texto,sumario "Empresa fadada ao insucesso tem duas caras: uma real, outra para o cliente. Na hora de vender, promessas; quando o cliente confere, decepções. É difícil encontrar o responsável, quando a empresa não é direcionada à satisfação total dos clientes. Nas estruturas tradicionais de empresas, onde o mando predomina sobre a responsabilidade individual, não é possível sequer aprender em cima dos próprios erros. Faz-se de tudo para que não haja registro do erro, para que ele não seja do conhecimento dos que detêm o poder de mando. É preciso inverter a estrutura, colocando o cliente como a pessoa mais importante da organização. Mas isso não pode ser apenas um discurso de boas intenções. Vai exigir mudanças para as quais existem duas palavras-chave: delegação e cooperação; disseminação das informações. 1 SATISFAÇÃO DO CLIENTE Colocar a pessoa certa, na hora certa, para fazer certo, da primeira vez, o que o cliente deseja. Este é o padrão de excelência desejado. Mas será que existe mesmo na organização o ""lugar certo"" para essa ""pessoa certa""? Será que a estrutura da empresa está direcionada à satisfação total do cliente? A maioria das empresas possui estruturas tradicionais de comando, onde o cliente relaciona-se com as pessoas que têm menor poder de decisão. Existe uma distância enorme entre os que detêm o poder (a direção superior) e o cliente. O ovo de Colombo é revirar totalmente esta estrutura superada. E adotar a ""pirâmide invertida"" da Qualidade Total. Aí, as pessoas mais importantes na organização passam a ser as de atendimento e vendas. São elas que têm contato direto com o cliente. Os demais funcionários são responsáveis pelo bom desempenho do pessoal de frente. A direção fica na base da pirâmide: seu papel é dar sustentação à finalidade de bem atender. A delegação de poder é fundamental nesse tipo de organização participativa e cooperativa. Os acontecimentos mais importantes não são as reuniões de chefia, mas os momentos em que a empresa tem contato direto com o cliente, os ""momentos da verdade"". A empresa passa a estruturar-se para transformar em sucesso esses ""momentos da verdade"". Por isso, os clientes estão no topo do organograma. Todos os demais setores se transformam em fornecedores de facilidade para os eventos de satisfação do cliente. O fluxo de operações estará direcionado para o atendimento do cliente. 2 RELACIONAMENTO COOPERATIVO A responsabilidade compartilhada e o trabalho em equipe só poderão se desenvolver se a estrutura permitir uma interação constante entre as áreas. A empresa toda é um macroprocesso, uma equipe única voltada para o objetivo comum de atingir altos níveis de produtividade, com a manutenção e a conquista de novos clientes. 3 DISSEMINAÇÃO DE INFORMAÇÕES O fluxo de informações que parte do cliente (pedidos, avaliações, reclamações, expectativas) passa pelos diferentes departamentos da empresa e deve retornar como resposta e solução, de maneira ágil, ao cliente. O fluxo da decisão e a cadeia cliente-fornecedor devem estar alinhados aos valores que o cliente preza: cortesia, presteza, eficiência, receptividade e personalização. É conhecido o fenômeno de ""ruído na comunicação"": a informação se enfraquece e deforma quanto maior o número de transmissores e receptores intermediários. É comum a gerência desconhecer a realidade da operação ""na ponta"". A perda de competitividade é a consequência mais direta da falta de agilidade nas decisões, perda de informações, aumento da burocracia interna, pois, nos ""momentos da verdade"", o funcionário precisa tomar decisões que implicam, muitas vezes, questões vitais para o cliente. Frequentes consultas aos níveis superiores causam perda de tempo e dinheiro. A redução dos níveis hierárquicos ao mínimo necessário traz agilidade. Experimente. ","A satisfação total do cliente é a meta fundamental de uma empresa moderna. O alcance desse objetivo significa o sucesso dela. Nas empresas tradicionais , o culto da figura do chefe ou diretor levava os funcionários a não corrigir erros, mas a ocultá-los a fim de não desagradar-lhe. Na empresa moderna, é primordial inverter essa primazia. O que vai exigir delegar decisões, incentivar o espírito de cooperação e disseminar informações. Os funcionários que contatam diretamente com o cliente devem ter bastante autonomia de decisões , a fim de que este confie neles. Portanto, o seu nível de competência para tal função deve ser o melhor possível. Os demais participantes da empresa devem constituir-se em suporte para a sua eficiência . O relacionamento cooperativo deve ser resultado da interação estrutural entre as áreas. Ele pressupõe compartilhar responsabilidades , evitar estrelismos , com vistas a otimizar a produção e a conquistar novos clientes. O pedido de informações ou sugestões dadas pelo cliente devem fluir rapidamente pelos diversos departamentos da empresa, e o resultado retornar com a mesma presteza, para que as decisões do funcionário-atendente conquistem o cliente e não o percam para o concorrente. " "A empresa Produtos Pirata Indústria e Comércio Ltda., de Contagem (na região metropolitana de Belo Horizonte), deverá registrar este ano um crescimento de produtividade nas suas áreas comercial e industrial de 11% e 17%, respectivamente. Os ganhos são atribuídos pela diretoria da fábrica à nova filosofia que vem sendo implantada na empresa desde outubro do ano passado, quando a Pirata se iniciou no Programa Sebrae de Qualidade Total. Dona de 65% do mercado mineiro de temperos, condimentos e molhos, a Pirata reúne atualmente 220 funcionários. A coordenadora do programa de qualidade na empresa, Márcia Cristina de Oliveira Neto, disse que ainda não é possível dimensionar os ganhos financeiros que ""certamente"" a empresa terá, em consequência da melhoria da qualidade de seus produtos e serviços. Por enquanto, os benefícios mais visíveis, segundo ela, são a organização e a limpeza da fábrica. ""Também a relação entre as pessoas tem melhorado bastante. As informações estão mais claras e os funcionários e clientes, mais satisfeitos."" O resultado da satisfação dos funcionários, segundo ela, pode ser medido pela eliminação do desperdício de matérias-primas no processo de produção. ""Para se ter uma idéia, antes de adotarmos o programa de qualidade, o refeitório da fábrica jogava fora, diariamente, 48 quilos de comida ou 70 refeições. Agora esse número está caindo a cada dia e a nossa meta é zerá-lo"", diz Márcia Cristina. Ela conta também que outro grave problema de desperdício enfrentado pela empresa dizia respeito à linha de produção. ""Estamos conseguindo economizar bastante, só com a diminuição da perda de alho e sal, que caem no chão na hora da pesagem"". Maria Cristina diz que, quando se adota um programa de qualidade, não se pode querer resultados imediatos. Para ela, isso é a causa, invariavelmente, para a maioria dos fracassos das empresas que se iniciam no programa. Ela também afirma que a educação e a mudança de mentalidade dos empregados, princípios básicos para a implantação do processo, têm um custo alto para as empresas. ""A gestão da empresa passa a ser mais participativa. Isso implica também mudanças radicais no comportamento dos membros da diretoria da empresa. A situação passa a ser de troca."" Como consequência, os funcionários da Pirata se tornaram mais exigentes. ""A primeira exigência foi a implantação de algum tipo de lazer na hora do almoço. Pusemos mesas para jogos de cartas e reformamos os banheiros. Procuramos atender as reivindicações na medida do possível"", diz. Márcia Cristina conta que a empresa passou a encarar esse tipo de benefício como um investimento. ""Os funcionários trabalham mais satisfeitos, diminuem o retrabalho com a eliminação do desperdício e, além de aumentar a produtividade, passam a cobrar mais qualidade das matérias-primas."" Segundo Márcia Cristina, todo esse trabalho se reflete no aumento das vendas. ""A partir do momento em que se tem produtos com qualidade, os clientes ficam mais satisfeitos e a demanda por seus produtos passa a ser maior"", diz. Fundada em 15 de março de 1972, a Pirata possui capacidade instalada para produzir 5.750 toneladas anuais de temperos, condimentos e molhos. Atualmente ela opera com 55% da sua capacidade e atua nos mercados de Minas, Rio, Distrito Federal e interior de São Paulo. ","A empresa Produtos Pirata Indústria e Comércio Ltda. , sediada em Contagem-MG , dona de 65% do mercado mineiro de temperos , espera este ano um crescimento de produtividade significativo nas áreas comercial e industrial. Segundo a diretoria, isso será resultado da adesão da empresa ao Programa Sebrae de Qualidade Total. A coordenadora do programa de qualidade reconhece que ainda não é possível calcular os inevitáveis ganhos financeiros , e que os benefícios mais palpáveis aparecem na organização e na limpeza da fábrica , além da melhoria da relação entre as pessoas e da clareza de informações , com resultados evidentes na satisfação de funcionários e clientes. A eliminação de desperdício , quer no refeitório da empresa, quer na linha de produção já é bastante significativo. A expectativa de resultados imediatos, segundo a coordenadora, é um dos erros de empresários que adotam o programa. Até porque o investimento na educação e mudança de mentalidade do funcionário , apesar de rendoso, tem um prazo de gestação. E forçosamente deve haver , também, mudanças radicais nos membros da diretoria. A maior participação dos funcionários na gestão da empresa torna-os mais exigentes , por exemplo, exigiram a implantação de algum tipo de lazer na hora do almoço. Apesar do custo, o retorno vem na satisfação deles, que trabalham melhor e produzem mais. Os resultados com a qualidade do produto só podem significar lucro. " "Ainda que comece em 1922, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, o segundo módulo da ""Bienal Brasil Século 20"" tem origem em 1917, ano em que Anita Malfatti (1896-1964) faz sua primeira exposição individual em São Paulo. A exposição provoca grande rebuliço. O escritor Monteiro Lobato faz uma crítica à exposição, chamada ""Paranóia ou Mistificação?"", em que condena a adesão de Malfatti ao cubismo, futurismo ""e outros ismos"" que então surgiam na Europa. Com influência inicial do expressionismo alemão, Malfatti vai contra a tendência neoclássica da arte brasileira do início do século. Para o curador da Fundação Bienal, Nelson Aguilar, Lobato ficou chocado com a economia de traços e a franqueza de cores de sua pintura. Malfatti também volta sua técnica moderna ao mundo rural brasileiro, usando motivos primitivistas em seu trabalho. A atitude é inédita. Mas, segundo a curadora do módulo, Annateresa Fabris, a modernidade que São Paulo começaria a adotar não é a prescrita por Malfatti. Fabris dá o exemplo de Victor Brecheret (1894-1955), cuja aceitação pelo meio intelectual foi muito maior. Para Annateresa, Brecheret lançava mão de referências do passado, em diálogo com a tradição da escultura, e isso lhe rendeu sucesso entre os críticos paulistas. A modernidade que lhes interessava seria, então, mais de conteúdo que de forma, mais de ordem que de ímpeto destrutivo -o contrário do que pregava a maioria das vanguardas internacionais. ""A estética de Brecheret não chocava o senso comum da época"", diz Annateresa. Outro exemplo desse comportamento é o temor que o escritor Mário de Andrade manifestou à pintora Tarsila do Amaral (1890- 1973). ""Ele temia que a temporada que Tarsila passaria em Paris fosse 'despersonalizar' sua linguagem artística."" Ali se começa a formar um ""discurso nacional"", diz Annateresa. O que críticos como Sérgio Milliet e Mário admiravam em Tarsila era sua ""brasilidade"". Para Annateresa, esse discurso impediu a avaliação de características importantes nas obras de Anita, Tarsila, Di Cavalcanti (1897-1976), Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970), Lasar Segall (1891-1957) e Oswaldo Goeldi (1895-1961). Ao mesmo tempo, consagrou pintores apenas por mérito temático. O maior exemplo, segundo Fabris, é Cândido Portinari (1903-1962). Mário de Andrade o converte em protótipo do artista nacional. Já é a década de 30. Desse período em diante, julga Aguilar, a arte moderna brasileira ""entra num figurativismo cada vez mais dogmático"". Segall, por exemplo, depois da ousadia de ""Paisagem Brasileira"" (1925), volta às cores sombrias e formas conservadoras de seu expressionismo. A consequência disso é exemplificada pela trajetória da pintora portuguesa Vieira da Silva (1908-1991) na década de 40. Radicada em Paris desde os anos 20, ela vem para o Brasil em 1940 e, para ter repercussão aqui, praticamente abandona seu abstracionismo (leia definição abaixo). O outro curador deste segundo módulo, Tadeu Chiarelli, se dedicou a pensar nos artistas ""marginalizados"" por aquele discurso nacional -e não só por ele. ""Também houve os que foram postos à margem por não ser de vanguarda"", diz Chiarelli. Ele encaixa nessa categoria, entre outros, Anita Malfatti, porque voltou à ordem, a repensar a tradição; Flávio de Carvalho (1899-1973) e Ismael Nery (1900- 1934), cujas obras são ousadas e conturbadas; e Maria Martins (1900-1978), por sua investigação do irracionalismo. ""Vamos mostrar uma visão não-institucionalizada do modernismo"", diz. ""É preciso rever as obras dos artistas independentemente dos grupos a que pertenceram."" ","Anita Malfatti , com sua exposição individual de pintura em 1917, dá os primeiros sinais da Semana de Arte Moderna de 1922. A polêmica em torno do acontecimento ficou marcada na crítica de Monteiro Lobato no artigo “Paranóia ou Mistificação”, em que ele condena as influências do cubismo e futurismo , tendências em voga na Europa. Sob influência inicial do expressionismo alemão, Malfatti se opõe à tendência neoclássica da arte brasileira do início do século XX. Procura inspiração , também, no primitivismo do mundo rural brasileiro. Segundo Annateresa Fabris, curadora do segundo módulo da “Bienal Brasil Século 20”, a modernidade adotada por São Paulo não foi a de Anita, mas a de Victor Brecheret, que interligava referências do passado com a tradição da escultura. O senso comum dos paulistanos não se chocava com a estética de Brecheret, menos destrutiva e mais voltada para temas nacionais. A crítica se mostra empenhada em valorizar a elaboração de um “discurso nacional”, que priorizasse a brasilidade temática mais do que tudo. Mário de Andrade, por exemplo, considera Cândido Portinari o modelo do artista nacional, por esse motivo. Tal prisma impediu a avaliação de características importantes nas obras de outros artistas da época. A partir de 1930, segundo Aguilar, curador da Fundação Bienal, a nossa arte “entra num figurativismo cada vez mais dogmático”. A moda acaba levando alguns artistas a abandonarem outros vôos e a se enquadrarem. Outro curador do segundo módulo, Tadeu Chiarelli , se preocupou em mostrar os efeitos redutores desse enquadramento para a avaliação da obra de certos artistas. " "Ao primeiro minuto da próxima quarta-feira as nove capitais provinciais da África do Sul ouvirão pela primeira vez, ao menos oficialmente, os sons de ""Nkosi Sikeleli Afrika"" (""Deus Abençoe a África""). É o novo hino nacional oficial, depois de ter sido, anos a fio, o hino clandestinamente cantado pela maioria negra, submetida ao apartheid, o nefando regime de segregação racial. Bem que a África do Sul vai necessitar das bençãos dos deuses depois das eleições marcadas para os dias 26 a 28. Em seus 1,22 milhão de quilômetros quadrados, vão ensaiar uma difícil convivência 40,4 milhões de pessoas, divididas entre 5,1 milhões de brancos, 3,4 milhões de mestiços e 30,7 milhões de negros, por sua vez, subdividos em 11 etnias diferentes. Desde que, em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais estabeleceu sua primeira colônia na costa sul-africana, brancos e negros amaram odiar-se. Antes e depois, negros de uma tribo matavam os de outra. Em 1990, depois de 338 anos de cruentos conflitos, seus líderes decidiram trocar os fuzis pelo diálogo, em busca de um fim negociado do apartheid. O processo reduzira à miséria uma majoritária fatia da população negra e conduzira ao fausto a elite branca. As eleições desta semana são o ponto de chegada dessa negociação, um desses raros momentos que de fato merecem a qualificação de históricos. Até banqueiros, habitualmente frios, recorrem à retórica incandescente para avaliar a situação. ""O processo de transição em andamento envolve, talvez, o mais substancial realinhamento de poder político, militar, social e econômico jamais completado em uma mesa de negociação, em vez de no campo de batalha, incluindo o Oriente Médio, a Europa Oriental e a antiga União Soviética"". A avaliação foi publicada em folheto do Salomon Brothers, banco internacional de investimento. Tarefa tão ciclópica não se limitou, no entanto, à mesa de negociação. Por indefinidos campos de batalha ficaram, nesses quatro anos de diálogo, os corpos de 13.724 pessoas, conforme o mais recente cômputo da Comissão de Direitos Humanos. Quase dez mortos por dia, só pela violência política, sem contar a elevada cota da criminalidade comum (16 mil assassinatos apenas no ano de 1992). Seria otimismo desmesurado supor que a realização da primeira eleição multirracial, por mais histórica que seja, basta para pôr fim à violência, política ou comum. Os conflitos tribais que ensaguentam boa parte do mapa africano e as guerras étnicas em plena Europa assombram uma África do Sul democrática. ""As experiências da África independente, da Iugoslávia e da ex- URSS demonstraram claramente como é difícil substituir identidades étnicas individuais por um compromisso com um único e abrangente nacionalismo"", admite Zola Skweyiya, advogado do partido Conselho Nacional Africano (CNA), o mais provável ganhador da eleição. O período pré-eleitoral dá razão a ele. Pelo menos uma parcela dos brancos começa a se concentrar em áreas do Transvaal e do Estado Livre de Orange, na zona centro-oriental do país. É um ensaio para se criar um ""Volkstaat"" (pátria para os afrikâners, os brancos sul-africanos). Também a fatia dos zulus, a maior etnia negra (8,3 milhões), pretende fazer do KwaZulu (literalmente ""o lugar dos zulus"") um país independente. À essa pressão de fundo étnico, soma-se a pressão social. Marginalizada durante séculos, a maioria negra dificilmente terá paciência para esperar muito tempo para ter a uma vida melhor. Na edição que foi anteontem às bancas, o semanário ""The Weekly Mail and Guardian"" publica história na popular tira ""Madame e Eva"". Um casal de negros apresenta-se na casa de uma senhora branca, afirmando estar ""caçando casa para depois da eleição"". O casal encanta-se com o lustre de cristal, quando a dona avisa: ""Sinto, mas a casa não está à venda"". Os negros retrucam: ""E quem disse algo sobre comprar?"" O alto nível de expectativas da maioria negra com a troca de guarda no palácio governamental é admitido pela cúpula do CNA. ""Não há crime em as pessoas desejarem coisas que lhes dêem uma vida melhor"", afirma Cyril Ramaphosa, secretário-geral do partido. De fato não há crime em querer melhorar de vida. Mas tampouco há resposta para a pergunta que o Ramaphosa faz a respeito do futuro imediato: ""Seremos capazes de satisfazer tais expectativas?"" Pelo menos no papel, o CNA promete muito: criar, em dez anos, 2,5 milhões de empregos, por meio de um programa nacional de obras públicas; construir 1 milhão de casas, em cinco anos; no mesmo prazo, colocar eletricidade em 2,5 milhões de residências; prover dez anos de educação grátis e de qualidade para todos, dentro de meros 365 dias. Se conseguir tudo isso e, ainda, controlar os previsíveis conflitos étnicos, a África do Sul nem precisará cantar ""Nkosi Sikelele Afrika"", porque já terá sido abençoada pelos deuses. Se não, será apenas mais um inferno africano.(CR) ","A África do Sul está prestes a ouvir pela primeira vez, pelo menos oficialmente, o seu hino nacional “Nkosi Sikeleli Afrika”( “Deus Abençoe a África”) . Depois das próximas eleições , após secular período de apartheid , ela vai precisar , mesmo, de proteção divina. A primeira colônia na costa sul-africana , em 1652, implantada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais inaugurou um longo período de ódio entre brancos e negros e de extermínio fratricida. O enriquecimento dos brancos à custa da espoliação dos negros alimentou esse ódio , que, infelizmente, contaminou as 11 etnias negras diferentes. Enfim, em 1990, os líderes decidiram negociar o fim do apartheid , certamente não por espírito humanitário , mas por falta de lucro nos conflitos e por pressão. Até os próprios banqueiros , habitualmente frios, se entusiasmam com a magnitude da negociação. Se milhares de corpos tombaram neste longo e cruento conflito, não é de se esperar que a solução venha pacífica, como num passe de mágica. Também é difícil supor que essas 11 etnias negras se organizem tranqüilamente num único país. Pelo menos parte dos brancos, neste período pré-eleitoral, já começa a agrupar-se em áreas do Transvaal e do Estado Livre de Orange , certamente preocupada em se isolar para proteger-se. E do lado dos negros, principalmente os zulus , a etnia dominante, procuram recuperar o que lhes foi tomado e garantir melhor qualidade de vida. Certamente prevendo as tensões criadas pelas novas expectativas, a cúpula do partido promete muito na área social. Mas o próprio secretário-geral do partido tem suas dúvidas sobre a possibilidade de satisfazê-las. É fácil imaginar os resultados de uma frustração generalizada. " "Traidor para uns, herói para outros, mas acima de tudo pragmático. Frederik Willem de Klerk, 58, passará à história como o político que, ao lado de Nelson Mandela, tornou real o sonho de tentar pôr fim ao apartheid na África do Sul. Não por acaso, De Klerk e Mandela, ex-inimigos, dividiram o prêmio Nobel da Paz de 1993. O ex-racista De Klerk libertou o ex-extremista Mandela em 1990, após 27 anos de prisão. O prêmio foi um estímulo para que os dois liderassem o processo de mudanças que culmina nas eleições das quais pela primeira vez participam os negros, que são 76,1% da população. ""Creio que poderemos abandonar o círculo vicioso da desconfiança, das divisões, das tensões e conflitos, partindo para uma África do Sul totalmente nova"", disse De Klerk ao assumir a Presidência em setembro de 1989. Descendente de africâners (colonizadores de origem holandesa), De Klerk nasceu em Johannesburgo, em 18 de março de 1936. Seu pai foi membro do Partido Nacional (PN), fundado em 1948. Foi o PN o principal responsável pela política do apartheid. Praticante de golfe e tênis, De Klerk nunca escondeu seu passado racista. Em 1956, após ter ingressado na Faculdade de Direito, tornou-se membro da Juventude Nacionalista, a ala jovem do PN. Em 1972 foi eleito deputado pelo Partido Nacional. Ocupou diversos ministérios e, como titular da Educação, cargo para o qual foi nomeado em 1984, defendeu a segregação racial nas escolas. A mudança de De Klerk em relação ao apartheid foi resultado de pressões e sanções internacionais. A partir de 1987, ele vestiu a camisa de liberal, numa atitude pragmática diante da crise econômica, agravada por sanções impostas pelos EUA e ONU desde 1977 e pela saída de empresas do país. Em 1989, De Klerk assume o comando do Partido Nacional no lugar do presidente Piether Botha, afastado por motivo de doença. Botha renuncia e De Klerk assume interinamente a Presidência em 15 de agosto de 1989. É confirmado no cargo no mês seguinte, após eleições. Dois meses depois, em novembro, De Klerk anuncia o fim da segregação racial nas praias. Mas as principais medidas contra o apartheid viriam em 1990. Em fevereiro, De Klerk legaliza cerca de 30 grupos políticos, entre eles o Congresso Nacional Africano (CNA), banido na década de 60, e o Partido Comunista, ilegal desde 1950. Mandela, líder do CNA, é libertado. Em outubro cai um pilar do apartheid, a lei que dividia locais públicos entre brancos e negros. Em 1991, junho, é abolida a lei que reservava 87% do território à minoria branca e que proibia os negros de morar nas cidades. Ainda em junho é extinta a lei que classificava a população segundo a raça e é decretado o fim oficial do apartheid. Em março de 1992, 68,7% dos eleitores brancos aprovam, em plebiscito, a política reformista de De Klerk. Em novembro de 92, o presidente propõe um amplo programa de negociações para a realização das primeiras eleições multirraciais da África do Sul. Em abril do ano passado, num gesto surpreendente, disse adeus a seu passado racista e pediu desculpas pelo apartheid que vigorou de 1948 a 1989. ""Não era nossa intenção privar as pessoas de seus direitos e causar miséria, mas a segregação e o apartheid levaram exatamente a isso e eu o lamento profundamente"", afirmou. ","Frederik Willem de Klerk e Nélson Mandela parecem exemplificar a constatação de que os opostos se atraem. O primeiro , descendente de africâneres, racista ; o segundo , líder negro extremista. Klerk teve uma atividade política atuante , como deputado e ministro , inclusive da Educação. Neste cargo, defendeu a segregação racial nas escolas. A pressão dos Estados Unidos e da ONU levou-o a uma posição liberal. Depois de que assume a presidência do Partido Nacional , por afastamento e posterior renúncia do presidente Piether Botha, ele põe em prática uma série de medidas liberais , por exemplo, a eliminação da lei que proibia a convivência de negros com brancos em lugares públicos, e a que reservava maior parte do território à minoria branca e proibia aos negros morar na cidade. A abertura política comandada por ele leva à legalização de vários grupos políticos, entre eles o Partido Comunista e Congresso Nacional Africano (CNA) , do qual Mandela era líder . Ao mesmo tempo, liberta Mandela, preso havia 27 anos. O prêmio Nobel da Paz de 1993, dividido entre os dois líderes apressou posições liberais e anti-racistas, que levaram às primeiras eleições com participação multirracial. " "O deputado João Alves de Almeida (ex-PPR-BA) não está conseguindo andar nas ruas: ""Fui fazer compras com a proteção de um delegado e um safado gritou pega ladrão. A coisa esquentou e eu tive que voltar para casa"", disse Alves em seu apartamento. O poder político e econômico, Brasil afora, criou e aferrou-se a um mundo próprio, com regras e costumes particulares. Alves é apenas um rosto que se tornou mais visível em meio a este conglomerado de poder até há pouco invisível. Um rosto sem rugas, o de Alves, graças à plástica da clínica brasiliense Daher.e João Alves é chegado a cirurgias corretivas. Nascido em São Miguel dos Campos (AL), declara ser natural de Maceió. Os cabelos são negros? Tintura ""Tabletes Santo Antonio"". As cirurgias são, às vezes, delicadas. Grace, aos l7 anos, é a razão da vida do deputado. Na sala do apartamento, acima do piano Schneider e da estatueta de Franz Wagner, está o retrato de Grace. Que já foi neta e hoje é filha de Alves. Nascida do amor de João com um sobrinha, Maria, Grace foi registrada inicialmente como filha de Carlos Almeida, filho do deputado. Quando ela tinha quatro anos, João Alves fez nova cirurgia corretiva. Foi ao cartório e Grace deixou de ser neta para se tornar filha. Os olhos se enchem de lágrimas quando Alves fala de Grace. Com os gritos de ""pega ladrão"" o deputado se trancou em seu mundo particular, mas os ecos fizeram mal à filha. Perturbada, quando a CPI se iniciava foi atropelada e quebrou a bacia. Deitada na cama, o pai não conseguia afastá-la dos telejornais. ""Ela não diz nada. Todo dia ela me dá um abraço, um beijo, mas não diz nada"", conta o deputado. Em Salvador o irmão, Cícero, assiste aos telejornais: ""É horrível, choca, você não tem o que dizer."" Cícero é l3 anos mais novo, mas sabe que o irmão passava pouco dos 12 anos quando deixou o interior de Alagoas e rumou para Maceió, onde trabalharia no comércio por 8 anos até a mudança para Salvador. Em 1942 João Alves se tornava inspetor nacional da Previdência. Da Previdência viria o salto para a política. Ambicioso, Alves frequentava o Palace Hotel, na avenida Chile, o grande ponto de encontro de políticos e poderosos em Salvador. Através do senador e futuro governador Landulfo Alves, conheceu Getúlio Vargas. Candidato a deputado federal, foi derrotado. Getúlio, a pedido de Landulfo, nomeou-o delegado do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários da Bahia.""Getúlio era um grande homem, muito amigo meu"", diz Alves. Com Getúlio, conheceu João Goulart. Com Jango chegou ao poder. Frequentava o Palácio do Catete, viajou com Jango pelo interior da Bahia montando o PTB e nesse partido obteve o primeiro dos seus oito mandatos em 1962. Empregava médicos e funcionários na Previdência. É o autor da emenda que permite aos médicos a acumulação de dois cargos. É dele a emenda que instituiu o 13.º salário para aposentados e pensionistas da Previdência. É ainda o responsável pela legalização do trabalho temporário, das férias para trabalhadores avulsos, e pela lei que obriga o reajuste das aposentadorias e pensões a cada elevação do salário mínimo. O João Alves dos anos 60 chegou a ser um radical -e chegou a defender um ""golpe com Jango"". Recordou Alves em sua conversa com a Folha: ""Eu cobrava do Jango uma aliança com os generais, não com cabos e soldados."" Talvez pela explicitação de suas alianças preferenciais, o golpe dos generais, quando veio, passou ao largo do deputado radical. Nos governos militares e já nos anos 80, ele, na Arena e sucedâneos, se tornaria o homem forte do Orçamento. O deputado deixava escapar sinais exteriores de riqueza no final da década. A Mercedes-Benz cor de ouro começou a ser usada mesmo para atravessar os 100 metros que separam os anexos 3 e 4 na Câmara dos deputados. O Learjet foi, repetidamente, oferecido aos amigos. João Alves de Almeida tem obsessão por tentar parecer aquilo que não é, assim como imagina não ser o que é. ""Eu não sei porque tudo isso"", diz, na porta do elevador, pedindo um favor ao repórter, o único em duas horas de conversa: ""Meu filho, vê se bota uma foto onde eu tô bonito."" ","João Alves de Almeida , um dos anões do Orçamento, é um representante bem típico do mundo diferente do poder político, cujas normas de vida seguem padrão próprio , diferente do da maioria dos mortais. Fez um esforço para colocar-se na fronteira do poder. Trabalhou inicialmente no comércio, depois se tornou inspetor nacional da Previdência. A ambição o levou a freqüentar o ponto de encontro de políticos e poderosos de Salvador Esse convívio rendeu uma aproximação com Getúlio Vargas, que , posteriormente, o nomeou delegado do IAPB ( Instituto de Aposentadora e Pensão dos Bancários) da Bahia. Depois , conheceu Jango e com ele chegou ao poder. A partir daí, iniciou sua carreira de oito mandatos como deputado. Ao sabor dos seus interesses, defendeu um golpe com Jango, mas que fosse com o apoio dos generais e não com cabos e soldados. Esse feeling político , possivelmente, o tenha preservado depois do golpe de 64. Coerente com o princípio de Maquiavel, segundo o qual os fins justificam os meios, após o golpe embarcou na Arena e se tornou o homem forte do Orçamento. Já então, não continha a exposição de sinais de riqueza, exibindo a sua Mercedes-Benz e o Learjet, que freqüentemente servia os amigos. Na vida particular, também, revelou estranhezas de comportamento , próprias da ética desse mundo do poder : do relacionamento com uma sobrinha, teve uma filha (Grace) , que inicialmente foi registrada como filha de Carlos Almeida, filho do deputado. Com o escândalo do Orçamento, a tranqüilidade do deputado foi ameaçada, a ponto de não poder andar impunemente pelas ruas. Sua filha , perturbada pelos acontecimentos, foi atropelada e ficou imobilizada. Com o enclausuramento a que foi condenado, ela passou a ser sua razão de vida. Hoje, o traço que talvez o mantenha mais ligado ao mundo exterior é a sua vaidade de manter a eterna juventude. " "O senador Jarbas Passarinho (PPR-PA) está com a corda toda. Aos 74 anos, em boa forma física e mental, conquistou até uma namorada de 39, a bonita Armênia, gerente do Banco do Brasil. Na presidência da CPI, somou mais elogios que críticas, além da súbita popularidade, a maior de sua vida pública, iniciada ao entrar no Exército, em 1943, de onde saiu coronel em 1964 para ser governador biônico do Pará. Passarinho é cumprimentado no açougue, na rua, no cinema. Quando foi a São Paulo gravar entrevista no programa de Jô Soares, ficou surpreso com o modo como foi recebido pelas pessoas no aeroporto de Cumbica. Muitos saíam da fila para dizer que continuasse o trabalho e pedir autógrafos. ""Estou até preocupado"", diz Passarinho. ""Se essa CPI não der resultado, em vez de palmas vou levar é um soco na rua."" Na CPI, sua atuação foi ao mesmo tempo enérgica e bem-humorada. As piadas e citações variaram do erudito à simples galhofa. Como no dia em que resolveu definir a CPI: ""Ela funciona como um sutiã. Corrige os desviados, contém os exaltados e revela os decaídos."" Experiente, fez ""vazar"" algumas informações para a imprensa embora mantivesse a proibição aos demais parlamentares. Chegou a trancar um documento em seu cofre para impedir sua divulgação. No trato com a mídia eletrônica, chega ao requinte de carregar no bolso do paletó um pedaço de cartolina branca. Sempre que uma emissora de TV deseja entrevistá-lo, expõe o cartão e oferece: ""Quer bater o branco?"" Os cinegrafistas lhe são gratos. A filmagem de uma superfície branca é indispensável para o ajuste de cores das câmeras. Já na reta final, surgiram as maiores críticas. Nos bastidores, alguns deputados diziam que estava protegendo a Fundação Roberto Marinho. Outros se queixavam que teria dificultado as investigações em torno do governador Joaquim Roriz. De viva voz, os mesmos parlamentares afirmavam apenas que ""conduziu bem"" os trabalhos. A atuação de Passarinho na CPI ajuda a deixar cada vez mais distante o tempo dos bilhetes do SNI alertando: ""Iminente sequestro"". Era o período pós AI-5, que o senador assinou como ministro do Trabalho de Costa e Silva. Curiosamente, mesmo quem sofreu naquela época não guarda mágoa dele. ""Não tenho rancor"", diz Maurílio Ferreira Lima (PSDB-PE), cassado pelo AI-5. O ex-guerrilheiro José Genoíno (PT-SP), que trocou presentes com Passarinho no final do ano, conta que a ligação entre os dois começou durante o Congresso constituinte, quando o senador presidiu a subcomissão do Estado e Forças Armadas. ""Ele é imparcial quando preside, eu disputava com Fiuza e ele soube conduzir muito bem"", diz Genoíno. Os dois só evitam conversar sobre guerrilha do Araguaia, para evitar ""constrangimentos"". Uma qualidade que todos reconhecem em Passarinho, aliás, é que sempre assumiu ter sido um homem do regime. Defende o Exército com unhas e dentes e, na reserva já há 29 anos, também fala em nome dos cidadãos comuns. Há um mês, perguntado sobre uma suposta obtusidade dos homens de farda por um repórter, respondeu com uma de suas tiradas filosóficas: ""Os militares pensam que são monopolistas do patriotismo e os civis pensam que são monopolistas da inteligência."" ","Ainda vigoroso nos seus 74 anos a ponto de conquistar uma namorada de 39, o senador Jarbas Passarinho também conta pontos na condução da CPI, a ponto de até estranhar a súbita popularidade. A sua formação militar , certamente, deve estar contribuindo na sua gestão enérgica da CPI. Habilidoso também no trato com a imprensa , chegou a vazar algumas informações a repórteres , ao mesmo tempo que as proibia aos parlamentares. Parece ter conquistado o senso político civil e desfeito da hierarquia autoritária da caserna , de onde está afastado há 29 anos. Já iam distantes os tempos do SNI em que atuou. Apesar de discordâncias da sua atuação na CPI, os parlamentares , ao vivo, elogiavam a condução dos trabalhos. Assim como os cassados da época da ditadura militar não guardavam mágoas. Até o ex-guerrilheiro José Genoino fala da sua imparcialidade na presidência da submissão do Estado e Forças Armadas. Outra reconhecida qualidade sua é a clara definição de que lado estava; nunca escondeu sua anuência ao AI-5 e sua afinidade com os ideais do Exército . " "Os relatores Roberto Magalhães (PFL-PE) e Roberto Rollemberg (PMDB-SP) decidiram pedir a cassação de 18 parlamentares. Dos 43 congressistas citados, o relatório final solicitará às Mesas da Câmara e do Senado que prossigam a investigação sobre 13. São parlamentares contra quem não foram encontradas provas concretas de envolvimento em corrupção, mas há indícios de irregularidades. Os que saíram ilesos da investigação somam 12. A lista com os nomes só foi concluída às 21h30 após amplas negociações com os coordenadores de subcomissões. Sofreu várias alterações ao longo do dia. O último parlamentar a ser incluído nos pedidos de cassação foi o deputado Anníbal Teixeira (PTB-MG). A solicitação de perda de mandato de Teixeira foi feita pela Subcomissão de Patrimônio. Dois nomes que constavam anteontem da lista de cassações de Magalhães acabaram sendo agrupados na categoria daqueles em que será solicitada o prosseguimento da investigação pela Mesa da Câmara: o líder afastado do PPR, José Luiz Maia (PI), e José Carlos Aleluia (PFL-BA). No caso de Aleluia, o relator começou a rever seu caso logo pela manhã. O pedido de cassação de Aleluia foi sugerido pela Subcomissão de Emendas. ""Nós conseguimos identificar que o parlamentar era um despachante da empreiteira Norberto Odebrecht"", afirmou o deputado Sérgio Miranda (PC do B-MG), membro da comissão. Para Magalhães, no entanto, as provas podem ser consideradas subjetivas pela Comissão de Constituição e Justiça, responsável pelo encaminhamento dos processos contra os parlamentares. O suplente de deputado Féres Nader (PTB-RJ) entrou na lista de perda de mandato na madrugada de quarta para quinta-feira, após horas de discussão regimental entre Magalhães e seus assessores. Havia dúvidas se era possível pedir a cassação de um suplente -que está sem mandato, mas que pode consegui-lo se o titular sair do Congresso. Nader é suplente de Fábio Raunheitti, que teve sua perda de mandato requerida. O relatório está dividido em três grandes partes. Na apresentação, Magalhães trata de conceituar temas como a ética e a honestidade. Afirma, principalmente, que um homem público não pode desassociar sua vida pública da privada. Cita desde antigos gregos até Ruy Barbosa, ex-ministro da Fazenda e escritor. Numa segunda parte da apresentação, Magalhães conceitua o que é decoro parlamentar. Cita vários juristas, com suas respectivas definições. Segundo o relator, são através destes subsídios que ele definiu o destino dos parlamentares. O outro grande capítulo do relatório trata das recomendações para a mudança da estrutura dos Poderes Executivo e Legislativo. Entre as principais, estão o fim da Comissão do Orçamento e das subvenções sociais. A forma de atuação das empreiteiras no poder público é aqui relatada. Magalhães guardou para o último capítulo a parte mais esperada: a definição do que acontece com cada parlamentar. ""Se eu falasse logo no início, o povo iria embora"", alegou o relator. São nestas páginas que também os governadores, ex-ministros, funcionários públicos e demais pessoas envolvidas no escândalo são relacionadas. A dificuldade do deputado Roberto Magalhães em terminar seu relatório deveu-se, principalmente, à falta de um critério claro para decidir sobre o destino dos parlamentares citados. As diferentes interpretações das quatro subcomissões sobre os envolvidos atravancaram o trabalho do relator. Magalhães não teve problemas em concluir os pareceres sobre os parlamentares que se situam em dois grupos extremos: aqueles em que as provas são incontestáveis e aqueles em que não se conseguiu prova alguma. A dificuldade ficou com o grupo de parlamentares que não estavam nem de um lado nem do outro. ","Dos 43 parlamentares citados para serem investigados, os relatores Roberto Magalhães e Roberto Rollemberg propuseram a cassação de 18, solicitaram a continuidade de investigação de 13, e inocentaram 12. Enquanto o relatório se atém às considerações sobre ética e honestidade na vida de homem público; enquanto conceitua o que é decoro parlamentar ; enquanto sugere mudanças na estrutura do Executivo e do Legislativo, propondo o fim da Comissão do Orçamento e das subvenções sociais, a situação é tranqüila. Mas , na hora de definir quem sai e quem fica , a questão muda. A dificuldade para decidir , de um lado, tem a ver com as diferenças de interpretação das quatro subcomissões; de outro , parece estar ligada a interesses escusos que nunca transparecem. Por exemplo, uma das subcomissões diz que identificou o deputado Aleluia como despachante da empreiteira Norberto Oderbrecht , mas o relator Magalhães contrapõe afirmando que a Comissão de Constituição e Justiça pode considerar a prova como subjetiva. Também houve problemas de interpretação jurídico-regimental. Por exemplo, se o suplente Féres Nader poderia ser cassado , uma vez que o titular , Fábio Raunheitti, teve a perda de mandato requerida. De qualquer modo, paira um clima de dúvida sobre a lisura. " "Aos 440 anos São Paulo já foi cantada em pelo menos 1.800 músicas. Essa história de citar a cidade começou em 1750, quando dois compositores (Calixto e Anchieta Arzão) decidiram fazer ""Missa à São Paulo"", partitura recuperada e gravada pela primeira vez em 1970 com regência de Júlio Medaglia. Depois disso, parece que não foi mais possível conter homenagens e desilusões musicais dos compositores pela que é hoje a terceira maior metrópole do mundo. Até a primeira frase do Hino Nacional menciona São Paulo: ""Ouviram do Ipiranga..."" Esses dados foram pesquisados por um paraibano de João Pessoa, radicado em São Paulo desde 75, que há cinco anos levanta a história musical da cidade em sebos e livrarias. O escritor e jornalista Assis Angelo, 41, está agora preparando o que ele chama de a primeira enciclopédia musical sobre São Paulo. Os primeiros 300 verbetes já estão escritos. Angelo acredita que o material resultante da sua pesquisa é suficiente para 900 verbetes e umas 600 páginas de livro, à espera de patrocinadores. E como seu trabalho é enciclopédico, vale dizer que a cidade já foi cantada de ""A"" a ""Z"", passando por ""X"" e ""Y"", por intérpretes e compositores de todos os Estados brasileiros. Por exemplo, com ""Z"", ""Zona Leste Total"" (de Luiz Carlos, 1991); com ""X"", ""Xamego Paulista"" (de Arlindo Bettio e Nhozinho, 1987); com ""Y"", ""Yayá do Peruche"" (de L. Correa e Rodolfo Vila) e com ""A"", entre outras, ""A Baixada do Glicério"" (de Enerdino Ortiz, João Marques e Manoel Lourenço). Se quantidade significar amor, Adoniram Barbosa foi o mais apaixonado dos cantores. Adoniram lidera o ranking com nada menos que 22 músicas sobre São Paulo. Tom Zé e a dupla Tonico e Tinoco também têm lá sua quedinha pela cidade. Cada um gravou 11 músicas. Quem pensa que Caetano Veloso parou na ""arroz de festa"" Sampa quando quis falar da cidade, mostra ou que não entende nada desta cidade ou que não sabe nada de Caetano. O doce bárbaro fala de São Paulo em outras cinco músicas, menos que Itamar Assumpção (dez músicas) e mais que Alvarenga e Ranchinho, que gravaram quatro composições. O ano em que mais se cantou São Paulo foi o do 4.º Centenário, 1954. Foram gravadas 72 músicas, com versões até japonês enaltecendo a cidade. Nem Hebe Camargo deixou de gravar a sua. ""A Hebe vai ficar uma arara, mas a música que ela gravou, ""Paulicéia em Festa"", era um horror, muito ruim"", diz o pesquisador Angelo. Já a composição ""IV Centenário"", de Mário Zan e J. M. Alves, fez tanto sucesso na época, que vendeu, numa São Paulo quase provinciana, mais de cinco milhões de discos. Só para registro, Mário Zan é o autor do bolero que só estourou e ficou bastante conhecido depois de gravado em espanhol. A estrofe é esta: ""Dizem que os homens/ não devem chorar/ por uma mulher/ que não soube amar..."" Se o Campeonato Paulista algum dia for definido pela quantidade de música composta para os times, só vai dar Corinthians. Das 140 músicas compostas para os clubes paulistas, 85 foram dedicadas ao time do Parque São Jorge. ","Nos seus 440 anos , São Paulo já mereceu , pelo menos, 1.800 músicas. A primeira , “Missa a São Paulo, de l750, foi gravada pela primeira vez por Júlio Medaglia. O Hino Nacional também registrou a presença da cidade: “Ouviram do Ipiranga...” O jornalista Assis Angelo está organizando uma enciclopédia musical sobre São Paulo, já com material suficiente para 900 verbetes e 600 páginas. Percorrendo o alfabeto , constam músicas cujas letras iniciam até com as menos prováveis letras. Por exemplo: “Zona Leste Total”, “Xamego Paulista” , Yayá do Peruche”. Entre os compositores , Adorinam Barbosa bate o recorde , com 22 músicas falando da capital paulista; Tom Zé e dupla Tonico e Tinoco, cada um com 11 músicas; Caetano Veloso , com 6 ; Itamar Assumpção, com 10 ; Alvarenga e Ranchinho com 4 composições. No entanto, Mário Zan e J.M. Alves marcaram época com o “IV Centenário”, que vendeu na época mais de cinco milhões de discos , um exagero a São Paulo de 1954. Mas se se for colecionar instituições celebradas, o Corinthians ganha de goleada: de 140 músicas dedicadas a clubes paulistas, 85 são para ele. " "Para a maioria dos paulistanos que não estuda ou ensina lá, a Universidade de São Paulo (USP) parece ser não muito mais que um parque Ibirapuera na zona oeste da cidade. Mas a USP se integra na cidade através de projetos que vão desde ônibus a gás para a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos até o de coleta seletiva de lixo, além de outros 3 mil serviços específicos como atendimento veterinário e cursos de aperfeiçoamento de executivos. Mas ao completar sessenta anos de fundação, no mesmo dia do aniversário da cidade, a universidade responsável por quase metade dos doutoramentos do país pretende ampliar mesmo é sua participação nos grandes debates nacionais. Através do Instituto de Estudos Avançados (IEA), a USP pretende discutir e apresentar propostas para questões como a Amazônia e o sistema Judiciário do país. ""Não vamos de modo algum diminuir o atendimento a solicitações específicas da sociedade, mas vamos aumentar a atenção, na universidade, a propostas estruturais para o país, como já fizemos no fórum capital-trabalho ou no projeto para a revisão constitucional"", diz Jacques Marcowitch, novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária. Marcowitch vai apresentar seu projeto para a área de extensão da USP no próximo dia dez de março, no Conselho Universitário. Serviços ""A USP não pode tapar buracos na área de serviços sociais e de saúde"", diz Eduardo Siqueira Barbosa, diretor de projetos da Coordenação Universitária de Cooperação Universitária e Atividades Especiais (Cecae) da USP. Segundo Siqueira, o atendimento ao público em geral tem que estar relacionado ao aperfeiçoamento de pessoal e do conhecimento. O cuidado de Siqueira se transforma em susto quando se fala em divulgar mais os serviços de laboratório ou atendimento especializado de saúde, por exemplo. Procurada pela Folha para confirmar o telefone do departamento, uma funcionária de um dos serviços de saúde da USP disse: ""Você vai botar isso no jornal? Meu Deus, isso aqui vai virar o pronto-socorro das Clínicas"". Na verdade, o atendimento de massa e genérico na área de saúde deve ser prestado por centros como as Clínicas -que se chama, por extenso, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E o atendimento médico, psicológico ou mesmo odontológico na USP nas unidades de ensino é mais dirigido às necessidades de ensino e pesquisa -em suma, trata-se de uma troca entre a população, estudantes e pesquisadores. Mesmo assim, pessoas com problemas raros ou de baixa renda podem recorrer à universidade (veja alguns exemplos no quadro ao lado). Siqueira, o diretor da Cecae, órgão que coordena e divulga muitos dos serviços da universidade, diz que a USP não investe em divulgação de massa do atendimento que ela pode oferecer ""e talvez nem seja o caso de fazê-lo. Não teríamos condições de receber todo mundo. Em alguns casos, deve haver uma seleção natural da procura"". De qualquer modo, quem quiser procurar a USP para resolver algum problema pode se dirigir à Cecae (tel.: 815-0163 ou 818-4165). Alguns dos serviços são gratuitos, outros, como os de laboratório e análises clínicas, são cobrados. O atendimento em veterinária é mais barato do que o das clínicas particulares. ","Embora a maioria da população não saiba, a USP presta serviços fundamentais à cidade, como projetos relacionados a ônibus a gás, a coleta de lixo, além de outros 3 mil serviços , como atendimento veterinário e cursos de aperfeiçoamento de executivos. Sem diminuir os atendimentos específicos à sociedade , o novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, Jacques Marcowitch, através do Instituto de Estudos Avançados ( IEA) pretende que a Universidade se envolva com grandes projetos nacionais , por exemplo , a questão da Amazônia , o sistema judiciário do país . Isto sem abandonar a sua responsabilidade por quase metade dos doutoramentos do país. Eduardo Siqueira Barbosa, diretor de projetos do Cecae esclarece que o atendimento na área de serviços sociais e de saúde deve estar relacionado ao aperfeiçoamento do pessoal e ao conhecimento. Não se trata de mais um posto de saúde. Tanto que a Universidade não alardeia publicidade sobre essa prestação de serviço , a fim de não ser asfixiada por excesso de procura. " "O reggae domina a primeira etapa do M2.000 Summer Concerts. Inner Circle, Shabba Ranks, Chakka Demus & Pliers e o fluminense Cidade Negra prometem levar à ebulição as areias das praias do Gonzaga e da Barra. Isso sem contar com a presença de Chico Science e o mangue beat de sua Nação Zumbi. O reggae é uma música essencialmente mutante. O estilo criado pelos Wailing Wailers de Bob Marley e Peter Tosh viveu seu auge quase ao mesmo tempo em que explodia o movimento punk nas ruas de Londres, circa 77. Coincidência ou não, graças a um inglês -Eric Clapton- o estilo tornou-se conhecido mundialmente. Muito do espírito fraternal e engajado do reggae se perdeu com a morte de Marley e Tosh, seus dois maiores nomes. Veio a geração de Yellowman -atualmente em franca decadência-, que, na prática, propunha exatamente o oposto do que seus antecessores pregavam. As mensagens rastafári de amor universal e paz foram aposentadas. Na virada dos 90 surgiu uma nova versão do estilo, batizada de dancehall. No fundo, a receita é simples: elimine os grooves -bases sonoras encorpadas baseadas no casamento de baixo e bateria-, adicione fortes doses de hip hop e eletrônica e passe a falar sobre violência -o ""guntalk""-, sexo fácil e baladas homéricas. O sucesso instantâneo da reciclagem do reggae provocou uma busca desenfreada das grandes gravadoras por novos nomes. Em apenas dois anos, 15 jamaicanos assinaram contratos internacionais polpudos. O primeiro nome do estilo a ganhar fama fora da ilha foi Shabba Ranks. Em 91, ele assinou com a Epic, por onde lançou dois álbuns e duas coletâneas de remixes. Shabba chega ao Brasil com a autoridade de quem emplacou o megahit ""Mr. Loverman"" em praticamente todas as rádios do país em 93. A maliciosa canção deve grande parte de seu impacto ao produtor Clifton ""Specialist"" Dillon. Shabba forjou o visual do homem do dancehall: roupas estilosas e cabelos curtos, além de muitos anéis e pulseiras. Chakka Demus & Pliers seguiram o rastro aberto por Ranks, injetando mais elementos de rap e hip hop à receita. A dupla é composta por um DJ e um MC, e gravou em 93 o álbum ""Tease Me"", cheio de alusões sexistas. Desembarcam no Brasil sem um hit sequer. O contraponto da noite será feito pelos rastas do Inner Circle e seu reggae de raiz e pelos fluminenses do Cidade Negra, que fazem um som ainda próximo do estilo original. O Inner Circle foi criado pelos irmãos Ian e Roger Lewis (baixista e guitarrista), há 17 anos. Seu maior sucesso aconteceu em 76, com a canção ""Everything Is Great"". Desde então, é considerado um dos principais nomes do reggae e esteve em evidência até a morte do vocalista Jacob Miller, em 80. Ficaram em jejum até 86, quando Calton Coffey assumiu os vocais. A banda reencontrou o sucesso em 89, com o disco ""Identified"" e a entrada do baterista Lance Hall. Com o último disco, ""Bad To The Bone"", veio a pegajosa ""Sweat (A La La La La Long)"". Resultado: mais de dois milhões de cópias vendidas. O disco ainda traz ""Bad Boys"", tema do seriado americano ""Cops"" e sucesso por lá. Prepare-se para começar a balançar seus dreadlocks. ","O evento musical M2.000 Summer Concerts destaca-se na sua primeira etapa pela presença de representantes do reggae , estrangeiros e nacionais. Esse estilo musical é essencialmente mutante. O espírito fraternal e engajado da produção de seus criadores - Bob Marley e Peter Tosh morreu com eles. A geração de Yellowman , que os seguiu, ao contrário , pregava a violência. Na virada dos anos 90, surgiu uma nova tendência ---dancehall--- com modificações na parte de som e de coreografia, que fala sobre violência, sexo fácil e baladas homéricas. O sucesso dos representantes da nova tendência foi grande , concretizado em contratos internacionais milionários. Estarão presentes no evento , no Rio de Janeiro , Shabba Ranks; Chakka Demus & Pliers; Inner Circle, além dos nacionais, Cidade Negra e Chico Science. " "O capitalismo tem proporcionado oportunidades para pessoas que desejam entrar, de alguma forma, no mundo dos negócios. Cada vez mais jovens, executivos, profissionais liberais e trabalhadores se transformam em empreendedores movidos por seus sonhos e pelas oportunidades oferecidas pelo mercado. Quanto mais aberto o mercado, mais oportunidades para que pessoas se arrisquem no mundo dos negócios. O livre mercado é a fonte natural de novas oportunidades para empreendedores. E, ao contrário do que alguns apregoam, cada vez mais existirão novas e notáveis alternativas de empreendimento, em função da entrada de novos atores no palco dos negócios. Como o mercado possui suas próprias leis e se move com grande velocidade é preciso estar alerta. O mercado é bondoso e recompensa os empreendedores que, através de sua inteligência e trabalho, demonstrem ""competência"" para competir. Por outro lado, o mercado é enérgico e não hesita em penalizar aqueles que se estabeleceram, mas não adquiriram ou trouxeram novas formas para se autoproteger da concorrência. Estes, que são a maioria, acabaram rotulados pelo fracasso. Com a velocidade do mercado, inúmeros produtos, serviços e negócios simplesmente desapareceram pela incapacidade de percepção ou adaptação às novas expectativas de consumo. Por outro lado, surgem novas e fantásticas alternativas para produtos, serviços ou negócios que pela mudança de hábitos de nossa sociedade, proporcionam um terreno fértil para novos empreendimentos. Não basta apenas sonhar para que um novo empreendedor obtenha sucesso. São inúmeras as variáveis para se garantir o sucesso de um empreendimento: capital, a nova idéia, o ponto, a experiência anterior, o nicho, o grau de inovação, o nível de diferenciação, a forma de atendimento, o horário de funcionamento, o ""timing"" para entrada no negócio, o volume de trabalho despendido, a equipe e muito mais. Sugiro a análise de um só item. Em já havendo o sonho, a experiência é a principal peça para o acerto ou, pelo menos, para minimizar o insucesso. Muitas vezes, pela precariedade do sonho, que beira mais à fantasia, e pela ansiedade do novo empreendedor -somado à autoconfiança-, arrisca-se um novo negócio, sem qualquer experiência anterior. Movido, geralmente, pela errônea análise da ""fruta do vizinho"". Se fosse possível, o sonho teria que acontecer com os pés no chão. A partir daí, entra-se no processo de dominar a ansiedade, que, na maioria das vezes, determina o insucesso do empreendimento pela incapacidade de uma análise mais detida sobre o assunto. A autoconfiança, que é um fator altamente positivo, aliada à ansiedade pode provocar um desastre. Pode-se evitar tudo isso com a experiência, preferivelmente, na atividade a ser exercida. Experiência é fundamental para minimizar desacertos. Só existe uma coisa pior do que a falta de experiência: um empreendedor desprovido de conhecimento anterior básico para o novo negócio, mas com capital. Inexperiência, somada a capital, não é garantia de êxito. Se não for possível contar com a experiência, o convívio indireto com a nova atividade e um conhecimento mínimo do mundo dos negócios poderão proporcionar bons passos rumo ao sucesso. O que deve ser lembrado é que cada caso é um caso e não existe receita de sucesso. O que existe, sim, são fatores que podem evitar o fracasso. ","O capitalismo , nos dias de hoje, oferece inúmeras oportunidades para quem sonha entrar no mundo dos negócios , tem competência e soma experiência no ramo. A mobilidade dos hábitos sociais está sempre oferecendo novas alternativas para os iniciantes. É necessário, porém, que não sejam ingênuos, que se informem o quanto podem, que se dediquem em período integral . É preciso vigiar cada lado traiçoeiro dos negócios, pois o mercado não perdoa. Quem se arrisca nos negócios deve estar atento a estas condições para o sucesso: capital, a nova idéia, o ponto , a experiência anterior, o nicho, o grau de inovação, o nível de diferenciação, a forma de atendimento, o horário de funcionamento, o timing para entrada no negócio, o volume de trabalho despendido , a equipe. Mesmo assim, a garantia não é total . Até o que é qualidade pode servir de tropeço. Por exemplo, a autoconfiança, fator altamente positivo, se contaminada pela ansiedade, pode provocar o fracasso. " "Uma legião que varia entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros acredita que o juízo final, ou o dia do apocalipse, pode acontecer entre hoje e o ano 2000. Esse coro, suficiente para lotar 185 Maracanãs, é estimado por entidades tão diversas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Cristão de Pesquisas (ICP). Os apocalípticos são compostos por uma horda de fiéis intitulada ""evangélicos"", que inclui membros de igrejas como a Presbiteriana, Batista, Metodista, Assembléia de Deus, Deus é Amor e Universal do Reino de Deus. Considerada uma das características do nosso ""espírito de época"", essa crença no fim do mundo nasceu de múltiplas leituras que os fiéis fizeram de axiomas bíblicos, retirados sobretudo dos textos de Mateus, Habacuque e do Livro dos Provérbios. A Folha percorreu o centro de São Paulo por dez dias, em busca das leituras que cada fiel fez dessas frases. Mario Silva Ramos, por exemplo, é pregador presbiteriano que frequenta a praça Ramos de Azevedo (centro de São Paulo). Diz que acredita no fim do mundo para o ano de 1999 -graças a uma frase que ele retirou do livro do Apocalipse: ""um raio branco varrerá os não convertidos do centro da terra e só serão arrebatados ao Paraíso os merecedores"". Até alguns católicos têm sustentado que o fim do mundo pode acontecer a qualquer momento, antes do clássico 1999. Segundo a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja Católica perde em média, só no Brasil, 600 mil fiéis para outras religiões, sobretudo as apocalípticas. E alguns desses dissidentes do catolicismo, atormentados pelo fantasma do juízo final, saem para as ruas pregando o fim do mundo -sem abrir mão dos cânones católicos mas também sem aceitar integralmente a idéia das religiões adventistas. É o caso de Maria de Lourdes Batistella, 45, que há cinco anos ""torra"" sua existência no centro de São Paulo alertando os pedestres como sobre se salvar dos pecados. Olhos azuis, vestida de branco como uma freira, trazendo em punho um megafone de última geração, ela distribuiu santinhos de metal dourado, na intenção de salvar os paulistanos do ""mal"". ""Um dos sinais do apocalipse é que os padres deixaram de usar batina e que eles mesmos têm medo de falar sobre o fim do mundo"", sustenta a pregadora. ""A única forma de salvação seria rezar um rosário mais de 40 vezes por dia"", diz Maria de Lourdes, que prega carregando um retrato de Nossa Senhora. Assim como ela, há membros de seitas que esperam o fim do mundo para qualquer hora, a partir de agora. Em 1992, por exemplo, as seitas coreanas Bank ik Ha e Missão Taberá, do Brás (zona leste), anunciaram o fim do mundo para o dia 28 de setembro daquele ano -também escolhido como o ano ""final"" pela seita carioca Auto-Clamor. O mais curioso de tudo é que a Missão Taberá sustentava que a língua dos anjos que desceriam do céu seria o coreano. E que as ""bestas"" do apocalipse poderiam ser identificadas por trazerem o ""código de barras"" na testa. Segundo pesquisador Paulo Romeiro, do Instituto Cristão de Pesquisas, a diversidade de datas e meios pelo qual virá o juízo final reside em várias interpretações do capítulo 4º, versículo 18, onde se faz menção à vinda da ""luz"", que arrebatará os fiéis aos céus. ""Cada seita diz que essa luz virá numa data e, com esse tipo de ameaça, conseguem extorquir dinheiro de seus fiéis, que se sentem ameaçados."" Em 1994, apenas uma igreja marcou data para o fim do mundo. Trata-se da seita Family Radio, dos EUA, comandada por Harold Camping, um pastor da Califórnia. No início do ano, ele enviou ao Brasil 50 discípulos que se hospedaram no Othon Palace Hotel, em São Paulo. Passaram 100 dias no Brasil distribuindo a obra ""1994"", um calhamaço de 556 páginas, que pode ser encontrado em qualquer livraria da cidade. Detalhe: lê-se à página 524 que a vinda de Cristo à Terra já teria sido anunciada em 1994 ""no primeiro dia do sétimo mês"". E mais: na página 528, está escrito que o dia do juízo final está marcado para o próximo dia 15 de setembro. Diz o pesquisador de religiões Joaquim de Andrade, 32, que alguns membros dessas seitas têm sustentado que, quando finalmente o apocalipse chegar, só haverá ""vagas"" no céu para um número justo de 144 mil pessoas ""puras"". ""Agora eles vêm dizendo que a maioria dessas vagas já foi preenchida e que só vai haver lugar mesmo é para 8.000 pessoas."" ","Segundo o IBGE e o Instituto Cristão de Pesquisa (ICP) , entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros acreditam que o juízo final pode se dar de hoje até o ano 2000. Entre esses crentes , denominados de evangélicos, estão membros de igrejas como a Presbiteriana, Metodista , Assembléia de Deus, Deus É Amor, e Universal do Reino de Deus. Seguidores dessas seitas, com base na leitura de certas passagens bíblicas, apregoam o fim do mundo, alguns até com data marcada. Há muitos dissidentes do catolicismo que , influenciados por esses pregadores, também fazem coro com eles nas suas pregações de rua. Todos esses pretensos profetas querem salvar os que ainda não assimilaram a sua verdade. Além da tragédia apocalíptica , muitos deles pressionam alertando para o limite de vagas no céu :só 144 mil , algumas já preenchidas, segundo alguns . É uma fórmula fácil de convencer os crédulos e, conseqüentemente, de tirar dinheiro deles. Uma seita americana , Family Radio, chegou a marcar data para o juízo final. Na época , mandaram 50 discípulos ao Brasil, que se hospedaram no Othon Palace Hotel, em São Paulo. Passaram aqui 100 dias distribuindo a obra “1994”" "Até o fim do século o mundo vai assistir ao fenômeno da ""desmetropolização"", ou seja, a tendência desta década será a desconcentração populacional das metrópoles. Em alguns casos, espera-se crescimento negativo nas grandes cidades. Uma das razões para a guinada na expectativa de crescimento, na opinião de Elza Berquó, diretora do Nepo (Núcleo de Estudos de População da Unicamp), é a busca maciça, por parte dos habitantes dos grandes centros urbanos, de uma qualidade de vida melhor da que oferecem as metrópoles. Segundo Berquó, haverá a fixação das pessoas em cidades medianas que se transformarão em pólos de referência, menores e com menos problemas que as megacidades. Algo parecido com o que está acontecendo em Campinas e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, que oferecem vida cultural e infra-estrutura de serviços parecida com a das grandes cidades, sem, no entanto, estarem saturadas. Essa mudança na concentração populacional estará ocorrendo ao mesmo tempo em que outra tendência for se cristalizando: uma distribuição de renda mais harmônica e mais equitativa. ""O sonho de que as soluções para todos os problemas estão nos grandes centros está no fim. E isso é uma boa notícia. Deve-se comemorar"", diz Berquó. Números do Seade (Sistema Estadual de Análises de Dados) mostram que a cidade de São Paulo, por exemplo, cresce menos a cada década. Nos anos 60/70, tinha sua população aumentada anualmente na razão de 4,92%. Nos anos 70/80, o crescimento diminuiu e foi para 3,67%. De 1980 a 1991, o crescimento anual chegou a 1,15%. Até o ano 2000 não deve sair desse patamar percentual. De acordo com dados do Nepo, a taxa atual de fecundidade no Brasil é de 2,5 filhos por mulher. Em 1980, era de 4,5 filhos por mulher. Até na região Nordeste, onde essa taxa chegou, em 1980, a seis filhos por mulher, atualmente já baixou para 3,7. Hoje vivem no Brasil 152 milhões de pessoas. Em 2000, serão 179 milhões de brasileiros. Com exceção dos países africanos, a taxa de fecundidade no mundo está diminuindo, com forte tendência de estabilização ou crescimento populacional negativo. Na África, a média de fecundidade ainda é de seis filhos por mulher. No caso específico do Brasil, a expectativa dos cientistas é que a partir de 2020 o país vá ter seu crescimento populacional estabilizado e, por volta de 2050, essa taxa chegará a zero. Isso significa que o número de mortes vai se igualar ao de nascimentos. A desaceleração populacional no Brasil poderia até ser mais rápida, ""não fosse o alto contingente de mulheres que ainda está se reproduzindo"", segundo Elza Berquó. Se o excesso de população é um problema, a implosão demográfica também. Hungria, Alemanha e Itália, entre outros países, enfrentam crescimento populacional negativo e envelhecimento de suas populações. Ou seja, em breve terão que ""importar"" gente para suprir as atividades mais corriqueiras. Na Itália, por exemplo, o número de óbitos é maior que o de nascimentos. Na França, a média de fecundidade é de 1,3 filho por mulher. Para efeito de comparação, em São Paulo, segundo a demógrafa Bernadete Waldvogel, do Seade, a média é de 2,2 filhos por mulher. Na década de 80, cada brasileira tinha 3,4 filhos. Na de 70, 4,2. ""Em cada década está diminuindo um filho"", resume Waldvogel. Sem levar em conta essa tendência de queda apontada pelo Seade e Nepo, um relatório produzido pela ONU (Organização das Nações Unidas) projeta que em 2010 a cidade de São Paulo será a segunda maior do mundo, perdendo apenas para Tóquio e na frente de Bombaim, Xangai, Lagos, Cidade do México, Beijing, Dacar, Nova York e Jacarta, nessa ordem. O relatório da ONU mostra uma São Paulo caótica no ano 2000, com 25 milhões de habitantes. Estudos do Seade projetam uma cidade parecida com o que é hoje, com 10,7 milhões de habitantes. No segundo semestre deste ano, no Cairo (no Egito), acontece uma conferência internacional sobre crescimento populacional. ","Até o fim o ano 2000, haverá uma desconcentração populacional nas metrópoles do mundo--- em algumas , o crescimento será negativo. Cada vez mais , as pessoas procuram cidades de porte médio, com menos problemas que as metrópoles, sem perder na oferta de vida cultural e infra-estrutura de bens de serviços. Segundo Berquó, diretora da Nepo ( Núcleo de Estudos de População da Unicamp) , uma das razões é a busca de qualidade de vida. Paralelamente a essa desconcentração , ocorre uma melhor distribuição de renda. Ir para a capital , a fim de fazer a vida, já não é o grande sonho. Cálculos do Seade indicam que as décadas de 60 , 70, 80 apresentam , respectivamente, índices de 4,92% , 3,67% , 1,15% , para a cidade de S.Paulo A relação mulher/filho tem diminuído, inclusive no Nordeste , onde de 6 filhos por mulher em 1980 , caiu para 3,7. Com exceção dos países africanos, a taxa de fecundidade vem diminuindo no mundo inteiro. No Brasil, segundo cientistas, até o ano 2020 , o crescimento estará estabilizado , e aproximadamente até 2050, será zero. Desprezando os cálculos da Nepo e do Seade, a ONU apresentou um relatório falando da explosão populacional de São Paulo, que será a segunda maior cidade do mundo até o ano 2010. Se é pavorosa essa antevisão , também o é a implosão demográfica, que já ocorre na Hungria, Alemanha e Itália, que precisarão importar gente para determinados serviços. " "O ano 1000 da era cristã foi comemorado apenas numa pequena região do planeta, por uma fração reduzida da humanidade. A data só tinha significado para uma cristandade sitiada, numa parte da Europa, por pagãos do Norte, invasores nômades ao Leste e muçulmanos ao Sul. Meio milênio mais tarde, a cristandade começou sua conquista do mundo rebatizando-se aos poucos de Ocidente e impondo seu calendário. O ano 2000, embora longe de gerar a ansiedade da virada anterior de milênio, suscitará uma comemoração mais ou menos planetária. O ano 1000 foi precedido de profecias apocalípticas. O que acontecerá no ano 2000 e depois tem sido tema para escritores, economistas, politicólogos e cineastas. Todo um gênero literário nasceu dessas especulações: a ficção-científica. Dois de seus primeiros praticantes, o francês Jules Verne e o inglês H.G. Wells, fizeram predições interessantes. Verne concentrou-se na evolução da tecnologia e os desenvolvimentos que tematizou concretizaram-se antes do que se previa. A viagem à lua de Wells também é coisa do passado. Mas este, em ""A Máquina do Tempo"", abordou as possíveis consequências de um aprofundamento do abismo entre as classes, imaginando que ele chegaria a gerar uma mutação que subdividiria a humanidade em duas espécies distintas. Num país como o Brasil, isto talvez não esteja tão longe de acontecer. No entanto, as três obras de antecipação mais discutidas pertencem ao que poderíamos chamar de ficção científico-política. A primeira delas é ""Nós"" do russo Ievguêni Zamiátin que, por sua vez, inspirou as duas outras, ""Admirável Mundo Novo"", de Aldous Huxley, e ""1984"", de George Orwell, ambos autores ingleses. As três imaginavam qual seria o destino do homem num mundo concebido segundo as fórmulas dessa invenção particularmente moderna: a engenharia social. Seu pano de fundo era o totalitarismo e todas se mostravam profundamente pessimistas. Hiroshima e Nagasaki, em 1945, realimentaram a ficção-científica com o elemento central da ansiedade do primeiro milênio, pois a Bomba transformara, durante a Guerra Fria, o apocalipse numa possibilidade real. Mas em 1989 aconteceu o que nenhum escritor do ramo ousara profetizar: o bloco comunista começou a desmoronar e, pouco depois, Leningrado foi desrebatizada, voltando a se chamar São Petersburgo. Nos Bálcãs, o futuro voltou ao passado, primeiro a 1941 e, agora, a 1912 ou mesmo antes. No Cáucaso e na África Central o que está ocorrendo é um renascimento do neolítico ou talvez do paleolítico, com guerras tribais de todos contra todos, como já dizia, séculos atrás, Thomas Hobbes. Isso, novamente, quase ninguém previu. O passado, aliás, tornou-se no século 20 um assunto muito mais palpitante do que o futuro, principalmente porque a arqueologia produziu mais novidades do que a política ou a ciência. Não é a toa, portanto, que os livros dedicados a recontar a história de acordo com novas teorias e conhecimentos –""O Nome da Rosa"" de Umberto Eco, ou ""Memórias de Adriano"" de Marguerite Yourcenar– obtiveram mais sucesso que obras proféticas e/ou especulativas. Assim, as fantasias futuristas deslocaram-se dos livros para o cinema. Não há uma única obra literária desse gênero que tenha conseguido a repercussão do ""2001 - Uma Odisséia no Espaço"", filme de Stanley Kubrick. No entanto, seu porvir asséptico e seu imenso computador rebelde parecem hoje obsoletos. Afinal, os anos 80 domesticaram definitivamente o computador e a nova consciência ecológica faz muita gente imaginar o próximo milênio como algo superpovoado, poluído e sujo. A encarnação mais durável, até o momento, da fantasia futurista se encontra em ""Blade Runner"" de Ridley Scott, que tematiza não apenas a degradação ambiental, mas também a engenharia genética. O autor do livro em que se baseou o filme, Phillip K. Dick, foi dos poucos que, na ficção-científica, aproximou-se da profecia ao tratar tanto desses assuntos como da importância crescente das drogas no mundo moderno. As previsões mais exatas, contudo, foram recentemente realizadas não por um futurólogo profissional nem por um roteirista hollywoodiano, mas pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger. O posfácio ao seu ""A Outra Europa"" é uma reportagem ficcional extraída do ""The New New Yorker"" de 21 de fevereiro de 2006. O repórter americano que a escreve fala de Ceausescu, o ditador comunista da Romênia: ""Aquele velho gângster demoliu o que pôde, até ser morto à tiros por seu próprio pessoal"". Só que Enzensberger escreveu de fato seu texto em 1987, enquanto Ceausescu foi morto em fins de 1989. A reportagem refere-se também às ruínas do muro de Berlim e à abolição do tabagismo nos EUA. Tal clarividência é rara, mas existe. E onde menos se espera. ","O ano 1000 foi comemorado só numa parte da Europa , exatamente aquela em que contexto histórico mostrava a Igreja Católica sitiada por três forças invasoras ,que a ameaçavam. Não é à toa que ele foi precedido de profecias apolípticas, divulgadas pela própria Igreja , com finalidade estratégica. A chegada do ano 2000 veio antecedida de previsões de outra natureza, sem descartar ameaças apocalípticas comprovadas. Júlio Vernes e H.G. Wells previram acontecimentos fantásticos com base na evolução tecnológica, que de fato aconteceram. Mas as três obras de previsão com caráter mais polêmico estão ligadas à ficção científico-política. São elas: “Nós”do russo Ievguêni Zamiátin , que inspirou as duas outras --- “Admirável Mundo Novo”de Aldous Huxley e “1984” , de George Orwell. As três mostram a atuação totalitária do poder sobre a sociedade , numa visão muito pessimista. As bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki trouxeram as antevisões apocalípticas para o plano real. Mas as surpresas que nenhum escritor do ramo conseguiu anunciar foram o desmantelamento da União Soviética , e as guerras tribais que estão acontecendo no Cáucaso e na África Central. Esse retorno ao passado, no ano 2000, é mais palpitante do que o interesse pelas conquistas do futuro. Mais recentemente, as fantasias futuristas foram incorporadas pelo cinema, por exemplo, em “2001 - Uma Odisséia no Espaço” , cujo conteúdo já parece, hoje, obsoleto. O filme que mantém mais atualidade quanto a essa fantasia futurista é “Blade Runner” . Além de focalizar a degradação ambiental e a engenharia genética, mostra a importância crescente das drogas na atualidade. No entanto , as previsões mais exatas vêm pela sensibilidade do poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger. O posfácio do seu livro “A Outra Europa” é uma reportagem ficcional de um americano , que fala dos abusos de Ceausescu e da sua morte a tiros pelo seu próprio pessoal. O curioso é que seu texto é de 1987 e a morte de Ceausescu é de 1989. " "Um estudo realizado com 25 municípios do interior paulista mostra que as prefeituras se esforçaram em compensar o corte no financiamento federal à assistência médica. Entre 1987 e 1992, houve uma queda de 39% nos gastos do governo federal em saúde. No mesmo período, os 25 municípios aumentaram em 155% suas despesas com atendimento médico, de acordo com um relatório ainda a ser publicado pelo Cepam (Centro de Estudos e Pesquisa de Administração Municipal), na USP. A municipalização é um dos princípios básicos do SUS (Sistema Único de Saúde). Criado com a Constituição, em 1988, o SUS dá a todos os cidadãos o direito à saúde –o que também foi uma grande conquista: antes de 1988, para ser atendido pelo extinto Inamps, o paciente precisava mostrar sua carteira de previdenciário. Como era de se esperar, a municipalização –que significa descentralização de decisões e distribuição de verbas, ou, em outras palavras, de poder– encontrou e encontra muitas resistências –comparáveis às encontradas no programa de privatização. Mas apesar das resistências, a extinção do Inamps e a absorção de suas instalações e funcionários pelos Estados e municípios, fundamental à descentralização já está quase terminada. Praticamente todas as instalações do Inamps –que tinha 125 mil funcionários e 670 unidades– já foram transferidas aos Estados e municípios. As resistências vieram e vêm de todos os lados. Mas, de acordo com o Ministério da Saúde, a principal está dentro do próprio governo federal. Para que a descentralização dê certo, os municípios precisam ser responsáveis não só pela assistência médica mas também pelo uso sensato das verbas de saúde. O maior incentivo a essa otimização financeira é um decreto que dá direito aos municípios receberem do governo federal, automaticamente e sem negociações políticas, recursos proporcionais a suas populações. Com verba fixa, eles vão precisar se virar como podem para custear as necessidades de seus pacientes –e não simplesmente cuidar dos cidadãos e depois cobrar, através das AIHs –os famosos ""cheques em branco"" da saúde– pelo serviço prestado. O decreto, elaborado pelo ministério, está há quatro meses na mesa do presidente da República, Itamar Franco, esperando para ser assinado. Outro foco de resistência são os funcionários que fazem as auditorias do extinto Inamps. O SUS previa um sistema descentralizado de auditoria, em que os municípios e os próprios usuários do sistema de saúde deveriam atuar na fiscalização. Não foi o que aconteceu. De acordo com técnicos do ministério, o grupo de auditores, cerca de 500, conseguiu fazer prevalecer um sistema centralizado de auditoria, o recém-criado Sistema Nacional de Auditoria –que traz semelhanças com o sistema que fiscalizava o Inamps, tão conhecido pelos escândalos e fraudes. ""Foi um revés para SUS"", informou um técnico do ministério. As resistências não vieram só de dentro do governo federal. Peça-chave na atomização do poder, o conselho estadual tem a função de formular as estratégias de saúde nos Estado (veja figura). Metade dele é composta por representantes dos usuários de saúde e a outra metade por representantes dos segmentos do governo, prestadores de serviços e profissionais da saúde. Dos 5.000 municípios do país, 1.400 já se integraram ao SUS. O Rio de Janeiro foi o que mais resistência apresentou (leia texto abaixo). Não é coincidência que o Rio é a cidade que mais tem unidades do Inamps –27. O SUS está no caminho certo, pois investe em quem mais tem condições de tratar de saúde –os municípios. O que falta é vencer as resistências à implantação e, com isso, permitir que os municípios corrijam as distorções herdadas do antigo sistema federal.(Cláudio Csillag) ","A criação do SUS ( Sistema Único de Saúde) com a Constituição de 1988 ampliou o direito de atendimento médico a todos os cidadãos, eliminando a limitação imposta pelo sistema anterior , o Inamps , que exigia a apresentação da carteira de previdenciário. O novo sistema prevê a municipalização , com a conseqüente descentralização de decisões , e distribuição de verbas , sem que os prefeitos tenham que ir de chapéu na mão ao governo federal. Sem dúvida, o processo agiliza o atendimento. Apesar da reações contrárias , --- possivelmente por interesses políticos contrariados e por controle de verbas mais transparente --- , as instalações e funcionários do Inamps , praticamente, já foram transferidos para os Estados e Municípios. Houve, também, resistência por parte dos funcionários responsáveis pelas auditorias no Inamps. Contrariando previsão do SUS, conseguiram fazer prevalecer o Sistema Nacional de Auditoria, semelhante ao do antigo Inamps, famoso pelos escândalos e fraudes. O SUS está no caminho certo, pois delega aos municípios uma competência que lhes é mais própria. O fato de só 1.400 dos 5.000 terem se integrado ao novo sistema , sem dúvida, vai por conta de vantagens pessoais contrariadas. " "Apesar do consenso sobre a necessidade de reformular a Previdência Social, as propostas hoje em discussão apresentam pontos divergentes. Para que as mudanças sejam feitas, o Congresso terá que realizar mudanças na Constituição. A criação de um sistema básico e público de previdência tem o apoio de parlamentares de diversos partidos. O sistema básico concederia benefícios apenas para quem contribui. As divergências surgem no momento de definir, por exemplo, qual o valor máximo do benefício do sistema básico. Variam de um a dez salários mínimos. A proposta da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) prevê a criação do VRS (Valor de Referência Social), igual a um salário mínimo na data da reforma. A partir daí, o seu valor seria corrigido pela variação do custo de uma cesta básica. O benefício do regime básico seria até três VRS e custeado unicamente pelo trabalhador. A Febraban (Federação Brasileira das Associações dos Bancos) defende um regime básico com benefícios até dois salários mínimos. A CUT (Central Única dos Trabalhadores), por sua vez, defende que o valor máximo dos benefícios do sistema básico seja equivalente a dez salários mínimos, o equivalente hoje a cerca de R$ 650. No caso da aposentadoria por tempo de serviço, a tendência é criar no seu lugar um sistema misto. Apenas sete países em todo o mundo adotam o sistema de aposentadoria por tempo de serviço, entre eles o Brasil. A idéia do sistema misto é levar em conta a idade e o tempo de contribuição do trabalhador para a Previdência. É o caso, por exemplo, da fórmula 95, apresentada por Wladimir Martinez, especialista no assunto. Por ela, o trabalhador se aposentaria quando a soma de sua idade e do tempo de contribuição fosse igual a 95. O deputado Reinhold Stephanes (PFL-PR), ex-ministro da Previdência, propõe que os critérios de aposentadoria sejam iguais para os homens e para as mulheres. Para ter direito à aposentadoria por tempo de serviço, o trabalhador precisaria de 40 anos de contribuição. A aposentadoria por idade seria concedida aos 62 anos e 35 anos de contribuição. A CUT quer a manutenção da aposentadoria por tempo de serviço. A extinção da aposentadoria por tempo de serviço é defendida pela Força Sindical. A Febraban defende a aposentadoria por idade aos 63 anos para ambos os sexos. Outro ponto polêmico é a fonte de financiamento da Previdência. A CUT quer manter a contribuição atual das empresas. A Fiesp propõe que a contribuição previdenciária do empregador seja eliminada. A proposta da Febraban prevê o financiamento através de contribuição dos segurados e das empresas até a faixa de dois salários mínimos. As alíquotas seriam diferenciadas de acordo com o tipo de benefício, totalizando 22% para ser dividida entre empresa e empregado. A proposta baseada no modelo chileno prevê um regime de capitalização. Haveria contribuições individuais dos trabalhadores e um seguro obrigatório de riscos e enfermidades ocupacionais. O regime seria obrigatório para os empregados e facultativa para os trabalhadores autônomos. Para o homem se aposentar aos 65 anos e a mulher aos 60 anos, seria necessário estarem filiados ao sistema há pelo menos 20 anos. O valor mínimo do benefício corresponderia a 85% do menor valor base de contribuição para indíviduos com menos de 70 anos e de 90% para quem estiver acima dessa idade. Para pensão, o valor mínimo é de 85% do menor valor base de contribuição. Está previsto ainda um benefício de caráter assistencial para a população carente. Seria de 50% da pensão mínima. Não haveria aposentadoria por tempo de serviço. Seriam adotadas as mesmas regras para os servidores públicos. Para viabilizar as mudanças na Previdência, serão necessárias mudanças na Constituição aprovada em 1988. ","Apesar do consenso sobre a necessidade de reformular a Previdência Social, as propostas em discussão apresentam pontos divergentes. Por exemplo, se há bastante consenso sobre a criação de um sistema básico e público, que beneficiaria apenas quem contribui, há divergência quanto à definição do valor máximo do benefício. As classes patronais propõem menos ( Fiesp, um salário mínimo na data da reforma; Febraban, até dois salários); a Central Única dos Trabalhadores - CUT - defende até 10 salários mínimos como valor máximo do regime básico. Para substituir o sistema de aposentadoria ---que funciona só em sete países, entre os quais o Brasil--- a tendência é criar um sistema misto ---idade e tempo de contribuição. O especialista Wladimir Martinez , criador da fórmula 95, defende que o trabalhador se aposente quando a soma da sua idade e do tempo de contribuição é 95. O deputado Reinhold Stephanes propõe critérios iguais para homens e mulheres. A CUT e a Força Sindical pensam diferentemente: a primeira quer a aposentadoria por tempo de serviço; a segunda defende sua extinção A fonte financiadora é outro ponto de discordância. A CUT quer manter a contribuição atual das empresas. A Fiesp, não. A Febraban defende a contribuição de segurados e empresas , até a faixa de dois salários mínimos. Há ainda a proposta baseada no modelo chileno, uma forma de capitalização , com contribuições individuais e um seguro obrigatório . Esse regime seria obrigatório para os empregados e facultativo para os autônomos. Também prevê o valor mínimo do benefício para os contribuintes e um valor menor, de caráter assistencial, para os carentes. " "A taxa oficial de analfabetismo no Brasil é de 18%. Isto quer dizer que, para as estatísticas, cerca de 28 milhões de brasileiros não sabem nem ao menos identificar letras. Educadores concordam que não há como começar a reverter esse quadro sem tornar novamente interessante a carreira do magistério. Isto é, pagar melhores salários, treinar e exigir mais dos docentes. Aumentar simplesmente o número de escolas e vagas não é prioridade. Mesmo em estados onde a cobertura escolar –vagas disponíveis- é aceitável, o desempenho escolar é sofrível. A situação de boa parte dos 82% 'não analfabetos' não é muito melhor que a dos que nunca foram à escola. O critério oficial identifica alfabetizados pela capacidade de ""saber escrever um bilhete simples"". Conceitos mais exigentes, no entanto, abarcariam quase 60 milhões de brasileiros na categoria de analfabetos. Para os critérios mais refinados, defendidos por pesquisadores de serviços de estatísticas educacionais e educadores, a exigência de quatro anos de escolaridade é o requisito mínimo para que alguém não seja considerado um analfabeto funcional. Isto é, aquele capaz de aproveitar de alguma forma produtiva a instrução que recebeu e não regredir. No Brasil, quase metade da população de mais de 10 anos de idade não completou esse ciclo. O critério que qualifica alguém que saiba rabiscar um bilhete como alfabetizado foi estabelecido pela Unesco em 1958. A revolução tecnológica nos sistemas produtivos jogou esse padrão no lixo. ""Mudou o paradigma da educação. As próprias empresas chegaram à conclusão de que se a mão-de-obra não for melhor preparada, o país não terá condições de competir internacionalmente, diz Célio Cunha, chefe do departamento de Projetos Educacionais do ministério da Educação. É justamente nessa área que o governo federal investe menos. É atribuição dos governos municipais e estaduais a educação básica, mas a maioria deles não tem recursos para construir escolas que não sejam taperas, quanto mais para bancar um ensino de qualidade. ""Nos municípios menores, a situação da educação básica é muito ruim, tanto em termos de evasão e repetência como em termos de nível de conhecimentos dos alunos aprovados"", diz Azuete Fogaça, professora da Universidade Federal de Viçosa. Pelo menos nos últimos cinco anos, o governo federal vem investindo cerca de 50% a 60% de seus recursos em educação no ensino superior –nas instituições federais de ensino. ""Recursos federais quase não vão para a educação primária. O resultado é que a Constituição não é cumprida"", diz Cunha. ""A União é obrigada a investir 18% de seus recursos em educação. Boa parte desse dinheiro, cerca de 75%, é gasta com a rede federal, ou seja ensino superior e escolas técnicas. Desse dinheiro, 25% é gasto com aposentadorias das universidades"", afirma Cunha. Professores ""A Coréia, em meados dos anos 60, tinha um quadro educacional tão ruim ou pior do que o brasileiro. Em duas décadas e meia conseguiu que 95% dos jovens completassem o 2º grau"", diz a professora Azuete. ""Como a Coréia fez isso? Investiu na formação e na carreira do professor. Hoje, no Brasil, o magistério primário é a carreira de quem não tem horizontes"", diz Azuete. Tanto Azuete como Célio Cunha concordam que a extensão da rede escolar brasileira tem falhas, mas é satisfatória. ""O Brasil já conseguiu colocar cerca de 90% das crianças nas salas de aula, mas só poucas se formam e estas são despreparadas"", diz Cunha. ""A rede atende muita gente, mas atende muito mal. Só 20% dos que entram chegam às últimas séries do 1º grau. É muito dinheiro desperdiçado pelo Estado e pelas pessoas"", afirma Azuete. Segundo ela, um exemplo de reforma é o Japão do pós-guerra. ""na reconstrução, o governo selecionou os melhores alunos das universidades vocacionados para o magistério. Alguns deles viviam em internatos, para se dedicarem mais intesnsamente aos estudos"", conta. A qualificação do corpo docente depende também de uma reforma na política de carreira e de salários dos professores, segundo Azuete. ""No Japão, um professor ganha mais do que os técnicos de nível médio. Em geral, duas vezes e meia mais. Com isso, há procura suficiente para escolher os melhores"", afirma a professora. ","A taxa oficial de analfabetismo no Brasil é de 18% , ou seja, de 28 milhões de brasileiros que sabem escrever um bilhete simples, conforme o critério estabelecido pela Unesco em 1958. A situação dos 82% dos alfabetizados não é muito melhor. Como a proposta de critério para se considerar alguém alfabetizado é , hoje, que se tenha quatro anos de escolaridade , a situação nossa é mais séria. As próprias empresas não vêem possibilidade de competição com o mundo globalizado , se o país não melhorar o preparo escolar de seus trabalhadores. A falha brasileira não é tanto de quantidade quanto de qualidade. Para tanto, é necessário investir na qualificação do professor e na melhoria salarial. Se se examinar a forma como o governo federal cumpre a obrigatoriedade constitucional de investir na educação , percebe-se uma distorção muito grande : 75% dos 18% reservados para a educação são aplicados no ensino superior ; e 25% desse montante é destinado a pagamento de aposentadorias nas universidades. O ensino fundamental e médio é incumbência dos Estados e Municípios. Não é o que aconteceu com dois países , que servem de lição ao Brasil nesse campo: Coréia e Japão. O primeiro , começando nos meados de 60, conseguiu , em duas décadas, que 95% dos jovens terminassem o segundo grau. O segundo , no pós-guerra, qualificou o seu corpo docente e o remunerou significativamente. O resultado foi o boom de desenvolvimento que conhecemos. O desafio continua para nós, apesar do esforço de ampliação quantitativa do ensino fundamental. " "Comparada com a potencialidade econômica do país, o nível da educação básica brasileira está em último lugar no mundo. A informação está num relatório preparado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas pela Infância), a ser divulgado este ano no Brasil. O dado é preocupante não apenas por revelar a baixa taxa de cidadania. Revela também um obstáculo para o crescimento econômico, cada vez mais dependente de mão-de-obra educada, compatível com o avanço tecnológico. A pesquisa sobre a situação educacional no mundo está incluída num relatório intitulado ""The Progress of Nations"" (O Progresso das Nações). Para se determinar a posição de cada nação, o Unicef comparou a taxa de evasão escolar com o Produto Interno Bruto per capita –soma de todos os bens e serviços produzidos, dividida pela população do país. Para cada país foi estipulada uma taxa de crianças que deveriam ter completado pelo menos cinco graus de escolaridade. Essa taxa corresponde ao nível da potencialidade econômica, definido pelo PIB, de cada país. Essa taxa foi então comparada com taxa real de escolarização. O nível real de escolarização foi subtraído do nível esperado. Este valor definiu a posição do país no ranking de 129 nações. Pelo potencial econômico brasileiro, pelo menos 88% das crianças matriculadas no primeiro grau deveriam concluir pelo menos a 5ª série. Com base em dados fornecidos pelo Ministério da Educação, a lista da ONU informa que apenas 39% chegam a este estágio. Com isso, o país ficou com índice negativo de 49 pontos. Acima do Brasil, está o Gabão, na África, com índice negativo de 40 pontos. Na América do Sul, nações bem mais pobres do que o Brasil exibem um índice expressivamente mais alto. O Paraguai, por exemplo, recebeu 6 pontos negativos –ou seja, está próximo do nível aceitável. O Uruguai apresenta 6 pontos positivos. Eles deveriam ter matriculados 88% das crianças até a 5ª série: sua taxa é de 94%, comparável aos países mais desenvolvidos do planeta. Na Suíça, todos os meninos (100%) continuam nas escola até esse estágio. O ministro da Educação, Murílio Hingel, admite: ""Apesar de todos os esforços, nosso ensino básico é vexaminoso."" Segundo as estimativas do ministério, apenas 22% dos alunos completam a 8ª série. Só 5% conseguem concluir o 1º grau sem repetir um ano. A média de permanência na escola de um aluno que completa a 8ª série é de aproximadamente 12 anos. ""É um tremendo desperdício de recursos. Tivéssemos uma taxa menor, haveria menos sobrecarga de professores e salas de aula"", afirma Hingel, numa opinião compartilhada pela imensa maioria dos educadores brasileiros. Ao se aprofundar a discussão do desperdício da repetência, encontra-se um antigo mito: a criança sai da escola por falta de condições econômicas da família. As mais recentes pesquisas estão demonstrando que a família valoriza a educação, vista como um mecanismo de ascensão social.Mas o aluno não consegue progredir, assimilar conhecimento e, depois de várias tentativas em meio à repetência, engrossa as estatatísticas de evasão escolar. Há uma série de fatores que confluem: os professores recebem baixos salários e são mal-treinados, a metodologia e o currículo são inadaptados, o aluno chega à sala de aula sem nenhuma base educacional da família ou da pré-escola. Até as instalações facilitam a evasão, criando um ambiente inadequado. Recente pesquisa patrocinada pelo Ministério do Planejamento mostra que, em 75% das escolas públicas, não existem banheiro ou eles não estão funcionando. O Ministério da Educação calcula que existem ameaças dificultando a melhoria das escolas. Devido a mudanças legais, facilitaram-se as aposentadorias de professores, o que fez aumentar a despesa do ministério com inativos. Até cinco anos atrás, os gastos com aposentados representavam 15% da folha de pessoal do ministério. Agora, chegam a 40%, cerca de R$ 700 milhões por ano. O ministro Hingel chega a prever o que chama de ""caos"": ""Se mantivermos esse ritmo, num prazo de 10 anos todas as verbas do ministério serão destinadas apenas aos aposentados"". ","Comparada com a potencialidade econômica do país, o nível da educação básica brasileira está em último lugar no mundo , segundo relatório do Unicef. O dado é preocupante pelo que significa de exclusão de cidadania e de entrave ao desenvolvimento econômico. O cálculo se baseia na comparação da evasão escolar---levando-se em conta a expectativa de pelo menos cinco anos de escolaridade--- com a divisão do PIB pela população do país. Segundo ele, 88% das crianças brasileiras deveriam concluir pelo menos a 5ª série. Com base nos dados do Ministério da Educação , apenas 39% chegam lá , e o país ficou com 49 pontos negativos. Abaixo , portanto, do Gabão , na África, (40 pontos negativos), do Paraguai (6 pontos negativos), Uruguai ( 6 pontos positivos) , sem contar a Suíça onde 100% das crianças continuam na escola até esse estágio. A evasão escolar representa um imenso desperdício de recursos. Mais do que culpar a falta de condições econômicas da família como causa da evasão , é preciso rever os baixos salários, o mau treinamento dos professores , a metodologia , o currículo , e até má qualidade das instalações educacionais. O Ministério da Educação vê dificuldades na melhoria das escolas, pois há um comprometimento muito sério com aposentadorias precoces. E exemplifica com dados: até cinco atrás , os gastos com aposentados representavam 5% da folha de pagamento; agora, chegam a 40%. Nesse ritmo, segundo o ministro Hingel , o emperramento da máquina será total. " "O brasileiro hoje morre de maneira diferente do que há 30 anos - e precisa agora tentar modificar o padrão atual da morte no país para não ter que pagar um preço alto demais ao sistema de saúde, tanto público como privado, nas próximas décadas. Passou a fase em que o grosso das mortes no país ocorria devido às chamadas doenças da pobreza, como infecções que causam diarréia em crianças. A tendência que se estabeleceu mostra que problemas como os infartos e câncer, erroneamente considerados ""doenças de Primeiro Mundo"", são responsáveis por um número cada vez maior de mortes. Mas os contrastes do Brasil fizeram surgir um novo padrão, que não é típico nem de Primeiro Mundo: a explosão das mortes violentas. Acidentes de trânsito matam muito, graças à convivência do Brasil civilizado e incivilizado: há bastante gente com dinheiro para comprar carros, mas não há respeito às leis básicas de trânsito. O principal responsável pelo aumento nas mortes violentas são os homicídios, em que os contrastes sociais são causa básica. O final da década passada selou a tendência: mais pessoas foram assassinadas no Estado de São Paulo do que mortas em acidentes de trânsito. Os dados fazem parte do estudo ""Mudanças no perfil de saúde da população brasileira"", realizado por pesquisadores do Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), ainda não publicada. De acordo com o estudo, é necessário investir agora, antes que seja tarde, na prevenção de doenças crônicas, como o câncer. A população do Brasil ainda é jovem, mas taxas de natalidade decrescentes e os avanços médicos estão fazendo surgir uma proporção de idosos cada vez maior. Se programas de prevenção não atingirem agora os adultos e idosos do ano 2020, a conta para tratar todos os infartos, derrames e tumores poderá ser alta demais. É muito mais barato investir em campanhas de alimentação saudável, que visam reduzir o colesterol no sangue, do que pagar por pontos de safena. O mesmo vale para programas contra o tabagismo, contra o álcool e a obesidade, todos fatores de risco reconhecidos para diversas doenças. O ""progresso"" de ter as doenças crônicas assumindo importância crescente pode ser enganoso. Por trás dele, há algo que distancia o Brasil do Primeiro Mundo. ""As doenças crônicas aqui matam mais, e mais precocemente"", diz Carlos Augusto Monteiro, professor titular de nutrição da Faculdade de Saúde Pública e coordenador do estudo no Nupens. Um brasileiro de 60 anos, por exemplo, tem seis vezes mais chance de morrer se sofrer um derrame do que um americano. Infartos causam quase cinco vezes mais mortes em brasileiras da mesma idade do que e argentinas. Parte da culpa é sem dúvida do atendimento médico, mais precário aqui. Mas há uma outra explicação, desmistificadora. O fato de os países ricos terem controlado as doenças infecciosas fez as crônicas, de tratamento mais difícil, assumirem importância maior. Isso dá a impressão de que os fatores de risco das doenças crônicas estão associados apenas ao estilo de vida existente no Primeiro Mundo. Na verdade, os pobres são os que correm mais riscos de desenvolverem essas doenças - assim como as infecciosas. A obesidade, por exemplo, se disseminou mais rapidamente entre mulheres brasileiras com renda mensal entre US$ 30 e US$ 90 do que entre as que têm renda maior. Uma pesquisa realizada em Porto Alegre, divulgada pelo Banco Mundial, mostra que pessoas sem escolaridade (um indicador que sugere pobreza) têm cerca de cinco vezes mais chance de terem pressão arterial elevada, o que predispõe a infartos, do que pessoas com instrução superior. Da mesma maneira, analfabetos são mais propensos a fumar, consumir àlcool, viver de maneira sedentária e serem obesos. A baixa instrução implica menor esclarecimento médico e menos cuidado com a saúde. Algo que programas de prevenção - que comprovadamente apresentam excelente relação custo/benefício - devem atacar de frente. ","As causas de morte no Brasil atual são diferentes das de 30 anos atrás. As ocorrências atribuídas à pobreza, como diarréias , deixaram de ser as mais freqüentes. Priorizamos, cada vez mais, as chamadas doenças do Primeiro Mundo: câncer e infarto. Mas , como somos do Terceiro Mundo, aliamos o atraso com a modernidade: temos muito mais carros , que causam muitas mortes por causa da incivilidade. Porém, a causa maior de mortes são os homicídios, fruto principalmente da nossa desigualdade socioeconômica. Um estudo da Nupens/USP “Mudanças no perfil de saúde da população brasileira” mostra a urgência de prevenir as doenças crônicas entre nós , como o câncer e o infarto. Uma alimentação saudável, o controle do tabagismo , do álcool e da obesidade constituem formas muito mais baratas de evitá-las. Entre nós, é perigoso modernizar com doenças do Primeiro Mundo, porque aqui se morre muito mais facilmente por causa de um câncer ou infarto do que nos Estados Unidos, quer por não termos a mesma presteza de atendimento médico, quer porque temos mais pobres --- e essas doenças, apesar da crença em contrário, atingem mais os mais pobres. Aliado à pobreza, vem o analfabetismo , que, segundo pesquisa realizada em Porto Alegre, leva as pessoas a terem cinco vezes mais chance de pressão arterial elevada, antecâmara do infarto, do que as de instrução superior. Também os analfabetos são mais propensos ao fumo, ao álcool, ao sedentarismo e à obesidade. " "SEUL - As Coréias do Sul e do Norte puseram ontem mais lenha na fogueira diplomática que começou a queimar há quatro dias, quando os norte-coreanos iniciaram suas incursões militares na localidade de Panmunjom, na zona desmilitarizada entre os dois países: Na sexta-feira o exército do Norte mandou 100 soldados à região; no sábado, 200; e no domingo, 180. O presidente sul-coreano, Kim Young-sam, alertou Pionguiangue que as ""inconseqüentes provocações"" não irão mais ser toleradas, aumentou o alerta militar e deu oprens de atirar se houver nova incursão. Os norte-coreanos acusaram seus vizinhos de estarem preparando uma invasão a seu país, com a ajuda militar dos Estados Unidos. Violação - Os sul-coreanos tentaram ontem angariar o apoio mundial à sua denúncia contra a Coréia do Norte pela violação da trégua acertada em 1953, que acabou com a guerra entre os dois países. O porta-voz do ministro do Exterior, Suh Dae-won, disse que a Coréia do Sul pediu a 30 países, entre eles Estados Unidos, China, Japão e Rússia, para que pressionassem Pionguiangue a respeitar o armistício de mais de 40 anos. Segundo indicou Suh, o país pensa até em recorrer ao Conselho de Segurança das Nações Unidas contra as agressões. O ministro da Defesa sul-coreano, Lee Yang-ho, disse ontem que as tropas do país, apoiadas por 37.000 soldados americanos, estariam prontas para responder a qualquer agressão militar de seus vizinhos. Ele revelou ter se reunido com os chefes militares do país para decidir como agir frente às provocações. Segundo a agência Yonhap, as tropas foram instruídas ontem para atirar em qualquer soldado norte-coreano que cruzasse a partir de ontem a fronteira com a zona desmilitarizada. O Comando das Nações Unidas considerou a invasão norte-coreana de domingo uma ""violação significativa"" do armistício, mas agregou que não havia motivo para um alarme. A mesma opinião é partilhada pelo governo americano. Mesmo assim, os presidentes Kim Young-sam e Bill Clinton irão se reunir na próxima terça-feira, na cidade sul-coreana de Cheju, para discutir qual a melhor atitute frente às movimentações militares norte-coreanas. Um editorial no jornal do Partido Comunista da Coréia do Norte, Rodong Sinmun dizia ontem que os vizinhos do sul enfrentariam um ""desastre irrevogável"" caso ignorassem os alertas de Pionguiangue sobre o que considerava ser ""movimentações beligerantes"". Os sul-coreanos realizaram exercícios militares, do dia 28 do mês passado ao último dia 2, reunindo as três Forças Armadas. Além disso, Seul e Washington examinam a possibilidade de reforçar a vigilância sobre a Coréia do Norte, principalmente com aviões-radar. Tratado de paz - Muitos analistas acreditam que Pionguiangue espera, com suas supostas provocações, obrigar os americanos a iniciar conversações bilaterais. O objetivo seria substituir o velho acordo do armistício por um tratado de paz negociado em separado. Assim, os norte-coreanos passariam por cima do governo de Seul, que consideram um ""marionete"". ""Eles estão apenas pondo um ponto de exclamação na sua afirmação, feita ao longo dos últimos dois anos, de que o armistício está morto"", analisou Jim Coles, porta-voz do Comando das Nações Unidas. ","A penetração de tropas norte-coreanas numa região desmilitarizada entre as duas Coréias reesquentou o clima diplomático dos dois países , em paz desde o armistício de 1953, que selou o fim da guerra entre eles. A Coréia do Sul reagiu e ameaçou contra-atacar se as provocações continuassem. Tentou também angariar apoio de 30 países ---entre eles Estados Unidos, China , Japão e Rússia--- , a fim de que eles pressionassem a Coréia do Norte a respeitar a trégua. O ministro da Defesa sul-coreano informou que suas tropas, apoiadas por 37.000 soldados americanos, responderiam a qualquer ataque do vizinho. O Comando das Nações Unidas e o governo americano reconheceram a violação, mas não vêem motivo para alarme. Mesmo assim, o presidente sul-coreano e Bill Clinton se reunirão para discutirem a melhor atitude a ser tomada. Por sua vez, um editorial norte-coreano contrapôs sérias ameaças , se os sul-coreanos continuassem com movimentações militares. Muitos analistas vêem a atitude dos norte-coreanos como uma forma de ser revisto o tratado de paz entre os dois países , e conseguirem um outro em separado , com o qual se desvinculariam de compromissos com Seul. " "TÓQUIO - O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, formalizou ontem uma parceria militar mais ativa com o Japão, que passará a partilhar com os EUA a responsabilidade pela defesa do Pacífico. De acordo com analistas políticos, o acordo pode abrir caminho para que o Japão participe no futuro de operações militares no exterior (a Constituição do país só permite que as Forças Armadas sejam usadas em defesa própria). Clinton afirmou que os americanos vão continuar no Pacífico, ressaltando que a aliança entre Japão e EUA é uma peça chave para a paz na região. ""A parceria de segurança é fundamental para manter a paz no Pacífico, especialmente nessa época de profundas mudanças na região"", disse o presidente americano, durante uma entrevista à imprensa concedida ao lado do primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto. ""O primeiro-ministro e eu concordamos firmemente em que, como duas das democracias mais fortes e economias mais importantes do mundo, Japão e Estados Unidos têm uma responsabilidade especial de liderança"", acrescentou Clinton. Soldados - O acordo entre os dois países prevê a permanência da força americana na Ásia - 100 mil soldados, dos quais 47 mil estão no Japão. Os dois países terão maior cooperação em áreas como inteligência e transferência de tecnologia militar - estão previstos o desenvolvimento de novas armas, como os aviões F-2, e o estudo de um novo sistema de defesa de mísseis. Além disso, Japão e Estados Unidos se comprometem a fornecer munição e serviços em tempos de paz. Para que possa honrar este último compromisso, o Japão fará uma exceção à proibição de exportar armas e componentes bélicos, adotada em 1967. Uma outra declaração, assinada separadamente, amplia a cooperação em temas globais, incluindo o combate à falta de alimentos, ao terrorismo, a doenças infecciosas e a desastres naturais. Para analistas políticos, o acordo firmado ontem muda substancialmente a relação entre EUA e Japão. ""Até agora, os papéis de segurança dos dois países eram muito claros - o Japão era um escudo protegendo-se apenas a si próprio e os Estados Unidos eram a espada"", comparou Tetsuo Meda, professor de política da Universidade Internacional de Tóquio, para a agência Reuters. ""Mas as declarações de hoje [ontem] mostram que esses papéis estão superados e que o Japão pode ser levado a fornecer algum tipo de espada."" Restrição - O texto da declaração evita cuidadosamente qualquer sugestão de que os Estados Unidos estejam pedindo ao Japão para revisar sua Constituição de 1947, compreensivelmente pacifista depois do passado militarista do país, exacerbado durante a Segunda Guerra. A Carta japonesa proíbe o uso de meios militares para resolver disputas internacionais - o que vem sendo interpretado, há vários e sucessivos governos, como uma proibição a integrar forças de paz em outros países. As boas vindas ao presidente americano, que viaja acompanhado da mulher, Hillary Clinton, foram dados pelo imperador Akihito e pela imperatriz Michiko. Clinton chegou a Tóquio na terça-feira. Hoje de manhã discursa no Parlamento, onde deverá explicar o acordo assinado ontem, e à tarde visita uma sucursal da montadora de automóveis americana Chrysler. Depois, parte para São Petersburgo e Moscou, onde participará da cúpula do G-7 (grupo dos sete países mais ricos). Durante a estadia de Clinton em Tóquio, o trabalho da imprensa foi bastante restringido, para evitar o registro de situações como o que envolveu o então presidente George Bush, em 1992 - que vomitou durante uma recepção. ","O presidente norte-americano, Bill Clinton, e o primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto, assinaram um acordo militar , com o que o Japão se compromete com a defesa do Pacífico. Esse acordo pode levar o Japão a operações militares no exterior , contrariando a sua Constituição , que estabelece que suas Forças Armadas sejam usadas em defesa própria. O trato prevê a permanência da força armada americana na Ásia , a cooperação em tecnologia militar , a produção de armas de ataque e defesa. Uma outra declaração, assinada separadamente, amplia a cooperação em temas como combate fome, ao terrorismo , a doenças infecciosas e a desastres naturais. Os analistas políticos vêem no acordo uma mudança substancial na relação entre os dois países. Apesar das evidências, o texto evita explicitar que os Estados Unidos querem que o Japão mude sua Constituição ----fundamentalmente pacifista desde o fim da guerra. A agenda de viagem do presidente americano, que está acompanhado da esposa, Hillary Clinton, inclui as boas-vindas do imperador e da imperatriz, uma visita ao Parlamento, onde explicará o acordo assinado e uma à montadora americana Chrysler." "BEIRUTE - O confronto entre Israel e a guerrilha fundamentalista do Hisbolá (Partido de Deus) completou ontem oito dias de forma sangrenta. Bombardeios da artilharia israelense contra o Sul do Líbano provocaram dois massacres: o primeiro, em Nabatié, matou 10 pessoas, entre elas um bebê de três dias. O segundo, horas depois, atingiu uma base das Nações Unidas transformada em acampamento em Caná, nos arredores de Tiro, matando pelo menos 100 pessoas e ferindo mais de 190, quase todos civis, a maioria mulheres e crianças, que se haviam refugiado no local para escapar dos bombardeios israelenses. O bombardeio israelense aconteceu em resposta a um ataque com foguetes Katyusha, lançados pelo Hisbolá de uma posição a 300 metros da base. A rota dos foguetes foi refeita por radares israelenses, e 15 minutos depois Israel bombardeou em resposta, errando o alvo. O Hisbolá negou que tivesse lançado foguetes de posições próximas à base da Força Provisória das Nações Unidas no Líbano (Unifil, das iniciais em inglês), acusando Israel, num comunicado divulgado em Beirute, de ""espalhar boatos falsos"". Mas o ataque do Hisbolá foi confirmado por um porta-voz das Nações Unidas. O massacre deixou indignada a população, arrasados até mesmo fotógrafos e cinegrafistas acostumados a registrar cenas semelhantes, e provocou imediata e vigorosa reação internacional. Parentes da vítimas gritavam ao lado dos corpos, culpando Israel mas também acusando o Hisbolá, por ter atirado de local tão próximo ao campo sabendo que Israel costuma rastrear os ataques. O primeiro-ministro israelense, Shimon Peres, disse lamentar o bombardeio, mas responsabilizou o Hisbolá pelo episódio. ""O único culpado é o Hisbolá, e se os sírios e os libaneses não impedirem ele vai provocar uma tragédia no Líbano"", afirmou o primeiro-ministro, durante entrevista coletiva à imprensa, em Tel Aviv. Israel acusa o Líbano e a Síria de serem coniventes com os terroristas instalados em território libanês, de onde atacam constantemente alvos civis no Estado judeu. Em entrevista à televisão francesa Antenne 2, o primeiro-ministro libanês, Rafic Hariri, declarou-se ""verdadeiramente comovido"" pelas declarações de Peres, e desafiou o premier israelense a mostrar ""coragem"", reconhecendo que o bombardeio foi ""um erro"". Carnificina - Quinhentos civis libaneses se haviam refugiado no campo para fugir dos bombardeios israelenses ao Sul do Líbano. O repórter Brent Sadler, da rede de TV a cabo CNN, falou de ""cenas terríveis de carnificina"". Sadler, que esteve no local, contou que muitos fotógrafos e cinegrafistas baixaram as câmeras e começaram a chorar diante dos corpos mutilados de homens, mulheres e crianças. Os feridos, entre eles alguns soldados da ONU, foram levados para hospitais de Tiro. Antes do bombardeio contra Caná, um ataque da aviação israelense contra Nabatié, também no Sul do Líbano, destruiu uma casa, matando 10 pessoas, entre elas uma mãe e sete filhos. Uma das crianças era um bebê, de apenas três dias. O pai, em peregrinação a Meca, não chegou a conhecer o filho. Apesar do choque provocado pela morte de tantos civis, Israel afirmou que pretende continuar os bombardeios. ""Acredito que a operação vá continuar, pelo menos por alguns dias, mas é impossível fixar um prazo. Pode levar uma semana ou 10 dias"", disse o ministro do Exterior, Ehud Barak, ex-comandante militar, à rádio do exército israelense. Alvos - Um porta-voz do governo israelense, Uri Dromi, reiterou que Israel não tem outra escolha, pois a prioridade é interromper os ataques de Katyushas contra o país. Dromi afirmou que as operações parariam se foguetes parassem de cair. ""Mas o Hisbolá aumentou os ataques, em vez de cessá-los"", afirmou. Os israelenses acusam o Hisbolá de se esconder atrás de civis. Questionado por um repórter da CNN sobre o ataque a Nabatié, o chanceler Barak disse que Israel bombardeou a casa onde morreram vários civis porque momentos antes aviões israelenses tinham sido alvejados exatamente daquele local. Quando o repórter perguntou a Barak sobre a promessa de não atacar o Hisbolá se houvesse perigo de matar civis, Barak respondeu que o piloto que bombardeou a casa não podia saber que havia civis lá. Shimon Peres, que se reuniu com o presidente palestino Yasser Arafat ontem, reagiu ao ataque de Nabatié (o outro não havia ocorrido ainda) dizendo que pensava que a cidade estava vazia, que todos foram instruídos a deixar suas casas. Mas os libaneses responderam a isso dizendo que não tinham para onde ir com seus filhos e perguntaram que direito Peres teria de mandá-los sair de suas casas. O primeiro-ministro israelense disse que está disposto a aceitar o cessar-fogo proposto pelos EUA se o Hisbolá se comprometer a parar de atirar contra o Norte de Israel. Em entrevista à CNN, de Damasco, na Síria, o primeiro-ministro libanês, Rafic Hariri, acusou Israel de obstruir as negociações. ""Não é o Líbano que está recusando uma solução política, é Peres"", disse Hariri. ""Veja o que está acontecendo. Ele está matando inocentes e deixando o Hisbolá intacto"", afirmou. Os ataques de Israel foram iniciados há nove dias, depois que foguetes Katyusha lançados pelo Hisbolá feriram 36 civis na cidade israelense de Kiriat Shmona. Desde então, Israel vem bombardeando sistematicamente o Sul do Líbano, sem ter conseguido impingir grandes danos ao grupo terrorista - as baixas são praticamente todas civis. ","Em resposta aos foguetes Katyusha do grupo fundamentalista Hisbolá , Israel bombardeou o Sul do Líbano, matando mais de 100 pessoas e ferindo cerca de 190 --- a maioria mulheres e crianças, que ali estavam refugiadas numa base. O massacre deixou indignada a população , e os repórteres e cinegrafistas, apesar de acostumados a tais cenas ficaram arrasados. A reação internacional veio rápida e vigorosa. A auto-defesa dos responsáveis pode ser resumida no simplismo irresponsável das brigas de moleques: ---Foi você! / ---Não, foi você! / ---Você começou primeiro! / ---Não, foi você! Apesar dos lamentos oficiais pelo bombardeio, um porta-voz do governo israelense disse que o país não tem outro jeito, pois a prioridade é a interrupção dos ataques dos foguetes Katyushas. Em nenhum momento , as declarações oficiais priorizaram a vida humana --- de civis inocentes. " "ASSUNÇÃO - Pressionado pela população e pela oposição parlamentar, o presidente do Paraguai, Juan Carlos Wasmosy, tentava ontem encontrar uma maneira de impedir a posse do general golpista Lino César Oviedo no Ministério da Defesa, enquanto vinham à tona os bastidores da crise que explodiu na segunda-feira, quando Oviedo se rebelou contra a decisão de Wasmosy de demiti-lo da chefia do Exército. Segundo foi revelado ontem em Assunção, há três dias Oviedo ameaçou explodir a residência presidencial e assassinar a família de Wasmosy caso o presidente insistisse em sua demissão. ""Se ele não renunciar até às duas da manhã, vou explodir o palácio"", avisou o general, à meia-noite de segunda-feira. ""Prefiro a renúncia e até a morte a um derramamento de sangue"", respondeu Wasmosy que, diante das pressões do general, chegou a escrever que pediria licença da presidência. Um blefe em resposta aos blefes do virulento e carismático Oviedo que, por aqui, entre diplomatas estrangeiros, tem fama de narcotraficante, entre militares a marca de competente e na boca do povo provoca insinuações maledicentes por sua excessiva paixão em desfilar de César no carnaval. ""Sou um guerreiro guarani"", definiu-se Oviedo ontem. Wasmosy só não desistiu da presidência, que exerce há três anos, porque recebeu respaldo internacional, do papa João Paulo II ao presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos. Ao lado de pelo menos outras 60 autoridades mundiais, eles formaram a rede internacional que sufocou o golpe. Wasmosy contou ainda com decisiva colaboração dos colegas do Mercosul. Os embaixadores do Brasil, Márcio Dias, e da Argentina, Nestor Auad, participaram diretamente das negociações entre Wasmosy e Oviedo. Impasse - Ontem, o país viveu um dia de impasse. O acordo feito terça-feira entre Wasmosy e Oviedo - pelo qual o general deixaria a chefia do Exército, mas seria nomeado ministro da Defesa - fazia água, rejeitado pela população que, segunda-feira à noite, tinha saído à rua para defender a democracia. Numa cerimônia da qual Wasmosy participou, Oviedo deixou a chefia do Exército e passou para a reserva, mas sua posse no Ministério da Defesa foi adiada. Os comandantes da Marinha, almirante López Moreira, e da Aeronaútica, brigadeiro César Cramer, ainda tentavam convencer Oviedoa desistir do ministério. E poucos paraguaios - muitos voltaram a xingar ontem o presidente de covarde e hijo de p... - conheciam os bastidores da ameaça de golpe militar e das negociações entre Wasmosy e Oviedo, que duraram 17 horas. Temendo os grampos, os interlocutores entre o presidente e o general golppista se recusavam a usar telefones e passaram a madrugada de segunda para terça-feira entre a casa de Wasmosy, uma improvisada fortaleza de negociações, e o quartel de cavalaria, onde o general, que insistia em desacatar a ordem do presidente e não abria mão do comando do Exército, devolvia seus explosivos recados. ""Que ele rasgue o decreto que me afasta do governo"", insistia. Temendo os atentados, Wasmosy mandou que até os soldados deixassem o palácio presidencial e foi dormir fora de casa com três dos quatro filhos. A mulher, Estela, está nos Estados Unidos. ","Com o seu conhecido rompante, o general Lino César Oviedo , do Paraguai , ameaça explodir o palácio e matar a família do presidente Juan Carlos Wasmosy, caso ele insista na sua demissão da chefia do Exército. De acordo com a negociação, o general sairia do comando do Exército , mas seria nomeado ministro da Defesa. Ele passou para a reserva, porém a posse como ministro foi adiada. Daí a ameaça ao presidente, que foi instado a se afastar do cargo. Wasmosy só não desistiu , porque recebeu apoio internacional, desde o papa João Paulo II ao presidente Bill Clinton, além de pelos 60 outras autoridades mundiais. Além dessa demonstração de apoio , o presidente conta com o trunfo de não haver consenso sobre a figura do general: é visto como narcotraficante por diplomáticos estrangeiros, como competente pelos militares e como cultor excessivo da própria figura pelo povo. Os interlocutores entre o general e o presidente temem os grupos e evitam usar os telefones . As conversações se dão na casa de Wasmosy e no quartel da cavalaria , onde Oviedo continua desacatando as ordens. " "PEQUIM - Os presidentes da China, Jiang Zemin, e da Rússia, Boris Yeltsin, anunciaram ontem em Pequim uma parceria estratégica, definida por Yeltsin como um ""modelo de relações para outros países"". Num comunicado conjunto, os chefes de Estado alertaram contra nações que tentam dominar o mundo pós-Guerra Fria, recado claro aos Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar ocidental). Os chanceleres dos dois países frisaram, no entanto, que a nova parceria não é uma aliança destinada a fazer frente a outras potências. Além do comunicado conjunto, Yeltsin e Jiang assinaram 13 acordos. Entre eles, um de cooperação para desenvolvimento de tecnologia militar e maior intercâmbio entre suas Forças Armadas. Também estabeleceram uma linha direta de telefone ligando os dois gabinetes. Os dois presidentes disseram ainda que pretendem assinar um tratado para retirar seus soldados da fronteira comum. Yeltsin disse à imprensa que a China vai aderir às conversações do G-7 (grupo dos sete países mais ricos) e Rússia sobre o banimento de testes nucleares. Mas de acordo com um porta-voz do governo chinês, a história não é bem assim. ""Acho que é preciso haver mais estudos e discussões"", disse o porta-voz Shen Guofang. A China insiste na permissão de se realizar explosões nucleares pacíficas depois da assinatura do tratado. Hegemonia - A parceria entre China e Rússia foi estabelecida um dia depois da divulgação, em Londres, do relatório anual do Instituto Internacional de Estudos Estratégico (IIEE). O relatório destaca a volta da diplomacia da força, usada principalmente pelos Estados Unidos, potência hegemônica no mundo depois do colapso do comunismo. (Apesar de apontar também, como exemplo desta diplomacia, as manobras militares da China no Estreito de Formosa.) Pressões - No comunicado, Jiang e Yeltsin dizem que ""hegemonia, poderes políticos e repetida imposição de pressões sobre outros países continuam a ocorrer. A política de blocos tomou espaço de outras manifestações"". Em resposta, a China diz considerar a campanha militar russa na Chechênia um assunto interno; a Rússia assume a mesma posição em relação a Formosa e ao Tibete. A questão da expansão da Otan para os países da Europa Central e do Leste, a que Yeltsin se opõe, também foi tratada pelos dois chefes de Estado. ""No que diz respeito à ampliação da Otan, o presidente Jiang Zemin decididamente compartilha da opinião da Rússia de que a expansão da Otan em direção às suas fronteiras é inadmissível"", disse Yeltsin. Para diplomatas, o acordo marca o ápice dos laços entre Pequim e Moscou desde que a aliança sino-soviética desmoronou nos anos 60, em meio à rivalidade pela supremacia do mundo comunista e a conflitos de fronteira. ""Queremos que as relações entre Rússia e China amadureçam de modo que possam resistir a qualquer reviravolta"", disse Yeltsin. ""As relações de amizade sino-russas entraram numa nova era"", confirmou Jiang. Yeltsin, que termina hoje a visita de três dias à China, não perdeu a oportunidade de alfinetar seus adversários comunistas. Sem nenhum constrangimento, o presidente russo disse para uma platéia formada pela elite comunista chinesa que uma vitória comunista nas eleições de junho na Rússia seria uma tragédia para o país. ","Os presidentes da China e da Rússia, Jiang Zemin e Boris Yeltsin, firmaram uma parceria estratégica, designada por Yeltsin com um “modelo de relações para outros países”. Num comunicado conjunto , previnem as nações que tentam dominar o mundo pós-Guerra Fria--- Estados Unidos e aliados do Otan. Além desse, assinaram 13 acordos , entre os quais, um de cooperação para desenvolvimento de tecnologia militar e maior intercâmbio entre as suas Forças Armadas. Estabeleceram, também, uma ligação telefônica direta entre os dois gabinetes , e pretendem retirar as tropas da fronteira comum. O retorno da diplomacia da força, principalmente por parte dos Estados Unidos, certamente tem a ver com a decisão dos dois países. No clima do acordo, China e Rússia esquecem mutuamente os conflitos político-militares internos. E na direção dos próprios interesses, firmam posição contra a expansão da Otan para os países da Europa Central e do Leste. Para os diplomatas , o acordo representa o ponto alto das relações entre os dois países , desde o desmoronamento da aliança entre eles, provocado pelos conflitos de fronteira e pela vaidade de definir a supremacia no mundo comunista. Apesar dos votos de amor eterno , Yeltsin , no seu discurso a uma platéia formada pela elite comunista chinesa, disse que uma vitória comunista na Rússia nas próximas eleições seria uma tragédia. " "PARIS - Está em ponto de ebulição na França a polêmica provocada pelo apoio do Abade Pierre, considerado o homem mais popular do país, a seu velho amigo o filósofo Roger Garaudy - ex-comunista e ex-católico convertido ao islamismo - em torno das teses de revisão do Holocausto que este sustenta em seu livro Os Mitos fundadores da política israelense. A simpatia hipotecada pelo sacerdote ao polemista - e não necessariamente a todo o conteúdo de suas teses - repercutiu mal no momento em que Garaudy é processado com base na lei que pune a negação de crimes contra a humanidade, e semeou a confusão na comunidade judaica e na opinião pública. Ânimos - O tema não podia ser mais delicado, e os ânimos, mais facilmente exaltáveis. Militante islâmico, Garaudy considera no livro que genocídio e holocausto são palavras exageradas para os ""pogroms"" nazistas; propõe ""uma história crítica dos crimes hitleristas""; e assume posição combatente contra ""o dogma dos seis milhões de judeus exterminados"", que segundo ele é usado para justificar os excessos da política de Israel na Palestina e para deixar o Estado judeu ""acima das leis internacionais"". Garaudy apresenta os ""historiadores críticos"" - ou negacionistas - como pesquisadores perseguidos cujos trabalhos não foram contestados cientificamente. E se aventura numa tentativa de relativizar o horror: segundo ele, gente de outros povos foi morta também pelos nazistas e nem todos os judeus morreram em câmaras de gás, mas também de fome, em marcha forçada ou a bala. A questão poderia ser: aonde semelhante linha de pensamento levaria? Mas o fato é que, relativização, revisão ou negação, o que escreve Garaudy é passível, na França, das penas da lei Gayssot, que no seu caso foi invocada pelo Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos. O pensador foi indiciado e poderá passar um ano na cadeia. Onde a porca torceu o rabo, no entanto, foi na intervenção do Abade Pierre, o homem que espalhou pelo mundo as Comunidades de Emaús, que ensinou os franceses a pensarem mais nos pobres, que renunciou à fortuna pessoal, ajudou judeus a escaparem para a Suíça durante a Segunda Guerra e é membro da Liga Contra o Racismo e o Anti-semitismo (Licra). Calúnia - Também simpatizante da causa palestina, o sacerdote de 83 anos foi solicitado por Garaudy a sair em sua defesa, como outros amigos. Começou por considerar ""uma calúnia confundir teu livro com as teses revisionistas"". Mais adiante, reconheceu não ter lido o livro, mas um resumo, insistindo porém em argumentos como o do número de mortos no campo de concentração de Auschwitz, onde se afirmou inicialmente que houve 4 milhões de vítimas, número corrigido posteriormente para 1 milhão; mesmo considerando que ""a abominação é a mesma"", o abade sustenta haver aí uma demonstração de que o tema deve ser objeto de investigação imparcial. O Abade Pierre foi chamado a explicações na Liga contra o Racismo. Recuou, disse que não entra no mérito do livro nem apóia suas teses, mas repisou o argumento da integridade intelectual de Garaudy e da necessidade de debater livremente este tema. Os jornais estão cheios de contestações, respostas e desafios ao abade. E ontem, enquanto a hierarquia católica mantém cauteloso silêncio, ele voltou à carga em entrevista ao Libération, dizendo-se satisfeito com a polêmica: ""Muita gente me tem dito obrigado pela coragem de questionar um tabu. É preciso parar de chamar de anti-semita quem questiona a história do Holocausto. Não nos deixaremos mais chamar de antijudeus ou anti-semitas por dizer que um judeu canta mal."" ","Está quente na França a polêmica provocada pelo apoio do Abade Pierre ao filósofo Roger Garaudy, convertido ao islamismo, que , no seu livro “Os mitos fundadores da política israelense”, propõe uma revisão do holocausto judeu , considerado por ele uma forma de justificar os excessos israelenses contra os palestinos. O filósofo vê exagero na atribuição a Hitler dos crimes contra os judeus , quer na quantidade quer na qualidade. Mesmo não inocentando o ditador, ele é passível de infringir a lei Gayssot, invocada pelo Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos para indiciá-lo. A questão se acende mais, porque o Abade, de 83 anos, é conhecido pelo seu desapego aos bens, por ajudar judeus a escapar, por ser membro da Liga Contra o Racismo e o Anti-Semitismo . Mas também é simpatizante da causa palestina , e, por isso, Garaudy pediu que o defendesse. E na defesa, mesmo dizendo só ter lido um resumo do livro , insiste em argumentos que põem em cheque a quantidade de judeus mortos. Chamado a dar explicações na Liga contra o Racismo, o abade recuou dizendo que não entrava no mérito do livro e nem apoiava as suas teses, mas reforçou sua convicção na integridade intelectual de Garaudy e a necessidade de um debate despreconcebido sobre o tema. " "SANTO DOMINGO - Equipes de socorro retiraram ontem das águas do Atlântico 79 corpos dos 189 ocupantes de um Boeing 757-200 que caiu no mar por volta de meia-noite de terça-feira, cinco minutos depois de ter levantado vôo do centro turístico de Porto Plata, na República Dominicana. O aparelho, da empresa turca Birgen-Air, fretado pela agência alemã Oeger Tours, transportava 176 passageiros, todos alemães, com uma possível exceção de dois deles, que seriam poloneses. Levava também 13 tripulantes, 11 deles turcos, e duas aeromoças dominicanas, as irmãs Francis e Ibeyse Ramos. Segundo a Força Aérea Dominicana, que está sendo ajudada nos trabalhos de resgate por unidades da Guarda Costeira dos Estados Unidos, nada indica que tenham havido sobreviventes. O avião caiu numa área infestada de tubarões, onde ontem as ondas se elevavam a mais de três metros. Pequenos pedaços do aparelho foram vistos flutuando em meio a uma grande mancha de combustível e óleo. Helicópteros e embarcações particulares também participam da busca aos corpos. Por falta de lugar suficiente no necrotério da cidade, eles estão sendo depositados em caminhões frigoríferos, para posterior identificação. Comoção - Porto Plata é um balneário dominicano muito procurado por turistas alemães. O Boeing fazia um vôo charter com destino a Berlim, com escala em Frankfurt. No aeroporto de Schoenefelf, em Berlim, os parentes dos passageiros, desesperados com as notícias do acidente e a impossibilidade de haver sobreviventes, tiveram à sua disposição uma sala especial onde, isolados da imprensa e dos curiosos, eram atendidos por médicos, psicólogos e religiosos. Em Hamburgo, o proprietário da agência de viagens Oeger Tours, Vural Oeger, disse estar informado de que as condições meteorológicas eram extremamente desfavoráveis no momento da decolagem, e que o aparelho ""foi muito provavelmente atingido por um raio"", que paralisou suas duas turbinas. Em Frankfurt, Oliver Will, diretor da associação Cockpit (Cabine), de aeronautas alemães, afirmou que o acidente ""é um exemplo típico de linhas aéreas exóticas que entram nos mercados alemães sem que estes conheçam seus padrões de segurança"". Riscos - De acordo com Will, as pessoas devem ser sempre lembradas de que a passagem mais barata envolve algum risco, pois os preços reduzidos são geralmente uma decorrência de cortes nas revisões dos aparelhos e redução do tempo de treinamento das tripulações. O representante da Cockpit recusou-se a especular sobre as causas do acidente, mas rejeitou a hipótese de este ter sido conseqüência de um raio. ""Para um avião desse tamanho não existe mau tempo"", disse. Investigações - Depois de ter emitido uma nota segundo o qual o Boeing não estava segurado - o que significa que não tinha condições de vôo -, o Ministério dos Transportes da Alemanha retificou essa informação, quando a Oeger Tours apresentou as apólices de seguro. Ainda assim, o aparelho não tinha permissão para entrar no espaço aéreo alemão, acrescentou o Ministério. Técnicos alemães partiram ontem para a República Dominicana, para participar das investigações sobre as causas do acidente, um dos maiores da década. Em 20 de dezembro do ano passado, um avião do mesmo tipo, Boeing 757, da empresa American Airlines, caiu na Colômbia, causando a morte de 161 pessoas. Em 1994, a queda de um Airbus da China Airlines, de Formosa, causou 264 mortes nas imediações do aeroporto de Nagóia, no Japão. Houve sete sobreviventes. ","Um Boeing 757-200 da empresa turca Birgen-Air, fretado pela agência alemã Oeger Tours, caiu com 176 passageiros , na maioria alemães, logo depois de ter decolado do centro turístico Porto Plata na República Dominicana. Segundo a Força Aérea Dominicana , que prestava socorro ajudada pela Guarda Costeira americana, não deve ter havido sobreviventes . A região da queda é infestada de tubarões e , no dia, as ondas se elevavam a mais de três metros. por falta de espaço no necrotério Diferentemente de Porto Plata, onde os corpos eram depositados provisoriamente em caminhões frigoríferos, no aeroporto Schoenefelf, em Berlim, os parentes das vítimas esperavam notícias atendidos por médicos , psicólogos e religiosos. O proprietário da agência que fretou o avião informou que , na hora da decolagem, o tempo estava muito ruim e que , possivelmente, um raio tenha atingido a aeronave. Já o diretor da associação de aeronautas alemães , sutilmente, censurou a entrada de linhas aéreas pouco confiáveis no mercado alemão, alertou para o risco de viagens baratas e descartou a possibilidade de um raio ter afetado um avião daquele tamanho. O Ministério de Transportes alemão retificou uma primeira notícia segundo a qual o Boeing não estava segurado. Mesmo com o seguro, ele não poderia entrar na Alemanha. Técnicos alemães partiram para a República Dominicana , a fim de participar nas investigações. " "ROMA - O rigor da polícia do aeroporto internacional de Roma não impediu que Silvana Saturnina Santos - uma alagoana esperta - chegasse a Brescia, perto de Milão, no norte da Itália, para apresentar o pequeno Lucas, de oito meses, ao pai italiano de dois de seus filhos. Depois de permanecer retida e isolada por quase 30 horas numa sala do posto policial do Leonardo da Vinci, aeroporto romano de Fiumicino, Silvana, 29 anos, artesã e empregada num escritório de advocacia em Caraguatatuba, São Paulo, acompanhada de suas três crianças - Sílvia, 11 anos, filha de um pai brasileiro; Bárbara, 5, e Lucas, 8 meses, filhos de Davide Parziale, que conheceu há 6 anos quando o italiano trabalhava como pintor na cidade paulista, foi finalmente autorizada a terminar sua aventura em Brescia, como hóspede da família Parziale. As 30 horas mais longas e angustiantes da vida de Silvana - como ela qualificou sua detenção no aeroporto de Roma - começaram às 7 horas de domingo, quando se apresentou, com os três filhos, ao controle de passaportes da polícia italiana. A presença de uma jovem mulata, com crianças em idades de adoção, foi suficiente para tornar os policiais romanos suspeitosos, exigentes e intratáveis. Esquecendo que a Itália não exige vistos de entrada nos passaportes dos cidadãos brasileiros, sem levar em conta o fato de que Silvana possuía quatro passagens com data marcada (o próximo 8 maio) de volta ao Brasil e uma documentação que confirmava a paternidade italiana de Bárbara e Lucas, os policiais insistiam numa única exigência: que a brasileira exibisse US$ 1.000, quantia que consideravam indispensável para as despesas de uma breve estadia na Itália. Em vão, Silvana tentou explicar, em português, que viajava pela primeira vez à Itália a convite do pai e dos avós italianos de Bárbara e Lucas, que seria hospedada na casa deles de Brescia. Nenhum dos policiais quis comunicar-se com os números de telefones da família Parziale. ""O mais nervoso deles não queria perder tempo em conversas, gritando para que seus colegas expulsassem logo questa puttana (esta puta) da Itália"", Silvana contou mais tarde. A alagoana começou a vencer sua guerra contra a intolerância da polícia italiana recorrendo a uma espanhola que conhecera no vôo da Alitália de São Paulo a Roma. A ela, Silvana pediu que informasse aos Parziale de Brescia do drama que estava vivendo no aeroporto romano. A resposta a esse pedido de socorro chegou com um conselho de Davide, o italiano de 30 anos que a alagoana conhecera em Maceió há seis anos. ""Diga que está se sentindo mal, faça-se internar num hospital."" Silvana seguiu o conselho, mas no hospital, depois de vários exames, os médicos disseram que ela não tinha nada, era mais saudável do que um peixe. De volta ao aeroporto, Silvana soube que seria reembarcada para São Paulo no vôo noturno da Alitália. Com a desculpa de comprar água e biscoitos para os filhos, obteve autorização para sair do isolamento - e esconder-se da polícia, por mais de três horas, dentro das lojas do aeroporto. De onde ouviu também os diversos avisos lançados pelos alto-falantes de que o vôo da Alitália não podia mais retardar sua decolagem. Sem qualquer queixa contra o pessoal da companhia aérea, ontem à noite, falando pelo telefone da casa dos pais de Davide Parziale em Brescia, Silvana não queria esquecer os momentos de discriminação, humilhação e de toda sorte de descortesias que viveu no aeroporto até a manhã de ontem,quando seu caso se tornou notícia da primeira página do Corriere della Sera e o consulado geral do Brasil em Roma procurou saber do inspetor Pronabi, da polícia do aeroporto Leonardo da Vinci, que tratamento estava sendo dispensado à cidadã brasileira Silvana Saturnino Santos, mãe de duas crianças com direito à cidadania italiana. Dois episódios que mudaram da água para o vinho o tratamento dispensado à moça morena das Alagoas, que ontem à tarde pôde ser recebida e abraçada calorosamente por Davide, sua mãe e sua irmã no aeroporto Linate de Milão, de onde seguiram para Brescia. ","Silvana Saturnina Santos, alagoana , viajou para a Itália a convite do pai e avós de dois de seus três filhos--- o mais novo, de oito meses, ainda não apresentado ao pai. No aeroporto de Roma, foi detida no posto policial , apesar de todos os documentos em ordem, e tratada com descaso e ofensivamente. Os policiais não quiseram se comunicar com a família do marido, apesar de ela lhes ter dado o telefone. Queriam que ela comprovasse que tinha US$ 1.000 para uma pequena permanência no país. Caso contrário , tinha que retornar a São Paulo. Sem poder se ausentar do aeroporto, recorreu a uma espanhola com quem viajou de São Paulo a Roma. Esta telefonou para a família de Davide, para cuja casa iria. Por conselho dele, fingiu estar passando mal, para ser internada no hospital. Infelizmente, os médicos constataram que ela não tinha absolutamente nada. A estratégia não deu certo. Retornou ao aeroporto e tentou a última cartada: com a desculpa de comprar água e biscoito para os filhos, obteve permissão para sair do isolamento. Conseguiu esconder-se da polícia por mais de três horas, ali mesmo nas lojas do aeroporto. Com o truque , chegou ao destino. Sem queixas contra a companhia aérea, confessou-se humilhada pela polícia italiana. A notícia chegou à primeira página do Corriere della Sera , e o consulado geral do Brasil em Roma cobrou do inspetor policial esclarecimentos sobre a arbitrariedade . Após isso, o tratamento foi outro. " "WASHINGTON - O resultado da eleição primária no estado americano de Iowa, o primeiro grande passo na marcha para a indicação do candidato do Partido Republicano que desafiará Bill Clinton na eleição presidencial de novembro, tem implicações muito maiores que a simples divisão dos votos. Como era esperado, o senador Bob Dole ganhou, com 26% dos votos, mas teve uma vantagem de apenas 3 pontos percentuais sobre o segundo lugar. Até mesmo o ex-comentarista de televisão Pat Buchanan se surpreendeu com seus 23% de votos, que o fizeram ficar parecendo o verdadeiro vencedor. O ex-governador do Tennessee Lamar Alexander, em terceiro lugar, com 18%, terá agora seus 15 minutos de fama, a menos que consiga milagres nos próximos estados que votarão. O quarto lugar de Steve Forbes, com 10%, mostra que é impossível comprar a eleição, e o quinto lugar do senador Phil Gramm, com 9%, coloca um ponto final em sua campanha. Aborto - ""Iowa desempenhou o seu papel tradicional"", disse o analista político Steffen Smith, professor da Iowa State University. ""Reduziu o campo de pré-candidatos de nove para quatro, talvez cinco, mas dificilmente Gramm se recuperará."" Pat Buchanan, que segundo pesquisas de boca de urna levou 41% dos votos da chamada direita cristã, foi oficialmente consagrado como porta-estandarte da ala mais conservadora do partido, a ala anti-aborto, na qual a Coalizão Cristã - grupo que se torna cada vez mais forte desde 1988 - domina um bloco de eleitores muito bem organizados. ""Essas pessoas se vestem todos os domingos para ir à igreja"", disse Smith. ""Se vestirão também para votar."" Em Iowa, eles representaram 35% dos cerca de 100 mil republicanos que votaram, e também foram vitais na vitória de Buchanan em Louisiana, no início deste mês. Buchanan pode ser visto pelos brasileiros que têm acesso à rede de TV CNN: ele aparece todos os domingos, às 21h30, no programa Crossfire, como representante do pensamento conservador. Entre os que votaram em Buchanan, 43% o fizeram porque ele ""melhor representa os valores conservadores do partido"", e 51% porque ele promete que, como presidente, faria tudo para tornar ilegal o aborto. Defensor de uma política isolacionista e protecionista que propõe erguer uma cerca na fronteira dos EUA com o México, para acabar com a imigração ilegal, Buchanan também dominou entre os eleitores mais pobres - aqueles que se sentem mais ameaçados pela situação econômica atual dos EUA. Idosos - A vitória de Dole, 72 anos, além de muito apertada, é problemática também porque a maior parte de seus eleitores no estado - 41% - tinham mais de 60 anos de idade. Nenhum outro estado tem uma população idosa tão grande quanto Iowa. Dole briga pela indicação do partido pela terceira vez (perdeu para Ronald Reagan em 1980 e para George Bush em 1988) e é muito identificado como político da velha guarda, num momento em que o eleitorado quer sangue novo. O terceiro lugar de Lamar Alexander, que além de ex-governador foi secretário de Educação no governo de George Bush, não deixa de consagrar o único candidato que procurou não basear toda a sua campanha em anúncios de televisão negativos (criticando os outros candidatos). A maioria dos republicanos que votaram nele (28%) se consideram moderados, e 31% ainda não haviam decidido em quem votar três dias atrás. Steve Forbes - que acabou gastando US$ 400 por cada voto que recebeu em Iowa - prometeu que gastará vários milhões de dólares em anúncios de televisão em New Hampshire - o próximo estado que votará, para onde todos os republicanos embarcaram ontem. ","A eleição primária no estado de Iowa mostra a tendência para a escolha do candidato republicano que desafiará Bill Clinton na competição à presidência. O esperado vencedor, Bob Dole, ficou com 26% dos votos , só três pontos acima do segundo colocado, Pat Buchanan , que pareceu o vencedor. O terceiro lugar(com 18%) ficou com Lamar Alexander ; o quarto (com 10%) , com Steve Forbes, apesar do enorme gasto ; e o quinto ( com 9%), com Phil Gramm , com nenhuma chance. O perfil do eleitorado fica bem demonstrado nos votos de Pat Buchanan: a ala conservadora do partido , contrária ao aborto , escolheu-o como seu porta-estandarte. Outra pregação que lhe deu muitos eleitores foi sua proposta de fechar a fronteira do México para evitar a imigração clandestina. E ainda conseguiu votos dos mais pobres, que se sentem ameaçados com a situação econômica atual do país. A vitória de Dole, 72 anos, não parece alentadora, porque se deu no estado com o maior índice de idosos dos Estados Unidos . Identificado como o político de velha guarda, vai de encontro à tendência atual por sangue novo. O terceiro lugar de Lamar Alexander foi dado por moderados e por indecisos de última hora. E o candidato foi o único a não fazer campanha estraçalhando os adversários. " "A Internet é um ambiente propício para os altos e baixos do coração. Isso todo mundo ficou sabendo ao acompanhar o romance entre Dara e Júlio Falcão, na novela Explode Coração, da TV Globo. Na grande rede de computadores que interliga pessoas no mundo todo, o amor e o ódio estão presentes, por isso, ontem, dia de São Valentim (Valentine's Day), em que se comemora o dia dos namorados em vários países do Hemisfério Norte, a grande rede abriu espaço para os apaixonados. Na Internet há vários endereços dedicados ao assunto. Neles, pode-se comprar chocolate, vinho, lingeries, enviar cartões e até pedir o ser amado em casamento pela rede, de modo público ou não. Um dos endereços mais óbvios é o Valentines.com - love at first site (amor no primeiro endereço) (http://www.valentines.com). Nesse ciberlocal, o objetivo é ajudar os apaixonados a manter a chama do amor acesa. Há cartões de visitas, cartas românticas. Duas pessoas respondem dúvidas amorosas via correio eletrônico. Entre as dúvidas dos internautas apaixonados estão: o que fazer se uma mulher lhe oferecer flores ou como confiar em alguém depois de ter sido magoado em outro relacionamento. No Palácio do amor de Afrodite (http://www.purple.co.uk/purplet/love.html), além de ligações para várias outras páginas regidas pelo Cupido, os enamorados encontram, entre muitos desenhos melosos e apaixonados, músicas, poemas, cartões, dicas para mimar os amantes e arquivos com sons de vários tipos de beijo (french kiss, cyberkiss, english french kiss), além de uma proposta de casamento on-line, em que basta preencher seu nome e nome do futuro cônjuge. Nessa página, há ligações para páginas comerciais onde pode-se comprar flores, vinho, chocolate, lingeries e até um carro para presentear namorados. Tímidos - Para os enamorados tímidos ou que têm dificuldade para lidar com as palavras, o melhor é apelar para o The Cyrano Server (http://www.nando.net/toys/cyrano.html). Calcada na peça teatral escrita no século passado pelo francês Edmond Rostan - em que o feio Cyrano de Bergerac escrevia as cartas que apaixonavam a namorada de um amigo bonitão -, a página se propõe a escrever os e-mails enquanto o usuário leva a fama. Um detalhe: as cartas são escritas em inglês. Para o computador escrever uma carta pelo internauta, a máquina pede dados como o estilo de carta desejado (indecisa, surreal, desesperada, intelectual) e adjetivos que descrevam a pessoa amada, além da comida preferida dela. Na página Valentine's Day (http://www.nando.net/toys/valentine.html) há dados curiosos sobre o dia de São Valentim, santo decapitado por um imperador romano no dia 14 de fevereiro de 269. Valentim, um bispo estudioso, entrou para a história como um protetor dos jovens, aos quais ajudava a escrever cartas de amor. Seus ossos, guardados hoje na igreja de Santo Antônio, em Madri, atraem até hoje romarias de pessoas que vão pedir ao santo felicidade no amor. Até o dia 17, na Internet, também está sendo comemorada a Semana do dia do casamento: no endereço http://www.randomc.com/÷rmachan fica-se sabendo que há vários eventos sobre o assunto e, no mesmo site, é possível votar no casal mais romântico já existente. Outras páginas da World Wide Web (parte gráfica da rede) têm sugestivos títulos como A escolha do Cupido, The Valentine's Thief: a children story, Hearts- the game, Cupid's Chapel of Love, Love Bytes Web Valentine e a Screen Saver for Valentine's Day (um descanso de tela para o dia dos namorados). Como o dia dos namorados no Brasil cai em 12 de junho, dá tempo de pesquisar as dicas nos endereços internacionais e utilizá-las por aqui. Namoro no ciberspaço acaba em... casamento no ciberspaço. Nada mais natural. Faltava apenas um casal que se dispusesse a reconhecer a seriedade de sua relação e resolvesse subir no altar informatizado. Os americanos Joseph Perling e Victoria Vaughn aceitaram o desafio e se tornaram pioneiros do sacramento on line. Ontem, em pleno dia dos namorados nos EUA, eles disseram sim e juraram fidelidade eterna via Internet - ele, de seu laptop em Venice Beach, na Califórnia; ela de seu terminal em Hollywood, no mesmo estado. A cerimônia, realizada através da rede Compuserve, foi abençoada e oficializada - via computador, é claro - por um padre de uma igreja em Beverly Hills, também na Califórnia. ","São Valentim , que entrou para a história como protetor dos jovens, é o patrono dos namorados. Ontem, seu dia e dia dos namorados, a Internet abriu seu espaço para os enamorados em vários sites. Nos vários endereços eletrônicos, propõe-se a atender a todos os gostos, dúvidas e ansiedades dos apaixonados. Se alguém quer presentear com vinho, chocolate , lingeries, enviar cartões ou cartas românticas é só buscar um dos sites. Os tímidos têm quem lhes exprima as declarações ao/à amado/a conforme o seu gosto. É só entrar no (Http://www.nando.net/toys/cyrano.html) . Outros querem estimular a paixão ouvindo músicas , poemas, diversos sons de beijos e até propostas de cansamento on-line ; basta procurar o Palácio do Amor de Afrodite. E ,para não se acusar isso de pura realidade virtual, ontem os americanos Joseph Perling e Victoria Vaughn concretizaram sua união --- ele no seu laptop em Venice Beach , Califórnia; e ela no seu terminal em Hollywood, no mesmo estado. Logicamente, abençoados , via computador, por um padre em Beverly Hills. " "MIAMI - O governo americano instruiu seu representante nas Nações Unidas a convocar uma reunião imediata do Conselho de Segurança da ONU para discutir o ataque da Força Aérea cubana, no final da tarde de sábado, a dois aviões civis do grupo Irmãos para o Resgate, formado por exilados cubanos em Miami. A reunião deveria começar na madrugada de hoje, às 3h (hora de Brasília). A decisão foi anunciada pelo secretário de estado americano, Warren Christopher, pouco antes dele iniciar sua primeira viagem oficial à América Latina. Christopher disse ainda que o presidente Bill Clinton recebeu uma coleção de opções de retaliação contra Cuba, preparada em uma reunião de altos funcionários civis e militares de seu governo, realizada ontem sem a presença do presidente, na Casa Branca. Ele prometeu anunciar, a qualquer momento, mais detalhes da reação americana ao ataque da Força Aérea de Cuba. Resposta - ""A conduta dos cubanos é injustificável. Ela não ficará sem resposta. A derrubada dos dois aviões, civis e desarmados, fere qualquer lei internacional. Ela não deve ser possível ou aceitável. Iremos consultar nossos aliados mas já posso adiantar que os Estados Unidos deverão tomar atitudes próprias e isoladas"", disse o secretário, recusando-se a adiantar a lista de opções que o presidente Clinton irá considerar na maior crise que seu governo enfrenta no relacionamento com Cuba. Ainda há dúvidas sobre a localização exata dos dois aviões, ambos monomotores do tipo Cessna Skymaster, no momento em que foram abatidos. Num comunicado divulgado ontem, 15 horas depois do incidente, o governo de Cuba afirmou que os aviões foram derrubados dentro do espaço aéreo cubano, entre oito e 13 quilômetros ao norte de Baracoa, praia a oeste de Havana. Terceiro - O secretário de Estado americano Warren Christopher, entretanto, disse que o ataque aconteceu fora do espaço aéreo cubano, sem precisar a localização exata em que os aviões estariam quando foram derrubados. Um terceiro Cessna, também pertencente ao grupo Irmãos para o Resgate, voava junto com os dois aviões abatidos, mas conseguiu escapar do ataque. Fontes da comunidade exilada cubana em Miami disseram que os aviões foram interceptados por caças Mig, de fabricação soviética, quando estavam a cerca de oito quilômetros do limite das águas territóriais cubanas, que se estendem por 17 quilômetros a partir da costa, mas já em um espaço aéreo monitorado por controladores de vôo cubanos, na região do estreito da Flórida. O porta-voz do governo cubano, José Ponce, declarou que pouco antes dos aviões serem abatidos as autoridades de seu país já haviam detectado uma primeira invasão do seu espaço aéreo e que, no segundo incidente, os aviões abatidos foram avisados duas vezes de que deveriam retornar. Autoridades americanas confirmaram que os aviões abatidos foram avisados de maneira ""inequívoca"" pelos cubanos antes de serem atacados. Plano de vôo - Apesar de EUA e Cuba não terem concordado sobre a localização exata dos aviões na hora do ataque, está claro que os três aviões deixaram território americano com plano de vôo rumo às Bahamas e depois desviaram seu caminho para Cuba, o que já caracteriza uma violação das leis de aviação civil dos EUA e de quase todos os países do mundo. Está claro ainda que os pilotos abatidos deveriam obeceder ordens de controladores de vôo cubanos, já que estavam em uma região por eles monitorada. A reação do governo cubano ao ataque foi curta e grossa. Além de afirmar que os aviões foram avisados antes do ataque e definir sua posição como ""invasora"", os cubanos repetiram versões de leis internacionais de proteção territorial. ""Cuba tem obrigação de defender seu território contra qualquer tipo de invasão e foi o que fez neste episódio. Os intrusos foram avisados e continuaram seu caminho, por isso acabaram abatidos"", disse o porta-voz cubano, José Ponce. Moderação - Além da reação em duas velocidades dos EUA, primeiro moderada do presidente Bill Clinton na noite de sábado, e depois agressiva do secretário Warren Christopher na tarde de ontem, nenhum outro país da comunidade internacional se manifestou sobre o incidente. Até o final da tarde de ontem, a Guarda Costeira americana, que entrou em águas territóriais cubanas com proteção de caças F-15 da Força Aérea dos EUA e com autorização do governo de Havana, não tinha encontrado nenhum sobrevivente ou os corpos dos quatro tripulantes que viajavam nos dois aviões abatidos. Eles foram identificados em Miami como sendo os pilotos Carlos Costa, Pablo Morales, Mario de La Peña e Armando Alejandre Jr.. Segundo informações americanas, a primeira notícia dos aviões abatidos chegou na Guarda Costeira dos EUA às 15h45 de sábado, no horário local (17h45 no horário do Brasil). ","Dois aviões Cessna Skykmaster , da aviação civil, saídos de Miami, foram abatidos pela Força Aérea cubana por terem violado o seu território, conforme declarou o porta-voz do governo. O governo americano instruiu seu representante nas Nações Unidas para convocar uma reunião do Conselho de Segurança da ONU , que discutisse o ataque. As sugestões de retaliação foram várias na cúpula do governo americano. Sempre alegando o absurdo desrespeito às leis internacionais. Cuba, por sua vez, com base na própria legislação internacional, afirma que o país tem a obrigação de defender seu território. E acrescentou que os invasores foram avisados da infração. De ambos os lados, não se tinha certeza da localização exata dos aviões. Mas o fato de os aviões terem um plano de vôo para as Bahamas e desviado para Cuba já caracteriza uma violação. Até o final da tarde de ontem, a Guarda Costeira americana, com a devida autorização de Cuba, não tinha encontrado nenhum sobrevivente ou os corpos dos quatro tripulantes. " "JERUSALÉM - Pelo menos 25 pessoas morreram na manhã de ontem em Israel, vítimas de dois atentados terroristas praticados por membros da Organização Fundamentalista Islâmica, Hamas. No mais grave deles, uma bomba acionada por um terrorista suicida no interior de um ônibus, no centro de Jerusalém, deixou 23 pessoas mortas e mais de 50 feridas. Pouco depois, novo atentado a bomba, em Ashkelon, no sul do país, causou dois mortos e 22 feridos. O atentado ocorrido em Jerusalém, o mais sangrento de que se tem lembrança em Israel, ocorreu pouco antes das sete da manhã, no momento em que um ônibus lotado de passageiros, em sua maioria soldados que voltavam para suas bases, se aproximava da estação rodoviária. O terrorista esperou que o ônibus parasse num sinal e acionou a bomba. O enorme impacto causado por cerca de dez quilos de dinamite destruiu totalmente o ônibus e atingiu vários outros nas proximidades. Os 50 feridos foram internados, e oito deles estão em estado grave. Metal - A Rua Jaffa, a principal de Jerusalém, se assemelhou a um campo de batalha, com dezenas de corpos mutilados espalhados num raio de dez metros, e feridos presos nas ferragens. Segundo a polícia, o efeito destruidor da explosão foi ampliado por pedaços de metal introduzidos na bomba para causar mais danos. Cerca de 45 minutos mais tarde ocorreu nova explosão. Disfarçado numa farda do Exército israelense, um terrorista aproximou-se dos soldados que se aglomeravam num ponto de ônibus de Ashkelon, próximo à Faixa de Gaza, e acionou a bomba que trazia junto a seu corpo. A semelhança entre os dois atentados levou a polícia a deduzir que se tratou de uma operação coordenada por uma mesma facção do Hamas, num ato de vingança contra o atentado praticado por um extremista judeu há exatamente dois anos em Hebron, episódio em que 29 palestinos foram assassinados. Outra data lembrada foi a dos 50 dias do assassinato do terrorista Yahia Ayash, conhecido como ""o Engenheiro"", presumivelmente praticado pelo serviço secreto israelense. Pouco depois, um volante do Hamas encontrado próximo ao local do atentado de Jerusalém dizia que toda atividade armada será suspensa quando Israel ""suspender todas as ações terroristas"" contra o grupo e libertar seus ativistas presos. Fronteiras - Os dois atentados de ontem ocorreram apenas dois dias depois da reabertura das fronteiras de Israel com os territórios palestinos de Cisjordânia e Gaza, determinado a partir de informações de que radicais muçulmanos tentariam vingar a morte de Ayash. O clima de insegurança que voltou a imperar em Israel obrigou o governo a fechar novamente as fronteiras, desta vez por tempo indeterminado. Também os contatos do governo com a Autoridade Nacional Palestina (ANC) foram suspensos, e só serão retomados depois dos funerais das vítimas. Pouco depois dos atentados, o primeiro-ministro Shimon Peres afirmou que seu país não dará trégua ao terrorismo, e que prosseguirá com o processo de paz com os palestinos. Em Gaza, o líder palestino Yasser Arafat condenou duramente os dois ataques. ""São ações terroristas, ações criminosas, voltadas não apenas contra pessoas inocentes mas contra todos o processo de paz"", disse ele. Horas mais tarde, a polícia palestina prendeu na região de Gaza cerca de 50 militantes do Hamas, e anunciou seu propósito de nas próximas horas deter mais 150 suspeitos. Os presidentes Bill Clinton, dos EUA, e Hosni Mubarak, do Egito, bem como o rei Hussein, da Jordânia, enviaram mensagens de condolências às famílias das vítimas e ao governo israelense. ","Dois ataques terroristas do grupo Hamas , num intervalo pequeno, mataram pelo menos 25 pessoas e deixaram cerca de 72 feridos. A violência , principalmente do primeiro , praticado dentro de um ônibus, fazia lembrar uma praça de guerra. Os dois atentados foram vingança contra o morticínio de 29 palestinos, praticado por um extremista judeu , dois anos antes, e contra o assassinato do terrorista Yahia Ayash , possivelmente praticado pelo serviço secreto israelense. Os dois atentados , ocorridos apenas dois dias depois da reabertura das fronteiras de Israel com os territórios palestinos de Cisjordânia e Gaza, deixou um clima de insegurança tal que obrigou o governo a fechá-las novamente. O primeiro-ministro Shimon Peres afirmou que não dará trégua ao terrorismo e que continuará com o processo de paz. Do lado palestino, Yasser Arafat condenou os dois ataques , prendeu 50 militantes do Hamas e anunciou o propósito de prender imediatamente mais 150. Bill Clinton , Hosni Mubarak , do Egito, e o rei Hussein da Jordânia enviaram condolências às famílias das vítimas e ao governo israelense. " "LONDRES - O grande conto de fadas deste fim de século termina sem final feliz. Ontem, dois meses depois do apelo da rainha Elizabeth II, a princesa Diana aceitou o pedido do divórcio do príncipe Charles. Diana vai continuar morando no Palácio de Kesington, terá um escritório no Palácio de Saint James, poderá opinar em todas as decisões sobre os filhos e manterá o título de princesa de Gales, anunciou uma porta-voz da princesa. Mas a família real disse que estas condições são um pedido e ainda não estão acertadas definitivamente. Em encontro sigiloso, ontem à tarde, no Palácio Saint James, residência oficial do príncipe Charles desde a separação do casal real, em dezembro de 1992, Diana finalmente concordou com o divórcio. Os advogados dos dois princípes vão discutir agora os termos da dissolução do casamento. Especula-se que o acordo financeiro possa chegar a quase R$ 40 milhões. Tanto o Palácio de Buckingham quanto o governo britânico foram aparentemente tomados de surpresa pelo anúncio, feito por Jane Atkinson, porta-voz de Diana, em declaração exclusiva à rádio e televisão britânica BBC: ""A princesa de Gales concordou com o pedido de divórcio do príncipe Charles. A princesa continuará a se envolver em todas as decisões relativas aos filhos e permanecerá no Palácio de Kesington, mantendo escritórios no Palácio de Saint James. A princesa de Gales vai reter o título e será chamada de Diana, princesa de Gales."" Igreja - A maior autoridade eclesiástica da Igreja da Inglaterra, o arcebispo da Cantuária, George Carey, ""espera e acredita que isto seja do melhor interesse de todos os envolvidos"", comentou laconicamente um assessor. Como o rei ou rainha chefia a Igreja Anglicana, Charles deve acumular este cargo quando subir ao trono. O problema é que atualmente a lei proíbe que uma pessoa divorciada chefie a Igreja. Mas juristas britânicos entendem que não haverá problema em mudar a lei. Afinal, Henrique VIII rompeu com o Vaticano, criando a Igreja da Inglaterra, em 1534, para se divorciar de Catarina de Aragão, a primeira de suas seis esposas. O príncipe promete não se casar de novo, apesar de ter sido visto em público, no ano passado, em companhia de sua amante, Camilla Parker-Bowles. Diana, no entanto, jamais será rainha-mãe, explica o historiador real David Starkey: ""Para ser rainha-mãe, é preciso ter sido rainha-consorte. Ela será apenas princesa. Mas não vejo problema constitucional. O problema é de opinião pública"", diz. Starkey acredita que houve um conflito de personalidade entre os príncipes porque Charles é uma pessoa discreta, recatada e Diana preferiu se tornar uma celebridade. Sem dúvida, a princesa gosta de brincar com fogo e de manipular a mídia. Sua grande tacada publicitária custou-lhe o divórcio. Na entrevista à TV BBC divulgada em novembro passado, Diana admitiu ter cometido adultério com o capitão James Hewitt. Foi demais para a rainha. Em dezembro, Elizabeth II ordenou aos príncipes de Gales que se divorciassem o mais rapidamente possível. Diana resistiu um pouco mas acabou concordando. Três dos quatro filhos da rainha da Inglaterra estão separados. O quarto, o príncipe Edward, deve anunciar em breve o seu casamento com Sophie Rhis-Jones. Caberá a ele, que já foi acusado de homossexualismo pela imprensa sensacionalista, lavar a honra da escandalosa monarquia da Inglaterra. ","A separação da princesa Diana e do príncipe Charles pôs fim ao conto de fada tão divulgado pela mídia. A rainha Elizabeth II , mãe de Charles , pressionou para eles se divorciassem. Além das diferenças de personalidade ---o príncipe mais contido, e Diana mais afeita à mídia ----, a rainha-mãe não pôde tolerar a declaração da princesa à BBC , em que confessou ter cometido adultério com o capitão James Hewitt. Diana continuará com o título de princesa, com moradia no palácio de Kesington , poderá opinar em todas as decisões sobre os filhos e ---especula-se---o acordo financeiro pode chegar a R$ 40 milhões. Mas a família não confirma como certas, ainda, essas condições. Tanto o palácio de Buckingham quanto o governo britânico , aparentemente, se surpreenderam com a notícia do divórcio, dada a relutância da princesa. A autoridade máxima da Igreja da Inglaterra, George Carey, acredita que tenha sido essa a melhor solução. Como o rei ou a rainha comanda a Igreja Anglicana, o príncipe Charles poderá acumular este cargo. É verdade que há uma lei proibindo que um divorciado ocupe a função , mas os juristas entendem que a lei pode ser mudada --- o caso de Henrique VIII é um precedente histórico famoso. " "NAÇÕES UNIDAS - Decidido a capitalizar no terreno diplomático a crise surgida com a derrubada de dois aviões civis americanos, no último sábado, o governo de Cuba - visado na terça-feira por uma declaração do Conselho de Segurança da ONU que lamentava a derrubada dos aviões - pediu a democratização do organismo multilateral e denunciou a ascendência política que nele exercem as potências atômicas, e em especial os Estados Unidos. Negociando a apresentação das razões cubanas na Assembléia Geral, e não no Conselho, Cuba jogou suas cartas na tese da defesa da soberania de seu espaço aéreo e de suas águas territoriais, freqüentemente invadidos por organizações anticastristas sediadas nos EUA. ""O que não discutiremos com este organismo [o Conselho de Segurança] nem com especialistas de organização alguma é nosso direito e nosso dever de proteger a soberania de nosso país"", disse Robaina ao chegar a Nova Iorque e anunciar que seu governo deseja que a investigação encomendada pelo Conselho à Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) se estenda a incursões anteriores dos anticastristas. Para o chanceler cubano, o Conselho está sendo transformado pelos EUA ""numa espécie de tribunal universal para julgar qualquer país que desobedeça a seus desígnios""; tornou-se ""uma dependência do Departamento de Estado"". Adversidade - Uma circunstância adversa, para os cubanos, foi o fato de o Conselho estar (até amanhã), sob presidência americana. Presidindo os trabalhos, a embaixadora americana, Madeleine Albright, não conseguiu na terça-feira a desejada ""resolução"" condenando Cuba, mas manteve o Conselho reunido por 16 horas até extrair dele pelo menos a ""declaração"" mais branda - apesar do pedido cubano de que Robaina fosse ouvido primeiro. O Ministério cubano das Relações Exteriores também considerou que ""a atuação do Conselho de Segurança da ONU demonstra o preço que representa, para os países pequenos, viver num mundo unipolar sob a hegemonia dos Estados Unidos"", encarecendo ""a urgência de trabalhar pela democratização das Nações Unidas e para encontrar formas de tornar mais representativo e imparcial o Conselho de Segurança"". O Conselho é formado por 10 países que nele têm assento rotativamente e pelas cinco potências nucleares oficiais (EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha), únicas com poder de veto. Os cubanos decidiram - não se sabe ainda em que nível administrativo ou governamental - derrubar os dois Cessna com quatro tripulantes da organização anticastrista Irmãos pelo Resgate apesar de a chamada Convenção de Chicago, sobre segurança no espaço aéreo, rezar que aviões civis não podem ser alvo de ataques militares em circunstância alguma. Mas o governo de Cuba disse ontem que ""é necessário definir bem o que é um avião civil, pois com aviões supostamente civis procedentes dos Estados Unidos se cometeram muitos crimes contra nosso país"". Em entrevista ontem à noite, Robaina disse que Cuba já obteve o apoio do Movimento dos Não-Alinhados - formado por 110 países - para convocar a Assembléia Geral onde Cuba exporá suas posições. O chanceler cubano também afirmou que os EUA serão responsabilizados por quaisquer ""novas provocação e violações"" do espaço aéreo cubano. ","A derrubada de dois aviões civis que saíram de Miami e invadiram o território cubano levou o Conselho de Segurança da ONU a exigir explicações do governo de Fidel. O governo cubano pediu que o Conselho se democratizasse e não fosse porta-voz somente das potências nucleares, fundamentalmente dos Estados Unidos. Por infelicidade de Cuba, naquele momento o Conselho estava sendo presidido pela americana Madeleine Albright. . Mesmo assim , ela não conseguiu extrair uma condenação de Cuba. O embaixador cubano procurou negociar suas razões na Assembléia Geral e não no Conselho. Insistiu na tese do direito do seu país em defender o seu espaço aéreo. Diante do argumento de que a Convenção de Chicago proíbe qualquer ataque militar a aviões civis, Cuba contrapôs dizendo que é necessário distinguir avião civil de avião supostamente civil. E acrescentou que várias outras incursões tinham sido feitas por elementos anticastristas provindos de Miami. O chanceler cubano também que os EUA seriam responsabilizados por novas violações. " "BUENOS AIRES - Na sua primeira eleição direta, a capital do tango elegeu ontem o senador da oposicionista União Cívica Radical (UCR) Fernando De La Rúa, de 58 anos, para prefeito da cidade. O resultado fortaleceu a esquerda e promete agitar a eleição presidencial que será realizada em 1999 e até agora só apresentava como opção certa o presidente Carlos Menem, que está em seu segundo mandato. Meia hora depois de anunciado os resultados das pesquisas boca-de-urna, às 18h, que lhe deram cerca de 40% dos votos, Fernando De La Rúa, advogado, casado, pai de três filhos, anunciou: ""Foi a vitória da democracia."" O presidente do seu partido, Rodolfo Terragno, foi mais duro: ""É o início de uma nova etapa para o país. O fim da corrupção e do desemprego."" À noite, apesar do frio, os radicais, que estavam politicamente apagados, reuniram uma multidão num comício improvisado no centro da cidade. Segundo as pesquisas de boca-de-urna, o segundo colocado foi Norberto de la Porta, da também oposicionista Frente País Solidário (Frepaso). O atual prefeito biônico Jorge Domíngues, do governista Partido Justicialista (peronista), ficou em terceiro lugar, com cerca de 15% dos votos. No dia do seu 66° aniversário, ao reconhecer a derrota de seu candidato, o presidente Menem disse que a eleição foi um ""resultado da democracia"". Além da prefeitura, os governistas perderam ainda na escolha para os chamados constituintes. Desemprego - Nessa corrida, a líder foi a senadora Graciela Fernández Meijidi, da Frente País Solidário, que com outros parlamentares e representantes da sociedade redigirá a Constituição da cidade. O vice-presidente Carlos Ruckaulf chegou em terceiro. ""Vamos fazer um estatuto preocupado com a situação dos cidadãos argentinos"", disse Graciela, uma das principais vozes de oposição a Menem. A senadora lembrou que a Frepaso, apesar de só ter cinco anos, chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais do ano passado, a elegeu senadora no fim do ano passado e agora a sagrou constituinte. Ontem, existiam várias justificativas para a vitória da oposição nas urnas. Além do tradicional voto de protesto na capital federal, ela foi atribuída ao aumento do índice de desemprego (que atinge agora 2,2 milhões de trabalhadores, ou 17,1% da população economicamente ativa) e ao provável reajuste das tarifas telefônicas e outros serviços públicos. O governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que é do mesmo partido de Menem, mas já está de olho na corrida presidencial, comparou os desempregados argentinos a ""párias"". Ele reconheceu que o desemprego é um problema mundial, mas disse que na Europa, por exemplo, existem programas sociais de compensação à falta de trabalho. A eleição de Fernando De La Rúa, senador por três mandatos, sendo que um interrompido durante a ditadura militar, foi possível graças à reforma constitucional realizada há dois anos, que deu à capital argentina o direito de eleger seus governantes, além de permitir a reeleição do presidente. ""Agora é trabalhar, trabalhar e trabalhar"", afirmou o novo prefeito da cidade. ""É apenas o ponto de partida. E para acabar com as injustiças precisaremos do apoio da sociedade."" A vitória de De la Rúa significa, também, o renascimento da União Cívica Radical, o mais antigo partido da Argentina, que entrou em crise devido ao final turbulento do governo de Raúl Alfonsín, em 1989, quando a hiperinflação e as ameaças de golpe militar levaram o então presidente a antecipar em dois meses a posse de Menem. ","Na sua primeira eleição direta , Buenos Aires consagrou como seu prefeito o oposicionista Fernando De La Rua, da União Cívica Radical. A vitória da esquerda estimulou-a a subverter o consenso em torno de Carlos Menem para a próxima eleição presidencial. O segundo colocado, nas pesquisas de boca-de-urna, foi Norberto de la Porta , oposicionista da Frente País Solidário ( Frepaso). Embora novo , o partido chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais do ano passado , e , agora, elegeu a senadora Graciela Fernández Meijidi, que , junto com outros parlamentares, redigirá a Constituição da cidade. As explicações correntes na véspera da eleição para a vitória da oposição incluíam estas causas: o tradicional voto de protesto na capital; o aumento do índice de desemprego; a possibilidade de reajuste das tarifas telefônicas e de outros serviços públicos. Para que fossem possíveis a eleição direta do prefeito de Buenos Aires e a reeleição do presidente da República, houve, há dois anos, reforma na Constituição. " "MOSCOU - Após um sumiço de quatro dias, o presidente da Rússia, Boris Yeltsin, reapareceu ontem para um pronunciamento de dois minutos pela televisão. A mensagem - que leu no teleprompter - era um pedido aos eleitores para que não deixem de votar amanhã no segundo turno que ele e o comunista Guenadi Ziuganov vão disputar. ""Sei exatamente o que fazer, tenho força, desejo e decisão. O que preciso agora é de seu apoio"", afirmou Yeltsin com a voz cansada. ""Vocês não devem ficar em casa. Não votar é uma opção contra a Rússia."" Praticamente sem se mover, mexendo apenas os lábios, Yeltsin era uma sombra do candidato que há semanas dançou rock durante um showmício para jovens eleitores. Se ontem tranquilizou o eleitorado (já se especulava que sofrera outro ataque cardíaco e morrera) mostrando que está vivo, o presidente, que busca a reeleição, deixou muitas dúvidas sobre sua saúde e sua capacidade para governar a Rússia por mais quatro anos. Gripe - A explicação oficial para os quatro dias de sumiço, quando deixou de comparecer a cerimônias oficiais e abandonou a campanha, foi dada pelo primeiro-ministro Viktor Chernomirdin: Yeltsin estava com laringite. Mas Yeltsin não parecia rouco e, rapidamente, a versão oficial passou a ser que ele está muito gripado. Foi o bastante para a imprensa russa especular sobre o ocorrido nas décadas de 70 e 80 com Leonid Brejnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko, que permaneceram no Kremlin, apesar de incapacitados. Quem também se lembrou dos velhos tempos foi o adversário Ziuganov. ""Não vemos o Senhor Yeltsin há quatro dias"". Assim, o comunista começou um pronunciamento pela televisão, antes do reaparecimento do presidente. ""Quero ver o laudo oficial sobre o estado de saúde do Senhor Yeltsin. Gostaria de saber o que está acontecendo. Por que todos os compromissos oficiais foram cancelados?"" No Parlamento, Stanislav Govorukhin, deputado nacionalista partidário de Ziuganov, disse que Yeltsin ""parecia um zumbi"" durante sua fala pela televisão. ""Sumiu durante dias e o que nos mostraram hoje (ontem) foi uma múmia pintada e estão pedindo que votemos nela."" Govorukhin exigiu do Kremlin o adiamento das eleições por duas, três semanas ou até um mês para dar a Yeltsin a chance de se recuperar. Em sua opinião, os assessores de Yeltsin estão se comportando como gerações de funcionários do Kremlin que escondem a verdade até que seja tarde demais. ""Vocês se lembram que quando Stalin morreu, só anunciaram três dias depois."" Leis - Com Yeltsin parecendo estar na ante-sala da UTI, não se sabe o que pode acontecer de hoje para amanhã. A Constituição diz que se o presidente ficar doente, o primeiro-ministro assume e convoca nova eleição em três meses. Mas a lei sobre as eleições presidenciais diz que, se um dos candidatos ao segundo turno se retirar, será substituído pelo terceiro colocado no primeiro turno. No caso o general Alexander Lebed, atual responsável pela segurança nacional. Aos 65 anos, Boris Yeltsin já viveu mais do que a média de seus compatriotas. Cardíaco desde 1987, o presidente russo nos últimos 18 meses esteve internado pelo menos três vezes: em dezembro de 1994, no fim de julho de 1995 e em outubro passado. Da primeira vez, Yeltsin passou duas semanas no hospital, oficialmente para extração de tumor benigno no nariz. Mas em julho de 1995, após nova internação, o Kremlin foi obrigado a informar que ele sofrera uma isquemia do miocárdio (falta de oxigênio no músculo cardíaco) e ficaria 15 dias se recuperando. Três meses depois, novo ataque cardíaco e 60 dias no hospital. Os problemas cardíacos do presidente russo datam de novembro de 1987 e são agravados pela cirrose, causada pela bebida. Além disso, Yeltsin sofre de depressão e insônia e tem problemas de coluna, desde um acidente em 1990 na Espanha. ","A aparência do candidato Boris Yeltsin, ontem, no seu pronunciamento de dois minutos pela televisão indicava um péssimo estado de saúde. Aos 65 anos, cardíaco, o presidente esteve internado pelo menos três vezes nos últimos 18 meses. O sumiço de quatro dias antes do seu pronunciamento foi explorado pela imprensa e , certamente, é um prato cheio para a oposição , principalmente para o concorrente Ziuganov. Além disso , as explicações oficiais truncadas, a respeito do afastamento de quatro dias, permitem vôos ao passado russo , durante o apogeu do comunismo, quando se escondiam informações sobre a situação de saúde de ocupantes do poder. A Constituição do país diz que , se o presidente adoecer, o primeiro-ministro assume e convoca nova eleição em três meses. Mas a lei sobre as eleições presidenciais informa que, se um dos candidatos ao segundo turno se retirar, será substituído pelo que ficou em terceiro no primeiro turno. No caso, o general Alexander Lebed, responsável pela segurança nacional. " "GDANSK, POLÔNIA - Os estaleiros de Gdansk, no norte da Polônia, de que emergiram ao poder o Sindicato Solidariedade e seu primeiro líder, o ex-eletricista e ex-presidente Lech Walesa, não resistiram à maré capitalista. No sábado passado, a junta geral de acionistas decidiu pela liquidação da Stocznia Gdanska SA, berço histórico da luta contra o regime comunista polonês a partir dos anos 80. A companhia vai à falência afogada em dívidas que podem chegar a US$ 110 milhões. Em seu lugar, o governo, que detém 60% das ações, pretende criar uma empresa que funcione por 12 meses, apenas para terminar cinco navios em construção. Para Walesa, que voltou simbolicamente a ocupar o cargo de eletricista após perder, para os ex-comunistas, as eleições presidenciais de novembro de 1995, tudo não passa de uma manobra política. ""Finalmente, os ex-comunistas sentem a satisfação de liquidar os estaleiros de Gdansk"", disse, ontem, Walesa, que liderou, em 1980, a criação, dentro as instalações da companhia, do primeiro sindicato livre do Leste Europeu. Naquele ano, o Sindicato Solidariedade seria reconhecido por força de uma greve geral que abalou o governo comunista. No ano seguinte, com a decretação de lei marcial, o movimento foi reprimido, e Walesa, preso. Protestos - Ainda assim o Solidariedade seria o motor das reformas democráticas na Polônia e, de algum modo, inspiração para a queda do socialismo em todo a Europa socialista no final da década. Em 1989, o movimento voltou à legalidade e ganhou força de partido. Walesa, que encabeçou o Solidariedade por 10 anos, chegou à presidência da República em 1990. O ex-presidente prometeu apoiar as manifestações contra a falência dos estaleiros, que os operários - detentores de 40% das ações da empresa - prometem levar às ruas. Mas Walesa, que atualmente se ocupa de proferir palestras mundo afora, recusou-se a lideras protestes. ""Diriam que é revanche. Mas, no lugar dos operários, lutaria pelos estaleiros. Naturalmente, com métodos pacíficos"", disse Walesa, que acusou o governo de nada ter feito pela empresa. O chefe do sindicato dos operários de Gdansk, Jersy Borowczak, disse que os trabalhadores promoverão passeatas e bloquerão estradas. Há meses, os operários vêm recebendo salários com atraso e em parcelas. Amanhã, deverão receber 65% do salário de maio. Somente a bancos e companhias locais, os estaleiros devem US$ 56 bilhões. Ao decidir pela falência - com que condordaram 79% dos acionistas -, a junta alegou ""falta de dinheiro para cobrir as perdas da companhia no último ano"", estimadas em US$ 31,7 milhões. Os estaleiros tinham 18 navios encomendados por um total de US$ 580 milhões. Cinco estavam em construção, e o governo polonês não descarta pretende criar uma empresa sobre as ruínas econômicas do velho complexo. O novo estaleiro deve herdar apenas 3 mil dos 7.300 operários da antiga companhia. A previsão é de que funcione apenas por um ano, proibido de aceitar novos contratos. Ainda assim, nasce com os mesmos problemas da empresa que faliu: depende de que bancos financiem a construção dos navios e cubram as eventuais perdas. ","Os estaleiros de Gdansk , que ascenderam ao poder o Sindicato Solidariedade e Lech Walesa , está em vias de liquidação , por questões econômicas. Dali surgiu a luta histórica contra o regime comunista polonês e um líder operário, que comandou o sindicato por dez anos, e que chegou à presidência do país. O ex-presidente prometeu apoiar as manifestações contra a falência do Solidariedade , mas , agora empenhado em fazer palestras pelo mundo afora, diz que não vai liderar os protestos , até porque isso soaria como revanche. “Mas , no lugar dos operários, lutaria pelos estaleiros; naturalmente, com métodos pacíficos.” O chefe do sindicato dos operários, Jersy Borowczak, disse que os operários, sem receber há meses, promoverão passeatas. Diante dessa tendência falimentar dos estaleiros, o governo vê como saída a criação de uma nova empresa que cumpra a produção de 18 navios encomendados , mas que não aceite novos contratos e que , portanto , não sobreviva a um ano. " "MOSCOU - Em comício na Praça Vermelha, ao qual compareceram cerca de 100 mil pessoas, o presidente Boris Yeltsin afirmou ontem que não permitirá que a violência prejudique as eleições russas. ""Nós escolhemos a liberdade e a dignidade humana, mas infelizmente há quem se oponha a esta escolha"", disse ele, numa referência ao atentado a bomba que no dia anterior causou a morte de quatro pessoas no metrô de Moscou. Segundo Yeltsin, a Rússia não perdoará os responsáveis pelo crime: ""Eles não terão futuro."" O presidente - que encerrou a campanha em Moscou, mas que amanhã participará de um último comício, em Iekaterimburgo, sua cidade natal - exortou os moscovitas a votarem pela permanência da estabilidade e a manterem a calma, para que nada afete o brilho das eleições de domingo. Seu principal adversário, o candidato comunista Guenadi Ziuganov, reuniu-se à noite com milhares de universitários, aos quais previu a desintegração de mil anos da história russa caso o eleito seja Yeltsin. Referindo-se à política posta em prática pelos atuais detentores do poder, afirmou: ""Agora está bem claro que eles não eram reformadores, mas sim assassinos de nossa pátria"". De manhã, seus seguidores tinham feito uma caminhada pela cidade, encerrada com comício na Praça Lubianka, onde ficava a sede da KGB, a extinta polícia política soviética. Apesar da apresentação de cantores e músicos, a manifestação não atraiu mais do que 2 mil pessoas. Independência - Também o candidato ultranacionalista Vladimir Jirinovski participou de ato público, com assistência reduzida. Em todos os comícios, os oradores citaram, com diferentes apreciações, a passagem, ontem, do Dia da Independência, feriado nacional, que recorda a declaração de soberania do Parlamento russo, em 1990. Com a ausência de Ziuganov, a personalidade de maior destaque do comício comunista da manhã foi Stanislaw Terekhov, candidato a prefeito de Moscou. Ele acusou as ""forças de Iúri Luzkhov"", o atual titular do cargo, de estarem ligadas ao atentado do metrô. ""Luzkhov é uma marionete dos extremistas e dos provocadores"", disse. Horas antes, ao final do encontro com o presidente Yeltsin e com o ministro das Emergências, o prefeito anunciara a tomada de medidas especiais para garantir a segurança dos moscovitas. ""Estou convencido de que houve motivação política no caso. Lamentavelmente, é impossível excluir de maneira absoluta a possibilidade de atentados terroristas numa cidade grande"", disse ele na ocasião. A polícia, que ainda não tem pistas conclusivas dos criminosos, recebeu, por telefone, novas ameaças de bomba, a se concretizarem ainda esta semana. Nenhum grupo assumiu a responsabilidade pelo atentado, mas as principais suspeitas estão voltadas para separatistas chechenos, que há algum tempo tinham ameaçado realizar atos terroristas em Moscou e em outras grandes cidades russas. Em nota, o Partido Comunista manifestou sua ""ira e indignação"" e exigiu a captura dos responsáveis. Por sua vez, o ultra-nacionalista Jirinoviski disse que por trás do atentado estão as forças que duvidam de sua vitória. Ele não esclareceu, contudo, a que forças se referia. Diferença - Pesquisas sobre intenção de voto divulgadas ontem por dois dos mais acreditados organismos de consulta da capital confirmaram a tendência para a vitória de Yeltsin, mas por uma diferença insuficiente para a eleição no primeiro turno. Para o Instituto de Sociologia e Parlamentarismo, O presidente receberá 40% dos votos e Ziuganov, 31%. Segundo o diretor do instituto, Nuzgar Betaneli, a prevista vitória de Yeltsin se explica pelo fato de sua equipe ter conseguido convencer a sociedade de que a reeleição favorece a economia do país. O erro da campanha comunista, por sua vez, estaria ligado às reiteradas denúncias de que as autoridades vêm preparando uma fraude eleitoral. ""Isso prejudicou Ziuganov"", comentou. As pesquisas do Centro de Estudos Sociológicos da Opinião Pública, dirigido por Iuri Levada, apontam 35% para Yeltsin e 30% para Ziuganov. É de 4% a margem máxima de erro nas sondagens dos dois institutos. ","Candidato à presidência , Boris Yeltsin compareceu ao comício na Praça Vermelha e, diante de 100 mil pessoas, afirmou não permitir que a violência prejudique as eleições, referindo-se ao atentado no dia anterior, que matou quatro pessoas no metrô da capital. Seu último comício será na sua cidade natal ---Iekaterimburgo. Seu adversário , o comunista Guenadi Ziuganov, reunido com milhares de universitários, profetizou a desintegração de mil anos da história russa, caso Yeltsin ganhe. A caminhada realizada , durante a manhã, pelos seguidores de Ziuganov atraiu poucas pessoas. Também o ato público comandado pelo ultranacionalista Vladimir Jirinovski teve assistência reduzida. Os oradores se referiram ao Dia da Independência , ocorrida no dia anterior. O candidato comunista a prefeito de Moscou , Stanislaw Terekhov, foi quem mais se destacou no comício dos seguidores de Ziuganov. Ele responsabilizou as forças Yúri Luzkhov , atual prefeito, pelos atentados do metrô . Este , por sua vez, declarou ser impossível evitar totalmente os atentados numa cidade grande, apesar das medidas tomadas. As suspeitas do ato terrorista recaem sobre separatistas chechenos, que já tinham feito ameaças anteriores. A diferença entre os dois principais candidatos , Yeltsin e Ziuganov, é pequena segundo dois institutos que mediram a probabilidade de vitória--- 3 e 5 pontos a favor de Yeltsin. " "JERUSALÉM - O novo líder de Israel, Benjamin Netaniahu, conseguiu o apoio de partidos religiosos e de imigrantes russos para formar um novo governo de direita que, os árabes temem, poderá interromper o processo de paz no Oriente Médio. Os 120 deputados do Knesset (Parlamento) eleitos no fim de maio foram empossados ontem, mas Netaniahu não confirmou seu ministério devido a problemas de última hora envolvendo a participação do controvertido ex-ministro Ariel Sharon. De manhã, o próprio Sharon anunciou que integraria o novo gabinete como ministro da Habitação e da Infra-estrutura, mas, depois que os deputados da 14ª legislatura tomaram posse, informou-se que esse ministério - estratégico por envolver as colônias em terras árabes - ficará a cargo do próprio Netaniahu e do deputado Meir Porush, do Partido do Judaísmo da Bíblia, que iria aderir ao novo governo. O general Sharon, de 68 anos, foi um dos artífices da vitória eleitoral da frente direitista Likud-Tsomet-Guesher em maio. Sua participação no governo não é bem vista pelos Estados Unidos, devido à política de assentamentos que desenvolveu na década passada, quando ocupou a pasta da Habitação em outro governo do Likud. ""Terrorista"" - Antes de ser ministro da Habitação, Sharon ocupou a pasta da Defesa, quando foi o arquiteto da invasão do Líbano, em 1982. Em 1983, foi forçado a renunciar depois de ser responsabilizado pela matança de centenas de palestinos pelas milícias cristãs aliadas de Israel nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, em Beirute. Logo depois da eleição de maio, quando a vitória do Likud foi confirmada, o general deu uma entrevista chamando Yasser Arafat de ""terrorista"". Netaniahu reagiu, dizendo que só ele poderia falar de política no governo. Com ou sem Sharon, o gabinete de Netaniahu será um retrato da frente que o elegeu. Seu partido, o Likud, terá quatro ou cinco pastas, inclusive as da Defesa e da Fazenda. O Ministério do Exterior irá para David Levy, que pertence ao Guesher (integrante da frente). O Tsomet, terceiro partido da frente, deverá ganhar o Ministério da Agricultura e Meio Ambiente. O Partido Shas (10 deputados) e o Mafdal (Partido Nacional Religioso, com nove deputados) disputam o Ministério das Religiões. O bá Aliá, partido de imigrantes da ex-União Soviética, com sete cadeiras no Knesset, ficaria com a pasta de Indústria, Comércio e Imigração. O Terceiro Caminho, que já aderiu à coalizão, ganharia a pasta de Segurança Interna. Com a adesão do bá Aliá e do Partido do Judaísmo da Bíblia, a coalizão formada por Netaniahu, hoje com 55 deputados, terá 66. Os nomes dos ministros serão apresentados à tarde no Parlamento, que ontem se despediu do primeiro-ministro trabalhista, Shimon Peres. Palestinos - Antes mesmo da divulgação do novo gabinete que irá governar Israel, os palestinos reagiram com pessimismo ao programa de governo apresentado ontem, pois nele Netaniahu não menciona os acordos de Oslo, assinados com os palestinos pelo governo anterior, nem as resoluções das Nações Unidas sobre a devolução de territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Além disso, reafirma a disposição de Netaniahu de desenvolver os assentamentos judaicos na Cisjordânia, impedindo a criação de um Estado palestino. ""Este programa fecha o círculo de paz e nos devolve aos tempos de conflito ideológico"", reagiu Hassan Asfur, diretor-geral do Departamento de Negociações da Autoridade Palestina. ""Este programa ameaça perigosamente a segurança, a estabilidade e a paz na região. Os primeiros a sofrer serão os israelenses e aconselhou-os a ler cuidadosamente o acordo de Oslo para entender direito o que foi acertado."" ","O novo líder israelense, Benjamin Netaniahu, conseguiu o apoio de partidos religiosos e de imigrantes russos, para compor um governo de direita, que, segundo os árabes, pode interromper as negociações de paz no Oriente Médio. A composição do novo ministério não foi confirmada, por problemas relacionados à presença do ex-ministro, general Ariel Sharon, um dos responsáveis pela vitória da frente direitista Likud-Tsomet-Guesher. Ele ficaria com o ministério da Habitação e da Infra-Estrutura. Mas sua política de assentamento na década passada , na pasta da Habitação influiu na sua rejeição , por parte dos EUA, para fazer parte do novo governo. O ministério terá a face da frente vitoriosa: o Likud, partido de Netaniahu, terá quatro ou cinco pastas; o Guesher ficará com o Ministério do Exterior; o Tsomet deverá assumir o Ministério da Agricultura e Meio Ambiente. Os partidos Shas e o Mafdal disputam o Ministério das Religiões; O bá Aliá, partido de imigrantes russos, ficaria com a pasta de Indústria, Comércio e Imigração; e o Terceiro Caminho , possivelmente com a Segurança Interna. Os palestinos anteciparam sua desconfiança no programa do governo, que não mencionou acordos assinados pelo governo anterior. " "MOSCOU - O presidente Boris Yeltsin e o general Alexander Lebed selaram ontem uma aliança com o objetivo de dar a Yeltsin a vitória no segundo turno das eleições presidenciais russas, no início de julho. Lebed vai tentar transferir para Yeltsin os 11 milhões de votos que lhe deram o terceiro lugar no primeiro turno, ajudando-o a derrotar o comunista Guenadi Ziuganov. Em troca, em plena campanha eleitoral, foi nomeado assessor de segurança nacional e secretário do Conselho de Segurança, que assessora a presidência em questões de defesa. E, de quebra, ainda conseguiu a cabeça do ministro da Defesa, Pavel Grachev, seu antigo desafeto. Yeltsin conseguiu outro apoio ontem, ainda que hesitante. O economista Grigori Iavlinski, quarto colocado no primeiro turno, declarou, em entrevista transmitida pela televisão, ser contra o voto em Ziuganov. ""Não se pode votar no Partido Comunista. Se você tenta votar contra os dois, tem que entender que isso pode ajudar Ziuganov"", afirmou. Rebelião - Alexander Lebed, um general de 46 anos, de voz cavernosa e sem papas na línguas, assumiu atirando. Horas depois de nomeado, acusou Grachev de ter planejado um golpe contra Yeltsin e revelou que alguns generais, descontentes com a demissão, haviam iniciado uma rebelião, imediatamente contornada. ""Não haverá sublevações"", disse Lebed em entrevista à imprensa. Segundo ele, o movimento dos oficiais tinha sido ""uma tentativa de pressionar"" Yeltsin. Lebed afirmou ainda que os cargos que assume têm tudo a ver com as promessas de campanha de pôr ordem na casa. O general centrou a campanha na luta contra o crime e a corrupção, elegendo Yeltsin como alvo principal. Ontem, os dois homens demonstraram que política é um jogo de verdades relativas - ou que um segundo turno de eleições zera acusações e insultos trocados no primeiro. Lebed manifestou confiança em que seus eleitores o seguirão na adesão ao adversário que tanto criticou. Yeltsin, por sua vez, garantiu que Lebed será seu sucessor no ano 2000. Mas não o indicou como vice-presidente, cargo que o colocaria direto na linha do poder caso o presidente não consiga concluir o mandato. Yeltsin, 65 anos, já foi hospitalizado algumas vezes, com problemas cardíacos. Além disso, é notório seu gosto pelo álcool, o que lhe causou vários constrangimentos, tanto na Rússia como em viagens oficiais ao exterior. A grande incógnita da aliança de ocasião entre Yeltsin e Lebed é saber se o presidente está disposto a dar poder suficiente ao general para satisfazer suas ambições políticas, que não são pequenas. Os dois homens não se assemelham apenas na aparência, um tanto ríspida e grosseira. Ambos são produtos das hierarquias soviéticas - Yeltsin, do Partido Comunista; Lebed, da elite de páraquedistas do Exército. Caíram igualmente em desgraça, Yeltsin quando deixou o Politburo para seguir carreira política, em 1987, e Lebed em 1995, quando o então ministro da Defesa, Pavel Grachev, o destituiu do comando do 14° Exército. Iguais - Yeltsin sempre tratou Lebed com indulgência, como a uma versão mais jovem de si próprio. Normalmente sensível a insultos, não reagiu quando Lebed, ainda militar da ativa, em 1994, descreveu o presidente e comandante-em-chefe como ""um zero à esquerda"". Durante a campanha, referiu-se a Yeltsin como ""um homem velho e não muito saudável que já fez o que podia"". Com o acordo, essas desavenças viram coisas do passado. Mas deve estar clara, na cabeça de Lebed, as dificuldades de relacionamento de Yeltsin com seu vice anterior, o também general Alexander Rutskoi. Rutskoi foi convidado por Yeltsin para integrar sua chapa durante a campanha de 1991. O objetivo do então candidato era aumentar sua penetração entre militares e eleitores nacionalistas. Mas a escolha se mostrou desastrosa - Rutskoi foi excluído das decisões de governo pelos assessores liberais do Kremlin, e se vingou denunciando as reformas econômicas do presidente. Em 1993 liderou uma frustrada tentativa de golpe em Moscou e acabou na cadeia, de onde saiu mais tarde. Desde então a Rússia não tem mais vice-presidente. Mas Lebed, do alto de 11 milhões de votos, desfruta de uma posição mais confortável do que a de Rutskoi. Um risco que corre o general novato em política é o de que, já de olho na próxima eleição, ele passe a cuidar de sua própria agenda política, deixando de lado a de Yeltsin. ","Em política, o que não era bom no primeiro turno pode mudar no segundo. A aliança do primeiro colocado, Boris Yeltsin, com o terceiro, general Alexander Lebed , comprova isso. Foram zeradas as acusações de campanha ----para Lebed , Yeltsin era corrupto e incompetente--- em favor da vitória sobre o segundo colocado, Guenadi Ziuganov. Também o quarto colocado, Grigori Yavlinski, hesitante , apoiou os aliados. Lebed foi nomeado assessor de segurança nacional e secretário do Conselho de Segurança. Yeltsin não o indicou como vice, pois o colocaria muito próximo do poder . A condição de saúde de Yeltsin e sua predisposição ao álcool poderiam incentivar sua ambição do poder. Tão logo nomeado , acusou Pavel Grachev de ter planejado um golpe contra Yeltsin , em represália à sua destituição do comando do 14º Exército , quando Pavel era ministro da Defesa. A aliança entre Yeltsin e Lebed é uma incógnita , pois dois bicudos não se beijam. Ambos têm aparência ríspida e grosseira. Ambos, também, provêm de hierarquias soviéticas. Ambos já caíram em desgraça. Apesar de Lebed receber um tratamento indulgente da parte de Yeltsin, deve estar com a barba de molho , pois o vice anterior , general Rutskoi, acabou sendo excluído das decisões do governo pelos assessores liberais do Kremlin. Denunciou as reformas econômicas do presidente e, mais tarde, uma tentativa de golpe levou-o à prisão. " "Sete pessoas foram assassinadas em Los Angeles num final de semana, número tão normal que nenhum deles mereceu destaque nos principais jornais da cidade. Mas no Japão, onde assassinatos são um fenômeno quase desconhecido, dois deles provocaram comoção nacional. Dois estudantes japoneses morreram com tiros na cabeça na semana passada no estacionamento de um supermercado próximo ao Marymount College (zona sul), onde eles estudavam. O assassinato de Takuma Ito e Go Matsuura é o terceiro ataque fatal a japoneses em visita aos EUA em três anos. Esses incidentes suscitaram temor numa nação que envia 50 mil estudantes e três milhões de outros viajantes aos EUA todos os anos. Só em LA, os turistas japoneses gastaram cerca de US$ 480 milhões em 93. As autoridades qualificaram o crime de sequestro de automóvel. Os analistas de notícias de Tóquio tiveram que explicar o que isto significava. No ano passado ocorreram apenas 100 homicídios em Tóquio, cidade com 13 milhões de habitantes e que durante o dia tem uma população de mais de 20 milhões. Estima-se que no Japão inteiro não existam mais que 100 mil armas de fogo -só concedidas com licença especial. Nos EUA, há cerca de 200 milhões de armas. O índice de assalto nos EUA é cerca de 130 vezes superior ao do Japão. Em 1992, de um rapaz de 16 anos em Baton Rouge, Louisiana, pelo dono de uma casa. O rapaz se confundiu com a casa em que estava sendo realizada uma festa de Halloween, para onde se dirigia. O dono da casa foi absolvido, tendo sido considerado que ele agira em defesa própria. No ano passado, um japonês de 25 anos foi baleado e morto numa estação ferroviária de Concord, Califórnia, durante um assalto. O caso ainda não foi resolvido. Desta vez o governo japonês aconselhou seus cidadãos que pretendem viajar aos EUA ter prudência na escolha dos lugares que pretendem visitar. Autoridades turísticas americanas prevêem queda no número de visitantes do Japão. Mas a maioria dos especialistas acha que a redução seria temporária; os EUA ofereceriam tantas atrações que alguns assassinatos não seriam o suficiente para afastar os turistas. O cônsul-geral japonês Seiichiro Noboru diz que os assassinatos não vão ""'mudar o amor que os japoneses sentem pela ensolarada Califórnia. Crimes acontecem em qualquer lugar do mundo"". Já as autoridades americanas estão pregando o perdão. ""Mil policiais extras não teriam conseguido evitar algo tão brutal e sem sentido"", disse o sargento Steve Foster, da polícia de Los Angeles. ""As autoridades americanas pedem desculpas e exortam os japoneses a não terem medo, mas a verdade é que eles deveriam ter medo, sim. Todos sabemos que há lugares onde jamais iríamos à noite, e talvez nem mesmo de dia. Está na hora de os EUA, de todos nós, enfrentarmos esse problema"", disse Jimmy Takeshi, da Liga dos Cidadãos Nipo-Americanos em Los Angeles. Ele encontrará apoio para suas posições no Japão. Depois do caso da Louisiana, muitos japoneses criticaram os EUA por suas leis permissivas referentes ao porte de armas. Os pais da vítima circularam um abaixo-assinado pela proibição do porte de armas nos EUA. O incidente recente deve suscitar um clamor ainda maior. As duas vítimas, de 19 anos, eram muito populares na universidade. ""Um cara fantástico e ótimo aluno"", é como John Escandan descreveu Ito, seu colega de quarto. Nenhum dos dois morreu instantaneamente. O Japão acompanhou a chegada de seus pais, que autorizaram os médicos a desligarem os aparelhos. O prefeito de Los Angeles, Richard Reardon, sugere ""folhetos descrevendo a hora mais segura para se sair de casa e os locais onde (os japoneses) não devem ir"". Mas é provável que o local onde foram assassinados os dois estudantes não constaria de uma lista desse tipo. A vizinhança de Marymount é agradável e tem baixo índice de criminalidade. A faculdade diz que os alunos estão chocados com a tragédia. As bandeiras estão hasteadas a meio pau, em sinal de luto. Estudantes e amigos vêm colocando rosas e velas onde eles foram baleados.(Richard Price e Jonathan Lovitt) ","O nível de apreço à vida tem indicadores bem significativos: sete pessoas assassinadas em Los Angeles num fim de semana não mereceram destaque em nenhum dos principais jornais da cidade; dois estudantes japoneses, mortos perto do seu colégio , Marymount College, provocaram uma comoção no Japão. Em todo o Japão, avalia-se que existem 100 mil armas; nos EUA, cerca de 200 milhões. O índice de assalto nos EUA é , aproximadamente, 130 vezes superior ao do Japão. O Japão, que envia 50 mil estudantes e três milhões de turistas aos EUA, anualmente, está aconselhando-os a serem prudentes na escolha de lugares que vão visitar. Autoridades turísticas americanas até acreditam na queda de visitantes; mas a maioria supõe que seja temporária , dada a variedade de maravilhas que o país pode oferecer. As autoridades americanas pedem desculpas e continuam estimulando os japoneses a perder o medo, mas a prudência da Liga dos Cidadãos Nipo-Americanos em Los Angeles alerta para o problema ." "A economia mundial ingressou numa fase nova. Anteriormente a locomotiva norte-americana era a única força operante que freava a recessão na Europa e no Japão. Mas até pouco tempo atrás a recuperação dos Estados Unidos havia sido fraca e incerta. Agora tudo isso chegou ao fim. A era do dinheiro fácil nos Estados Unidos acabou. O Federal Reserve (o banco central dos EUA) de Alan Greenspan foi levado a adotar uma política monetária restritiva. No início de fevereiro, elevou repentinamente as taxas de juros de curto prazo; de lá para cá, os bônus de longo prazo entraram em queda contínua em Wall Street e este choque norte-americano desencadeou ondas de fraqueza financeira nos mercados de bônus do mundo inteiro. Há muito tempo não ocorria pânico e temor tão difundido. Meu telefone, na universidade, vem tocando a toda hora, com ligações de jornalistas ansiosos por entrevistas ou alguma coisa que os ajude a entender melhor a situação. É provável que tudo isso seja apenas o começo. É provável que o Federal Reserve ainda venha a impor mais apertos. A tendência de alta do mercado de ações nos EUA e no resto do mundo não conseguirá evitar este difícil teste. Será que o Federal Reserve americano comprometeu as tão longamente esperadas recuperações na Europa e no Japão? Por que tudo isso aconteceu? Quais seriam as reações desejáveis no campo macroeconômico por parte das autoridades da Europa e do Japão? Apresento a seguir minha análise do que aconteceu e também minhas recomendações aos bancos centrais de países importantes, que hoje precisam repensar suas políticas. Em primeiro lugar, é preciso que compreendam que o Federal Reserve não sofreu uma simples mudança repentina de humor. O que move os mercados e move as autoridades do Fed é o estupendo crescimento do PIB real dos Estados Unidos, que chegou a 7% anuais no último trimestre de 1993. Ninguém, racional ou irracionalmente, poderia ter previsto este acontecimento. Praticamente todos os analistas econômicos elevaram suas projeções referentes ao crescimento econômico deste ano nos Estados Unidos. Taxas de 3% ou 4% hoje parecem plausíveis, baseando-se apenas no ímpeto atual. O prognóstico consensual que estava sendo feito antes apontava para algo entre 2% e 3%. Observem que todos, de fato, esperam uma considerável desaceleração do crescimento, prevendo que ele não manterá os picos recentes. As piores nevascas do século nos Estados Unidos, somadas ao grave terremoto na Califórnia, vão mascarar temporariamente a força da economia no primeiro trimestre. Mas mesmo assim é bem possível que nos próximos 18 meses nosso índice de desemprego caia para 6% ou menos, enquanto nossos níveis de produção começam a tensionar nossa capacidade manufatureira. Poderíamos perguntar: ""Por que um crescimento norte-americano mais forte implicaria problemas para a recuperação global? Com uma renda maior, os norte-americanos oferecerão mercados de exportação mais fortes para a Europa em geral, para os países do Sudeste Asiático e para o mundo em vias de desenvolvimento. Por que os mercados acionários de Madri, Londres, Frankfurt, Tóquio, Milão ou Cingapura não prosperam com a notícia da nova força econômica dos EUA?"" É assim que as pessoas costumavam argumentar. Ações e bônus costumavam ser investimentos alternativos. Um servia como ""hedge"" (proteção) para o outro. Quando a produção aumentava, as ações também disparavam e os bônus caíam com o aumento induzido nas taxas de juros. Não tem sido assim nos últimos 15 anos. Com frequência cada vez maior, as ações e os bônus parecem mover-se juntos. Quando os bancos centrais derrubam os preços dos títulos, as ações tendem a acompanhá-los -mesmo quando o aperto do crédito foi desencadeado pela perspectiva de lucros e produção em alta. Vimos um exemplo disso em 1987. A queda de Wall Street ocorreu na ""segunda-feira negra"", 19 de outubro. As ações em Nova York caíram 22% num único dia. O exemplo norte-americano foi seguido imediatamente por um massacre financeiro no exterior, onde as ações caíram em média ainda mais do que nos EUA. Foi uma fraqueza do PIB norte-americano ou sua força que causou a queda de outubro de 1987? Evidentemente foi sua força, e não sua fraqueza: no último trimestre de 1987 os EUA tiveram uma taxa de crescimento econômico anual de 6% -a maior taxa de crescimento desde 1983, e que não voltou a ser equiparada novamente até o final de 1993. Será que o Federal Reserve está um pouco paranóico diante dos perigos atuais da inflação? Sim. Todos os presidentes de bancos centrais são dados a essa fobia. Será que o dr. Greenspan e seus colegas vão terminar por exagerar no aperto ao crédito? Sim, é bastante provável. Mas, sendo realista, sou obrigado a admitir que nossas taxas de juros tenderão a aumentar até que comecem a surgir sinais de fraqueza indubitável na demanda. Os investidores norte-americanos vêm aprendendo a enxergar a longo prazo: a comprar ações e conservá-las por décadas, em lugar de tentar prever os altos e baixos do ciclo empresarial. Por essa razão, talvez não ocorra uma queda em Wall Street em 1994. Por outro lado, em comparação com os custos de reprodução de fábricas e instalações, as empresas norte-americanas estão sendo avaliadas generosamente depois de nosso extenso período de alta das ações. E qualquer tendência contínua a quedas futuras nos principais índices de ações fará com que os investidores voltem a adotar a ansiosa perspectiva de curto prazo. O que me preocupa é a Ásia e a Europa. Hoje em dia, os mercados monetários mundiais tendem a estar estreitamente vinculados. Os aumentos nas taxas de juros nominais e reais que os EUA podem suportar poderiam ser prejudiciais para uma recuperação sadia em 1994-95 para o resto do mundo. Sempre é fácil fazer recomendações de prudência ao Federal Reserve: Não exagere na histeria antiinflacionária. Se e quando ocorrerem sinais de que as restrições monetárias estiverem sufocando a recuperação dos Estados Unidos, prepare-se para voltar à tática de manter baixas as taxas de juros. Também tenho recomendações a fazer aos governos estrangeiros. Os bancos centrais europeus, individualmente e em conjunção informal, fariam bem em não deixar que suas taxas de juros aumentem proporcionalmente ao aumento norte-americano. Para isso será preciso um pouco mais de relaxamento no crédito. Sim, isso poderia ocasionar uma certa fraqueza das paridades monetárias européias em relação ao dólar. Mas isso não é negativo. E se vários países atuassem em conjunto -Espanha, Itália, França e Reino Unido-, uma modesta apreciação do dólar melhoraria a competitividade européia, de maneira muito oportuna. Com um bom ajuste de suas políticas, a força norte-americana pode acabar se mostrando benéfica para a Europa. ","A fase em que a economia americana freava a recessão na Europa e Japão chegou ao fim. O Federal Reserve ( Banco Central dos EUA)restringiu o crédito e elevou repentinamente as taxas de juros a curto prazo. Os negócios com bônus a longo prazo deterioraram dentro e fora do país. Há uma histeria no meio jornalístico , em busca de informações para entender o que acontece. É possível que o Fed venha impor apertos , apesar da alta no mercado de ações , nos EUA e no resto do mundo. Seguem uma análise do que aconteceu e recomendações aos bancos centrais de países importantes, que precisam repensar suas políticas. Primeiramente, é preciso entender que , na raiz da decisão do Fed, está o enorme crescimento do PIB norte-americano, que chegou a 7% anuais no último trimestre de 1993. O prognóstico era de 2% a 3%. Mesmo que as fortes nevascas e o terremoto na Califórnia reduzam o ímpeto econômico americano, nos próximos 18 meses a situação deve mudar. Não faz muito tempo que pessoas do mundo econômico estranhavam que o crescimento norte-americano não propiciava recuperação dos países europeus e do Sudeste asiático. Costumava-se ver o mercado de ações e de bônus como investimentos alternativos e que funcionavam como os pratos da balança: enquanto, por exemplo, as ações subiam , os bônus caíam. Hoje, parecem funcionar na mesma direção. Em 1987, a queda de 22% num só dia, nas ações em Nova York teve reflexo foi imediato no resto do mundo. No entanto, esse fato não ocorreu por fraqueza do crescimento norte-americano: neste mesmo ano, o PIB foi de 6%. O Federal Reserve demonstra uma fobia da inflação , assim como os demais bancos centrais do mundo. Pode até ser que o presidente do Fed continue com o aperto de crédito, via aumento aumento de juros, mas a queda de demanda , certamente, abrandará a restrição. Essa observação deve servir como um conselho ao Federal Reserve, no sentido de que não exagere a preocupação antiinflacionária. E certamente valerá para seus congêneres europeus , que, além disso, não devem vincular-se umbilicalmente ao aumento dos juros norte-americanos. " "No momento de maior impacto do zapatismo, quando o ""comandante Marcos"", o ex-chanceler Manuel Camacho Solís, o bispo Samuel Ruiz e os delegados indígenas eram enquadrados na capela da catedral de San Cristóbal de las Casas por câmeras de TV de todo o mundo, alguns dos que nos encontrávamos ali começamos a armar uma hipótese à qual chamamos ""golpe de timão"". Não nos parecia lógico que o regime, levando em conta a personalidade do presidente Carlos Salinas, estivesse amolecendo diante do conflito de Chiapas, que se aproximava cada vez mais de uma guerra civil e do contágio para o resto do país -com um presidente diminuído, um Nafta sob questionamento, um mediador da paz ocupando o primeiro plano já por muitos dias e um candidato oficial cujos discursos se perdiam em espaços recônditos da imprensa. Aquela hipótese previa um cenário de reforma agrária, acertado com alguns proprietários importantes da região, que pusesse as organizações indígenas e camponesas ao lado do regime, evitando a tendência natural delas de alinhar-se ao zapatismo. Se aproveitaria a presença daquele aparato de imprensa para dizer ao mundo que o México não é América Central e que, apesar de Chiapas se encontrar, por particularidades históricas, naquela situação de injustiça e concentração de renda, o governo mexicano sempre se havia caracterizado por encontrar soluções que fossem ao fundo dos problemas. Como Chiapas é um caso excepcional, seria possível decretar uma trégua nacional às vésperas das eleições. Tal cenário se enquadraria com o já clássico golpe espetacular que sempre ocorre no último ano de cada período de seis (o ano eleitoral) e recolocaria no centro o presidente e seu candidato, Luis Donaldo Colosio, com autoridade e legitimidade. Conforme o tempo passava e não se tomava nenhuma medida, o princípio da ordem degenerava aceleradamente no país. No plano social, recomeçaram as tomadas de terras e os assassinatos de camponeses e dirigentes sindicais. Junto a isso, surpreendeu o sequestro de um dos mais importantes líderes empresariais. No plano político, testemunhamos atônitos um novo cisma na ""família revolucionária"" (o governista Partido Revolucionário Institucional), quando se tornaram públicos os ataques recíprocos entre Camacho Solís e Colosio. No econômico, chegou-se ao extremo de ver a Bolsa reagindo hora a hora aos rumores sobre o lançamento ou a renúncia de Camacho à candidatura presidencial. O desenlace, porém, não veio na forma do ""golpe de timão"" com reforma radical, mas foi precipitado pelas duas balas que tiraram a vida de Colosio. Mas o resultado, surpreendentemente, foi o mesmo no que se refere à reconstituição do princípio da autoridade. Uma hora após a morte de Colosio -na realidade minutos depois de o público receber a trágica notícia-, Octavio Paz pedia um ""basta aos excessos verbais e ideológicos de alguns intelectuais e jornalistas"" e às ""numerosas e irresponsáveis apologias da violência"". Acrescentava Héctor Aguilar Camín, um dos intelectuais do governo Salinas: ""Durante três meses assistimos à consagração jornalística da violência. É impossível desvincular o assassinato de Colosio do ambiente de prestígio e moda que deu à violência chiapaneca o perfil de um épico, mais do que o de uma desgraça"". Com a morte de Colosio vivemos também a morte política de Camacho. A opinião pública não teve tempo de se expressar a respeito: foi substituída por caminhões de ambulantes e agricultores carregados pelo PRI desde Ciudad Nezahualcoyotl e Chalco, que repudiaram Camacho, o mediador da paz, no velório de Colosio. O assassinato funcionou, assim, como instrumento para desqualificar manifestações políticas que, como o zapatismo, haviam conseguido espaço na opinião pública. Funcionou de maneira igualmente drástica no interior das instituições estatais -como uma purga política, uma volta à disciplina cega, uma intimidação da liberdade de expressão: de um golpe estava de volta a unidade hermética da ""família revolucionária"", como ficou mais do que claro com a nomeação de Ernesto Zedillo e a proibição de que as correntes do PRI se manifestassem publicamente sobre qualquer candidato. Mas talvez o que era o maior obstáculo a superar para o Estado e seu partido se tenha transformado, com esta morte, em seu maior aliado -pois conseguiu-se transformar o ""voto de castigo"", que os políticos priistas vinham carreando e que se aguçou com o ocorrido em Chiapas, em voto de simpatia e comiseração diante da injusta morte de quem acabou como mártir. O desprezo pelo PRI se converteu em sentimento de culpa. Outra reacomodação de grande significado: o Conselho Estatal de Organizações Indígenas e Camponesas (as 280 organizações que recentemente haviam reconhecido o EZLN como força beligerante) propôs a suspensão imediata dos planos para ocupação de terras em Chiapas e em todo o país. ""Queremos que haja uma trégua devido à situação de insegurança que se vive atualmente"", disseram. Enquanto alguns intelectuais desqualificavam o zapatismo na capital, o EZLN declarava: ""Nos vemos obrigados a suspender a consulta (sobre as propostas de paz) e a preparar-nos para defender nossa causa e nossa bandeira. O EZLN lamenta profundamente que a classe governante não possa resolver seus conflitos internos sem ensanguentar o país. Com o argumento de que é necessário endurecer o regime para evitar assassinatos como o do sr. Colosio, pretende-se dar sustentação política e ideológica à repressão indiscriminada e ao injustificável rompimento do cessar-fogo e, por extensão, do diálogo pela paz. Virá a ofensiva tantas vezes acariciada pela 'linha dura' governamental."" Aos cidadãos não resta mais do que juntar o que vai chegando. Em comunicado que surgiu no dia seguinte à nomeação de Zedillo, um grupo de deputados do PRI dizia: ""Nos últimos dias aflorou o interesse por traduzir a justa indignação popular e a incerteza que o crime político trouxe ao nosso candidato numa justificativa para impor uma 'linha dura' e um clima excludente em nossa vida pública"". Os casos bem-sucedidos de globalização de países dependentes, como Coréia do Sul, Formosa, China e Chile (exceto este nos anos recentes), se basearam no autoritarismo estatal e se mostraram pouco compatíveis com reformismo político e democracia. ""Golpe de timão"", reformismo radical? Que hipótese mais ingênua! Será por acaso que, diante do relaxamento da ""ordem"" em que começou o ano de 1994, e com achaques a atores sociais, jornalistas e intelectuais ""irresponsáveis"" (como se a desordem brutal não fosse gerada dentro do próprio modelo), o regime está dando mostras de encaminhar-se para a via autoritária, suprimindo suas correntes conciliadoras? ","A questão social de Chiapas no México teve o seu clímax no encontro na capela da catedral de San Cristóbal , sob o foco de câmeras de TV do mundo inteiro. Ali estavam o “comandante Marcos”, o ex-chanceler Manuel Camacho Solís , o bispo Samuel Ruiz e os delegados indígenas . Levando-se em conta a personalidade do presidente Carlos Salinas, não se tratava ali de uma subordinação do poder , mas de uma forma de recompor a “família revolucionária” , ou seja , o Partido Revolucionário Institucional. Estava encenada uma reforma agrária, que pusesse as organizações indígenas e camponesas ao lado regime , evitando-se a sua natural adesão ao zapatismo. Cumprido o ritual , as eleições ,com o candidato governista vitorioso, reconstituiriam o princípio da autoridade. O adiamento de soluções revigorou a tensão social ligada à terra: invasões e assassinatos. No campo político , briga entre representantes da “família”: tornaram-se públicos os ataques recíprocos entre Camacho Solís e Luis Donaldo Colosio, candidato do presidente Salinas. A instabilidade política fez a Bolsa oscilar de hora em hora. Em vez de uma reviravolta esperada do encontro de lideranças na catedral, o que se viu foi o assassinato de Colosio. Mas não veio o caos , e , sim, a calmaria desejada pelo PRI. Octavio Paz, intermediário das negociações , pedia à imprensa e intelectuais redução da apologia da violência . Também o fez Héctor Aguilar Camín , um dos intelectuais do governo Salinas. Por sua vez, Camacho morreu politicamente. O assassinato veio como uma solução: serviu para desqualificar manifestações como as do zapatismo; reforçou o autoritarismo com a volta à disciplina e à intimidação da liberdade de expressão; conteve as manifestações de correntes do PRI; possibilitou a nomeação de Ernesto Zedillo. Domesticado, o Conselho Estatal de Organizações Indígenas e Camponesas pede trégua , dada a situação de insegurança. Ao contrário da expectativa de reformismo social , a tendência do sistema é o autoritarismo, que sustenta o status quo da “família revolucionária”. " "Em maio do ano passado, assistentes sociais de Monticello, Kentucky (EUA), descobriram que o garotinho Daniel Reynolds apresentava hematomas. Em junho os médicos disseram que a perna direita do garoto, que estava quebrada, parecia ter sido torcida até quebrar. Daniel foi colocado sob os cuidados de uma família adotiva temporária. Em agosto, com o consentimento dos assistentes sociais, Daniel voltou a viver com a mãe. E no início de dezembro, segundo a polícia e os promotores, Daniel morreu de um soco na cabeça. ""Quando você vê uma coisa como essas, fica doente"", diz o promotor Robert Bertram, que acusou o padrasto pelo assassinato e a mãe e quatro assistentes sociais por cumplicidade na morte do menino de 22 meses de idade. Os casos de abuso e maus-tratos de crianças continuam a chegar com persistência desalentadora -cerca de 3 milhões de casos em 1993, segundo um relatório entregue do Comitê Nacional de Prevenção do Abuso Infantil (NCPCA). O relatório inclui os casos de 1.300 crianças que sofreram maus-tratos e negligência que levaram à morte. Algumas dessas mortes poderiam ter sido impedidas. De cada dez crianças que morreram, pelo menos quatro eram conhecidas dos funcionários dos serviços de proteção infantil. Muitas delas, como Daniel, foram retiradas de suas casas, mas depois enviadas de volta. A crise americana de abuso infantil cresce quando as crianças nascem no mesmo ambiente de pobreza, dependência de drogas e abuso em que seus pais foram criados. Ela cresce quando organizações com financiamento insuficiente enviam assistentes sociais com carga excessiva de trabalho a lares infelizes e pobres, para ""salvar famílias"". É este ciclo de maus-tratos e falta de cuidados -os 33% dos relatórios que citam ""reincidentes"" que já maltrataram crianças outras vezes- que suscitam o maior ultraje e indignação. ""Se eu estuprar ou espancar a criança do vizinho, não são assistentes sociais que cuidam de meu caso -é a polícia"", diz Patrick Murphy, cujo escritório de guardião público do condado de Cook (Illinois) representa crianças que sofreram maus-tratos. ""Mas, se eu estuprar minha própria filha ou espancar meu próprio filho, os assistentes sociais virão conversar comigo sobre como cumpro meu papel de pai ou como minha mãe cuidou de mim."" E as estatísticas mais recentes sobre abuso de crianças talvez reflitam apenas ""50% dos casos que realmente acontecem"", diz Philip McClain, dos Centros para o Controle de Enfermidades. ""É um problema gravíssimo"". Problemas insolúveis Desde que um estudo feito em 1962 identificou pela primeira vez a ""Síndrome da Criança Espancada"", o plano de combate ao abuso infantil foi modificado repetidas vezes. ""No final dos anos 70 a assistente social tirava a criança do lar em que era maltratada"", diz David Mitchell, juiz da Corte Juvenil de Baltimore, por onde passam centenas de casos de abuso todos os anos. ""Nos anos 80 chegaram os advogados e os grupos de defesa, contestando aquela posição"". ""Nos anos 90"", diz ele, ""passamos a adotar o 'modelo dos direitos dos pais', priorizando sempre que possível a opção de deixar as crianças com seus pais"". Mas, segundo Mitchell, essa ótica está mudando, à medida que se torna mais claro que ""alguns pais talvez representem problemas insolúveis"". Quer se trate de abuso físico, sexual, emocional ou falta de cuidados, muitos casos de destaque assombram a memória do público. As 19 crianças de Chicago encontradas num apartamento sórdido. As meninas da família Schoo, cujos pais as deixaram sozinhas em casa enquanto tiravam férias no México. Lisa Steinberg, de Nova York, espancada por seu pai adotivo até morrer, aos seis anos de idade, de danos cerebrais. ""É por isso que o público se sente revoltado"", diz Joy Byers, do NCPCA. ""A verdade é que ele parece ver as mesmas histórias se repetindo sempre."" ","Os casos de abusos e maus-tratos contra crianças nos Estados Unidos espantam pela quantidade e qualidade. Cerca de 3 milhões em 1993, segundo um relatório entre ao Comitê Nacional de Prevenção do Abuso Infantil. Em maio do ano passado, em Kentucky , assistentes sociais descobriram hematomas num garotinho. Em junho, médicos notaram que ele estava com a perna quebrada e que parecia ter sido torcida até quebrar. Em dezembro , segundo a polícia e promotores , ele morreu de um soco na cabeça. Muitos casos poderiam ter sido evitados. Muitos foram tiradas dos pais, mas depois devolvidas. O ambiente de pobreza , de dependência de drogas e de abusos dos próprios pais potencializa as ocorrências .Também organizações com financiamento insuficiente mantêm funcionários com excesso de trabalho , e o resultado é previsível. Estatísticas mais recentes sobre abuso infantil talvez não reflitam nem 50% dos casos. Desde um estudo de 1962, quando se identificou a Síndrome da Criança Espancada, os critérios de combate a abusos se modificaram várias vezes. De início, retirava-se a criança da família; depois , advogados e grupos de defesa contestaram; em seguida, passou-se a defender o direito dos pais , sempre que possível. Enquanto isso, o público continua a assistir a casos escabrosos e se revoltar . " "Aviões da Otan bombardearam ontem posições sérvias ao norte de Sarajevo. O ataque foi uma represália à tomada por sérvios de armamentos pesados, retirados da zona de exclusão da ONU em torno da cidade. Foi a primeira ação da Otan contra sérvios desde o ataque aéreo às suas posições no encrave de Gorazde, em abril. Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que dois aviões norte-americanos e dois franceses bombardearam às 18h35 (13h35 em Brasília) posições sérvias ao redor de Sarajevo. Porta-vozes militares disseram que um total de 12 aeronaves, com a participação também de holandeses, saíram de bases da Otan na Itália para realizar os bombardeios. A ONU disse que após o ataque os sérvios se comprometeram a devolver imediatamente as armas. O comandante do Exército sérvio garantiu ao comandante das tropas da ONU em Sarajevo, general Michael Rose, que todas as armas retiradas da zona de exclusão seriam devolvidas até hoje. Rose disse que se a promessa não for cumprida haverá novos ataques. Ele informou que um blindado sérvio foi destruído no bombardeio. Segundo ele, foi escolhido um alvo isolado, para evitar que civis fossem atingidos. Por causa do mau tempo não foi possível atingir as armas. Na manhã de ontem, tropas sérvias retiraram um tanque, dois veículos blindados e um canhão antiaéreo de um depósito da ONU. Um helicóptero da ONU tentou perseguir os sérvios, que responderam a tiros. Em fevereiro, a ONU criou uma área de exclusão de 20 km em torno de Sarajevo, na qual foi proibida a presença de armas pesadas. Os sérvios entregaram suas armas depois de ameaças de bombardeios pela Otan. Desde então, foram registradas várias tentativas pelos sérvios de recuperar as armas. As tropas das Nações Unidas em Sarajevo entraram em estado de alerta após o ataque. Por causa dos incidentes de ontem, a ONU voltou a suspender a ponte aérea de ajuda humanitária a Sarajevo. A retirada das armas ocorreu um dia depois de a Iugoslávia –formada por Sérvia e Montenegro– ter interrompido todos os laços com os sérvios da Bósnia, por causa da rejeição por eles de um plano de paz internacional para a região. Centenas de caminhões que iam da Sérvia para regiões da Bósnia sob controle sérvio foram impedidos ontem de cruzar a fronteira. A Sérvia é a principal fonte de armas e suprimentos para os sérvios da Bósnia. O líder sérvio Radovan Karadzic disse após o rompimento que seu povo deve se preparar para lutar sozinho. ""Estamos preparados a ficar com fome, nus e descalços, mas temos de lutar por nossa liberdade"", afirmou. ","Em represália à tomada de armamentos pesados, aviões da Otan bombardearam ontem posições sérvias ao norte de Seravejo. O bombardeio não atingiu mais armas além de blindado isolado, para evitar atingir civis e por causa do tempo. O comandante sérvio garantiu ao comandante da ONU, general Michael Rose, que as armas seriam devolvidas. Em fevereiro, a ONU tinha criado uma zona de exclusão em torno de Seravejo, em que foi proibida a presença de armas pesadas. Os sérvios, sob ameaças , tiveram que entregar suas armas. Desde então, tentam recuperá-las. As tropas da ONU , por causa do incidente de ontem, voltaram a interromper a ajuda humanitária a Seravejo e passaram a vigiar melhor a fronteira que dá passagem para a região da Bósnia controlada por sérvios. A Sérvia é a principal fonte de armas e suprimentos para os sérvios da Bósnia. " "Foi acionada há uma semana uma bomba-relógio que, sendo de fabricação americana, o Japão provavelmente nunca importaria. O artefato está programado para explodir a 30 de setembro se persistir o impasse nas negociações comerciais entre os dois países. Foi esse o prazo imposto ao Japão para reduzir o superávit com os EUA. O governo americano pressiona o japonês para que aumente suas importações, principalmente de equipamentos médicos e de telecomunicações. As negociações se arrastam há mais de um ano e, por enquanto, não há perspectiva de que cheguem a um acordo. A ameaça americana é de impor sanções, que poderiam vir na forma de tarifas alfandegárias mais elevadas sobre alguns produtos japoneses. Nessa hipótese, estaria declarada a guerra comercial. Os EUA alegam que o Japão discrimina produtos estrangeiros. O Japão mostra números: sustenta que, no caso de equipamentos médicos, 32% das compras do governo são de produtos importados, em comparação a 3% nos EUA. A disputa entre os dois países extrapola o interesse bilateral por provocar tensão nas negociações internacionais que procuram criar um ambiente de livre comércio. Se a ameaça for cumprida, será a primeira ação do gênero desde a assinatura da Rodada Uruguai, no início do ano, quando se decidiu, no âmbito do Gatt (Acordo Geral de Comércio e Tarifas), os rumos do comércio mundial. Uma eventual guerra comercial também não seria a melhor maneira de dar boas-vindas à Organização Mundial do Comércio, que deve substituir o Gatt em janeiro. Não é igualmente de bom augúrio para o comércio internacional o fato de que, no mesmo 30 de setembro, os EUA vão anunciar uma nova versão da legislação que ficou conhecida como Super 301, que permite aos americanos retaliar contra países que discriminem suas exportações. No papel, a Rodada Uruguai conseguiu restringir as legislações sobre dumping, às quais se recorria sem parcimônia para dar sustentação ao protecionismo. Na prática, o lobby de empresas americanas continua acenando com a possibilidade de sanções contra o que considera ser comércio desleal por parte de países exportadores. Essa atitude –de praticar o que critica nos outros– mina a autoridade dos negociadores dos EUA. Para o ""Financial Times"", os EUA estão encalacrados. Em editorial, o jornal britânico argumenta que o governo japonês não tem condições de aceitar as exigências americanas e que, portanto, cabe aos EUA encontrar uma saída para evitar que o impasse persista. O problema penetra na esfera política porque um dos pontos da plataforma de Clinton era exatamente resolver a disputa com o Japão, o que George Bush, seu antecessor, não conseguira. O fracasso de Clinton pode se espalhar pela Ásia, caso cumpra a ameaça de impor sanções. Os países da região não aprovam os métodos de Washington e a deterioração das relações comerciais com esses parceiros seria desastrosa para a balança comercial americana. Por inabilidade no manuseio, a bomba-relógio pode acabar sendo detonada nas mãos do fabricante. ","EUA e Japão jogam um braço-de-ferro, que vem se arrastando há um ano. Os EUA cobram do Japão que aumente suas importações de produtos norte-americanos. O prazo imposto vence dentro de praticamente um mês. E vem com a ameaça de aumento de tarifas alfandegárias para os produtos vindos do Japão. Diante da acusação de que discrimina produtos estrangeiros, o Japão mostra que, em equipamentos médicos, suas importações são de 32%. As ameaças norte-americanas vêm em momento inoportuno: em substituição ao Gatt , está para ser inaugurada a OMC (Organização Mundial do Comércio) ; uma nova legislação que permite aos EUA retaliar contra países que não importam seus produtos não soa bem para o comércio internacional. A repercussão já freqüenta a mídia. As empresas americanas pressionam , mas , segundo o “Financial Times”, os japoneses não têm como aceitar as exigências, e os EUA devem pensar em outra saída. O fracasso de Clinton nesse caso pode espalhar-se pela Ásia, onde vários países não aprovam os métodos de Washington. " "Israel e Jordânia abriram ontem a primeira passagem de fronteira entre os dois países depois de 46 anos de estado formal de guerra. O premiê de Israel, Yitzhak Rabin, entrou em território jordaniano e depois navegou com o rei Hussein da Jordânia no iate real em águas territoriais de Israel. A abertura da fronteira consolidou o acordo de paz assinado por Rabin e Hussein em Washington no mês passado. ""Nós esperamos 46 anos. Passamos por guerra, dor e sofrimento. Para evitar mais perdas, não podemos esperar nem mais um dia"", disse Rabin em seu discurso. Ele respondia a críticos israelenses que consideram que o processo de paz está indo rápido demais. A fronteira entre Eilat, em Israel, e Ácaba, na Jordânia, só estará aberta, por enquanto, para pessoas com passaportes estrangeiros. ""Sentimos que somos amigos e parceiros indo com determinação, visão, empenho em direção ao estabelecimento de fundações de uma paz abrangente nesta região"", disse Hussein na cerimônia de inauguração da fronteira. Hussein, que atravessou o espaço aéreo e navegou em águas territoriais israelenses, disse pretender visitar santuários islâmicos de Jerusalém e Hebron, na faixa de Gaza. As duas áreas são parte do território ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 67. Depois de seu primeiro encontro público em território jordaniano, Rabin e Hussein admitiram que se conhecem há 20 anos. Oficialmente, a primeira vez que os dois líderes se viram pessoalmente foi na reunião de cúpula de Washington. ""Quando nos encontramos os três na Casa Branca, o presidente (dos EUA, Bill) Clinton, o rei Hussein e eu, Clinton virou-se e perguntou: 'Digam-me a verdade, há quanto tempo vocês se conhecem?' "", contou Rabin. ""Eu olhei para o rei. Ele não respondeu. Eu respondi: 'Há 21 anos'. Então ele corrigiu: '20'. E ele estava certo"", disse. O secretário de Estado dos EUA, Warren Christopher, disse na abertura de fronteiras que Israel e Síria têm ""uma longa distância a percorrer"" para a paz. Christopher esteve negociando com sírios e israelenses e disse que Rabin e o presidente sírio, Hafez al Assad, ""começaram a pavimentar a base para o progresso em direção à paz"". O chanceler israelense, Shimon Peres, disse que os recentes incidentes entre Israel e o Hizbollah, milícia xiita pró-Irã do Líbano, cessaram e atribuiu à Síria uma influência no fato. Segundo Peres, Israel disse a Christopher que a Síria poderia exercer influência sobre o Hizbollah. Os EUA acreditam que a Síria não controla o Hizbollah, mas, como tem cerca de 30 mil soldados no Líbano, pode exercer pressão. ","Após 46 anos de estado formal de guerra, Israel e Jordânia o acordo de paz, assinado por Rabin e Hussein, abrindo a primeira passagem de fronteira entre os dois países--- inicialmente reservada só para quem portasse passaportes estrangeiros. O cerimonial constou de demonstrações públicas da concretização do acordo: entrada de Rabin em território jordaniano, navegação em águas territoriais de Israel, juras de paz eterna e promessas de Hussein de visitar santuários islâmicos, em território ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 67 Apesar de se conhecerem há 20 anos --- segundo declaração dos próprios--- oficialmente, a primeira vez que se viram pessoalmente foi na reunião de cúpula de Washington , durante o governo Clinton. O secretário de Estado dos EUA afirmou que entre Israel e Síria a paz ainda está distante. E acrescentou que , na sua conversação com os dois países, já percebeu um encaminhamento propício. Nessa linha de boa vontade, está o reconhecimento, por parte do chanceler isralense, de que a Síria contribuiu para o cessamento de incidentes entre Israel e o grupo Hizbollah." "Mulheres com maior poder de decisão se constituem no ponto chave para a resolução de problemas populacionais do mundo, afirma relatório da ONU (Organização das Nações Unidas). O relatório de 66 páginas, intitulado ""Estado da População Mundial 1994"", a ser lançado amanhã, informa também que cerca de 1,1 bilhão de pessoas no planeta têm renda de apenas US$ 1 por dia. O relatório será discutido durante a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, a ser realizada no Cairo, capital do Egito, em setembro. Segundo o documento, que traz gráficos e tabelas, entre 14 milhões e 18 milhões de adultos no mundo estão infectados com o vírus da Aids -quase o dobro de pessoas infectadas em 1990. Segundo a ONU, no fim do século 20 estarão morrendo a cada ano, em decorrência da Aids, 1,8 milhões de pessoas -número igual ao total de mortos durante a primeira década da doença. Lançado anualmente pelo Fundo de População da ONU, o documento aponta o maior poder de decisão das mulheres como fundamental para se chegar a taxas moderadas de crescimento populacional. Para o relatório, a diminuição deste crescimento implica menor pressão sobre o meio ambiente e outras áreas problemáticas. Segundo a ONU, igualdades de direitos, para homens e mulheres, no acesso à saúde, planejamento familiar e educação são importantes para a proteção ambiental e o desenvolvimento econômico. Por maior poder às mulheres, a ONU entende a igualdade de oportunidades de escolher quando casar, ter filhos, arrumar empregos e ter amplo acesso aos vários níveis de educação. Um dos pontos recorrentes do relatório da ONU é a necessidade de se ter taxas moderadas de crescimento populacional no mundo. Uma menor fertilidade pode trazer impactos consideráveis na qualidade de vida, como por exemplo provendo mais educação, atendimento de saúde e oportunidades de empregos. A população mundial está em torno de 5,66 bilhões de pessoas. Mesmo com o registrado decréscimo das taxas de fertilidade, ainda nascem por ano 94 milhões de pessoas. Segundo projeções da ONU, a população mundial deverá chegar a 8,5 bilhões em 2025 e a 10 bilhões, em 2050. Isto se as taxas de fertilidade continuarem declinando. A Colômbia é citada como um dos exemplos de histórias de sucesso na diminuição da taxa de crescimento populacional. No início dos anos 60, sua taxa era de 3% ao ano. Hoje, está em 1,9%. Em Zimbábue, outro país com experiência positiva no controle do crescimento populacional, o número médio de crianças por mulher, na década de 60, estava próximo de oito. Caiu para sete em 1981 e atualmente é de 5,4. Na Tailândia, outro exemplo citado pelo relatório, o número médio de crianças por mulher, caiu de seis, na década de 60, para 3,7 em 1980, chegando a 2,1 em 1991. As mulheres tailandesas estão entre as mais economicamente ativas da Ásia. A taxa de mulheres adultas alfabetizadas é quase tão alta quanto o índice registrado entre os homens -cerca de 96%. ","O relatório da ONU “Estado da População Mundial 1994” é resultado da preocupação com o crescimento acelerado da população no mundo; com a quantidade dos que beiram o nível da miséria; com a quantidade dos infectados e mortos por Aids, presentes e futuros. O documento afirma que , para o controle da taxa de natalidade, é fundamental atribuir à mulher maior poder de decisão--- o que significa condições de escolher quando casar e ter filhos, de arrumar emprego e de acesso amplo à educação. O relatório insiste na necessidade de controlar as taxas de nascimento, o que reverterá em melhor educação , saúde e mais empregos. Mesmo com desaceleramento já a caminho, a projeção do relatório para a população mundial assusta: 8,5 bilhões em 2025; 10 bilhões em 2050. O documento apresenta alguns exemplos alentadores de redução: na Colômbia ---de 3% em 60, para 1,9% em 94; em Zimbábue--- de quase 8% em 60, para 5,4% em 94; na Tailândia ---de 6% em 60, para 2,1% em 1991. " "O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, fez ontem acordo com as centrais sindicais do país e conseguiu evitar a greve geral marcada para hoje. Os sindicatos conseguiram evitar cortes nas aposentadorias. O projeto de Orçamento para 1995 de Berlusconi -cuja principal promessa de campanha foi acabar com o deficit público (US$ 86 bilhões em 93)- previa drásticos cortes no sistema previdenciário. Na semana passada, já acossado por divergências dentro do gabinete, Berlusconi foi notificado de que estava sendo investigado em um caso de suborno a agentes do fisco. Três de suas empresas são acusadas de pagar US$ 205 mil à Guarda de Finanças. Em meio a pedidos da oposição para que renunciasse, o premiê teve uma reunião com as centrais sindicais em busca de um acordo que lhe permitisse aprovar seu projeto de Orçamento e prolongar a sobrevida de seu gabinete. Prometeu tirar a aposentadoria do projeto de Orçamento e preparar uma lei só sobre o assunto. O projeto dessa lei foi discutido ontem com os sindicalistas. ""A guerra das aposentadorias está acabada"", disse Berlusconi em entrevista coletiva depois de reunião. ""O Orçamento está salvo. Foi um passo decisivo à frente"". ""Há mudanças de direção no governo que temos que apreciar"", disse Sergio Coferatti, líder da principal central sindical do país, ligada à esquerda. Governo e sindicatos afirmaram que as alterações no projeto sobre aposentadorias não devem mudar o total dos cortes previstos no Orçamento. O governo calcula que US$ 2,5 bilhões deixarão de ser cortados nas aposentadorias e terão que ser obtidos de outro modo. O Orçamento precisa passar pelo Senado, onde o governo não tem maioria. O acordo com as centrais sindicais, ligadas à esquerda, à democracia-cristã e aos socialistas, praticamente garante a aprovação, que tem que ocorrer este ano. Sobre a investigação de que é objeto, o premiê disse que deixará a Itália se vier a ser acusado. ""Eu não poderia ficar neste país se eu tivesse que ser acusado por esses feitos porque eu ficaria com vergonha de encontrar as pessoas na rua"", disse. Berlusconi reafirmou sua opinião de que é vítima de um complô político por parte dos juízes da Operação Mãos Limpas. Várias vezes Berlusconi e os juízes entraram em choque. A operação é uma investigação de corrupção iniciada em 92 em Milão que mudou o panorama político da Itália ao envolver as principais lideranças do país. Berlusconi foi eleito em março, depois de apenas três meses na política, graças a esse cenário. ""Não acredito que haja uma corte no país que me condene só porque me chamo Silvio Berlusconi. Se ocorrer, será uma sentença política, um ato subversivo"", disse o premiê durante a coletiva. Berlusconi disse que pretende depor em Milão e que dará uma entrevista coletiva logo depois. A data ainda não foi marcada. Como premiê, Berlusconi poderia responder ao inquérito em Roma. O irmão de Berlusconi, Paolo, confessou ter pago aos agentes do fisco. Ele e o premiê dizem, no entanto, que foram vítimas de extorsão e não corruptores. ","Para conter o déficit público (US$ 86 bilhões em 93) , o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi , tinha prometido em campanha drásticos cortes no sistema previdenciário. Mas , para evitar uma greve geral das Centrais Sindicais, fez um acordo com elas. Retirou do projeto do Orçamento a questão da aposentadoria e afirmou que trataria dela numa lei especial. Com o acordo , conseguiu forte apoio para aprovar o Orçamento.no Senado. É verdade que Berlusconi tem que buscar cortes em outro lugar , mas já deu para respirar. E já não veio sem tempo, uma vez que estava acossado por divergências no gabinete e por uma notificação de suborno a agentes do fisco, oferecido por três de suas empresas. Quanto à acusação de suborno, sua defesa é de pleno cinismo: “Eu não poderia ficar neste país se eu tivesse que ser acusado por esses feitos porque eu ficaria com vergonha de encontra as pessoas na rua”. Atribuiu-a a um complô político encabeçado pelos juízes da Operação Mãos Limpas, que há tempo vinham fazendo investigações sobre seu envolvimento. " "Mudam os governos, permanecem os escândalos. Para o governo de Ronald Reagan, o que permaneceu foi o caso Irã-contras, trazido à tona mais uma vez com ""Special Trust"" (Cadell & Daries, 389 págs., US$ 25). O livro é de autoria de Robert McFarlane com a jornalista Zofia Smardz. McFarlane foi Conselheiro de Segurança Nacional de Reagan entre 1983 e 1985. As decisões relativas à venda de armas para o Irã e ao envio de capital para os contras da Nicarágua passaram por McFarlane, daí o tom confessional do livro. O autor faz mea-culpa ao mesmo tempo em que aponta todos os outros personagens do escândalo, que conseguiram se desvencilhar de provas cabais da sua participação no caso, como o seu assessor direto Oliver North e o próprio presidente Ronald Reagan. De sua participação nas altas rodas do poder, McFarlane pode se gabar de ter sido responsável pela reaproximação dos EUA com a URSS de Mikhail Gorbatchov. No mais, o livro é um apanhado de memórias que não provocam exatamente orgulho do cidadão McFarlane. No prefácio, ele conta com detalhes sua intenção de se suicidar (em 1987), devido às pressões decorrentes do escândalo. O dado mais interessante de ""Special Trust"" talvez seja o fato de o livro trazer mais um relato dos bastidores do poder na gestão Reagan -claro que não isento. McFarlane reclama de que Reagan era um presidente emotivo para lidar com questões do Estado e deixa claro que todas as decisões que tomou para levar adiante o caso Irã-contras (sem aprovação do Congresso) contou com apoio e aprovação de Reagan. O livro todo é assim, explica, mas não justifica. Ele não convence de sua insenção ou boas intenções no caso, ainda que se possa relevar que não estivesse sozinho. Ele indica quem deveria ser punido no escândalo: o diretor da CIA, William J. Casey, e Oliver North, além de apontar uma série de assessores e conselheiros que tinham conhecimento de tudo. A grande falha de McFarlane é que ele não convence de que não deve ser incluído nesta lista. McFarlane deixa claro, no entanto, que apesar da aprovação de todos os conselheiros de Reagan, fora de sua presença, apenas duas pessoas se opuseram à venda de armas ao Irã e o desvio do capital aos contras: o secretário de Estado George Shultz e o secretário de Defesa Caspar Weinberger. Mas segundo McFarlane, nem eles, nem o então vice-presidente George Bush, que também tinha conhecimento do caso, apresentaram objeções sobre as medidas do presidente Reagan. A capa de ""Special Trust"" traz uma foto de McFarlane escolhida a dedo: com o ""fantasma"" Reagan atrás, como que indicando que ele fora apenas um testa-de-ferro. McFarlane diz que ainda defende o que foi a administração Reagan, mas descreve com tantos detalhes os atos ilegais cometidos no período que a publicação de ""Special Trust"" talvez tenha sido o seu maior erro político. ","O conselheiro de Segurança Nacional do governo Reagan (1983---1985) , McFarlane , juntamente com a jornalista Zofia Smardz , publicou um livro sobre o escândalo Irã-contras (venda de armas ao Irã e envio de capital para os contras da Nicarágua. McFarlane faz o mea-culpa e nomeia os demais envolvidos ---alguns conseguiram desvencilhar-se das provas de co-responsabilidade, inclusive o presidente Reagan. O livro não enaltece a figura de McFarlane. Apesar da tentativa, ele não consegue convencer de que não tinha culpa . Os detalhes sobre os bastidores do poder durante o governo Reagan talvez sejam o aspecto interessante do livro. Entre os conselheiros de Reagan que aprovaram as decisões , apenas o secretário de Estado George Shultz e o secretário de Defesa Caspar Weinberger se opuseram ao envio de armas, mas não apresentaram objeções . " "François Mitterrand quer ser lembrado como o grande construtor da Europa. Alguns erros políticos e revelações sobre seu passado ameaçam abalar essa imagem. Sofrendo de câncer na próstata, Mitterrand vive dias difíceis no fim de seu mandato e de sua vida. Sua ligação com a extrema direita na juventude, revelada este ano -em parte, por vontade do próprio presidente, que quer acertar contas com seu passado-, chocou os franceses. Mitterrand definiu suas posições do passado como erros da juventude. O fato é que, após a guerra, aos poucos ele se impôs como líder da esquerda e maior adversário do general Charles de Gaulle. Façanha Em 1965, aos 49 anos, ele alcançou a façanha de levar De Gaulle ao segundo turno da eleição presidencial. Quatro anos depois, os socialistas preferiram escolher Gaston Defferre como candidato e naufragaram, com apenas 5% dos votos. Mitterrand retomou as rédeas do partido em 1971, no congresso de Epinay. No ano seguinte, assinou com o Partido Comunista o programa comum da esquerda. A aliança durou cinco anos e só beneficiou os socialistas, que roubaram boa parte do eleitorado cativo dos comunistas. Foi com a ajuda desses votos que, finalmente, Mitterrand alcançou seu objetivo, derrotando por pouco Valéry Giscard d'Estaing na eleição presidencial de 1981. Em 1988, foi reeleito facilmente. Após dois anos de coabitação com Jacques Chirac, um premiê de direita, Mitterrand bateu o próprio Chirac no segundo turno. O balanço de seus dois mandatos é polêmico. Para uns, foi um período de paz em que a França enriqueceu; para outros, a maioria dos compromissos de campanha foi esquecida. Mesmo à esquerda, muitos o vêem como um homem obcecado pelo poder e impiedoso. Vacilações Na política estrangeira, algumas vacilações marcaram os últimos anos do seu governo. O presidente não percebeu a tempo a queda do comunismo: não previu a queda do Muro de Berlim em 1989, e chegou a flertar com os golpistas de Moscou em 1991. Apesar de criticado por seus adversários, devido às contradições que marcaram sua carreira, Mitterrand se manteve coerente em pelo menos um ponto: a defesa da União Européia. Já em 1951, durante um congresso socialista, o futuro presidente dizia que nada é possível, muito menos a paz, se a França não for o agente da Europa. Treze anos depois, Mitterrand escreveu: Creio que a Europa corresponde à vontade da história. Em 1973, ameaçou renunciar à liderança do partido, dividido entre pró e antieuropeus. Em 1992, o presidente reviveu seus grandes momentos de campanhas do passado ao se engajar na luta pela aprovação em plebiscito do tratado de Maastricht, que prevê a moeda única na Europa. Mitterrand aceitou participar de um debate na televisão contra Philippe Séguin, deputado conservador que se opunha ao tratado. Apesar da diferença de idade (75 anos contra 49, à época), Mitterrand se mostrou jovial e foi considerado vencedor. O tratado foi aprovado por pequena margem. Mas há setores que se opõem à união sem fronteiras. A França foi a principal responsável pelo adiamento da livre circulação de pessoas no interior da Comunidade, prevista para janeiro de 95. O motivo alegado foram dificuldades para implantar o banco de dados de todas as polícias européias, em Estrasburgo. Os franceses receiam o tráfico de drogas e a imigração clandestina. Por fim, os agricultores são a classe social que mais se opõe à UE. Eles se queixam do fim de vários subsídios, extintos por Bruxelas. É comum encontrar espantalhos com cartazes de protesto nas estradas do interior francês. ","Apesar de ser um produto da direita na juventude, François Mitterrand se definiu politicamente na esquerda. Em 1965, levou o cultuado De Gaulle ao segundo turno. Quatro anos depois, foi preterido pelos socialistas, que escolheram Gaston Defferre e perderam. Continuou a militância e , na eleição à presidência em 1981, venceu Giscard d’Estaing , com a ajuda de votos do eleitorado comunista.. Facilmente, ainda foi reeleito em 1988. É polêmica a avaliação de seus dois mandatos: para uns , foi um período de paz e prosperidade; para outros, ele esqueceu a maioria das promessas de campanha. Sua postura política em relação ao mundo mostrou alguns equívocos: por exemplo, o de não ter percebido a queda do muro de Berlim e o de ter flertado com os golpistas de Moscou em 1991. No entanto, manteve coerência na defesa da União Européia. Tanto que, em 1992, se engajou na luta pela aprovação do plebiscito do tratado de Maastricht, que aprovaria a moeda única na Europa. O caminho para a estruturação da unidade européia não foi pacífico: a própria França relutou em aceitar de imediato a livre circulação em todo o território europeu. É verdade que com um argumento ponderável: não estava ainda implantado o banco de dados das polícias européias, que fiscalizaria o tráfico de drogas e a imigração clandestina. O setor agrícola francês foi o que mais se opôs à formação da UE, pois receava a extinção de vários subsídios " "O democrata-cristão Helmut Kohl, de 64 anos, foi eleito no mês de novembro, pela quinta vez, chanceler federal do país mais rico da Europa, a Alemanha. Se conseguir governar até 1998, ele será o chanceler federal alemão (primeiro-ministro) com mais tempo no poder, 16 anos. Mais do que pelos sucessos de seu governo conservador na Alemanha, Helmut Kohl entrará para a história como grande incentivador da União Européia e também por um acaso: a queda do Muro de Berlim, em 1989. Apesar de queda do Muro e a reunificação terem sido mais consequência das manifestações que em 1989 abalaram o Leste Europeu e da política de abertura promovida pelo então presidente soviético, Mikhail Gorbatchov, Kohl soube aproveitar o clima de euforia que tomou conta do país. Conduziu rapidamente a união monetária das duas Alemanhas e se reelegeu, em 1990, dizendo-se o chanceler da reunificação. Kohl também promoveu o ingresso da Alemanha reunificada na então Comunidade Econômica Européia e na aliança militar Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ganhou, com isso, ainda mais a simpatia de seus colegas François Mitterrand e George Bush, então presidente dos Estados Unidos. Em 3 de outubro de 1990, os aliados da Segunda Guerra Mundial (França, EUA, Reino Unido e União Soviética), que até então mantinham tropas no país, assinaram a soberania da Alemanha. Foi o auge da carreira de Kohl. O chanceler também soube contornar as crises inevitáveis da reunificação. Durante três anos, enfrentou críticas e manifestações devido ao aumento de impostos e do desemprego. Em 1990, chegou a ser recebido com ovos em visita a Halle, ex-Alemanha Oriental. O chanceler viu também a extrema direita crescer na Alemanha, assim como o aumento de ataques xenófobos contra estrangeiros em busca de asilo no país. Kohl não se abalou. Na questão dos estrangeiros, fez um acordo com a oposição para restringir a concessão de asilo no país, evitando perder votos para extremistas. Com o crescimento da economia e a tendência a queda no desemprego, sua popularidade subiu e seu partido, a União Democrática Cristã (CDU), foi o mais votado nas eleições parlamentares do mês passado. Mas sua situação no Parlamento não é tranquila. Há um mês, Kohl foi eleito chanceler com apenas um voto a mais que o necessário. Com uma oposição parlamentar tão forte, não se sabe se conseguirá governar até 1998. Os políticos alemães não negam, porém, que seu país também se beneficia da União Européia. Nos próximos seis anos, calcula-se que cerca de US$ 18 bilhões sairão dos cofres da UE para projetos contra o desemprego na ex-Alemanha Oriental. A UE considera esta região prioritária e vem soltando uma série de pacotes de incentivo à agricultura, ciência e tecnologia. A Alemanha também é o país que mais investe no Leste Europeu. Entre 1989 e 1993, pagou cerca de US$ 91 bi bilhões para reformas em países do Leste e da ex-URSS. Com um PIB de US$ 1,8 trilhão e um crescimento econômico de 2,8% no primeiro semestre deste ano, a Alemanha enfrenta enorme déficit público e os impostos sobem a níveis recordes. Antes das eleições de outubro, Kohl já havia declarado que, se eleito, este seria seu último mandato. Começam agora as especulações sobre seu sucessor. Político habilidoso, Kohl não permitiu, nestes 12 anos de governo, que nenhum outro nome de seu partido, ou da coligação CDU-CSU, se destacasse tanto quanto ele. Além do chanceler, o nome mais forte da CDU é o ex-ministro do Interior e líder do partido no Parlamento, Wolfgang Schauble, vítima de um atentado que, em 1990, o deixou paralítico. ","Eleito pela quinta vez como chanceler federal da Alemanha, Helmut Kohl , se governar até o final, bate o recorde no poder em seu país. Entrará para história como o grande incentivador da União Européia e da queda do muro de Berlim. É verdade que a queda e a reunificação alemã foram resultado de manifestações que abalaram o Leste Europeu, mas ele soube aproveitar o clima de euforia. O ingresso da Alemanha reunificada na então Comunidade Econômica Européia e na Otan granjeou-lhe maior simpatia de Mitterrand e de George Bush. E , na mesma linha, os aliados que mantinham tropas no país assinaram a autonomia da Alemanha. Foi o apogeu de sua carreira. Kohl também foi hábil em amenizar as crises inevitáveis da reunificação: críticas ao aumento de impostos, desemprego, formação de grupos extremistas da direita que se manifestavam contra a entrada de estrangeiros. Seu autocontrole e capacidade de negociação permitiram driblar as manifestações . E o crescimento da economia , com a natural queda de desemprego, refletiu na sua popularidade e no sucesso eleitoral recente do seu partido, a União Democrática Cristã. Apesar de não ser tranqüila sua situação no Parlamento, os políticos alemães não negam que a União Européia favoreça seu país. Cerca de US$ 18 bilhões sairão da UE para investimentos contra o desemprego na ex-Alemanha Oriental. Por sua vez, a Alemanha é o país que mais investe no Leste Europeu ( cerca de US$ 91 bilhões ) , entre 1989 e 1993 , para reformas na região. Até o momento atual, Kohl não incentivou nenhum nome para lhe fazer sombra , mas agora , quando ele já fala em pendurar chuteiras, as especulações começam." "Pelo efeito sobre a margem de manobra e a capacidade de negociação do presidente Bill Clinton, pelo impacto ideológico da vitória avassaladora da direita republicana e pelas repercussões do sim dado na Califórnia à Proposta 187, relativa aos direitos dos estrangeiros não-documentados no país, as eleições norte-americanas de 8 de novembro podem transformar-se numa das mais significativas em muitos anos para o México e para a América Latina. Elas correm o risco de anular as oportunidades abertas pela chegada ao poder dos democratas, em 1992. Clinton é hoje um presidente ferido –não de morte, mas seriamente. Ele vai enfrentar dificuldades insuperáveis no campo da política nacional, sobretudo no que diz respeito à aprovação de uma reforma de fundo do sistema de saúde. Talvez ele consiga deter a ofensiva conservadora dos republicanos recém-eleitos, mas sua própria agenda será, sem dúvida, congelada até 1996. Na área da política externa provavelmente acontecerá a mesma coisa, embora em menor grau. Os novos dirigentes republicanos da Câmara e do Senado, de Jesse Helms a Newt Gingrich, já manifestaram sua intenção de imprimir uma nova orientação à política externa norte-americana, em âmbitos tão diferentes quanto o Gatt, a assistência a outros países, a participação em missões sob o comando da ONU e o envio de tropas ao Haiti e outros países. Nessas condições, dificilmente serão concretizadas as esperanças dos presidentes latino-americanos convocados a Miami por Clinton, de ver realizados seus sonhos de uma grande zona hispano-americana de livre comércio. Eleições Clinton é hoje um dirigente cuja reeleição –obsessão única de todo presidente norte-americano– está em risco. Se antes ele se via obrigado a subordinar alguns aspectos da política externa às questões da vida interna norte-americana, agora tal inclinação tenderá a exacerbar-se. Tudo se sujeitará aos imperativos da campanha de 1996: Cuba, Haiti, a questão dos imigrantes, o livre comércio, o combate ao narcotráfico, a devolução do Canal do Panamá etc. Tendo em vista que os opositores mais perigosos de Clinton serão, entre outros, o governador da Califórnia, Pete Wilson, que assegurou sua reeleição graças em parte a uma campanha anti-imigrantes, e o senador Robert Dole, que começou a rever seu tradicional apoio à abertura do mercado norte-americano, o ocupante atual da Casa Branca se verá forçado a deslizar em direção a posições cada vez mais demagógicas. Segundo efeito: o triunfo republicano terá consequências políticas e ideológicas substanciais e não puramente retóricas ou superficiais. O trânsito iniciado em 1938 em direção à conformação de uma maioria republicana e conservadora no Congresso consumou-se, finalmente, em 1994. Em 1938, a perda da maioria por Franklin Roosevelt e o Partido Democrata pôs fim ao New Deal; em 1948, a reconquista da maioria democrata alterou a correlação de forças partidária, mas não política. Virada ideológica Em 1964, a avassaladora vitória de Lyndon Johnson lhe garantiu uma maioria progressista no Congresso, para ratificar seus programas sociais e anti-racistas, mas esta foi efêmera: desvaneceu-se em 1968. Assim, entre 1932 e 1994 predominou uma maioria conservadora no Congresso, embora os democratas dominassem formalmente. Hoje a maioria ideológica se alinha com a partidária: trata-se, possivelmente, de uma mudança que terá longa duração. O vício profundo da democracia americana –a abstenção eleitoral do eleitorado pobre, negro e hispânico, e a alta participação dos eleitores brancos, anglo-saxões, suburbanos e de classe média a alta, acabou por se impor. A vitória republicana é a vitória de uma maioria homogênea de uma minoria uniforme: mais de 50% dos 35%, quase todos à imagem do Sonho Americano: Bart Simpson e seu clã ao vivo, direto das urnas. Aconteceu com Clinton o mesmo que aconteceu com Carter; ambos procuraram evitar que acontecesse com eles o que acontecera com Roosevelt e Johnson. Estes dois, acredita-se, penderam demais para a esquerda; a classe média os abandonou. Vem disso o fato de que os dois sulistas, Carter e Clinton, tenham pendido à direita, antes que a mesma coisa acontecesse a eles; ao fazê-lo, perderam seu eleitorado tradicional, que se refugiou na abstenção. Clinton sacrificou a reforma do sistema de saúde e conseguiu a aprovação de uma lei anti-criminosos e o acordo de livre comércio com o México. Os eleitores conservadores não o agradeceram pelo segundo ítem; os progressistas não o perdoaram pelo primeiro. Isto significa que o vigor ou impulso dos novos dirigentes do Capitólio é muito superior àquele que emana de um acaso, de um acidente ou uma surpresa. O portfolio de reivindicações conservadoras não se limita a alguns temas tradicionais do republicanismo clássico. Inclui um extremismo cultural notável por suas fobias –antiaborto, antiimigração, anti-homossexualidade, pró-religião– e uma exaltação dos valores americanos. Os dogmas não costumam prestar-se a negociações, nem mesmo no país mais pragmático de todos, e é provável que a predileção clintoniana pela conciliação se choque com o fervor conservador da direita cristã. Isto pode introduzir turbulências preocupantes em pelo menos dois âmbitos importantes das relações entre a América Latina e os EUA. Deixaremos de lado, por enquanto, um terceiro tema potencialmente conflitivo: o do aborto e do controle de natalidade, e o financiamento dos programas de planejamento familiar na AL. O primeiro tema espinhoso será um que já conhecemos: o combate ao narcotráfico. Os republicanos costumam atribuir a máxima importância ao assunto e muitos extremistas reaganianos da cruzada antidrogas dos anos 80 ocupam posições próximas à nova direita. É um tema intervencionista por excelência, que permite colocar os problemas de forma maniqueísta, condicionando todo tipo de apoios e preferências comerciais e financeiras norte-americanas a seu cumprimento. A crescente ingerência de Washington na luta antidrogas no interior de cada país poderá se intensificar, sobretudo se os Estados da região não declararem, eles mesmos, guerra ao tráfico. Mas a consequência mais negativa do maremoto conservador de 8 de novembro dirá respeito à questão migratória. A nova maioria republicana em Washington tem uma agenda migratória e vai levá-la adiante. Já comprovou que o tema mexe com a classe média, tanto a classe média conservadora e racista que reprova a presença de estrangeiros quanto aquela mais tolerante e liberal, que rechaça a ilegalidade e seus efeitos nocivos para sua própria sociedade. Se não promover um equivalente federal da Proposta 187, que busca subtrair direitos educacionais e de saúde aos trabalhadores não-documentados e suas famílias, propiciará mudanças na lei migratória que restrinja o ingresso de migrantes sem documentos. Imigrantes A época do liberalismo migratório de fato terminou nos EUA. Também acabou a era durante a qual o tema migratório permaneceu fora da agenda negociadora hemisférica, salvo contadas exceções conjunturais: Cuba de vez em quando, as Antilhas em determinadas ocasiões. Convém recordar: são muitos os países da América Latina que enviaram uma alta porcentagem de seus habitantes –mais de 5%, em alguns casos mais de 10%– para trabalhar e viver nos Estados Unidos. O México, quase toda a América Central, boa parte do Caribe, Colômbia, Equador e Peru são nações fortemente expulsadoras de migrantes. Para todos esses países, e para seus respectivos governos, o fechamento norte-americano em matéria de imigração vai obrigar, cedo ou tarde, a uma negociação delicada e complexa. Os inevitáveis termos desta negociação já anunciam o difícil dilema que irá se colocar: legalização ampliada contra regulação compartilhada. As alternativas serão angustiantes para todos, e para o México principalmente, devido à fronteira. Mas nenhum país permanecerá à margem da virada à direita nos Estados Unidos. Para a América Latina, como sempre, muita coisa é decidida fora de casa. ","A vitória de muitos representantes da direita republicana , em 1994, impõe um cerco ao governo de Bill Clinton tanto no âmbito interno quanto no externo. O presidente vai enfrentar enormes dificuldades , principalmente no que se refere a uma reforma básica no sistema de saúde. No âmbito da política externa , novos dirigentes republicanos da Câmara e Senado já acenam para uma nova orientação quanto ao Gatt, à assistência a outros países , à participação em missões sob o comando da ONU . Se reeleito em 1996, Clinton enfrentará posições exacerbadas dos direitistas tradicionais: campanha anti-imigrantes, revisão do apoio à abertura do mercado norte-americano, combate ao narcotráfico, condenação do aborto. E a posição da direita tradicional não é colocada para inglês ver; vem normalmente acompanhada de sanções que penalizarão quem não se submeter às imposições. Por exemplo, não facilitar empréstimos a quem não combater o narcotráfico; ou não propiciar educação e saúde para imigrantes não-documentados. Na história americana , a alternância do poder entre republicanos e democratas --- estes mais afinados com conquistas populares--- acontece, mas a determinação dos primeiros faz a balança pender para o seu lado. Começa com um problema das eleições no país: por causa do voto livre, os representantes das classes menos favorecidas se furtam ao voto, privilegiando os afortunados. A maneira de conceber o sonho americano por parte dos tradicionalistas se firma em posições dogmáticas, que não são afeitas a negociações. Isso , certamente, dificulta a predileção de Clinton por conciliar. " "Os baixos salários pagos na maior parte dos países latino-americanos tendem a ser um foco de profundas divergências entre os EUA e seus vizinhos do Sul, quando se iniciarem as negociações concretas para o estabelecimento da Afta (Zona Americana de Livre Comércio, em inglês). A Afta será proposta formalmente nos dois documentos a serem assinados domingo, em Miami, pelos 34 chefes de governo dos países americanos, reunidos na chamada Cúpula das Américas, que se inicia sexta-feira. Mas, nas discussões preliminares sobre ambos os textos, a questão dos baixos salários foi uma das mais difíceis de se contornar, para se chegar a uma convergência nos documentos já prontos para a assinatura dos governantes. A tese dos norte-americanos (e também dos europeus) é a de que os salários baixos pagos em quase toda a América Latina configuram uma espécie de dumping social. O ""dumping"" convencional caracteriza-se pelo lançamento, no mercado internacional, de produtos a preço de custo ou até abaixo, para conquistar mercados. Com o baixo nível salarial dos países ao Sul do Rio Grande, cria-se, na visão norte-americana, uma concorrência desleal com a produção dos EUA, obviamente encarecida pelo fator salário. Mas os latinos, capitaneados pelo Brasil, presidente de turno do Grupo do Rio, rejeitaram a tentativa norte-americana de vincular o tema salarial à abertura comercial inerente à Afta. O argumento utilizado é o de que essa questão ainda está sendo discutida em organismos multilaterais, como o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio, a ser substituído em janeiro pela Organização Mundial de Comércio) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho). Chegou-se a uma conciliação tipicamente diplomática: o tema salários não mais figura na parte de proposições operativas do documento batizado de Plano de Ação. Mas é óbvio que a manobra serve apenas para jogar para o futuro a discussão, dado que a diferença de enfoque é bastante grande. Os EUA pretenderam vincular também o respeito ao meio ambiente como pré-condição para o livre comércio, o que foi igualmente rejeitado pelos latinos. Não que eles sejam contra o respeito ao meio ambiente (ninguém, aliás, diz que é). São contra a vinculação entre um tema e outro, porque criaria o que a diplomacia brasileira chama de neoprotecionismo. Traduzindo: a pretexto de que os baixos salários e o desrespeito ao meio ambiente representam uma concorrência desleal com a produção norte-americana, os EUA (e a Europa) poderiam impor medidas protecionistas. O Plano de Ação é o documento mais substantivo dos dois a serem assinados em Miami. O outro é uma Declaração Política, que, como tal, dá apenas as diretrizes gerais, em tom bastante genérico. Exemplo: o documento diz que os presidentes e chefes de Estado eleitos nas Américas comprometem-se a promover a prosperidade, os valores democráticos e institucionais e a segurança no hemisfério. No Plano de Ação, entram propostas de medidas concretas para que se atinjam as metas expostas no texto político. Na questão principal da reunião, a criação da Afta, o documento político limita-se a dizer que as Américas estão unidas na busca da meta de prosperidade por meio do livre mercado, da integração hemisférica e do desenvolvimento sustentado. Já o Plano de Ação deverá fixar uma data concreta (talvez 2005), não para estabelecer a Afta, mas para concluir os preparativos, a serem iniciados em 1995, com vistas à sua criação. ","As negociações para a criação da Afta entre os Estados Unidos e os seus vizinhos do Sul vêm com um impasse: Os EUA consideram que os baixos salários pagos pelos países latino-americanos constituem uma concorrência desonesta. Dada a reação dos países do Sul, os americanos tiraram a questão salário das discussões do Plano de Ação ( que contém as questões concretas sobre a negociação) . A intenção , certamente, é adiar a discussão para outro momento, e não abandonar o tema. Os americanos , também, querem vincular o respeito ao meio ambiente aos pré-requisitos do livre comércio, com o que não concordaram os parceiros. Estes vêem nas duas exigências um pretexto para futuro protecionismo , pelo lado americano e europeu, caso algum país sul-americano desrespeite uma das cláusulas. Há ainda a proposição de um outro documento a ser assinado junto com o Plano de Ação , em Miami. É uma Declaração Política , com diretrizes genéricas , pela qual os representantes eleitos se comprometem promover a prosperidade, os valores democráticos e institucionais, e a segurança no hemisfério. " "Começa hoje em Miami, costa leste dos EUA, a maior e mais importante reunião de chefes de Estado e de governo já realizada nas Américas. Até domingo, os presidentes e primeiros-ministros de 34 países do hesmisfério ocidental (todos menos Cuba) discutirão temas ligados a comércio, democracia e desenvolvimento sustentado. Espera-se que, no seu final, eles anunciem a intenção de colocar em operação até o ano de 2006 a Área de Livre Comércio das Américas (Afta, na sigla em inglês), para promover a integração comercial de toda a região. Esta é a terceira vez que líderes do continente realizam uma reunião de cúpula. As outras duas foram em 1956, na Cidade do Panamá, e em 1967, em Punta del Este, Uruguai. Mas a Cúpula das Américas em Miami é a primeira em que todos os governantes presentes foram eleitos democraticamente em seus países e também a primeira de que o Canadá participa. Cuba ausente O governo de Cuba não foi convidado pelos EUA sob a justificativa de que seu presidente, Fidel Castro, não foi eleito. Mas a questão cubana vai estar presente. Amanhã, 300 mil cubanos e seus descendentes devem fazer a Marcha pela Liberdade nas ruas principais de Miami. O presidente da Argentina, Carlos Saúl Menem, também pretende levantar o assunto de Cuba durante a reunião, embora ele não conste da agenda oficial. A idéia da Cúpula das Américas foi lançada no início do ano pelo vice-presidente dos EUA, Al Gore, durante a solenidade de ratificação do Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), na Cidade do México. A princípio desorganizada e sem pauta, a cúpula parecia destinada a ser mero exercício coletivo de relações públicas. Em especial porque os norte-americanos queriam deixar as questões comerciais fora da pauta. Pressão conjunta dos principais países da América Latina acabou forçando a inclusão dos temas de comércio na agenda do encontro. Os organizadores prometem fazer com que todas as deliberações tomadas pelos 22 presidentes e 12 primeiros-ministros em Miami sejam acompanhadas de cronograma para que possam de fato colocadas em prática. Entre as decisões a serem tomadas estão o lançamento de um esforço regional para acabar com o analfabetismo e incentivos para a participação de empresas privadas no provimento de assistência médica básica, em particular para crianças. Além disso, devem decidir por expansão do intercâmbio multinacional para a exploração dos recursos biológicos, medidas de combate ao narcotráfico e ""lavagem"" de dinheiro e desenvolvimento de esforços para prevenção de poluição. Clinton, Gore e Hillary O presidente Bill Clinton e o vice-presidente Gore chegaram ontem à noite a Miami e seu primeiro compromisso hoje será um encontro com milhares de voluntários que estão trabalhando na cúpula. A primeira-dama Hillary Clinton estará coordenando um simpósio sobre a situação das crianças nas Américas, ao qual estarão presentes as primeiras-damas do continente. O Brasil será representado pela embaixatriz em Washington, Lúcia Flecha de Lima. O primeiro governante do Exterior a chegar a Miami foi o presidente do Uruguai, Luis Alberto Lacalle, na quarta-feira. O presidente Itamar Franco deve chegar hoje às 13h. O Brasil será o único país representado por dois presidentes, Itamar e Fernando Henrique Cardoso –o qual, no entanto, do ponto de vista formal, será apenas um membro da delegação do país. Cerca de 5.000 jornalistas foram credenciados para cobrir a Cúpula das Américas (75 deles do Brasil). As reuniões de trabalho da cúpula têm início amanhã às 8h e se prolongam até a tarde de domingo. Haverá duas recepções, uma de boas-vindas, hoje à noite, e outra de gala, amanhã à noite. ","Presidentes e primeiros-ministros de 34 países do hemisfério ocidental se reunirão em Miami para discutir temas ligados a comércio, democracia e desenvolvimento sustentado, com vistas a implantar a Afta até 2006. É a terceira reunião de cúpula de lideranças do continente , da qual só não participa Cuba, que não foi convidada pelos EUA , sob o pretexto de seu presidente não ter sido eleito . Apesar disso, a questão cubana estará presente , na forma de uma passeata em Miami de 300 mil cubanos e seus descendentes, e na fala do presidente argentino, Carlos Menem. A idéia de reunião de Cúpula das Américas foi do vice norte-americano, Al Gore, e estaria fadada a um exercício diplomático, pois a questão comercial não foi inicialmente colocada em pauta. A pressão dos países da América Latina obrigou a inclusão do tema. Entre as decisões a serem deliberadas , constam : um esforço regional para eliminar o analfabetismo; incentivo a empresas privadas para subsidiar assistência médica básica , principalmente para crianças; intercâmbio multinacional para exploração de recursos biológicos; combate ao narcotráfico, à lavagem de dinheiro; prevenção da poluição. Haverá um simpósio coordenado pela primeira-dama Hillary Clinton , que tratará da situação das crianças nas Américas, com a presença das primeiras-damas do continente. Cinco mil jornalistas credenciados cobrirão o evento. " "Existem muitas maneiras de enxergar os últimos acontecimentos no México: fim de um regime ao qual a população já estava acostumada, renovação sexenal, continuidade reformadora e modernizante, perpetuação autoritária. Da análise que cada um escolher decorrerão as conclusões práticas, políticas e pessoais às quais irá chegar. Poderíamos aventar duas visões, por enquanto: uma, cética e alarmada, que detecta na conjuntura mexicana uma crise profunda, sem solução à vista. Outra que, sem negar os problemas, considera que sua solução é relativamente simples e consiste em uma tranquilizante continuidade de fundo, ajustada por mudanças isoladas: não há nada que não possa ser consertado com o tempo. Essa segunda visão é, ao que tudo indica, a que inspirou o presidente Ernesto Zedillo a formar sua equipe de colaboradores e a expor, em seu discurso de posse, no dia 1º de dezembro, seu projeto de governo para os próximos anos. Prevaleceu um enfoque ortodoxo e continuísta. Nem o gabinete, nem a mensagem foram elaborados com um sentido de ruptura com o passado: em nenhum dos dois casos pretendeu-se dar a impressão de que se parte de um senso de crise aguda. Mais além das individualidades –algumas das quais se sobressaem, enquanto outras são lamentáveis–, o gabinete de Zedillo se distingue por um sinal crucial de mudanças e um caráter continuísta e conservador que destoa dele. O elemento de mudanças é, evidentemente, a inclusão de um representante do principal partido de oposição num cargo-chave –a Procuradoria Geral da Justiça–, abrindo assim caminho para um eventual governo de coalizão, algum dia. Por mais que se diga que a indicação de Antonio Lozano não foi partidária, e sim individual, o fato é que ele faz parte do novo governo por sua militância no PAN e não por alguma capacidade individual socialmente reconhecida, embora esta possa existir. Só podemos elogiar essa nomeação e as perspectivas que ela abre para o México no médio prazo: o início do fim do monopólio do poder político por um partido. Uma andorinha não faz verão e, parafraseando Sartre, é preciso mais de um panista (político do PAN) para corrigir décadas de abuso, corrupção e violência. O restante do gabinete, infelizmente, não reflete a mesma audácia. Presidiram a sua formação os critérios que classicamente ditam a escolha das equipes governamentais no México: uma dose de lealdade à toda prova; uma pitada de amizade distante, de preferência universitária ou dos primeiros escalões do funcionalismo; várias colheradas de representação do velho governo, para que o presidente anterior não se sinta ameaçado nem rechaçado; e alguns gramas de proximidade a forças políticas excluídas, mas ainda toleradas. Em todo caso, não é um gabinete de guerra, isto é, um governo de personalidades excepcionais. Vem daí a dedução de que, já que Ernesto Zedillo poderia recorrer a esta alternativa e a descartou, ele simplesmente não a considerou imprescindível. Ele não precisa de uma equipe de emergência pela simples razão de que tal emergência não existe. Menos triunfalismo A mesma convicção parece permear o discurso inaugural do novo presidente. Ele incluiu vários trechos felizes, em particular sobre a corrupção e as fortunas que devem ser feitas fora de seu governo, não dentro dele; sobre o presidencialismo, o trato com a oposição e a necessidade de consumar a democratização; e, sobretudo, no tocante à reforma do Judiciário. Inclusive sua ênfase no combate à pobreza, apesar de ocupar lugar de destaque na liturgia das posses presidenciais mexicanas, conferiu um toque menos triunfalista do que aquele ao qual Carlos Salinas vinha acostumando os mexicanos. De modo geral, o texto de Zedillo reflete uma avaliação mais realista e até certo ponto nova da situação. Mas não foi uma grande peça oratória que tenha partido de uma análise dilacerante da realidade mexicana. O discurso de Zedillo indica problemas e aceita carências; de nenhuma maneira reflete um reconhecimento da deterioração do sistema político e da desesperança de boa parte da sociedade. Seu programa se baseia em um diagnóstico crítico, mas não terminal, do regime político sob o qual o país vive desde o final dos anos 20. Nem o levante de Chiapas, nem os assassinatos de Luis Donaldo Colosio e José Francisco Ruiz Massieu, nem o ceticismo que as eleições continuaram gerando, nem as denúncias e as lutas internas do PRI, nem mesmo, em suma, a armadilha legada por Carlos Salinas desembocaram numa visão de ruptura e transformação. O programa de Zedillo, assim como seu gabinete e os discursos de posse de todos os seus predecessores, partem do sutil e tradicional jogo de sempre entre continuidade e mudanças em que o sistema mexicano se fundamenta: muda tudo o que é secundário, para que permaneça o essencial. Provavelmente foi assim porque Zedillo e seus colaboradores não consideram que a situação exija mais. E eles podem ter razão: é uma leitura válida e verossímil dos resultados eleitorais de agosto de 1994, do triunfo esmagador e surpreendente conquistado pelo PRI nas urnas e, possivelmente, do estado de ânimo da população. É muito possível que, depois dos sustos do ano, os mexicanos anseiem por tranquilidade, segurança e o retorno à normalidade morna dos tempos passados. Se for assim, o subestimar deliberado da gravidade da crise vai render politicamente: os mexicanos agradecerão ao governo por ter desfeito o pânico que poderia ter se espalhado ao longo de 1994. Custo da vitória A outra leitura das eleições e do momento que vive o país pode resumir-se a uma metáfora histórica. Em 1918, a França, ao cabo de quatro anos de guerra, 1 milhão de mortos, o holocausto de Verdun e a quase queda de Paris na batalha da Marne, se impôs à máquina de guerra alemã. O esforço nacional, popular e das elites francesas foi extraordinário. Mas a ""sobremesa"" revelou que o custo do triunfo foi exorbitante: a Terceira República ficou exaurida. As consequência seriam medidas nos anos 30, quando a sociedade francesa revelou-se incapaz de levar a bom termo as reformas da Frente Popular, em 1936, e em 1940, quando a classe política, empresarial, militar e intelectual francesa capitulou desavergonhadamente diante dos nazistas. Ameaçado de morte em várias ocasiões este ano, o sistema político mexicano conseguiu sobreviver mediante um supremo esforço de unidade e concentração Depois da insurreição de Chiapas, dos assassinatos, das divisões, dos sequestros e das incertezas do primeiro semestre, e das previsões e fraquezas das semanas que antecederam as eleições, o aparelho, o PRI e o governo souberam se unificar e sair garbosos de um transe que até o final se supunha ser insuperável. Mas a consequência foi, como na França, excessiva: o sistema ficou exaurido. Começaram os confrontos, alguns a bala, outros à força de recriminações. A inércia se impôs e a terrível crise que o país vive oprimiu pesadamente o sistema político mexicano e o PRI. Após sua vitória veio o colapso interno: esgotaram-se as forças que lhe davam vida. Se consideramos válida esta hipótese, a serenidade de Zedillo, de seu discurso e de sua equipe não emanariam de uma análise fria da realidade mexicana. Viria da impossibilidade de agir de outra forma e do esgotamento. Neste caso, a intenção do novo governo de gerar uma sensação de serenidade será frustrada, em pouco tempo, pelos efeitos da crise: novas surpresas e golpes abalarão, daqui a muito pouco tempo, a calmaria que hoje impera. O fato de ter feito da necessidade uma virtude não beneficiará muito a Zedillo: teria sido preferível alarmar os mexicanos a tranquilizá-los. Os próximos dias e meses dirão qual foi a visão acertada: a da crise light ou a de la France éternelle, prostrada por seus mortos em Verdun. JORGE CASTAÑEDA, 39, sociólogo e economista mexicano, é professor visitante da Universidade de Princeton (EUA) e catedrático da Universidade Autônoma do México (Unam). ","A observação da realidade mexicana atual, após tão longa dominação do partido PRI, permite duas análises: uma pessimista , que vê uma crise profunda ; e outra otimista , que, apesar de não negar os problemas, vê soluções para eles sem ser preciso mexer nas estruturas básicas. . A escolha de colaboradores feita pelo novo presidente eleito, Ernesto Zedillo, está de acordo com a segunda visão. O único representante que acena para mudanças é o Procurador Geral da Justiça, Antonio Lozano, do partido da oposição (PAN). Mesmo assim, escolhido como possível necessidade de aliança política futura. O restante foi indicado segundo tradicionais formas entre os eleitos pelo PRI: uma dose de lealdade a toda prova; amizade distante; preferência universitária ou dos primeiros escalões do funcionalismo; representação do governo anterior ,e um pouco de forças políticas excluídas, mas toleradas. Talvez o ministério escolhido esteja adequado a um momento de susto e intranqüilidade da população, que viveu o levante de Chiapas, os assassinatos de Luis Donaldo Colosio e José Francisco Ruiz Massieu . O programa do novo governo, certamente, está mais voltado para acertos secundários do que para mudanças na essência. Foi com essa mornidade que o PRI sempre governou. É até possível que o povo se contente com as reformas periféricas que amenizem a fome , a miséria---sem resolvê-las--- , mas que restaurem a tranqüilidade. A história tem mostrado que um esforço ingente para subverter estruturas continuístas de privilégios tem um preço elevado e exaustivo. Mas , por outro lado, os remendos deixam aberta a possibilidade próxima de explosão das crises. A eleição de 1994 permitirá , em breve, ver qual caminho percorrerá o povo mexicano. " "Por exigência da editora, as livrarias sul-africanas só começaram a vender no final da tarde de ontem ""Longa Caminhada para a Liberdade"" (Macdonald Purnell, 630 págs., R$ 20), a autobiografia de Nelson Mandela. Não foi a única exigência voltada a ampliar o impacto de uma obra que, sem publicidade, já tem garantia de vendas por retratar a vida de um dos políticos mais importantes da atualidade. Em entrevista anteontem à rádio 702, a mais ouvida de Johannesburgo, Mandela afirmou que teve que ""lutar muito"" com a editora americana para que o livro mantivesse suas características originais. Apesar disso, ele acabou aceitando ""personalizar"" o livro, que é narrado na primeira pessoa. ""Isso foi feito para agradar o enorme público leitor dos EUA e contrariou, de certa forma, a idéia incial de que o livro deveria ser um registro histórico"", afirmou. Mas essa declaração apenas se soma aos 115 capítulos do livro para demonstrar uma das características mais marcantes do presidente sul-africano: a humildade. Mandela diz que sua politização não se deu de repente: ""O acúmulo de mil desfeitas, mil indignidades e mil momentos foram produzindo uma raiva, uma rebeldia, um desejo de lutar contra o sistema que aprisionou meu povo"". Após 27 anos de prisão, Mandela liderou uma transição que muitos julgavam impossível: a tomada do poder sul-africano pelos negros. Mandela disse na entrevista que quer ""ser considerado um santo, se por santo entendemos um pecador que continua tentando"". E pediu paciência à população para as mudanças que ainda estão por vir. O livro foi escrito em colaboração com o editor Richard Stengel, que acompanhou Mandela desde sua libertação em 1990. Apesar dos valores liberais da universidade, eu nunca me senti totalmente confortável lá. Sempre ser o único africano, além dos empregados, ser considerado na pior das hipóteses uma curiosidade e na pior como um intruso, não é uma experiência agradável. (...) Wits abriu um novo mundo para mim, um mundo de idéias e crenças e debates políticos, um mundo onde as pessoas eram passionais sobre política. Eu estava entre intelectuais brancos e indianos da minha própria geração, jovens que formariam a vanguarda dos mais importantes movimentos políticos dos anos seguintes. Descobri pela primeira vez pessoas da minha idade firmemente alinhadas com a luta pela libertação, que estavam preparadas para se sacrificar pela causa dos oprimidos. Logo depois do amanhecer do dia 5 de dezembro de 1956, eu fui despertado por uma forte batida na porta. Nenhum vizinho ou amigo bate na porta de um jeito tão peremptório e eu sabia imediatamente que era a polícia de segurança. Eu me vesti rapidamente e encontrei o chefe de polícia Rousseau, um oficial da segurança que era conhecido na área, e dois policiais. Ele apresentou um mandado de busca, quando os três imediatamente começaram a revistar toda a casa procurando por jornais ou documentos incriminatórios.(...) Depois de 45 minutos, Rousseau de fato disse: 'Mandela, nós temos uma ordem judicial para prendê-lo. Venha comigo.' Eu olhei para a ordem e as palavras saltaram: ALTA TRAIÇÃO. O maior acontecimento do país em 1958 eram as eleições gerais –'gerais' apenas no sentido de que 3 milhões podiam participar, mas nenhum dos 13 milhões de africanos. Debatemos sobre realizar ou não um protesto. Uma eleição em que apenas brancos podiam participar fazia diferença para os africanos? A resposta, no que dizia respeito ao CNA, era de que não podíamos ficar indiferentes mesmo quando éramos deixados de fora. Nós estávamos excluídos, mas não insensíveis: a derrota do Partido Nacional seria do nosso interesse e de todos os africanos. Em 1969, chegou um jovem carcereiro, que parecia particularmente ansioso em me conhecer. Eu tinha ouvido rumores de que nosso pessoal do lado de fora estava organizando uma fuga para mim e tinha infiltrado um carcereiro na ilha que iria me ajudar. Gradualmente, esse homem me informou que estava planejando a minha fuga. Ouvi o plano inteiro e não revelei a ele como soou sem confiança. Eu consultei Walter e nós concordamos que este homem não merecia confiança. Nunca disse a ele que eu não faria, mas nunca tomei nenhuma das ações exigidas para implementar o plano. Ele deve ter entendido o recado porque foi logo transferido para fora da ilha. Minha desconfiança era justificada porque ficamos sabendo que o carcereiro era agente da Boss, agência de inteligência secreta da África do Sul. Eu acordei no dia da minha libertação depois de poucas horas de sono, às 4h30. Onze de fevereiro era um dia sem nuvens, de fim de verão, na Cidade do Cabo. Eu fiz uma versão reduzida dos meus exercícios usuais para regime, me lavei e tomei o café da manhã. (...) Eu estava espantado e um pouco assustado. Não esperava uma cena como aquela –no máximo, eu tinha imaginado que haveria algumas dúzias de pessoas, principalmente os carcereiros e suas famílias. Mas isso provou ser apenas o começo. Percebi que nós não tínhamos nos preparado totalmente para o que estava para acontecer. ","O lançamento da autobiografia de Nelson Mandela ,”Longa Caminhada para a Liberdade”, mesmo sem propaganda, trazia a expectativa de recorde de venda, dada a importância do líder biografado. O autor, entrevistado, disse que preferia manter um tom de impessoalidade , para retratar com isenção um momento histórico, mas o fez em primeira pessoa “para agradar o enorme público dos EUA”, segundo declarou. Para ele , a própria formação política se alicerçou nos múltiplos sofrimentos, humilhações, que acrisolaram uma rebeldia capaz de se exteriorizar em luta contra o sistema. Vinte e sete anos de prisão foram uma escola para o líder , que posteriormente comandou a devolução do poder aos negros. Na entrevista , ele pediu paciência à população para aguardar as mudanças que ainda viriam. Falou de sua experiência na universidade , que, apesar de cultivar valores liberais, não era o habitat em que se via à vontade: sentia-se, às vezes, um objeto de curiosidade, um intruso. No entanto, foi uma oportunidade de abertura para o mundo das idéias essa convivência com jovens intelectuais brancos e indianos, dispostos a lutar pela libertação. Seu aprisionamento em dezembro de 1956 veio de forma arbitrária por intermédio de uma ordem , que falava de “alta traição”. Na prisão, assistiu às eleições “gerais”, das quais somente participaram 3 milhões de brancos. Em 1969, chegou um jovem carcereiro, que supostamente facilitaria sua fuga. Mas sua intuição lhe dizia que era um traidor: de fato, pertencia à inteligência secreta da África do Sul . Na entrevista, falou também do dia de sua libertação, em que estava espantado e um pouco assustado. " "A economia mundial continuará crescendo tanto no ano que vem como até o final do século, mas terá que conviver com ""alto desemprego"", diz o relatório de final de ano da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, o clube dos 25 países mais industrializados do mundo). Idêntica avaliação, tanto sobre crescimento como sobre problemas de emprego, vale para a economia latino-americana, conforme relatório da Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina, organismo das Nações Unidas (leia texto abaixo). O tamanho do problema do desemprego pode ser mais corretamente aferido pelas previsões divulgadas pela OCDE. Embora a perspectiva seja a de que as economias de seus 25 membros entrem no próximo século com um crescimento médio de 3% do Produto Interno Bruto, o desemprego ainda estará, na média, em torno de 7% da força de trabalho. Para comparação: o desemprego dos 25 da OCDE, ao terminar 94, é de 8,2% de sua população economicamente ativa. Ou seja, apesar de um crescimento vigoroso nos próximos cinco anos, o desemprego cairá apenas 1,2 ponto percentual. No curto prazo, a situação do emprego é ainda mais complicada: a redução no percentual de desempregados, entre 94 e 96, será de magro 0,5 ponto percentual, apesar dos dois anos de crescimento previstos. Regiões Os ciclos econômicos, sempre de acordo com a OCDE, serão diferentes nas quatro principais áreas do planeta. Os Estados Unidos parecem ter atingido o pico de sua ascensão, com o crescimento de 3,9% esperado para 94. No ano que vem, o crescimento cai para 3,1%. Já o Japão atinge o pico em 96, com 3,4%, após pular de 1% este ano para 2,5% em 95. A Europa, ao contrário, mantém um ritmo constante: 2,3% em 94, 3% em 95 e 3,2% no ano seguinte. Por fim, os chamados ""tigres asiáticos"", o grande motor de crescimento econômico nos últimos anos, continuarão com ""nível quente"" de expansão, mas, de todo modo, levemente inferior ao registrado atualmente. Cairão dos 7,6% deste ano para 7,2% em 1995. A China, que luta para frear seu crescimento de 11,5% em 94, chegará em 96 ao patamar dos 9,5%. Também os países do Leste europeu têm perspectivas diferentes no futuro imediato. Três deles (Polônia, República Tcheca e Eslováquia) crescerão entre 3% e 4%, mas Bulgária, Hungria e Romênia ficarão abaixo desse percentual. O desemprego em 96 na região estará entre 4,5% na República Tcheca e 17% na Bulgária. Otimismo O relatório afirma que ""as perspectivas econômicas para a área da OCDE no presente são melhores do que têm sido por muitos anos"". Melhores, inclusive, no que diz respeito à inflação, que se manterá sob controle até o final do século. A previsão é a de que a média da inflação nos 25 países da OCDE esteja no patamar de 2,5% (anual) no ano 2000. Além do desemprego, a única outra má notícia no relatório diz respeito aos déficits orçamentários, que continuarão elevados. A perspectiva é de que o mundo rico entre no ano 2000 com déficit médio na faixa de 1,75% de seu PIB (Produto Interno Bruto, medida da renda nacional). ","O relatório do OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) , clube dos 25 países industrializados do mundo, mostra uma contradição do mundo econômico neste final de século XX: continuará o crescimento econômico , mas com alto desemprego. O mesmo acontecerá com a América Latina , segundo relatório do Cepal. A perspectiva de crescimento médio dos países membros do OCDE é 3% no início do século XXI, contra um desemprego médio de 7% , aproximadamente. Não há paralelismo conforme se esperaria. Comparado o nível de crescimento nas quatro principais áreas do planeta, há diferenças consideráveis: nos EUA , o pico é de 3,9% em 94; o Japão atinge ,em 96 , o pico de 3,4% ; na Europa , há um crescendo que vai de 2,3% em 94 até 3,2% em 96; os “tigres asiáticos”, mesmo com ligeiro declínio, atingirão 7,2% em 95; a China, lutando para frear a economia, descerá a 9,5% em 96; e nos países do Leste Europeu , o crescimento ficará entre 3% e 4% , e menos em alguns. O relatório do OCDE é otimista, inclusive quanto à inflação , que se manterá sob controle até o fim do século---2,5% no ano 2000. O lado ruim fica por conta do desemprego e dos déficits orçamentários, que continuam altos." "O Parlamento italiano começou ontem a discutir o futuro do governo liderado pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Em seu discurso, o premiê disse que a convocação de eleições antecipadas é o caminho ""obrigatório"" caso a coalizão perca a maioria. No discurso de 26 minutos, o empresário e primeiro-ministro atacou duramente Umberto Bossi, a quem chamou de ""renegado"". Bossi lidera a federalista Liga Norte, partido que integra a coalizão Pólo da Liberdade e do Bom Governo, mas apresentou moção de desconfiança contra o governo. Na resposta, Bossi oficializou o rompimento de seu partido com o governo e disse que a liga tem o dever de ""pôr fim à Primeira República italiana"". ""Senhor Berlusconi, senhor Fini, esta Câmara não será mais a câmara dos fascistas e das corporações"", disse o líder federalista. Primeira República é a expressão utilizada para designar o regime implantado após a Segunda Guerra. Gianfranco Fini lidera a neofascista Aliança Nacional, maior partido da coalizão. Caso os partidos de oposição e a liga votem unidas, a moção de desconfiança será aprovada. Neste caso um novo governo será formado, com ou sem a convocação de eleições parlamentares. A moção da Liga Norte foi apresentada juntamente com o Partido Popular Italiano (ex-Democracia Cristã). Além deles, apresentaram moções os dois sucessores do Partido Comunista Italiano –Partido Democrático de Esquerda e Refundação Comunista. Depois do discurso, Berlusconi disse que esperaria o rumo dos debates, que podem durar dois dias, para decidir seu futuro. Segundo Cesare Previtti, ministro da Defesa e coordenador do partido de Berlusconi, o primeiro-ministro vai renunciar antes de a confiança em seu governo ser submetida ao Parlamento. O coordenador da Força Itália disse que Berlusconi marcou uma reunião com o presidente Oscar Scalfaro para hoje, mas não disse se seria pela manhã ou à tarde. Caso o premiê renuncie caberá ao presidente escolher um novo chefe de governo ou convocar eleições. Scalfaro poderá indicar o próprio Berlusconi para premiê. Para Gianfranco Fini, o governo Berlusconi já acabou. ""Todo mundo sabe que isso vai acabar com um governo que já não existe"". A tensão política na Itália ficou demonstrada na sessão parlamentar de hoje, interrompida várias vezes para discutir sua transmissão ou não pela televisão. As interrupções levaram a presidente da casa, Irene Pivetti, a suspender a sessão três vezes e a expulsar o deputado governista Gian Piero Broglia do plenário. No final, a sessão foi transmitida por um canal da rede estatal RAI e por uma televisão privada. O premiê de 58 anos disse em seu discurso que as três moções de censura apresentadas são uma ""zombaria"" com e uma fraude contra os eleitores. Segundo Berlusconi, Bossi pôs à prova a paciência dos italianos que trabalham e ""se viram bombardeados por insultos, acusações caluniosas, mentiras e discursos pouco construtivos"". ""Sabemos que durante esses longos sete meses de governo foi preparado o terreno para a ofensiva final, o grande roubo eleitoral"". Berlusconi acusou Bossi de pôr em perigo a ""credibilidade da lira italiana e dos títulos do Estado nos mercados internacionais"". O premiê também tentou uma análise psicológica de Bossi: ""Seu caráter tosco e populista, que em certa fase da vida italiana parecia um elemento de claridade ante a obscuridade da vida política, se ligou à lógica partidária e facciosa do subterfúgio e da ilusão"". Aliado de Berlusconi na eleição que levou o empresário à chefia do governo italiano, Bossi reagiu ao discurso afirmando que seu partido havia esperado até o momento certa para tentar derrubar o governo. A federalista Liga Norte acusa o governo de não ter cumprido seu compromisso eleitoral de aumentar a autonomia das regiões. No discurso de ontem, Berlusconi reagiu a essas acusações e disse que o Ministério das Finanças estava trabalhando num projeto de ""federalismo fiscal"", enquanto o líder da liga insiste num ""federalismo exclusivamente verbal"". ","O Parlamento italiano pôs em discussão o futuro do governo liderado pelo primeiro-ministro Sílvio Berlusconi. Segundo o premiê, a convocação de eleições antecipadas é o caminho , se a coalizão perder a maioria. Bossi, que lidera a federalista Liga Norte, um dos partidos da coalizão, apresentou moção de desconfiança contra o governo. Se os partidos de oposição apoiarem, a moção será aprovada. Apesar de ter reagido duramente, o premiê teme essa possibilidade e, segundo o ministro da Defesa, Cesare Previtti, vai renunciar antes de ela ser submetida ao Parlamento. Se isso se confirmar , caberá ao presidente escolher um novo chefe de governo, que poderá ser o próprio Berlusconi. Obviamente, ficou tenso o clima político na Itália, expresso na sessão parlamentar de hoje. Obrigou a presidente da casa a expulsar o deputado governista Gian Piero Broglia do plenário. No seu discurso, Berlusconi desanda contra Bossi , acusa-o de pôr à prova a paciência dos italianos e considera as moções de censura uma fraude contra os eleitores. Bossi, aliado que ajudou a levar Berlusconi ao poder, reagiu dizendo que o seu partido só estava esperando o momento adequado para derrubar o governo. " "Quatro terroristas morreram e 25 pessoas ficaram feridas na operação policial que pôs fim a 54 horas de sequestro de um avião da Air France, no aeroporto de Marselha (França), em Marignane. Um grupo de elite da polícia invadiu o aparelho no fim da tarde de ontem e matou todos os sequestradores. Estes haviam assassinado três reféns no aeroporto de Argel, onde o sequestro começara. O Grupo Islâmico Armado (GIA), formado por radicais muçulmanos que combatem o governo argelino e pregam um regime fundamentalista semelhante ao do Irã, reivindicou a autoria. Estavam no Airbus, no instante do desfecho, cerca de 170 pessoas. Já haviam sido soltos 65 reféns. Treze passageiros, três tripulantes e nove policiais foram feridos no resgate, segundo o Ministério do Interior francês, que considerou a operação um sucesso. O ministro das Relações Exteriores da França, Alain Juppé, disse que a violência civil na Argélia vai durar muito tempo e que ataques contra interesses franceses ainda vão ocorrer. Um policial perdeu uma das mãos. Dois dos passageiros feridos teriam sido baleados. O GIA, que combate o governo argelino, afirmou que o sequestro visava acabar com o apoio ""incondicional, político, militar e econômico"" da França a Argel. O GIGN (Grupo de Intervenção da Polícia Nacional), especializado em situações do gênero, iniciou o resgate às 17h15 (14h15 em Brasília), pouco antes do anoitecer. Membros do GIGN entraram por várias portas do avião. Ouviram-se tiros e explosões por alguns minutos. Parte dos passageiros pôde escapar do aparelho pelos tobogãs de emergência. Um membro da tripulação saltou da cabine do piloto e quebrou o braço na queda. ""Os sequestradores tinham dinamite e queriam explodir o avião"", disse um refém, o cantor Ferhat Mehenni, 51, inimigo dos radicais muçulmanos. ""Era impossível deixar o avião decolar"", explicou Hubert Blanc, chefe da polícia de Marselha. O sequestro O avião ia decolar de Argel às 11h15 de sábado (8h15 em Brasília), com destino a Paris, quando foi tomado por quatro homens vestidos como o pessoal do aeroporto. Eles começaram a controlar os passaportes dos passageiros, que não desconfiavam de nada. Em seguida, levaram à porta do avião um policial argelino e um diplomata vietnamita, mortos com uma bala na cabeça cada um. Os sequestradores obrigaram as mulheres a cobrir o rosto à maneira islâmica e, por rádio, revelaram suas reivindicações. A principal delas era a libertação de dois ex-líderes da FIS (Frente Islâmica de Salvação), Abassi Madani e Ali Benhadj, em prisão domiciliar. Os terroristas também queriam ir para a França. Em grupos pequenos, foram libertados 63 passageiros. O governo argelino assegurou à França –cerca de 40 passageiros eram franceses– que conseguiria resolver o problema. Mas, à noite, um refém francês foi assassinado: Yannick Beugnet, cozinheiro da embaixada francesa. O corpo foi jogado do avião. O crime irritou o governo francês, que decidiu resolver o problema por conta própria e pressionou Argel a permitir a decolagem do avião. Ele chegou a Marselha às 3h33 de ontem (0h33 em Brasília). À tarde, dois reféns foram soltos. Os terroristas pediram o reabastecimento do avião, provavelmente para ir a Paris, ao Sudão ou ao Irã. Eles ameaçaram matar mais um refém, caso essa reivindicação não fosse atendida. Às 17h, ouviram-se tiros. Aparentemente, os sequestradores dispararam na direção da torre de controle do aeroporto, onde haveria atiradores de elite. A operação de resgate começou logo em seguida. Durante toda a fase de negociações no aeroporto de Marselha, o resgate pelos policiais do GIGN vinha sendo planejado. Segundo as autoridades francesas, no entanto, o plano era intervir apenas caso houvesse risco de vida iminente para um dos reféns. ","O GIA ( Grupo Islâmico Armado), que combate o governo argelino, seqüestrou em Argel um avião da Air France, com destino a Paris. O grupo luta , entre outras coisas, pelo fim do apoio incondicional dos franceses ao governo da Argélia. O principal objetivo do seqüestro era a libertação de dois ex-líderes da FIS ( Frente Islâmica de Salvação) . Os seqüestradores, logo de início, mataram um policial argelino e um diplomata vietnamita. Durante as demoradas negociações , foram libertados 63 passageiros; mas o impasse provocou o assassinato de mais um , cozinheiro da embaixada francesa. Foi a gota d’ água para que o governo francês pressionasse Argel a liberar o vôo. Em Marselha , os terroristas queriam que o governo francês reabastecesse o avião . Enquanto negociavam, sob ameaças, o GIGN (Grupo de Intervenção da Polícia Nacional) , especializado em missões do gênero, iniciou o resgate. Muitos passageiros escaparam pelos tobogãs de emergência, mas houve vários feridos, tanto de passageiros quanto de policiais e de tripulantes. Com esse saldo e quatro terroristas mortos , o Ministério do Interior francês considerou um sucesso a operação. " "A saída de Fernando Henrique Cardoso do Ministério da Fazenda talvez facilite, paradoxalmente, a compreensão do que vem a ser afinal uma política econômica entendida como ""processo"", tanto no bom quanto no mau sentido. É positiva, por exemplo, uma política econômica que tem como horizonte o próprio mercado e seu funcionamento natural, que rejeita saídas milagrosas e imediatistas maculadas pelo arbítrio do intervencionismo estatal. É entretanto ao mesmo tempo negativo que seus efeitos demorem a aparecer. Tanto é assim que, dez meses depois da sua posse, Fernando Henrique Cardoso deixa o ministério e parte para a corrida presidencial sem poder exibir resultados animadores. Ao longo de sua gestão, de fato, a inflação não parou de subir –saltou na verdade para patamares ainda mais inquietantes–, a atividade econômica patinou rumo à desaceleração e o Estado brasileiro continuou obeso e ineficiente. A insistência e a promessa, mantidas até o final, de que não haveria surpresas e muito menos congelamentos devem ser comemoradas como um amadurecimento do Estado e da sociedade brasileira. Essa é a face mais claramente positiva do ""processo"": não apostar em medidas unilaterais como solução duradoura de problemas econômicos. Sabe-se que toda redução abrupta e violenta da inflação, a chamada ""paulada"" que o ministro Fernando Henrique afinal não deu, se desacompanhada de mudanças estruturais, tem vida curta. Comemore-se a resistência do ministro à tentação de uma paulada inconsequente. Lamente-se o pouco que se avançou na reforma tributária, na privatização, na reforma da legislação trabalhista e previdenciária, além do patético ""grand finale"" de um ajuste fiscal de emergência que, como sempre, valeu-se da elevação casuística da carga tributária. O próprio FHC pode, agora no Congresso, dedicar todas as suas energias a ressuscitar a revisão constitucional. Seria uma forma de dar continuidade à qualidade que o notabilizou: a mudança negociada de regras econômicas. A migração definitiva para uma nova moeda depende ainda da confiança dos agentes na viabilidade de reformar o Estado, o que, por sua vez, está condicionado a mudanças na Constitução. Sem essa confiança, a URV terá apenas deixado a economia ainda mais indexada. Para derrubar a inflação, e mantê-la baixa, o governo deverá gastar somente o que arrecada e a empresa tirar da eficiência produtiva o motor de seu desenvolvimento. Os ganhos financeiros que muitas vezes camuflam a ineficiência de uma empresa nada mais são que a outra face de um governo que precisa financiar-se continuamente em mercados de curtíssimo prazo, pagando juros elevadíssimos. Para que a economia volte a fazer sentido como algo real é preciso que, ao mesmo tempo, o governo seja capaz de cumprir suas funções sem endividar-se mais e as empresas sejam capazes também de cumprir as suas, sem precisar da inflação e da ciranda financeira. Os trabalhadores, nesse processo, foram os únicos a engolir a URV a seco e, agora, começam a ser pagos nessa nova quase-moeda. Também terão um desafio a enfrentar, o de negociar organizada e livremente seus rendimentos levando em conta a realidade, ou seja, a produtividade e as perspectivas do setor econômico em que se encontram. Finalmente os bancos, que sempre puderam tirar o melhor proveito da ciranda financeira, terão também sua hora da verdade. Em vez do ganho automático e inevitável com a intermediação da dívida pública, cada banco deverá recuperar sua sensibilidade para a economia real, para as atividades de crédito e de intermediação de capitais. Mas ainda que bancos, empresas e trabalhadores estejam dispostos a enfrentar esses desafios, o esforço terá sido totalmente em vão se a criação da nova moeda não passar de mais uma pirotecnia, sem a reforma do Estado que afinal foi, até mesmo pelo ministro FHC, adiada. Se houver disposição política para um ajuste autêntico do setor público, então a política econômica negociada por Fernando Henrique Cardoso irá consumar-se com a eliminação da superinflação. A passagem de FHC pela pasta da Fazenda terá feito sentido unicamente se se efetivar o processo de reforma do Estado, apenas iniciado, e se tiver servido para despertar na sociedade a consciência de que a estabilidade é um desafio permanente de todos e não o efeito mágico de uma ""paulada"". ","A compreensão do seja uma verdadeira política econômica é que dá fundamento ao desenvolvimento sustentável. É necessário que governo, setores produtivos e financeiros cumpram sua parte , conscientes de que o privilégio de um prejudica o conjunto. Também não se pode apostar em soluções miraculosas. A gestão de Fernando Henrique no Ministério da Fazenda cumpriu essa parte. Por outro lado, não avançou muito nas mudanças estruturais , que é a parte do Estado para um desenvolvimento equilibrado. A transição para uma nova moeda que ele comandou dependerá da confiança nas medidas tomadas para reformar o Estado. A derrubada da inflação e a sua permanência em baixa , por exemplo, supõem que o Estado não gaste mais do que arrecada , e as empresas sejam bastante eficientes para não apresentarem lucros camuflados. Por sua vez , os bancos têm que abandonar a idéia de lucro com base na ciranda financeira; precisam ter as vistas voltadas para a economia real. A negociação equilibrada e consciente dos três componentes e o dever de casa cumprido por cada um é que darão estabilidade ao processo , sem que o povo seja o único a pagar o pato. " "O sentimento geral é de que o neoliberalismo como parecia, como panacéia, está fazendo água. ""Nem tanto ao mar, nem tanto a terra"", como nos ensinaram os velhos brocardos portugueses que aqui chegaram no bojo das caravelas, isto é, sofrendo as agruras do oceano. Há resultados, mas também há fracassos. A verdade é que o sonho de uma avassaladora onda de prosperidade e de paz, depois do fim da URSS e do desmoronamento do mundo do Leste, não se concretizou. As palavras ""revolução"" e ""revolta"" não morreram, e os problemas da paz, simplificados no tempo da confrontação, estão mais complexos e mais voláteis. Há uma incipiente tendência armamentista na Ásia que aflora no aumento substancial do orçamento militar japonês, a China equipa-se como potência naval e na Coréia ressurge a ameaça nuclear. Acabou-se a era da teorização sobre a grande fase de paz e de prosperidade que todos sonhamos. A cruel realidade se impõe mais forte que o sonho. Buscavam-se outras teorias para explicar os fracassos. A desculpa é que o mal é estrutural, vem da sociedade industrial! Descobre-se (grande novidade!) que a automação libera mão-de-obra e o desemprego tende a aumentar cada vez mais. Que fazer? Buscar fórmulas novas. Diminuir horas de trabalho (!), rever os sistemas de previdência, todos quebrados, reciclar trabalhadores, reeducar desempregados, enfim, sempre termos teóricos. A verdade é que não é o tamanho do Estado que se deve medir, é a qualidade do Estado. Este não é mais o grande vilão do ano 90 –pós-queda do Muro de Berlim– mas um mal necessário que deve ser forte e eficiente. O mercado, o Deus do novo tempo, mostra que ele resolve muitas coisas, mas não resolve tudo. Em tudo, para parte da população mais nobre, é tudo mesmo: assistência médica, educação, saneamento, infra-estrutura, segurança, moradia, cultura, lazer. As privatizações não andam tão bem, em todo lugar, como se prega. A onda maior é no mundo do Leste e, é claro, lá, até a florista era do Estado... A senhora Thatcher não disse no Brasil que apesar da sua determinação e esforço, só conseguiu privatizar 20% das empresas? O grande perigo da privatização é não ser feita com o acoplamento de uma política industrial. Privatizar não pode ser dilapidar bens públicos na ""bacia das almas"". Considero o exemplo francês e o mexicano os melhores. Lá a coisa foi feita com critério e deu certo. O nosso grande problema é a Constituição. Ela é estatizante onde o Estado não devia estar. Ela é demagógica onde o governo devia ser eficiente. Ela é contraditória, híbrida, cobra de duas cabeças, dividida entre práticas parlamentaristas e governo presidencialista. E o país? A classe política? Atônita e nos anos 50, numa mistura de populismo, marxismo, demagogia e indisciplina. E as famosas elites? Estas vão bem, obrigado, querendo fazer política sem políticos, democracia sem instituições e economia de mercado sem livre concorrência. ","O neoliberalismo veio com a auréola de solução para todos os males. Os países que cumprissem a agenda de privatização estariam contribuindo para a nova era de prosperidade e paz. Esse novo período, inaugurado com a queda da URSS, não se mostrou nem tão saneador , nem tão pacífico. Desabrocham núcleos de violência em vários lugares, com o aumento de preparativos bélicos. As explicações dadas para os fracassos de uma época se equivalem às sugestões apresentadas para uma outra. A entrega das soluções ao mercado não é uma boa medida, principalmente para as classes menos favorecidas, que continuam com os problemas de assistência médica, educação, saneamento, segurança, moradia, cultura , lazer. A questão não é anular o Estado, mas melhorar sua qualificação. Os países do Primeiro Mundo , que vendem para os do Terceiro a idéia de privatização , não a implementaram com mesma intensidade. Para as elites , trata-se de mais uma ideologia que cumpre a tarefa de manter o status quo. " "O compromisso do cristão é de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Jesus nos ensinou. Através das semanas da quaresma, viemos caminhando até a Páscoa, a festa da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Agora, tudo nos fala de ""vida nova"" que nos vem da ressurreição de Cristo. Páscoa é esperança, certeza de que com a morte não terminará a nossa existência. Somos chamados a participar para sempre, pela misericórdia de Deus, da ressurreição de Jesus. Daí nasce a alegria profunda em nossos corações. Nada pode destruir a confiança, que Deus infunde em nosso íntimo, de que nos destina à felicidade na comunhão plena com ele e os irmãos. No entanto, Deus nos mantém ainda nesta terra por um tempo que pode durar muitos anos. De nós deseja o testemunho dos valores cristãos na construção de uma sociedade justa e solidária. A Páscoa não nos deixa desanimar diante da tarefa de vencermos o mal, o ódio, a ganância, a sede desenfreada de prazer e toda forma de pecado. A esperança começa agora, em nossa vida e na missão de comunicar aos outros a vitória de Cristo. Faz parte desta missão o direito e o dever de procurarmos a concórdia, a justiça social e a promoção integral de cada pessoa humana. Aproximam-se no Brasil as eleições. Começa a apresentação de programas pelos partidos e de candidatos aos vários cargos de governo. Qual deve ser a expressão de nossa cidadania, à luz dos valores cristãos? Requer-se a análise das propostas dos partidos e candidatos. Precisamos, também, oferecer os valores cristãos para que possam beneficiar a sociedade. Quais são estes valores? A honestidade, a justiça, a paz e a promoção do bem comum que a todos deveriam atrair. Para o cristão tem como fundamento o amor gratuito e universal que Jesus nos ensina. Assim, na base da justiça social deve estar o amor que leva ao apreço e respeito a toda pessoa humana, sem discriminações de classe, raça e origem. O cristão, a exemplo de Jesus, precisa ainda assegurar a solicitude pelos mais carentes, no anseio de a eles oferecer condições dignas de vida, reduzindo as distâncias que separam ricos e pobres, até chegarmos a uma vivência verdadeira da fraternidade. Sem esta atenção maior aos carentes, partidos e candidatos poderão, ao melhorar os resultados econômicos, agravar, no entanto, a brecha entre pobres e ricos, resvalando na tentação de eliminar os excluídos, sejam eles nascituros ou sofredores de rua. À luz da Páscoa de Jesus, o compromisso político do cristão expressa nosso dever para com um novo tipo de sociedade solidária, empenhados em promover a felicidade de cada irmão, sem excluir ninguém. A esperança é para todos. A ressurreição de Cristo ilumina toda nossa vida e até o discernimento sobre nossa participação política. Torna-se mais forte o dever da oração pessoal e comunitária. Vamos, nesta Páscoa, atrair as bênçãos de Deus sobre nosso povo e nossos governantes na delicada situação política que atravessamos. ","Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo são dois mandamentos fundamentais para o cristão. A festa da Páscoa , que agora comemoramos, nos acena com um vida nova de superação do pecado e da morte. Isso é motivo de alegria . No plano terreno, é um apelo à solidariedade com o próximo, a fim de que a exultação religiosa não fique no discurso, ou numa transcendência que desconhece as necessidades humanas. O reconhecimento de que existem injustiças sociais faz parte da essência dos valores cristãos. E participar de sua solução sem olhar classe, raça e origem é apreender bem a mensagem do Cristo. E com a aproximação das eleições, essa coerência cristã deve ajudar o eleitor na análise das propostas dos candidatos e interferir na seleção deles. " "No passado, o Brasil parava antes do Natal e só recomeçava depois do Ano Novo. Mais tarde, a retomada passou para o Carnaval. Agora é após a Páscoa. Logo logo, vai ficar para depois da Copa do Mundo. Com um agravante: se vencermos, serão mais uns dez ou 15 dias para as celebrações e comentários; se perdermos, outros tantos para amargar a derrota e fazer as críticas. E assim vai. Depois da Copa, virão as supereleições –em dois turnos–, o que, na prática, ""mata"" setembro, outubro e novembro. E aí, chega outra vez a hora de nos prepararmos para as festas de Natal e Ano Bom, pois ninguém é de ferro... Para quem não gosta de trabalhar, este ano de 1994 é um prato cheio. Ele reúne, num só tempo, as melhores justificativas para adiar tudo para 1995 –e olhe lá... A revisão constitucional está nesse ritmo. Raramente há quórum e, quando isso acontece, falta a vontade de votar. Bem diferente foi a conduta do deputado William Natcher, falecido na semana passada. Durante 40 anos de mandatos consecutivos, ele não faltou uma única vez às sessões do Congresso dos Estados Unidos. O mais interessante é que o deputado Natcher conseguiu se reeleger, repetidas vezes, desde 1953, visitando muito pouco as suas ""bases"" –no Estado de Kentucky– e gastando a irrisória quantia de US$ 10 mil por campanha. Com isso, ele provou que as tais bases gostam de ver os seus representantes trabalhando em benefício da coletividade lá no Congresso, não havendo a menor justificativa para faltarem ao seu trabalho. Uma vez presentes, ativos e atuantes, o reconhecimento é imediato. A reeleição é garantida. E com pouco dinheiro. É o triunfo dos que fazem sobre aqueles que falam. A maioria dos nossos parlamentares está demonstrando não querer a revisão constitucional. Para eles, os problemas da pátria não merecem regime de urgência. Só os pessoais. Se quisessem tudo seria votado rapidamente –como o fizeram na aprovação do aumento de seus vencimentos. Os interesses pessoais falam mais alto do que a estabilização da moeda, a retomada do desenvolvimento, a criação de empregos etc. Por essa razão, ""enrolar"" a revisão tem sido a palavra de ordem que os gigolôs de partidos vêm passando aos seus vassalos. É dessa forma que eles pretendem sabotar a resolução dos nossos problemas para fazer crescer a sua candidatura no meio do caos. Tudo isso pode até ser lógico. Mas, os que assim agem, ignoram que o eventual fracasso do plano econômico jogará este país na mais pavorosa hiperinflação. Sem revisão, não haverá plano econômico –é verdade. Mas correremos o risco de não haver tampouco eleições e regime democrático. Tudo irá para o espaço. E quem responderá por mais essa irresponsabilidade? ","Com o passar dos tempos, o Brasil vem inaugurando progressivamente formas de dar um “break” para descansar. Quando não são os feriados tradicionais, é a Copa , são as eleições. Este ano de 1994 é propício para essa estagnação. Infelizmente, pois a revisão constitucional em pauta vem sendo protelada pelos deputados, acostumados a uma semana curta para visitas às bases. William Natcher, deputado norte-americano recém-falecido , depois de 40 anos de mandatos consecutivos sem nenhuma falta , poderia servir de lição No entanto, os deputados patrícios preferem empurrar com a barriga a revisão, mais preocupados com os próprios interesses do que com os da pátria. A estabilidade da moeda, a retomada do desenvolvimento, a criação de empregos podem esperar . Que se dane um plano econômico para melhorar o país." "Sobre uma crise real, prolongada e devastadora, montou-se uma crise artificial e farsesca. Uma constitui a caricatura da outra. São aspectos dramáticos da desorientação que cega as elites das classes dominantes, que vivem no Brasil, mas enxotam do pensamento as necessidades pungentes do povo. A crise real exprime a multiplicação geométrica de ardis, de cumplicidades e de malogros dos que mandam. Agem primeiro, em função de interesses mesquinhos, e descobrem depois que, ao tosquiar, não alteram suas posições. Mantêm-se numa subordinação servil ao mercado mundial, em troca de compensações fictícias das nações centrais e do capital financeiro internacional. Mostram-se incompetentes para suplantar-se e construir projetos nacionais de desenvolvimento econômico vinculados à universalização da cidadania e à consolidação de uma República democrática. A crise artificial seria o lado pitoresco de um país que não é sério entre os que desfrutam, governam e administram. Revelam competência para expandir suas fortunas e monopolizar o poder absoluto, amordaçando o Estado, submetendo às conciliações, que reproduzem e ampliam a cultura das aparências, as bases civis de uma sociedade moderna. A crise artificial equivale a um jogo de cartas marcadas. Os que cedem aos parceiros obtêm vantagens econômicas e políticas polpudas. Ela opera como um artifício e, no fim, se o ""desgoverno"" se manifesta, fundamenta e justifica a proclamação de uma crise real ""explosiva"". Nos dias que correm, confrontamo-nos com essa superposição. Um presidente excêntrico nega seus valores e as promessas improvisadas para exibir, em todo o esplendor, um poder que não possui, que lhe escapa entre os dedos como se fosse água ou areia. O governo identifica-se com os pobres, porém pratica uma política para as aves de rapina do grande capital nacional e estrangeiro. Enquanto os lucros voam para o céu, os salários são soterrados. Os ""planos econômicos"" brotam do imaginário de especialistas respeitados e eruditos. Mas açulam as forças naturais da economia, reforçando a crise real e inchando a crise artificial. Para responder ao terremoto e desgastar um candidato à Presidência com probabilidades de vitória, fabrica-se um candidato da ordem, sob o faniquito do patronato e o terror dos liberais, conservadores e reacionários. Há uma luta entre os três Poderes? Os militares se aprestam para remover os riscos sinistros do apodrecimento das instituições sacrossantas? Os partidos da ordem (infelizmente com o PSDB à frente) movimentam-se para a restauração? A ""reforma constitucional"" irá resolver problemas candentes imediatos? Pura fantasia! Nem a crise real nem a reforma estrutural do Estado e do governo atraem ação eficaz. Trata-se de um ""aproveite quem puder"". O que vem do alto é um esforço insensato de soldar o país a grilhões despedaçados, fantasmas do cinema mudo. ","O Brasil convive com a superposição de uma crise artificial sobre uma crise real. O efeito disso é desastroso para o país. A crise real consiste , em resumo, na exclusão significativa da maior parte da população. A artificial é resultado da atuação das elites, que buscam o próprio interesse a qualquer preço: mantêm-se submissas ao mercado internacional em troca de falsas compensações; expandem suas fortunas habilmente , ainda que às custas de trocas de favores espúrias. O governo , que é subordinado pela classe dominante, compõe com ela essa farsa , assumindo aparentemente a causa dos pobres. E quando essa crise artificial se torna real, vêm os planos econômicos para “sanear”, ou as manobras para anular algum candidato à Presidência não vinculado ao sistema. Se o desconcerto cria um clima de luta entre os Poderes, cada um deles toma providências para não mexer nas estruturas. " "Este ""suelto"" é para avisar ao Luís Nassif e ao Clóvis Rossi que o clube dos desesperados tem pelo menos três sócios. Desde 1986 nos convencemos de que era impossível construir uma Constituição razoável a partir de um corpo eleito para fazer, simultaneamente, duas coisas: a legislação ordinária e a Constituição. Durante a campanha sofremos um grave dano, porque toda a propaganda sugeria nosso nome para ""constituinte"". Estávamos convencidos então –e mais convencidos agora– que não há como produzir uma Constituição, isto é uma lei majestosa e permanente, que prescreva os direitos individuais, garanta o direito de propriedade, determine a organização do Estado e do governo e limite a amplitude da legislação ordinária numa assembléia que imediatamente após sua conclusão vai legislar ordinariamente. O constituinte tem que ser eleito para um fim específico. Tem que ter experiência provada e imaginação alerta para os problemas da sua região e do país. Tem, enfim, que ser protegido contra os mecanismos corporativistas que elegem seus representantes com o dinheiro do contribuinte para protegê-los. Vemos hoje como os monopólios politicamente construídos defendem seus privilégios. Extorquem seus altos salários e benefícios da população através do poder que lhes foi conferido, e aplicam parte infinitesimal desses recursos para convencer a população de que é patriótico continuar a ser extorquida! Um superficial passeio pela Constituição de 1988 vai revelar dois aspectos interessantes: 1) ela é a Constituição da ""vingança"" –tudo o que existia no regime autoritário era ruim por definição e não merecia a menor reflexão e 2) todos os privilégios privatizados (as estatais, a Zona Franca de Manaus, as vinculações etc.) conseguidos alguns no próprio regime autoritário foram constitucionalizados! O título VI –""Da Tributação e do Orçamento""–, apenas para dar um exemplo, em 24 artigos ocupando 18 páginas revela todo o ranço de uma ""engenharia social"" ingênua e ineficiente! E o capítulo VII –""Da Ordem Econômica e Financeira""– desperdiça 22 artigos ocupando dez páginas de um irrealismo delirante! Havia ligeiras esperanças de que isso poderia ser corrigido por um dos poucos dispositivos lúcidos, o artigo 3º das Disposições Transitórias, que permite que após cinco anos a revisão da Constituição. Isso também foi perdido, pela confusão infinita que domina o governo Itamar Franco e pela necessidade de criar-se o Fundo Social de Emergência. Hoje não nos resta outra alternativa senão lutar por uma Constituinte exclusiva, construída na base rigorosa de ""um homem um voto"" (com o mínimo de um para os Estados que não atinjam o quociente eleitoral) e que não tenha mais do que 100 representantes escolhidos diretamente pelo povo. Em três ou quatro meses de trabalho intensivo essa assembléia de ""homens bons"" pode produzir uma Constituição capaz de liberar as energias nacionais e dar ao país o que ele precisa: uma organização política funcional. ","Uma Constituição razoável não pode provir dos mesmos encarregados de , simultaneamente, cuidar da legislação ordinária. O constituinte tem que ser eleito para um fim específico. Exige-se dele experiência e imaginação alerta para os problemas da sua região , a fim de não ser cooptado pelo corporativismo que só enxerga privilégios. A Constituição de 1988 contém vários exemplos de desvios: partiu do princípio de que tudo o que provinha do regime militar era ruim; incorporou privilégios privatizados ---alguns já na era militar---; o título VI --“Da Tributação e do Orçamento” é uma demonstração de ingenuidade e ineficiência; o capítulo VII -“Da Ordem Econômica e Financeira”-peca pelo irrealismo. Mesmo o artigo 3º das Disposições Transitórias , que permite a revisão da Constituição após cinco anos, foi vítima da confusão do governo Itamar Franco e da necessidade de criar o Fundo Social de Emergência. Resultado: a solução é formar uma Constituinte exclusiva , firmada na relação “um homem, um voto” (garantindo o mínimo para os Estados que não atinjam o quociente eleitoral) , e que não ultrapasse 100 representantes escolhidos pelo povo. " "A mais recente pesquisa do Datafolha sobre a intenção de voto para a Presidência sugere um quadro radicalmente diferente do que havia no pleito anterior, na mesma altura do ano. Em vez de um numeroso leque de candidatos com alguma ou muita chance de passar para o turno final, desta vez o que a pesquisa indica é uma disputa bipolar. Mais exatamente, entre Luiz Inácio Lula da Silva (do PT) e Fernando Henrique Cardoso (do PSDB). De fato, nas três situações propostas aos pesquisados, Fernando Henrique assume um nítido segundo lugar, ao contrário do que ocorria em todas as sondagens anteriores. Antes, o segundo lugar era disputado pelo próprio FHC, mas também por Antônio Britto (PMDB), Paulo Maluf (PPR) e José Sarney (PMDB), tendo Leonel Brizola (PDT) bastante próximo. Agora, FHC oscila entre 19% e 21% das intenções de voto. A menor diferença para o terceiro colocado se dá quando se inclui Sarney no cartão com o nome dos candidatos. O postulante do PSDB fica, então, com 19% contra 12% de Sarney. Mesmo assim, a diferença já está fora da margem de erro. A liderança de Lula, por outro lado, fica ainda mais nítida. Em duas situações, o petista rompe a barreira dos 33%, o máximo percentual antes alcançado, e vai a 36% ou até mesmo 37%. Reforça-se, em consequência, a sensação de que muito dificilmente Lula deixará de estar concorrendo no turno final. A hipótese de bipolarização se torna ainda mais forte quando se considera que o crescimento da candidatura FHC não parece ter relação alguma com a situação econômica, pela qual ele era o responsável até poucos dias antes da pesquisa. Se, mesmo com a inflação indecentemente alta, o ex-ministro melhorou sua posição, o lógico é supor que crescerá ainda mais se a inflação ceder bastante, como a maioria dos analistas supõe que ocorrerá com a introduçaõ do real. FHC parece ter-se beneficiado da renúncia de Paulo Maluf à candidatura, embora parte dos votos potenciais do prefeito paulistano tenham claramente migrado igualmente para Lula. É uma conclusão inevitável quando se verifica que os demais candidatos (Quércia, Sarney, Brizola e Antônio Carlos Magalhães) mantêm praticamente os mesmos percentuais anteriores. Fica também evidente que uma eventual candidatura Sarney pelo PMDB continua mais forte do que a de Quércia, tira mais votos de Lula do que de FHC e é a que mais ameaça o cenário suposto de bipolarização. Sarney fica a sete pontos percentuais de Fernando Henrique, que, por sua vez, perde de Lula por apenas 14 pontos, contra 16 nas duas outras situações. É sempre bom repetir que pesquisas são só indicativas, sobretudo quando feitas a seis meses do pleito. Mas a redução do leque de candidaturas viáveis sugere que as possibilidades de grandes alterações no quadro são menos prováveis. Convém ainda observar que, se se cristalizar nos próximos dois ou três meses essa incipiente tendência bipolar, o normal será que ela se acentue ainda mais fortemente na reta final. Os candidatos menos viáveis acabarão por perder eleitores potenciais em favor dos dois mais fortes. Se de fato for assim, o segundo turno será uma disputa insólita em um país de forte presença conservadora: a direita não terá nenhum nome de seus quadros presente na batalha final. ","A mais recente intenção de voto à Presidência, segundo pesquisa da Datafolha, difere da apresentada ao pleito anterior. Mostra Lula e Fernando Henrique Cardoso nitidamente à frente . Nas sondagens anteriores, o segundo lugar de Fernando Henrique era disputado por mais quatro . Hoje, quem mais o ameaça, mesmo assim sem perigo, é Sarney. A desistência de Paulo Maluf parece ter beneficiado Fernando Henrique , mas parte dos votos deve ter ido para Lula, pois não aumentou o índice dos demais candidatos . Também a solidez de sua posição não parece ter relação com sua gestão no Ministério da Fazenda , quando a inflação era elevada Entre Sarney e Quércia como possíveis candidatos pelo PMDB, o primeiro leva vantagem. É verdade que pesquisas não seguem um caminho retilíneo, mas a redução de candidatos diminui a probabilidade de alterar a atual tendência. A se manter a atual tendência, a disputa bipolar sem representante da direita será um fato novo. " "Existe dentro do PT uma propensão eufórica negativa: ""Lula já venceu!"" Em política, a vitória parece segura em uma semana; pode converter-se em derrota na semana seguinte. Essa euforia, que tenho combatido, também pode impulsionar nossa perda. Acredito que Luiz Inácio Lula da Silva sabe disso melhor que eu. Se assumo a responsabilidade de um debate público, faço-o pensando no que significa o PT no cenário trágico e opressivo em que ele se insere. Apesar dos movimentos das elites das classes dominantes e dos partidos da ordem, parece evidente que Lula e a coligação dos partidos contestadores que o apóiam têm possibilidades de vencer. Não só a equação pessoal comprovou a ressonância de suas diretrizes políticas na massa dos excluídos, dos assalariados, dos estratos médios em proletarização, nas entidades radicais empenhadas na renovação da economia, da sociedade e da cultura, como reforçou a consciência crucial: ou Lula ou a repetição do passado com alterações cosméticas. Nesse sentido, independentemente dos resultados das urnas, Lula e suas forças sociais e políticas triunfaram. Poderão ocupar ou não o poder. O Brasil, todavia, não será o mesmo depois do vendaval que se aproxima. O teste procede da afoita fabricação de um candidato à Presidência da confiança do grande capital interno e estrangeiro, com seus mentores e suportes humanos, institucionais e financeiros. Como diria um provecto ex-reitor da USP, ""querem salvar os bolsinhos"". Lançaram-se ao embate eleitoral com o propósito político de manter seus privilégios, com o monopólio do poder estatal que eles pressupõem. Depois de Collor, essa resistência autoritária serve mais como advertência que como arma eleitoral. Ela desperta uma indagação inevitável nos jovens e adultos: por que essa exacerbação que explicita a predisposição de ""esmagar Lula""? Esta eleição ergue uma pergunta: convém ao PT ganhá-la ou encaixá-la na acumulação crescente de dinamismos de desgaste da ordem, que o favorece? Nenhum partido da esquerda persegue o segundo objetivo. Mas ganhar ou perder denotam algo relativo, na situação histórica vigente. Para o presente e o futuro, contudo, é essencial romper com o passado, com o fisiologismo, com o clientelismo e o privatismo de conteúdo patrimonialista, com o oportunismo político (tão destrutivo na direita, quanto no centro-esquerda), com as conciliações pelo alto contra o povo. Esses aspectos sinalizam o caminho de Lula, do PT e dos partidos fiéis a uma identidade política sólida. A esquerda autêntica compreende a natureza de seus compromissos com a transformação da ordem e a criação de uma sociedade nova. Acabamos de constatar quais são os vínculos de uma social-democracia improvisada com o mudancismo conservador. Se os eleitores se enganarem, consagrarão a República democrática de fachada. Para não correrem tais riscos, deverão bater-se por alvos claros e certeiros, que se definem no campo da esquerda. A sorte de Lula está lançada e, com ela, os papéis construtivos do PT e seus aliados, neste momento decisivo. ","O clima do “já-ganhou” entre petistas não ajuda e , pelo contrário, pode sinalizar uma derrota. Feita a observação, não se pode negar a possibilidade de uma vitória, apesar do empenho oposto dos movimentos das elites. E caso Lula não seja eleito, o quanto sua pregação ressoou entre os excluídos, assalariados, os estratos médios em via de proletarização , entre entidades preocupadas com a renovação da economia , da cultura e da sociedade em geral ficará como um bordão alertando o vitorioso para novos caminhos. Também fica uma pergunta : convém o PT ganhar as eleições agora , ou acumular créditos para uma nova etapa de mudanças na estrutura do país? Romper com o passado é uma clarividência que não deve ficar no discurso. Militantes do PT e seus aliados devem ter compromisso claro com os novos rumos. " "A perspectiva que se apresenta de a revisão constitucional se encerrar sem ter votado uma só questão econômica importante é realmente dramática. Dramática porque nem sequer foi discutida a reforma do Estado, quando o diagnóstico que se faz da crise brasileira aponta sempre para o anacronismo do nosso modelo (uma combinação de gigantismo com ineficiência e falência total). Apesar desta avaliação quase que generalizada, nada se fez para reordenar o Estado brasileiro, enquanto vários países do mundo superaram esta barreira, inclusive os do Leste Europeu. Há hoje o consenso de que é preciso substituir o Estado empresário por um Estado voltado para o social. E a revisão constitucional de hoje é ainda a grande oportunidade para se adaptar o nosso Estado aos novos tempos. A revisão seria o momento para que temas importantes para o país como os monopólios estatais, a reforma tributária e a reforma da Previdência –três discussões inadiáveis– fossem abordados. Sem estas mudanças fica difícil construir um novo modelo de desenvolvimento para o país, com uma economia mais aberta e competitiva, interna e externamente. A idéia do relator da revisão constitucional era tão-somente flexibilizar os monopólios, através de concessão de serviços. Mas essa discussão nem chegou a plenário por conta da permanente falta de acordo entre os partidos sobre a pauta das votações. A reforma tributária, com a redistribuição de encargos entre a União, Estados e municípios, também não foi debatida. Quando todos sabem que a crise fiscal emperra qualquer projeto de desenvolvimento do país. É dramático também ver passar a oportunidade de se fazer uma reforma profunda na Previdência Social. Uma reforma estrutural, que não seja apenas uma maquiagem ou viabilização financeira do status atual que –todos sabem– é insustentável a longo prazo. Sem essa verdadeira cirurgia no nosso modelo previdenciário o resultado inevitável é a pressão permanente sobre o Orçamento fiscal e a inviabilização do financiamento do sistema de saúde brasileiro. No Brasil, hoje, o salário mínimo pago ao trabalhador é um dos mais baixos do mundo por conta da vinculação existente com o benefício pago aos aposentados. Qualquer proposta de elevação do salário mínimo esbarra no caixa da Previdência. Os números são incontestáveis: hoje, 14 milhões de brasileiros ganham salário mínimo, sendo que 11 milhões pagos pela Previdência e, dos 3 milhões restantes, muitos são pagos por municípios. A proposta de elevação dos atuais US$ 64 para US$ 100 provoca um aumento de despesa de US$ 10 bilhões, o que, segundo técnicos do governo, inviabiliza a Previdência Social. O Estado brasileiro precisa de uma reforma urgente e a hora é agora. Há que se tentar, até o último instante, que prevaleça o bom senso, a consciência, de que o país estará queimando mais uma possibilidade se não fizer já as mudanças necessárias na Constituição. ","É trágica a perspectiva de se encerrar a revisão constitucional sem se tratar da reforma do Estado brasileiro, visto como superdimensionado e ineficiente. Substituir o Estado-empresário pelo Estado voltado às causas sociais tem sido consenso atualmente. A redução dos monopólios estatais , a reforma tributária e a questão da Previdência deveriam estar na linha de frente dos temas abordados . Redistribuir os encargos tributários entre União , Estados e Municípios é fundamental para a gestão de cada uma das instâncias executivas. Ainda não foi discutida a questão. Também, reconstruir o sistema previdenciário para que não chegue à insolvência total é urgente , e não foi tratado como convinha. Sem uma discussão séria, é impossível , por exemplo, elevar o nosso salário-mínimo , que é um dos mínimos em todo o mundo. " "À parte qualquer lógica eleitoral que possa ter, o acordo entre PFL e PSDB, desde que começou a ser cogitado, acenava com toda sorte de dilemas e dificuldades em função da grande disparidade entre as duas legendas em termos de ideologia, história partidária e prática política. Tão díspares que boa parte dos membros de uma apoiou a ditadura contra a qual lutou a maioria dos membros da outra. Pois além das ameaças de rebelião que se disseminaram de imediato em diversos setores do PSDB, a estranha aliança já provocou um novo e embaraçoso problema a partir do favoritismo que vinha sendo dado ao nome do deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) entre os cotados para compor, como candidato a vice, a chapa presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Luís Eduardo de fato já tinha a característica peculiar de, como filho de Antônio Carlos Magalhães, representar quase que um emblema do PFL –trazendo, ao lado de um vigoroso apoio do governador da Bahia, a lembrança presente daquilo que esse partido significa em termos de prática, de história e de posições políticas no país. Não só isso. Como foi lembrado nos últimos dias, Luís Eduardo votou contra o impeachment de Fernando Collor. Ora, o PSDB sempre se pretendeu um partido preocupado com a ética –supostamente, sua criação como dissidência do PMDB deveu-se em boa parte a essa questão. Assim, se o pacto com uma legenda vinculada às tradições mais deploráveis da vida pública brasileira já é difícil de justificar, a aceitação de um candidato a vice que defendeu Collor parece quase impossível. Expresso de forma inequívoca num dos maiores movimentos cívicos que este país já viu –e que contou com a adesão integral do PSDB–, o apoio da população ao afastamento do chefe da Dinda e sua camarilha foi esmagador. Nessas circunstâncias, o voto de Luís Eduardo contra o impeachment revela um desdém para com a opinião do eleitorado que atenta contra as responsabilidades e deveres da representação popular. A cotação do filho de ACM como postulante a vice decaiu sensivelmente nos últimos dias, mas mesmo que seu nome seja definitivamente afastado o problema continua longe de resolvido. O fato é que o PSDB chegou a considerar seriamente o nome do pefelista baiano para integrar sua chapa, sabendo perfeitamente como ele havia votado na decisão do impeachment. Assim, o seu possível recuo agora pareceria dever-se muito mais ao temor do efeito eleitoral de uma divulgação do voto pró-Collor de Luís Eduardo do que a qualquer consideração de ordem ética quanto a esse mesmo voto –atitude eleitoreira do tipo que o PSDB costumava condenar. Outra dificuldade que resta refere-se à escolha de um novo nome do PFL para vice na chapa de FHC. Com o filho de ACM perdendo a dianteira, ressurge a difícil tarefa de encontrar um nome que ao mesmo tempo satisfaça a cúpula pefelista, traga votos no Nordeste (ao fim e ao cabo, o maior atrativo do PFL) e não cause uma rebelião ainda maior entre os tucanos. São problemas, de todo modo, que não devem surpreender ninguém –muito menos o PSDB– e que deverão continuar a aflorar nos próximos meses. Afinal, não se pode aliar antigos inimigos e antípodas políticos impunemente. ","A aliança entre o PFL e o PSDB , com vistas à próxima eleição presidencial, contém um germe de incompatibilidade. A história dos dois partidos , as ideologias que os fundamentam , a sua prática política não facilitam uma boa convivência. Tanto que vários membros do PSDB não digerem bem a proposição do nome de Luiz Eduardo Magalhães (PFL-BA) para vice de Fernando Henrique. Os peessedebistas votaram pelo impeachment de Collor; Luiz Eduardo foi contra. Se o apoio da população brasileira pela cassação foi maciço , fica difícil acertar com tal vice. Apesar disso, o PSDB alimentou essa aliança . A reação, porém, foi esfriando as conversações. E o temor de um reflexo eleitoral negativo , certamente, levou o partido a desistir da indicação. A dificuldade não terminou para o PSDB , pois terá que pensar num outro vice do próprio PFL e , logicamente, do gosto do partido. " "Estudei engenharia, fui apaixonado por matemática e acabei doutor em economia. Não tenho, portanto, formação jurídica. Nessa área toco de ouvido e com parcimônia. Ainda assim me arriscarei a questionar algumas teses jurídicas sobre a revisão constitucional, pela relevância do tema. Para começar, reafirmo minha convicção de que o Brasil não conseguirá retomar seu desenvolvimento a médio e longo prazos, nem consolidar a democracia, sem reformar amplamente a Constituição de 1988. Aliás, o próprio texto constitucional previu a reforma. Uma das teses mais estapafúrdias levantadas por alguns juristas é que a revisão não poderia ser feita, pois estaria vinculada ao plebiscito sobre sistema de governo. Mantido o presidencialismo, nada haveria a revisar na Carta. A tese é estapafúrdia porque: 1) os dispositivos sobre o plebiscito e a revisão são independentes; 2) nada no texto constitucional restringe a revisão ao sistema de governo. Outra tese jurídica implausível do ponto de vista lógico é que apenas o Congresso atual, eleito em 1990, poderia fazer a revisão. Mas onde está dito ou subentendido que a revisão só poderia ser feita por um mesmo Congresso? O texto constitucional diz apenas que a revisão deveria ser feita ""após"" 5 de outubro de 1993, ou seja, poderia começar nessa data ou no ano 2000. Apesar da advertência de que, começando em 5 de outubro, a revisão certamente iria fracassar –por causa do ano supereleitoral de 1994, que alimenta o ""ausentismo"" dos parlamentares, a organização dos ""contras"" e o desinteresse do governo–, a maioria do Congresso decidiu iniciá-la logo, em vez de transferi-la para 1995. As previsões sombrias foram confirmadas e não se aprovou praticamente nada até agora. O prazo termina em 31 de maio e ainda se tenta votar algumas emendas, mas o fundamental ficará de fora. Que fazer? O lógico não seria encerrar a revisão, mas apenas desativá-la até serem feitas as eleições ou até o começo de 1995. Mas o relator Nélson Jobim acha que isso não é possível, porque uma emenda já foi promulgada, a do Fundo Social de Emergência. O Supremo Tribunal Federal não aceitaria a prorrogação, argumentando que o Congresso estaria adotando um novo método permanente de mudar a Lei Magna e, assim, a revisão não acabaria nunca. De fato, o Supremo nunca deliberou sobre o assunto. E a argumentação não convence, pois o Congresso Revisor poderia até alterar as normas de mudar a Constituição, que não configuram nenhuma cláusula pétrea. Poderia, portanto, introduzir na Constituição uma data encerrando a revisão. Li ou ouvi a opinião de numerosos juristas sobre a possibilidade de adiamento para 1995. A mais recente é o brilhante artigo do professor Miguel Reale no jornal ""O Estado de S. Paulo"" de sábado último. Também opinam na mesma direção Miguel Reale Jr., Fábio Comparato (embora prefira o Congresso revisor exclusivo), Saulo Ramos, Tércio Sampaio Ferraz, Celso Bastos e Manoel Alceu Afonso Ferreira. Parece que as únicas coisas que esses juristas têm em comum é serem paulistas e julgarem que a revisão pode ser adiada. Será que todos estão errados? Parece-me improvável, pois nenhum deles é formado em economia... ","Apesar de não ter formação jurídica ---só algumas informações de autodidata--- , arrisco a questionar algumas teses sobre a revisão da Constituição de 1988. De início, insisto na impossibilidade de o país retomar o desenvolvimento sem essa revisão --- aliás, já prevista no próprio texto. Uma das teses absurdas de alguns juristas é que a revisão dependeria do plebiscito sobre o sistema de governo a ser adotado. Nada no texto a condiciona a um sistema de governo. Outra tese indefensável logicamente é a de que apenas o Congresso atual, eleito em 1990, poderia proceder à revisão. O texto constitucional só diz que ela poderia ser feita “após” 5 de outubro de 1993. A insistência dos contras e o desinteresse do governo fizeram que ela começasse logo em 5 de outubro. Com as eleições de 1994 e a conseqüente ausência de deputados , não se aprovou praticamente nada --- e o tempo está para terminar. A lógica mandaria desativar a revisão e recomeçá-la depois, mas o relator , alegando já ter sido promulgada uma emenda, o STF rejeitaria o adiamento. A argumentação não procede , pois o próprio Congresso Revisor poderia alterar as normas de mudança da Constituição. Sobre o adiamento , pronunciaram-se favoravelmente vários juristas respeitáveis , o que dificulta aceitá-lo como improcedente. " "Vem ocorrendo, nos últimos dias, uma sensível mudança nas estratégias das duas principais coligações que disputam a Presidência. As agremiações aglutinadas em torno da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva assustaram-se com o surpreendente desempenho nas pesquisas eleitorais de seu maior rival, Fernando Henrique Cardoso. É claro que o crescimento de FHC –que assombrou até os tucanos– está ligado à percepção popular de êxito do Plano Real. Assim, o PT optou por deixar de criticar o real e passou a defender a nova moeda, censurando porém os altos preços e baixos salários. Parece difícil acreditar que o PT e seus aliados mudaram de posição em relação ao plano depois de ter procedido a uma reavaliação puramente técnica das medidas. É evidente que fizeram uma análise política e concluíram que não rende votos colocar-se contra uma bandeira que tem apoio da população. Mesmo com a mudança de discurso, o PT se encontrava na posição incômoda de ter o Plano Real –um projeto que não é seu e ao qual se opôs– como principal ponto de discussão da campanha. Interessava a Lula encontrar outros temas para debater. A deixa foi dada pela própria coligação tucana. Assim como ocorrera com José Paulo Bisol, ex-vice de Lula, uma série de acusações tornou a situação do senador Guilherme Palmeira insustentável e a aliança PSDB-PFL teve de substituí-lo. O escolhido foi o também senador Marco Maciel. E, se Maciel é de fato um candidato a vice sobre o qual não pesam graves acusações de improbidade e que, em termos de peso político, oferece mais a FHC que Palmeira, seu passado à sombra do regime militar foi o pretexto de que o PT precisava para tentar mudar o enfoque do debate eleitoral. Neste ponto, Maciel é um perfeito representante do PFL. Sempre se manteve no poder. Nos governos militares, foi um dos articuladores do ""Pacote de Abril"". Após o fim do ciclo castrista, ocupou ministérios na administração Sarney e foi líder do governo na gestão Collor. É claro que a carreira de Maciel é um bom ponto para ser explorado pelo PT, ainda que com resultados incertos. O passado do senador incomoda até certos setores do PSDB. Há informações de que seu nome fora vetado como vice por FHC antes da escolha de Palmeira. Para rebater as críticas petistas, entretanto, o PFL optou por uma tática quase infantil. Pefelistas dizem que o vice de Lula, Aloizio Mercadante (PT-SP), está mais ligado aos militares do que Maciel porque é filho de general. Quando se trata de analisar o passado político de alguém, é óbvio, valem suas decisões e ações, não sua árvore genealógica. De resto, o PFL se esqueceu de que seu candidato, FHC, é filho de general e neto de marechal. É bom que os partidos procurem diversificar mais o debate em torno do qual gira a campanha; afinal, embora a inflação seja um dos grandes males que hoje afetam o país, o próximo governante terá inúmeros outros problemas a enfrentar e convém que eles sejam levantados e discutidos. Resta a lamentar entretanto as súbitas mudanças de posição sem explicações convincentes e, principalmente, a pura parvoíce. ","As coligações que apóiam, respectivamente, as candidaturas de Lula e Fernando Henrique têm , ultimamente, mudado a sua estratégia . Para o grupo de Lula , não dá dividendos falar contra o Plano Real, pois a avaliação positiva que dele faz o povo é que explica o sucesso do seu mentor. . Passou, então , a defender a nova moeda, mas a condenar os altos preços e baixos salários. Fica evidente aí uma decisão política e não com fundamentos técnicos. Mesmo com essa mudança, seria incômodo para o PT continuar centralizando os debates no Plano Real. O grupo adversário é que deu a deixa: o vice de FHC, Guilherme Palmeira, teve que ser substituído. Foi escolhido Maciel, sobre cujo passado não pesam grandes acusações de improbidade. Mas sua vinculação fiel ao regime militar foi a pista para o PT. O PFL , ingenuamente, quis atribuir ao vice de Lula , Aloizio Mercante , maiores ligações aos militares por ser filho de general . Além da bobagem em si, esqueceu-se de que Fernando Henrique é filho de general e neto de marechal. É importante que as discussões extrapolem mediocridades e o tema único ---inflação--- , para subsidiar as futuras decisões do vencedor. " "Sem dúvida não se compara com os números anunciados ao mundo com a criação do Nafta nem com aqueles que se tornaram corriqueiros com os avanços da União Européia. Ainda assim, o acordo ratificado anteontem pelos membros do Mercosul, que cria um espaço econômico de 200 milhões de habitantes e um produto total de quase US$ 800 bilhões, constitui um marco histórico para as economias envolvidas e aponta para um processo ainda mais profundo de integração. O acerto confirmado em Buenos Aires pelos presidentes de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai estabelece uma união aduaneira a partir de 1º de janeiro do ano que vem. Isso significa, não só que mercadorias poderão circular no Mercosul sem taxas alfandegárias, como também que produtos importados de outros países terão, em tese, tarifas iguais para todo o bloco. Essa tarifa externa comum (TEC) variará dentro da faixa de 0 a 20%. Bens de capital e de informática terão tratamento especial com prazo maior até a unificação. E há ainda diversas exceções. Cada país poderá, por exemplo, manter tarifas diferenciadas para até 300 produtos, ou 399 no caso do Paraguai. É de se notar, porém, que a esmagadora maioria dos produtos estarão cobertos pelas normas gerais e, de resto, concessões especiais são providências que, longe de entravar, permitem que a integração caminhe apesar de desacordos e de diferenças na situação econômica de cada membro. Tanto é assim que a União Européia, em seu longo amadurecimento, sempre contemplou divergências por meio de cláusulas especiais para um ou outro país. Foi assim que se conseguiu superar as resistências do Uruguai ao atual acordo, que ameaçaram a própria realização da cúpula. É certo que, dadas as dimensões do Brasil, o impacto do Mercosul se faz sentir mais fortemente nos demais membros do que aqui. Isso não significa porém que a economia nacional esteja indiferente à evolução do bloco; ao contrário, dados relativos às exportações são eloquentes ao demonstrar como o Brasil vem-se beneficiando com a liberalização do comércio regional. Entre 1990 e 1994, as exportações brasileiras para a Argentina saltaram 390%, tornando-a o segundo maior importador de bens nacionais atrás só dos EUA –isso, é certo, também com o auxílio da defasagem cambial interna argentina. Mesmo o Mercosul como um todo, porém, de 4,1% de 1990 passou a absorver hoje 14% das vendas brasileiras ao exterior, tanto quanto todo o continente asiático. E esses valores podem aumentar ainda mais, dado o grande interesse demonstrado por Chile e Bolívia em se aproximarem do Mercosul. A cúpula de Buenos Aires deixou claro também que o projeto regional vai além de uma união aduaneira. Sinalizando que esperam caminhar no futuro rumo a um mercado comum –em que, além de mercadorias, também pessoas, capitais e serviços circulam livremente– os países membros concluíram acordo reconhecendo mutuamente diplomas escolares de primeiro e segundo graus. É um primeiro passo no sentido de uma maior liberdade de movimentação para trabalhadores entre os quatro países. Uma importante mostra de realismo foi dada pelos participantes da cúpula ao ressaltar a importância de buscar acordos do Mercosul com a União Européia e, posteriormente, com o Nafta. Afinal, apesar de tudo, é inegável que é na inserção nos grandes fluxos da economia mundial que os países membros, e o Brasil especificamente, mais têm a ganhar. ","Embora muito menos do que os números anunciados com a criação do Nafta e com as transações na União Européia, o acordo de anteontem entre os membros do Mercosul representa uma marco histórico: 200 milhões de habitantes comercializando o equivalente a U$ 800 bilhões . Segundo o acordo, Brasil, Argentina , Uruguai e Paraguai , a partir de janeiro de 1995, liberarão de taxas alfandegárias os produtos comercializados entre si, assim como unificarão as tarifas de produtos importados de outros países. Essas tarifas externas oscilarão de 0 a 20%. E ,ainda, cada país pode ter tarifas diferenciadas para até 300 itens --- 399 no caso do Paraguai. Essas exceções são fundamentais para o amadurecimento das relações. Foi o que aconteceu com a UE . E a flexibilidade no Mercosul foi responsável pela confirmação do acordo por parte do Uruguai. Se os demais países do Mercosul tiveram mais vantagens, o Brasil não pode queixar-se com a evolução de suas exportações para o bloco --- 14% , hoje , tanto quanto as que vão para o continente asiático. A cúpula de Buenos Aires espera ampliar o acordo, incluindo nessa liberação prestação de serviço e um mercado financeiro. Nessa linha, os países membros reconheceram mutuamente os diplomas de primeiro e segundo graus. A aspiração é que se chegue a acordos com a União Européia e Nafta. " "O assunto do momento é a propaganda eleitoral pela televisão. Cada um prepara as suas defesas do jeito que pode. A estratégia mais comum parece ser a das fitas de vídeos. Há também o pessoal que se programou para aproveitar a temporada cultural e assistir a todas as peças de teatro e espetáculos de música. Há ainda os que começaram usar o horário eleitoral para fazer ginástica em academias, jogar baralho, organizar bingos, ler, bordar, costurar ou simplesmente fazer visitas –desde que não corram o risco de serem bombardeados com a propaganda eleitoral em casa alheia. A dona Joaninha, amiga velha e companheira dos tempos de ginásio, está preocupada com a substituição da ""Éramos Seis"" –novela doce, amorosa e civilizada– por aquele festival de ataques pessoais que marcaram as últimas campanhas. Ponderei a ela que a nova lei impede os impropérios e desestimula o sensacionalismo. Incontinenti, ela retrucou: esta aí, então, um grande teste para os profissionais de TV. Não tinha pensado nisso. Afinal, não sou do ramo. E tenho bem menos tempo do que a Joaninha para ver televisão. Mas, como ela mencionou a novela, vi, no caso, uma certa analogia entre fazer um programa eleitoral atraente, sem xingação e desaforos, e produzir uma novela interessante, sem imoralidades e apelações. Tenho um amigo cineasta que costuma dizer: é bem mais fácil ter sucesso com filmes proibidos para menores de 18 anos que com filmes de censura livre. A criatividade e a competência dos candidatos e dos profissionais de televisão terão de ser reveladas na base de suas reais qualidades –o que até aqui foi raro. O eventual recurso à calúnia, injúria ou difamação poderá custar aos interessados alguns preciosos minutos na forma de direito de resposta. Se tomarmos a praxe atual, as novas restrições legais tornarão os programas mais cansativos, principalmente, para os que se habituaram as cenas de rififi como as praticadas nos antigos programas políticos que, no fundo, deveriam ser pedagógicos. Entretanto, a ""Éramos Seis"" está provando ser possível atrair o espectador fazendo arte com respeito. E a democracia exige respeito, sobretudo, pelo eleitor e sua família. É bem possível que alguns dos nossos profissionais de TV venham a passar bem no teste aventado pela dona Joaninha. Isso será bom pois, ao promover os candidatos dentro dos cânones da educação, eles estarão prestando um grande serviço à causa democrática e ajudando os eleitores a praticarem o voto consciente. Do lado dos candidatos, nesta primeira semana, todos eles se apresentaram como honestos, sabidos e capazes de resolver os imensos problemas do Brasil, em definitivo e em apenas quatro anos. Esplêndido! Oxalá eles possam provar isso tudo depois de eleitos. Sei que o ótimo é inimigo do bom. Mas, faltou à nova lei eleitoral um dispositivo tornando compulsório aos candidatos explicarem de onde virão os recursos materiais e humanos para concretizar as suas idéias mirabolantes. Faltou a obrigatoriedade de dizer o ""como"" realizarão seus projetos. Bem, isto é exigir demais... Temos de avançar gradualmente. A democracia exige paciência. ","A atitude dos telespectadores com o advento da propaganda eleitoral lembra aquela que se toma quando se está sob a iminência de uma visita indigesta : estimula-se a imaginação com variadas desculpas para que ela não aconteça. O telespectador acostumado a seu filme ou a sua novela mais suave, certamente, não vê com bons olhos as apelações, mentiras, agressões de muitos candidatos veiculadas pela tevê, apesar de proibições legais. No meio cinematográfico, há quem ache que o sucesso de uma produção tenha mais vínculo com o proibido do que com o permitido. Se for assim, certos entreveros de propaganda política poderão atrair mais do que uma discussão sensata. No entanto, sabe-se que a criatividade e a competência dos candidatos e dos profissionais da tevê serão capazes de cumprir sua tarefa, com sucesso, decência e respeito ao telespectador . Nesta primeira semana , os candidatos têm sido “honestos “ e cem por cento “eficientes”. Só resta acrescentar a uma nova lei eleitoral um dispositivo que os obrigue a dizer de onde virão os recursos. " "Neste frio e poluído agosto e no meio de uma frenética correria eleitoral, vale sublinhar os absurdos mais óbvios desta campanha. O primeiro refere-se à participação dos micropartidos nas eleições majoritárias, ridicularizando os chamados horários gratuitos de rádio e TV. A nova lei eleitoral bem que tentou evitar isso, mas o Supremo Tribunal Federal houve por bem declará-la inconstitucional nesse aspecto. Essas candidaturas fictícias também dificultam a realização de debates entre os candidatos que concorrem para valer, embaraçando ainda mais o esclarecimento dos eleitores. O segundo absurdo é o sistema eleitoral proporcional, que constrange os candidatos a deputados estaduais e federais a competirem com outros candidatos de seu próprio partido e a saírem catando votos em centenas de municípios. Em São Paulo, por exemplo, eles disputam os votos de 20 milhões de eleitores. Os custos financeiros de viagens e material de propaganda se multiplicam. Os eleitores, aturdidos com tantos candidatos, não conseguem fixar-se num número pequeno para comparação e escolha. Desanimam e inclinam-se para o voto branco ou nulo. Pior ainda, sendo obrigatório o horário gratuito geral também para os candidatos a deputado, o tempo disponível para cada concorrente se torna ínfimo e os programas infinitamente enfadonhos, como não poderia deixar de ser. Com um sistema distrital, haveria campanhas localizadas e mais baratas, melhor conhecimento dos pleiteantes pelos eleitores e horários gratuitos nas rádios e TVs regionais, com poucos candidatos. Aí sim, fariam sentido. O terceiro absurdo é a proibição de que membros de um partido possam falar no horário gratuito dos candidatos de sua agremiação. Nem o presidente do partido pode! Uma coisa, correta, é evitar programas custosos que vendem candidatos como sopa concentrada, sem mostrar os pleiteantes nem expor suas idéias. Mas outra, bem diferente, é cercear a apresentação das propostas partidárias. Um quarto absurdo, e aqui puxo brasa para minha sardinha, é repartir o tempo dos candidatos ao Senado de forma igualitária e não proporcional à representatividade de seus partidos e coligações, como acontece com todos os demais candidatos. A lei, embora ambígua, por ter sido mal redigida, não obriga a esse tratamento discriminatório, mas a Justiça Eleitoral assim o interpretou. O resultado é que, pela carência de tempo, os candidatos a senador que disputam para valer ficam impossibilitados de explicar a que vêm –o que até parece bom para alguns. Em meio a tudo isso e à tensão natural de qualquer campanha, há um fato que reconforta. Na eleição máxima, a de presidente, há uma boa polarização –que, parece, vai manter-se– entre Fernando Henrique e Lula. Dois candidatos com passado limpo, compromissos democráticos sólidos e elevada sensibilidade social. Isto é um avanço no Brasil. A diferença para a escolha entre um e outro deve ser procurada na capacidade de propor um programa concreto de governo, ao mesmo tempo ousado e realista, e de articular as alianças necessárias para garantir sua execução. O leitor sabe minha avaliação sobre qual o candidato que pode fazer isso melhor, bem melhor. ","O período de campanha eleitoral apresenta uma série de defeitos. Por exemplo, permite que os micropartidos participem nas eleições majoritárias , desclassificando os horários gratuitos, pois é impossível debater seriamente as questões importantes. Outro defeito é a competição de deputados estaduais e federais com outros do mesmo partido. Obriga-os a uma caça de voto exaustiva, cara e sem proveito para o esclarecimento do leitor. O sistema distrital, com campanhas localizadas e mais baratas , com melhor identificação dos candidatos, resolveria. Outro desvio é a proibição de membros do partido falar no horário gratuito de candidatos da agremiação Pode-se acrescentar , ainda, a inconveniência de candidatos ao Senado terem que repartir o tempo de forma igualitária e não de acordo com a representatividade de seus partidos . Foi assim que entendeu a Justiça Eleitoral , e os pleiteantes com maior empenho não têm tempo para a exposição de suas idéias. Em contrapartida, a disputa polarizada entre Luta e Fernando Henrique constitui uma prova de amadurecimento democrático. " "Um dos aspectos positivos da atual política cambial reside no fato de ela não pretender envolver-se na defesa de uma taxa de câmbio real potencialmente insustentável a longo prazo. O ministro da Fazenda tem dito, com frequência, que o compromisso com o ""câmbio estável"" vai até dezembro. Não há qualquer obrigação de intervenção no mercado de câmbio, a não ser que a cotação do dólar supere um real. Essas informações são importantes porque o nosso comércio exterior está longe de apresentar resultados satisfatórios. Entre 1988 e 1993, com um Produto Interno Bruto revelando um crescimento médio da ordem de 0,8% e uma ampla capacidade ociosa no setor industrial, nossas exportações cresceram a uma taxa de apenas 2,8% ao ano, enquanto as exportações mundiais cresciam a 6,2% ao ano. Nossa participação nas exportações mundiais caíram de 1,2% para 1% no período. Por outro lado, as importações, graças à desburocratização, à eliminação de barreiras não-tarifárias e à dramática redução tarifária, cresceram à taxa média anual de 12%. Nossa participação nas importações mundiais passaram de 0,6% para 0,8%, forçando um amplo aumento da produtividade e da qualidade da produção nacional para enfrentar a competição externa. O saldo exagerado da balança comercial foi reduzido de 19,2 bilhões de dólares, em 1988, para 13,1 bilhões, em 1993. A situação do balanço de transações correntes não é, entretanto, tão brilhante como se quer fazer crer. Nos últimos seis anos (1988-1993) tivemos um saldo positivo em transações correntes da ordem de 6,7 bilhões de dólares, praticamente construído pelas remessas unilaterais de brasileiros que estão trabalhando no exterior e que atingiram a 6,4 bilhões de dólares no período. Sem essas remessas, o Brasil teria registrado equilíbrio nas transações correntes ao longo dos últimos seis anos. A fantástica acumulação de reservas internacionais (no conceito de caixa) nos últimos 29 meses (janeiro de 1992 a maio de 1994) da ordem de 30 bilhões de dólares deveu-se praticamente ao movimento de capitais estimulado pela maior taxa de juro real de que se tem notícia no mundo civilizado. Ela foi financiada por emissões de papel-moeda e pelo crescimento da dívida interna, num movimento de auto-reforço: juro real estratosférico atrai capital externo, o que aumenta a dívida interna e exige juro real ainda mais alto para induzir os agentes a retê-la em suas mãos. Tudo isso à custa da manutenção de ampla capacidade ociosa e desemprego para milhões de brasileiros... O que acontecerá quando os juros tiverem que diminuir? Provavelmente teremos no mercado de bens e serviços um aumento do nível de atividade (o que é desejável), que retirará um dos estímulos às exportações e elevará o nível das importações (o que também é saudável). E no mercado financeiro uma redução do fluxo de entrada. Só então saberemos se manipular a taxa de câmbio nominal pelo diferencial de juros interno e externo e esperar que a taxa de câmbio real se ajuste pela redução dos preços internos foi uma aposta sustentável. Mas não será a hipótese implícita nesse modelo (flexibilidade dos preços para baixo) um pouco extravagante? ","Não insistir na manutenção de uma taxa cambial insustentável a longo prazo tem sido uma boa política do ministro da Fazenda. Isso é importante porque nosso comércio exterior está em baixa. O crescimento do PIB é medíocre, a capacidade ociosa no setor industrial é grande e as exportações ( entre 1988 e 1993) só cresceram 2,8% , diante de um média mundial de 6,2%. Em contrapartida, as importações cresceram , em média, 12%. No mesmo período ( 1988-1993) , o saldo da balança comercial veio de 19,2 bilhões de dólares para 13,1 . Ainda no período, o saldo positivo de 6,7 bilhões de dólares nas transações correntes se deveu às remessas de brasileiros que trabalham fora do país. Já de 1992 a 1994, a acumulação de reservas de 30 bilhões de dólares veio da generosa taxa de juros oferecida ao capital internacional, com o trágico aumento da dívida interna e do desemprego de milhões de brasileiros. A redução dos juros possivelmente estimulará a produção e reduzirá as importações e o ingresso de dólares de especulação." "A leitura atenta das entrevistas de Fernando Henrique Cardoso (candidato pela coligação do PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (da aliança liderada pelo PT) à Folha revela muito mais coincidências do que divergências. Semelhanças que começam nas primeiras medidas que cada um deles anuncia como prioritárias para o início de governo. Ambos mencionam a reforma tributária como ponto de partida, o que, de resto, segue uma lógica inescapável: o Estado brasileiro está em evidente estado falimentar e não há governo que possa fazer o que quer que seja se, antes, não conseguir reorganizar racionalmente as suas fontes de recursos. Até a fórmula para a implementação dessa reforma indispensável, a negociação com a sociedade, é semelhante entre os dois candidatos que lideram todas as pesquisas de intenção de voto. A indagação acerca do rótulo político-ideológico que cada um assume revela outra enorme semelhança. Lula, embora continue se afirmando socialista, menciona como modelo de país a Dinamarca, que é exatamente um dos protótipos da social-democracia. Fernando Henrique, por sua vez, assume por inteiro a qualificação de social-democrata. Para acentuar as semelhanças, a palavra ""Estado"", com conotação positiva, foi certamente a mais empregada pelo candidato tucano ao longo da entrevista, acompanhada do enterro retórico do neoliberalismo. Não há, aliás, motivo para espanto no fato de os dois principais candidatos e, por isso mesmo, os dois grandes rivais do pleito presidencial mostrarem tantas coincidências. O sepultamento do comunismo, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a derrocada da União Soviética em fins de 1991, acabou por tornar muito mais convergentes as posições de correntes políticas antes mais distanciadas e das lideranças que as representam nas disputas eleitorais. Além disso, o diagnóstico sobre os males do Brasil está feito há algum tempo. Não há candidato que ignore que reequacionar o Estado e, por extensão, as suas funções essenciais (educação, saúde etc.) é uma prioridade óbvia. Da mesma forma, não há quem possa escapar à constatação de que os problemas sociais são profundos e pedem providências estruturais e de emergência. É natural, portanto, que todos os candidatos e não apenas os dois principais as incorporem como prioridades em seus respectivos programas de governo. Apontadas as semelhanças e parte de suas causas, fica mais difícil assinalar diferenças realmente de fundo. Pelo menos nas duas entrevistas que esta Folha publica hoje, as divergências são mais de ênfase. O discurso de Lula, previsivelmente, está profundamente pontilhado pela questão social. Já o discurso de Fernando Henrique Cardoso, embora também trate dela, gasta mais palavras no tema da inserção do Brasil no cenário internacional. A questão das privatizações é, talvez, o ponto mais nítido de divergência. Lula demonstra má vontade em relação não apenas às privatizações já feitas, mas também no que se refere às que podem vir a ser feitas pelo futuro governo. Já o candidato tucano aceita a desestatização com boa vontade. Mas, de todo modo, os dois coincidem em tentar retirar da discussão o aspecto ideológico que cercava o tema até muito recentemente –e que para alguns candidatos, como Leonel Brizola, permanece ainda como questão de princípios. Bem feitas as contas, a diferença entre os dois candidatos que, ao menos por ora, são os favoritos na corrida para o Planalto é muito mais de biografia e de alianças. De um lado, tem-se ""um grande líder de massas"", como o próprio FHC definiu Lula. De outro, um ""grande intelectual"", como Lula qualificou FHC. Se estão sendo absolutamente sinceros nessas respostas, o mais provável é que um venha a precisar muito do outro, seja qual for, entre os dois, aquele que vencer a disputa eleitoral. ","Pelas entrevistas dos dois candidatos à presidência ---Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luís Inácio Lula da Silva (PT) -- , conclui-se que há mais convergências do que divergências entre eles. Ambos mencionam a reforma tributária como ponto de partida para o próprio governo , coerentes , aliás, com a condição básica para a sobrevivência do país. E os dois pretendem fazê-la , negociando com a sociedade. Também o perfil político-ideológico de ambos se mostra cada vez mais próximo da social-democracia . É uma tendência observada após o fim do comunismo , com a queda do Muro de Berlim (1989) e o esfacelamento da União Soviética (1991). Ainda revelam semelhança quanto ao diagnóstico sobre os males do Brasil , que são prioridades do Estado: educação , saúde e várias outras questões de ordem social. Fica até difícil , pelo menos até agora, apontar as diferenças . Lula enfatiza mais a questão social , e Fernando Henrique , sem descuidar dela, acentua a inserção do Brasil no mundo. O ponto de maior divergência é quanto as privatizações. Fernando Henrique aceita-as com tranqüilidade ; Lula , não. Mesmo assim, ambos tentam enfocá-las sem o viés ideológico recente. " "Em 1990, os gastos em saúde alcançaram a fantástica cifra de US$ 666 bilhões. Só o governo gastou US$ 280 bilhões. Nos últimos 20 anos, o dispêndio nessa área teve um crescimento anual de 13%. A continuar nessa marcha, dentro de meio século o PIB todo será gasto com saúde. Esses números se referem aos Estados Unidos. É isso mesmo: os americanos gastam 12% do seu PIB em saúde. São os campeões. O Canadá gasta 8,5%; a Alemanha, 8,2%; o Japão, a Austrália e a Itália, 7%; a Inglaterra, 6%. E o Brasil, apenas 2% de um PIB bem menor. Isso é irrisório. Afinal, a saúde custa caro em qualquer parte do mundo. Nos Estados Unidos, o tratamento que simplesmente prolonga a vida de um aidético custa US$ 85 mil. Só a Aids consumiu US$ 12 bilhões em 1992 –ou seja, 50% mais do que o Brasil gastou com todas as doenças. A Inglaterra, que tem 55 milhões de habitantes, gasta US$ 51 bilhões. Nós que temos 150 milhões de habitantes gastamos US$ 8 bilhões. Não é a Inglaterra que gasta demais; é o Brasil que gasta de menos. E gasta mal. Mesmo com o seu enorme gasto, a Inglaterra tem muitos problemas. A fila para internação hospitalar chega a 800 mil pessoas! Os doentes que têm mais de 75 anos são a última prioridade. Há 15 mil ingleses precisando de ponte safena; 13 mil necessitando quimioterapia; 9.000 dependendo de uma prótese femural –todos eles com poucas chances de atendimento. Parece incrível, mas é verdade. A hipertensão, na Inglaterra, só passa a merecer a atenção dos médicos quando a mínima chega a dez –sabendo-se que o limite é nove. A conclusão a que se chega a partir de todos esses números é que, mesmo onde há muitos recursos, a obediência à regra da prioridade é essencial. Saúde custa caro. No Brasil, um doente internado custa, em média, R$ 150,00 por dia, mas o Inamps paga apenas R$ 3,50. Sim, três reais e cinquenta centavos! É impensável pretender tratar de todos os que precisam nessa base. Esse é o preço de um sanduíche no bar da esquina. Se, na Inglaterra, com tantos recursos, obedecem-se as prioridades, o que dizer do Brasil que paga US$ 3,50 por uma diária de hospital? Não é à toa que diminui a cada dia o número de hospitais conveniados com o Inamps. Alguns simplesmente encerram suas atividades, reduzindo ainda mais a já precária oferta de vagas. Esse foi o caso –lamentável– do Hospital Humberto Primo em São Paulo, há longos anos mantido pela operosa colônia italiana e que, em 1992, se viu na contingência de fechar as suas portas. Tenho certeza de que a garra e a criatividade dos italianos farão reabrir aquele importante hospital. Seria um passo de extrema importância para a saúde pública do Brasil. Mas isso não dispensa o alerta para que o governo ponha suas contas em ordem para pagar uma diária decente e, sobretudo, pagar em dia. Sem isso, o Brasil será transformado no maior acampamento de doentes da face da terra. A saúde é como o cometa: o tema aparece a cada quatro anos na boca de todos os candidatos. Mas na base da pura demagogia eleitoral. Está mais do que provado que, até hoje, ela nunca foi levada à sério. ","A comparação entre Brasil e países do Primeiro Mundo quanto a gastos com saúde mostra uma disparidade enorme. Tomando como referência 1990, os EUA gastam 12% do seu PIB com saúde; O Canadá , 8,5%; a Alemanha, 8,2%; o Japão, a Austrália e a Itália, 7%; a Inglaterra, 6%; e o Brasil, 2%. E saúde custa caro em todo mundo. A relação gasto/habitante desfavorece muito o Brasil. A Inglaterra, por exemplo, tem 55 milhões de habitantes e gasta U$51 bilhões; o Brasil tem 150 milhões de habitantes e gasta U$ 8 bilhões. E mesmo lá existe fila e prioridades de atendimento. No Brasil , o custo/dia por doente é de R$150,00, mas o Inamps paga só R$3,50. Não é à toa que os hospitais conveniados fujam e que alguns encerrem as atividades, como é o caso do Hospital Humberto Primo em São Paulo. O tema saúde é recorrente a cada quatro anos entre candidatos. Mas fica na palavra." "Os dados da pesquisa Datafolha publicada hoje acerca das intenções de voto para a eleição presidencial abrem um novo cenário para o debate político e ensejam um breve exercício especulativo acerca do futuro do país. De fato, a manutenção do crescimento da candidatura de Fernando Henrique Cardoso e da queda de Luiz Inácio Lula da Silva começa a tornar plausível a hipótese de que a corrida presidencial se encerre já no primeiro turno. É claro que essa é uma perspectiva incerta, e a própria ascensão de Fernando Henrique Cardoso alerta para a volatilidade das preferências pré-eleitorais. Ainda assim, a especulação faz sentido à medida que não se vislumbram, até agora, novos fatos políticos de impacto e que o grande fator diferencial desta campanha, o Plano Real, deverá, segundo especialistas, apresentar taxas declinantes de inflação ao menos até o próximo mês. Lembre-se ademais que a mera perspectiva de vitória já basta para atrair adesões. Como esta Folha vem revelando nos últimos dias, cada vez mais políticos, das mais varidadas tendências, procuram a candidatura tucana em busca de alianças. Esse afluxo pode reforçar a imagem de favorito, o que por sua vez acaba atraindo mais adesões e assim por diante, num possível efeito bola-de-neve. Ainda que sempre no campo da especulação, é óbvio que uma eventual vitória de Fernando Henrique no primeiro turno lhe daria um importante capital político. O vasto espectro de apoios que FHC tem recebido vem-se somar a declarações do próprio candidato no sentido de sugerir a possibilidade de uma ampla frente, de um governo como que de aliança nacional. E se é certo que uma junção de forças díspares apresentaria naturalmente problemas de coesão, é também verdade que uma vitória no primeiro turno poderia dar ao eleito força bastante para contrapor-se a pressões, direcionando mesmo um bloco heterogêneo para seus objetivos. Outras indagações que surgem nesse panorama referem-se ao futuro de partidos no país. O PT, por exemplo, tenderá a ser engolfado por uma crise se for derrotado novamente. Não surpreenderia se a ala radical da legenda responsabilizasse o comedimento do discurso eleitoral pelo fracasso e tentasse tomar as rédeas do partido; tampouco causaria espanto se os membros mais moderados recusassem o jugo xiita. Há que acrescentar a isso o fato de que não há no PT, até agora, um nome capaz de suceder Lula na liderança da agremiação. E é duvidoso se o atual cacique petista terá condições de permancer no posto após duas derrotas sucessivas. No caso do PMDB a situação é algo semelhante. Seu atual líder, Orestes Quércia, parece caminhar para uma derrota de proporções até surpreendentes. Tal derrocada, se efetivada, abriria um vácuo para o qual, como no PT, não há até aqui um nome de consenso –embora seja provável que o governador paulista Luiz Antonio Fleury Filho tente preenchê-lo. É incerto, porém, se o PMDB conseguirá manter-se intacto: as divergêncais internas são notórias e já há adesões a Fernando Henrique ocorrendo de forma desorganizada. Mas, se conseguir sobreviver unido, o PMDB deverá dispor de força ponderável no futuro quadro político. Assim como ocorre com Lula e Quércia, é de se indagar se Leonel Brizola não acabará também afastado do cenário político com mais essa derrota –o que afetaria duramente o PDT, partido muito mais vinculado à figura do seu caudilho que os outros acima. Parece esboçar-se assim –sempre no caso de manutenção das atuais tendências– um cenário pós-eleição de enfraquecimento de algumas das principais lideranças políticas dos últimos anos que não exclui a possibilidade de uma grande aliança em torno do vencedor. Um cenário, portanto, de enormes mudanças e transformações na vida política nacional. ","As intenções de voto para a presidência que o Datafolha publica ensejam uma especulação sobre o futuro político do Brasil. Com o crescimento de Fernando Henrique Cardoso e a queda de Lula , pode haver uma definição no primeiro turno. É verdade que essas prévias em política não têm estabilidade obrigatoriamente, mas a ausência de fatos novos que indiquem mudança pode deixar o sucesso do Plano Real como único motivador dos votos, principalmente se a inflação declinar , como sugerem os especialistas. E esse clima de vitória atrai adesões, como já vem acontecendo em torno de FHC, até à revelia de decisões de cúpulas de partidos. Se acontecer a vitória no primeiro turno, Fernando Henrique capitalizará um trunfo político capaz de anular as pressões e facilitar suas decisões de governo. Ainda especulando, o PT pode cair em crise , e os seus radicais assumir as rédeas do governo. E o pior é que não há, por enquanto, quem substitua Lula na liderança do partido. Caso idêntico ocorre com o PMDB, se o seu atual líder, Orestes Quércia, concretizar uma derrocada que parece certa. Antonio Fleury Filho pode querer assumir a liderança , mas não há consenso em torno dele. O mesmo pode se dar em Leonel Brizola , cacique do PDT, que não deve resistir a mais uma derrota. " "Há apenas oito semanas, um espectro obcecava o Brasil. Era o espectro do PT-Lulismo! Para expô-lo à luz do dia não se juntaram numa caça santa o papa, o czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os policiais alemães. Apenas o povo, mobilizado pelo real! O PT demonstrou que conhece o proletariado da mesma forma que o velho mestre: pela literatura. Foi incapaz de entender onde residiam a força e a fraqueza do programa. A sua maior fraqueza é a do ""tempo"". Ele (como foi dito na ocasião) deveria ter sido implementado em julho ou agosto de 1993 para aproveitar a revisão constitucional nos termos do artigo 3º das Disposições Transitórias da Constituição. Mas isso não pode ser explorado pelo PT. O governo e os partidos que o apóiam fingiam que queriam a reforma, mas o PT lutou abertamente contra ela. Como é evidente, a reforma da Constituição implica transferência de poder e de renda e, frequentemente, dos dois. Se o governo e os partidos que o apóiam tivessem se engajado na reforma teriam desagradado múltiplos e variados grupos cujo poder vocal certamente ultrapassaria os silenciosos beneficiados. Logo, calcular cuidadosamente o momento da reforma monetária era preciso. O que o PT não entendeu é que esse inequívoco oportunismo eleitoral não fala necessariamente contra o programa, pois são coisas distintas. Pode-se lamentar (e cremos que se deva) a oportunidade perdida, mas não se pode imaginar que ela polui o programa. Ele é bem feito para atingir alguns objetivos: eliminar a inflação inercial e reganhar o controle da oferta monetária. A implementação do programa e seus suportes psicológicos (a transfusão monetária, o real ""verde"", a farsa de que ele vale mais do que o dólar etc.) devem muito à figura do ministro Ricupero e ao seu carisma beneditino que alia a piedade ao trabalho duro. Quando ele diz que até agora foi feito apenas o ""início do começo do princípio"" ganha credibilidade. Não tenta enganar a sociedade e a adverte sobre os riscos que cercam o real, se as mudanças institucionais requeridas não forem feitas. O real é um empréstimo-ponte para a Presidência. Seu prazo de carência deve ser suficiente para criar as verdadeiras condições de sustentabilidade da estabilidade monetária. Seu objetivo é extremamente modesto e é por isso que não se pode exigir que ele resolva o problema do salário mínimo, do salário real, da distribuição de renda, do desenvolvimento econômico, da educação, da saúde e assim por diante... A inflação verdadeira, a que se media no tempo da moeda indexada pela diferença entre duas URVs, está aí inteira, nos esperando na esquina se soltarmos a âncora salarial. E é um sonho pensar que poderá ser controlada apenas pela política monetária, a não ser com custo social abusivo. Muito em breve o período de carência do real estará vencido e as aspirações da sociedade por outros valores (além da estabilidade) emergirão com força insuspeitada. Exatamente como se verifica agora no terremoto da inversão das preferências do povo pelos candidatos à Presidência. ","A bandeira do PT-Lulismo , que há pouco assustava, foi desmobilizada pelo próprio povo, que correu atrás do Plano Real. O PT não percebeu em tempo para onde tendia o povo. Nem notou onde estavam a força e fragilidade do programa, que, como já diziam , devia ser implementado nos meados de 1993, durante a revisão constitucional prevista na Constituição de 1988. . O governo e os partidos que o apóiam fingiam querer a reforma , mas o PT , explicitamente, foi contra. Da parte do governo , foi uma manobra eleitoreira, pois a reforma implicaria transferência de poder e de renda, o que desagradaria facções com muito poder de fogo, reação inoportuna para um período eleitoral. O PT não entendeu o oportunismo. É lamentável o adiamento, mas não invalida o programa, que é bem feito para alcançar alguns objetivos: eliminar a inflação inercial e voltar a ter o controle da oferta monetária. E ainda a prudência do ministro Rubens Ricupero reforça a credibilidade do Plano , referindo-se a seus riscos se não forem feitas as mudanças constitucionais previstas. O Plano em si não é o condão mágico para a solução dos problemas nacionais ; tem efeitos parciais e não deve durar muito , pois tem um grande custo social. "