pés para fora e andar para a rua, para apanhar uma aleijadura nos nas pernas é um instante! É então acautelar! audio/TRC46.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Quando lá, assim que se viu debaixo daquilo, disse logo que não queria saber nada daquilo. audio/TRC47.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É, sim senhora. audio/TRC48.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Tu também bebias chazinho que tua mãe te dava! Mas eras pequenina. E gritavas: "Eu quero vir para casa da minha avó, não quero estar aqui"! audio/TRC49.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) A gente gostava daquilo. audio/TRC50.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Sim senhor. É verdade. audio/TRC51.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Chá para para beberem para dores ou para… Ou Olha, era para dores de cara para dores de, de. Inchava a cara e até lavavam a cara com essas rosas de… Ele apanhavam na noite de São João [pausa] e guardavam essas folhinhas e quando tinham dores de dentes e inchava-lhe a cara, elas lavavam a cara com isso. Que eu também cheguei a lavar – sim senhora – para desinchar a cara. audio/TRC52.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC53.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC54.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC55.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Eles mesmo não querem. Quando é para vender, eles não querem porcos muito gordos. audio/TRC56.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É mais gostoso, pois já se sabe que é! audio/TRC57.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois, pois. audio/TRC58.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Era, já era velho. [pausa] Já era velho então! audio/TRC59.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Aí de banda para banda. audio/TRC60.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) O senhor doutor, o tal senhor doutor era muito bom! audio/TRC61.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC62.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Não já? Mas ela ia de xale de ponta pela cabeça. audio/TRC63.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) A criatura que ia para o campo era desta maneira. audio/TRC64.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É mesmo isso. audio/TRC65.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É, é como a É como a minha filha diz muita vez: "Minha mãe não é muito gulosa"! E o meu filho: "Ó minha mãe, pega lá, que tu és muito gulosa, gostas é de coisa doce"! É "gulosa"! audio/TRC66.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) É. Pois já se sabe que [vocalização] há gente boa por toda a banda. [pausa] Eu estava ontem no no açougue e estava lá um homem que um homem lhe disse: "Ai homem, cala-te, por amor de Deus, um instantinho que já ninguém te pode ouvir"! Ele disse que tinha setenta anos. E [vocalização] Mas era muito falaçol. Diz: "Esta canalha de agora, senhora… Eh senhora, vire-se a senhora cá para mim. A senhora já é talvez da minha idade. [pausa] A senho- É porque a senhora comia carne? Vinham ao açougue comprar carne para comer? Comiam bifes? Comiam queijo? Comiam manteiga como"?… Digo eu: "Eu, não senhor". Diz: "Ah, a senhora foi criada coma eu! Com umas couves, com umas batatas e uns grões de feijão quando havia! Risos [pausa] E pãozinho de milho para dentro e [vocalização] e nunca vi queijo! Só se na mão de outros – de outros ricos – é que a senhora viu! Na sua mão nunca viu". audio/TRC67.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Pois. audio/TRC68.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) A estopa tapava, como como aqui se está tapando, assim… E também se tapava com estopa ou linho, ou lá o que quisessem – de colchães ou uma coisa assim –, também se tapava. E também se urdia com a estopa se ela era rija! Agora se ela era mais podre, ninguém podia urdir com ela, que não se podia tecer, que a gente bota os pés em cima, ela desapegava toda e ia-se embora. audio/TRC69.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Mas a gente parecia-lhe aquilo mal, aquela conversa! Mas já está cá tudo, essas coisas! audio/TRC70.mp3 Fontinhas (Praia da Vitória, Angra do Heroísmo) Depois acabava… audio/MTM01.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) E depois tratavam-se assim as vinhas até chegar à altura da vindima. Na altura da vindima, vindimam-se as uvas. Depois, e- [vocalização] ago- ainda agora mesmo – é o caso ainda aqui nas nossas aldeias –, ainda é pisada a pés, as uvas, dentro duma dorna ou dum lagar. Agora já é mais lagares, mas noutros tempos era mesmo dentro da dorna [pausa] – dentro dum dum lagar, do lagar de de vinhos. E depois dali então é que era é que era transportado para as para as vasilhas, e lá e lá fervia o mostro. E depois então é que passado uns uns dois meses ou quê, está o vinho feito – está o dito vinho. audio/MTM02.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era, exactamente. Era. [pausa] Braçadeiras, essas já não sei bem como é que eram os nomes delas. audio/MTM03.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Pois. audio/MTM04.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Rhum-rhum. audio/MTM05.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Agora também já por aqui não se usa assim muito isso. audio/MTM06.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Ah! audio/MTM07.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Pois, pois. Claro. audio/MTM08.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) para uns barreiros assim além, longe. Era só Era só bois a passar por esses caminhos além, que iam que iam beber aos bebedoiros. audio/MTM09.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) E isso calhava-me tudo a mim, porque os meus irmãos nunca ligaram a isso. audio/MTM10.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Pois, pois. audio/MTM11.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era palhada, sim. audio/MTM12.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era a dar ao pedal da máquina, não é? audio/MTM13.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era os barbilhos, os barbilhos também: andar embarbilhado – ou barbilos, ou qualquer coisa assim. audio/MTM14.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Para os porcos. audio/MTM15.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Dei baixa da indústria aqui há tempo e disse: "Ó rapariga, olha, vem para aí. Faz aí alguma coisa"! Pronto, aí está. A mãe diz: "Ah, deixem-na para lá ir que ela em minha casa está sempre aborrecida, sempre aborrecida nã-"… "Então ela que venha para aí trabalhar"! audio/MTM16.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era. De lá é que vinha… Era de lá que vinha o gado por vezes com essa com essa samexuga, chamavam-lhe a samexuga. audio/MTM17.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Toda a gente tem motor. Já se não usa nada disso. audio/MTM18.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) É escarolar. audio/MTM19.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Enquanto o pai e a mãe for vivo, ainda a coisa ainda vai bem. Agora depois?! Logo é ela e outra irmã. A outra irmã essa fala, mas, pronto, é assim um bocadito mental, é assim fraquita de… Olhe, nunca aprendeu nada na na escola, nem coisa. audio/MTM20.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Nunca se tínhamos visto. audio/MTM21.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) E depois são os mesmos que, se na- se ainda forem vivos, são os do casamento; e esses é que ficam os padrinhos. Agora o avô é sempre avô. [pausa] Ou avó. audio/MTM22.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Sim senhor. audio/MTM23.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Fui criado de pequenino, fui criado da da idade de pequenino… Quando nasci começaram-me logo a ensinar a fazer farinha. Toda a vida foi foi a minha vida foi fazer farinha. Depois aborrecia-me com o vento, falhava o vento; depois pus aqui uma moagenzica… Também já a escangalhei. audio/MTM24.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Pois não. Agora já não. audio/MTM25.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Naquele tempo era assim. audio/MTM26.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Mais, sucessivamente, mais nada. audio/MTM27.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Era capaz mas era preciso faz- estragar muita força. Se fosse num sítio, num num pátio, onde houvesse muito mato, ajuntava uma mata diante dele… E aquela sabe-o bem também, que ela ela também foi criada na na agricultura. audio/MTM28.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) [vocalização] O que for moída, bem bem moída, isso ele tem tem vários nomes. Aquilo chama-se cascalho, out- outros chamam-lhe brita de primeira, há brita de segunda, há brita de quarta… Quanto mais forte mais forte é o número, mais grossa é. audio/MTM29.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Rhum-rhum. audio/MTM30.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Já ele, já o Já o avô do meu pai já era Ceciliano e depois aquilo já, já é uma gente já é uma uma, uma geração muito grande. Depois [pausa] nunca perdi nunca perdemos o nome de Cecilianos. audio/MTM31.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Tudo ao quilo. audio/MTM32.mp3 Moita do Martinho (Batalha, Leiria) Chama-se essa peça a raposa. audio/LAR01.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pronto. Tem a su- A esperteza do animal é essa. E pronto. E a gente, pronto, via-se bastante mal com eles. Agora [pausa] temos andado [vocalização] bem sossegada. Tem sido uma sorte grande! audio/LAR02.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) E foi assim. Ficou viva. Foi assim. audio/LAR03.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Só tem as tais duas tourinas. audio/LAR04.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois. audio/LAR05.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) E ele também. audio/LAR06.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Ao poder dos vincelhos, é que lhe fazia botar o ar fora, [vocalização] ao antigo. audio/LAR07.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pronto, que é assim mesmo. audio/LAR08.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois. Sim, quer dizer, malata até aos quatro, chegou aos cinco, a- cerrou, é uma ovelha velha. E até ali a gente sabe se está do primeiro, do segundo, do terceiro, do quarto. Do quinto, dos cinco anos é que termina. Daí para diante, ninguém mais lhe conhece a idade. audio/LAR09.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Tiram-se-lhe o os dois grãozinhos que têm. audio/LAR10.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É. audio/LAR11.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) E então depois pegavam a fazer a camisola. Era. Era isso tudo. audio/LAR12.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Sim senhor. audio/LAR13.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois. audio/LAR14.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É o tirante, o, e há, e é e o de ferro é joguete. audio/LAR15.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois, pois, pois. audio/LAR16.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É verdade. Agora é os porcos é que se vêem. audio/LAR17.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É assim. Ainda bem. audio/LAR18.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É assim. audio/LAR19.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) [vocalização] Agora nós, pronto, uma forcada virada faz as mesmas vezes. audio/LAR20.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Das vacas, não. A correia que passa por baixo do, do dos animais é dos burros e dos machos que é a tal belfa. audio/LAR21.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois, era a fa- era a massa, a massa da farinha. E depois a gente, [vocalização] a massa estava ali uma horinha ou duas a levedar – não é? –, a gente tornava depois a fingir. A fingir o pão. E a fazer uns pã- uns pães. audio/LAR22.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Rhum-rhum. audio/LAR23.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Uns chamam foice, outros gancha. Eu até por acaso tenho lá três em ponto maior. Esta é pequenita, para às vezes cortar uma silvinha e assim. Isto também não é para fazer grande trabalho. audio/LAR24.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) E é a razão de se ele dar, que apanha o Inverno todo e [vocalização] pronto, e vai. Quando pega a terra a secar, está ele em termos de segar… É agora a altura da ce-, da ce- da ceifeira, de segar as terras, pronto… [vocalização] E é E é isso que se ele dá. É por isso que se ele dá. audio/LAR25.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Há pessoas que chamam gateiras, mas normalmente uma gateira é uma coisa que está fixa, que se faz para sempre. Nós, aqui, é um rego. Pronto. Fazer um rego do poço directo aos renovos. Por exemplo, há há lugares – [vocalização] até nessas aldeias; em Felgueiras até ainda é capaz de haver –, que faz aí uma gateira, que há ali um bocadinho de água a correr constantemente, todo o ano. audio/LAR26.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É. Antigamente era assim. audio/LAR27.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois. audio/LAR28.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Está abandonada! audio/LAR29.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) O salpicão leva: é o lombo e a parte que a gente que veja que é boa para o lo-, para o para os salpicões, bota-se daquela carne assim [vocalização] a curtir também oito dias. É o alho, pimenta, o louro e [vocalização] e malagueta, é a carne e vinho e água, tudo a curtir em sal. audio/LAR30.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Pois, nas canas faz… Em qualquera pau, ele faz um buraco e mete-se lá dentro. Chamamos-lhe abelhões. audio/LAR31.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Tem que estar bem coberto. audio/LAR32.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) É verdade. audio/LAR33.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) Sim senhor. audio/LAR34.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) o cá-vai põem [vocalização] os ovos onde querem. Não fazem ninho. audio/LAR35.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) A gente é obrigada a tapar-se porque pa- senão passa a noite a coçar-se. audio/LAR36.mp3 Larinho (Torre de Moncorvo, Bragança) E E de maneira que se fazia assim. A i- Ah, mas ainda não disse: depois de, do disso, de estar compostinho, ia ao tear. audio/LUZ01.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) E vai. Aquilo que vai… Vai Vai por o coiso e vai abrindo a terrinha para o lado e é assim que cavam. Já aí nessas coisas, nessas, [pausa] nessas, nessas nessas ervas daninhas, nesses campos e nessas charnecas é o que usam é esses arados de pau para cavar os milhos. Pois. Tudo. Tudo assim. audio/LUZ02.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Mas olhe que isso é engraçado. audio/LUZ03.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Não. Isso era raro fazer. Haviam pessoas que lavravam também algumas, mas isso muito poucochinho ou nada. audio/LUZ04.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ05.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ06.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ07.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) É, chamavam-lhe uma cobra. A cobra, pois. audio/LUZ08.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) E era isso. E depois, pronto. Depois de estar ali metido, metiam faziam em sacos, sacos de cinco alqueires. audio/LUZ09.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois é. audio/LUZ10.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ11.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) É a vagem. audio/LUZ12.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Claro. audio/LUZ13.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) biscoitas. audio/LUZ14.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Rhum-rhum. audio/LUZ15.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) dum alguidar que há ali de cobre ou de [vocalização] ou de zinco. Alguidares fortes! audio/LUZ16.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Rhum-rhum. audio/LUZ17.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ18.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Batendo além, toca de bater. Hã? Quando aquilo estando batido, então armavam os taipais, tiravam as agulhas… Tiravam uma só. audio/LUZ19.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Exactamente. audio/LUZ20.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Eles ajudam-me. audio/LUZ21.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Coze-se ali as meadas que a gente quiser, cozem-se ali com cinza e água. E depois de estarem cozidas, deixa-se para no outro dia, ficam ali naquela água com cinza, ali assim a cozer, cinza, lenha de azinho, que é li- lenha boa. Depois no outro dia vão vai-se à ribeira, lava-se muito bem, muito bem, muito bem, põem-se a corar, vai-se no outro dia, dá-se outra voltinha, e vai-se corando assim, vão-se corando e vão-se molhando e vão-se corando, ficam branquinhas. Depois dali, vai, torna-se a meter na dobadoira outra vez. Torna-se a ir para o para a dobadoira e e vai-se fazendo em novelos que é para ir para a tecedeira. audio/LUZ22.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ23.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ24.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Para levar para o Pois, para levar para o moitão. [pausa] Pois. audio/LUZ25.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Há quem faça muito bem! A minha patroa sabe fazer aquilo muito bem! audio/LUZ26.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Faziam um requeijão, uma coisa, uma bolinha assim do tamanho de um punho, que podia dar aí [vocalização] [pausa] uma coisinha assim. Era o resto que sobejava e chamavam-lhe então o requeijão. audio/LUZ27.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Eles até nem sequer diziam chamuscar, diziam afoguear. "Vamos lá afoguear aqui o porco"! audio/LUZ28.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ29.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) larguei-as da mão. audio/LUZ30.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Rhum-rhum. audio/LUZ31.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) No, no outro dia No outro dia já está mais diferente! audio/LUZ32.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois é. audio/LUZ33.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ34.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ35.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) estava ali lambido. Onde digo eu: "Olha, está aqui lambido". "Então espera aí que já te digo". audio/LUZ36.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ37.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Foi uma história do gambozino! audio/LUZ38.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois, já não é. Já não é. audio/LUZ39.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Faz depois dor nas pernas, faz isso tudo. E aquele não. audio/LUZ40.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pronto, era sargocina. audio/LUZ41.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. Esse tojo-gatuno. [pausa] Pois. audio/LUZ42.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ43.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Rhum-rhum. audio/LUZ44.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Começa a ganir. Pois. audio/LUZ45.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. [pausa] Sim senhora. Pronto! audio/LUZ46.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Que espertos! audio/LUZ47.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Ai, isto é o javali. Ai que lindo javali! audio/LUZ48.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Piscos. São passarinhos. audio/LUZ49.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) É verdade. audio/LUZ50.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ51.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Compridinho. À vista destes pássaros, tem muito mais… É um bico muito mais comprido que isto. Pois. audio/LUZ52.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Bilharoses. Sendem três, são três bilharoses. [pausa] E agora aqui temos a poupa. audio/LUZ53.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) É uma lobinha-a-deus e sendem duas são duas lobinhas-a-deus. audio/LUZ54.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois. audio/LUZ55.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) em volta, para o trigo não sair dali. E era. Que isso era outar. Outavam-no… Depois de o trigo estar estar outado, portanto, numa alcofa, iam depois buscar água [pausa] num num regador ou. Pois, aquilo era quase sempre tinham era um regadorzinho, um regadorzinho muito fininho, a cabeça muito fininha, da cabeça do regador. [pausa] Pegavam no trigo, [pausa] davam-lhe uns borrifozinhos de água por cima. Pois. Davam-lhe esse borrifozinho de água e e mexiam-no [pausa] todo muito bem. Estava ali um bocadito, estava ali um bocado, pegavam nele e metiam debaixo das moses, que era assim que ele fazia fazia as boas farinhas. Quando o trigo fosse muito molhado, a farinha era mais ruim; e quando fosse a farinha menos molhada, que a farinha não estivesse muito molhada, isso fazia um pão que era uma beleza! audio/LUZ56.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Pois, quanto ao resto mais nada. Pois. Era o que havia. audio/LUZ57.mp3 Vale Chaim de Baixo (Odemira, Beja) Era tecelão. audio/FIS01.mp3 Fiscal (Amares, Braga) mas já mais para a para a frente – não é? –, do tempo, da antiguidade, começou-se a pesar e a tirar por quilo [vocalização] na, na na própria fornada [vocalização] – não é? –, que que vinham. audio/FIS02.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Pois, por a parte de baixo do moinho. Que tem [vocalização], vá lá, um ferro – não é? –, está em cima dum pau, aquele ferro está ali colocado e [vocalização] e depois tem um carrinho para cima, que é que faz depois moer aqui a pedra. audio/FIS03.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Aqui em cima no topo do ferro, tem um, um [vocalização] uma coisa que chamam-lhe a segurelha. Prontos. E a pedra de cima, que lhe chamamos a mó, é colocada ali em cima daquela segurelha. Ora como o carrinho faz anda, é que faz andar depois a tal segurelha é que faz andar aqui em cima a mó. audio/FIS04.mp3 Fiscal (Amares, Braga) E então colocavam ali uma roda e aquela roda fazia moer o engenho do linho. audio/FIS05.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Era todos Todos os dias, todos os dias. Também para moer a farinha, também havia muita gente que vinha trazê-las a casa. audio/FIS06.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Mas sempre semeámos. Nós sempre semeámos. E depois lá se deitava, lá se semeava então. Nós tínhamos uma égua. [vocalização] A égua é que semeava, é que sachava quando fosse o tempo do sachar. E botava-se então o milho à terra e a [vocalização], e lá, lá lá se botava à terra. Depois começava a crescer; depois sachava-se [pausa] depois, passado … Ora, [vocalização] quando fosse que ti- que ele tivesse quatro semanas ou cinco semanas, sachava-se. [pausa] Aliviava-se o [vocalização] milho, tirava-se o milho a terra da beira do milho normalmente para o para o meio. [pausa] E depois, passado uns quinze dias, ou mais ou menos, tornava-se ora, deitava-se adubo e começa- e juntava-se, e pu- punha-se a terra então [pausa] chanza, punha-se a terra lisa, não [vocalização], sem sem buracos. E depois abria-se uns regos para para regar, se realmente esse terreno tivesse águas. [pausa] Depois, ele começava a crescer, e começava-se a [vocalização] regar, quando fosse o tempo de no tempo de regar. audio/FIS07.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sim senhor. audio/FIS08.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Agora é enfardada. Agora é tudo diferente. audio/FIS09.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Rhum-rhum. audio/FIS10.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Normalmente, normalmente, diz-se vitelo, ou diz-se bezerro. É [vocalização] consoante a [vocalização] coisa. audio/FIS11.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Mas [pausa] é igual como aos cristãos, normalmente. audio/FIS12.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sempre à procura, sempre à procura. Mais das vezes, às vezes não os haviam e [vocalização], ora andava a lavrar, arrebentava uma e depois? O que é que iam fazer? audio/FIS13.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Mais branco. audio/FIS14.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Dali depois vinha para cá. A v- A gente depois apanhava, quando estivesse bem seco, e depois levava-se para o engenho. E depois no engenho é que fazia o linho. audio/FIS15.mp3 Fiscal (Amares, Braga) tinha fibra. audio/FIS16.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sim senhor, tem razão. audio/FIS17.mp3 Fiscal (Amares, Braga) E tinha de ficar mesmo preso, que a gente depois tinha de tirar acolá o, o a estopa muito agarradinha. Para pormos o dedo, uma pessoa tinha que a governar para que ela saísse mesmo só aquilo necessário para fazer o fio. audio/FIS18.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Depois com a maçaroca depois [vocalização] fazia-se as meadas. audio/FIS19.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Depois de as meadas [vocalização] estar feitas, pronto, lavavam-se, metiam-se em água bem quente com [vocalização] cinza. audio/FIS20.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Que era na em cinza, bem peneirada e depois metia-se no forno. Aquecia-se o forno [pausa] e depois metia-se lá dentro do forno. Estavam lá vinte e quatro horas dentro do forno. Ao fim de vinte e quatro horas, a gente ia lá, tirava-as e pegava nelas e ia lavá-las ao rio. E depois elas ficavam muito amarelinhas. Ficavam, às vezes, assim da cor disto. Ficavam assim da cor da cor disto, amarelinhas. Depois, [vocalização] botava-se a corar, metia-se nuns paus, estendia-se assim num pau, e botava-se a corar e andavam ali a corar. Regavam-se para elas não secarem muito, até que gente entendesse que estavam [pausa] mais ou menos à vontade da gente: ou mais bem coradas, ou mais claras, ou mais escuras, vá. audio/FIS21.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Não. [vocalização] Não. Eram os cadilhos, ficavam os cadilhos. audio/FIS22.mp3 Fiscal (Amares, Braga) adeus teia!, que depois [vocalização] era difícil de uma pessoa lhe poder [vocalização] ajeitá-lo. audio/FIS23.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Bom, às vezes, quando ia – às vezes, ou até até não sei se seria quase sempre –, quando ia tecer, ao começar a tecer, em antes de começar a tecer, gostava de me benzer. Mas [vocalização], bom, de resto, não. audio/FIS24.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Devia ser tábua do encosto. audio/FIS25.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Chama-se-lhe a tripa cagueira. audio/FIS26.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sim senhor. audio/FIS27.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Exacto. audio/FIS28.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Caía para dentro doutra pia. audio/FIS29.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sim senhor. audio/FIS30.mp3 Fiscal (Amares, Braga) É. O O Constâncio da Ponte do Porto tem feito muitos e [vocalização] e mete-lhe. Mas [pausa] eu não meti. Met- Tem uma cadeia, pronto! audio/FIS31.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Ela tinha falado nisso, na pesqueira, eu é que já não me lembrava. audio/FIS32.mp3 Fiscal (Amares, Braga) A tais coisinha é tremocina! audio/FIS33.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Sim senhor. audio/FIS34.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Vai aterrar. audio/FIS35.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Não senhor. Não tem asas nenhumas. audio/FIS36.mp3 Fiscal (Amares, Braga) Mais pequenina. audio/GIA01.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Era o sarilho, era o sarilho, era. Nós ainda temos para aí um sarilho, lá para cima. audio/GIA02.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) mas mesmo assim, a gente não aproveita a vagem. Aproveita só o feijão verde, que está dentro, e [vocalização] a vagem deita fora. audio/GIA03.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Depois quando está parado, aquilo que a gente vê que já não ferve mais, está a parar, [pausa] tira-se da dorna para a pipa. Vinhinho limpo. audio/GIA04.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Ai, conforme. Era conforme. Ora cozia-se muitas vezes [vocalização] uma rasa, ora dava muitas broas – a gente aqui tem, o nosso forno é muito grande – umas cinco, seis, ou umas sete, pronto. audio/GIA05.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Era: São [vocalização] "São João te faça pão"… "São Vicente te acrescente, São João te faça pão"! audio/GIA06.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Chapadinho. Depois é que ia ao forno e cozia antes de ir as broas. audio/GIA07.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Era só Era só o trigo e o milho. Mas pouquinho milho para muito trigo. audio/GIA08.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) engalhadas num num coiso de arame, e estavam ali penduradas. E usava-se a isso: essa, e essa essa farinha, essa baga-. A baganha era para isso. Punha-se a secar e no fim ia para o moinho. audio/GIA09.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Claro. audio/GIA10.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) É. Depois quando estava queimado, quando tinha aqueles dias, eles já sabiam, depois é que tiravam, a gente depois ensacava o carvão. Lá ia. audio/GIA11.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) ir mamar. audio/GIA12.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Pois. audio/GIA13.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) E era assim que se fazia. audio/GIA14.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) E depois ia-se tirando conforme se queria. audio/GIA15.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) um dia ao fumo, com bastante fumo ali no lar. audio/GIA16.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) aqueles bocadinhos de carne desfiada. Tem quem lhe deite uns bocadinhos de galinha e assim. audio/GIA17.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Sabe? audio/GIA18.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Ora, acontece que, por vezes, a gente ensinava uma vaca. Para não ter depois de ir pegar num boi, e tal. Que naquele tempo a gente conservava as vacas também para o trabalho. Havia muitas vacas que também trabalhavam. [pausa] E a gente, normalmente, para trabalho pesado e tal, era os bois, mas às vezes tinha uma junta de vacas que ajudavam ou que iam buscar um carro de mato, porque é uma coisa leve e que trazem. E então, por vezes, se ensinava uma vaca quando se via que a vaca era mansa e que era bem amanhada e [vocalização] inteligente, e tal. A gente adequava uma vaca para semear. audio/GIA19.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) E eu ficava espetado naquele lodo, tinha de sair e vir para casa mudar de roupa, e tal, que aquilo só tinha lodo, e tal. audio/GIA20.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Sim. audio/GIA21.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Rhum-rhum. audio/GIA22.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) E os cães vadios, que eram muito menos os cães vadios do que há agora… Porque agora há aí zonas com cadelas com ninhadas de cães todos gordos, todos todos gordos, vadios. audio/GIA23.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Pois. Porque senão não há fecundação da flor. [vocalização] O milho, [vocalização] o pendão do milho é exactamente isso. audio/GIA24.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Porque eu [pausa] reparei muitas pipas e tenho até aí uma dada que fui eu que fiz. audio/GIA25.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Para ir ganhar miséria. audio/GIA26.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) As terras boas, aproveitá-las. audio/GIA27.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Porque depois semeia-se-lhe a erva, que é o azevém, e que o azevém não deixa vir a grama brava nem as ervas bravas. audio/GIA28.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) O marco é a primeira coisa que vale e isso, cada passo, a gente vai ver… Eu e colegas vamos ver o que é que nos parece nesta, porque há problemas nisto e naquilo. Quando aparece o marco, é a primeira coisa a respeitar-se. Depois disso são os sintomas, a forma como a coisa se afeiçoa. audio/GIA29.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Ele anda sempre com ela. Ele vai Ela vai dormir a sesta com ele, e tal. Anda sempre aí com ele, e tal, e ela, às vezes, vai ali para dentro, e berra por ele, para ver se ele está ali na cama. [pausa] E então é engraçado porque nós temos aí outra parecida com ela, só é diferente no rabo, no resto é igual. Mas não são parentes. audio/GIA30.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) sempre, junto das pati-. Que tempos ali junto deles! Tenho visto na televisão. Acho muito engraçado. audio/GIA31.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) O que se chama as carochas não são baratas. audio/GIA32.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) [pausa] E além do do terrão para para os fornos de carvão, era usado também para os paus de que se falou ontem, para as divisórias das propriedades. audio/GIA33.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) [vocalização] Aquilo era melhor para fazer andar os carros e aquilo foi uma pena não ter aperfeiçoado. audio/GIA34.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Sim senhora. audio/GIA35.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) Esses, esses Esses aviários têm todos visgo para vender. Agora até até há um visgo que se vende numas latinhas . Parece aquelas latas da pomada dos sapatos. audio/GIA36.mp3 Gião (Vila do Conde, Porto) E aquilo tinha-o ponta da unha. audio/STJ01.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) "Ah, grande puta! Agora já sabes! Já sabes, minha grande puta! [vocalização] Até aqui não sabias, mas agora já sabes o nome. Já é um ancinho"! audio/STJ02.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) E eu comecei-lhe a dizer: "Olha, vamos aí apanhar um tomatinho à caixa". Eu levanto-me melhor, mas eu não posso. E eu fui. Fui mais ele. Eu não devera de ter ido. Mas fui, que eu não sou cá fingida, não digo: "Ai, eu não fui", por causa dos gajos da Caixa que andaram aí e mult- tiram as reformas à gente. Eles Se eles ma tirassem, deixa que o meu médico tentava logo para ma dar, porque eu não posso fazer mais nada, nada, nada, nada! Eu fui. Olhe, fui, deu-me isto aq-. Uns calores muito grandes! E a gente só íamos de manhã um bocadinho! Mas os calores muito grandes! Uma pessoa já anda cansada de trabalhar, uma pessoa já não pode! [pausa] Fui-me abaixo! audio/STJ03.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) E ata-se, voltam-se do outro, do do outro lado e atamos e enchemos. audio/STJ04.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Pois. audio/STJ05.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Vejam lá o comer que eu sei fazer, que, que a gente que eu me avezei, porque me davam na minha casa e na casa da minha mãe. audio/STJ06.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Não eram boas! Não eram! [pausa] Não eram boas! E elas, se eu se eu sei o que sei hoje, elas tinham levado ali duas bofetadas no focinho, [pausa] dele! Eu é que não tive tempo! Não tive tempo e eu e eu não sei o que é que elas lhe fizeram. Não sei o que é que elas lhe fizeram. Não sei o que é que elas ali fizeram. Não sei, não sei. audio/STJ07.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Botaram-se logo ali a ele. Ainda comecei: "Ó menino, ó menino dei-! Ó menino, ó menino"! Porque quando eu vi que elas estavam tão encantadas que tinham que estar aos beijos, aos beijos, aos beijos, aos beijos, aos beijos, aos beijos, – uma de cada lado, ali outra do outro lado com as uvas – e aos beijos. E ele pousou em cima do coiso que eu lá tinha – [pausa] dos andaimes, da bagagem que tinha ali fora – e aos beijos. Eu só lhe fiz assim quando ela-… Empurravam-no assim para dentro, empurravam-no para dentro de casa, do quintal, e eu agarro-lhe aqui a dizer assim: "Ó menino, olha a sida! Olha a sida, menino! Tu vieste há tão poucachinho tempo da tropa, filho. Olha a sida, filho"! E elas ali estavam à labuta: "Vá, já assinou! Pronto! Dê cá já um conto e quinhentos"! audio/STJ08.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Rhum-rhum. audio/STJ09.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Pois. audio/STJ10.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Havia tantos ali! Bem, mas isso agora já não há nada aqui. Há por aí, ele mais longe em mais lados, não é? Isso também aí houve há. E havia ali uma à entrada logo da aldeia, e a gente gostava – quando era nova – gostava muito de experimentar com a mão a ver se éramos capazes de fazer o nó. audio/STJ11.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Tal e qual! audio/STJ12.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Foi, foi. audio/STJ13.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Eu também, à festa das castanhas. audio/STJ14.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Eles têm o trabalho. audio/STJ15.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Chama-se uma mergulhia, porque é, ou ou seja mergulhão, não sei há pessoas. Por exemplo, aqui agora era a vinha, faltou aqui um. A gente para o ano nesta, [pausa] com uma aqui vizinha dela, deixa uma vara por baixo. Se se há-de tirar, fica. Depois no outro ano a seguir, ela está grossa, abre-se uma vala, ela vai por baixo da terra e vai ficar só com uma pontinha no sítio onde a outra secou. Essa vai fazer uma parreira filha da outra. audio/STJ16.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) É a abóbora-bacoreira e a abóbora-menina. Mas ele ainda há mais nomes. As outras compridas nem sei o nome daquilo, mas aquilo não é abóbora – ele dão-lhe outros nomes. Mas eu nem sei o nome daquilo. [pausa] Ah, já tenho ouvisto mas [pausa] não me fica na ideia. audio/STJ17.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Ah, eu ele tinha já doze anos, ou treze, quando comecei a trabalhar. [vocalização] Trabalhava: arrancava moitas de Inverno e mondava arroz de Verão e e fazia-se muitas coisas. audio/STJ18.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Para coalhar. audio/STJ19.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Pois. Também lhe chamam… Nem a Nem a carregavam. Não rendia! Pois, não rendia. Chamavam-lhe também a tal desbóia. audio/STJ20.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) É logo diferente. Então aqui perto da gente é logo diferente. Tanto que a gente quando vai a Lisboa: "Ah, você é alentejano"! É que a gente tem aqui um sangue misturado, não é? É alentejano, é ribatejano, é [vocalização]… audio/STJ21.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Agora já não tem choupos. Já são poucos. Era o choupal de Coimbra. audio/STJ22.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Que é mais ruim para a pinha. audio/STJ23.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Foi. Eu não queria isto. [vocalização] Chama-lhe a gente partilha, não é? Vocês lá até lhe podem chamar outro nome, não é? audio/STJ24.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) O tabaco hoje hoje é diferente; o tabaco dantes era empilhado agora e depois era escolhido de Inverno; e agora é já escolhido. Sai do forno e é [vocalização] e fazem logo a escolha. Aquilo era terrível. Custava-se lá a andar. [pausa] Punha-se aqui um pigarro nas goelas. Ai! [vocalização] Mesmo eles dizem que mais de dez anos que não se pode andar numa tabaqueira. Eles é que dizem. audio/STJ25.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Tem de ser. O tomate é muito odioso! O tomate… audio/STJ26.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Coisas, enfim!… audio/STJ27.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Rhum-rhum. audio/STJ28.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Eu já tenho ouvido também esse nome. audio/STJ29.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Era a mais velha aqui do distrito. Já abalou. Foi o funeral hoje. audio/STJ30.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Pois. A perdiz às vezes também pousa nos chaparros, mas é pouco. A perdiz não não é direita a poisar nisso, não é? Agora as outras aves são. [pausa] No chão nunca poisam. audio/STJ31.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Eu jogava-lhe uma fiada. O último que aí apareceu – nunca mais aqui do pé se viu nenhum –, eu estava aqui no meu cabeço e ele andava ali daquele daquele lado. Andava bem alto! Mandei-lhe um tiro – se calhar algum baguito ainda lhe bateu –, parece que [vocalização] abalou desnorteado, nunca mais o vi. Calhando, algum baguito ou qualquer coisa. E a gente ia pedir para o… "Dá-me alguma coisa para o milhano"? Era. audio/STJ32.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Sejam quinze ou vinte. Ah, são de três de três para cima: "Olha, é um bando de perdizes"! Até três, diz a gente: "Eh, são poucas. São três"! Mas sendem quatro ou cinco é um bando. audio/STJ33.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Ainda fizemos assim dois anos. Mas depois começámos a ver que tínhamos muito mais lucros [pausa] a tratar de tomate e arroz que tínhamos na, na na oficina de olaria e pensámos em em abandonar a oficina. E abandonámos. Hoje [pausa] já [vocalização] há cerca de vinte cinco, vinte seis anos – não tenho bem, bem isso coiso, mas deve ser isso, tudo, aí uns vinte e seis anos, com certeza. audio/STJ34.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Mas eles até nem… Lá isso foram sempre bons para a gente! Nunca levaram dinheiro. Deixavam tirar à vontade e nunca levaram dinheiro. audio/STJ35.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Então nós íamos lá tirar o barro. Arrancávamos o barro do chão. [vocalização] Aquilo o barro, [vocalização] n- não está logo ao nível do terreno, não é? Aquilo tem outra, tem outra, outro outro tipo de terreno por cima, não é? Pode ter areia, pode ter pedra, pode ter… E então tem que ser todo limpinho, a pontos de não não trazer [vocalização] impureza nenhuma. Nós até usávamos depois assim uma vassoura áspera, e depois mesmo de estar limpinho, ainda o varríamos todo com essa vassourinha áspera para ver se ele vem quanto mais limpo melhor. Porque a gente [vocalização], para fabricar o barro, se tiver [vocalização] pedacinhos de de pedra ou qualquer coisa [vocalização], a peça pode ficar até rota, não é? Tinha que ser [vocalização] o máximo cuidado logo lá na limpeza. Depois chegávamos cá, o barro vinha em blocos grandes – não é?, chamávamos a gente em torrões grandes, em blocos grandes – esses blocos era tudo depois, com com um martelo, era tudo tudo desfeito para ficar em em pedaços pequeninos – não é? –, para ficar em coisas pequeninas para ele derregar. E [vocalização] no momento em que fazíamos isso tinha que ser todo escolhido. Que o barro era tirado em zonas que há muito sobreiro – a nossa zona aqui está muito povoada de sobreiros. Era tirado em zonas de muitos sobreiros, depois vinha muito bocadinho de raiz dos sobreiros agarrado. Tinha que ser todo esboroado e todo escolhido, todas aquelas raizinhas. Porque não sei se estão a ver: se, por exemplo, numa peça daquelas, ficar ali um bocadinho de raiz, ali, depois vai ao fogo, arde, fica um buraquinho. Tem que se ter o máximo cuidado! Depois ainda era passado, através dum duns tan-… O ba- O barro depois ia para o barreiro, era desfeito e depois ainda era passado através duns duns tanques – passado por um coador – para todas as impurezas que não que não se encontraram ao ao escolher ainda ficarem ali naquele ralo. Depois é que era é que se ia… Depois tinha que estar ali uns dias, uns determinados dias, para ganhar assim uma certa temperatura, mais rijo, não é? Porque depois quando saía de lá estava muito mole. E E depois é que se ia tirando dali para se ir fabricando. audio/STJ36.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Nós depois aí ainda tínhamos que passar aquilo tudo tudo à mão. A gente passava ainda aquilo tudo assim à mão e assim com os dedos para [vocalização] . Que depois o barro, naquelas transformações, naquelas passagens de tanque para tanque e essa coisa [vocalização], sempre recebe umas bolhas de ar aqui ou ali. E isso é outra coisa que nos prejudicava. Se nós estivéssemos a fabricar uma peça daquelas, que aparecesse uma bolha de ar, podia até cair a peça toda. Tinha que ser todo passado. Isto é [vocalização] é uma arte que requer [vocalização] mil e um cuidado e m- e muita mão de obra. Muito trabalho! E então se se houver uma bolha de água, a gente vai a puxar – uma bolha de ar. A gente vai a puxar [vocalização] a peça, se aparecer aquele ar, pode a peça até rebentar e cair. [pausa] Depois então é que era… Depois de estar com os devidos con- cuidados é que era depois fabricado. audio/STJ37.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Havia só a própria roda. Se, por exemplo, fosse panelas, cântaros e isso, era feito mesmo colocado em cima da própria roda; se fosse se fosse um tacho, coisas assim com com um fundo mais largo, já era era, era, era a roda, depois em cima da roda levava uns bocadinhos de barro, e depois era colado ali em cima daquele barro. Nós batíamos assim, ficava agarrado ao barro, isso já era era uma forma. E era uma forma que esse, u-… Suponhamos um tacho, já é uma coisa com um fundo largo, já tinha que ser seco em cima dessa forma. Mesmo para se transportar depois da roda para o para os lugares de enxugo. Nós depois tínhamos uma casa grande ali atrás com bancadas – assim no género desta estante – não é? –, mas era tudo em madeira –, [vocalização] aonde secava a louça. Que a louça depois também não… Só no Inverno, quando o tempo vai assim [vocalização] de chuva, assim muito macio, é que nós trazíamos para a rua; de Verão tem que ser recolhida e bem fechada para para que o [vocalização], o a temperatura do Verão, o calor – se se a tivesse assim ao calor, rachava tudo. Tem que ter uma enxuga lenta! audio/STJ38.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Rhum-rhum. audio/STJ39.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) No barreiro era isso era tudo tirado à mão. [vocalização] Quando depois nós levantávamos do barreiro, que lhe dávamos ainda uma pisa, [pausa] aí dentro duma casa acimentada, dentro dum local acimentado, aí já era tipo duma foice, assim curta, partida – suponhamos até uma foice partida ao meio –, para levantar do chão. Quando era depois para fabricar o barro, no momento que estávamos a fabricar, [vocalização] a peça que [vocalização] a ferramenta que nós usávamos era era uma cana. Nós escolhíamos uma cana nos canaviais, no tempo que estavam criadas – assim por este tempo, de Setembro, Outubro –, ia-se escolher logo. Escolhiam-se logo ali umas canas assim com com boa qualidade, e e guardavam-se. Tínhamos ali guardados que dava para todo o ano. [pausa] As canas, [vocalização] a gente interessa-lhe sempre escolher a cana bem criada. A cana depois quando está bem criada, na parte de fora, quase que se põe tipo de vidro, assim vidrada, assim muito luzidia. Era essas é que eram as boas. E E nós depois fazíamos uma fazíamos da cana, refiávamos a cana ao meio, e depois fazíamos uma parte da cana assim com, com com dois bicos, um um para um lado, outro para o outro que era. E esta parte aqui da cana era muito bem afiadinha – e mesmo durante a duração da da cana, quase todos os dias tinha que ser. Tínhamos umas faquinhas muito afinadas, a cortar muito bem. Tinha que ser [vocalização] a cana afinadinha para depois… A cana era mais ou menos deste tamanho. E a cana é que cortava e é que fazia dar o jeito. Nós trabalhávamos com uma mão, trabalhávamos com uma mão por fora… [pausa] Nós trabalhávamos com uma mão por fora e outra por dentro. Isto era assim: [vocalização] a mão que trabalhava por dentro, era esta parte é que puxava o barro; e aqui era era a dita cana de, com muito jeito – não é? –, em que a gente empurra de lá com a mão e e fixava aqui com a cana. À medida que quisesse fazer esta barriga da, da da panela, ia carregando lá mais e aliviando daqui, e depois quando chegávamos aqui, começávamos a fazer ao contrário… [pausa] E era assim. audio/STJ40.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Depois ainda tinha estas asas. Tanto das panelas, como das cântaras, como dessa coisa, ainda tinha esta esta asa que era feita depois manualmente, já não era na roda. [vocalização] Mas tinha que se deixar tinha que se deixar a panela, ou cântaro, ou isso que fosse, ter [vocalização] uma certa sezão própria, assim já mais rijinha, para depois lhe sermos co- capaz de colocar a asa. Porque se estivesse logo mole quando se acabava de fazer, a gente ia aqui para lhe colar a asa e isto [vocalização] vergava tudo, metia para dentro, vergava tudo e nada… [pausa] Pegaria até melhor [vocalização] pela sezão de estar fresca, mas tinha que estar rija para aguentar. E nós aqui, isto isto era já feito à mão. Era era um coiso um coiso de barro muito bem amassadinho, ainda mais bem amassado que este. E E depois era batido aqui na ponta da bancada para ficar aqui pegado. E depois nós com as mãos íamos puxando, puxando, puxando, puxando, puxando, puxando com uma pinguinha de água à mistura, íamos puxando, puxando até até pôr mais ou menos esta grossura. Quando pusesse esta grossura, a gente com este dedo e este por baixo cortava; cortava, vinha com ela aqui e e pegava. Pegava, depois de estar aqui pegado, punha-se este dedo, nós vergávamos aqui o barro para dar coiso e aqui… Era assim. audio/STJ41.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Não, este por dentro este por dentro é vidrado. Chamamos-lhe nós vidrado. Isto é passado com uma tinta, o chamado zarcão de vidrar. Que esse zarcão de vidrar até serve também para pintar; mas mas há zarcão só de pintura e há zarcão de de vidrar. E o zarcão de vidrar também é mais caro e os pintores fogem a ele. Mas até por acaso é bastante bom para para pintar. Isto é zarcão de vidrar, [vocalização] que é um produto que é feito à base de chumbo, à base de chumbo; depois isso [vocalização] era dissolvido no, no numa vasilha qualquer, assim larga; e então depois, nós, depois de termos ali aquilo fabricado, deitávamos aquilo para dentro, [vocalização] abanávamos; esta parte aqui depois da boca molha-, molha-se molhava-se lá no coiso… E isto que vocês vêem aqui, era na altura que se está a molhar deixa… Ele foi o mestre que deixou escorrer aqui um bocadinho. Aqui até estava a escorrer e o mestre limpou aqui com a mão… audio/STJ42.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Num alguidar. Põe-se num alguidar grande. [pausa] Conforme a porção. [pausa] Se for uma porção maior, põe-se mais num alguidar maior; se for uma porção pequena, põe-se num alguidar mais pequeno. audio/STJ43.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Agora é embrulhado. Quando Está uma hora para se levantar a pasta; [pausa] ao fim de uma hora vai-se levantar a pasta; depois no fim dessa hora, está a fintar – pode levar duas horas, pode levar três, a fintar, conforme o tempo. [pausa] Conforme o calor do tempo. [pausa] Agora tenho tido marés que em duas horas finta-me o pão; depois está uma hora no forno, tira-se, já está cozido. audio/STJ44.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Portanto, havia havia uma casa em Lisboa que davam na te- dinheiro para um fulano pôr o pé em cima do lacrau. E eu [vocalização] já disse ao genro da minha filha para irmos lá umas poucas de vezes, porque ele tem um carro: "Oh pá, vamos lá! Eu descalço-me. Chego lá, descalço-me. Mas primeiro dão-te o dinheiro a ti e depois é que ponho o pé em cima da cabeça do lacrau". Eles de vez em quando até apresentam o lacrau; e é remédios ou não sei quê, e o lacrau, que é para um remédio não sei quê! Até ouvi dizer primeiro que era para para o cancro, ou para o cangro, ou não sei quê! O veneno do lacrau! Agora não sei, nunca mais ouvi mais nada! audio/STJ45.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) O, é É sempre [vocalização] em Junho. [pausa] É sempre em Junho. Há aí gente que começam às vezes ao fim de Maio, mas é cedo demais. O O tempo próprio é sempre em Junho. audio/STJ46.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Ele além aquela mulher que vocês estiveram agora ainda faz assim, mas eu agora já não faço. [vocalização] Já não amasso assim como dantes. audio/STJ47.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Quer dizer que depois a gente fazia o fermento, [pausa] e no outro dia am- levantávamos-se, amassávamos e depois estava muito tempo para fintar, porque demorava muito tempo, que era só com o fermentozinho que a gente fazia – o fermento, não havia fermento inglês. Estava muito tempo. Depois aquilo lá crescia até a gente lhe parecer [vocalização]. A gente pomos uns p- pomos o pano em cima de da massa, e pomos uns poucos de farelos, do que a gente tirava… [pausa] Peneirávamos e o que a gente tirava depois púnhamos um pouco de uns poucos de farelos em de cima do pano. Depois as nossas mães e isso diziam que era quando estivesse aquilo arregoado, ali os farelos depois começavam a arregoar, que era quando estava finto. E a gente era assim [pausa] que a gente tratava da da cozedura. Depois tendíamos, [vocalização] quando a gente via que estava finto, arranjávamos ali o tabuleiro [pausa] de madeira – que eu ainda aí tenho também –, [vocalização] punha-se o panal e p- e começávamos a tender e tendíamos o pão. Depois [vocalização], no fim de estar [vocalização] o forno quente e tudo, plantamo-lo no forno. [pausa] Pois, varria-se o forno e punha-se. audio/STJ48.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Ora, eu agora um dia destes cozi aí, tendi aí por outra. Ela tende-se bem à mesma por outra. audio/STJ49.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Rhum-rhum. audio/STJ50.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Sim. audio/STJ51.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Eu, por acaso, o último que me mordeu, [vocalização] eu mor-… O primeiro que me mordeu não não lhe fiz nada. Foi só chorar as vinte e quatro horas cheia de dor, com a perna no ar, que não lhe fiz nada. Não lhe fiz nada! Eu era gaiata ainda, fui calçar um sapato velho, que ele dantes não havia sapatos. A gente em bem apanhando um sapato, enfiávamos lá os pés dentro. [pausa] E eu fui calçar aquele sapato e tinha lá um alacrau dentro. Ora, aquilo foi morder ali até [pausa] – até lhe apetecer! [pausa] Foi uns sa- uns sapatos até de dos meus irmãos, ou não sei de quem, uns sapatos grandes. Encavei aquilo nos pés e andava assim. [pausa] Depois o alacrau mordeu-me. Eu chorei, e lá, sempre a chorar. Ele não havia outro remédio! A gente não sabia certas coisas, agora já… [pausa] Mas depois morderam-me mais quatro. [pausa] Três eram pequeninos. Doeu-me mas não era assim dores… Aquele é que ele me doeu muito! E este último que me mordeu, foi numa altura que eu fiz aqui estas casas aí, as as primeiras casas. [pausa] Fui ali buscar um pouco de tijolo e levantei o tijolo – a gente andava sempre descalços –, e debaixo do tijolo estava um alacrau. Fui, pus lá o pé, mordeu-me. Mas doeu-me muito! Mas depois ali uma mulherzinha assim mais de idade ensinou-me uma mezinha para lhe eu fazer. E eu pus-lhe. Era sulfato de cobre – não sei se vocês conhecem isso, se quê. Era sulfato de cobre – [vocalização] uma pedrinha derregada ali numa pinguinha de água – e banhar… [vocalização] Ali onde o alacrau mordeu, banhar o pé ali naque- com aquela água. Doeu-me muito menos! Não sei se foi disso se se o que é que teve de ser. Mas se calhar sempre foi, pois, adormeceu mais o pé. Mas as vinte e quatro horas doeu-me sempre à mesma. Não era era dores desensofridas. Mas o primeiro que me mordeu, aquilo foi dores do pior! Toda a noite chorei e todo o dia! audio/STJ52.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) E havia [vocalização] aquele morrão de terra ali – tudo ali, um valado, tudo cheio de pencas e isso. Depois fizeram ali uma casa e derrubaram… Pois, arranjaram aquilo. E o gaiato andava lá e aparece-me aqui com uma salpeia – mas uma coisa de vantagem! – na mão. [pausa] É por isso que eu digo que aquilo… O alacrau [vocalização], aquilo embora morda – não sei se morde, se não –, mas embora morda – mas é preciso se calhar com muito tempo, não sei. O gaiato trou- apareceu-me aqui com aquele bicho aqui na mão, que arranjou lá no valado, lá na terra. [pausa] Depois eu, [pausa] eu cheia de medo, porque dizem que aquilo que também não têm o [vocalização] que se elas morderem, que aquilo que não tem cura. Mas ele se calhar não mordeu, porque ele… [pausa] Outras pessoas dizem que cada patinha – aquilo tem muitas patas –, cada patinha que é uma dor. audio/STJ53.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Pois. audio/STJ54.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Não foi disso. audio/STJ55.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) É de várias cores, é. Olha este é cor-de-r-. Olha, este é [pausa] s- um sargaço miúdo, que onde ele há é sempre em terra de barro. Assim uma terra barrenta. É este aqui. audio/STJ56.mp3 Santa Justa (Coruche, Santarém) Assim empinada. [vocalização] E deixavam-lhe ali uma bocazinha que era para depois atiçarem fogo [pausa] lá ao carvão, à lenha. E [vocalização] iam empinando e depois de todo bem tapadinho com terra… Era muito bem tapadinho com terra, aquela lenha. [pausa] Aquela lenha toda tapada com terra, [pausa] e depois no fim andava ali dois ou três dias. O c- O carvoeiro andava lá sempre em volta, porque às vezes ardia mais um lado ou qualquer coisa, para ir sempre tapando com terra, e depois aquilo ficava carvão. Depois ficava lá carvão. audio/STJ57.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Era a gente. Tinha Tínhamos um banco e tínhamos ferramentas, fazíamos as cangas. Aqui [vocalização] esses lavradores grandes tinham um carpinteiro para lhe fazer os carros, para lhe fazer a [vocalização] as cangas. Depois essa essa junta de bois que andava à frente, tinha um espelho, uma canga especial muito enfeitada e os os chocalhos e campainhas. E campainhas para o gado. Pastava-se Depois estava-se. E a [vocalização] ali no período – vocês andam para fazer essa época de tempo – e então de Verão, a gente fazia as debulhas à pata de égua: com um trilho e duas bestas a cortar o calcador. E era tudo a braçal. audio/STJ58.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Era. As mulheres e os e os homens, a maior parte aí dos lavradores não davam não davam meia hora. Havia alguns que davam meia hora só de sol de Inverno. E de Inverno os homens tinham estas vantagens todas, só trabalhavam cinco, seis horas. E faziam mais que hoje que se trabalham oito. audio/STJ59.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Sai a água-ruça. Depois é que eles vão purificar. Tem as m-, as as meduras as, as, as. Chama-se aquelas latas onde vai o azeite é as meduras. E dessas latas, das meduras, vai purificando, tem [vocalização] um cano para purificar. E tem O homem que trabalha – que é o mestre do lagar – é que sabe: vai a água… O azeite vem ao de cima e a água vem para baixo. Tem uma torneira para tirar. E quando eles querem fazer o roubo para o inferno, estão ali na cara, os tipos não vêem nada. Dão um pontapé na torneira, deixam correr até eles lhe parecer. Depois dão-lhe outro pontapé. Eu era garoto, fui mais o meu pai ao lagar. O meu pai percebia; o meu avô foi quarenta e nove anos mestre de lagar. O meu pai nunca quis ser mestre. Porque ser mestre dum lagar, é preciso ter um feitio! Os Os fregueses chamam ladrão, chamam tudo, e eles, o que é eles têm de ter um feitio especial para não discutir com os clientes. [pausa] É essas coisas todas. audio/STJ60.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Antes. Tiram eles é o azeite cru antes de sair da água a ferver. É o azeite cru. Chama-se o azeite cru. Para fazer um unguento – eu e depois lhe ensino. Um farmacêutico em Montargil chamado Dario… O meu pai levou uma picada duma balsa e andava no médico a levar [vocalização] – era não sei quê de prata para queimar. E o farmacêutico olha para o meu pai e disse: "Ó rapaz, então andas já há um ano aí no médico e ele não há-de te curar. Vai lá ao teu pai [pausa] que te dê lá um pouco de azeite cru, que eu faço-te um unguento que sara todas as feridas". O meu pai apanhou-o. – Era muito inteligente: aprendeu a ler e a escrever sem professor, só com explicações doutros, e tudo! Em matemática, era um matemático terrível! Eu tenho um sobrinho que é que tem três cursos superiores. É professor de matemática na Faculdade de Ciências. – E então pôs a metade de cânfora e a metade de alvaiade de chumbo, e era batido com azeite cru. [vocalização] Foi para lá uma rapariga, lá para o monte, empregada, tinha uma ferida numa perna que já cheirava mal dessa perna. audio/STJ61.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Os garraios. Ia um garraio que era mais manso e um boi manso a trabalhar como um garraio – à parelha dele. Ia o Ia um boi manso para o segurar e… – um boi já ensinado a trabalhar, para ensinar o outro garraio. Depois quando trabalhava aquele que já viam que estava manso, metiam um outro mais aquele. Depois, ao fim daí dum mês de trabalharem assim, a quatro ou a seis, iam então, é que se juntavam os dois a trabalhar com uma corda cada um, e a lavrar nesses chaparros. Havia homens especialistas. Havia aí grandes homens com grande ciência e com grande arte para trabalhar com esses bois. E eram escolhidos. Havia aí muito homem, muito artista, aí na região. Havia aqui grandes esgalhadores, esgalhavam os chaparros, [vocalização] faziam uns golpes como devia de ser. Esgalhavam, agricultavam, adubavam-se os chaparros, que os chaparros não se secavam. audio/STJ62.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Aqui no Couço não são amigos de saltar as cancelas. audio/STJ63.mp3 Couço (Coruche, Santarém) É artista. Tenho uma irmã que tem andado… Já gastei com ela quase três mil contos. [pausa] E todas as mulheres Aquela doença tinha cura. A cura daquela doença é uma sangria. Todas as mulheres [pausa] estão sujeitas àquela coisa. Tem dois vasos, que são os maus, que abrem. E quando esses vasos que mau, que abrem que são os maus – que a ciência não sabe… [pausa] Fulana pode-se molhar ou pode ter uma coisa qualquer, o sangue sobe à tola, sobe à cabeça. Havia ali um médico chamado David que curou algumas [pausa] uma quantidade impressionante de mulheres. Levei lá a minha irmã e diz ele: "Se quando ela adoeceu, se vêm cá, abria-lhe uma sangria"… Era uma mulher valente! Era uma mulher que punha cem litros de trigo às costas, ao ombro, sem tocar nos peitos. Levantava a pulso. [pausa] Podia melhor do que eu e que outros que lá andavam na eira. Experimentou, agarrou no saco e tudo ficou admirado a olhar para ela. E quando era o gado, que era bravo que a gente lá tinha, vestia umas calças e uma blusa e ia ajudar. Agarrava ali e onde ela agarrava segurava. audio/STJ64.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Chamava-se o sementeiro. Ia o abegão e era o semeador, ia orientar, ia mandar embelgar. Era belgas com cinco passos para se semear. E então o abegão ia orientar, e o boieiro é que ia a abrir os regos, umas belgas com cinco passos, que era para semear, que era para alcançar… E depois ia o semeador. O abegão orientava isso tudo. Via se o semeador semeava bem, se semeava mal; se ele via que ele que semeava, ensinava, dizia: "Ó fulano, afrouxa mais ou vai mais porque este bocado de terra come mais semente, aquele come menos", e era isso tudo. O abegão é que é que era o homem, tinha de ser o homem que sabia de tudo da lavoura. Sabia como a terra havia de ser lavrada. Havia de Por exemplo, uma uma terra, andava-se a lavrar, uma terra dava para um lado e tinha [vocalização] a metade da outra terra dava para outro lado. A belga dava, por exemplo, para dois lados. O abegão en- ensinava [vocalização] o homem dos bois; o boeiro ia, abria o rego para outro. E depois semeavam. Quando andavam a semear, a terra estava embelgada e cada um semeava pela sua belga. Quando semeavam todos juntos, chamava-se semear à picola – à picola. Semear… Mas semeava, geralmente, pouco. Nessas Nessas grandes lavouras, ninguém eles não semeavam à picola. Havia lavouras ali em Montargil que [vocalização] semeavam à picola. Mas aqui não. Aqui no Sorraia era: cada junta de bois por três, quatro belgas. E iam E iam para outro lugar, outras belgas. O abegão andava lá sempre para orientar; e o boieiro pa- [vocalização] ensinava os outros que que eram mais fracos. E o abegão andava lá sempre toda a. Acompanhava toda a sementeira. Era um homem que sabia, tinha de saber tudo, era um homem… Tanto que nessas lavouras, era um homem que estava habilitado e que percebia de tudo. Era um homem que percebia de tudo. audio/STJ65.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Não havia veterinários, havia alveitares. Aqui na região havia havia alveitares. Houve aqui na região um homem chamado Décio das ovelhas, conhecia o gado pelo bigode aos veterinários. E [vocalização] E os veterinários [pausa] convidaram-no – um homem que não sabia ler nem escrever – para ir reger uma cadeira na Escola Veterinária. E davam-lhe dez escudos cada dia e o gajo não quis. E queriam que ele fizesse um livro. Eu tenho um livro que foi escrito – chama-se "O Tesouro do Lavrador" – que foi escrito há duzentos e vinte anos. Ainda os veterinários não sabem o que eles sabem. Porque o veterinário hoje o veterinário hoje, a ciência dele é conhecer a doença do animal. O animal conhece-o. Por exemplo, se tem uma dor, vai com a cabeça assim aonde… A gente, como eu, que convivia com os animais, conheço as doenças. Porque aqui na região a doença que ataca mais o animal é a carbunculosa com diferentes sintomas. [pausa] Ele vão O gado vacum, há quarenta e cinco moléstias que vão à carbunculosa com diferentes sintomas. A veterinária hoje está mais evoluída do que nunca esteve. Está cienti- O veterinário, dês que saiba que conheça a moléstia, aplica-lhe uma injecção, cura o animal. [pausa] Tem avançado muito. Mas esse tal esse tal v- Décio das ovelhas – contava-me o meu pai, que ele não era cá do meu tempo – chegou a Montargil ver uma junta de bois, [pausa] disse que: "Aquele que está sadio, que não tem doença, morre; e este que está doente escapa. [pausa] E este que está sadio, quando for uma hora da noite, à meia-noite, dá o berro e cai para o lado e morre". [pausa] Era um cientista! O gajo nunca quis deixar – era aqui da Lamarosa. Era cá do concelho de Coruche. Era um gajo cientista, chamava… Neste tempo não fazia De Verão não fazia mais nada que era a andar a cavalo num cavalo, [vocalização] a este e àquele; todos os dias, todos os dias iam-no chamar. Ia para o Ribatejo. O gajo em Salvaterra, andavam os veterinários a dar a injecção, já lá andavam há oito dias; e o gajo com um pontapé – que ele o que é que foi? – foi apalpar o boi – ele apalpava o animal – foi apalpar o boi e achou-lhe um marmelo na [vocalização] atravessado nas goelas. Mas agora o animal respirava. Ele recua para trás, mandou-o endireitar, deu um pontapé no marmelo, o marmelo foi… "Oh! [pausa] Está curado"! E na presença de dois veterinários, ficaram a olhar para ele. Foi daí é que ele teve grande fama… Esses veterinários convidaram-no [pausa] para a Escola Veterinária, falaram com o professor, para o gajo ter lá uma cadeira e fazer um livro. E o gajo não quis. Foi, foi um grande Foi um grande paspalhão! Deixava o nome dele escrito para toda a vida. E ficava escrito como veterinário. Porque os veterinários precisam de saber os sintomas que os animais… Então eu quando tinha lavoura chamava! Uma vez adoeceu-me uma ali e eu digo-lhe, chamei o veterinário. O veterinário disse: "Morre duas vezes"! Ele abalou, eu fui buscar o meu alfarrábio e comecei a estudar: "A doença é esta, os sintomas, é esta, é este". Montei-me na bicicleta, vim aqui ao Couço, comprei sete quilos de farinha [pausa] de trigo e comprei quarenta onças de raspa de veado. [pausa] Aqui o farmacêutico, o ajudante de farmácia, não sabia o que era uma onça. Digo eu para ele: "Então tu não sabes o que é uma onça? O teu patrão tinha um [nome] antigo". "Mas você sabe quanto é uma onça"? "Sei, sim senhor. Uma onça são vinte e cinco gramas. Fazes quarenta papelinhos". Dava dois papelinhos dissolvido em meio quilo de farinha, grosso, pela boca abaixo ao animal. Quando foi ao fim de três tratamentos, o animal, as tripas, a raspa de veado fez sarar. Porque a febre podre é umas feridas nos intestinos que os animais têm como nós temos também. [pausa] E a raspa de veado fez sarar. [pausa] Matou o micróbio. [pausa] Os antigos sabiam muita coisa! [pausa] Muita coisa! audio/STJ66.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Quando têm dois anos de estar na engorda é os novilhos. [pausa] Passando os dois anos, passa a ser garraio. [pausa] A passar dos três para os quatro anos, passa a ser boi. audio/STJ67.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Dizia-se que o avô do engenheiro era era mercenário. audio/STJ68.mp3 Couço (Coruche, Santarém) O avô deste [pausa] também teve cabras, mas depois as cabras roíam os chaparros e as oliveiras e ele acabou com as cabras. Tinha ovelhas e tinha vacada e tinha porcada: tinha marrãs para criar, para engordar porcos de montado. Agora não. Isto tudo mudou. Mas ainda volta! Uns davam aí arrobas e arrobas de carne, fica aí toneladas que davam… A bolota dos chaparros! E tinham limpo, e era raro secar. Lavravam, adubavam, faziam as esgalhas no seu tempo próprio; faziam a rama para o gado vacum comer a rama – de Inverno, esgalhavam e o gado ia para a rama. Antigamente o os boeiros aí na região dormiam… Os boieiros iam para a rama com o gado. Da- Davam assim ao gado e o gado não ficava nos, nos nos palheiros. Saía para o campo. Dormia a campo. Noites de água e isso tudo. O bo- O boeiro era debaixo dum chapéu de sol. Sofriam as torruras. Isso tudo modificou. Por baixo dum chapéu de sol, a guardar os bois de noite! Depois isto modernizou-se. Isto era aqui há cinquenta anos: os boeiros davam a ceia aos bois num palheiro, rua!, iam para o campo. Os [vocalização] Os animais dormindo a campo eram mais resistentes! [pausa] O boi era mais resistente. O boi só podia ap-… Mas mas por fim também gostava de abrigo. [pausa] Todos os animais gostam de abrigo. Todos os animais! Não há animal nenhum que não goste de abrigo. Nenhum animal gosta de ficar ao tempo. audio/STJ69.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Havia homens que também negociavam em fazendas. Isso é O negócio das fazendas é um negócio escuro. Eu até andei aí também a… Arruinei-me no ofício, também andei um ano a ser paneiro. Enganei um padre no Vimieiro com, com com um fato de cotim, com um cotim preto que tinha muito lustro – de volta para o sol, dava lustro. Enganei o padre. Vendi-lhe três metros de cotim por setenta e cinco escudos em 1924 – e 26. Ele foi em 26. [vocalização] Tinha eu treze anos. Enganei o padre. Depois fui lá mais tarde, diz assim o padre: "Malandro, é já tão pequeno e já tens "! "E então o senhor, então não era bonito, então era uma"… "Então hoje trazes aí boa fazenda"? "Trago aqui Santa Clara". "Então quanto é que queres por um fato de Santa Clara fino cinzento"? "Este posso-lhe vender por quatrocentos e cinquenta escudos". "Agora não me enganes, hã"?! "Não engano nada"! Oh, cinzento, Santa Clara! Era o melhor Era a melhor fazenda… É o melhor fabricante que se fabrica em Portugal. É melhor que o inglês, melhor que tudo. Cá em Portugal, há há de tudo. E tudo muito melhor que os outros países. Isto é um país rico. Está é mal administrado. Isto é um país… Nós, Portugal, não precisamos nada. Cá há de tudo. [pausa] Há petróleo, há carvão, há cá… Há de tudo cá, de tudo cá no nosso país, o que é que está debaixo da alçada dos americanos e e os americanos não lhe convém que se desenvolva isto. audio/STJ70.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Eu tive ovelhas dezoito anos… [pausa] Tive ovelhas quarenta e cinco anos – cinquenta anos. Tivemos ovelhas cinquenta anos. [pausa] Cinquenta anos. E então dezoito anos tive, quem ordenhava as ovelhas era eu. [pausa] Eu é que batia ali a ordenhar. Ordenhava ali cem ovelhas, cento e vinte, levava uma hora a ordenhar. Mas era num mocho para não castigar os rins. Mas eles era em cócoras. Mas houve para lá um ovelheiro que foi lá e um criado que foi criado dum doutor Isaltino, que era médico, foi vê-los a ordenhar e disse: "Vocês nem sabem o que é que estão a fazer aos rins". Um mocho a cada um. E esse homem que foi lá primeiro, que foi lá moural dois anos e disse: "Eu ordenho-te as ovelhas mas têm têm-me que comprar um mocho". "Compra-se um mocho do teu tamanho". Depois ele abalou, fiquei eu a ordenhar. Eu é que ensinava os rapazes a ordenhar. Depois [vocalização] eles não queriam ordenhar, eram homens de idade, eu é que batia. Aquele era Tinha horas certas para ordenhar. Por exemplo, de manhã de manhã era sempre cedo; [pausa] à tarde, àquele às três horas da tarde ordenhava, ia metia as ovelhas para o prisco e ordenhava. As ovelhas estavam tão amestradas que já sabiam as que eram ordenhadas. Só ao primeiro dia é que custava, mas depois já sabiam, entrava tudo no prisco. Dizia-se: "Prisco, ovelha! Prisco, prisco, prisco"! Elas metia-se tudo no prisco. As que eram. As que não eram ordenhadas, não iam não queriam ir para lá. Agora aquelas que eram ordenhadas, iam… Tinha uma ovelha que era a ovelha-mestra. [pausa] Era a ovelha-mestra, era uma ovelha que [pausa] ia do princípio ao fim. Ia à parelha das outras a amparar. Era a amparadeira. Chamava-se a amparadeira. Era uma ovelha que eu tive de ensinar. Ao princípio, custou-me a ensinar. Ali dois ou três dias com um cordel preso à camarada. Era presa na perna e ela ia sempre. Chamava-se a amparadeira. Alguma que era má, ela encostava e apertava-a ali de encontro à cancela. Chama-se isso amparadeira. audio/STJ71.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Manteiga não se fazia. Mas sei como se faz a manteiga. [vocalização] Naturalmente, antigamente quem tinha vacas, era dentro duma cântara a baterem. A bater, faziam a manteiga. Depois lavavam-na e tratavam dela, salgavam e isso tudo. Mas era dentro duma cântara a bater com uma colher. audio/STJ72.mp3 Couço (Coruche, Santarém) Não dizia nada. Se a minha mãe arreava com a com a correia… Era com uma correia; tinham cada um uma correia para arrear. Era à correada. Pela cabeça nunca batiam. Era pelas nalgas é que levávamos porrada. Pela cabeça nunca batiam, pela cabeça de ninguém. Era ali com a correia pelas nalgas e pelas… Era só pelas nalgas é que levávamos. Pelas costas também não batiam nem por nem por coisa nenhuma. Era ali pelas nalgas é que levávamos as correadas. audio/UNS01.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) "Vem É uma boiada de bezerros que aí vem! Vem dar prejuízo"! Dum ano para O outro ano até aqui as hortas comeram, e couves, e tudo. E a gente ainda os vai avisar, ainda ameaçam para bater. [pausa] Está a ver como anda isto? É assim. audio/UNS02.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Todos [vocalização] trabalhadores do campo e guardaram o g- as cabras. Ora ia eu, ora ia um irmão meu, ora [vocalização]… audio/UNS03.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Sim senhora. audio/UNS04.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Primeiro põe lá é o restolho na eira. [pausa] Depois de ele actuar, rega; e depois passa-lhe – chamam o chamamos um burro – uma giesta grande, com uma pedra de cima a arrastar, a compor os barranquinhos que fez a água na eira. E depois a gente só lá vai [pausa] sovar com os pés; depois de bem sovada, varre-a; depois de [vocalização] de a varrer, amassa uma pouca de bosta das vacas numa poça, e corre-a com um vassouro de fetos para ficar aquilo tudo barrado, a eira toda barrada, que é para quando se malha o pão, não fazer areia, [pausa] não ir o pão com areia. Depois de de ela barrada, de s- de seca, varre-se, estra-se o pão; depois de se estrar o pão na eira , [pausa] vão então os homens e malham-no. Depois de o malharem, tiram a palha; depois de tirar a palha, varrem o pão. Acoanham o pão. Depois de acoanharem o pão, varrem o pão; e depois já erguem o pão; depois medem-no com meio alqueire para o saco. É É o trabalho da eira. audio/UNS05.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Porque praticamente quem tinha quem tinha mais gado era lá em baixo o [vocalização] a Quinta da Varge, e agora como não têm, não dou conta. Só sendo que comprem [pausa] para fazer. audio/UNS06.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Já transportam. audio/UNS07.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Pois. audio/UNS08.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) E agora tornam lá a andar. audio/UNS09.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Já se lá sentavam na tábua. audio/UNS10.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) E uma certa altura Bom, [pausa] leváramos aquela para baixo, e [vocalização] lá veio para o meio das outras, pronto! Uma certa altura, o irmão que eu tinha, que era o mais velho [pausa] em casa onde eu fui criado, não… Porque era para trazer um saco de batatas às costas, mas ele não podia, deixou lá as batatas e veio-se embora por aí abaixo. Minha mãe [pausa] exaltou-se lá com ele: "Eu já vou buscar as batatas"! Era de noite. E rompe a noite acima, por por o caminho acima e foi lá em cima lá ter à [vocalização], à para trazer as batatas. Chegou lá: "Ora, [pausa] já é tão tarde! Já não vou"! Deitou-se lá no na palha. Abriu a porta, ele foi lá para a caniçada. O que é que se resultou? [vocalização] Que estava a escandelecer [pausa] e dá-lhe a vontade de verter águas. E quando se ele alevanta, abre a porta, estava lá o lobo assentado, no estendedouro, [vocalização] em frente da porta. E dizia então ele: "Foram dois que tiveram medo: fui eu e ele". [vocalização] Quando ele lhe abriu a porta, o lobo estava assim a olhar de lado. O meu irmão encarou com ele, diz que lhe dava a lua no peito. Tinha o peito saliente. Que lhe dava a lua no peito. E vai então o meu irmão: "Ó rapaz, que estás aí a fazer"? Quando lhe assim disse, virou-lhe aos quartos traseiros e botou-lhe para lá uma mancheia de areia para cima, a esgravatar, que até sentiram as areias na porta, dizia ele. Ó rapaz, aquilo é que ele parece que levava lume a fugir! Naquela altura, ponto final. audio/UNS11.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Pois. audio/UNS12.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Como lhe acabo de dizer, não havia assim brinquedos como há agora. audio/UNS13.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) E temos cá da da rede, aqui. A gente, às vezes bachuca umas couves, ou [vocalização] umas cebolas, qualquer coisa, com a da rede. Mas, regra geral, para a gente regar a pé, 'vamos-a' buscar ao ribeiro, lá em cima. audio/UNS14.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ele estava lá o cabrito, custava-me lá a deixá-lo ficar, mas eu tinha medo. Mas sempre avancei. Lá fui apanhar o cabrito. Ao cabo, tirei-o, mas quando me cá apanhei, disse assim: "Ai, credo! Então se se agora aqui caísse um bocado de entulho, eu ficava aqui debaixo. Ficava cá morta"! audio/UNS15.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Só para o pastor, sim. [vocalização] Pastores, bem, tractoristas também. Pronto, as pessoas que estavam ali [vocalização] ao mês tinham essas garantias. As que ti- andavam ao dia – caso da Erada e Paúl – tinham, às vezes… Ou agora, por fim, já tinham tudo: [vocalização] os tractores iam pôr e buscar o pessoal. Chegou lá a andar a trabalhar trinta ou quarenta pessoas. Agora não, pronto! Agora nem lá têm gado. audio/UNS16.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) A esse juiz. audio/UNS17.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ele não têm, pronto! É assim que cá fazem. audio/UNS18.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) De manhã quando se alevantaram, já lá estava o sol, andaram a ver, não viram nada, [nome] nenhuns. Quando depois calham a ir à loja, estava lá o pipo rebentado: "Olha, a bomba foi o pipo que arrebentou"! audio/UNS19.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Onde andava, que era para o para ali estar tudo juntinho, para se não desperdiçar. audio/UNS20.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ele paga tanto por mês, ou por dia, ou por semana. audio/UNS21.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Iam Iam tecendo. Agora já deixaram de tecer e agora parece que já não… Aqui no concelho da Covilhã só sou eu e um no Paúl. Mas esse do Paúl tem um tearzito pequeno e gosta de andar só [vocalização] pelas feiras [vocalização] e tal. Lá anda nas feiras. audio/UNS22.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Pois. Era a melhor fazenda que havia nas dessa altura. Hoje já há diversas fazendas. E agora que sejam mais algumas que sejam muito coisa, mas ainda serão mais somenos do que nesse tempo. Risos audio/UNS23.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Agora até dá… A gente até se aborrece de andar nisto, não é? audio/UNS24.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Às vezes lá havia mulheres um bocadinho agarradas , [pausa] faziam igual, ficavam pequeninas; havia outras que tinham mais consciência, uma poiazinha maior. audio/UNS25.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Dois para aqui, mais fortes; dois para além, mais fracos. audio/UNS26.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) e o pão caía limpinho. À noite, se se dava o caso de não haver vento, [pausa] metiam-no em sacos. Não havendo vento, não podem limpar. [pausa] Se não havia vento – que às vezes dava-se isso –, metiam-no em sacos e ficava ali num monte na eira e ficava lá um homem a guardar. audio/UNS27.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) O norte é assim aqui, assim mais aqui ao lado, para a direita do norte. Quando o ven- Quando o aguião lá está naquela serra além e a travessia ali, os gajos batem forte. Mas o aguião é mais forte que a travessia. audio/UNS28.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) O que quer é dormir. audio/UNS29.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Pois já desde 35. audio/UNS30.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ainda lá não está. Em lá estando, faz aqui logo muito vento. audio/UNS31.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Pois, pois. audio/UNS32.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Quando ele morreu, o o regedor da freguesia até me- pediu-me uns dados, [pausa] até vinha na primeira página d'O Século. audio/UNS33.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) O Diógenes, meti-o lá: "Ó tio Dimas, eu [vocalização] parece que estou com medo de ir para a grade"… "Vou para lá eu, homem! Não ponhas lá pedra nenhuma. Vai tu para a frente das vacas". Fui para lá eu, agarrei-me à corda [pausa] e às vacas, e ele à frente das vacas, e lá fui. audio/UNS34.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Orienta aquilo durante a regadia de três meses. audio/UNS35.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Cavar. audio/UNS36.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Sim senhor. audio/UNS37.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) E se eu escrevo bem! audio/UNS38.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Sim, sim, sim. audio/UNS39.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) [vocalização] Isso falha muito. audio/UNS40.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) debaixo de terra. audio/UNS41.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) assim com jeitinho a empurrar para baixo para o gajo ir para o fundo. Às vezes dava-se o caso, acendia-se ali uma fogueira, o gajo a arder, a gente com a vassoura escangalhava-o assim. E, às vezes, se havia água perto, a gente pegava numa latinha que a gente levava e ia buscar uma latinha de água e molhava lá a vassoura e apagava. Se não havia, tinha não o deixava acender. Ia-o abanando para os lados e para o outro e lá se tirava todo da poça. Depois de o tirar todo da poça, a gente andava ali a amorrinhar mais um bocadinho, e tal, tal, tal, pegava nos sacos, pegava ao fundo daquela barreira que a gente fez, abria a boca ao saco e começava a ajeitar para dentro. audio/UNS42.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Tirava a brasa exactamente como o carvão, com um sacho; corria-a com a vassoura ali por por o terreiro abaixo; e vendo que que tal, metia-lhe o saco ao fundo, ia dentro das sacas: "Ala embora"! audio/UNS43.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) E depois bácoro. Bácoro ou porco. audio/UNS44.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Claro. audio/UNS45.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ai, fez agora! audio/UNS46.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Ai, umas afrontas que eu ia morrendo! audio/UNS47.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) É lavado, é corado. Leva muita volta. audio/UNS48.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Claro. audio/UNS49.mp3 Unhais da Serra (Covilhã, Castelo Branco) Sim senhor. audio/VPC01.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim senhor. audio/VPC02.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. audio/VPC03.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois é. Essa vida era toda assim. audio/VPC04.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) E o arroz era todo acartado para lá para plantar e depois era todo acartado à cabeça para essa mota do rio ou para a estrada. audio/VPC05.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim senhora. audio/VPC06.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Antes de se fazer o regadio. Agora então já temos o regadio, que é que é o que vem na regar o arroz. audio/VPC07.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim senhor. audio/VPC08.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Está a ver que ainda se lembra. audio/VPC09.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Era. audio/VPC10.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Porque no outro tempo não havia isso. audio/VPC11.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim senhor. audio/VPC12.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim senhor. audio/VPC13.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Mas é que se eu se eu agora o encontrasse!… audio/VPC14.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Que Com uns ancinhos e com forquilhas. A gente sacudia e depois ficava o grão em baixo. Depois era limpo. audio/VPC15.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) A gente íamos para o campo, levávamos uma… Para o almoço, levávamos umas sardinhitas num cesto, e broa. Graças a Deus era o que o que a gente tinha com f- fartura. E por lá andávamos até que a gente tivesse fome para voltar a comer. Não tínhamos horários de comer! Era quando a gente tinha ocasião é que se ia comer. Então agora se passassem o que a gente passou?! Ah! [vocalização] audio/VPC16.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Exactamente. audio/VPC17.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Rhum-rhum. audio/VPC18.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) [vocalização] Depois então era quando havia então a dobadoira e botava-se assim em, em, na na roca, assim aos fiinhos assim. E assim então já tinha a dobadoira quatro quatro assim, quatro qu- quinas. E a gente atava numa ponta. A gente não. Eles é que… Naquela altura eles é que o arranjavam. E depois ficava, ficava e atavam assim; depois tinham umas umas agulhas já próprias para o para o desfiar. E era assim que eu o vi arranjar, mas mais nada já não vi. audio/VPC19.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Não senhora. Não senhora. Então aquilo depois ficava em água. Tirava-se a a gordura do leite e depois aquilo era para a criação. audio/VPC20.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Foi sempre à mão que a gente o tirou. audio/VPC21.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Essas é que aproveitam essas grossas para fazer os palaios. É. A gente para aqui não usa isso. Não senhor. audio/VPC22.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois é. Isso os cachopos gostam. Ai! Os meus rapazes até se consolam com frango assado! audio/VPC23.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois é. audio/VPC24.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Agora destes mais novos… Já este ano um foi caloiro, este da minha filha, desta mais…, já não foi. E ele gos-. Era uma festa que ele adorava de ir ver. Eu, às vezes, digo assim: "Ah, vais olha lá, vais tu"… "Vou. Gosto de ver. Gosto de ver". E então quando os netos iam, olhe, ele já não fazia nada durante o dia. Ia logo lá ter com eles lá acima à à universidade. E o meu Edmundo dizia assim – o irmão da Dulcínia –, dizia assim: "Ó avô, você não vá tarde". "Não filho, não. Eu, quando tu lá estiveres, eu também já não devo falhar muito"! Estava lá. Era a doidice deles. Mas vê, que a gente já não… Já não foram no nosso coiso, porque a gente quer é vê-los bem. A gente já estamos a já estamos como o outro. Já estamos por pouco. [vocalização] O que é que a gente há-de fazer? audio/VPC25.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Rhum. audio/VPC26.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Rhum. audio/VPC27.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. audio/VPC28.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Sim, sim, sim. audio/VPC29.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) É melhor. audio/VPC30.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Não, não. audio/VPC31.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) É a salsa. audio/VPC32.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. E os médicos estavam não lhe davam vida. audio/VPC33.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. audio/VPC34.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. audio/VPC35.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) É, sim senhora. É. São figueiras do inferno. audio/VPC36.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Tirou-a mas tornou-a a pôr para a água. Que ele teve medo. audio/VPC37.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois. audio/VPC38.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Eu já lhe mostro, eu já… audio/VPC39.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Rhum-rhum. audio/VPC40.mp3 Vila Pouca do Campo (Coimbra, Coimbra) Pois era. audio/GRJ01.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Pois. audio/GRJ02.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Portanto, leva du- uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove pedras. Tem de levar nove pedras para segurar um portal. audio/GRJ03.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Então eu sabia disto, tinha-lhe explicado tudo isto. audio/GRJ04.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Rezam. Umas vezes rezam. Quando vem aquelas trovoadas é: "Magnífica"! Ainda diz mais coisas, mas eu, às vezes, agora ainda não sei. Ain- Ainda não sei bem feito. [pausa] E [vocalização] E assim. audio/GRJ05.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E há muitas coisas já me passaram. Muitas coisas esquece-me. Esquecem-me. E mesmo cantigas. Eu sabia cantigas, eu dançava, eu tudo. E agora tudo já me esqueceu. Tudo já me esqueceu! Tudo já me esqueceu! [pausa] Passa o tempo e a gente, olhe, a cabeça já não… [pausa] Já nem regula. Apanha a gente já assim. [pausa] A gente agora só já vive mas é arreliada e sabe Deus como! E sabe Deus como! audio/GRJ06.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Eu vou lá. audio/GRJ07.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Não sei nada. audio/GRJ08.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Foi aquela aquela carreirona grande, grande, de cavalos muito grandes, muito bonitos. E aqueles homens muito bem preparados, muito bem vestidos. Ah! Metiam respeito! Digo-lhe mais uma coisa: que era de temer a gente. Ali homens de respeito, não é? Homens de respeito, homens… audio/GRJ09.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Não sei lá. Foi o que fui a fazer a Lisboa. Foi o que vi em Lisboa. Olhe que eu não vi lá mais nada. Vi lá muita gente, e muitos carros, e pronto. E casas muito altas. [pausa] Mas o que mais gostei foi daquilo. O que mais gostei foi de ver pa- de vir [pausa] o navio, ali ver passar aquelas pessoas, e então aquelas tropas. Isso é que eu gostei muito! Foi a coisa que eu gostei mais. Ele não me ensinaram mais nada! Pois então eu fui doente, eu não me dou nos carros. [pausa] E que via umas tais coisas. Não vi nada, pois. Eu havia de lá andar um dia ou dois a ver tudo. Fomos, chegámos lá tarde; [pausa] depois dormimos lá; depois viemos ao outro dia embora, só vimos uns civis, só. Na hora em que eu estava para vir embora é que vi aquilo, quase ma- quase mal. audio/GRJ10.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Não se esfregam. Aqui não costumam esfregar. audio/GRJ11.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Cantar, já para aí cantámos coisas já… audio/GRJ12.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Cá-vai, cá-vai, cá-vai! E é [vocalização] E há a coruja também. audio/GRJ13.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Aqui não há. audio/GRJ14.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E [vocalização] ele há muita muita qualidade de pássaros! audio/GRJ15.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Há sim. audio/GRJ16.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Aquilo é difícil. Então, quem encontrar uma papalva, ai isso já… Enquanto ele a não vê se a caça, já não descansa. Porque aquilo vem a dar muito dinheiro. Até d- Até dão para cima de um conto e quinhentos. [pausa] A pele das papalvas. audio/GRJ17.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Sei. São as varejas. Essas não são verdes, são, são são pretas. Essas são pretas. As verdes são são moscardos. São uns moscardos grandes. Há outros moscardos também pretos, também são chegante… Também são quase como aqueles verdes. Mas as que a senhora diz são varejas. Cham- Nós chamamos aquilo vareja. Chamamos aquilo vareja. Que se poisarem em cima de carne ou peixe, isso fica logo tudo cheio de, de de semente. audio/GRJ18.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Ai, ó meu Deus! Eu já não… Olhe, quando estou sozinha, estou, penso e lembra-me tudo. Agora já já desqueci. Olhe, olhe, eu nem sei. audio/GRJ19.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Para pôr os brincos e para. E os ouvidos para a gente ouvir. audio/GRJ20.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Em Timor. Morreu lá tão longe e e ganhamos muito menos que ganham por aí os outros. D- Dão-nos muito poucochinho. Mas então?! Mas havemos de viver vir até que Deus queira. Também a idade é… Ele já tem setenta e três anos. Já vai fazer setenta e quatro no dia dez do mês do Natal. E eu faço agora no dia dezassete setenta e um. [pausa] Mas claro. Cá vamos com Deus Nosso Senhor. É assim. audio/GRJ21.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Assim, na barriguinha assim. Começa a gente daqui para cima, da, da mesmo daqui das partes assim para cima, a correr assim para cima, tudo para cima, tudo para cima, e a gente dá com o estômago. Quando estão embaçados dá com ele. É assim, vai indo, vai indo, é três dias que a gente o cura e o estômago torna para o lugar dele. Já nem obram mole nem nem vomitam. Eu componho-os muito bem. Muito bem, muito bem! Até já em Lisboa eu compunha muita criança. Estava lá uma uma senhora que tinha só uma menina. E era mãe da porteira… Era filha da porteira, mas ela vivia muito bem, a filha. Estava a pôr a mão como que era ela a porteira, porque a mãe não sabia ler e não a queriam lá, ela é que fazia as vezes da porteira, é que assinava. E depois um dia apareceu-me lá: "Ó dona Ercília! Ai, a minha menina está tão malzinha! A minha menina morre-me! A minha menina morre-me"! "Não morre, não senhor". "Ai, disseram-me que a dona Ercília"… – quem está lá, é tudo "dom" – "Se a senhora… Que lhe dá um jeitinho, se a senhora lá viesse"… "Eu vou, sim senhora". Disse-lhe eu. "Eu vou lá". Cheguei lá, compus a menina, já quando foi ao outro dia que eu lá fui, já não andava. Ela sentia-se cá fora: ãhh, ãhh, ãhh! E já tinha uns três anos. Já era crescidinha. Compus-lhe a menina. Ao outro dia tornei lá, tornei lá outra vez, curei-a. Essa senhora nem sabia o que me havia de fazer. Porque ele diz que já tinha corrido os médicos todos de Lisboa e que nunca nenhum lhe deu com a cura. Era embaçada! audio/GRJ22.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Mas dantes rebentava-me muito. audio/GRJ23.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Magra e curta. Vejam lá. audio/GRJ24.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E a gente tem uma vasilha com água, e a gente pega naquelas brasas, bota uma de cada vez; se forem ao fundo, é ar; se vierem ao cima, não é. E e a [vocalização] já se ali conhece, já se atalha por ali. Mas se for pior, é com os guilhos da de lá de do moinho. Ou então com três, com, com com as ferraduras. Também. Também se atalha bem. audio/GRJ25.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Vejam lá! audio/GRJ26.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Deus deixou tudo no mundo. Tudo no mundo há-de aparecer. audio/GRJ27.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Pois é. audio/GRJ28.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E ele, e ele Ele tinha mais poderes do que do que os outros, era? Hã? audio/GRJ29.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Agora, que ficava excomungada. Eles é que ficam excomungados. [pausa] Eles é que são excomungados. Ele não leva nada a ninguém. E diz missa todos os dias lá numa capela. E estava lá outro padre. [pausa] Lá foi cumprimentá-lo, lá estiveram a conversar, mas nós não fomos. audio/GRJ30.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Pois. audio/GRJ31.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Pois. audio/GRJ32.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) É uma impingem. audio/GRJ33.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Eu não sei. Não sei. A Etelvina sabe muito bem. [pausa] Mas eu isso não aprendi. audio/GRJ34.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Ficam todos peladinhos. audio/GRJ35.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Há Há diversos remédios. Olhe, se rebenta essas tais empolas que a gente diz que são negras, a gente – eu [vocalização] foi com que me curei – [vocalização], a gente faz: uma uma gema dum ovo com um bocadinho de leite de peito, dos peitos da gente, quem quem tem. Agora quase que nenhumas tem. Ninguém quer criar filhos. Eu é que criei muitos. E [vocalização] um bocadinho de leite de peito, um um miolinho, poucochinho, de de trigo. De, de O miolinho do trigo, assim muito desfeitinho, muito desfeitinho, tudo muito batido, muito batido, muito batido num bocadinho de azeite. Tudo muito batido. Depois num paninho de gaze ou um paninho ralinho, a gente põe – chamamos aquilo nós as papas santas. A gente põe-lhe aquelas papinhas em cima, aquilo em dois ou três dias rebenta. Nem que esteja bem rijo, bem rijo, rebenta tudo. Não era? audio/GRJ36.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Se nós precisássemos todos os dias que nos ele lá fosse fazer qualquer coisa a casa, ele ia sempre. Era um grande marceneiro. Mal empregadinho homem em já morrer ele já morreu! audio/GRJ37.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Eu, graças a Deus também. audio/GRJ38.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) É É um xarope, é um xarope. audio/GRJ39.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Davam a um irmão meu que morreu afogado, coitadinho, com eles. Foi para uma terra e depois [vocalização] não trazia lá ninguém ao pé dele, ele andava perto dum poço, aquilo virou-se… Ele [verbo] muito, caiu para dentro do poço, não sabiam dele, foram lá dar com ele afogado. Um homenzarrão! audio/GRJ40.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Agora! audio/GRJ41.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E tu és burro? audio/GRJ42.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Tu também usastes! audio/GRJ43.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) É um carapuço. audio/GRJ44.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Este nunca gostou de, de de que eu tivesse isso nas pernas. Mas eu também não consinto aquele calor nas pernas. Não sou capaz. audio/GRJ45.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Então vai lá, vai. O bacalhauzinho há pouco. audio/GRJ46.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) A ceia é sim, minha senhora. Aí às oito horas. [vocalização] Oito horas, sete e meia. Oito horas. audio/GRJ47.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Não, não é preciso muito. Agora ainda é preciso porque agora ainda é rijinha um bocadinho. Mas em sendo Inverno, aquilo é [vocalização] ali só [vocalização] um quarto de hora. Nem um quarto de hora leva a cozinhar. audio/GRJ48.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) A minha Ermesinda teve uma pensão ainda bastante tempo. E eu ia para lá ajudá-la a cozinhar às criadas. E eu é que esfregava, é que tratava do frango. Estava o frango limpinho e pronto. Depois esfregava-o muito esfregadinho com sal, com aquele sal miudinho. Muito esfregadinho, muito esfregadinho. Depois fazia um molhinho de colorau e o alho, e tudo, e esfregava tudo por dentro e por fora, por fora e por dentro, assim tudo muito esfregadinho, e com azeite, bem azeitadinhos. Punha-os todos no tabuleiro e depois metia-os no forno. Depois virava-os. Aquilo ficavam loirinhos, lindos e bem! Quando às vezes eu partia tirava-os para fora para os partirmos, diziam os clientes… Ela Ele tinha clientes que [pausa] comiam lá sempre – chamávamos nós aquilo clientes. E então: "Hoje os frangos são da Avó"! Só me chamavam a Avó. "Hoje foi a Avó que tratou dos frangos"! Eles consolavam-se todos que eu fizesse… E as caldeiradas? Isso é que eles gostavam que lhe eu fizesse a caldeirada! Isso é que ele… Em eu fazendo a caldeirada ali o o… Era um tacho grande! Era uma pensão! Era ali, levantava tudo ao ar! "Ele foi tudo embora hoje"!, dizia a minha filha. "Ai, veio a velhota, foi tudo levantado"! [vocalização] Eu cozinhei lá bastante, olhe. audio/GRJ49.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Coitadinhas lá nos cobriram e a minha. Tenho uma neta chamada Fátima, que já está casada, que trabalha numa alfaiataria muito forte e depois lá disse às colegas, as colegas diz que chegaram a andar, a juntarem-se e a comprarem-me toalhinhas até de rosto. Mandaram-me meia dúzia de toalhas. Outra Outras mandavam-me um lençol, outras mandavam-me assim estas coisinhas. Mas nós ficámos sem nadinha do mundo. Nadinha! Nadinha! audio/GRJ50.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Imos Havemos de pagar, se Deus quiser, então. Se não morrermos. Se morrermos que paguem os filhos. audio/GRJ51.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Não me lembra! Bem feito! [pausa] "Anda sempre a cheirar. Anda sempre a cheirar. Olha, anda a cheirar fulana, anda a cheirar a aliana, anda sempre a cheirar, aquele cheirão. É um cheirão"! audio/GRJ52.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E depois ele casou-nos e disse assim: "Há bem tempo eu não fiz cá um casamento com um casal tão jeitoso e tão bonito"! Disseram, disseram. O meu Emanuel era muito bonito de de rapaz novo. audio/GRJ53.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Veja lá. Eu tenho lá uma toalha, que ainda agora lavei, que ainda me escapou do fogo… Ainda me escapou do fogo, aquela toalha! Com uma franja grande de renda, que não não apanhou nada do de queimadura. É É para levar eu por cima de mim quando morrer. [pausa] Para ma botarem de cima. audio/GRJ54.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Vinham aqueles rolos daquela, daquela daquilo que era uma beleza! Até cheirava bem aquilo. Aquelas meadinhas cheiravam que consolavam! audio/GRJ55.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) É que tudo estava com aquela fé, não é? Tudo pedia a Nosso Senhor que nos levantassem a malina. Tudo pedia a Deus. E então, com a graça de Deus Nosso Senhor, levantavam as malinas, minha senhora. audio/GRJ56.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Lembras-te… Tu lembras-te… Tu como é que estavas mais ela, homem? Lembro-me eu! audio/GRJ57.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) E à Senhora da Aparecida. audio/GRJ58.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Aquilo Que ele não há lá centeio, é só milho. audio/GRJ59.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Já tem Já tem mais de [vocalização] de quatro anos. audio/GRJ60.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) [vocalização] Até há quem lhe chame um bode. audio/GRJ61.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Depois fica aquilo muito sequinho e a gente corta assim um bocadinho – desfaz muito desfeitinho num bocadinho de água, muito desfeitinho – põe no coador e põe no leite. E depois com uma colher mexe-se muito mexidinho, muito mexidinho, e põe-se a la- a latinha, ou [vocalização] a panelinha, ou que é, ali mansinha, num lugar [vocalização] onde esteja bem, depois coalha o leite. Depois a gente tem o acincho, depois de coalhado, a gente, claro, lava o alguidar, lava a as francelas, lava as mãos, lava-se tudo para aquilo que… Tem o acincho, tudo muito lavadinho. E depois de tudo muito lavadinho, a gente põe o acincho dentro da francela, põe um alguidarzinho a apanhar o soro – chamamos nós o soro, o que sai da coalhada – e faz-se ali… Com um copinho, a gente… Ou com um panelinho limpinho que a gente tem… Eu tinha mesmo de propósito um pucarinho de alumínio para tirar. Faz a gente ali o queijo com as nossas mãos, espreme assim, espreme, até que faz o queijo. audio/GRJ62.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Depois vai para a salgadeira. audio/GRJ63.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Ele até cozidas. Depois são cozidas. São cheias… São cheias e cozidas logo numa panela de água a ferver. Enquanto estiverem a botar, que pi- que a gente pique com um garfo, que bote sangue, não se tiram. audio/GRJ64.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) É o tempo, a humidade. audio/GRJ65.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Há burros que não atiram às éguas, se não estarem bem s- bem feitos e ensaiados. Ensinados. Mas depois lá vão. audio/GRJ66.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Iam as procissões do concelho inteiras! De todas as freguesias, iam as cruzes. E depois, o povo, cada um ia a acompanhar as suas a sua cruz. A gente cantávamos aqueles versos. Punham o altifalante a ouvir, quando a em a gente começando, cá o Granjal, começavam: "Olha o Granjal! É o Granjal! É o Granjal"! Punha-se tudo a ouvir o Granjal cantar. Tudo! Não Não era lá por ser a nossa terra nem sermos nós! audio/GRJ67.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Dava muito trabalhinho, dava! Olha que o meu marido passou-me ele passou bem poucos trabalhos! audio/GRJ68.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Deixa lá… audio/GRJ69.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Eram só uns, foi só para ela. audio/GRJ70.mp3 Granjal (Sernancelhe, Viseu) Pois. audio/CRV01.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Essa é salgada. E a da linguiça, da chouriça, a gente pica-a também no dia [vocalização] que matam o porco, pica-se logo miudinha. Nesse dia caldeia-se colorau e [vocalização] sal. E no outro dia ama- Mas amassa-se muito bem amassado. No outro dia temos alho com mais sal, [pausa] e é bem amassadinho, bem acalcadinho, e depois amassa-se como quem as- amassa pão, duro e forte. E fazem-se as chouriças no outro dia. Põem-se na na lareira ali a defumar. audio/CRV02.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) A carne está crua e está ali de vinha-de-alhos em sal e água e [vocalização] sal, água, alho e malagueta. E depois fritam-se [pausa] e deitam-se numa panelinha, numa vasilha, [vocalização] depois de frios, está claro, e cobrem-se com gordura. [pausa] E aguentam o ano. A gente quando quer vai lá tirar. audio/CRV03.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Não. Ah, já Meu avô até já chegou a fazer assim… Breve diálogo paralelo com uma criança Meu avô já chegou a fazer assim, [pausa] com laranja azeda. Mas aqui, [pausa] não sei se alguém faz, mas parece-me que não. audio/CRV04.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Está a mulher depois sempre a mexer. audio/CRV05.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Que eu saiba não. audio/CRV06.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) E depois é que pico, depois de frito, e arrumo depois de fria. E depois deito a gordura em cima só morninha, para não estragar. audio/CRV07.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Olhe, é os lombinhos, [pausa] é assim duas tirinhas que se tiram do lombo do porco e ess- carne, a carne que se costuma deitar para a linguiça, a gente e mesmo torresmos. É a carne que se quer. audio/CRV08.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV09.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) O sal é que… Tinha o gosto mau, o sal. Pronto, a carne não estava podre. Aqui salgam muito bem. audio/CRV10.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) É, primeiro é frito. Faz-se um um refogadinho. Faz Frita-se o porco, entala-se – a gente diz entalar –, está só a refogar um bocadinho. E depois então é que se faz [vocalização]… Frita-se a cebola e o alho, tempera-se com pimenta e [vocalização] [pausa] e colorau ou [vocalização] ou tomate. audio/CRV11.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ó senhor, pois se há se há mais carne, a gente come menos porco, e se não há [pausa] carne ou peixe… [pausa] Aqui também, às vezes, não há com que se varie. Se o mar está mau, eles não podem ir ao peixe nem a buscar carne. Agora já se dá muitas caixas, já as pessoas podem estar abastecidas. audio/CRV12.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) O gado que [vocalização] [pausa] que se magoa, e têm que o matar imediatamente. audio/CRV13.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois, pois. audio/CRV14.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) A gente cá em casa, a gente não gosta de usar muitos temperos assim… [pausa] É alho e cebola e tomate. Amassa-se tomate, a gente faz é assim. audio/CRV15.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ó senhor, pois eu não sei. Aqui não era todos os dias que eles não queriam, os meus homens. Mas eu comia. Eu comia todos os dias quando tinha. [pausa] Fazia uma vez duma maneira, outra vez doutra e comia sempre peixe. Gosto muito de peixe. audio/CRV16.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Mas a gente aqui sempre tem, em nossa casa. Mas há pessoas que… Mas agora ultimamente já há menos pessoas nas casas, sabe? Já há menos família. Mas antigamente quando era umas oito e nove e dez pessoas em cada casa, aquilo acabavam tudo logo, pois com certeza. audio/CRV17.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV18.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) E então eles combinam: "Olha, há-de ser em tal tempo". Pronto. Arranjam as coisas e é mesmo nesse tempo que destinam. audio/CRV19.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Há galinhas de muita maneira. audio/CRV20.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Café? Risos audio/CRV21.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ó senhor, aqui há poucos bêbados ou nenhum. E os que estão assim que gostam nem sequer são da terra. audio/CRV22.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Nada, nada. Não. [pausa] Nada. audio/CRV23.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Costumavam assim: ovozinhos estrelados, muito fígado [vocalização], carne, peixe – ou o que temos! audio/CRV24.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Rhum! audio/CRV25.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Os reis, já ninguém faz festa. audio/CRV26.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) E depois põe-se por cima e [vocalização] canela. audio/CRV27.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Sim, é a altura da refeição. audio/CRV28.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) É a 25 de Abril. audio/CRV29.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Era! Era! Ouvi-lhe mais do que uma vez, [pausa] essas coisas agora assim que faziam aí. audio/CRV30.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Nos Moinhos tinham muita fome. Trabalhavam muito com muita fome. audio/CRV31.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Um cabeço é [vocalização] é um sítio onde fica mais altinho ele um pouco [vocalização]. [pausa] Ele o que o que está agora o monte [vocalização] que seja como como esta casa é um cabeço. audio/CRV32.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Faziam-se agora furnas nessas barrocas para eles se abrigarem lá. E também se faziam furnas em certos sítios para a gente se abrigar, ele em certos dias. Hoje já não querem isso. Mas eu mais o Felício já nos abrigámos muitas vezes. Estávamos de manhã até à noite metidos nessas furnas, a chover, para se trazer o leite das vacas à noite. Mas agora vêm para casa, que é mu- é muito mais prático e muito melhor saúde! É, é! audio/CRV33.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Sim senhor. audio/CRV34.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Já não querem isso. audio/CRV35.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) São venenosos. audio/CRV36.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Não há. audio/CRV37.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Usavam. E cá em nossa casa nunca se usou isso. Porque não via nem a minha avó nem a minha mãe [pausa] cultivar isso. Mas havia nalgumas terras aí para trás, nestas terras daqui debaixo. Uma coisinha, ele ela crescia por esta altura, mais ou menos, [pausa] e dava então umas maçanetazinhas com uns picos. audio/CRV38.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Não, também há muito! Muita hera, muita! audio/CRV39.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) A maior parte do tronco. Tenho-os cortado e te- tenho-os serrado e [vocalização] feito lenha com eles. audio/CRV40.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Quando me viu, pôs-se a andar. Ainda agora, eu faço-me só: "Eu já o tenho". "Ele quer-me dar". E a moça pôe-se a andar pela porta fora e já não quer saber mais nada! Risos E ela era uma garotinha, uma coisinha de uns dois anos, três, que ela não tinha mais. E el já, já audio/CRV41.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Rhum-rhum. audio/CRV42.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ele era para para dar bom conselho ao neto. Diz: Homem "Homem tem juízo. Andas agora a fazer zaragata pelos caminhos todos os dias?! Os caminhos são de to-, são são de todos e todos se querem servir deles. Tem vergonha e tem juízo"! Não. "Vales pouco! Devia ser eu em meus dias! Dia o ca- o Josino e o carro e os bois, tudo para a terra do João Lobo"! audio/CRV43.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Já. Sabiam que estava gente aqui. [pausa] Agarravam-nos de noite e iam. "Oh, e a lancha"? "A lancha? A lancha ficar lá largada no mar e a gente andava"! A gente se pudesse pagar a lancha ao dono de lá, havia-se de pagar; se não se pudesse, pronto, o dono perdia. Não havia mais nada. Risos audio/CRV44.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ele a princípio a viagem foi mais mais demorada do que ele faziam conta. A comida faltou! Então ele ao princípio aqueles mais matreiros… Iam à Iam à cozinha buscar o seu pratinho, buscar a comida, não vinha para a mesa. Então os mais matreiros iam com o pratinho: "Tu"! O navio era americano. Tinham comida para dois! Para ele ver se davam mais uma coisinha! Quando era no fim já tudo sabia dizer "tu"! Risos audio/CRV45.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) A minha mãe falava muitas vezes nele. [pausa] Quando veio para cá, já veio em [vocalização] barco a motor. Ca- E lá na viagem, ora já se sabe, era um vapor já grandinho, vinham mulheres, vinham crianças, mulheres enjoadas, davam-lhe galinha e outras comidas melhores, porque ele quase sempre os doentes têm falta de mais uma coisinha do gosto do que estando de saúde. E o micaelense, lá meio rabugento, e, e pouco e de pouco pensar, e pega a fazer zaragata a bordo. "E dão galinha às mulheres e não nos dão à gente. E a nossa co- comida é igual à dos outros e a delas"… Zaragata por aí abaixo! Foram dizer ao comandante. "Homem, está ali um passageiro, [pausa] não está contente com a comida, porque ele [pausa] dão galinha às mulheres e que e que também quer galinha". [pausa] "O cozinheiro que venha cá"! Mandam chamar o cozinheiro: "Faz-me aí um um bife bem feito, de boa carne". O cozinheiro arranja o bife: "Está pronto"! "Ora venha o passageiro". "Olha, vai comer o bife e quando acabares… Quando acabares de comer o bife, hás-de comer a galinha então. A galinha não está pronta agora. Agora come o bife". Então, ele ele "No fim há-de ser a galinha". Ele come o bife, ora gostou do bife, comeu alqueire e quarta. [pausa] Foi-se deitar a dormir. [pausa] Arranjaram a galinha, e e vão ter com ele à ao beliche, lá à cama dele, que ele que se levantasse e fosse comer a galinha. [pausa] "Qual galinha"? "Homem, o senhor comandante diz que vais comer a galinha, que querias galinha"? "Homem, diz lá ao senhor comandante que eu que estou satisfeito". Risos Ele ele comeu, comeu… Então ele quase comeu de carne, se calhar, quê, um quilo?! Risos Ele o tio Fidélio falava muitas vezes do padre Fidelíssimo. audio/CRV46.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Falava muitas vezes nisso. audio/CRV47.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) [vocalização] No fundo, eles estavam moncos. Eles estavam sempre pegados e no fim estavam como a gente estamos agora aqui. Mas estando sempre sempre com a zaragata um com o outro. E [vocalização] E ele todos os Invernos contava agora histórias da lá da vida dele, coisas que se tinham passado com ele, outras que lhe contavam. E [vocalização] não havia um ano de ele de a gente pensar: "Olha, no ano passado contou isto desta maneira e este ano já é desta". Ele tinha aquilo como que está escrito neste livro, como ele se estivesse lendo dentro dele. Não [pausa] não Não modificava aquilo por qualidade nenhuma. Estava sempre sempre certinho. audio/CRV48.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) "Da maneira que eles estão acolá, já não há mais [pausa] mais amizade". [pausa] Acabando a turra, cada um para sua casa. [pausa] O meu veio para dentro, esteve-se lavando, estivemos comendo, acaba de comer, para aqui. Minha mãe – Deus te dê o céu: "Ah! Cara sem vergonha – Jesus! – acabaste de sair da turra com aquele homem e agora vais para casa dele"? "Não lhe tenho mal a ele nem ele a mim"! Risos Eram assim. E o O Felício está aí. Ele passava Talvez não se passava semana nenhuma que eles não se pegassem aí. audio/CRV49.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Eles diam pela riba do meu patamar os três. Era de a gente morrer [pausa] a rir, os três juntos! O meu pai, o meu tio e a minha tia Gabriela a dar, a [vocalização] . O meu tio só ouvia era o meu pai a dar-lhe assim para baixo na, [pausa] na, na na minha tia, na tia Gabriela. Oh, mas gente! Era Era de a gente ria, ria!… audio/CRV50.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) "Só a olhar para o tecto da casa, que não fazes nada, que és assim"… "Ou doido, ou não doido, o peso está aqui". Risos Então ele: "Porque eu antes nunca vi semelhante peso"! Risos audio/CRV51.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) O baldio tem uns estatutos. audio/CRV52.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ah, eu tenho perdido o m- o meu quinhão. audio/CRV53.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ela não endurece. Fica tudo uma palha, ela larga aquele sumo, e vem o sol, torra-a outra vez e ela fica assim . audio/CRV54.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Risos Eu fumar nunca fumei. audio/CRV55.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) O milho vai crescendo, à medida que o milho vai crescendo, vai-se-lhe chegando uma coisinha de terra para o, para o para se ele suster ali ele de pé, porque [vocalização] quem tirar a terra para fora, ele não não se pode suster. Vira de, fica deitado na terra. E ele a gente vai-lhe chegando uma coisinha de terra que é para ser estar aprumado. audio/CRV56.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois já. audio/CRV57.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Mas agora já não há ovelhas, estão para lá. audio/CRV58.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Semeavam às vezes em Março ou em Abril ou, vinha o tempo, queimava tudo. Elas diam-se embora, já não vinham. E outros anos [pausa] – olha, espera lá aí –, [pausa] e outros anos [vocalização] semeiam mais tarde por ele por causa do tempo. [vocalização] E agora era como o tempo ajudava. O tempo o tempo é que é é que influi com essas com as coisas aqui – ele. Porque isto é um cabeço muito mau aqui. [pausa] O tempo, é! O tempo é ele, é que é que tange isso tudo aqui dentro, aqui neste lugarinho. [pausa] É conforme o tempo vem. Há anos que o tempo vem bom, as sea-, as as culturas desen- [pausa] crescem mais. Outros anos que ele não há sol, [pausa] nada produz. Vêm morridinhas, vêm ele enfossadas lá na terra que não não fazem nada. audio/CRV59.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Em anos que havia vento em Agosto e Setembro, destruía [pausa] dava mau caminho a tudo. [vocalização] Os milhos ficavam ficavam a nada. Agora quando não havia vento, que o tempo ajudava, a terra produzia bem de tudo. Produzia milho, trigo, centeio, batata, abóbora. Produzia de tudo. O vento é que era mau. audio/CRV60.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV61.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Rhum-rhum. audio/CRV62.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Nos Pa- Nos Palheiros. Mas [vocalização] deixaram de [vocalização] de habitar lá; ele vieram fazer aqui abaixo por causa da água, que não tinham água. audio/CRV63.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV64.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Cortava da primeira vez [vocalização], cortava daqui; era aqui [pausa] logo direito. A segunda vez, a gente chamava atalhar; dava-lhe daqui. À terceira vez, [pausa] dava-lhe ao comprido tudo o que podia. Alguns, como estes da fraga aqui em baixo, quando à primeira lavoura, dava-lhe ao comprido. E as outras duas, ao lavrar ou ao botar ali a sementeira é que cortava. E eu, eu era ao contrário dele mais dos outros. Eu, da vez da sementeira queria-me despachar, eu queria-as cortadas já da, de das duas primeiras, que era para o dia da, da da sementeira de safar-me tudo o que podia. Eu se podia semear tudo num dia, semeava. audio/CRV65.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Os que Os que tinham muita, ela estava lá até ao Verão; outros que tinham mais pouca, acabavam-na mais cedo. Era como como a falta que tinham dela. audio/CRV66.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV67.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Andava-se assim até à noite. audio/CRV68.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Pois. audio/CRV69.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Sim senhora. [pausa] Não digo que ela que não aqui ou ali não não desmoronasse lá uma coisinha mas pouca coisa. audio/CRV70.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) É do tempo de de minha bisavó! Porque a minha avó já trabalhou talvez pouco nisso depois de se casar. [pausa] Agora minha bisavó sim. audio/CRV71.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Rhum-rhum. audio/CRV72.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Eu já me lembro de, de de uma tia minha, tia de meu pai, que estava morando lá, chamuscarem o porco dela lá dentro! audio/CRV73.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ah, estrume. audio/CRV74.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) O [vocalização] vime era bom de trabalhar e o cesto era mais resistente, aguentava mais tempo. Estes ele dá dá-lhe caruncho. Mas ele já não há fumo. [pausa] O [vocalização] E também já não se precisa de cestos. Já Já não se usa estrume, nem nem se tem milho. Para que eles querem cestos e sebes?! [pausa] É bem boa vida! audio/CRV75.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Ah foi? audio/CRV76.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) E [vocalização] depois vieram então estes candeeiros de petróleo, já pareciam tão tanto bons como a como a electricidade. Estávamos muito contentes com isso e hoje já já não se vê com isso. audio/CRV77.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Agora é que trazem muita coisa. audio/CRV78.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) 25 de Abril. audio/CRV79.mp3 Vila do Corvo (Corvo, Horta) Rhum-rhum. audio/GRC01.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) É. audio/GRC02.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC03.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Cagarra. audio/GRC04.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Não conheço Não conheço outra arte! audio/GRC05.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Proa. audio/GRC06.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC07.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Oh, andei muitos anos, muitos anos a pano! Aí há uns [vocalização] quinze anos talvez. audio/GRC08.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Rhum-rhum. audio/GRC09.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Oh! Diz que havia muita feiticeira mas já hoje [pausa] já hoje [pausa] como que não se ouve falar nisso. audio/GRC10.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Mas já, ultimamente, já não. É muito raro. É muito raro. audio/GRC11.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC12.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) E a [vocalização] E a camba, faz-se o mesmo. Isto encaixa assim aqui naquele coiso. Que, [vocalização] antigamente, [pausa] estes ferros não eram inteiriços. Era cortado em duas partes. Não sei se apanhou isso nalgum lado. Pois. E [vocalização] faziam duas partes e faziam uma boca em ferro. A gente fazia-lhe uma cavidade aqui na madeira para a boca encaixar e era tudo pregado era com cravetes, o qual desta forma é mais fácil, com menos despesa. É tudo tudo inteiriço. audio/GRC13.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Aquilo não é letra embrulhada, que aquilo é para guarnecer. Qualquer uma falta que tenha, endireita-se com o cimento e pronto. audio/GRC14.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC15.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) É. audio/GRC16.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. Dava para eu viver em qualquer parte do mundo. audio/GRC17.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Rhum-rhum. audio/GRC18.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois, pois. audio/GRC19.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC20.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Pois. audio/GRC21.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Aquilo é doce que consola! audio/GRC22.mp3 Covas (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) De donos! audio/GRC23.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) O Florival. audio/GRC24.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Ele Ele quase sempre faço uma mistura. [vocalização] Um pouco disto, outro pouco daquilo, outro pouco daquilo. Não é dizer que se fez-se uma fornada de vasos, ou uma fornada de alguidares, da mesma qualidade. Se é alguidares é [vocalização] é pequenos, é grados, de maneira que é uma coisa que eu não tenho assim uma conta certa. audio/GRC25.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Era [vocalização] Era de quinhão. Ele vinha trabalhar pela metade. audio/GRC26.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Também faz. Então eu já tenho feito! Às ve- Aí, às vezes, a pequena [pausa] diz que tem o desconsolo dum queijinho, eu lá faço um bocadinho de queijo em casa, e faço-lhe faço. Faço dois, três, conforme me parece. audio/GRC27.mp3 Santa Cruz da Graciosa (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Rhum. audio/GRC28.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Toca a lavar! Não senhora. [vocalização] O meu filho fica, à direita, na Ribeirinha, quem vai para a Esperança. E vê-se mais gente que é ali talvez como ali ao pé daquele tonel. [vocalização] É os poços da Ribeirinha. Tem ali água ao pé. E tem uma cisterna de água. Depois, daí, eles ficam a lavar as tripas. [vocalização] E o jantar está a andar. [pausa] Toca a ir tirar o jantar, para comerem. Depois um vai tratar do seu gado, um vai para aqui, outro vai para ali, outros ficam a jogar às cartas. Depois os outros desembaraçam-se e vêm, estão todos juntos. Quando é à noite, estão para ali a fazer serão, a jogar às cartas, outros a tocar, cantarem, outros é a ver televisão, outros a ouvir gira-discos. É assim. E passa [vocalização] – às vezes ele a jogar – a ceia às vezes para as duas, três horas. Mas ele já há uns anos o meu homem anda muito doente. Chega-se à noite – e depois também tenho os meus bichos: "Quero-me ir embora". [pausa] Ai, meu Deus! E [vocalização] E no outro dia então, da manhã, desmancham o porco [pausa] para salgar. E tiram-lhe o que é dado, pois ele o que é para o para os torresmos. Bota-se-lhe água e sal, e depois daí – daí a uma hora, ou hora e meia – tiro-os da água e sal, fazem o molho de vinha-de-alhos com alho e [vocalização] vi [pausa] alho e malagueta e canela. Botam aquilo por cima, botam-lhe uns canados de vinho e mexem muito bem, aquilo fica como o molho de vinha-de-alhos. Ainda quando é ali à [vocalização] à tardinha, bota-se a derreter, aquilo ficam loirinhos, muito lindos, e a cheirar que consolam! E ali fica uma esborradeira cheia com torresmos de vinha-de-alho. Quando aí era, às vezes, daí a dois dias ou três, que é para ficar tenrinho, derretem os torresmos de vinha-de-alhos e dão a ceia. E [vocalização] E [vocalização] salgam o bucho. Depois o bucho é picado todo aos bocadinhos e a cabeça do porco. E depois cozem-na com feijão branco ou com macarrão, outros é com arroz. É conforme as pessoas gostam. É assim. audio/GRC29.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Era a gente. E [vocalização] eu morava… Eu não morava aqui. Eu moro aqui há nove anos. Morava era nas Fontes. E depois eu era rapariga solteira e tinha minha cunhada e aleijadinha – não era muito parladeira. E eu [vocalização] tinha minha madrinha, que era uma irmã de meu pai. Tinha [vocalização] Tinha assim pessoas amigas que vinham nos dias de matança. Mas já [pausa] isso vai-se acabando e já as minhas famílias morreram, já não tenho ninguém. Só tenho o meu homem e o meu filho e a minha nora e os meus netos. E é o meu irmão que lá há a morar na Terceira e que tem estado já há dezoito anos na América. Veio agora para a Terceira há um ano. Veio até aqui para minha casa. E [vocalização] E é um afilhado que é filho do meu irmão. Não tenho mais ninguém. audio/GRC30.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Mas não quero ir. audio/GRC31.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Até eu, era uma coisa que eu era habituada em casa de minha mãe, ter o meu café e leite, e ele comprou gado, comprou carro, comprou arados, e grade, estas coisas todas e nunca mais cheguei a beber uma pinguinha de café, senão daí a um ano, pelas matanças. audio/GRC32.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Mas eu a qualquer uma hora que queira ir para a América, estou a modo de seguir. Tenho a carta em casa a modo de seguir. Tenho a carta já feita já há mais de dois anos. Tenho a carta em casa, estou a modo de navegar. É só chegar-me, numa comparação, a um banco, ele arranjar… Mas quem é que vai sair agora? Homem, não quero saber disso para nada, vez nenhuma. Mesmo a minha não tem vontade nenhuma. audio/GRC33.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Na desfolhada? Quantas sei eu? Sei mais de um milhão delas. audio/GRC34.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Eu so- Eu sou um estupor para fumar! audio/GRC35.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) E tu amigo de aceitar. Risos Oh! Pois. [pausa] E depois eu fiquei, como dizia o outro por Fradesso Paga-Negra. Pedinchão! Que eu gosto muito de pedir! E aquele que me quiser dar, eu aceito logo. [pausa] Roubar não quero! Em bem que me quiserem dar, eu aceito logo! Risos Seja o que for, eu agarro-me logo de qualquer maneira. audio/GRC36.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Eh pá! Eu, Deus Deus te livre! audio/GRC37.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) É isso. audio/GRC38.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Rhum. audio/GRC39.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Ele alguma adivinha eu ainda me lembro. audio/GRC40.mp3 Carapacho (Santa Cruz da Graciosa, Angra do Heroísmo) Branca Flor. audio/MLD01.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Não é? Já trabalhou tanto tempo. audio/MLD02.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD03.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD04.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ai, eu não quero, obrigadinho. audio/MLD05.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) E é pimentos. Pimenteiros. Além anda uma cunhada minha a mondar o feijão. [pausa] Anda a trabalhar, coitada, é doente, mas então? Está trabalhando. A vida é assim. Sim senhor. Pois eu [vocalização] estou à ordem das senhoras. Logo que querem ver mais algumas coisas, vamos. audio/MLD06.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD07.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD08.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Foi trabalhar. Pronto. Pronto. audio/MLD09.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois claro. audio/MLD10.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD11.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Já fiz sessenta e cinco. audio/MLD12.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) E era melhor do que é hoje. audio/MLD13.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Não se enganar. audio/MLD14.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) De água. audio/MLD15.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Eu não me lembro bem a canção. Como a minha mãe cantava era: "A Aurora tem um menino tão pequenino, e o pai quem será? Não é de freira nem frade, nem é de coxinho, nem é de [nome]". Era assim que ela cantava. Mas havia aí quem não percebeu bem como é que eles cantaram os versos. audio/MLD16.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ai, isso é o [vocalização] [pausa] é o coiso, como é que é?… É a erva da erisípela, não é? audio/MLD17.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Uma vez é que uma senhora aqui – era uma tia da minha mulher – ia ali a um rapaz que tinha uma oficina lá em baixo… Há muito, muito tempo, aquilo já há uma porrada de anos. E depois ele não tinha lá púcaros, para fazer o café, cozidos. E o ba- E o barro era encarnado parecia aquilo que estava cozido. Risos E depois diz: "Então e não vendes-me um púcaro destes, Ilídio"? "Não lhe vendo, não senhor! Isso estão crus"! "Ah, estão crus! Estás-me é a querer enganar! Não me queres é vender"! E ela tanto, tanto, tanto chateou o moço, vendeu-lhe o púcaro. Ora, o púcaro estava cru! Risos Chegou lá a casa, vá, encheu o púcaro de água. O púcaro estava seco, aguentava. Andou… [pausa] O púcaro lá ao lume e, olhe, lá se foi governar. Daí a bocado quando veio de lá, já aquilo estava tudo esborralhado, Risos o chá fora. Depois veio de lá, guerreou com ele: " Me enganaste"?! "Eu não a enganei! Então mas não lhe disse uma data de vezes que a senhora que isso não estava capaz! A senhora foi teimosa, levou; não tenho a culpa que eu bem lhe disse"! Risos [vocalização] Ora, pois a senhora estava zangada com ele porque tinha-o enganado. Então aquilo não estava cozido! Ele não lhe disse logo uma data de vezes que aquilo estava cru? Ela queria era levar o púcaro que tinha muito preciso. [vocalização] Oh! Quando veio de lá aquilo estava tudo esborrachado . Risos Pois. [vocalização] audio/MLD18.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) É isso mesmo. audio/MLD19.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Se ele era parvo daqui a São Teotónio ele a pé! audio/MLD20.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Tanto que dizia ele e ou- e outros meus colegas que aí estavam, diziam: "Ele? O Galileu? Não aprende o ofício, tem umas mãos muito grandes e uns braços muito grossos"! Todos fazendo mangação de mim. Vamos lá a ver se aprendo ou não aprendi! Eu, às vezes, ia para o pé deles [pausa] a ver eles trabalharem; também a s- ia sentar-me lá ao pé, ou para olhar ou para estar ali um bocado ao pé deles. Faziam uma peça ou duas e batiam a alheta, iam-se embora. "Ah, tenho que ir fazer isto! Tenho que ir fazer aquilo"!, que era para mim não ver. Risos Já viu essas que estão aí? [pausa] E eu depois vinha de lá, vinha experimentar. E muito tempo não tinha vagar; vim para aqui, um servente não dava a conta a escolher o barro para ele e tirar a louça para [verbo] isso. [pausa] Fazia já de tudo menos fazer a louça. audio/MLD21.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Agora já não se pisa. Mas noutro tempo era isto era uma coisa, pisar é que dava trabalho. [pausa] Isto tinha que ser pisado a pés! audio/MLD22.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Podem ver o que é que ele o homem gosta da da igreja! audio/MLD23.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) A senhora gosta mais antigas! As mais antigas! audio/MLD24.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Esse fazia muito boas cantigas. E um dia diz-me ele: "Anda. Tu tens uma idade tão boa para fazer cantigas. Há-des fazer uma cantiga como eu te digo. [vocalização] Estas Uma cantiga assim quintada, e tal". [vocalização] E eu não sabia o que era, digo: "Eu, se calhar não sou capaz de fazer". "Fazes. Olha, ele o mote é um qualquer. E então, o mote até pode ser uma palavra só. E no mote vais todas as vezes ali, andas para trás e para diante, e fazes. Olha, fazes assim, assim, assim". E eu fui indo e fiz. Fiz uma cantiga. Essa cantiga, fiz eu. E fiz uma outra que também que diz assim… audio/MLD25.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) O pai depois disse à rapariga a resposta. Disse-lhe o r- o pai então para a rapariga: "Ó filha, eu estou pensando. É o que te posso responder. Espera aí mais uns dois anos que depois já pode ser. Então estás aborrecida do mando de mãe e pai? Se quiseres ir embora vai, mas tornas-te arrependida. Tomas outra nova vida quando um ano se passando; e muitas das vezes chorando. Mas remédio já não há. Há três dias para cá, ó filha, eu estou pensando. Ó filha, diz-me a verdade, o que é que te aconteceu? Foi rapaz que te apareceu muito à tua vontade? Deixares-te da mocidade, grande coisa tem que ser! Eu não te posso valer que a tua sina é assim e que me dás esse desgosto a mim, é o que te eu posso responder. Se tu te manteres solteira e que me faças as vontades, nunca tens dificuldades, é tudo o que a filha queira! Isto é a melhor maneira e tomamos outros planos. Há por aí muitos fulanos que te querem desgraçar e toma um outro pensar, e espera aí mais uns dois anos". [vocalização] Pois é. [pausa] "Espera aí mais uns dois anos que depois já pode ser. [pausa] Deves de reparar que és nova e tens pouca idade e com a maior facilidade, te deixas logo enga- enganar. E depois vingas-te em chorar e começas-te a aborrecer. De outro rapaz não te querer, tornas-te infeliz, faz tudo como o pai diz, porque depois já pode ser". O pai não punha o defeito no rapaz! Punha o defeito era nela, que era muito nova! É. Tanto que ele diz: "Espera mais uns dois anos". Porque a rapariga logo de nova começou logo a gostar dos moços. E o pai depois dava então a desculpa que não era aquele rapaz que ele queria. Não era isso. Era a rapariga que era nova. Punha o pai essa esse obstáculo. audio/MLD26.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Há um homenzito aqui na serra já aí de uns oitenta e qualquer coisa de anos que [vocalização] fez uma cantiga. E de vez em quando procurava por mim e de vez em quando procura. Ainda não há muitos dias que ele me mandou recomendações. E então, às vezes, ele ia passa- para ali à do Godim – sabes onde é? –, e o homenzito aparecia e ele: "Ande, avie lá uma cantiga! Ande, avie lá uma cantiga"! E eu lá dizia uma cantiga e ele dizia outra. E dizia-me ele assim: "Há-des fazer uma cantiga neste mote que eu te vou dizer"! Digo: "Então, se eu for capaz"! Diz ele assim: "Olha, eu tenho uma cantiga [pausa] neste mote: Vou-me fazer uma viagem, não torno cá a voltar. Sozinho não posso ir, quatro é que me vão levar". Digo-lhe eu assim: "Olhe, e talvez eu seja capaz"! "Há-des fazer uma cantiga nisto". O homem disse a cantiga, pois, disse a cantiga toda, e diz ele assim: "Eu gostava que tu, um dia, quando viesses aqui à do Godim, trazeres já essa cantiga para mim ouvir, no mesmo mote que eu tenho, a ver se é parecida com a minha". Mas era impossível, pois não não podia ser. Eu sabia lá o que é que o homem tinha dito. E então [pausa] eu disse então ao homem: "Vou-me fazer uma viagem, não torno cá a voltar. Sozinho não posso ir, quatro é que me vão levar". audio/MLD27.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ele diz o mote dele e eu lhe disse o meu – sendo ele o mesmo. O homem disse a cantiga dele e eu fui dizer a minha, não era palavra nenhuma… Nem eu tinha palavra nenhuma da cantiga dele, nem ele da minha. Ele foi buscar um outro afundamento, uma outra coisa qualquer, pois. E eu tinha cá um outro afundamento. Eu sou assim: quando faço uma cantiga, pergunto um [pausa] um rumo, para ir naquele rumo sempre. Ou Ou há-de ser uma cantiga feita só dedicada àquele artigo ou então não vale a pena a gente estarmos… Ora falamos no no céu, ora falamos na terra, não é nada que se pareça. Ou é tudo à terra, ou é tudo ao céu. E o homem, como não é profissional – mesmo eu também não sou, porque eu não sei ler nem escrever, não posso ser profissional, não é nada prévio… E o homem, que sabe ler e escrever, o homem aplicou umas outras coisas que eu, mais das palavras, nem nem sabia o que é que o que é que elas queriam dizer. Mas eu como não sabia ler, é claro… Mas todos sabem muito bem [pausa] as palavras o que é que querem dizer. Embora elas não sejam bem, bem declaradas, bem explicadas, mas já todos sabem, é dirigida àquele lugar. E então o homem ficou muito admirado e, às vezes, quando lá por lá vai alguém: "Então o Gastão ainda é vivo? Ainda"? "Eh, dê-lhe lá recomendações minhas. Eu ainda me não esqueceu, hã"? E trazem-me, às vezes, aquelas notícias. E, às vezes, já tenho ido aí pela estrada, às vezes, até no no carro dum filho meu e passarmos por ele – vai a caminho da venda – e eu digo para o meu irmão Gentiliano: "O tio Gendolfo aí vai". E então o homenzito canta também umas cantigas [pausa] boazinhas, mas poucochinhas. audio/MLD28.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. audio/MLD29.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Sei tratar dele, [vocalização] sei-o cozer e sei-o comer. audio/MLD30.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) [vocalização] Chama-se a ameixa. audio/MLD31.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) É isso. audio/MLD32.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) É isso tudo. audio/MLD33.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois é. audio/MLD34.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Se naquele sítio que na- a rede está a pescar, que se não apanha peixe um dia ou dois, nós depois mudamos-a à procura de de outros sítios melhores, [pausa] onde haja mais peixe. audio/MLD35.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Às vezes chega a ser mais de… A partir da- das dezasseis pessoas que tenho na companha, chega a ser vinte e vinte e tal. audio/MLD36.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Um negro de peixe. audio/MLD37.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ah, isso não sabia. audio/MLD38.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) E, às vezes, calha a bater até quase certo e ir ter mesmo onde tenho as redes. audio/MLD39.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois, pois. audio/MLD40.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ele é filhoses. audio/MLD41.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Agora Agora já é outra vez semeado. [pausa] Agora é a terra arranjada da mesma maneira, o mesmo. O que é que vai lá as máquinas, têm que fazer os muros. Os que foram escangalhados têm que ser arranjados. E é tudo mondadinho à mesma, e a terra certinha, com as máquinas, e vai as pessoas ajuntam aqueles coisinhos mais altos para ficar tudo direito, e semeiam o arroz. [pausa] Fica ali semeadinho. Depois as mulheres vão, apanham algumas coisinhas rente, e põem as químicas. E pronto, está o trabalho do arroz arrumado. [pausa] Aquilo, pois, não tem mais… Eles vão lá pôr água quando é preciso [pausa] e tirar. E [vocalização] E é o que eles fazem nos arrozes agora. audio/MLD42.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Ah, pouco. Pouco me lembro já. audio/MLD43.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. Ou vinha Ou vinha um homem da vila cá cá para para o campo – também calhava às vezes –, [vocalização] estes cá conheciam-nos logo. Ele até até pelo andar, parece que eles que os conheciam – que os conheciam logo. E hoje em dia não se conhece! Não se conhece ninguém! Há alguns que são nascidos aí n- nessas serras, ainda parece que que eram uns lugares que – como até agora – que eram quase como os bichos. Mas não se conhece lá nada disso, hoje em dia, agora cá! Ainda agora aí passou um rapaz que mora nos [nome próprio] – que é uma casa que chamam os [nome próprio], além num nuns serros –, que aquilo é longe de coiso, mas então?! O rapaz anda andou aprendendo a ler, e agora anda no estudo, que ele é como os outros. É como aqueles lá da vila. E como àquele há aí – sei lá – dezenas e centenas deles, aí para por toda a parte. Pois, não há já mais, porque eles é aqueles que que andam assim mais no estudo, vêm para, por, p- para bons sítios. Mas ainda há muitos. Há muitíssimos. audio/MLD44.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) É assim, pois. audio/MLD45.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) A família de Lisboa tem uma pausa tem assim sempre uma pausa mais bonita que o que o que é para lá ou para outro lado. audio/MLD46.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Foi só. O meu irmão, o mais velho, esse também também ainda praticou qualquer coisa mas não não deu, deixou-se logo. Quer dizer que a a ele até lhe compraram logo uma concertina e tudo. E eu ganhei-a lá onde estava concertado. [vocalização] Ia descontando, no fim dos meses é que é que ia pagando. Paguei-a assim de pouco a pouco, uma concertinazinha pequena, a primeira que recebi, tinha para aí dezoito anos. Depois comecei a praticar, e depois comecei então, foi aquela e comprava outra e [pausa] até. Eu a melhor que possuí foi essa que tenho aí agora. O mais foi sempre uns, umas uns harmónios mais ruins, mas sem- sempre já eram de outro modelo, pois. [vocalização] Logo em primeiro, eram de escala corrida, daquelas pequeninas. [pausa] De maneiras que tem sido a vida assim. audio/MLD47.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) [vocalização] Porque sendo para não ser assim, tinha que ser depois enjoinado cá em cima, cá num num sítio bom, e carregar às mãos cheias. Era mais chato! E então, aquesses que podiam com as sacas faziam assim; e aqueles que não podiam tinham que sair ser de qualquer maneira, às mãos cheias. audio/MLD48.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Conheço qualquer coisa, então. Então, eu comecei a a guardar gado, tinha tinha nove anos. Foi logo o meu princípio… [vocalização] Pois, éramos pequenos. Enquanto eu Enquanto era ainda pequeno, porque eu ele éramos muitos… [vocalização] Os meus pais, também por pouca sorte deles também – e eram quase todos naquele tempo, quase todos tinham muitos filhos –, eles arranjaram doze filhos. Doze que, quer dizer, que criaram-se nove e morreram três assim ainda ainda pequenos. Porque morri- E morreu outro. Morreu outro agora já… Foi esse Getúlio, que era logo ao pé de mim, também tinha já aí vinte e dois anos. Ainda se criaram nove. [pausa] Não, criaram-se oito. Parece que eu que não estou enganado. São oito. [vocalização] Se quisesse contá-los, ainda ia contá-los depressa. Quer dizer que agora morreu-me a minha irmã mais velha, Guio- a Guiomar. [pausa] E então, quer dizer, fui… Ele o meu pai, como a gente era ainda pequenos e começaram… Havia um homenzito além em Santa Cruz que [vocalização] até diziam que ele que era assim amaricado e [vocalização] o homenzito, coitado, [vocalização] fazia qualquer coisa que que o mandassem fazer. E depois, depois às vezes, diziam para ele vir apregoar para irem para irem para as escolas ou qualquer coisa que, que que eles lá em Santa Cruz pensassem, mandavam-no, davam-lhe qualquer coisita e o homem vinha. E [vocalização] E veio [vocalização] uma vez cá ao pé da minha casa, ali aquele bocado no ponto mais alto que há ali à casa telhada, lhe chamava a gente, que é um ponto que é mais alto. Botou-se a gritar aí para a para a família ouvir quem tivesse garotos que ele que os mandasse à escola que que era favor, que a professora que tinha mandado pedir para irem à escola e tal – lá em Santa Cruz! [vocalização] A escola era para ali uma casazinha, como era antes que havia, mas, naquele tempo, era a escola que havia lá. Depois fizeram então depois lá… Agora já lá há uma escola. Pois, daí a anos fizeram depois. Mas nesse tempo não havia nada. Era Era uma casinha que ainda lá está mas já é uma casinha já velha. De maneiras que [vocalização] o homem veio lá me apregoar e os meus pais pensaram: "Ah, os gaiatos estão aí" – era eu mais esse irmão mais velho, o Gibelino –, "os gaiatos estão aí, ainda ninguém lhe falou para eles saírem para sítio nenhum, [vocalização] mandá-los também para a escola"! Olha, por por minha pouca sorte ou não sei quê, andei lá cinco dias na escola mais o meu irmão, vieram falar à gente além para as Cortinas, para a gente os ir servir e cuidar cuidar em gado – eu cuidava nas ovelhas e o meu irmão cuidava nos porcos. Viemos para além, estivemos além uma temporada. Depois Depois, ele a lavradora era malina, também má de aturar, e o meu irmão era também um bocado mais reguila do que eu, e então ele lá zaragateou mais ela e depois foi-se embora mas não, não tinha medo de chegar cá a casa e o meu pai guerrear com ele. Andava ali nos arredores, enquanto não esteve mais eu, não descansou. E convenceu-me para me eu me vir embora também e fui também. Deixei-os, não quis lá saber de patrões. Fomos Viemos-se embora os dois e dissemos que eles tinham mandado a gente embora. Pois ele era mentira. Ele, ele é Ele é que tinha guerreado mais ele e ele e ela sempre lhe disse qualquer coisa: "Se quiseres-te ir embora, vai"! Mas ele a mim não… Eles gostavam de mim! Eles não queriam que eu abalasse. E o meu irmão, se calhar… Que ele era assim, mas se acaso ele se amansasse, eles não, pois não não mandavam nenhum embora. Mas o que é certo é que abalámos os dois. Abaláramos os dois mas eles ficaram sempre com pena de mim. E eu, não é lá por me estar a gabar, mas eu, sei lá, parece que tinha assim um feitio que eles, que eles… Era mais mais mansinho, mais mais meigo e eles elas tinham mais coiso por mim. E então fui para lá, mas cheguei lá num dia, no outro dia falaram-me logo para para outro sítio. Nesse Senão então eles vinham-me buscar. Mas fui logo para outro sítio, para onde chamam Outeiro Redondo, que é lá lá ao pé. E sabe o que é que aconteceu depois lá lá nesse Outeiro Redondo? Quer dizer que eu que fui para lá no princípio do Inverno, tinham uma courela – uma, que ele que a gente dá-lhe nome uma courela. Quando não sendo assim uma propriedade grande é uma courela. Além no Monte Novo que é – eu não sei avaliar… De, Dalém de Dali assim de do Outeiro Redondo até lá ao Monte Novo que que lonjura será? É pelo menos aí uns cinco ou seis quilómetros. [pausa] Deve ser. Abalava dali de manhã cedo para ir soltar lá os porcos, com geadões e eu descalço, descalcinho. Olha, eu até [vocalização] não quero mentir, mas eu para mim, que se conhece ainda aqui esta mão, eu larguei a pele das mãos todas. Levava Levava um farnelzinho e eu depois não não podia meter as mãos nas algibeiras para nem … Sei lá! Também era também também maluco! Sempre, se calhar, uma mão, se calhar, sempre podia meter. Mas umas vezes metia uma mão outras vezes e outras vezes outra e ficava sempre uma mão para cuidar do farnelzinho – ainda gaiato pequeno, pois tinha nove anos. [vocalização] Ele o que o que sei é que passei um Inverno mais desgraçado. Chegou-se o fim de do Inverno, eles venderam os porcos, não tinham preciso de mim, fui logo ali para outra casa, logo para o pé, que era [pausa] por conta de da tia Helena, que ainda hoje – essa senhora chamam-lhe a tia Helena –, que ainda hoje é viva. Uma que é mãe dum dum que aparece aí que ainda, que há-dem talvez já talvez que a senhora já tenha ouvido falar nele, um que lhe chamam o Minhoca? Por conta del- Por conta dessa mulher mais desse homem é que eu fui. Bom, esse Minhoca ainda não tinha nascido sequer! Hoje é já um homem já já velho, mas nesse tempo ainda não tinha nascido! [vocalização] Olhe, até me parece que ela que estava em jeitos de ter esse Minhoca quando eu lá estive. Mas não não me recordo bem. audio/MLD49.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Agora tem cinco netinhos! audio/MLD50.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) É importante para nós. audio/MLD51.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Porque aquilo é bom! audio/MLD52.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Pois. Borregos é pequenos e quando sendem aí mais dum ano já é já é carneiros. audio/MLD53.mp3 Melides (Grândola, Setúbal) Sim senhor. audio/STA01.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Depois é erva outra vez. Até agora ao milho é sempre erva. audio/STA02.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É nata. audio/STA03.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) E dali do jantar ficaram os porcos por desmanchar até amanhã. audio/STA04.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Pois. audio/STA05.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Mas isto é assim, não é assim? audio/STA06.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Ah, valha-me Deus! Vocês sabem mais do que eu e vêm cá para me . audio/STA07.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) O enxame a entrar pelo cortiço dentro. audio/STA08.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Pois. audio/STA09.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Rhum. audio/STA10.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Principalmente aqui por o nosso sítio que somos tão retorcidos uns para os outros! audio/STA11.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Deixe estar. Pronto. audio/STA12.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É? Então olhe, bote-me aqui outra pinga, mas olhe que não lhe ensino mais nenhuma. Já que não vocês não me ensinam a mim… audio/STA13.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Não senhor. [pausa] "Quem por a arçã passou e não cheirou com o mal ficou". audio/STA14.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Distintos, para ai Jesus, para comer! audio/STA15.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) A queiroga é imitante à urzeira mas é verde. É verde. audio/STA16.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Sempre. audio/STA17.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É assim mesmo. audio/STA18.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Foi um doutor que lhe deu esta receita. audio/STA19.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Ai, então é aqui de pertinho de nós! audio/STA20.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) E 'puxamos-os' cá para fora e depois, ao estar aqui aquilo o forno bem varridinho, metemos o pão. audio/STA21.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Rhum-rhum. audio/STA22.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É os repolhos, vá. audio/STA23.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Outras vezes, dizem: "Olha, aquela botou-me mau olhado". [pausa] Dizem assim. audio/STA24.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Mesmo mas é… São "É os Reis, vamos cantar os Reis"! audio/STA25.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Mas não é não é de espiga nem nada. O padre é que diz: "Miúdas, ide buscar umas flores para botares à Senhora de Fátima quando sairmos em procissão com ela". Depois dá a volta pelas ruas da aldeia e, ao ela recolher é que lhe deitam as flores. audio/STA26.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É os dois dias que estão impedidos. Se calhar, a gente quer madrugar para ir para o monte, chega ali, pronto, já não pode passar! Tem o caminho trancado. audio/STA27.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Pois, só as de promessa. Mais nada. audio/STA28.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) É. [pausa] Mas festejam mais o São Brás, que é advogado da garganta. Porque esse se nos tapa a garganta, lá vamos! E o Santo André é cá da terra, esse está cá sempre connosco. Mesmo o São Brás é que é mais maroto, que nos tapa a garganta. audio/STA29.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Pois. audio/STA30.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Não. Espreitam, escutam só. Não fazem barulho, à calada. Risos audio/STA31.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Rhum-rhum. audio/STA32.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Depois de o pai morrer, partem: a metade é para a mãe e a metade é para os filhos. Depois, todos unidos, fazem as partilhas e s- e [vocalização] vão às sortes. audio/STA33.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Todos os filhos lhe dão. Tanto dou eu, como dá aquele, como dá aquele. Todos os filhos dão. Pronto, ela está sozinha na casa dela; se um dia lhe apetecer dizer: "Olha, vou para tua casa"!, pronto, vem para aqui. Os filhos dão-me o que há-dem dar a ela; dão-me para aqui e ela fica aqui sustentada em nossa casa – ou na de outro! Ou na de outro, não é só aqui. audio/STA34.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Não. Só deitavam o [vocalização] sabão e a cinza, que era para clarear as roupas. Diziam que esta cinza de carvalho, da lenha de carvalho, que fazia clarear muito a roupa. E noutros tempos a roupa era toda branquinha, de sarja e de linho, e depois elas lavavam assim. Era como lavavam. audio/STA35.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Não conheci já selhas. audio/STA36.mp3 Santo André (Montalegre, Vila Real) Sabe que temos que, tem tem que cada um ir governando consoante pode. Vai tudo para a fábrica. As madeiras aqui, olhe, daqui sai toda em bruto, lá por aí abaixo. Não a viu por aí por esses montes, por essas [vocalização] pois, por aí abaixo por aí ab-. Daqui para Lisboa é ela para onde vai. E deve ser toda para vender. Chega a Lisboa. audio/STA37.mp3 Vilar de Perdizes (Montalegre, Vila Real) Sabe? audio/STA38.mp3 Vilar de Perdizes (Montalegre, Vila Real) Era assim. audio/STA39.mp3 Vilar de Perdizes (Montalegre, Vila Real) O homenzito deve ter setenta e [vocalização] cinco anos, setenta e seis anos, ou assim. audio/MTV01.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Antigamente quando era pelo pelo Natal, depois, andava-se aí pelas ruas, às vezes a cantar, quando era a noite de Natal. E depois isto seca e a gente atava assim aqui uns arames apertados, e depois acendíamos os archotes como como os os tipos, por exemplo, das outras ilhas, que às vezes aparece na televisão aqueles coisos, assim aquilo a arder, assim era a gente. audio/MTV02.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Assim, às vezes, em águas paradas tenho visto aquele pó. E aquele pó justamente é que gala, [pausa] é que gerece depois a azeitona. A azeitona, quem diz azeitona, diz qualquer fruto, qualquer de árvore que desemborralha, que é agora principal o m-, mais ou menos, o tempo. audio/MTV03.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Eu lembrei-me mas como era por pouco tempo… audio/MTV04.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Vieram aqui ter… Mas é, justamente. audio/MTV05.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Depois digo, digo eu digo eu assim para esse: " Mas o senhor, [pausa] se quiser, diz-me. Vai ali"… Havia ali umas murtinheiras e havia ali uns chaparrozitos novos, uns sobreirozitos. "O senhor, se quiser, vai-me ali indicar um qualquer chaparro, um qualquer so- coiso ali e eu vou limpá-lo [pausa] da forma que os senhores querem". E depois fui limpar. Fui Fui limpar [vocalização] o sobreiro e limpei-o assim: "Sim senhor". E nunca me disseram nada. A seguir diz ele… "Agora fazia favor dizia-me se havia alguma diferença". Diz ele assim: "Não. Não há diferença nenhuma. Mas, olhe, o senhor sabe o que fez? Olhe, o senhor apanhava seis meses de prisão. [pausa] E aqui o senhor doutor apanhava uma multa, que se isso não era muito pequena". Sabe o que era? "Mas como o senhor deu como informações dos engenheiros donde andou a trabalhar – porque foram nossos professores – é que se os en- ensinaram, o senhor está desculpado. [pausa] Está desculpado. Porque, senão, era assim. Porque o senhor indica". Porque tive eu trabalhei ali com engenheiros que, enfim… audio/MTV06.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Não! Assim não interessa! audio/MTV07.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Era um chamado que era ali do coiso. Bom, andou a est- a estudar mas não acabou o exame, não acabou o coiso curso. E aquele, ele com certeza – peço desculpa –, mas ele com certeza que devia tinha acabado de almoçar há pouco tempo quando ele lá chegou. E teve E foi o que eu notei: "Aquilo acabou de almoçar e depois veio para aqui fazer isto". Já se sabe o que é. Depois Depois ele vinha para cima, eu andava com os homens até acolá lá à borda da estrada. audio/MTV08.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Posso pensar. audio/MTV09.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Guliver. audio/MTV10.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Hoje já é com umas mangueirazitas de plástico, de de coiso, que têm, tem uns furos, tem uma coisa para tapar, já abre aqui e além e está a correr. audio/MTV11.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Hoje já não é. Já vão debulhar no campo, já vai tudo. Já não Já não aproveitam o pasto, já não aproveitam nada. É É conforme está na bandeira e tudo, cai aquela moinha toda para o chão, e tudo. E antigamente era feito assim. Mas hoje, se fosse assim, não havia gente para isso. audio/MTV12.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Ficaram com eles. Porque eu fazia ciente isto aos meus patrões, e eles mandavam-me regular o trabalho assim, que fizesse à minha vontade. E eles E com essa pinga de água-pé que era uma feita uma coisa feita já no espreguiço, que que o serviço tirava-se do vinho, e ele ficava com essas duas horas de cada uma pessoa. [pausa] Duas horas de trabalho ficavam no escritório. Adiantava muito. Por isso, eles hoje estão-me a dar alguma coisa, mas haviam de me dar mais. Mas deram-me tão pouco! É poucachito. Ainda vem alguma coisita lá de baixo, mas é pouco. Haviam de me ter dado mais. audio/MTV13.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) E aquilo ta- atado com um coiso e metido. Molhava aquilo dentro de dum coiso, com á- um copo com açúcar para meter na boca para se ela calar. audio/MTV14.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Temos que ser português. [vocalização] Engraçou com com ele e ela engraçou com e ele engraçou com ela. audio/MTV15.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Tem ciência! audio/MTV16.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Para curar certas e me- mezinhas e certas coisas. É antes de ser caldado! audio/MTV17.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Pois Pois não. audio/MTV18.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) O tinto tem que chegar para o coisa. Porque eu sucedeu-me um caso: um pouco do de vinho lá na na quinta, ali. Havia cânhamo no campo e o guarda andava de posse de mim por causa de ir [vocalização] vindimar o resto das uvas. Diz: "Eh pá! A ver se entendias mais uvas, que os os gajos do cânhamo dão cabo das das uvas todas". Lá [vocalização], de noite, iam lá às uvas todas. E ele não podia lá estar estar sempre. E eu tirei o vinho… Até, lembro-me bem, numa quarta-feira. Eu havia de passar no outro dia, havia de tirar na quinta-feira. Tirei numa quarta-feira. Tirei-o. E o vinho ia com um bocadinho de maduro. Quando foi no no fim de cozido, estava doce à mesma. O meu patrão chegou ao pé de mim e disse-me… Disse: "Ó Guilherme, não sabe?! O vinho tem que ser queimado. [vocalização] A fiscalização não mo deixa vender". "Porquê"? "O vinho tem o maduro. Quando se acaba de beber, tem o maduro". Eh pá, eu custou-me tanto aquilo – desculpem desta minha conversa –, eu custou-me tanto aquilo que eu depois andava parece-me… Um rapaz que estava lá a vender o vinho – já morreu até –, estava lá a vender o vinho, diz assim: "Eh pá, há-des ver, quando vierem aí ao vinho, dá-lhe o vinho, aquele vinho a provar a ver se querem comprar". E ele deu o vinho a p- a provar até ali a uns tipos, ali de Rio de Moinhos, a uns tipos de nota, e tal, que compravam muita porção para engarrafar. E deu a provar: "Eh pá, mas se isto é vinho! é esp-, é esp- É especialidade, pá! Este vinho, quando for ao fim de dois anos, já é é vinho do Porto. É exactamente vinho do Porto". Eu por acaso até comprei também dois litros dele. E era [pausa] engarrafado, quando foi ao fim de dois anos, era vinho do Porto. Primeiro perdeu a cor, [pausa] aquele barro assentou todo, ficou espelhado, limpinho, limpinho, dourado que não sei o que aquilo me parecia. Perdeu a cor ao caminho. E então com aquele madurozinho, aquilo era era de a gente beber e chorar por mais. Tudo. E depois eu pedi ao patrão. Ele assim: "Eh, ah, pá, mas eles ainda são capazes de depois lá ir", disse ele. Tanto lhe pedi, tanto lhe pedi, ele tinha uma máxima confiança comigo, disse: "Olhe, então diga lá então para o vender, que eu tenho lá um pouco daquele lado" – que é do Lombão, que também pertencem à mesma casa – "que está baixo, tem pouca graduação, e de maneira que eu dou-o para para a Federação, para eles queimarem, para eles lá queimarem no lugar daquele". Olhe, não chegou a durar uma semana. Eles levaram tudo, mesmo a tropa, ali aquele, aqueles aqueles sargentados, aqueles oficiais, vieram ali buscar barris deles e tudo, para engarrafarem. Mais tarde disseram-me que aquilo que era tal e qual vinho do Porto. Comiam-no por vinho do Porto. Bom, vê? É claro, a diferença. E são parreiras! São duas parreiras! É a diferença do vinho. audio/MTV19.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) A ureia, que é o adubo mais forte que há, que queima tudo ao caminho. audio/MTV20.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É isso que o que acá o velhote também fazia e tinha experiência nisso. audio/MTV21.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Onde é Donde é que veio a uva? Onde é que ela foi e como é que ela foi apanhada? E vamos lá ver mas é como é que é que lá está a outra: se a outra está madura como a esta [pausa] quando para aqui veio. É o que vocês devem ver. O que é que depois fazia, é claro, e depois é: "São uns parvos! Não pode ser! Não pode ser! Então como é que eles podem governar e essa coisa toda"!? audio/MTV22.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É claro, era muito! É tudo! Eu vou para o escrivente que lá estava, disse assim: "Eh pá! Então ele mandou-me deitar aqui tanta água, neste coiso. Eu vou estragar isto tudo então! Isto depois nem água-pé sai, pá! Isto nem água-pé sai! Não dá nada. Nem água-pé sai"! "Ó tio Guilherme, então como é que a gente há-de fazer"? Coitado, ele até está [pausa] inutilizado, está ceguinho de todo por causa dos diabetes. [vocalização] "Isto não dá nada". Digo eu para ele: "Olha cá, se não tiveres aí serviço… – Que eu tinha lá dois homens! – Se me tiveres aí dois serviços serviço para me dares a dois homens, aos homens de tarde, eu vou lá deitar eu a água sozinho", e tudo. "Vai"? "Pois vou". "Eu não deito essa água, pá. Então, eu arranjo serviço". Ele à tarde chegou lá: "Ó tio Guilherme". – Estava tudo combinado. – "Você, se me de- pudesse dispensar os homens, para ir ali arranjar um pouco de milho à eira", e tal. Disse eu: "Então não posso?! Podem para lá ir à vontade". E foram, levou os homens para lá. Eu fui para dentro do lagar com o almude, liguei uma borracha que lá tinha à torneira com a água, e deitei-me lá dentro. Levei para lá os dois almudes. E deitei dois almudes e meio de água em cada lagar. Ora veja lá a quantidade que eu tinha que deitar de água! Só dois almudes e meio de água em cada lagar. Deitei aquilo e depois enfim, depois borrifei aquilo com a agulheta por cima, com água. Então e que fosse três almudes que eu que eu deitasse lá. Quando foi ao a pesar o vinho, ele ia pesar o vinho ao Entroncamento, foi pesar o vinho, um dia chega ao pé de mim, diz-me: "Ó Guilherme, afinal o senhor engenheiro atinou com aquilo". "Então"? "É porque o o vinho que saiu está bom. Mas ainda podia levar mais água". "P- Podia"? "Pois podia". "Então quanto é que o vinho tinha"? Ele ia lá pesar o vinho ao Entroncamento. "O vinho tinha aí treze, treze e meio, treze e sete, é o que tinha. É o que dava aí". "Então ainda podia levar mais água"?! Eu cá para comigo: olha aqui, tão estão parvos! Se eu vou deitar a água toda, arranjava-a bonita! Então ele assim já abaixou um bocado, se vou a deitar a água toda, ficava água suja [pausa] dentro do lagar. Era uma vergonha! [pausa] Uma vergonha! audio/MTV23.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) São muito novinhas. audio/MTV24.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Rhum. audio/MTV25.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) E ficavam contentes. audio/MTV26.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Em se metendo dentro da, lá dentro, entre a casca e a cortiça, seca o pau duma forma que a gente vê-se parvo para para arrancar. Tem que ser quase esfalquejar aquilo tudo. audio/MTV27.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Rhum-rhum. audio/MTV28.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É claro, tem o sustento por baixo mas tem a a respiração pelo ar. audio/MTV29.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Faz árvore. Dá aquelas pernadas, serve para tudo, para várias coisas. audio/MTV30.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Pois, de terra para terra. audio/MTV31.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Fazíamos tinta de, de disto. É [pausa] sabugueiro. audio/MTV32.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Porque é ao cimo da Raposa, o Souto. audio/MTV33.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Não me dei bem com ela. audio/MTV34.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Está semeado. audio/MTV35.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Sim senhor. audio/MTV36.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) E eu: "Anda para trás, Jóia. Anda para trás, Jóia". E ela começava a recuar para trás. E se tocava: "Anda, Bonita, volta. Anda para trás, Jóia". E ela voltava. E E enfiava o carro. Quando ele ali estava o carro direito ao barracão – aquilo tinha colunas dum lado e doutro –, "Anda para trás. Anda para trás. Anda. Anda". Começava assim: "Anda". E ela andava para trás. "Anda". Pronto. E depois que mandava parar, paravam, pronto. audio/MTV37.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Uma carroça já, por exemplo, carregava artigos de [vocalização] agrícolas, qualquer coisa, calhau, coisa, géneros, maçãs, peras, o que f- o que fosse preciso. Uma carroça. E a charrete é só para transportar. Tem um banco ao meio colocado com, com com um encosto assim no meio, quer dizer, sentam-se dois dali e dois daqui. audio/MTV38.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) "Deus te acrescente, que é para muita gente. Deus te acrescente, que é para muita gente". audio/MTV39.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Graças a Deus, isso é que é preciso. audio/MTV40.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Era. Ca- Cabras, havia pouco por aí. audio/MTV41.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Rhã-rhã. audio/MTV42.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É gado mourino. Aqui para o lado da Chamusca e da, e da e de Alpiarça é que usam muito daq- desse gado. Tudo. Cresce em menos tempo, é a idade de colocação maior. Bom para carnes! Mas não é tão bom para leite como é essas maninhas, essas pequenas aqui do Alentejo. Essas são melhores para leite. audio/MTV43.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) São, são, são pequeninas mas são danadas para dar cabo da semente, para comer a semente. Isso têm uns olhos! Têm uns olhos que eles vêem [vocalização] um baguinho de semente no chão, tudo! Quem me dera ter uns olhos assim! audio/MTV44.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Se pôr uma cebola ali – mas é cebola-albarrã, não é cebola natural, cebola que se cria no nos brejos; dá umas palmeiras assim por o coiso que se cria que é a cebola … Chama-se cebola-albarrã. Punham no coiso e ele espetava, morria. audio/MTV45.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É gostoso mas tem pouca força. audio/MTV46.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Os jazigos. audio/MTV47.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) E ele dizia muita vez que nós que não sabíamos comer fruta, que a gente nunca devia de debulhar a fruta. Tirar aquele veio de dentro, limpar tudo, que é isso que é que faz mal. Que propriamente a casca, apanhava-se, e ti- limpava-se o podre, ou limpava-se toda por dentro e comia com a casca. Cortava-se aos bocadinhos e comia. Que a casca que ajuda a fazer a digestão, dizia ele muita vez… E ele E ele nunca queria nem! Para as criadas era a mesma coisa: nunca queria que, que que descascassem a fruta. audio/MTV48.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) São boas! audio/MTV49.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) São até de duas qualidades: uma até é mais doce aí que outra. [pausa] São. audio/MTV50.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Pois é. A gente chega a uma a uma taberna, manda vir um copo de vinho, põe em cima do balcão. Tomba-o e vira. Portanto, é o sapateiro que tem põe tombas e põe viras nos sapatos. É que é parecido com um sapateiro. Depois lá tomba e vira. Está a ver? audio/MTV51.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Faz, sim senhor. audio/MTV52.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Pois, pois. audio/MTV53.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Eu como sei quase as duas línguas, [vocalização] digo uma coisa e outra. audio/MTV54.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) "Vai para ali, chega para diante, anda para diante", e tal. A p-, a pre- A pregar com os animais. Passou Deus Nosso Senhor e o São Pedro e Nosso Senhor dizia: "Guarde-os Deus, senhor". "Vá lá com Deus". Assim a falar mal para o para Deus Nosso Senhor. Não sabia que era Deus Nosso Senhor. Chega mais adiante andava um outro com um rosário de contas na mão, a trabalhar, mas andava com o rosário de contas, e andava a rezar. Andava a rezar por ali fora. Deus Nosso Senhor passou, não lhe disse adeus. Voltou a cara à banda e passou, andou. Diz o São Pedro para ele: "Então mas o meu divino mestre, aquele senhor que andava a, a a rogar pragas, a chamar nomes aos animais, e para aqui e para além, e e disse-lhe adeus, e este que anda aqui com um rosário de contas não não disse nada". "Olha, rapaz, não sabes o que é? É que aquele andava a rogar pragas, andava ali assim, andava irritado, andava arreliado porque o serviço não lhe surdia, não andava e tudo, e andava com aquela preocupação. E andava irritado e tudo. Não É claro, andava irritado, tínhamos que animá-lo para ele se conse- consertar, e tudo. E este que andava a rezar de contas não andava a rezar pela nossa crença, pelo nosso coiso. Andava a [vocalização], a p- a pensar e a estudar a maneira donde havia de ir roubar as coisas esta noite". E andava com o rosário de contas que era um santo muito grande. Portanto se diz: livrar do cão que não ladra e do homem que não fala. Anda a pensar na malandrice. Não anda a pensar noutra coisa. É só nas malandrices. audio/MTV55.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) De assobiar. audio/MTV56.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Está uma ali até, olhe, pegado logo à minha casa, adiante. Teve. Também é as únicas que tem. Uma, coitadinha, tem que andar com um aparelho de ferro aqui. Tem qualquer diferença na espinha, não sei quê. Anda já na escola! Anda já na Abrantes, no liceu, , ela mais a irmã. Mas a irmã, uma está desenvolvida, está toda [vocalização], é pi pi, por ali afora. E ela, coitadita… Até nem nem sei como ela pode andar com aquilo, aqui a segurar uns ferros, a segurar até qualquer deficiente, qualquer coisa. audio/MTV57.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) E aprendiam. audio/MTV58.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É quando a gente desce para baixo, desce ali à à praça para baixo, tudo, e aquilo vai para baixo, é a que vai para Lisboa, vai para aquele lado, pois, aquele lado. É aí é que está a é que é a Escola Agrícola. Há lá de tudo. Há animais, há tudo, gado. E vão para lá os engenheiros tirar as provas, [pausa] essas coisas todas. audio/MTV59.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Bom, foi lá em cima no convento. Eu já lá fui até a um casamento, aqui há uns anos duma sobrinha minha que é médica. Está está no no hospital lá de Santa Maria, lá em Lisboa. É médica, uma sobrinha, uma que eu aí tinha. Que aí tenho. Eu estou entre- entregue a [vocalização] a boa gente, mas eu é que sou o mais ruim. Risos De maneira que eu depois… [pausa] Claro fui p-, pus pus lá a mula, quando vim para cá, o [vocalização] padre disse: "O senhor agora sabe o caminho". "Sei. Direito à cozinha". A cozinha era um salão grande dentro do convento, salão grande, fui direito à cozinha. Depois ch- cheguei ao pé dos cozinheiros, era cozinheiros, era em homens e criados de mesa. Era tudo em homens. Digo assim: "Fazia favor ensinava-me aqui onde é que estava uns seminaristas que vieram na mesma companhia". "Olhe, entre aí a essa a esse corredor por ali fora" – que era assim por o meio [vocalização] da sala fora –, "aí ao lado direito há uma sala para baixo, eles estão aí, estão estão a jantar". Eu fui à mesma! Eu tinha fome! E não era pouca! Fui à mesma! Não estive com mais pés de renda. Mas segui por ali fora, e cheguei. Assim que eu entrei à sala para dentro, lá estava uma mesa de cada banda, e estava sentado. O O professor de lá do do convento de Tomar era o senhor padre Helvécio. Era o nome dele era padre Helvécio. Está no cabeçote da da mesa. Tem o altar, feito em pano e em pintura, e essa coisa toda, Deus Nosso Senhor, Nossa Senhora, e tudo, e os anjinhos. E ele é ali que ele come. E os outros mais inferiores estão de lado. Assim que eu entrei à coisa para fora, o [vocalização] padre Heliogábalo veio logo caminho direito ao pé de mim. Veio logo caminho direito ao pé de mim: "O senhor agora tem que ir acolá ao pé do senhor padre Helvécio". E eu, claro, fui lá abaixo. Ajoelhei-me outra vez à p- à frente dele, beijei-lhe o anel e persignei-me. Benzi-me, persignei-me. Ele depois mandou-me sentar. Vim outra vez à volta e fui-me sentar. Eu estava a comer, veio a sopa – bem tratado! Bem tratado! –, veio a sopa, veio o cozido, veio a fruta, veio uma garrafa com vinho, e eu depois disse para o, para o [pausa] para o criado de mesa: "Olhe, fazia favor levava o vinho, que eu não bebo. Mas trazia-me uma, um um jarro com água". Que eu, quando estou a comer, gosto de estar sempre… Bebo uma pinguinha de água, bebo com água. "Sim senhora". Fez isso tudo. Eu estava a comer… Eu já há bocadito achava eles todos muito parados, tudo parado a olhar, e ninguém ainda eu estava a comer. Quando eu acabei de comer, o padre Helvécio levanta-se e: "Dêmos graças a Deus". Tudo se benzou, tudo tudo se benzeu e tudo rezou, começou a rezar. Eu levantei-me, comecei a rezar também. Também, graças a Deus, sei. Ainda hoje sei. Já me esqueci esqueceu algumas das coisas, mas a maior parte ainda sei. [vocalização] "Agora vamos rezar o terço, direito à capela". Fomos direito à capela e diz o [vocalização] padre Helvé- o [vocalização] padre Heliogábalo para o : "O senhor padre Helvécio faça o favor de ir para o altar". A capela tinha uns bancos, como tem ali a nossa igreja, e tal, tal, assim por aí fora, eu fiquei cá atrás. Mas ele era fino! Ele em vez de se ajoelhar: "Não, não, não, não, não. O senhor padre Heliogábalo faça favor lá. Eu não vou". E o padre Helvécio foi-se ajoelhar ao pé de mim. Para descobrir se eu se eu era católico ou se não era. Mas enganou-se. Eu di- Eu até voltava a boca para o lado dele para ele ouvir melhor, tudo, porque eu sabia. Não tinha Não tinha receios nenhum de fazer. E depois, é claro, lá estivéramos a rezar o terço, benzêramo-nos, e tudo. Levantáramos, fôramos para um corredor fora, por ali fora. Passei numa sala, pá, [pausa] mulheres, mas mulheres, tanta mulher! Naquilo Naqueles conventos, tanta! Tão estimadas, tão caladinhas, tão bonitas, tão tudo! Não desfaço! Risos Cada qual A gente não se pinta! Deus Nosso Senhor é que pintou a gente! Tudo. Aquilo era um assombro! Era um assombro de anjos que estava lá espalhado dentro daquela casa. Bom, aí passei. Ele foi para outra sala mais para dentro, que era para onde eles iam todos. Iam ter congressos, falarem uns com os outros e aí já não me deixaram ir. Veio um ao pé de mim: "O senhor agora não p-". O padre Helvécio vai ao pé dum dum dos outros padres e disse-lhe qualquer coisa, que ele depois veio ao pé de mim: "O senhor agora não pode vir para aí. Tenha paciência"! "Olhe, eu ia-me deitar. Ia-me deitar se o senhor me fosse ensinar onde era a cama". "Está bem. Sim senhor". Bom, volto para trás, subi por uma porta dentro duma parede, por aí acima. Em cima – um corredor –, em cima, havia uma sala muito comprida com quartos dum lado e doutro. Ele levou-me lá quase para a ponta, para aquele lado, para a ponta. Ensinou-me onde era a casa-de-banho, e tudo. Eu deitei-me, é claro, pendurei o casaco, despi-me, pendurei o casaco. Eu até pus um lenço meu na almofada, porque a cama podia-se lamber mel em cima. Podia-se lamber mel. [vocalização] Limpinho, aquilo era tudo clarinho que era uma beleza! E depois é tempo que eu também não enxovalhei. Eu ia faltado de dormir, conforme me deitei em cima da cama, assim acordei. Não enxovalhei. Quando fosse a [nome], já fazia sol estava … Ah, e de noite, eu ouvia uma grande zoada, umas canas que cá estavam em baixo num rumeiro. "Eh pá, deixa-me lá ir ver, ali àquela janela, ver, para senão vem aqui algum diabo de noite ter comigo, para onde é que eu hei-de fugir? Eu não conheço aqui nada. Eu estou aqui fechado dentro! Como é que isto há-de ser arranjado"? Vou deitar a cabeça, ouvi aquela zoada, mas depois via mas era um telhado em baixo, não via mais nada. audio/MTV60.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Pois é. audio/MTV61.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Tudo diferente. Depois toca de andar a bailar, toda a noite, agarrado a elas. Agora não não sabem! Agora é como, como como baila o meu Hemetério. Isso é danado para bailar! Em ouvindo o coiso a tocar lá, quer é que o avô vá pôr a telefonia do carro a tocar, a pôr as c- cassetes. E ele começa logo de caminho também, como as cachopas agora, assim a fazer aqueles movimentos e a bailar, assim é que é andar a bailar. É como a ele, como o meu Hemetério. Ele é que sabe bailar à moda de agora. E a acenar, e assim com a cabeça e depois assim a voltar-se todo. audio/MTV62.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Junto à praça de touros, tudo por ali acima, segue pela direito a Ferreira do Zêzere, direito ao Cabaço. Quando chega Antes de se chegar ao Cabaço, está uma estrada que volta que é direito a, que é, é, é [vocalização] para o rio Zêzere, que é, é o, é, é [vocalização] é para lá, para, para o para o coiso, que vai direito ao rio fundeiro. E havia aí uma quinta, que era a Quinta do Castelo – que era até da da mulher do do meu patrão antigo, do primeiro –, era a Quinta do Castelo, que vai direita ao rio fundeiro, uma quinta grande, direitinha. Eu fiquei lá algumas das vezes, na quinta que ali estava. Ia num dia e vinha no outro, que até levava um animal mas era muito longe e ia assim. E [vocalização] E havia aí essa quinta é que usavam muito. E eu fui até aí buscar essas gramadeiras – chama-se umas gramadeiras –, fui buscar para ali para o Lombão, por conta do meu patrão, que é ali do Tejo para lá, é uma quinta grande que está ali, que é do mesmo patrão, o mesmo daqui, para eles gramarem o o cânhamo. Lá gramavam o linho. Semeavam o linho, o linho, é claro, é uma uma planta assim alta, quer dizer, tem depois a semente em cima umas umas bolhinhas como os tais bichos de contas!… audio/MTV63.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) Isso dá cabo, tira o viço ao sobreiro. Uma pessoa vê-se perdido quando é para arrancar a cortiça. Vem casca e vem tudo. audio/MTV64.mp3 Montalvo (Constância, Santarém) É claro, que eu dizia… audio/CLH01.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) E daí é que a água que saía da da parte que era já madeira é que batia ali naquela coisa que que chamam as penas do moinho. audio/CLH02.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Claro. audio/CLH03.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Não senhora. audio/CLH04.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Está bem. audio/CLH05.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Já não há nada disso. audio/CLH06.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. audio/CLH07.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Depois come-se e prontos! Ficou o milho arrumado. audio/CLH08.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Ao respeito, tem mas é [pausa] bem quentes à minha vista. audio/CLH09.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Os ratos, às vezes, iam lá e comiam. Risos Era para irem adiante. Os ratos, às vezes, iam lá e faziam um buraco no coisa para ir comer. Mas a gente pendurava aquilo em casa ou se. Quem tinha palheiros… A gente lá não tinha palheiros que prestassem. Ele mesmo era aberto. A gente tinha medo de o furtarem. Levávamos para casa, pendurávamos, nem sequer era na cozinha, era lá para fora, nos quartos da cama, nos tirantes. audio/CLH10.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Oh [vocalização] ! Isso então eu nunca lhe acertava! Se lhe acertava, ele era lá uma vez e não lhe acertava mais! E [vocalização], e depois então se Ou [vocalização] dava no bilro! Às vezes não dava em nada! [vocalização] Enviava-a como calhava, porque eu era muito muito assarapantada, não… audio/CLH11.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Assim que uma ganhava, ia vinha outra para a lugar dele. audio/CLH12.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Mesmo Mesmo por matanças ao porco, a gente jogava tantos jogos, tantos jogos! audio/CLH13.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Porque, sabe, não havia mais nada! audio/CLH14.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Mas não cantei porque eu não quis. Mas ele dançar, ele dançava que ele consolava! Era tão leve no dançar, tão leve, aquilo era um pezinho levinho que aquilo consolava! audio/CLH15.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. Mas [vocalização] ele disse… Ele outro dia estava a fazer muitas perguntas. Tem uma rapariga consigo. Consigo?! Não sei lá mas ele diz: "Ah, fulana tal, isto e assim"… E ele disse assim: "Será que haverá alguma pessoa" – isto foi as únicas duas perguntas que eu pronunciei mais… E ele disse: "Será"?… Virou-se para ela – e eu parece-me que ela que era Margarida – e ele disse: "Ó Margarida, será que haverá hoje em dia alguma pessoa que quisesse reviver o passado"? E eu disse… Eu estava a [vocalização] almoçar mais o meu marido e eu disse: "Eu, por mim, queria". Eu queria reviver o passado. Mas era com o pessoal que era antigamente, não era com este de hoje em dia. E ele disse: "Pois é, mas é que não podes". Depois ele fez ali mais umas perguntas e ele disse: "Será também que haverá alguma pessoa que tivesse algum amor que quisesse tornar ao passado"? E eu respondi: "Eu, por mim, queria". E vai, diz ele, o meu marido: "Pois querias, mas o pior é que ele está na América". E eu disse: "Se ele não estivesse na América, também talvez eu já não estava contigo". audio/CLH16.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Antigamente. audio/CLH17.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Isto, não sei dizer o nome disto. Agora isto conheço muito bem. audio/CLH18.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois faz. audio/CLH19.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Mas agarrei um bocadinho de sanguinho e ele mesmo é que mas botou então aqui. audio/CLH20.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Sim senhor. Olhe, aqui… audio/CLH21.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) É a casca. audio/CLH22.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Ainda [vocalização] há pouco tempo que nasceu ali em baixo, no Vale Frio, numa casa que tem ali, que nasceu dezoito porcos. Porcos e porcas. Quer dizer, aquilo tanto nasce dum nu- duns… Mas, em geral, vem mais porcas do que porcos. Não sei porque seja! audio/CLH23.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) É. Há matan-. Hoje já não fazem matanças como a gente fazia antigamente, porque matam muitos, não não fazem. Antigamente fazia-se muito as matanças. audio/CLH24.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Não! audio/CLH25.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) A primeira coisa de manhã, [vocalização] o primeiro trabalho que faço é ir mudá-las. E, depois, logo que não tenho trabalho para fazer no lugar onde elas estão, eu venho para casa outra vez, eu como alguma coisa e vou para os lugares assim que têm mais falta de fazer alguma coisa. Quando é no tempo de começar a semear batatas e ervilhas, assim no princípio do ano, eu vou para as terras logo que está bom tempo para ir escolher ervas, preparar a terra e ir semeando alguma coisa. Gosto de semear quase sempre é quando é vazante de lua. [pausa] E [vocalização] [pausa] E depois [vocalização] semeio um bocadinho naquela altura, e dali a [pausa] a uns tempos semeio mais outra remessazinha, vou andando assim. Semeio ervilhas. Quando chega o tempo, que elas é preciso eu fincar-lhe lenha, para elas se atreparem, eu trago lenha, e aguço-a, e finco-a lá para as para as ervilhas se irem atrepando. E [vocalização] depois mais tarde quando as batatas nascem que estão a [vocalização] modo de sachar, [pausa] eu sacho-as. Depois começo a dar-lhe sulfato. [pausa] Se o tempo vai húmido, dá-se sulfato mais [vocalização] mais vezes, num intervalo mais pequeno; se vai [vocalização] se vai mais seco, pode ser um intervalo maior. Vai-se andando a até o o ponto onde deixar de sulfatar. audio/CLH26.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) [vocalização] E assim se vai andando durante o ano, umas coisas uma vez, outra outra, conforme as coisas vão aparecendo. audio/CLH27.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) O pessoal. audio/CLH28.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Aquilo ali já lhe dava bem a ser um aposento. audio/CLH29.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Não, mas, pois, eu queria os nomes daqui. audio/CLH30.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Usava-se muito disto. audio/CLH31.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Está bem. Sim senhor. audio/CLH32.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) A batata-doce em terra muito mole não dava. audio/CLH33.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Rhum-rhum. audio/CLH34.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. audio/CLH35.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. audio/CLH36.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) É. Isto hoje hoje já fazem pouco uso de… Chamavam bebedouros. Eram os tais que eram no terreno. audio/CLH37.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. audio/CLH38.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Pois. audio/CLH39.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Era o trilho. audio/CLH40.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Toca os rapazes para o chão! audio/CLH41.mp3 Ribeira Seca (Calheta, Angra do Heroísmo) Sim senhor. audio/CPT01.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Ora, s- são quinhentos escudos que me dão. Mas eu [pausa] sou um homem muito poupado, [pausa] à força, porque não posso beber, não posso comer muitas vezes coisas. E um homem rijo que… [pausa] Não tenho mais remédio que é poupar, porque eu não posso comer as coisas. audio/CPT02.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Sessenta? [pausa] Sessenta, sessenta e um, uma coisa assim. Eu tenho setenta e três. Faço Faço setenta e três anos no dia 14 deste mês de Maio. Não Não entrou hoje? Daqui a De hoje a treze dias faço setenta e três anos. E eu [pausa] fiz lá, nesse concerto, fiz lá o quê? Fiz lá os treze anos. Pois. Fiz lá os treze anos. E depois abalei de lá fui fui para uma horta, para uma quinta. Pronto e assim assim fui passando o tempo até [vocalização] fazer-me já moço. Depois quando comecei a trabalhar como os homens, comecei a ganhar dez tostões por dia – naquele tempo era assim, os dez tostões por dia – e de comer. Pois. Bem, como que é assim. A minha vida tem sido assim. Tem sido um romance! Mas sempre triste, sempre a penar! [pausa] Depois dei a ser doente. Nunca casei. A minha mãe Estive muito ano com a minha mãe. Enquanto tive aqui a minha mãe, coitadinha, sempre demos-se muito bem, pois, que era a minha mãe. Morreu a minha mãe, fiquei sozinho. E E sempre doente, sempre doente, sempre doente, e sempre doente. E terei que ir assim até ao resto. Quando Quando chegar ao fim, começarei outra vida, não é verdade? Em chegando ao fim desta vida, começo outra! Vou para a eternidade. Pois. Como que é assim. audio/CPT03.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. É por isso que "o pardal canta o grepe quando a seara está grada, ao dono chama: "Charepe"!, e vai-lhe comendo a cevada". Pois. audio/CPT04.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. audio/CPT05.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Não lhe voltei uma resposta. Eu não lhe disse nada. audio/CPT06.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Às vezes, juntávamos-se além uns poucos. Íamos para além, conversávamos e coisa. Chama-lhe a gente até o Jardim das Mentiras. Porque ali ali diz-se tudo, todas as mentiras. Cada um diz aquilo que lá lhe parece. E nós chamamos-lhe o Jardim das Mentiras. Ele, eu não podia dizer nada que ele estava logo atirado a mim. Sim senhora. E há aí mais. Há aí mais. audio/CPT07.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Uma vez ensinei também um grupo… Só me lembra um um verso e lembra-me então o estribilho. E fo- foram dançar isso e cantar por essas terras. É assim. Por acaso, só me lembra um verso, que é o primeiro: "Procurei uma menina, era nova na Herdade, muito bem me respondeu: "Rapaz, já falastes tarde". Ele depois diz assim, o estribilho é assim… [pausa] Ah, o estribilho é assim: "Vai na roda e cantemos as nossas lindas cantigas, é assim que nós podemos entreter as raparigas. Entreter as raparigas, que ti- que fique tudo contente, porque nós gostamos delas e elas gostam da gente". audio/CPT08.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Mas isto foram mais de trinta anos que eu ensinei coisas assim, umas dum feitio, outras doutro. Cheguei a en-, à en Era pelo Carnaval, cheguei a ensinar três grupos, cada um de seu feitio. Nem um cantava o mesmo que cantava o outro. E eram com dez ou doze versos, ou vinte, conforme era. Fazia um verso para cada pessoa. Pois. De maneiras que, [vocalização] vai-se a ver não, fiquei s-, nunca passei disto. Nunca passei disto! Sempre tive pouca sorte. Sempre tive pouca sorte. audio/CPT09.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Eu hoje já sou velho, mas dantes quanto mais cantava, mais a fala aclarava. Não senhora! Eu nunca enrouquecia. Eu cantava um dia inteiro e uma noite, e duas, e três, e quanto mais cantava, mais a fala aclarava. Eu nunca encontrei uma fala que voltasse a minha. Ainda hoje Ainda hoje, essa gente nova, ainda hoje não se não sabem cantar ao pé de mim. Não senhor! Não! Isso sim! [pausa] Sopro para avivar o lume Em São Pedro do Corval, havia ali pessoas que cantavam bem – bo- boas, que cantavam bem. Mas no fim, em se juntando comigo, já não já faz de conta que não eram nada. Chegou a haver castanha por causa do meu cante. Sim senhora! Haver castanhas por causa do meu cante! Haver pessoas que estavam encrentes a olharem para mim, e vinha um qualquer, assim já tocado, e começava a contrariar, quando mal se não descuidava, andava a levar bofetadas. Sim senhora! audio/CPT10.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. E o meu pai dizia: "Está para além e depois a gente não sabe o que ele faz! Para além se torna aborrecido. Quem é que sabe agora o que ele para lá faz"?! O povo lá não me largava! Não senhora, não me largava! Sopro para avivar o lume O dia quando eu me vim embora… Que depois eu ganhava trigo… Eu ganhava trigo – chama-lhe a gente o ensacado –, ganhava trigo. E depois eu vim-me embora no dia 15 de Agosto – no dia 14 de Agosto. E depois daí a [vocalização] a uns dias fui lá buscar o resto do trigo. Mas fui logo… Levei uns burros que tinha o meu pai, e um carro e pensei em ir num domingo. Pensei em ir num domingo. Esse domingo, assim que deram razão de mim, vieram ter logo cá ao princípio do povo. Tiraram-me os burros e o carro, levaram-nos não sei para onde, e depois o resto do dia, fomos medir o trigo. Ele depois o resto do dia foi paródia. A rapaziada e as raparigas, tudo de roda de mim! Tudo de roda de mim! Ninguém Não me deixavam. Não senhora! Não me deixavam. Eu já tive um sonho com uma rapariga de lá e era rica. Mas era muito minha amiga. E bonitinha! E ela morreu, já há muito ano. Morreu nova. Morreu aí com dezasseis ou dezassete anos. Tive um sonho com ela. Uma noite estava deitado – está claro – e [vocalização] tive um sonho com ela. Que era um baile aqui no Carrapatelo. E eu cheguei ao pé do baile e não conhecia ninguém. Era a sonhar, não conhecia ninguém. Ele depois ouço uma pessoa a dizer assim: "Ah, isto é família dos Hermínios". E depois começaram a cantar. Eu, o cante, soube-o muito tempo mas hoje já não sei. Mas ainda me lembra um verso que eu ouvi no sonho. Um verso assim – ela era Inês, essa rapariguita, era Inês – "Inesita, vais à festa"? "Vou sim, ó meu lindo amor". "Inesita, vais à festa, pois então vai-te compor". Depois apareceu ela na roda. Já tinha morrido há mais de uma dúzia de anos, ou duas! Veja lá! audio/CPT11.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) "Eu não" Digo: "Eu não bebo mais vinho porque eu depois não sou capaz de levar a parelha". "Mas há-de beber, e há-de beber, e há-de beber". "Não bebo, não bebo". "Há-de beber". "Não bebo. Não bebo mais". As minhas patroas foram dizer ao pai: "Pai, o Hermes não quer beber mais vinho. Sabe porquê? Porque não se quer embebedar por mor da parelha". "Diz lá que beba à vontade". Mas eu, mesmo assim, não me convenci. Não senhor! E tornaram lá a ir outra vez. "Digam lá que beba à vontade que não tenha lá receio". Tanta vez lá foram que ele foi lá a dizer-me. audio/CPT12.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) E aqui [vocalização] E aqui no povo eu não tinha aqui ninguém porque eu, a minha mãe era de Reguengos, o meu pai nasceu além num monte, além numa herdade, e esse monte já caiu. E de maneiras que vim para aqui, não tinha ninguém, toda a gente era mais do que eu. A minha conversa não valia de nada. A conversa deles é que valia, mais delas. E a minha A minha conversa não valia de nada. Não senhora! Nunca tive aqui importância! E eu, muitas das vezes, calava-me. Mas em sendo preciso, eles não eram capazes de se apresentar em parte nenhuma. Não senhora! Nunca foram capazes de se apresentar em parte nenhuma a fazerem mais figura do que eu. audio/CPT13.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. audio/CPT14.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) É, é. audio/CPT15.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Eu já me lembra de cair uma estrela. Tinha eu vinte anos. Era a estrela-do-pôr-do-ar-do-dia. Ao pôr do ar do dia, punha-se aquela estrela todas as noites, todas as noites, todas as noites. E daí para cá nunca mais a vi. Eu andava à ceifa e depois ele soou aquela rugida, aquela coisa, parecia uma mota, mas [pausa] eu não a vi. Nunca a vi. Depois, foi-se a ver, disseram depois que foi a estrela-do-ar-do-dia que caiu aí para a Espanha. Para aí para a Espanha é que ela caiu. Nunca mais apareceu. audio/CPT16.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Davam. Os pastores estudavam aquilo. Sabiam até, quase todos, as horas que eram de noite. Tanto que eles, elas chegando a um certo ponto, ou ou arrecadavam o gado, ou o soltavam, sabiam isso tudo, os pastores. Sim senhora! Eu já estive no campo muito tempo e tinha que abalar de noite e regulava-me pelas estrelas. Porque eu não tinha relógio, regulava-me pelas estrelas. Havia umas estrelas que nasciam num numa certa hora que eu vira que eu via que que era tempo de eu me levantar para percorrer aquele terreno, levantava-me e ia seguindo. Pois. audio/CPT17.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Ouvi Havia uma vez um tipo, era casado, e queria bater na mulher e não sabia não sabia como é que lhe havia de bater. E uma vez carregou uma carga de lenha num burro, e começou a entrar de arrecuas, com o burro carregado de lenha, para casa. E ela fazia-lhe todas as vontades: "Espera lá marido! Espera lá que eu puxo pelo rabo". Começou a puxar pelo rabo ao burro, ainda não teve pé, dessa vez, [pausa] para lhe bater. [pausa] E uma vez deitaram-se na rua – ele já com aquelas coisas na cabeça para lhe bater, para arranjar um pé, para lhe bater, na mulher – e [vocalização] e depois apareceu assim aquele aquela coisa mais clara assim que atravessava o astro e diz ele para ela: "Eh mulher, então aquilo aquilo além assim mais claro, aquilo aquilo é o quê"? "É a estrada-dos-almocreves". "Ó sua mandriona! Então e os almocreves passam aqui por cima da gente"?! Foi então quando lhe bateu. audio/CPT18.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Barro. audio/CPT19.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Sim senhor. Se for à FAOJ de Évora perguntar pelo por as minhas coisas, talvez lá as encontre. audio/CPT20.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Isso agora não sei! [pausa] Pois. Não sei. audio/CPT21.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. Sim senhora. audio/CPT22.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) É o funcho. Conheço-o bem. audio/CPT23.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) O que é que eu hei-de fazer? audio/CPT24.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Nas pernadas Das pernadas nascem outras para formarem a árvore. audio/CPT25.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Rhum-rhum. audio/CPT26.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Risos Eu Mas como é que vossemecês?… Como é que eu mandei isso assim? Risos [vocalização] Eu tenho as coisas para ali juntas, e depois, olha… audio/CPT27.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. Pois. Há uns quatro anos. Eu não [vocalização], não tinha não tinha torna. Não senhora! Não tinha torna. audio/CPT28.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. Sim senhora. Oh, oh. audio/CPT29.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Uma vez fui buscar um cântaro de água. Já há anos! Iam os rapazes para Moçambique. [pausa] Estavam os rapazes em Moçambique e eu fui buscar um cântaro de água, e eles andavam à azeitona – foi neste tempo –, andavam à azeitona ali ao pé da estrada. [pausa] Andava ali uma rapariga moça, do baldio. [pausa] Diz-me ela aqui assim: "Ó tio Hermes faça-me lá um verso"! "Ah, então que verso hei-de eu fazer"? "Olhe, tenho o rapaz em Moçambique". [pausa] Era o namorado. "Tenho o rapaz em Moçambique". Digo-lhe eu aqui assim: "Toda a moça que namora um rapaz em Moçambique, vamos ver se ainda chora o dia que ele a pique". Ela estava de pé a olhar para mim, ag- agachou-se logo a apanhar azeitona e depois levantou-se a rir. Risos Pois. Coisas que nunca esquecem! E atrás dessa tenho tenho centos delas! audio/CPT30.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Quando era daí a nada, o perdigão começava a cantar outra vez, vinham outra vez ali ter. audio/CPT31.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Está amaldiçoado. audio/CPT32.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Em cima duma árvore. Pois. audio/CPT33.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Eu já andei Eu já tenho andado no meio de centos deles. Não Passam por a gente, umas por um lado, outras por outro, outras por outro. Como não se trilhe… audio/CPT34.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Rhum-rhum. audio/CPT35.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Ele depois vai a aranha e [vocalização] começa a puxar teias, ora, aperna-a de todas as maneiras. audio/CPT36.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. [pausa] E- Ela já não Eu fiquei gostando muito dela. É muito alegre. E dava grande valor ao que eu ao que lhe eu disse. audio/CPT37.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Cá a gente é mijar. audio/CPT38.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Rhum. audio/CPT39.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. audio/CPT40.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) De lançar fora. audio/CPT41.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Não sei se ela tinha isso, pois bem. Não sei se ele Mas há ele havia uma doença que lhe chamavam garrotilho. audio/CPT42.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Sim senhor. audio/CPT43.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. Aquilo era duro. audio/CPT44.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Olhe… audio/CPT45.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Começava de cante e de baile, pronto! Cantava noites inteiras e dias, e não não me enfadava. Hoje está isto já muito mau. Está já muito mau! E o que lhe hei-de fazer? Eu não tenho remédio para isto. audio/CPT46.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Com sete anos cheguei à cheguei à segunda classe. Depois sa-, ele ele era já velhinho, deixou de dar escola e eu [pausa] deixei de ir à escola. Ainda cheguei à segunda classe. Com dez anos, já andava a guardar éguas num monte aqui mais de uma légua desviado. Com dez anos! Éguas e [vocalização] machinhos novos, filhos delas. Eram quatro éguas e quatro crias. Pois. audio/CPT47.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Rhum-rhum. audio/CPT48.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Essa da erva com o trigo foi uma conversa com um tipo de cá. Andava mirando uma seara – e esse ano chovia muito – e [vocalização] e tinha a seara abafada de erva. E ele andava estava zangado com a erva que que lhe estava dando cabo da seara, e eu ia passando, digo: "Então, estás zangado porquê"? "Ah, não vês isto?! É que eu tenho o trigo abafado em erva, nem colho daqui nada", e isto, e aquilo, lá a pelejar a vida dele, coitado. "Para que será este enredo da erva"? Eu disse: "A erva também faz falta, homem"! "Há-de ter que ver a erva, a falta que faz"! E depois abalei com a vaca, cheguei lá, comecei a escrever isso. [vocalização] Comecei a falar: primeiro foi, eu fiz a conversa dele, que era ele a dizer mal da erva, e depois fiz a conversa da erva a dizer que, que também dá que dava resultado. Pois. audio/CPT49.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Pois. São terrenos que são alagadiços. Porque de roda são cabeços e depois alagam-se. Todas as águas ali vêm ter, alagam-se. audio/CPT50.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Uma vez, um espanhol… [pausa] Um espanhol, uma vez, semeou uma seara numa cova, assim num brejo desses. Alagou-se em água, nunca deu nada. Dizia ele: "Deixa estar que eu para o ano hei-de semear uma seara no cabeço". Para o outro ano, semeou a seara lá em cima no cabeço. Veio uma seca, acab- acabou-lhe com a seara, também não colheu nada. E depois, diz ele, para o outro ano, diz ele: "Este ano hei-de semear na cova e no cabeço". E dizia ele para os outros espanhóis: "Este ano tenho Diós preso pelas patas"! "Então"? "ombre, olha, se vier um Inverno, cria-se a a seara do cabeço; se vier uma seca, cria-se a da cova". De maneiras que o que é que havia de acontecer? [pausa] De Inverno veio uma, uma ve- uma inverna grande, perdeu-se a da cova; depois lá mais por diante, já de Primavera, veio uma seca muita grande, perdeu-se a do cabeço também. Nunca aproveitou nem uma nem outra. Risos E ele já dizia que tinha Diós preso pelas patas. Risos Foi. Mas nunca nunca foi capaz de o prender. audio/CPT51.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Não. [vocalização] Nesse tempo, nessa altura, semeiam-se grãos. audio/CPT52.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Mas hoje, ho- hoje já a modos que, a bem dizer, ninguém vai à monda. Fazem a tal monda química. Já, a bem dizer, as mulheres não vão à monda. Agora an- antigamente juntavam-se ranchos de mulheres à monda. [pausa] E mondavam todo o dia. E cantavam. Havia até uma coisa que cantavam: [pausa] "Ó mondadeiras Ó que lindas mondadeiras, [pausa] lenços de todas as cores, vão mondando e vão cantando cantigas aos seus amores"! Eu gostava muito de ouvir cantar aquilo! audio/CPT53.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) O cante alentejano era bonito! É, era bonito! Eu era perdido por este por o cante alentejano. Eu ensinava até a cantar cantes. Eu fazia cantes alentejanos. Hoje [pausa] – vossemecês podem-se admirar –, mas eu, hoje, eu tenho tido aí essa telefonia, e ouço cantar estrangeiros, não ligo àquilo. Não senhor! Não ligo àquilo. Eu não sei o que aquilo é! Nem lhe conheço… Não Não sei o que eles dizem nem o que eles cantam. E o cante é também tão diferente! Pois. Não Eu não ligo, muitas das vezes, ao cante estrangeiro. Não senhor! Não ligo. Então, são coisas! Porque eu cantava e cantava! [pausa] Porque em eu começando a cantar, juntavam-se grupos de pessoas de roda de mim. Pois. Hoje é que já não presto. Mas: "Ó Alentejo não desprezes o teu cante alentejano, esse cante do estrangeiro para ti é um engano. Para ti é um engano, tu já andas enganado, ó Alentejo não desprezes o que sempre tens cantado". Isso são tudo coisas feitas por mim. Pois. E às vezes ouço essa gente estrangeira, ah, eu não percebo dali nada, nem sei o que eles dizem, não sei se os versos são bons nem se são ruins. Não percebo as palavras! O cante também é uma coisa para ali sem talho nem feição, eu não sei o que aquilo é. Pois. Uma vez ouvi um festival [pausa] – um festival de dumas poucas de nações –, cantaram [pausa] umas poucas, nove ou dez pessoas, aonde cantou uma inglesa, uma rapariguita nova inglesa – aparecia na televisão, eu estava a ver na televisão. Eu não sabia o que ela dizia – isso não sabia –, mas cantava tão bem, tão bem, tão bem que eu até não sabia o que havia de dizer àquilo, tão bem que cantava! Vi doutra vez um outra outro festival, eram cá portugueses, eram nove, parece. [pausa] A pessoa cá que eu ouvi cantar melhor, cá para o meu gosto, foi a que não lhe deram pontos nenhuns. Digo: "Ora esta"! Cantaram uns, como lhe digo, aquilo não era nada, tinham para ali pontos que era aos cinco e aos seis e às dúzias, e esta tão bem que cantava não lhe deram pontos nenhuns! "Eh mãe santíssima"! Doutra vez, ouvi outro festival, eram três a cantar, cada um de sua vez. O melhor que lá cantou estava tocando num violão: "Eu mais o meu violão, ão, ão, ão, ão! Eu mais o meu violão, ão, ão, ão, ão! Eu mais o meu violão, ão, ão, ão, ão"! Digo: "Ora, ora, ora, o que é isto senhor"?! Risos É assim que E ainda foi o que cantou melhor dessa vez, mais ao meu gosto. Mas só dizia isto: "Eu mais o meu violão, ão, ão, ão, ão"! audio/CPT54.mp3 Carrapatelo (Reguengos de Monsaraz, Évora) Mas é porque aprenderam o cante àqueles. É uma mulher é que canta isso. audio/AJT01.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) E então a minha mãe como gostava que nós aprendêssemos – éramos três irmãs e um irmão – e pôs a gente… Eu andei era numa escola particular. [pausa] E a minha mãe pagava, não é? Pagava Pagava de, porque as pessoas. Nessa altura houve muita pessoa que não aprendeu a ler porque não havia professor – na na minha idade. audio/AJT02.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Ela morreu-lhe agora uma filha também, uma filha nova, essa senhora. Mora aqui próximo. audio/AJT03.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) É… Até podem ir ver que [vocalização] ainda estão lá balneários. É [vocalização]: quando se vai pela estrada nova, sobe por o… De carro é mais perto. Se tivesse aí o carro, eu ia-lhe ensinar onde era. audio/AJT04.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Pois, isso já há muitos anos. Isto era eu moça nova. Quando eu lá Quando eu lá estive era gaiata, pois, que eu ouvi contar isto. E estas pessoas que contavam isto estão todas em Lisboa. Moram tudo em Lisboa. Moram na [vocalização] na Pontinha, estas pessoas que me contavam isto. E então até eu dizia, olhe, além ao filho do Herodes: "A gente em não mentindo, não se engana. Aquele, olhe, não vê, com os braços, dizem que é isto". E ele dizia: "Ah, é agora castigo"!? "Sim, dizem que é castigo [vocalização] ". Digo: "Então mas devia ter sido o pai, não o filho"! Mas é que os pais sofrem mais por ver os filhos assim. audio/AJT05.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Muito ruim mesmo! Isto só a providência divina é que salvará isto. [pausa] A gente tem em dizer que uma seca que tem emenda e uma molhada que não tem. Mas não é já no mês de Março. As chuvadas deviam ter vindo de Janeiro até Março. E até a gente, isto é, os ditados antigos diziam: "Águas de Abril, [vocalização] de mil". Mas é que ele não tem jeito nenhum de chover. Isto não tem jeito nenhum. O vento está na mesma. Olhe, eu regulo-me pelos ventos. Sou uma pessoa que quando me levanto da casa, tenho um galo duma chaminé, aí em frente da porta, olho, digo: "Olha, ai, o raio do vento ainda está na mesma". Está mesmo aqui voltado ao norte que não… É vendaval, não há peixe… Que os peixes, atrai, com este tempo não há, e os que vêm é caríssimos, e é mau para as searas e é mau para tudo. Porque a fartura vem do mar. Em não vindo do mar… [pausa] Porque ele o tempo estando mais morno, há mais peixes e há mais produção. audio/AJT06.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Olhe, eu cá tenho experiência nisto. Quando Quando me levanto da da minha cama, é uma coisa que eu vou logo olhar é os, os os ventos. Olho o galo, quando o vejo voltado para baixo, digo: "Ai, já é o mau tempo, não é? Ai que tempo tão desgraçado"! Digo comigo: "Ai, Deus Nosso Senhor, porque é que não põe um outro tempo, não vem uma chuva"!? Quando o vejo voltado Quando o galo está voltado para além, digo: "Olha, está voltado ao pego"! Dá água. Mas é que ele já [vocalização] um ano lá vai que nem sequer volta-se para além. Está voltado é para aqui, para o mau tempo. E é uma coisa que a senhora veja – aqui a minha irmã tem um galo na chaminé –, veja, que é uma experiência muito… E quando as nuvens estão assim lavradas umas com as outras, [pausa] que o vento está bom, voltado para além, que é bom tempo, há fartura de peixe. O mar dá logo fartura, de sinal. Mas agora veja que [vocalização] o céu está limpo, não aparecem nuvens nenhumas. De noite aparecem é estrelas. Que eu de noite assomo-me à porta e vejo, digo: "Olha, o [vocalização] mar está todo estrelado"! audio/AJT07.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Ao pé de Setúbal. Aqui para os lados de Setúbal. audio/AJT08.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Pois. Como eu amassava que o amassava… Levava aí uma hora a amassar um alguidar de pão. audio/AJT09.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Pois. audio/AJT10.mp3 Aljustrel (Aljustrel, Beja) Pode que não haja aqui. audio/AJT11.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Uma campainha branca. [pausa] Pois. audio/AJT12.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Pois, é quase a mesma família! Doninhas, toupeiras, [vocalização] esses ratos de água, e coisa e tal, isso é quase tudo o mesmo. audio/AJT13.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Acho que a lebre que é um bicho que deve que cria aí também num recocão qualquer mas não é não por buraco. A lebre não faz cá buraco na terra. A lebre, pois, deve ter [vocalização] – ou por meio de pastos, ou de de qualquer coisa – onde faz a [vocalização] cria. Mas, eu não acho que… Nunca conheci isso [vocalização], quem [vocalização] venha dizer que se faz que faz um buraco como o coelho. O coelho faz buraco para criar, agora a lebre não. A lebre, pois, deve acarear uns pastos, uma coisa qualquer e deve arranjar um esconderijo onde cria. Porque a lebre até cria pouco. A lebre Uma lebre, ele parece que aquilo duas duas crias, três, duas, três, é o que cria, e o coelho não. E o coelho não. O coelho [vocalização] Há coelhas que têm oito e dez [pausa] coelhos. E a lebre não: duas, três, duas, três. Mas não faz buraco. audio/AJT14.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Isso estavam aí metidas dentro dessas propriedades vedadas, assim que coiso, os bichos espantaram, uma foi para um lado, outra foi para outro, arranjam-se aí uma salsada que há aí bichos desses que é uma coisa parva. Aqui há muita zorra! Essa ribeira aqui toda, aí por aí abaixo, isso é um disparate de bicheza que tem aí! audio/AJT15.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Então, e o que é que você quer?! Então e o conhecimento, porque é que ele hoje não têm algum conhecimento?! [pausa] Pois. Então e depois abalam com eles, não sabem o que é que fazem. Depois abalam com eles, chegam aí ao pé dum gajo qualquer, vendem-lhos. E esse gajo paga-lhe aquilo tudo e leva-os lá para Lisboa, para aqueles cafés, para aqui, para além, ou para Beja, ou para terras dessas, e eles querem lá saber! audio/AJT16.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Quer dizer que o, o p-Pois, isso era proibido. Isso era usado também com maldade. As perdizes, [vocalização] têm ali uma altura em [vocalização] que os os [vocalização] perdigões, o macho dá em perguntar dá em perguntar à fêmea. Depois a fêmea arranja o recocão e dá em pôr os ovos, e essa coisa toda. Em estando lá aquela conta de ovos, dá em chocar. O perdigão anda com aquela doidice da da perdiz e anda sempre de cabeça no ar à busca da perdiz, à busca da perdiz. Um gajo agachava-se aí dentro de duma mancheia de erva, ou de qualquer coisa, com um coiso desses, punha-se tchi-tchi-tchi-tchi-tchi-tchi. O perdigão estava em qualquer sítio, dois ou três ou quatro perdigões, ouviam chasnar – ouviam esse barulho –, metiam na cabeça que era a perdiz. Por onde ouviam o barulho, iam-se chegando para lá; o gajo estava lá com uma espingardinha, essa coisa toda, às vezes enfiava logo ali três ou quatro. E quando matava, matava logo três ou quatro, mas era perdigões, porque perdizes, então elas estavam no choco. Mas o perdigão onde é que lá andava com aquela maçada, com aquela parvidade da perdiz, e então em ouvindo tchi-tchi-tchi-tchi-tchi-tchi, oh, dava em aparecer. Dava em aparecer, eh, um gajo que apanhasse aí três ou quatro, aí coisa e tal, ou que os encarreirasse, às vezes matava-os todos. audio/AJT17.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Está aqui uma mulher, além no largo, que ainda agora quando você estava falando ali comigo, estava ali o marido agachado. O marido dessa mulher estava ali agachado. E depois um dia foram os dois aí – ele tem uma espingarda –, foram os dois na b- na bicicleta, conta ele. Ele é que conta isto. Diz ele: "Espera lá que eu vou matar aquele pássaro que está ali". Começa a andar com a espingarda de roda do coiso, e ela encostada além à [vocalização] encostada à bicicleta à busc- à espera de ele vir. E ele não vinha. "Então o que é que andas aí fazendo"? "Ando a ver se mato aqui um mocho". Risos A mulher é um bocadinho assim simplória, diz-lhe assim: "Deixa já o passarinho! Então se tu fosses mocho também gostavas que te matassem"?! Risos audio/AJT18.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Estiveram caçando ele ali, foi ali depois do sol posto, ninguém acenderam as luzes. E depois vinha um gajo com um automóvel com as luzes acesas e não baixava os faróis. Não baixava os faróis e ele estava cá todo gacho, e parou a bicicleta, e [vocalização] baixou o farol da bicicleta dele. E o outro não baixou lá. Ele estava já danado com aquilo de o outro não baixar os faróis, diz assim: "Aquele filho dum cabrão não baixa os cornos"! Não baixava os faróis. Diz-lhe ela que estava cá atrás agarrada a esse: "Deixa-o da mão. Deixa estar a bicicleta parada. Baixa lá tu os teus e deixa-o a ele"! Risos audio/AJT19.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Pelo meio lá dessa coisa, em elas estando cheias é que têm lá comidinha. Eu, por acaso, até como ali aquelas pernas e coiso e tal. Aí o Hortênsio, ele é um marafado por aquilo. Chegam a ir a propósito, a caminho daqui e dalém, onde há essas coisas, comer. Eu não me perco com isso. E então esse senhor é que apareceu aqui com uma com uma santola. Cá há san- há a lagosta e há a santola, mas esse a que trouxe foi uma santola, boa! [pausa] Pois. audio/AJT20.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Não. Aquilo é esfolado, e é ali o lombo, e é as pernas, e é ali um bocado também do pescoço. Pois. E esteve ali na vila, esteve ali [vocalização] um espanhol com uma loja, tinha ali uma loja, esse espanhol era quantos os moços arranjassem, quantos ele comprava. E em os comprando dava dez tostões – nesse tempo da vida barata –, dava dez tostões, quinze tostões por um por um lagarto, coisa e tal, tal, tal. E em o moço abalando, a gente estava-se a rir, e ele dizia: "Riem-se?! Eu como". Eles lá em Espanha chamam-lhe sardoni. O lagarto, que a gente aqui diz lagarto, lá em Espanha é sardoni. E o gajo, dizia ele assim: "Comam lá sardinhas podres, que eu como sardoni"! E mamava-os que era o fim do mundo, o espanhol. E eu aquele dia comi e o gajo disse-me que era lagarto. E o caso foi que eu depois de o ter comido… Se ele me tem dito antes, talvez que eu não comesse. Mas comi e senti-me bem. Não me senti cá mal, não me fez mal nenhum e [vocalização] era bom! E era bom! Pois. audio/AJT21.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Fez mal. audio/AJT22.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Isso era a maior porqueira dum cabrão! audio/AJT23.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Quando uma pessoa é moços… Noutro tempo também havia uns moços que também brincavam com isso. Às vezes até lhe amarravam – porque eles às vezes também avoam –, amarravam-lhe às vezes uma linha. Os gajos, oh, dali a nada, desandavam com a linha lá para fora. Risos Isso é um bicho também engraçado, o tal escaravelho. audio/AJT24.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Pi- Pirilampos ou fogos-fátuos. audio/AJT25.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Então dizem que a ouriça quando está nessas condições que faz mal, que prejudica. Eu nunca mais comi! Mas há aí gente que dizem que têm comido toda a vida e que não lhe faz mal. Eu nunca mais comi tal coisa! E é um bicho que não faz mal a nada, eu não lhe estou dizendo? Esses bichos só só fazem bem, esses bichos aí no campo fazem bem. Comem ratos, comem [vocalização] porqueiras, outros bichos que prejudicam uma cultura de couve, que prejudicam uma cultura de batata, e essa coisa. Aqueles bichos comem essas coisas todas. Ah! É costume comerem-se, papam-nos. [pausa] Comem-nos. audio/AJT26.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Isto está aqui uma coisa… Há uma coisa… Isto é engraçado. [vocalização] Noutro tempo, havia muito divertimento – no tempo da miséria, quando havia miséria – e o pessoal entretinha-se entretinha-se. Aqueles que tinham muito, tinham automóveis, tinham isto, tinham aquilo e tal, tal, tal. Aquele pequeno nunca pensou – com licença – em possuir um automóvel, em possuir uma biciclete a motor, e coisa. E então tinha que ir para coisas lá que lhe pertenciam. E então qual eram as coisas que pertenciam? [vocalização] "Ah, eu vou para uma taberna, cantar uma modinha". [vocalização] Lá mandava assar um bocadinho de linguiça e comê-la [vocalização]. Não tinha aquela coisa e tal, tal. Hoje não existe já isso. Já não existe isso. Uma pessoa numa terra destas… Por exemplo, aí à rés duma estrada, aparece um restaurante. Então aparece um freguês de Lisboa, depois ao fim de um bocado aparece um do Algarve, passou no carro, e tal, tal, tal, tal e a taberna ali [vocalização] faz uma comida, faz uma coisa, e tal. E essa taberna tem uma saída. Aqui, nestes sítios, já não acontece isto. E não acontece isto porquê? Porque é já rara a pessoa, mesmo numa terra destas, que não possua já um automóvel. E essa gente hoje que possui já automóvel, já querem estar numa classe, já não querem saber da taberna. [pausa] Vão mais depressa, por exemplo, passear aqui ou além, e vão comer depois lá a um restaurante desses. E vem o domingo, que eram os dias em que a gente fazia qualquer coisa numa taberna destas, um domingo que se aproveitava, pois é nos domingos que é os dias mais ruins numa taberna, numa aldeia. Porque aos domingos, toda a gente tem automóvel e aquele que não tem vem dalém o vizinho… Mas os automóveis são já muitos e os vizinhos são também muitos, e quando a gente dá-se notícia, ao domingo é um silêncio!… Se a gente estiver deitados até um bocadinho mais tarde, não se ouve rumor de nada. Parece a gente que está no monte. Aos domingos! Aos sábados e aos domingos parece a gente que está num monte! Não se ouve ninguém! A gente abre uma porta para vender um copo de vinho, essa coisa, pois marchou-se tudo: um foi para a praia, outro foi para uma ribeira aí comer um petisco, outro foi para outro lado. Têm automóveis! Têm os carrinhos para a coisa e tal, tal. E em vindo outro certo tempo, têm os carrinhos, aos domingos vão à caça, coisa e tal, tal. E os domingos numa terra destas – sábados e domingos – são sempre mais ruins. E depois aos dias de semana vão trabalhar e pronto, aparecem… É sempre uma moenga. E essas casas que estão aí perto da estrada nova são os uns restaurantes que, em tendo uma casa bem arranjada, defendem-se bem. Defendem-se. E um tipo aqui numa terra destas não se defende com uma taberna. Não se defende com uma taberna porque aos domingos – que é o dia em que a gente fazia, no outro tempo, dinheiro –, ninguém tinha automóvel, vinham para uma taberna, cantavam, e [vocalização] pulavam, e [vocalização] isto, e aquilo, e tal e estava tudo muito bem. Agora não! Agora têm automóvel, querem lá saber agora de estar aqui em Montes Velhos, em vindo o domingo! Marimbam-se em Montes Velhos e vão-se embora. Vai-se tudo embora. Ninguém quer estar aqui. audio/AJT27.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Quero eu agora cá chatices! Pois. audio/AJT28.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Guloso! Vinte mil reizinhos. "Toma lá cinco, toma dez". Lá os da Peroguarda e os outros mamaram a Alagoa, mamaram a Senceira, mamaram isso tudo. Tudo gajos ali que não tinham falta nenhuma daquilo. E este, parvalhão, não apanharam nada. Não apanharam nada. audio/AJT29.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) É a fome. audio/AJT30.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Era tudo racionado, tudo, tudo, tudo, tudo. Pois. audio/AJT31.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Pois, porque a gente enchia lá as quartas ou barris. E de lá vinha um tubo que vinha parar cá a esse coiso onde a gente chegava ali [vocalização] e, por exemplo… É que mesmo a cavalo na carrinha, o animal chegava lá e bebia. Tinha ali um chafariz. Ah, pois isso foi-se modificando, acabou tudo, o Ivo [vocalização] pôs lá aquelas bombas de gasolina e isso desapareceu, essa coisa toda. audio/AJT32.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) Acaba a gente por se rir, então o que é que a gente lhe há-de fazer? audio/AJT33.mp3 Montes Velhos (Aljustrel, Beja) E então a gente havia quem fizesse isso. Mas [vocalização] quem tinha mais assim de debulhar: "Oh, sobraram aí os cachos". Esses cachos eram postos depois no outro dia dentro do calcadoiro. Jogavam-se logo além no meio da eira, estrambalhava-se, ficavam pelo meio da eira. À tarde, sobravam outros cachos, no outro dia fazia-se o mesmo. Quando eram os últimos, enchia-se aí um saco ou dois daquela coisa, deitava-se às galinhas. A pessoa que não tinha galinhas e queria aproveitar, isso punha aí dentro dum coiso qualquer, dava-lhe aí umas porradas, dentro duma alcofa ou dum saco, dava-lhe ali umas pancadas, ainda, às vezes, arranjava ali um alqueire de trigo. Tinha que ser tudo muito esmifrado para por causa da barriga. Tinha que ser tudo muito apurado. É verdade. audio/STE01.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Eu lembra-me a minha mãe fazer isso. audio/STE02.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Pode-se, pode-se. Pode-se dar aquele tempo… Naquele dia não se come os molhos; logo no outro dia, está-se derretendo, também já não se precisa de comer os molhos, é os torresmos. E podem-se dar uma fervura na panela; um nada de sal na água, faz-se uma fervura e, e e guarda-se, ou bota-se na friza, quem tem. Quem não tem guarda uns dois ou três dias. audio/STE03.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) É óptimo! audio/STE04.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) fiar lã, e remendar, e fazer fiar estopa, fiar linho e essas coisas. audio/STE05.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) De reforma. [vocalização] O meu marido se era vivo não – quando eu criei onze filhos –, não precisava de trabalhar tanto como ele trabalhava, de noite e de dia. A trabalhar ainda de jornal, ainda vinha para casa fazer serviço de carpinteiro para se poder comer, ora, ou comprar o pãezinho. Agora, em estando grandes, os pais os filhos vêm pelos pais. O meu Jónatas, que tem muitos filhos, eles vêm pelos pais. E os pais, [vocalização] os velhos – os velhinhos também –, vão-lhe dando para si. Pois dão-lhe aquele abonozinho que seja por amor de Deus. A gente também as duas estamos ganhando. audio/STE06.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah, isso também já me lembra também disso. audio/STE07.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) É. É. Ela leva vinte pipas. Leva muita água só para a gente as duas! Dá para lavar todo o ano! audio/STE08.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Às vezes, alguns era. A gente aí já foi assim, se ajuntaram já foi antes de mim! audio/STE09.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) A uma quinta-feira. [pausa] Já há cinquenta e [pausa] e um ano. Fez agora no dia 11 de… Vai fazer no dia 11 de Novembro cinquenta e um. audio/STE10.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Naquele tempo não havia! Mas agora então ele os noivos não ficam em casa! Têm de ir ficar por outras casas, quando não não paravam. audio/STE11.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) E depois vai botar as cascas na rua, assim lá para fora, para ele a modos que passe por ao pé do caminho. Passa ao pé do caminho, vai botar uma casca. Diz que se [vocalização] se é rapaz, uma rapariga vai passando, pergunta-lhe: "Qu- Como é que te chamas"? Ela diz o nome. [vocalização] É o nome que lhe há-de calhar a uma rapariga quando ele se casar. É o nome da rapariga que lhe vai calhar. É mentiras. E a rapariga diz que é pois o mesmo. Também passa, pergunta a um rapaz, se vai passando, como é que se chama, ele diz o nome. [pausa] Ele um dia, a minha cunhada vinha da vila, e [vocalização] ali à Almagreira, passou e diz que chegando ali à [vocalização] ao pé, direitos a uma porta, a rapariga diz que pareciam umas cascas por baixo dela, da do escadão, assim, e perguntou: "Esse rapazinho como é que se chama"? – Oh, minha minha mãe?! Minha cunhada! O senhor Hostílio está na América. "Ele chama-se Hostílio". Ela disse: "Ah, está bem! É que eu hoje fiz anos. O meu noivo vai ser Hostílio"! O nome que que vai passando quando se bota a casca do ovo fora. Que coisa disparatada! audio/STE12.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Não havia plástico. Não. Ele nem sequer falava-se nisso. Nada, nada. audio/STE13.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah, pois, e muitos mais haverão de contar, com certeza. audio/STE14.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) São anedotas, pois. audio/STE15.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Isto era o tal meu padrinho! E outra vez, olhe, estavam estavam uns noivos num banquete e estava um outro senhor, que era muito esperto assim para para dizer coisas. E ele disse: "Olha, Huberto, a solenidade, quando se acaba de comer, [vocalização] o prato vira-se em cima da mesa". Ele disse: "Olha, tio Hugo, é verdade. Também o meu porco quando acaba de comer vira a pia"! audio/STE16.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Se eu não tenho juízo nenhum! E o meu avô estava lá sentadinho, já com o bordãozinho ao canto da casa numa cadeira e então: "Minha avó ainda vai dizer que eu que volte para trás". Fui-me embora! Cheguei a casa de noite, minha mãe perguntou: "Eh mulher, porque é que vieste tão de noite"? "Sabes, é que meu avô não me deixou lá ficar"! " Pois então eu não tinha que te dar autorização. Não tinhas Não tinhas falado para ficar lá de noite, e agora como era isso"? Ela aí tinha razão. Não gostava então muito do meu avô! audio/STE17.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ainda costuram para a mulher, porque ajudam. audio/STE18.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Outras vezes E outras vezes, eu disse-lhe: "Ah, eu gostava de se desmascararem, tirarem"… Eles tiravam a máscara para fora. Comiam malaçadas, bebiam vinho, toca a andar! audio/STE19.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Do Ar. audio/STE20.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Estou com fome! audio/STE21.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Por baixo do linho. audio/STE22.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) A cova do carvão. audio/STE23.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Rhum-rhum. audio/STE24.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É. Com cimento e ca-. Ele no tempo, era cal e areia, não havia cimento. audio/STE25.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É só silvas. audio/STE26.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah! audio/STE27.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Tem um chuveiro à à ponta. audio/STE28.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É [vocalização]. Ou, a roda, se era mais escambada ou coisa, não dava certo. audio/STE29.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Pois, pois, pois. audio/STE30.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) tornava a pegar no outro fuso, quando tinha, mais ou menos, a medida que via que tinha fiado no primeiro, juntava os dois fios. Em casa também da minha mãe era assim. audio/STE31.mp3 Santo Espírito (Vila do Porto, Ponta Delgada) Não, é outro nome que a gente dá. Aquele nome que a gente daquela árvore, que a gente recolheu, que faz o amarelo? audio/STE32.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Era de da vaca, era do to- de qualquer animal que remoesse, ruminante. audio/STE33.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É. audio/STE34.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É. audio/STE35.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Pois. audio/STE36.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Sim, sim. audio/STE37.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) É. audio/STE38.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Dois tratamentos. Vamos lá a ver qual era o que melhora. audio/STE39.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Pois, claro. audio/STE40.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah! audio/STE41.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Eu não conheço tudo, mas conheço meia dúzia delas. audio/STE42.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah, esse já tem nome?! audio/STE43.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Na boca. audio/STE44.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Ah! audio/STE45.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Rhã-rhã. Pois. audio/STE46.mp3 Pedras de São Pedro (Vila do Porto, Ponta Delgada) Rhã! audio/CDR01.mp3 Cedros (Horta, Horta) Em todo o ano. audio/CDR02.mp3 Cedros (Horta, Horta) Não, de maneira nenhuma. audio/CDR03.mp3 Cedros (Horta, Horta) Sim. Ele ou morria o pai ou morria a mãe ou quando morriam a família, praticamente os filhos é que iam continuando a continuando a trabalhar. Que o que quer que venha acontecendo, sempre hoje ainda vai sempre nessa continuação. Eles ainda nunca aqui, nesta freguesia, nunca se agarraram àquilo. Porque há aqui, vamos lá, o mato do Salão, e o [vocalização] o mato da Pedra Miguel, [vocalização] o mato da Praia do Norte é já é a Florestal é que está a tomar conta. Trabalhou aqueles matos que estavam muito perdidos – porque a gente aqui tinha o nosso trabalho –, eles trabalharam e agora as pessoas põem o gado lá. Pagam mil e cem escudos por cabeça, por mês, a rês, até aos dois anos. A partir dos dois anos, a pessoa paga mil e trezentos escudos por mês, para pôr a rês lá. E a E isso nessas outras freguesias acontece isso. Só que aqui os Cedros também põe gado lá. Como nã- eles não têm gado bastante dos outros lados para pôr lá, eles dão prioridade também aqui aos Cedros que para meter gado lá nessa nesses matos baldios do. Mas isso já está tudo por conta dos Serviços Florestais, [vocalização] em pastagens grandes, e é que adubam é que… Têm os seus tratadores já. Afinal a pessoa só põe o gado lá, no fim do mês paga os. Pa- Ela paga sempre adiantado. Paga mil e duzentos ou mil e trezentos – mil e cem ou mil e duzentos – para pôr aqu- o gado lá. E só paga um mês adiantado e quando quer retirar, pode retirar quando quiser. Se não quiser retirar, pois agora quando chega a Janeiro são retiradas até Março ou até Abril. Depois é que dão entrada no nos Serviços outra vez. Estes meses agora são para adubar e fazer aquelas partes. Temos aqui uma outra zona de pastagem, que fica a seguir, vamos lá, abaixo da [vocalização] da zona florestal e acima aqui do [vocalização] das nossas terras boas. E depois isso é uma zona que anda sempre gado, agora já de ordenha, praticamente naquelas zonas ali, e outros com gado alfeiro. Mas são zonas que estão também estão bem exploradas. Ele são amansadas uma vez por outra, fazem o renovam a pastagem, e [vocalização] e praticamente isso é o que vai acontecendo. audio/CDR04.mp3 Cedros (Horta, Horta) Era dum lado e doutro. audio/CDR05.mp3 Cedros (Horta, Horta) Mil metros quadrados. audio/CDR06.mp3 Cedros (Horta, Horta) Cascalho de Cima. E [vocalização], pois, atinjo eu também ainda da actividade da lavoura, pois também tenho sempre trabalhado muito na terra, ajudado nas lides da lavoura, ele quando era preciso, e fazia o meu serviço doméstico. audio/CDR07.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] Lá temos ainda essas sueras antigas. Temos de tudo o que havia antigamente um pouco. E então temos todos os utensílios com que se trabalhava o linho e a lã. Temos a [vocalização] o tear e [vocalização] temos a roda, o engenho, temos o fuso, temos tudo os ut-. Isso está em tudo lá em [vocalização] em exposição. De maneira que começou-se depois a ir… Começaram a aparecer outros agasalhos e as pessoas começaram a ir ele a, a… Os baldios ficaram todo o ano à conta dos lavradores, as pessoas começaram… Porque quando se tirou as ovelhas, as pessoas re- ficaram um bocado contrariadas porque achavam que a ovelha que era uma coisa que fazia muita falta. E há anos atrás fazia mesmo! Mas depois a vida mudou, as pessoas começaram a ter outros agasalhos e realmente a ovelha não fez grande falta. Mas [pausa] a colcha acolchoada era uma coisa que até os até recentemente era uma coisa que todas as casas faziam. [vocalização] Eram [vocalização], cozia-se a lã Cardava-se a lã, não era fiada, era só cardada, postas em cima de duas dum lençol ou dum cobertor, e depois era cozida. E depois fazia-se com uma forra de chita e era – ou chita, ou [nome], ou lá o que lhe quisessem fazer –, e era isso as coberturas que se punham na cama. Recentemente, penso que até agora já, eu ainda fiz para as minhas filhas todas colchas acolchoadas e ainda tenho. Mas agora, há poucos dias, eu a falar nisso, alguém me disse que não, que já substituíam era pelos cobertores grossos que se compravam nas lojas, e que já nem a [vocalização] nem para as colchas ac- acolchoadas, as pessoas usavam as ovelhas. Mas mesmo ovelhas, agora aqui no nosso lugar, [pausa] não há. Acabaram as ovelhas. audio/CDR08.mp3 Cedros (Horta, Horta) E [vocalização] era bonito! Eram trabalhos bonitos, eram trabalhos feitos que hoje a gente… Naquele tempo não se sabiam apreciar como hoje se aprecia, porque era uma coisa vulgar, toda a gente tinha. Hoje é uma coisa rara. Eu lembro-me que quando me casei fiz um cão – bordei um cão no meu ta- num tapete para pôr ao pé da minha cama –, um cão empoleirado. Era, era uma lin- Era um lindo cão! Ora, o tapete estragou-se e não foi de ser usado. Deixou-se de usar os tapetes, que apareceram outros tapetes mais não mais bonitos mas diferentes, e o meu acabou por se estragar porque eu o abandonei. [vocalização] Tenho ainda um que então esse eu não… Era com um ramo de flo- um ramo de rosas muito bonito, que era posto do outro lado da cama. De maneira que era uma arte que nós tínhamos de embelezar a nossa casa com as nossas próprias mãos, porque não havia dinheiro que se pudesse chegar mais. [pausa] Portanto, esta era uma da parte de de artesanato que teve muita actividade na nossa freguesia, quer para as pessoas usarem no seu próprio uso, quer para fazerem dinheiro. audio/CDR09.mp3 Cedros (Horta, Horta) O que era mais macio era o que era posto por pé perto das águas, era o que nascia ao pé das nascentes das águas. Até que [vocalização] Eu [vocalização] talvez já nunca mais irei ao fundo da caldeira, mas já fui depois de rebentar o vulcão. O junco nunca mais foi bom como era porque deixou de ter água na caldeira. Portanto, junco ainda existe, mas é seco. É o junco É um junco duro, não não é um junco que se possa trabalhar. Havia também aqui nos matos da Junta, [vocalização] cerrados que estavam por trabalhar que também davam muito junco. Também havia muita pessoa que ia lá, pessoas, nos cerrados, ali junto às ribeiras… Mas era então pouca percentagem que dava. Ele o forte do junco trazia-se era do fundo da caldeira! audio/CDR10.mp3 Cedros (Horta, Horta) De maneira que [vocalização] chamuscavam o porco com a rameira. Depois de o porco chamuscado, rapava-se o porco com pedras – não havia outra outra ferramenta. Rapavam o porco com pedras, iam-no esfregando, e depois lá tinham uma faca velha, uma coisa, que lá iam rapando e [vocalização] [pausa] rapavam como podiam. [pausa] Depois de estar o porco todo limpo, todo rapado, o mesmo que tinha passado a matar é que passava [pausa] a abrir o porco. As pessoas esperavam que ele abrisse numa casa para depois ir abrindo nas outras todas. audio/CDR11.mp3 Cedros (Horta, Horta) No próprio dia à noite. No próprio dia à noite. Havia muito então entusiasmo em criar o porco melhor. Havia [vocalização] ver qual é que tinha mais toucinho, porque o porco era apreciado era por ter muito toucinho. Portanto, as pessoas iam, até havia alguém que trazia as medidas: "Olha, o meu porco tinha tanta medida"! Até eles diziam que era couto. O couto era menos de palmo mas era uma distância. Já o que tinha quatro dedinhos de toucinho não era muito mas já era razoável. Depois, [pausa] em minha casa nunca aconteceu isso, mas muitos vizinhos meus coziam as morcelas e iam no outro dia de manhã vender as morcelas e vender um bocadinho de fígado, alguns iam vender a cabeça, para ajuda da vida. Alguns para ajuda de comprar um outro porquinho para pôr na rua porque havia … Praticamente toda a pessoa pouca gente criava porcos porcas para leitões. Era o porquinho do Natal; quando matavam um, punham outro para o outro Natal a seguir. [vocalização] Vendiam, iam… Ficavam as uns a derreter o porco em casa e os outros iam fazer o seu negócio. Como os porcos eram todos mortos no mesmo dia, as pessoas tinham todos o seu negócio ele pronto para ir fazer no dia seguinte. [vocalização] Iam para a cidade, para Cima da Lomba, vender as morcelas e vender muitas vezes a cabeça do porco. Algumas pessoas, que iam fazer esse dito negócio dos tapetes, já deixavam as suas cabeças e as suas morcelas, traziam-nas encomendadas para quando as tivessem, ir vender. [vocalização] Depois, faziam a vinha-de-alhos, ele os, os seus praticamente poucos torresmos, muita linguiça. Faziam muita linguiça porque a linguiça era muito vendida. As pessoas usavam pouca linguiça não é porque não a gostassem de a comer, é porque precisavam do dinheirinho e era uma maneira de fazer o dinheiro. Muita gente ia vender a sua linguiça. [vocalização] Faziam as vinha-de-alhos e depois, ao fim de quatro, cinco dias, enchiam a linguiça, rosavam-na e lá iam, ven- vendiam a linguiça ao metro. Não era ao peso. [vocalização] [pausa] Alguns também não eram muito sérios, depois também as pessoas nem gostavam muito das linguiças, porque às vezes eram falsificadas. Metiam mui- Em vez de meter carne boa, metiam muitas gorduras para para acrescentar o tamanho da vara. De maneira que depois de o porco [pausa] depois de as pessoas, [vocalização] à noite, terem o porco desmanchado – olha! –, não ha- não havia [pausa] festa familiar. Mesmo que houvesse pessoas… Que eu conhecia aqui um caso, que era um pai que tinha aqui três, quatro filhos a viver junto, na sua vizinhança, mas estavam matando o seu porco. audio/CDR12.mp3 Cedros (Horta, Horta) e a linguiça era posta pendurada naqueles paus, enrolada nuns rolos, comprida, e [vocalização] e ficava ali um, dois dois dias, dois, três dias o máximo, a curar. Fazia-se lume… O lume bom para rosar a linguiça era o lume de sabugos, que é o sabugo do milho que se do milho que se desbulha. [vocalização] Punha-se umas achinhas e com aqueles os sabugos por cima e ela ficava rosadinha. E depois de rosada, os que era para vender, iam-na vender, e os que não, fritavam-na e punham-na em em banha, que ainda é o que se usa hoje. A gente, eu por mim, eu e a minha família usamos. Há quem põe nas arcas; eu, os condutos de porco, não uso nada na arca, só se um bocadinho de carne para, para para assar e para bife. De resto, ainda salgo a [vocalização] a carne de porco na salgadeira e fri- e uso os meus condutos todos é nas na banha, enterrado na banha. O que se usava naquele tempo era barro, era as caboucas de barro, era as salgadeiras de barro; agora usa-se em plásticos, que é muito mais higiénico e muito mais… Porque havia [vocalização] barro que lhe punha gosto. Punha [vocalização] Íamos [vocalização] buscar e criava como que um ranço, um gosto a ranço. E o plástico então é muito mais higiénico e muito melhor. audio/CDR13.mp3 Cedros (Horta, Horta) Paiol. audio/CDR14.mp3 Cedros (Horta, Horta) Não. Pau da linguiça que é co-. Eu tenho, por exemplo, um pau que – sei lá! – eu lembro-me de ter um pau toda a minha vida, até talvez vinte cinco ou trinta anos. Depois ele partiu e [vocalização] e a partir daí tenho outra vez um pau com mais de vinte anos. É sempre o mesmo pau que se pendura a linguiça. Quando se tira a linguiça, arruma-se o pau para o outro ano ir buscar. É sempre no mesmo pau. audio/CDR15.mp3 Cedros (Horta, Horta) A beterraba, usa-se beterraba aqui há muito poucos anos. [pausa] E pouca gente usa beterraba. [vocalização] Aqui a beterraba não é uma coi- não é uma cultura que seja muito vulgar. [vocalização] Pois havia pessoas que deitavam meio alqueire de milho aos porcos para para o Natal – quem tinha dois porcos, mas uma quarta era normal. Mas também havia muitos que deitavam só um punhadinho porque não podiam deitar mais. Porque lhe ia fazer falta [vocalização] para para pão. audio/CDR16.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] Também nem sempre acontece mas daquela vez foi assim. Às vezes também morrem e os a mãe e os filhos. Mas daquela vez eu consegui criá-los todos, com muito trabalho, mas eu consegui criá-los todos com leite. E depois [vocalização] bebiam no biberão, no frasco, com uma mamadeira. E [vocalização] E era interessante que eles esperavam eu, aquilo… Mas aquilo não dava tempo! Era deitar e encher, e aquilo eles chupavam aquilo sem tempo. E depois como lhe dava mais fome, começaram a comer mais cedo na no cocho e [vocalização] e criaram-se uns lin- uns lindos porcos. Eu ainda tenho fotografias desses tais porcos! audio/CDR17.mp3 Cedros (Horta, Horta) E tirava as cordas e punha outras cordas. E com as cordas velhas dos relógios começou a fazer umas rapadeiras. Mas quando começou a aparecer essas rapadeiras, [vocalização] foi uma coisa era uma coisa maravilhosa e uma coisa rara. Só que poucas pessoas tinham as rapadeiras, emprestavam. Mas as rapadeiras não faziam o que fazem hoje. As rapadeiras só rapavam quando o porco já estava muito limpo, muito lavado, que era para não estragar muito a rapadeira. Era só para esbranquear mais o [vocalização] o coiro do do porco. E [vocalização] havia poucas pessoas que tinham e emprestavam aquilo mas era por um especial favor. Depois começaram a aparecer mais facas, começaram a rapar-se melhor. Ainda o meu marido dizia que – me contou há dias – que tinha uma faca… Só havia uma faca de matar [pausa] e a pessoas ele… Era o marchante que tinha aquela faca e ainda era e ainda era uma faca má. E a gente tínhamos uma faca, que eu ainda… Tivemo-la até há poucos anos – agora já não sei se ela existe ou não –, era um com um cabo de osso de baleia, um cabo de osso de baleia grosso, não tinha corte que prestasse, mas era uma faca apreciada só para rapar o porco. Aquela faca era apreciada para rapar o porco. Depois foi-se foram melhorando, depois apareceram os maçaricos [vocalização] a gás, que ainda foram poucas pessoas… No princípio as pessoas achavam que o toucinho, o conduto do porco, não era tão saboroso com o chamuscar do gás como com a rameira. Ainda havia muita Já haviam pessoas que ras- que chamuscavam o porco com o gás, mas enquanto ainda outros era sempre com as rameiras. Iam sempre buscar, que hab- aquele cheirinho da rameira [vocalização] gostavam mais. Depois começou a aparecer os, os os maçaricos a chamuscar com o gás, pois já se vê que já faz muito mais limpeza. Ah, também se rapava antigamente com o sacho, que já hoje não aparece. Mas não se matava o porco que não fosse… A primeira rapadela era com o sacho – a chamuscar com a ramei- rameira e a rapar com o sacho. Hoje já não se usa isso. [vocalização] Depois então começaram a aparecer muitas rapadeiras e hoje toda a gente tem montes de rapadeiras. E E hoje então há muita facilidade de se tratar dos po- de se rapar e limpar os porcos. audio/CDR18.mp3 Cedros (Horta, Horta) As tripas, sim, eu nunca me já me lembro de se limpar tripas na ribeira, mas normalmente, antigamente, era toda a gente ia era para a ribeira limpar as tripas. As tripas são lavadas… São descosidas ou desmanchadas – chama-se desmanchar as tripas –, leva-se tira-se-lhe aquelas gorduras para o lado, e [vocalização] era quase sempre pessoa escolhida era as pessoas mais idosas é que sabiam desmanchar as tripas. Uma coisa que eu bem pouco tenho feito! Porque era a minha mãe que desmanchava as tripas, depois as minhas filhas chegaram é que passaram a desmanchar as tripas. É uma coisa que eu nem sei fazer muito bem, desmanchar as tripas. Desmanchavam-se as tripas e depois levava-se para a para a rua. Ele era nos poços, que havia poços de… Eu já ainda apanhei – já as minhas filhas não, mas eu ainda apanhei – [vocalização] lavar-se as tripas com água do poço. Agora já é tudo é com águas encanadas. Depois, ele quando havia invernos que não havia os poços – havia poços que nem vedavam muita água; havia, às vezes, secas que o poço tinha pouca água –, ia-se mais longe – porque eu sempre me lembra de haver chafariz de água –, ia-se mais longe, ao pé da fonte, lavar as tripas. Mas antes de se lavar as tripas, fazia-se uma poça na terra e desmanchava-se as trip- [vocalização] despejavam-se as tripas ao pé de casa, numa poça. E depois é que se iam lavar então para a para a fonte. Portanto, a primeira vez que se lava, lavava-se era com sabão azul, [pausa] e [vocalização] com limas, [pausa] e com a salsa. Os toros da salsa que tinham servido para pôr nas morcelas deixavam-se para se lavar as tripas, para se escag- esfregar as tripas. Esfregavam-se as tripas ali duas, três vezes, três, quatro vezes, conforme era preciso, que há tripa que lava com mais facilidade que a outra. Portanto, o lado de fora da tripa não tem muito que lavar porque não está suja. audio/CDR19.mp3 Cedros (Horta, Horta) Era só uma talhada. audio/CDR20.mp3 Cedros (Horta, Horta) Pois. audio/CDR21.mp3 Cedros (Horta, Horta) E vinham com muitas ninhadas de pintos. E aqueles é que não tinham prejuízo. A gente, às vezes, punha uma galinha no choco e elas partiam ovos, e a gente vinha e, às vezes, acabavam por não tirar pinto nenhum. E aquelas que caíam por si… Ele amiúd- amiúda muito a galinha e não tem muita vantagem, mas a vantagem de os pintos terem muito mais saúde, tem. A galinha que caía por si no choco era a p-… "Achei uma galinha no choco com tantos ovos"! E ficavam para lá por sua conta e ela só vinha quando tinha os pintos tirados, é que vinha com as suas ninhadas de pintos. audio/CDR22.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] [pausa] Há quem deite couve cozida, couve crua. Eu, por exemplo, de Verão, quando não quando há muita couve, eu deito cozo umas panelas de couves, deito junto com a mistura. Que deixei de usar mistura por ser muito difícil de adquiri-la, mas juntava à mistura a couve cozida, e com a com a troca, fica uma galinha bem tratada. Fica a galinha muito gorda. Mas a maior vantagem de se tratar bem a galinha é nos ovos: põe mais e não [vocalização] e não lhe dá para chupar os ovos. audio/CDR23.mp3 Cedros (Horta, Horta) Pois. audio/CDR24.mp3 Cedros (Horta, Horta) Havia. Havia os latoeiros que até, quando se formou a cooperativa, fez-se, faziam, tiveram tinham lá uma oficina de latoeiro que fazia as latas para fornecer aos sócios. [pausa] E ainda hoje temos aqui um latoeiro. audio/CDR25.mp3 Cedros (Horta, Horta) E alguns faziam-nos no sapateiro porque os pés eram tão grandes que não havia à venda sapatos que lhe servissem. audio/CDR26.mp3 Cedros (Horta, Horta) E depois passaram a deixar as sêmeas junto com o rolão, e faziam o bolo inch- que se chamava-se o bolo inchado sem [pausa] só com a, com as com o rolão e com as sêmeas. audio/CDR27.mp3 Cedros (Horta, Horta) A Praia do Norte é uma freguesia pequenina, mas é sozinha, lá independente, está lá só por si. Mas lugares tão perto que faça tanta diferença como os Cedros com a Ribeira Funda não é fácil. audio/CDR28.mp3 Cedros (Horta, Horta) Portanto, a massa é escaldada e depois amassada. É amassada com água quente, fria ou tépida, depende. Que se escalde o pão e amasse ele logo de pouco tempo depois de ser escaldado, é amassado com água fria para temperar e o calor não ficar muito quente. Porque a massa se for amassada muito quente, com água muito quente, queija o pão. O pão queijado é mesmo queijado. Fica malaçado. É um pão que fica dessaboroso. [pausa] Portanto, antigamente amassava-se em alguidares de barro, em selhas de cedro. Havia uns tanoe- – chamava-se tanoeiros as pessoas que faziam os vasilhames para se amassar para. Hoje ainda poderá haver alguma selha mas as pessoas nem as usam. A selha era uma coisa que esvaía muito com o calor; depois ficava uma costela fora, uma costela dentro, [vocalização] metia-se muitas falhas nos de- nas unhas das mãos; às vezes falhava-se, ficava o sangue a escorrer. As panas plásticas são muito mais [pausa] práticas porque são muito lisas n-, n-. Mesmo que haja [vocalização] alguidares de barro – que ainda os há –, mas quase que são uma [vocalização] uma coisa de [vocalização] de recordação, de [vocalização] de arquivo, não usam já. As selhas acabaram por desaparecer porque se esvaíram. audio/CDR29.mp3 Cedros (Horta, Horta) Portanto, amassa-se. A gente chama aquilo é: tomar a massa. Começa-se a andar com aquela massa de roda, aq-, aquele molho aquela farinha vai chupar aquele molho que está no alguidar. Depois de estar bem tomada, começa-se a amassar. audio/CDR30.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] Põe-se a manteiga cozida em tempero que se possa meter as mãos, amassa-se a massa com a manteiga. Quando se acabou de amassar de usar aquela manteiga toda, está a massa amassada – que fica a levedar. Leveda, mais ou menos, quatro horas no alguidar – quatro, cinco horas. Depende. Às vezes [vocalização], também demora, quando o tempo está mais frio… Mas como eu acabei de dizer, o [vocalização] plástico é uma coisa que isola e que não deixa ficar a massa muito tempo sem levedar. Quando a massa está bem lêveda, que está o alguidar bem cheio de ma-, está já encheu bem o alguidar, põe-se a massa no tendal, [pausa] nos tabuleiros. Portanto, os tabuleiros são de lata untam-se bem – ou alumínio, depende, mas nós aqui usamos é a lata porque o alumínio é muito caro –, untam-se com banha, e depois polvilha-se a lata com farinha de trigo. Põe-se a massa em tabuleiros a levedar e volta a levedar. O mesmo tempo que esteve no alguidar, está na nos tabuleiros. Aquece-se o forno… O forno quente para a massa é diferente do que para a massa do milho. É com menos calor. Aquece-se o forno de meio para diante; depois de o forno estar quente [pausa] – com o calor que lhe pareça –, estende-se aquele brasido do ca- da lenha que ardeu… Antigamente só se cozia massa sovada com rapa e com palha de tremoço. [pausa] Hoje aquecemos o forno com qualquer coisa. Depois tempera-se, aquece-se o for-… Há pessoas que só cozem a sua massa no calor do pão de milho. Cozem o pão de milho, tiram o pão de milho e deitam a massa para dentro, mas nós não fazemos assim. Nós aq- aquecemos o forno só mesmo para a massa. Tempera-se… Para temperar o forno, varre-se bem varrido com um varredor com água, [vocalização] molha-se o varredor em água e passa-se o forno. Depois põe-se á-, a farinha de trigo num prato ou numa tigela e deita-se pelo forno dentro. Espalha-se pelo forno e vê-se. Há fornos que precisa a ma- a farinha ficar mais com mais cor, outros que a farinha fica mais branca, porque guardam mais o calor e vão a rosar lentamente. Isto para temperar o calor para o lar. Para cima, [pausa] há pessoas que até só temperam o forno… [pausa] Há pessoas que só temperam o forno para [vocalização] para a massa pular. Eu, por mim, tempero por cima e por baixo, para ver o calor de cima do forno, quando é que está a modo de pôr a massa. Rezo uma ave-maria. Deito o braço por o forno dentro, rezo a ave-maria e quando vou começar na "Santa Maria" já tem que ter calor que eu arrede o braço para fora. [pausa] Aí é que está o calor temperado para poder pôr a massa e ela ficar em boa cor. Depois de a massa posta no forno… [pausa] Põe-se a massa no forno e ela perde a cor, fica muito branca, muito branca. E, e começa Se a massa está lêveda, que não passou de lêveda e que está bem lêveda, a gente começa a ver que a massa vai começar a subir devagarinho. Se a massa passou de lêveda na, cá cá fora, chega ao forno, a gente põe-a no forno e ela sobe muito, e dá uma pancada e desce, e já fica abatida. É a massa que passou de lêveda. Depois de a massa ficar branca, começa a perder aquela cor de dos ovos, começa a ficar muito branca, tapa-se com jornais. [pausa] E fica tapada ali uma meia hora, depende de, de dos fornos. Há fornos que demoram muito a dar o calor de cima, há outros que demo- dão mais depressa. Se o forno demora mais a dar o calor de cima, tira-se os jornais para fora mais cedo para então dar a cor à massa. Porque a massa é tapada para não rosar sem levantar , [pausa] dar tempo de cozer a massa e não ficar com cor demais. Se [vocalização] Se o forno rosa muito depressa, fica… Às vezes há fornos que então a massa que cozem a massa toda com com jornais por cima, porque senão ficava a massa com cor a mais. Quando está ali a… Depende do tamanho dos pães. Há pães grandes, há pães mais pequenos, mas o normal de dos pães que se faz é de estar ali três quartos de hora,uma hora, e é cinco quartos de hora no forno. [pausa] Depois de tirada, logo que ela está saborosa é comê-la. audio/CDR31.mp3 Cedros (Horta, Horta) Antigamente faziam pão de trigo, faziam pão de leite, [pausa] fazia-se muito bolo inchado, que foi o bolo que eu me referi do rolão. Hoje em dia pouca gente faz. O bolo inchado, ainda há alguém que faça mas poucos. E pão de trigo, não conheço ninguém que faça aqui no nosso lugar pão de trigo. [vocalização] O pão de trigo aqui era feito… Eu ainda cheguei a fazer algum, [pausa] mas não é feito daquele pão saboroso da padaria. É bom para comer mas fica sempre um pão adocicado. Por exemplo, se fizesse sopa… Ainda há pouco tempo – [vocalização] este ano –, fez uma pessoa aqui uma função – ela era de São Miguel e fez uma função do Espírito Santo – e é que fez as sopas o pão para as sopas. As pessoas não gostaram das sopas só por causa do pão. [vocalização] O pão é feito diferente do pão da padaria. O pão da padaria para sopa é muito mais saboroso que o nosso. O pão de trigo que se fazia aqui, pois era também o fermento de trigo, feito amassado com água e [vocalização] farinha com fermento de milho, e depois era amassado, tomava-se a [vocalização] a farinha com água morna e [vocalização] … Primeiro se tomava a farinha com fermento, e depois deitava-se-lhe a farinha de [vocalização] de trigo e deitava-se água que tomasse. Fazia pão fofo e fazia pão… Quando se ia à lenha – que antigamente ia-se à lenha com carros de vacas –, nesse tempo que o pão de trigo era hoje melhor que massa sovada hoje, realmente o pão era muito saboroso. Levavam queijo, levavam bananas, levavam [pausa] doce… Fazia-se doce para levar à le- nos dias da lenha, e fazia-se queijo em casa – queijo frescal – para comerem com esse dito pão de trigo cozido em casa. Mas pão para sopa nunca fizemos aqui no nosso lugar. [vocalização] O pão de leite era feito precisamente da mesma com os mesmos ingredientes da massa sovada, só que não levava leite [vocalização] ovos. Em vez de se pôr os ovos, punha-se o leite. Mas também não é uma coisa que se use muito. audio/CDR32.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] Uma outra coisa, a ma- as brindeiras de pão de milho antigamente eram usadas para fazer esmolas. Aparecia muita gente pobre a pedir [pausa] e [vocalização] havia pessoas pobres que [vocalização] não podiam cozer o pão. [pausa] Eu ainda me lembra de passarem pelo menos três, quatro pessoas. Eram pessoas assíduas todas as semanas. [pausa] E quando se tendia o pão já se fazia umas brindeirinhas para os pobres que iam passar a pedir, [pausa] umas brindeirinhas pequeninas. Ele por exemplo, ainda me lembra, era o tio Jeová de São Miguel, era um homenzinho já de idade – não sei com certeza que ele tenha vindo de São Miguel, mas chamavam-lhe o tio Jeová de São Miguel –, usava um bordão muito grande, debaixo do braço, por causa dos cães. E era uma casa de famílias de uma família pobre, ali, de raparigas, que tinha-lhe morrido o pai. E eram ali outras raparigas também que lhe tinha morrido o pai, as Jeremias. Eram estas as pessoas que todas as semanas passavam a pedir a sua brindeirinha de pão de milho. audio/CDR33.mp3 Cedros (Horta, Horta) E aqui há uma coisa muito interessante – agora já vai as pessoas se vão esquecendo mais –, é que uma pessoa solteira queria sempre comer a ponta do pão para se casar. [pausa] [vocalização] Quando era nas Porque quando se fazia as funções, as pontas das brindeiras – a gente chamava era as pontas das brindeiras – era cortada fora, não era delicadeza pôr a ponta da brindeira à mesa. E partiam-se aquelas pontas para o aquelas pontas da da massa. Mas lá vinha uma rapariga ou um rapaz: "Ah, dá cá essa ponta da brindeira, que eu quero-me casar"! Era uma graça mas era uma coisa engraça- mas era um costume. audio/CDR34.mp3 Cedros (Horta, Horta) Mistério. Era aquele caminho com aquelas pedras por baixo. Eles levavam albarcas. audio/CDR35.mp3 Cedros (Horta, Horta) Pois. audio/CDR36.mp3 Cedros (Horta, Horta) Mas é que praticamente as pessoas que cultivavam o ga- ovelhas era aqui esta zona. Pouco mais. Ele para, para esses lados A zona de trabalhar eram os Cedros. [pausa] A mulher dos Cedros é diferente. Não é por ser mas é… Ele trabalhar as lãs, trabalhar as palhas, trabalhar o linho, era praticamente só nos Cedros. [vocalização] Não quer dizer que não houvesse uma ou outra ovelha lá, que viessem com o porquito. Eu até, também então quanto a essa coisa da ovelha, estou muito recordada, que havia um guarda campestre do Capel- do Castelo Branco e havia um guarda campestre da [vocalização] Ribeira do Cabo, que vinha aqui no dia do ajuntamento. E eu penso que era por causa desses… Que eles traziam uns livros dos sinais. Portanto, a pessoa inscrevia-se e escrevia o seu sinal. E ia procurar [pausa] E ia procurar a ovelha pelo sinal. Os cordeiros, muitas vezes os cordeiros cresciam, porque nasciam uns mais cedo, outros mais tarde. Os cordeiros que estavam com as mães eram conhecidos porque andavam atrás das mães; os que já tinham sido crescidos, que já não tinham sinal, e que não se sabia quem era o dono, eram arrematados. [pausa] E [vocalização] não tinha dono, porque não tinha sinal nem tinha mãe. O que tinha mãe [vocalização] era assinado no sinal da mãe; o que não tinha mãe nem tinha sinal, era arrematado. audio/CDR37.mp3 Cedros (Horta, Horta) Ficavam à solta. audio/CDR38.mp3 Cedros (Horta, Horta) Mas [vocalização] a vaca com os galhos para baixo é menos anos. Daquela raça de gado antiga, normalmente tinham eram armadas. Podiam era ser mais curtos, ou mais compridos, ou mais fechados, ou mais abertos, mas descidos para o chão é desde que é desta raça holandesa. Antes não havia. E também se embolava as vacas, que é umas bolas de metal amarelo que se punha nas pontas dos galhos. audio/CDR39.mp3 Cedros (Horta, Horta) Mas mais perto. Não Não é transportado para terras longe. audio/CDR40.mp3 Cedros (Horta, Horta) O queijo então era posto o coalho na [vocalização] no leite e ficava ali um bocado. Havia Quando o leite era tirado da vaca e posto logo a fazer o queijo, não era preciso ser quente, mas se ti- se vinha da terra ou estava um bocado frio, levava-se ao lume, a um calorzinho pouco, só um arzinho, coisa que amornasse o leite. Depois fica o queijo o coalho a talhar o leite. Quando o leite era estava coalhado, que se via que estava bem coalhado, dessorava-se o leite. Cortava-se com uma faca, em quadros. Cortava-se [vocalização] a fazer quadrados e depois de estar dessorado, bem desso- ficava ali um bocadinho, uns dez minutos, ficava dessorado e deitava-se dentro dum coador. [pausa] Às vezes era um pano, bran- ralo, branco, que dessorasse o leite, outras vezes era mesmo num ralador, quando começou a haver raladores. Mas normalmente, o ralador mas com o pano por cima. Depois punha de estar dessorado, [pausa] punha-se para dentro da forma – a forma feita com uns furos nos lados. Punham a tábua por baixo, e [vocalização] para fazer vedação, e ia-se deitando o leite. O, o [vocalização] A massa dentro do, do da forma e com umas pedrinhas de sal… Havia quem deitava o sal na altura que dessorava o leite. Mas eu aí era: dei- deitava um bocado de [vocalização] de massa, umas pedras de sal, e ficava ali até ao outro dia. No outro dia de manhã … [pausa] Até havia que diziam que o queijo que… E realmente aguentar, aguentava-se melhor, mas não era mais saboroso do que o outro. Havia quem punha uma parte de leite desnatado e uma parte de leite inteiro, mas eu fazia era só com leite inteiro. E havia quem fazia o leite da cabra que ainda era então é que era um queijo mais saboroso, o queijo feito com leite de cabra. De maneira que depois aquilo ficava ali até ao outro dia. E às vezes me- tinha-se duas formas… Porque fazia-se, normalmente, era um queijo por dia para casa. Mas havia quem tinha duas formas: o queijo ficava ma-… Para ficar o o queijo mais aguentado, ficava dum dia para o outro e no outro dia é que se tirava a forma e [vocalização] e tornava-se a fazer o outro queijo. E curava, algumas vezes curava [pausa] uns dias, e outras vezes comia-se mesmo assim frescal. Havia aqui duas casas na freguesia – então não muito era distante daqui – que faziam muito queijo para vender. Faziam o seu leite quase todo em queijo para vender. E depois iam até vendê-lo às… [pausa] Uma Uma família não me lembro de passar. Mas havia outra senhora que até se chamava a Mulher dos Queijos. Porque ia vender à Praia do Norte, Capelo, e pôr a vender nos botequins. Havia ali uma grande [vocalização]… Elas faziam com canas. Tinham umas tiras de canas e fazi- que chamavam o [vocalização] o lugar de curar o queijo. Punham num lugar mais fresco e o queijo ia ali curadinho, queijo de oito dias, de quinze dias, e vendiam. Faziam muito dinheiro com esse queijo. Mas então [pausa] queijo para vender, [vocalização] e assim em certa abundância, era essas duas casas, ali na rua de cima. [pausa] E os outros só faziam para seu uso. audio/CDR41.mp3 Cedros (Horta, Horta) Tinham asa. Era o cesto do estilo do [pausa] do cesto da [vocalização] de meter o milho em casa, só que era em ponto mais pequeno. audio/CDR42.mp3 Cedros (Horta, Horta) Sim. audio/CDR43.mp3 Cedros (Horta, Horta) Há quarenta anos para trás não havia frutas nos Cedros, muito pouca. Banana, a banana então é uma fruta antiga aqui nos Cedros, mas não muita. Mas as laranjas, por exemplo, [vocalização] os Flamengos é que era o lugar da laranja. E havia aqui os vendilhões de peixe deste lugar, vendiam peixe e vendiam fruta. Por exemplo, de Inverno – e até vendiam peixe escalado –, passavam a t- a trocar por milho. Portanto, quando é que se comprava fruta? Era praticamente só por o Natal. [pausa] Havia muito pouca… Eram muito raras a, contavam-se as casas nos Cedros que tinham quintais com fruta. E [vocalização] E mais para a zona baixa da freguesia, mais para a para as Areias, aonde era o lugar mais abrigado, havia umas recostas e as pessoas plantavam… Mas até era plantavam era em [vocalização] recostas de ribeiro. Não era quinta feita. Era numas recostas e a-, abrigadas, e davam as laranjas. A maçã então foi uma fruta que sempre houve. audio/CDR44.mp3 Cedros (Horta, Horta) [vocalização] poderá haver alguém que use mas só comprando n- no mercado. audio/CDR45.mp3 Cedros (Horta, Horta) é que começaram os médicos a aconselhar que era bom dar sopa de esp- de espinafres ele às crianças, aos bebés, e então já começaram a cultivar. Mas ainda não é uma comida que seja de [vocalização] do dia-a-dia, das pessoas. É mais para bebé ou… As pessoas como não foram habituadas nem se habituaram nem gostam. audio/CDR46.mp3 Cedros (Horta, Horta) O leite fervido com o alho, [pausa] também se usava muito quando a pessoa tinha tosse, que era um bocado esquisito de beber. E não era só o ser esquisito de beber, é que ficava sempre a dar aquele cheiro. A pessoa arrotava ou e ficava sempre a dar aquele cheiro ao alho, mas era bastante bom. audio/CDR47.mp3 Cedros (Horta, Horta) Até que hoje já toda a gente que faz batata de Verão, ou que faz peixe, faz acompanha com salada, com tomate, com com a, a, a a cebola [vocalização] às fatias, às rodelas, com a com a alface, que já hoje se usa muito mas não se usava. audio/CDR48.mp3 Cedros (Horta, Horta) E há a malaguetinha miudinha, que se chamava a malaguetinha-putinha. audio/CDR49.mp3 Cedros (Horta, Horta) Aqui abóbora também havia mas não tantas. [vocalização] Era mais o mogango. Agora já há e já há muita qualidade de abóbora. [vocalização] Fazia-se com a abóbora: assava-se a abóbora no forno… Também se coziam abó- os mogangos, e também se assava o mogango no forno. Por exemplo, no Verão, quando se cozia a batata punha-se cada uma sua talhada de mogango para comer com a batata. E também se assa-… Eu nunca fui então… Na nossa casa nunca se usou muito. E fazia-se comer de mogango, [pausa] que era descascar o mogango, cozê- deitá-lo aos bocadinhos e cozer… [pausa] Cozia-se o mogango… Isso foi uma comida que eu nunca fiz; já comi, mas eu não com- mas eu nunca fiz; era no tempo da minha mãe é que se fazia muito. Chamava-se comer de mogango. Era o leite fervido, cozia-se o mogango [pausa] em água, secava a água e depois cozia-se. Depois punha-se o leite no no mogango a ferver, e fervia o leite no mogango, e deitava o leite e o mogango em cima das sopas do leite e chamavam comer de mogango. Havia pessoas que gostavam muito. Eu, por mim, nunca gostei muito mas mesmo também nunca fiz. audio/CDR50.mp3 Cedros (Horta, Horta) Não, também ele a batata a batata é semeada na horta, que de cedo costuma-se a semear os um cestinho de asa – ou dois cestinhos – dessas batatas para chegar [vocalização] mais cedo, que não há Espírito Santo sem batata nova. Tem que se ter a batata nova para comer com a carne fresca. Portanto, aí era semeada ao rego, à enxada, mas sempre ao rego. Mas essa batata que é semeada assim de cedo, é também semeada com estrume. Põe-se o estrume no fundo do rego. E antigamente não era assim porque é como eu eu estou sempre a dizer que [vocalização] não havia possibilidades. Havia pouca comida para o gado. Cortava-se os tremoços… Hoje já não se faz assim. Arranca-se o tremoço, põe-se no fundo do rego, e põe-se adubo, que eu ainda me lembro de não se tra- cultivar nada com adubo. Era só à base do estrume. [vocalização] Já hoje há pouca há muita casa que já não faz estrume para nada, só cultiva à base de [vocalização] de adubo, de adubagem, ou de [vocalização], de das ervas, do do tremoço. Porque o tremoço, há três, quatro anos para aqui, desapareceu. [vocalização] Há muito pouco [vocalização]… O que há de tremoço, pode-se dizer que é quase como uma [vocalização] uma re- uma recordação do do que havia. Não há tremoço. O tremoço de- deixou de haver. Ou a doença do tremoço, ou ou a doença da terra, o tremoço deixou de de dar. Mas cultiva-se a fava e a aveia, o centeio, porque faz o o outono no lugar do tremoço. Porque o tremoço já hoje não faz falta para o para o gado. Fazia, fazia falta Faz falta para estrumar as terr- as terras. Mas para o gado não faz falta porque [vocalização] vem o trevo substituir e vêm os outros comeres mais doces, que o tremoço amargava e o gado também já não gostam tanto. audio/CDR51.mp3 Cedros (Horta, Horta) Por exemplo, quando se semeava agora no mês de Novembro, que se semeava as favas, em volta da terra das favas, elas semeavam ervilhas. Era a ervilha de cedo. Mas elas não comiam aquelas ervilhas. Iam vendê-las para a cidade – que era uma coisa apreciada porque chegava muito cedo –, para com esse dinheiro irem comprar as suas os seus açúcares e as suas… Que praticamente era açúcar. Porque a manteiga era feita do leite de casa, o, o [vocalização] [pausa] a farinha era do trigo, mas precisavam de comprar o açúcar, e precisa-, e, e preci-, e com isso era com esse dinheiro das ervilhas. audio/CDR52.mp3 Cedros (Horta, Horta) Que naquele tempo só se falava em canadas e não em litros. Portanto, as pessoas iam comprar o vinho à [vocalização] à Fajã ou à Praia do Norte. audio/CDR53.mp3 Cedros (Horta, Horta) "Está muito emacacado". Também se ch- Também se chamava macacos. Fazer os macacos para espantar o trigo. Mas depois de estar lá posto no seu lugar, eram os espantalhos. Mas até também se vigiava a praga ao trigo. Íamos para… No tempo de semear, não tanto, mas no tempo de de ele amadurecer… Porque a praga aqui dava mais perda no trigo quando [vocalização] se começou a cultivar trigos de fora. Quando era o trigo da terra, do de cá, não… Porque muita gente cultivava o trigo, não [pausa] não me consta. Eu lembro-me de começar a haver muita praga no trigo. Era quando se começou a vir os trigos de fora: era o trigo-branco, o trigo-quaderno… Era outro trigo, eram outras sementes de trigo, talvez com menos pragana, a praga entrava melhor na na espiga do trigo. Portanto, nessa altura de o trigo amadurecer, [vocalização] punham-se os espantalhos e punham-se campainhas, espalhadas pela terra e puxava-se pelo cordão. E ia-se trabalha- levava-se os trabalhos para a terra, fazia-se renda, ele fazia-se trança e [vocalização] – as tranças dos chapéus de São João. Porque o dia de São João era um dia de f- de roupa nova, como a festa do Espírito Santo. Aqui, ele usa-se os trajes novos é pela festa do Espírito Santo. E no dia de São João, era um vestido de chita, ele podia ser umas galochas n- – que não é já do me- muito do meu tempo, mas podiam ser umas galochas… Ou poderia E muita gente ia descalça também ainda à de São João! Ou poderia ser… Ele, mas então, o chapéu de palha é que não faltava! [pausa] O chapéu para ver qual é que fazia o chapéu mais bonito, com a palha mais, com tranças… Fazia-se tranças de oito palhas. O senhor talvez não tenha tido ocasião de ter visto lá na na casa, mas lá tem o mostruário das tranças que se faziam antigamente. Fazia-se trança com onze palhas, fazia-se com catorze, fazia-se com doze, mas não era só virar a palha e fazer a trança. Era enfeitar! Fazia-se uns arrendados na trança que faziam o chapéu mais bonito. Portanto, [vocalização] ia-se da parte da manhã e da parte durante o dia [vocalização] a praga fugia mais. Mas à tarde e de manhã, a praga apertava muito, levantávamos ali de cedo… Eu também já cheguei a vigiar a ir vigiar ele a praga ao trigo. Portanto, a gente levantava-se de manhãzinha cedo, ali ao amanhecer… Era lindo! Ouvir as chilreadas dos melros ou ver o sol a nascer e, de Verão, não havia frio, era uma uma manhã amena, [vocalização] muito agradável, íamos vigiar o trigo, a p- a praga ao trigo. audio/CDR54.mp3 Cedros (Horta, Horta) Era uma foice. Havia Ceifava-se com uma foice de mão. [vocalização] Eram os homens a ceifar… Havia também senhoras que ceifavam, mas não muitas. Era normal era os homens a ceifar e as mulheres atrás a amarrar, a fazer os molhos para depois se levar para a eira. Que eu ainda apanhei [pausa] o começar a debulha com as debulhadoras. Era a [vocalização] Chamava-se um calcadoiro de trigo, debulhar o calcadoiro. [vocalização] Havia pessoas que [vocalização] tinham muita terra de trigo, pessoas mais abastadas e que [vocalização] se- [vocalização] debulhavam três, quatro dias no Verão. Se-, semeava-se o t- [vocalização] Ceifava-se o trigo e, muitas vezes, havi- também não havia muitas eiras… Havia pessoas que tinham… Havia mais trigo do que eiras. As pessoas faziam os relheiros do trigo; enrelheiravam o trigo e ficava na terra [pausa] à espera; muitas vezes, à espera que fizesse bom tempo, outras vezes à espera que tivesse lugar na eira para [vocalização] para debulhar o trigo. Portanto, o dia de ceifar o trigo, havia quem ceifava de manhã à noite e dava jantar – porque aqui jantar é a refeição do meio-dia. [vocalização] Mas também havia pessoas que só ceifavam da parte da tarde; da parte da tarde iam ceifar o trigo. Outras vezes, debulhava-se o trigo e, se era um dia de muito bom tempo e de muito bom vento, ainda dava tempo de se debulhar o calcadoiro e limpar e à tarde ir ceifar um bocadinho do trigo. [pausa] Mas [pausa] ceifa- debulhava-se o trigo na eira com dois, três dois trilhos. Normalmente era dois trilhos; quando era uma eira maior, era com três juntas de vacas e três trilhos. Aquilo era a festa da rapaziada, porque quando aquilo estava a correr bem, que já o trigo estava mais calcado, que se estava só ali a moer a palha, as crianças iam para cima dos trilhos, andar-se nos trilhos. audio/CDR55.mp3 Cedros (Horta, Horta) Numa paveia. Era uma paveia de trigo. Fazia-se as paveias. [vocalização] Havia pessoa Porque havia pessoas que lhe rendia uns muito mais do que os outros a [vocalização] [pausa] a ceifar. Portanto, eles iam pondo aquilo num carreiro e nós íamos atrás a [vocalização], a [vocalização] a amarrar, a amarrar o trigo. Depois de o trigo estar amarrado, em molhos, carreava-se para o monte, e eram os homens que faziam os relheiros. Mas ainda depois ia-se respigar a terra, [pausa] juntar aquelas espigas, aqueles pés de trigo, que por acaso tivessem ficado espalhados e escangalhados pela terra. E então isso fazia-se já num, num monte e [vocalização] [pausa] numa mão e já não era tão amarrado tão bem arranjado como os molhos de vime. Era mais como num embrulhado. audio/CDR56.mp3 Cedros (Horta, Horta) E depois esfregava-se em cestos, quando aquilo ficava… Ficava batido mas não ficava bem… E depois punha-se o cesto na beira da na banda do combro da eira e esfregava-se a maunça para cair o resto do trigo no [vocalização] dentro da eira. audio/CDR57.mp3 Cedros (Horta, Horta) Não se faz [vocalização] já… O trigo desapareceu; semea- malhava-se o tremoço, também está com tendência mesmo a desaparecer e mesmo já havia muito pouco. Porque a eira era muito… [vocalização] A maior importância de a eira ser redonda era para a debulha do trigo. Porque para um malhar o tremoço, ou outra coisa que se malhe, tanto faz ser redonda como quadrada, porque malha-se de qualquer maneira. O trigo é que tinha que ser redondo para a vaca poder andar de roda. audio/CDR58.mp3 Cedros (Horta, Horta) Pegavam na parte estreita e com o adorno… Era muito difícil! audio/CDR59.mp3 Cedros (Horta, Horta) E fazia-se massa sovada pela festa do Espírito Santo. Algumas pessoas, mas poucas, faziam também por Páscoa, mas não era muita gente. O que era normal depois as casas fazerem era pelo Espírito Santo e pelo São João, os bolos de São João. Portanto, as pessoas dividiam os seus as suas raçõezinhas de trigo conforme podiam; o outro vendiam-no. audio/CDR60.mp3 Cedros (Horta, Horta) É um jornal [vocalização]… E lá aconselham muita coisa da agricultura. E eu li já há muitos anos que a comida seca, desde que perca o sumo, mas que fique com a cor verdoenga, que é muito melhor para o gado. E eu, desde isso, tenho sempre isso em mente e gosto sempre de a gente pôr o comer seco mais cedo em casa. Portanto, a [vocalização], a pa- a espiga ia para casa, e quando a maçaroca está seca, ou, ou ou quase seca, desfolha-se a folha. "Vamos desfolhar a folha"! Quando há muita folha seca, desfolha-se a folha seca separada da folha verde. Quando a folha a maçaroca está a modo de desfolhar a folha, mas está a folha muito verde, desfolha-se tudo a eito. E amarra-se em gavelas e pendura-se no milheiro do milho ou na [vocalização] no valado, entre o valado das canas, porque normalmente nós aqui as nossas terras todas são rodeadas por abrigos de cana. [vocalização] Depois quando o milho está bem maduro – que é o que não acontece já hoje tanto, mas ant- antigamente o milho era todo seco no forno… O milho quando estava bem maduro, era apanhado, trazia-se para casa, em carradas, e posto na loja ou nas atafonas. E muitas pessoas nem tinham cá lugar onde pôr, punham [vocalização] em palheiros pequeninos e co-. Normalmente o milho é trabalhado é de serão, à noite. À noite, depois da ceia, juntavam-se os vizinhos. Nunca ninguém faz serão sozinho! São as pessoas amigas, as pes- as vizinhanças ou as famílias. Juntavam-se à noite para descascar o milho. [vocalização] No meu princípio, por exemplo, a gente sempre pusemos o milho na nossa loja da casa. Mas só se descascava o milho na loja; e depois o milho era posto nos cestos e carreado para cima para casa, onde se punha. E uma parte do milho era esbichado, escolher o podre do são, e posto para outro lado. Portanto, havia uma parte de pessoas que estavam na loja a descascar o milho e a quebrar – uns abriam, outros quebravam –, em cima, uns a esbichar. Quando se acabava ou quando não se podia acabar tudo mas chegava perto das nove horas, se não havia milho debulhado para se poder deitar no outro dia no forno, acabava-se o serão, ficava por descascar. Muito raro, ficava por acabar de esbichar. Acabava-se de esbichar, para ficar limpo, limpava-se o podre para um canto e começava-se a desfolhar o milho. Debulhava-se o milho mole. [vocalização] Debulhava-se Uma fornada de milho normalmente eram dez alqueires, mole. Ele debulhava-se o milho; no outro dia de manhã, aquecer o forno… [vocalização] Aquece-se o forno não como é para pão de milho, mas quente. E depois de estar quente, não se aquecia o forno senão com canas – porque a cana é uma coisa que dá calor mas não dá muito lar, para o milho não ficar muito co- com muita cor – e punha-se o forno a descansar. O forno descansava aí três quartos de hora, uma hora, depende, conforme as pessoas querem. [vocalização] Punha-se o forno a descansar e depois varria-se. Varria-se o forno, puxava-se o rescaldo para fora – chamava-se o rescaldo –, puxava-se para fora com o rodo, e depois varria-se com [vocalização] com os varredoiros. Agora varre-se com, com com o criptomério, mas antigamente era com os varredoiros de pica-cu. Primeiro se varria… Até a espiga que dá na cana do folião também muita pessoa fazia varredoiro com isso. E [vocalização] o [vocalização], o [vocalização], a fo-, a hortense a folha da hortense – que no di- no mês de Outubro já não há a folha flor de hortense, há a folha –, portanto, aqueles galhinhos partiam-se e fazia-se o varredoiro. E o último varredoiro era passado com o pica-cu. Agora até, recentemente – antes não, mas agora –, já se faz o varredoiro com a casca do milho. Aquela casca mais branca e mais fina, junta-se ali um [vocalização] uma mão grande dela, aperta-se bem apertada e faz-se a casca. A casca varre muito bem. Porque molha-se a casca na [vocalização] [pausa] na água, e aquela casca com aquela água vai e limpa aquela cinza que fica no lastro do forno. Há pessoas que até fazem – eu, por exemplo, faço muita vez – com um pano. Um vestido velho ou uma roupa velha, amarro e [vocalização] no varredoiro – por fora do varredoiro amarra o pano –, e pa- e molho na água, e varro, que chama-se lavar o lar do forno, bem lavado. Depois deita-se o for- o milho no forno. Antigamente era tudo em balaios, enchia-se a fornada. Agora já encho é na [vocalização] em sacas. Encho três sa- alqueires em cada saca e ponho em cima de umas cadeiras. E [vocalização] cha- Porque antigamente as pessoas tinham quem ajudasse a pôr o milho no forno, uma ia mexendo o milho, outras iam deitando logo para o forno. Agora eu faço tudo sozinha. Varro o forno e depois pego numa saca e deito no forno. A primeira vez A primeira saca com o milho que vai para o forno, eu mexo, mexo, mexo, para aquele milho ficar quente, para puxar aquele calor de que está no forno. Se o forno tem muito calor, que estala muito o milho, nunca se pára de mexer que é para não deixar torrar o milho; se não tem muito calor, deixa-se descansar, aquele milho a aquecer. Mexe-se uma ve- uma vez ou outra… Eu, normalmente, quando acabo de pôr o milho no forno, a última saca de milho que ponho no forno, já o primeiro está a três quartos de hora, uma hora. Porque já o outro milho está quente, [pausa] e já puxou mais o calor, e não é preciso mexer tanto como antigamente. audio/CDR61.mp3 Cedros (Horta, Horta) Para [vocalização] o mi- Eu agora já não faço assim. Eu não faço assim porque me ensinaram assim. Depois o milho começava… [vocalização] "Já está acolá leve"! Começa a ficar enxuto, depois aquilo sai um fumo. Quando o milho está muito… [vocalização] Sai um fumo, o bafo, e a gente põe o forno mal tapado, para aquele fumo sair pelo lado da porta do forno, para não deixar o milho suar. [pausa] Depois o milho começa a rolar leve e fica [vocalização] seco. No outro dia tira-se para fora e torna-se a fazer a mesma coisa. Só que agora já se faz diferente do que se fazia antigamente. Apanha-se o milho mais lento porque não é seco no forno, é pendurado na rua. O milho que é pendurado mais lento não não cria tanta borboleta nem tanto [vocalização] gorgulho. O que é para secar é que se deixa amadurecer mais. Cultivamos agora o milho híbrido, que é um milho diferente do, do do que era da terra, que é muito fácil de secar. A gente deita aquele milho no forno [pausa] e ele tem pouca pevide, chupa num instante. Deita-se com mais calor porque não é para fazer pão, não precisa ficar muito branco; deita-se com mais calor e é muito fácil de secar. Mexe-se Mexe menos e é muito mais fácil de secar.