alegria comedido: Estas as armas são com que me rende E me cativa Amor; mas não que possa Despojar-me da glória de rendido. Lembranças de meu bem, doces lembranças Que tão vivas estais nesta alma minha, Não queirais mais de mim, se os bens que tinha Em poder vedes todos de mudanças. Ai cego Amor! Ai mortas esperanças De quem eu em outro tempo me mantinha! Agora deixareis quem vos sustinha; Acabaram coa vida as confianças. Coa vida acabaram, pois a ventura Me roubou num momento aquela glória, Que,quando tão grande é, tão pouco dura. Oh! se após o prazer fora a memória! Ao menos estivera a alma segura De ganhar-se com ela mais vitória. Lembranças, que lembrais o bem passado, Pera que sinta mais o mal presente, Deixai-me, se quereis, viver contente, Morrer não me deixeis em tal estado. Se de todo, contudo, está do Fado Que eu morra de viver tão descontente, Venha-me todo o bem por acidente, E todo o mal me venha por cuidado. Que muito milhar é perder-se a vida, Perdendo-se as lembranças da memória, Pois fazem tanto dano ao pensamento. Porque, enfim, nada perde quem perdida A esperança tem já daquela glória Que fazia suave o seu tormento. Lembranças saudosas, se cuidais De me acabar a vida neste estado, Não vivo com meu mal tão enganado, Que não espere dele muito mais. De longo tempo já me costumais A viver de algum bem desesperado; Já tenho coa Fortuna concertado De sofrer os tormentos que me dais. Atada ao remo tenho a paciência Para quantos desgostos der a vida; Cuide quanto quiser o pensamento; Que ,pois não posso ter mais resistência Pera tão dura queda de subida, Aparar-lhe-ei debaixo o sofrimento. Lembranças tristes pra que gastais tempo Em cansar mais um coração cansado! Contentai-vos em me ver em tal estado, Não queirais de mim mor merecimento. Temo tão pouco já vosso tormento De andar a passar mal acostumado, Que sinto de me ver atormentado De nada poder ter contentamento. Trabalho em vão, cuidando empecer A quem a esperança tem perdida De tudo quanto teve e desejou. De perder muito não tenho que perder, Se não for esta já cansada vida Que por mor perda minha me ficou. Levantai, minhas Tágides, a frente, Deixando o Tejo às sombras nemorosas; Dourai o vale umbroso, as frescas rosas, E o monte com as árvores frondente. Fique de vós um pouco o rio ausente, Cessem agora as liras numerosas, Cesse vosso lavor, ninfas fermosas, Cesse da fonte vossa, a grã corrente. Vinde a ver a Teodósio grande e claro. A quem ´stá of'recendo maior canto Na cítara dourada o louro Apolo. Minerva do saber dá-lhe o dom raro, Palas lhe dá o valor de mais espanto, Ea Fama o leva já de pólo a pólo. Lindo e sutil trançado, que ficaste Em penhor do remédio que mereço, Se só contigo, vendo-te, endoideço, Que fora cos cabelos que apertaste? Aquelas tranças de ouro que ligaste, Que os raios do Sol têm em pouco preço, Não sei se ou pera engano do que peço, Ou para me matar as desataste. Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, E por satisfação de minhas dores, Como quem não tem outra, hei-de tornar-te. E, se não for contente o meu desejo, Dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores, Por o todo também se toma a parte. Los ojos que con blando movimiento Al pasar enternecen la alma mia, Si detener pudiera solo un dia, Pudiera bien librarla de tormiento. Deste tan amoroso sentimiento El importuno mal se acabaria; O tambien su accidente crecería Para acabar la vida en un momento. Oh! si ya tu esquivez me permitiese Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso, A manos de tus ojos yo muriese! Oh! si los detuvieras! cuan dichoso Seria aquel momento en que me viese Vida en ellos cobrar, cobrar reposo! Los que vivis sujetos a la estrella De Venus, cujo hijo Amor se llama, No digo a los que viendo cualquier dama Decís que padecís muerte por ella; Si no a los que, de amor viva centella Por una solamente el pecho inflama; Y destes lo que más ardiente llama. Sufrir por bien amar la causa della: Venida a ver mis versos, do pintado Veréis varios efectos de la suerte Que dentro en mis entrañas son formados. Veréis al propio amor terrible y fuerte, Veréis angustia, ansias y cuidados, Suspiros, llanto, pena, fe y muerte. Luísa, son tan rubios tus cabellos Que el Sol por solo vellos se detiene, Y puesto que a su lumbre no conviene La quiere más perder que no perdellos. Dichoso el que merece poder vellos Y más el que una trenza dellos tiene, Y mucho más aquel que se mantiene De solo el resplandor que sale dellos. Luísa, si la claridad tanto imensa De tu cabello que enciende los amores Y amor con otro amor se recompensa. Puesto que no meresca yo favores, Merescan ver mis oyos una trenza En pago de su llanto y mis polores. Mal, que de tempo em tempo vás crescendo, Quem te visse de um bem acompanhado! A vida passaria descansado, Da morte não temera o rosto horrendo. Se os vãos cuidados fora convertendo Em suspiros que dão outro cuidado, Oh! quão prudente, oh! quão afortunado A capela do louro irá tecendo! Tempo é já de esquecer contentamentos Passados, coa esperança que passou, E de que triunfem novos pensamentos. A fé, que viva n'alma me ficou, Dê já fim aos caducos ardimentos A que o passado bem se condenou. Males, que contra mim vos conjurastes, Quanto há-de durar tão duro intento? Se dura porque dure meu tormento, Baste-vos quanto já me atormentastes. Mas se assi porfiais porque cuidastes Derribar o meu alto pensamento, Mais pode a causa dele, em que o sustento, Que vós, que dela mesma o ser tomastes. E, pois vossa tenção com minha morte É de acabar o mal destes amores, Dai já fim a tormento tão comprido. Assi de ambos contente será a sorte: Em vós, por acabar-me, vencedores; Em mim, porque acabei, de vós vencido. Memória do bem cortado em flores, Por ordem de meus tristes e maus fados, Leixai-me descansar com meus cuidados, Nesta inquietacão de meus amores. Basta-me o mal presente e os temores Dos sucessos que espero infortunados, Sem que venham de novo bens passados Afrontar meu repouso com suas dores. Perdi nũa hora quanto em termos Tão vagarosos e largos alcancei, Leixai-me, pois, lembranças desta glória. Cumpre acabe a vida nestes ermos, Porque neles com meu mal acabarei Mil vidas, não ũa só, dura memória! Memórias ofendidas que um só dia Me não deixais em paz o pensamento, Não me daneis o gosto do tormento Que quem vos ofende vos defendia. Que me quereis? Olhai que se injuria Convosco o delicado sentimento, Que me ficou do eterno apartamento De quem tem já desfeita a morte fria. Deixaram-me coa mágoa das ofensas, Levaram um remédio que só tinha Quem irá vencer a pena que a alma sente. Onde achará do dano as recompensas Que ainda de ser triste, a dita minha Me não deixa um momento ser contente. Mi alma y tu beldad se desposaron, Terceros, por mí mal, mis ojos fueron, Y tanto se quisieron, que tuvieron Un dulce hijo a quien Amor llamaron. Y tanto sin compás le regalaron, Que sin sentir el mal que le hiçieron, Cuando de si seguros estuvieron Perdido por amores lo hallaron. Amó la más nefanda deste suelo, Nació dellos un monstro con dos asas, Es la madre la envidia, el hijo el celo. O hijo, que a tú madre en todo aplazas, Por que mortal al inmortal abuelo Y al padre que es mortal inmortal hazas. Mí gusto y tú beldad se desposaron, Terceros por mí mal mis ojos fueron; Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron Um hijo hermoso á quien amor llamaron. Tan fuera de compás le regalaron, Que cuando más alegres estuvieron, Sin entender el mal que produjeron, Perdidos por amores se miraron. La beldad desposada deste duelo, Vino á parir un monstro con dós alas; La madre es la soberbia, el niño el zelo. Oh! madre que á tu hijo en todo igualas! Quien mortal hace al inmortal abuelo, Y al padre mortal da inmortales zalas? Mil veces entre sueños tu figura, O bella ninfa, claramente veo; Y cuando más la miro, más deseo Gozar libre de sueños su hermosura. En tanto que este dulce engaño dura, Vivo en la vana gloria que poseo; Mas cuando allí se eleva mí deseo, Viene a caer despierto en sombra escura. Duéleme el despertar por contemplarte; Que si bien sé te huelgas de no verme, Huélgome de ser ciego por mirarte. Mas si quiero de engaños mantenerme, Y tú quieres me pierda por amarte Sin gran ganáncia no podré perderme. Mil vezes determino não vos ver, Por ver se abranda mais o meu penar; E, se cuido de assi me magoar, Cuidai o que será, se houver de ser. Pouco me importa já muito sofrer, Depois que Amor me pôs em tal lugar; E o que inda me dói mais é só cuidar, Que mal sem esta dor posso viver. Assi não busco eu cura contra a dor, Porque, buscando algũa, entendo bem Que nesse mesmo ponto me perdi. Quereis que viva, enfim, neste rigor? Somente o querer vosso me convém. Assi quereis que seja? Seja assi! Mil vezes se move meu pensamento A louvar o branco rosto cristalino, A trança dos cabelos de ouro fino, O claro e mais que humano entendimento. Que com brando e suave movimento Pudera romper um peito diamantino, A graça soberana, o ar divino, A honesta majestade, o doce acento. ……………………………………………………….. As pérolas escolhidas orientais, Que entre rubis mostrais no doce riso. Que essa luz que dos olhos derramais É o doce resplandor do Paraíso, Pois o demonstrais e dais com claro viso. Moradoras gentis e delicadas Do claro e áureo Tejo, que metidas Estais em suas grutas escondidas, E com doce repouso sossegadas; Agora estais de amores inflamadas, Nos cristalinos paços entretidas; Agora no exercício embevecidas Das telas de ouro puro matizadas; Movei dos lindos rostos a luz pura De vossos olhos belos, consentindo Que lágrimas derramem de tristura. E assi, com dor mais própria ireis ouvindo As queixas que derramo da Ventura, Que com penas de Amor me vai seguindo. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confianca; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudanca faz de mor espanto, Que não se muda já como soía. Na desesperação já repousava O peito longamente magoado, E, com seu dano eterno concertado, Já não temia; já não desejava; Quando ũa sombra vã me assegurava Que algum bem me podia estar guardado Em tão fermosa imagem, que o treslado Na alma ficou, que nela se enlevava. Que crédito que dá tão facilmente O coração àquilo que deseja. Quando lhe esquece o fero seu destino! Ah! deixem-me enganar, que eu sou contente; Pois, posto que maior meu dano seja, Fica-me a glória já do que imagino. Na margem de um ribeiro, que fendia Com líquido cristal um verde prado, O triste pastor Liso debruçado Sobre o tronco de um freixo assi dezia: Ah! Natércia cruel! quem te desvia Esse cuidado teu do meu cuidado? Se tanto hei-de penar desenganado, Enganado de ti viver queria. Que foi daquela fé que tu me deste, Daquele puro amor que me mostraste? Quem tudo trocar pôde tão asinha? Quando esses olhos teus noutro puseste, Como te não lembrou que me juraste Por toda a sua luz que eras só minha? Na metade do Céu subido ardia O claro, almo Pastor, quando deixavam O verde pasto as cabras, e buscavam A frescura suave da água fria. Com a folha das árvores, sombria, Do raio ardente as aves se amparavam; O módulo cantar, de que cessavam, Só nas roucas cigarras se sentia; Quando Liso, pastor, num campo verde Natércia, crua Ninfa, só buscava Com mil suspiros tristes que derrama. -Porque te vás de quem por ti se perde, Pera quem pouco te ama? – suspirava - [E] o eco lhe responde: - Pouco te ama. Na ribeira de Eufrates assentado, Discorrendo me achei pela memória Aquele breve bem, aquela glória, Que em ti, doce Siāo, tinha passado: Da causa de meus males perguntado Me foi: - Como não cantas a história De teu passado bem, e da vitória Que sempre de teu mal hás alcançado? Não sabes que a quem canta se lhe esquece O mal, inda que grave e rigoroso? Canta, pois, e não chores dessa sorte. Respondo com suspiros: - Quando crece A muita saudade, o piadoso Remédio é não cantar senão a Morte. Náiades, vós, que os rios habitais, Que os saudosos campos vão regando, De meus olhos vereis estar manando Outros que quase aos vossos são iguais. Dríades, que com seta sempre andais, Os fugitivos cervos derribando, Outros olhos vereis, que triunfando Derribam corações, que valem mais. Deixai logo as aljavas e águas frias, E vinde, Ninfas belas, se quereis, A ver como de uns olhos nascem mágoas. Notareis como em vão passam os dias; Mas em vão não vireis, porque achareis Nos seus as setas e nos meus as águas. Não há louvor que arribe à menor parte De quanto em vós se vê, bela Senhora. Vós sois vosso louvor, quem vos adora Reduz somente a este o engenho e arte. Quanto por muitas damas se reparte De belo e de fermoso, em vós agora Se junta em modo tal que pouco fora Dizer que sois o todo, elas a parte. Culpa, logo, não é, se vou louvar-vos, Ver incapazes todos os louvores, Pois tanto quis o Céu avantajar-vos. Seja a culpa de vossos resplandores; E a que eles têm vos dou, só pera dar-vos O mor louvor de todos os maiores. -Não passes, caminhante! - Quem me chama? -Ũa memória nova e nunca ouvida. De um que trocou finita e humana vida Por divina, infinita e clara fama. - Quem é que tão gentil louvor derrama? -Quem derramar seu sangue não duvida Por seguir a bandeira esclarecida De um capitão de Cristo, que mais ama. - Ditoso fim, ditoso sacrifício, Que a Deus se fez e ao mundo juntamente! Pregoando direi tão alta sorte. -Mais poderás contar a toda a gente Que sempre deu na vida claro indício De vir a merecer tão santa morte. Não vás ao monte, Nise, com teu gado, Que eu lá vi que Cupido te buscava; Por ti somente a todos perguntava, No gesto menos plácido que irado. Ele publica, enfim, que lhe hás roubado Os melhores farpões da sua aljava, E com um dardo ardente assegurava Traspassar esse peito delicado. Fuge de ver-te lá nesta aventura, Porque, se contra ti o tens iroso, Pode ser que te alcance com mão dura. Mas ai! que em vão te advirto temeroso, Se à tua incomparável fermosura Se rende o dardo seu mais poderoso! Nas cidades, nos bosques, nas florestas, Nos vales e nos montes, teus louvores Sempre te cantem músicos pastores Nas manhãs frias, nas ardentes sestas. E neste Templo donde manifestas E repartes agora teus favores, Com salmos, hinos e com várias flores Sejam célebres sempre as tuas festas. Estes te of'reçam pés, essoutros mãos; Daqueles pendam sobre os teus altares Monstros do mar, de servidão prisões. Que eu cuidados, enganos e afeições, Muito maiores monstros, e milhares Te deixo aqui de pensamentos vãos. Nem o tremendo estrépito da guerra, Com armas, com incêndios espantosos, Que despacham pelouros perigosos, Bastantes a abalar ũa alta serra, Podem pôr medo a quem nenhum encerra, Depois que viu os olhos tão fermosos, Por quem o horror nos casos pavorosos De mim todo se aparta e se desterra. A vida posso ao fogo e ferro dar, E perdê-la em qualquer duro perigo, E nele, como fénix, renovar. Não pode mal haver pera comigo, De que eu já me não possa bem livrar, Senão do que me ordena Amor imigo. No bastaba que amor puro y andiente Por términos la vida me quitase; Mas que la muerte asi se apresurase Con un deshumanissimo accidente? No pretendió mi alma, aunque lo siente, Que el riguroso curso se atajase, Porque nunca morir se exp´rimentase Desamado el que amó tan dulcemente. Mas vuestra voluntad tan poderosa Con esas gracias vuestras ordenaron Crueldad así imposible, ó nunca oída. Aquel frio desden y la amorosa Furia, de un golpe solo, me quitaron Con dós contrarias muertes una vida. No mundo poucos anos, e cansados, Vivi, cheios de vil miséria e dura: Foi-me tão cedo a luz do dia escura, Que não vi cinco lustros acabados. Corri terras e mares apartados, Buscando à vida algum remédio ou cura; Mas aquilo que, enfim, não dá Ventura, Não o dão os trabalhos arriscados. Criou-me Portugal na verde e cara Pátria minha Alanquer; mas ar corruto, Que neste meu terreno vaso tinha, Me fez manjar de peixes em ti, bruto Mar que bates a Abássia fera e avara, Tão longe da ditosa pátria minha! No mundo quis o Tempo que se achasse O bem que por acerto, ou sorte vinha; E, por exp'rimentar que dita tinha, Quis que a Fortuna em mim se exp'rimentasse. Mas porque meu destino me mostrasse Que nem ter esperanças me convinha, Nunca nesta tão longa vida minha Cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra, estado, Por ver se se mudava a sorte dura; A vida pus nas mãos de um leve lenho. Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado, Já sei que deste meu buscar ventura Achado tenho já que não a tenho. No regaço da mãe Amor estava Dormindo tão fermoso que movia O coração que mais isento o via, E a sua própria mãe de amor matava. Ela, cos olhos nele, contemplava A quanto estrago o mundo reduzia; Ele, porém, sonhando, lhe dezia Que todo aquele mal ela o causava. Soliso que, graduado em seus amores, De saber de ambos mais teve a ventura, Assi soltou a dúvida aos pastores: Se bem me ferem sempre sem ter cura Do menino os ardentes passadores, Mais me fere da mãe a fermosura. No tempo que de Amor viver soía, Nem sempre andava ao remo ferrolhado; Antes agora livre, agora atado, Em várias flamas variamente ardia. Que ardesse num só fogo não queria O Céu, porque tivesse exp'rimentado Que nem mudar as causas ao cuidado Mudança na ventura me faria. E se algum pouco tempo andava isento, Foi como quem co peso descansou, Por tornar a cansar com mais alento. Louvado seja Amor em meu tormento, Pois pera passatempo seu tomou Este meu tão cansado sofrimento! Nos braços de um silvano adormecendo Se estava aquela ninfa que eu adoro, Pagando com a boca o doce foro, Com que os meus olhos foi escurecendo. Ó bela Vénus! porque estás sofrendo Que a maior fermosura do teu coro Em um poder tão vil perca o decoro Que o mérito maior lhe está devendo? Eu levarei daqui por pressuposto, Desta nova estranheza que fizeste, Que em ti não pode haver causa segura. Que, pois o claro lume,o belo rosto Aquele monstro tão disforme deste, Não creio que haja amor, senão Ventura. Novos casos de Amor, novos enganos, Envoltos em lisonjas conhecidas; Do bem promessas falsas e escondidas, Onde do mal se cumprem grandes danos; Como não tomais já por desenganos Tantos ais, tantas lágrimas perdidas, Pois que a vida não basta, nem mil vidas, A tantos dias tristes, tantos anos? Um novo coracão mister havia, Com outros olhos menos agravados, Pera tornar a crer o que eu vos cria. Andais comigo enganos, enganados; E se o quiserdes ver, cuidai um dia O que se diz dos bem acutilados. Num bosque, que das ninfas se habitava, Cíbele, ninfa linda, andava um dia; E, subida nũa árvore sombria, As amarelas flores apanhava. Cupido, que ali sempre costumava A vir passar a sesta à sombra fria, Em um ramo arco e setas, que trazia, Antes que adormecesse, pendurava. A Ninfa, como idóneo tempo vira Para tamanha empresa, não dilata; Mas com as armas foge ao moço esquivo. As setas traz nos olhos, com que tira. Ó pastores! fugi, que a todos mata, Senão a mim, que de matar-me vivo. Num jardim adornado de verdura, Que esmaltavam por cima várias flores. Entrou um dia a deusa dos amores, Com a deusa da caça e da espessura. Diana tomou logo ua rosa pura, Vénus um roxo lírio, dos melhores; Mas excediam muito às outras flores As violas na graça e fermosura. Perguntam a Cupido, que ali estava, Qual daquelas três flores tomaria Por mais suave e pura e mais fermosa? Sorrindo-se, o Menino lhes tornava: - Todas fermosas são; mas eu queria Viola antes que lírio, nem que rosa. Num tão alto lugar, de tanto preço, Este meu pensamento posto vejo, Que desfalece nele inda o desejo, Vendo quanto por mim o desmereço. Quando esta tal baixeza em mim conheço, Acho que cuidar nele é grão despejo, E que morrer por ele me é sobejo E mor bem pera mim do que mereço. O mais que natural merecimento De quem me causa um mal tão duro e forte O faz que vá crescendo de hora em hora. Mas eu não deixarei meu pensamento, Porque, inda que este mal me cause a morte, Un bel morir tutta la vita honora. Nunca em amor danou o atrevimento; Favorece a Fortuna a ousadia; Porque sempre a encolhida covardia De pedra serve ao livre pensamento. Quem se eleva ao sublime Firmamento, A estrela nele encontra, que lhe é guia; Que o bem que encerra em si a fantesia, São ũas ilusões que leva o vento. Abrir-se devem passos à ventura; Sem si próprio ninguém será ditoso; Os princípios somente a sorte os move. Atrever-se é valor, e não loucura; Perderá por covarde o venturoso Que vos vê, se os temores não remove. O capitão romano esclarecido, Sertório, nas armas sem segundo, Tal exemplo de si deixou ao mundo, Qual nunca jamais foi visto ou ouvido. Porque, por um soldado fementido Fazer um feito torpe e caso imundo, Usou de um castigo tão profundo, Que foi dos seus por ele mui temido. Porque decimou aquela legião? Por não usar a honesta disciplina Do cru, horrendo, duro e fero Marte. Ó claro exemplo! oh! fero nobre Capitão, Que não deixaste Roma sem doutrina Da militar e invencível arte! O céu, a terra, o vento sossegado… As ondas, que se estendem pela areia. Os peixes que no mar o sono enfreia… O nocturno silêncio repousado… O pescador Aónio, que, deitado Onde co vento a água se meneia, Chorando, o nome amado em vão nomeia, Que não pode ser mais que nomeado: -Ondas – dezia – antes que Amor me mate, Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo Me fizestes à morte estar sujeita. Ninguém responde; o mar de longe bate; Move-se brandamente o arvoredo; Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita. O cisne, quando sente ser chegada A hora que põe termo à sua vida, Harmonia maior, com voz sentida, Levanta por a praia inabitada. Deseja lograr vida prolongada, E dela está chorando a despedida; Com grande saudade da partida, Celebra o triste fim desta jornada. Assi, Senhora minha, quando eu via O triste fim que davam meus amores, Estando posto já no extremo fio, Com mais suave acento de harmonia Descantei por os vossos disfavores La vuestra falsa fé y el amor mío. Ó claras aguas deste blando río, Que en vos al natural estais pintando El frondifero adorno con que alzando Se vá á los cielos este bosque umbrío; Así las lluvias, así el Austro frío Jamás puedan veniros enturbiando, Que os vais del seco estio preservando Con socorreros deste llanto mío. Y cuando en vos Marfisa se mirare, Mí figura, cual veis desfallecida, Ante sus claros ojos puesta sea. Y si por mí de vos los apartare, De verme allí mostrándose ofendida, En pena de no verme no se vea. O culto divinal se celebrava No templo donde toda criatura Louva o Feitor divino, que a feitura Com seu sagrado sangue restaurava. Amor ali que o tempo me aguardava Onde a vontade tinha mais segura, Com uma rara e angélica figura A vista da rezão me salteava. Eu, crendo que o lugar me defendia De seu livre costume, não sabendo -Que nenhum confiado lhe fugia- Deixei-me cativar; mas hoje vendo, Senhora, que por vosso me queria, Do tempo que fui livre me arrependo. O dia, em que nasci moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar; Não torne mais ao Mundo, e, se tornar, Eclipse nesse passo o Sol padeça. A luz lhe falte, o Sol se [lhe] escureça, Mostre o Mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o Mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao Mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu! O dia, hora ou o último momento Da vida em que meus fados me puseram, Já minhas esperanças se perderam, Já não me enganará meu pensamento. Triste mudanÇa, duro apartamento, Que perder em tão breve me fizeram Tudo o que meus serviços mereceram. Ó quantas cousas muda o mudamento. Não espero já ver cousa passada, Porque vejo que tão longa partida Me não consente esp'ranças de tornada. Minha fábula breve é já conhecida, Porque bem sei que tenho av'riguada De longo apartamento curta vida. O filho de Latona esclarecido, Que com seu raio alegra a humana gente, Matar pode a pitónica serpente Que mortes mil havia produzido. Feriu com arco, e de arco foi ferido, Com ponta aguda de ouro reluzente; Nas tessálicas praias docemente, Por a ninfa Peneia andou perdido. Não lhe pôde valer contra seu dano Saber, nem diligências, nem respeito De quanto era celeste e soberano. Pois se um deus nunca viu nem um engano De quem era tão pouco em seu respeito, Eu que espero de um ser, que é mais que humano? O fogo que na branda cera ardia, Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo, Se acendeu de outro fogo do desejo, Por alcancar a luz que vence o dia. Como de dois ardores se encendia, Da grande impaciência fez despejo, E, remetendo com furor sobejo, Vos foi beijar na parte onde se via. Ditosa aquela Dama, que se atreve A apagar seus ardores e tormentos Na vista a quem o Sol temores deve! Namoram-se, Senhora, os Elementos De vós, e queima o fogo aquela neve Que queima coracões e pensamentos. Ó gloriosa Luz, ó vitorioso Troféu de despojos rodeado, Ó sinal escolhido e ordenado Pera remédio tão maravilhoso. Ó fonte viva de licor sabroso, Em ti nosso mal todo foi curado, Em ti o Senhor, que forte era chamado, Quis merecer o nome de Piadoso. Em ti se acabou o tempo da vingança, Em ti misericórdia assi floreça, Como depois do Inverno a Primavera. Todo o imigo ante ti desapareça, Tu pudeste fazer tanta mudança Em quem nunca deixou de ser quem era. O raio cristalino se estendia Por o mundo da Aurora marchetada, Quando Nise, pastora delicada, Donde a vida deixava se partia. Dos olhos, com que o Sol escurecia, Levando a luz em lágrimas banhada, De si, do Fado e tempo magoada, Pondo os olhos no céu, assi dezia: -Nasce, sereno Sol, puro e luzente; Resplandece, purpúrea e branca Aurora, Qualquer alma alegrando descontente; Que a minha, sabe tu que, desde agora, Jamais na vida a podes ver contente, Nem tão triste nenhũa outra pastora. O tempo acaba o ano, o mês e a hora, A força, a arte, a manha, a fortaleza; O tempo acaba a fama e a riqueza, O tempo o mesmo tempo de si chora; O tempo busca e acaba o onde mora Qualquer ingratidão, qualquer dureza; Mas não pode acabar minha tristeza, Enquanto não quiserdes vós, Senhora. O tempo o claro dia torna escuro, E o mais ledo prazer em choro triste; O tempo a tempestade em grão bonança. Mas de abrandar o tempo estou seguro, O peito de diamante, onde consiste A pena e o prazer desta esperança. O tempo está vingado à custa mia, Do tempo que no tempo não hei olhado; Triste quem do tempo em tal estado Que o tempo e todo o tempo não temia. Bem me castigou o tempo e a porfia De haver-me com só o tempo descuidado, Pois tão sem tempo o tempo me há deixada Que já não espero tempo de alegria. Passaram horas, tempos e momentos Em que pudera do tempo aproveitar-me, Pera escusar com tempo meu tormento. Mas, pois quis do tempo confiar-me, Sendo o tempo do desvario e movimento De mim, que não do tempo posso queixar-me. Ó tu que vás buscando com cuidado Repouso neste mar do mundo tempestoso Nāo esperes de achar nenhum repouso Salvo em Cristo Jesus crucificado. Se por riquezas vives desvelado, Em Deus ´stá o tesouro mais precioso; Se ´stás de fermosura desejoso, Se olhas este Senhor, ficas namorado. Se tu buscas deleites ou prazeres N'Ele está o dulçor de todos os dulçores, Que a todos nós deleita com vitória. Se porventura glória ou honra queres, Que mar honra pode ser, nem glória Que servir ao Senhor grande dos senhores! Oh! Arma unicamente só, triunfante, Propugnáculo só de nossas vidas, Por quem foram ganhadas as perdidas Com que o Tártaro horrendo andava ovante! Siga-se esta bandeira militante Por quem são tais vitórias conseguidas, Por quantas almas, dela divertidas, No Ponente erram cá, lá no Levante. Oh! Árvore sublime e marchetada De branco e carmesi, de ouro embutida, Dos rubis mais preciosos esmaltada. E de troféus mais claros guarnecida! À vida a morte vimos em ti dada, Pera que em ti se desse à morte a vida. Oh cese ya, Señor, Tú dura mano! No llegues tanto al cabo con mi vida; Baste el estar por Ti tan consumida, Que ya no se halla en ella lugar sano. Ay estraña hermosura! ay deshumano Hado, á que nunca puedo hallar salida! Si Tú de Tú piedad no eres movida, Roto el hilo vital verás temprano. Un blando desamor, un amor blando, Bien basta para un hombre tan perdido, Que de su mal ningún remedio espera. Y si estimas en poco el ver cual ando, Aqui me tienes ante Ti rendido; Viva Tú gusto, mi esperanza muera. Oh! Como se me alonga de ano em ano A peregrinação cansada minha! Como se encurta e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano! Minguando a idade vai, crescendo o dano; Perdeu-se-me um remédio, que inda tinha; Se por experiência se adivinha, Qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; No meio do caminho me falece; Mil vezes caio e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e na tardança, Se os olhos ergo, a ver se inda aparece, Da vista se me perde e da Esperança. Oh! fortuna cruel! oh! dura sorte! Trabalho que me pôs em tal estado, Que não quero já ser desenganado Nem tem cura meu mal senão a morte! És cego, diz, Amor? porque tão forte Te mostras contra quem tão mal tratado Anda de te servir, e magoado Traz o coracão f'rido de teu corte? Mas já que não quer mal senão tratar-me Ah! cruel fortuna minha! ó amor, Deixa-me sequer poder queixar-me! Porque em tanto trabalho e tanta dor, Mal poderei sem isto consolar-me, Já que de ti não quero outro favor. Oh! quanto milhor é o supremo dia Da mansa morte, que o do nascimento! Oh! quanto milhor é um só momento, Que livra de anos tantos de agonia! De alcançar outro bem cesse a porfia; Cesse todo aplicado pensamento De tudo quanto dá contentamento, Pois só contenta ao corpo a terra fria. O que do seu fez Deus seu despenseiro, Tem mais estreita conta que lhe dar; Então parece rico o ovelheiro. Triste de quem no dia derradeiro Tem o suor alheio por pagar, Pois a alma há-de vender por o dinheiro! Oh! quão caro me custa o entender-te, Molesto Amor, que, só por alcançar-te, De dor em dor me tens trazido a parte Donde em ti ódio e ira se converte! Cuidei que, para em tudo conhecer-te, Me não faltava experiência e arte; Mas na alma vejo agora acrescentar-te Aquilo que era causa de perder-te. Estavas tão secreto no meu peito, Que eu mesmo, que te tinha, não sabia Que me senhoreavas deste jeito. Descobriste-te agora; e foi por via Que teu descobrimento e meu defeito, Um me envergonha e outro me injuria. Oh! rigorosa ausência desejada De mim sempre, mas nunca conhecida! Saudade, noutro tempo tão temida Como em meu dano agora exp'rimentada! Já rigorosamente começada Tendes vossa esperança em minha vida; Mas tanto, que ja temo que oprimida Sejais com ela cedo, ou acabada. Os dias mais alegres me entristecem; As noites, com cuidados as desconto, Em que sem vós sem conto me parecem. Eu desejando espero e os anos conto; Mas com a vida, enfim, eles falecem: Nem basta à carne enferma esprito pronto. Olhos fermosos, em quem quis Natura Mostrar do seu poder altos sinais, Se quiserdes saber quanto possais, Vede-me a mim,que sou vossa feitura. Pintada em mim se vê vossa figura, No que eu padeço retratada estais; Que se eu passo tormentos desiguais, Muito mais pode vossa fermosura. De mim não quero mais que o meu desejo; Ser vosso, e só de ser vosso me arreio, Porque o vosso penhor em mim se assele. Não me lembro de mim quando vos vejo, Nem do mundo; e não erro, porque creio Que, em lembrar-me de vós, cumpro com ele. Ondados fios de ouro, onde enlaçado Continuamente tenho o pensamento; Que quanto mais vos solta o fresco vento, Mais preso fico então de meu cuidado; Amor, duns belos olhos sempre armado, Me combate coas forcas do tormento, Provando da minha alma o sofrimento Que à justa lei da paz trago obrigado. Assi que em vosso gesto mais que humano Amo a paz juntamente e o perigo; E em amar um e outro não me engano. Muitas vezes dezendo estou comigo Que, pois é tal a causa de meu dano, É justa a guerra, é justa a paz que sigo. Ondados fios de ouro reluzente, Que, agora da mão bela recolhidos, Agora sobre as rosas esparzidos, Fazeis que sua graça se acrecente; Olhos, que vos moveis tão docemente, Em mil divinos raios encendidos, Se de cá me levais a alma e sentidos, Que fora, se eu de vós não fora ausente? Honesto riso, que entre a mor fineza De perlas e corais nasce e aparece; Oh quem seus doces ecos já lhe ouvisse! Se, imaginando só tanta beleza, De si com nova glória a alma se esquece, Que será quando a vir? Ah! quem a visse! Ondas que por el mundo caminando Contino vais llevadas por el viento, Llevad embuelto en vos mi pensamiento, Do está la que do estáí lo está causando. Dizilde que os estoy acrecentando, Dizilde que de vida no hay momento, Dizilde que no muere mi tormento, Dizilde que no vivo ya esperando. Dizilde cuan perdido me hallastes, Dizilde cuan ganando me perdistes, Dizilde cuan sin vida me matastes. Dizilde cuan llagado me feristes, Dizilde cuan sin mí que me dejastes, Dizilde cuan con ella que me vistes! Onde acharei lugar tão apartado E tão isento em tudo da ventura, Que, não digo eu de humana criatura, Mas nem de feras seja frequentado? Algum bosque medonho e carregado, Ou selva solitária, triste e escura, Sem fonte clara ou plácida verdura, Enfim, lugar conforme a meu cuidado? Porque ali, nas entranhas dos penedos, Em vida morto, sepultado em vida, Me queixe copiosa e livremente; Que, pois a minha pena é sem medida, Ali não serei triste em dias ledos E dias tristes me farão contente. Onde mereci eu tal pensamento, Nunca de ser humano merecido? Onde mereci eu ficar vencido De quem tanto me honrou co vencimento? Em glória se converte o meu tormento, Quando, vendo-me, estou tão bem perdido, Pois não foi tanto mal ser atrevido, Como foi glória o mesmo atrevimento. Vivo, Senhora, só de contemplar-vos; E, pois esta alma tenho tão rendida, Em lágrimas desfeito acabarei. Porque não me farão deixar de amar-vos Receios de perder por vós a vida, Que por vós vezes mil a perderei. Onde porei meus olhos que não veja A causa de que nasce o meu tormento? A qual parte me irei co pensamento, Que pera descansar parte me seja? Já sei como se engana quem deseja Em vão amor fiel contentamento; E que nos gostos seus, que são de vento, Sempre falta seu bem, seu mal sobeja. Mas inda, sobre o claro desengano, Assi me traz esta alma subjugada, Que dele está pendendo o meu desejo. E vou de dia em dia, de ano em ano, Após um não sei quê, após um nada, Que quanto mais me chego, menos vejo. Orfeo enamorado que tañía Por la perdida ninfa que buscaba, En el Orco implacable donde estaba, Con la arpa y con la voz le enternecía. La rueda de Ixión no se movía, Ningún atormentado se quejaba, Las penas de los otros ablandaba, Y todas las de todos él sentía. El son pudo obligar de tal manera, Que, en dulce galardón de lo cantado, Los infernales Reyes, condolidos, Le mandaron volver su compañera; Y volvióla á perder lo desdichado, Con que fueron entrambos los perdidos. Ornou sublime esforço ao grande Atlante, Com que a celeste máquina sustenta; Honrou a Homero o engenho, com que intenta Grécia do quarto Céu passá-lo avante; Curvou claro Amor de amor constante A Orfeu, na paz firme e na tormenta; Inspirou a Fortuna, em tudo isenta, A César, de quem foi um tempo amante; Exaltaste tu, Fama, a glória alta, De Alcides lá no monte em que resides; Mas Castro, em quem o Céu seus dões derrama, Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta, Que Atlante, Homero, Orfeu, César e Alcides, Esforço, Engenho, Amor, Fortuna e Fama. Os meus alegres, venturosos dias Passaram, como raio, brevemente; Movem-se os tristes mais pesadamente Após das fugitivas alegrias. Ah! falsas pretensões! vãs fantesias! Que me podeis já dar que me contente? Já de meu triste peito a chama ardente O tempo reduziu a cinzas frias. Nelas revolvo agora erros passados; Que outro fruito não deu a mocidade, A quem vergonha e dor minha alma deve. Revolvo mais de toda a mais idade, Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados, Pera que leve tudo o tempo leve. Os olhos onde o casto Amor ardia, Ledo de se ver neles abrasado; O rosto onde com lustre desusado Purpúrea rosa sobre neve ardia; O cabelo, que inveja ao Sol fazia, Porque fazia o seu menos dourado; A branca mão, o corpo bem talhado, Tudo aqui se reduz a terra fria. Perfeita fermosura em tenra idade, Qual flor, que antecipada foi colhida, Murchada está da mão da morte dura. Como não morre Amor de piadade? Não dela, que se foi à clara vida; Mas de si, que ficou em noite escura. Os reinos e os impérios poderosos, Que em grandeza no mundo mais cresceram, Ou por valor de esforço floreceram, Ou por varões nas letras espantosos. Teve Grécia Temístocles famosos; Os Cipiões a Roma engrandeceram; Dozes Pares a França glória deram; Cides a Espanha e Laras belicosos. Ao nosso Portugal (que agora vemos Tão diferente de seu ser primeiro) Os vossos deram honra e liberdade. E em vós, grão sucessor e novo herdeiro Do braganção estado, há mil extremos Iguais ao sangue e mores que a idade. Os vestidos Elisa revolvia, Que Eneias lhe deixara por memória. Doces despojos da passada glória. Doces, quando seu Fado o consentia. Entre eles a fermosa espada via, Que instrumento, enfim, foi da triste história; E, como quem de si tinha a vitória, Falando só com ela, assi dezia: - Fermosa e nova espada, se ficaste Só porque executasses os enganos De quem te quis deixar, em minha vida, Sabe que tu comigo te enganaste; Que, para me tirar de tantos danos, Sobeja-me a tristeza da partida. Passo por meus trabalhos tão isento De sentimento grande nem pequeno, Que só por a vontade com que peno Me fica amor devendo mais tormento. Mas vai-me amor matando tanto a tento Temperando a triaga co veneno, Que do penar a ordem desordeno, Porque não mo consente o sofrimento. Porém, se esta fineza o Amor sente, E pagar-me meu mal com mal pretende, Toma-me com prazer como ao sol neve; Mas, se me vê cos males tão contente, Faz-se avaro da pena, porque entende Que quanto mais me paga, mais me deve. Pede o desejo, Dama, que vos veja. Não entende o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado, Que quem o tem não sabe o que deseja. Não há coisa a qual natural seja Que não queira perpétuo o seu estado. Não quer logo o desejo o desejado, Só porque nunca falte onde sobeja. Mas este puro afecto em mim se dana; Que, como a grave pedra tem por arte O centro desejar da Natureza, Assi meu pensamento, por a parte, Que vai tomar de mim terrestre, humana, Foi, Senhora, pedir esta baixeza. Pensamentos, que agora novamente Cuidados vãos em mim ressuscitais, Dizei-me: Ainda não vos contentais De ter a quem vos tem tão descontente? Que fantesia é esta, que presente Cada hora ante os meus olhos me mostrais? Com uns sonhos tão vãos inda tentais Quem nem por sonhos pode ser contente? Vejo-vos, pensamentos alterados, E não quereis, de esquivos, declarar-me Que é isto que vos traz tão enleados? Não me negueis, se andais para negar-me Porque, se contra mim 'stais levantados, Eu vos ajudarei mesmo a matar-me. À Conceicão de Virgem Nossa Senhora Pera se namorar do que criou, Te fez Deus, sacra Fénix, Virgem pura, Vede que tal seria esta feitura Que para Si o Seu Feitor guardou! No Seu alto conceito Te formou Primeiro que a primeira criatura, Pera que única fosse a compostura Que de tão longo tempo se estudou. Não sei se digo em tudo quanto baste Pera exprimir as raras qualidades Que quis criar em Ti quem Tu criaste. És Filha, Mãe e Esposa: e se alcançaste Ũa só, três tão altas dignidades, Foi porque a Trés de Um só tanto agradaste Perder-me assi em vosso esquecimento Não me consente o ser por vós perdido. Que sê-lo eu, e ser de vós subido, Ou consentido, já eu me contento. Mas tratardes com um descuido isento Quem vos tem o contrário merecido, Bem que me tenha a mim n'alma ofendido Mais me ofende em vós o merecimento. Não pode sofrer-vos culpa a vontade, Que comigo vos entreguei, Senhora, Nem cousa que em vós pareca tacha. Ache em vosso rosto piadade, Pois nele enfim com gracas mora, E toda a perfeicão em vós se acha. Pois meus olhos não cansam de chorar Tristezas, não cansadas de cansar-me; Pois não abranda o fogo em que abrasar-me Pôde quem eu jamais pude abrandar; Não canse o cego Amor de me guiar Onde nunca de lá possa tornar-me; Nem deixe o mundo todo de escutar-me, Enquanto a fraca voz me não deixar. E se em montes, se em prados, e se em vales Piadade mora algūa, algum amor Em feras, plantas, aves, pedras, águas Ouçam a longa história de meus males E curem sua dor com minha dor; Que grandes mágoas podem curar mágoas. Pois torna por seu Rei e juntamente Por Cristo a governar aquela parte Onde se tem mostrado um Numa, um Marte, O famoso Luís, justo e valente; O Tejo espere ver de todo o Oriente, Onde tão raros dões o Céu reparte, Render a tanto esforço, aviso e arte, Mil palmas, mil tributos novamente. Os que bebem no Gange, os que no Indo, A quem pouco valeram lanca e escudo, O render-se terão por bom partido. O Eufrates temerá, seu nome ouvindo; Que pera dele ver vencido tudo, Já viu do braço seu tudo vencido. Por cima destas águas, forte e firme, Irei aonde os Fados o ordenaram, Pois por cima de quantas derramaram Aqueles claros olhos pude vir-me. Já chegado era o fim de despedir-me; Já mil impedimentos se acabaram, Quando rios de amor se atravessaram A me impedir o passo de partir-me. Passei-os eu com ânimo obstinado, Com que a morte forçada gloriosa Faz o vencido já desesperado. Em que figura, ou gesto desusado, Pode já fazer medo a morte irosa A quem tem a seus pés rendido e atado? Por gloria tuve un tiempo el ser perdido; Perdíame de puro bien ganado; Gané cuando perdí ser libertado; Libre ahora me veo, mas vencido. Vencí cuando de Nise fuí rendido; Rendíme por no ser della dejado; Dejóme en la memoria el bien pasado; Paso ahora a llorar lo que he servido. Servía al premio de la luz que amaba; Amándola esperábale por cierto, Incierto me salió cuanto esperaba. La esperanza se queda en desconcierto; El concierto en el mal que no pensaba; El pensamiento con un fin incierto. Por os raros extremos que mostrou Em sábia Palas, Vénus em fermosa, Diana em casta, Juno em animosa, África, Europa e Ásia as adorou. Aquele saber grande que juntou Esprito e corpo em liga generosa, Esta mundana máquina lustrosa, De sós quatro Elementos fabricou. Mas fez maior milagre a Natureza Em vós, Senhoras, pondo em cada uma O que por todas quatro repartiu. A vós seu resplendor deu Sol e Lua; A vós com viva luz, graca e pureza, Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu. Por sua ninfa, Céfalo deixava A Aurora, que por ele se perdia, Posto que dá princípio ao claro dia, Posto que as roxas flores imitava. Ele, que a bela Prócris tanto amava Que só por ela tudo enjeitaria, Deseja de tentar se lhe acharia Tão firme fé como ela nele achava. Mudado o traje, tece um duro engano: Outro se finge, preço põe diante; Quebra-se a fé mudável, e consente. Oh! sutil invenção pera seu dano! Vede que manhas busca um cego amante, Pera que sempre seja descontente! À Paixão de Cristo Nosso Senhor Porque a tamanhas penas Se oferece, Por o pecado alheio e erro insano, O Trino Deus? Porque o sujeito humano Não pode co castigo que merece? Quem padecerá as penas que padece? Quem sofrerá desonra, morte e dano? Quem será, se não for o Soberano Que reina, e servos manda, e obedece? Foi a força do homem tão pequena, Que não pôde suster tanta aspereza, Pois não susteve a Lei que Deus ordena. Mas sofre-a aquela imensa Fortaleza Por amor puro; que a mortal fraqueza Foi pera o erro, e não já pera a pena. Porque a Terra no Céu agasalhasse, O Céu na Terra Deus agasalhou; Lá não cabendo, cá Se acomodou, Porque lá, de cá indo, se alargasse. Porque o homem a ser Deus por Deus chegasse, Por o homem a ser homem Deus chegou; Seu divino poder tanto humanou, Porque o humano em divino se tornasse. Vede bem o que deu e recebeu; Não se perca um bem tanto da memória: Deu-nos a vida, a morte padeceu. Trocou por nossa pena a Sua glória; Deu-nos o triunfo que Ele mereceu; Porque amor foi autor desta vitória. Porque me faz Amor inda acá torto, O mal te faga Deus, desbergonzado, Rapaz vil, descortés, que me hás guiado A ber a Biolante, que me há morto: Bila, por mas non berme tomar porto, En repouso ningún desbenturado, Mas pera chorar sempre quede a bado As águas de meus olhos son conforto: Bem vi ser tua madre Cipriana Una mundana astrosa, desonesta. Cruel, falsa, sem lei, dura e tirana: Que a bós ela ser outra, e não ser esta, Não tiberas bontá tão desumana, Nem fora contra mim tão cruda besta. Porque quereis, Senhora, que ofereça A vida a tanto mal como padeço? Se vos nasce do pouco que eu mereço, Bem por nascer está quem vos mereça. Entendei que por muito que vos peça, Poderei merecer quanto vos peço; Pois não consente Amor que em baixo preço Tão alto pensamento se conheça. Assi que a paga igual de minhas dores Com nada se restaura; mas deveis-ma, Por ser capaz de tantos disfavores. E se o valor de vossos amadores Houver de ser igual convosco mesma, Vós só convosco mesma andai de amores. Posto me tem fortuna em tal estado, E tanto a seus pés me tem rendido! Não tenho que perder já, de perdido; Nem tenho que mudar já, de mudado. Todo o bem pera mim é acabado; Daqui dou o viver já por vivido; Que, aonde o mal é tão conhecido, Também o viver mais será escusado. Se me basta querer, a morte quero, Que bem outra esperança não convém; E curarei um mal com outro mal. E, pois do bem tão pouco bem espero, Já que o mal esse só remédio tem, Não me culpem em qu'rer remédio tal. Presença bela, angélica figura, Em quem quanto o Céu tinha nos tem dado; Gesto alegre, de rosas semeado, Entre as quais se está rindo a Fermosura; Olhos onde tem feito tal mistura Em cristal puro o negro marchetado, Que vemos já no verde delicado Não esperanças, mas inveja escura; Brandura, aviso e graça, que aumentando A natural beleza cum desprezo, Com que, mais desprezada mais se aumenta: São as prisões de um coração que, preso, Seu mal ao som dos ferros vai cantando, Como faz a sereia na tormenta. Presenca moderada e graciosa, Onde ensinando estão despejo e siso Que se pode por arte e por aviso, Como por natureza, ser fermosa; Fala de que ou já vida, ou morte pende, Rara e suave, enfim, Senhora, vossa, Repouso na alegria comedido: Estas as armas são com que me rende E me cativa Amor; mas não que possa Despojar-me da glória de rendido. Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes, En lágrimas tratais la noche y día, Mirad si es lágrima esta que os envia Aquel sol por quien vos tantas vertistes. Si vos me asegurais, pues ya la vistes, Que és lágrima, será ventura mia; Por empleadas bien desde hoy tendria Las muchas que por ella sola distes. Mas cualquier cosa mucho deseada, Aunque viendo se esté, nunca es creida; Y menos esta, nunca imaginada. Pero della aseguro, si es fingida, Que basta ser por lágrima enviada, Para que sea por lágrima tenida. Qual tem a borboleta por costume, Que enlevada na luz da acesa vela, Dando vai voltas mil, até que nela Se queima agora,agora se consume, Tal eu correndo vou ao vivo lume Desses olhos gentis, Aónia bela; E abraso-me, por mais que com cautela Livrar-me a parte racional presume. Conheço o muito a que se atreve a vista, O quanto se levanta o pensamento, O como vou morrendo claramente; Porém, não quer Amor que lhe resista, Nem a minh'alma o quer; que em tal tormento, Qual em glória maior, está contente. Quando a suprema dor muito me aperta, Se digo que desejo esquecimento, É força que se faz ao pensamento, De que a vontade livre desconcerta. Assi, de erro tão grave me desperta A luz do bem regido entendimento, Que mostra ser engano ou fingimento, Dizer que em tal descanso mais se acerta. Porque essa própria imagem, que na mente Me representa bem de que careço, Faz-mo de um certo modo ser presente. Ditosa é, logo, a pena que padeço, Pois que da causa dela em mim se sente Um bem que, inda sem ver-vos, reconheço. Quando cuido no tempo que contente Vi as pérolas, neve, rosa e ouro, Como quem vê por sonhos um tesouro, Parece tudo tenho aqui presente. Mas tanto que se passa este acidente E vejo o quão distante de vós mouro, Temo quanto imagino por agouro, Porque de imaginar também me ausente. Já foram dias em que por ventura Vos vi, Senhora, se, assi dizendo, posso Co coração seguro estar sem medo; Agora, em tanto mal não me assegura A própria fantesia e nojo vosso: Eu não posso entender este segredo! Quando da bela vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão elevado sinto o pensamento, Que me faz ver na Terra o Paraíso. Tanto do bem humano estou diviso, Que qualquer outro bem julgo por vento: Assi que, em termo tal, segundo sento, Pouco vem a fazer quem perde o siso. Em louvar-vos, Senhora, não me fundo, Porque quem vossas graças claro sente, Sentirá que não pode conhecê-las; Pois de tanta estranheza sois ao mundo, Que não é de estranhar, Dama excelente, Que quem vos fez fizesse céu e estrelas. Quando da vossa vista me apartava, O duro mal da ausência já sentia; A água que dos olhos vos corria O fogo em que eu ardia acrescentava. A alma que convosco me ficava, Contente do efeito que em vós via, De todo o bem passado que esquecia E só no mal presente se ocupava. Lágrimas poderosas, que o desejo Me obrigais que vos ame seu tormento, O coracão adore dor que sente: Bem sei que me enganais, que claro vejo Com chorardes por mim quando me ausento É porque sinta mais o estar ausente. Quando de minhas mágoas a comprida Maginação os olhos me adormece, Em sonhos aquela alma me aparece, Que pera mim foi sonho nesta vida. Lá nũa soidade, onde estendida A vista por o campo desfalece, Corro após ela; e ela então parece Que mais de mim se alonga, compelida. Brado: - Não me fujais, sombra benina! - Ela, os olhos em mim cum brando pejo, Como quem diz que já não pode ser, Torna a fugir-me; torno a bradar: Dina... E antes que diga mene, acordo, e vejo Que nem um breve engano posso ter. Quando descansareis olhos cansados, Pois que já não vedes quem vos dava vida, Ou quando vereis fim à despedida A tantas desventuras e cuidados? Ou quando quererão meus duros fados Erguer minha esperança tão caída; Ou quando, se de todo é já perdida, Alcançar podereis meus bens passados. Bem sei que hei-de morrer nesta saudade Em que meu esperar é todo vento, Pois nada espero ao que desejo. E, pois tão clara vejo esta verdade, Bem pode vir a mim todo o tormento, Que me não há-de espantar, pois sempre o vejo. Quando do raro esforço que mostravas Largo fruito na guerra produzias, Cortou-te a parca em flor, porque excedias Com teus feitos os anos que contavas. De armas cobrindo o rosto afiguravas Marte encoberto, amor se o descobrias Que se coa espada os esquadrões abrias Com jeito os olhos após ti levavas. Não pode, não, ferir-te imigo ferro, Vulcano foi, que com sua fortaleza O mais seguro arnês divide e parte. Dá porém, por desculpa do seu erro, Que creu de teu esforço e gentileza Que eras filho de Vénus e de Marte. Quando o Sol encoberto vai mostrando Ao mundo a luz quieta e duvidosa, Ao longo de uma praia deleitosa Vou na minha inimiga imaginando. Aqui a vi, os cabelos concertando; Ali, coa mão na face tão fermosa; Aqui falando alegre, ali cuidosa; Agora estando queda, agora andando. Aqui esteve sentada, ali me viu, Erguendo aqueles olhos tão isentos; Comovida aqui um pouco, ali segura; Aqui se entristeceu, ali se riu. E,enfim,nestes cansados pensamentos Passo esta vida vã, que sempre dura. Quando os olhos emprego no passado, De quanto passei me acho arrependido; Vejo que tudo foi tempo perdido, Que todo emprego foi mal empregado. Sempre no mais danoso mais cuidado; Tudo o que mais cumpria, mal cumprido; De desenganos menos advertido Fui, quando de esperanças mais frustrado. Os castelos que erguia o pensamento, No ponto que mais altos os erguia, Por esse chão os via em um momento. Que erradas contas faz a fantesia! Pois tudo pára em morte, tudo em vento, Triste o que espera! triste o que confia! Quando se vir com água o fogo arder, Juntar-se ao claro dia a noite escura, E a Terra colocada lá na altura, Em que se vêem os Céus prevalecer; Quando Amor à Rezão obedecer, E em todos for igual uma ventura, Deixarei eu de ver tal fermosura, E de a amar deixarei depois de a ver. Porém, não sendo vista esta mudança No mundo, porque, enfim, não pode ver-se, Ninguém mudar-me queira de querer-vos. Que basta estar em vós minha esperança E o ganhar-se a minha alma ou o perder-se Pera dos olhos meus nunca perder-vos. Quando, Senhora, quis Amor que amasse Essa gra perfeição e gentileza, Logo deu por sentença que a crueza Em vosso peito Amor acrescentasse. Determinou que nada me apartasse, Nem disfavor cruel, nem aspereza, Mas que em minha raríssima firmeza Vossa isenção cruel se executasse. E, pois tendes aqui oferecida Esta alma vossa a vosso sacrifício, Acabai de fartar vossa vontade. Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida; Acabará morrendo em seu ofício, Sua fé defendendo e lealdade. Quando vejo que meu destino ordena Que, por me exp'rimentar, de vós me aparte, Deixando de meu bem tão grande parte, Que a mesma culpa fica grave pena, O duro disfavor que me condena, Quando pela memória se reparte, Endurece os sentidos de tal arte, Que a dor da ausência fica mais pequena. Mas como pode ser que na mudança Daquilo que mais quero, estê tão fora De me não apartar também da vida? Eu refrearei tão áspera esquivança; Porque mais sentirei partir, Senhora, Sem sentir muito a pena da partida. Quanta incerta esperança, quanto engano! Quanto viver de falsos pensamentos, Pois todos vão fazer seus fundamentos Só no mesmo em que está seu próprio dano! Na incerta vida estribam de um humano; Dão crédito a palavras que são ventos; Choram depois as horas e os momentos Que riram com mais gosto em todo o ano. Não haja em aparências confianças; Entendei que o viver é de emprestado; Que o de que vive o mundo são mudanças. Mudai, pois, o sentido e o cuidado, Somente amando aquelas esperanças Que duram pera sempre co amado. Quantas penas, Amor, quantos cuidados, Quantas lágrimas tristes sem proveito, De que mil vezes olhos, rosto e peito, Por ti, cego, me viste já banhados; Quantos mortais suspiros derramados Do coração por tanto a ti sujeito, Quantos males, enfim, tu me tens feito, Todos foram em mim bem empregados. A tudo satisfaz, confesso-te isto, Ũa só vista branda e amorosa De quem me cativou minha ventura. Oh! sempre pera mim hora ditosa! Que posso temer já, pois tenho visto, Com tanto gosto meu, tanta brandura? Quantas vezes do fuso se esquecia Daliana, banhando o lindo seio, Outras tantas, de um áspero receio Salteado, Laurénio a cor perdia. Ela, que a Sílvio mais que a si queria, Pera podê-lo ver não tinha meio, Ora como curara o mal alheio Quem o seu mal tão mal curar podia? Ele, que viu tão clara esta verdade, Com soluços dezia, que a espessura Inclinavam, de mágoa, a piadade; -Como pode a desordem da natura Fazer tão diferentes na vontade Aos que fez tão conformes na ventura? Quanto por muitos dias fui colhendo, Com meus suspiros, tudo perde um dia; Os sinais que o leão cos pés fazia Todos a cauda lhe ia desfazendo. Gozarão outros o que foi rendendo De meus versos suaves a harmonia, Cavavam ũa terra que ouro cria Animais, iam homens recolhendo. Mas não é mor a glória do pintor E daquele que alcança a nobre palma, Sem gozar os despojos da vitória; Num tosco coração pintei amor, Fiz com que conhecesse sua glória. Rendei embora o corpo eu renda a alma. Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento Vos hei-de ver tão tristes e agravados? Não bastam meus suspiros inflamados, Que sempre em mim renovam seu tormento? Não basta consentir meu pensamento Em mágoas, em tristezas e em cuidados, Senão que haveis de andar tão maltratados, Que lágrimas tenhais por mantimento? Não sei por que tomais esta vingança, Mostrando-vos na ausência tão saudosos, Se sabeis quanto pode ũa esperança. Olhos, não agraveis outros fermosos, Tornando um puro amor em esquivança, Pois ficais por esquivos desdenhosos. Quão bem-aventurado me achara, Se o amor tanto me favorecera, E assi como menos mostrar quisera Com ver no mais me contentara. Inteiro e perfeito o bem lograra, Se meu desejo a mais se não atrevera, Pois já que pude ver-vos, merecera Ao menos alcancar o que desejara. Este desejo meu, esta ousadia, Nasceu comigo depois que pude ver-vos, E com vos ver, Senhora, se acrescenta. Trabalho de o tirar da fantesia, Porquanto creio ofender-vos, Mas quanto mais resisto mais se aumenta. Quāo cedo te roubou a morte dura Ânimo ilustre a grandes cousas dado! Deixando o frio corpo assi lancado Em estranha mas nobre sepultura! Desta vida de cá que pouco dura Todo de sangue imigo já banhado, Por mão de teu valor foste levado Aos campos da imortal vida segura. O esprito goza da ditosa idade, E o corpo não cabendo cá na Terra As aves que o levassem se entregou. Deixaste a todos mágoa e saudade; Buscaste morte honrosa em dura guerra, Deu-te o Tejo e o Ganges te levou. Que doido pensamento é o que sigo? Após que vão cuidado vou correndo? Sem ventura de mim! que não me entendo; Nem o que calo sei, nem o que digo. Pelejo com quem trata paz comigo; De quem guerra me faz não me defendo. De falsas esperanças que pretendo? Quem do meu próprio mal me faz amigo? Porque, se nasci livre, me cativo? E pois o quero ser, porque o não quero? Como me engano mais com desenganos? Se já desesperei, que mais espero? E se inda espero mais, porque não vivo? E se vivo, que acuso mortais danos? Que es esto, Dios de amor, que ya no vales Las damas dicen que obras son amores, Y ya no quieren gracias ni primores, Si no buenas prendas y reales. Rendieronse al amor de tres metales: Con plata y oro tiran las mayores, Y tiran con el cobre las menores, Que todas ellas son interesales. Bien puede cometerse sin recelo Con un hermoso tiro de moneda La más dura mujer de las del suelo. Y se algún resabio en ellas queda, Con un ropón de raso o terciopelo Las torna Amor más blandas que la seda. -Que esperais, esperança? – Desespero. -Quem disso a causa foi? – Ũa mudança. -Vós, vida, como estais? – Sem esperança. -Que dizeis, coraçāo? – Que muito quero. -Que sentis, alma, vós? – Que amor é fero. -E, enfim, como viveis? – Sem confiança. -Quem vos sustenta, logo? – Ũa lembrança. -E só nela esperais? – Só nela espero. -Em que podeis parar? – Nisto em que estou. -E em que estais vós? – Em acabar a vida. -E tende-lo por bem? – Amor o quer. -Quem vos obriga assi? – Saber quem sou. - E quem sois? – Quem de todo está rendida. -A quem rendida estais? – A um só querer. -Que estila a Árvore sacra? - Um licor santo. -Pera quem? - Pera o género é humano. -Que faz dele? - Um remédio soberano. - Pera quê? - Pera a culpa e triste pranto. - E que obra? - Reduzir Lusbel a espanto. -Porquê? - Porque cum pomo fez grão dano. -Que foi? - A morte deu com um engano. - Tanto pôde? - Sem falta pôde tanto. -Quem sobe a ela? - Quem do Céu desceu. - A que desce? - A subir a criatura. -Que quis da Terra? - Só levá-la ao Céu. - É escada para ir lá? - E a mais segura. -Quem o obrigou? - De amor só se venceu. -Quem amava este Feitor? - Sua feitura. Que fiz, Amor, que tão mal me tratas, Nao sendo todo teu, que mal me queres, Que se por teu me tens, porque me feres, E a minha triste vida desbaratas? Se com a fera ninfa te contratas, E de suas esp'ranças não diferes, A quem me queixarei do que fizeres, Que vida me darás se tu me matas? E tu despiadosa honra e fama, Respondes com mortal esquecimento, Não tens a tanta fé algum respeito! Mas já que tu não vês a quem te ama, Não vindo, não terás conhecimento De quem sempre contino por ti chama. -Que haces hombre? - Estoyme calentando. -Tu dama donde está? - Donde ella quiere. -Como no mueres, di? - Ya nadie muere. - Como pasas sin ella? - Platicando. -Donde estás entre día? - Al sol jugando. -Y se ella se te va? - Como quisiere. -No deve amor herirte? - Ya no hiere. Que el tiempo cualquier cosa va gastando. -Date favores,di? - Por ciertas vías. -Y si no te los da? - Paso sin ellos. -Que dice si le hablas? - Niñerias. -Que te enamora della? - Los cabellos. -Porqué razón? - Porque ha infinitos días Que no he visto carbón más negro que ellos. -Que levas, cruel Morte? - Um claro dia. -A que horas o tomaste? - Amanhecendo. -Entendes o que levas? - Não o entendo. -Pois quem to faz levar? - Quem o entendia. -Seu corpo quem o goza? - A terra fria. -Como ficou sua luz? - Anoitecendo. -Lusitânia que diz? - Fica dizendo... Que diz? «Não mereci a grã Maria». -Mataste a quem a viu? - Já morto estava. -Que discorre o Amor? - Falar não ousa. -E quem o faz calar? - Minha vontade. -Na Corte que ficou? - Saudade brava. -Que fica lá que ver? - Nenhũa coisa. -Que glória lhe faltou? - Esta beldade. Que me quereis, perpétuas saudades? Com que esperanças inda me enganais? O tempo, que se vai, não torna mais, E se torna, não tornam as idades. Rezão é já, ó anos, que vos vades, Porque estes tão ligeiros que passais, Nem todos pera um gosto sois iguais, Nem sempre são conformes as vontades. Aquilo a que já quis é tão mudado, Que quase é outra cousa; porque os dias Tem o primeiro gosto já danado. Esperanças de novas alegrias Não mas deixa a Fortuna e o tempo irado Que do contentamento são espias. Que modo tão sutil da Natureza, Pera fugir ao mundo e seus enganos, Permite que se esconda em tenros anos Debaixo de um burel tanta beleza! Mas não pode esconder-se aquela alteza E gravidade de olhos soberanos, A cujo resplandor entre os humanos Resistência não sinto, ou fortaleza. Quem quer livre ficar de dor e pena, Vendo-a já, já trazendo-a na memória, Na mesma rezão sua se condena. Porque quem mereceu ver tanta glória Cativo há-de ficar, que Amor ordena Que de juro tenha ela esta vitória. Que pode já fazer minha ventura, Que seja pera meu contentamento? Ou como fazer devo fundamento De cousa que o não tem, nem é segura? Que pena pode ser tão certa e dura Que possa ser maior que meu tormento? Ou como receará meu pensamento Os males, se com eles mais se apura? Como quem se costuma de pequeno Com peçonha criar por mão ciente, Da qual o uso já o tem seguro: Assi, de acostumado co veneno, O uso de sofrer meu mal presente Me faz não sentir já nada o futuro. Que poderei do mundo já querer, Pois no mesmo em que pus tamanho amor. Não vi senão desgosto e disfavor, E morte, enfim, que mais nao pode ser? Pois me não farta a vida de viver, Pois já sei que não mata grande dor, Se houver cousa que mágoa dê maior, Eu a verei; que tudo posso ver. A morte, a meu pesar, me assegurou De quanto mal me vinha; já perdi O que a perder o medo me ensinou. Na vida, desamor somente vi; Na morte, a grande dor que me ficou. Parece que pera isto só nasci! A D. Luís de Ataíde, Vizo-Rei Que vençais no Oriente tantos reis, Que de novo nos deis da Índia o Estado, Que escureçais a fama que hão ganhado Aqueles, que a ganharam de infiéis; Que vencidas tenhais da morte as leis, E que vencêsseis tudo, enfim, armado, Mais é vencer na Pátria, desarmado, Os monstros e as quimeras que venceis. Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo, E por armas fazer que, sem segundo, No mundo o vosso nome ouvido seja, O que vos dá mais fama inda no mundo É vencerdes, Senhor, no Reino amigo, Tantas ingratidões, tão grande inveja. Queimado sejas tu e teus enganos, Amor escandaloso, mau, cruel; Queimadas tuas frechas, teu cordel E arco com que fazes tantos danos. Teus prometimentos tão profanos, Teus afagos mais doces que o mel, Eu os veja todos, pois se tornam fel, No fogo em que queimas os humanos. Deixo-te eu os olhos desatados E vejas tu os com que me ataste, Que bem abastaria tal vingança. Mas como os mais desesperados Morrerás mal, se bem o calaste, Perdendo o remédio da esperança. Quem busca no amor contentamento Achará nele que é seu natural, Mas a sustância que há do bem ao mal, É como folha que revolve o vento. Quem foi sujeito deste movimento, Não pode ter sua glória por tal, Que dure num ser pera sempre igual, Pois é mudável pera seu tormento. Assi que em amor se acham cada dia Estes dous contrários ambos num sujeito Os quais por ventura são ordenados. Ora em ũa, ora em utra via, Em perda dos que amam ou proveito, Mas em nenhum momento são desesperados. Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piadoso. Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos deuses, odioso. Se males faz Amor, em mim se vêem; Em mim mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de Amor; Todos estes seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria. Ao Autor (louvor feito, eventualmente, por João Lopes Leitão) Quem é este que na harpa lusitana Abate as Musas gregas e as latinas? E faz que ao mundo esquecam as plautinas Gracas, com graça e alegre lira ufana? LUÍS DE CAMOES é, que a soberana Potência lhe influiu partes divinas, Por quem espiram flores e boninas, Da homérica musa e mantuana. Se tu, triunfante Roma, este alcançaras No teu teatro e cena luminosa, Nunca do grão Terêncio te admiraras. Mas antes sem constraste,curiosa Estátua de ouro ali lhe levantaras, Contente de ventura tão ditosa. Quem fosse acompanhando juntamente Por esses verdes campos a avezinha Que, depois de perder um bem que tinha, Não sabe mais que coisa é ser contente! E quem fosse apartando-se da gente, Ela por companheira e por vizinha, Me ajudasse a chorar a pena minha, E eu a ela também a que ela sente! Ditosa ave! que ao menos, se a Natura A seu primeiro bem não dá segundo, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. Mas triste quem de longe quis ventura, Que pera respirar lhe falte o vento, E pera tudo, enfim, lhe falte o mundo! À sepultura de D. João III Quem jaz no grão sepulcro, que descreve Tão ilustres sinais no forte escudo? -Ninguém,que nisso, enfim, se torna tudo; Mas foi quem tudo pôde e tudo teve. -Foi rei? - Fez tudo quanto a rei se deve; Pôs na guerra e na paz devido estudo; Mas quão pesado foi ao Mouro rudo Tanto lhe seja agora a terra leve. -Alexandre será? - Ninguém se engane; Mais que o adquirir, o sustentar estima. Será Adriano, grão Senhor do Mundo? -Mais observante foi da Lei de cima. -É Numa? - Numa não, mas é Joane De Portugal, terceiro sem segundo. Quem pode livre ser, gentil Senhora, Vendo-vos com juizo sossegado, Se o Menino, que de olhos é privado, Nas meninas dos vossos olhos mora? Ali manda, ali reina, ali namora, Ali vive das gentes venerado; Que o vivo lume e o rosto delicado Imagens são adonde Amor se adora. Quem vê que em branca neve nascem rosas Que crespos fios de ouro vão cercando, Se por entre esta luz a vista passa, Raios de ouro verá, que as duvidosas Almas estão no peito traspassando. Assi como um cristal o Sol traspassa. Quem pudera julgar de vós, Senhora, Que ũa tal fé pudesse assi perder-vos? Se por amar-vos chega a aborrecer-vos, Deixar não posso o amar-vos algũa hora. Deixais a quem vos ama, ou vos adora, Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos? Mas eu sou quem não soube merecer-vos, E esta minha ignorância entendo agora. Nunca soube entender vossa vontade, Nem a minha mostrar-vos verdadeira, Inda que clara estava esta verdade. Esta, enquanto eu viver, vereis inteira; E se em vão meu querer vos persuade, Mais vosso não querer faz que vos queira. Quem quiser ver de Amor ũa excelência Onde sua fineza mais se apura, Atente onde me põe minha ventura, Porque de minha fé faça exp'riência. Onde lembranças mata a larga ausência, Em temeroso mar, em guerra dura, A saudade ali está mais segura, Quando risco maior corre a paciência. Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado Em morte, ou nojo, ou dano, ou perdição, Ou em sublime e próspera ventura; Ponha-me, enfim, em baixo ou alto estado; Que até na dura morte me acharão Na língua o nome, e na alma a vista pura. Quem, Senhora, presume de louvar-vos Com discurso que baixe de divino, De tanto maior pena será dino, Quanto vós sois maior ao contemplar-vos. Não aspire algum canto a celebrar-vos Por mais que seja raro, ou peregrino: Pois de vossa beleza eu imagino Que só convosco o Céu quis comparar-vos. Ditosa esta alma vossa, a que quisestes Pôr em posse de prenda tão subida, Qual esta que benina, enfim, me destes. Sempre será anteposta à mesma vida; Esta estimar em menos me fizestes, Se antes que essoutra a quero ver perdida. Quem vê, Senhora, claro e manifesto O lindo ser de vossos olhos belos, Se não perder a vista só com vê-los, Já não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preco honesto; Mas eu, por de vantagem merecê-los, Dei mais a vida e alma por querê-los, Donde já me não fica mais de resto. Assi que alma, que vida, que esperança, E que quanto for meu, é tudo vosso; Mas de tudo o interesse eu só o levo; Porque é tamanha bem-aventuranca O dar-vos quanto tenho e quanto posso, Que quanto mais vos pago, mais vos devo. Quem vos levou de mim, saudoso estado, Que tanta sem-rezão comigo usastes? Quem foi por quem tão presto me negastes, Esquecido de todo o bem passado? Trocastes-me um descanso em um cuidado Tão duro, tão cruel, qual me ordenastes; A fé que tínheis dado me negastes, Quanto mais nela estava confiado. Vivia sem receio deste mal. Fortuna, que tem tudo à sua mercê, Amor com desamor me revolveu. Bem sei que neste caso nada val', Que quem nasceu chorando, justo é Que pague com chorar o que perdeu. Resposta sua De tão divino acento em voz humana, De elegâncias que são tão peregrinas, Sei bem que minhas obras não são dinas Que o rudo engenho meu me desengana. Porém da vossa pena ilustre mana Licor que vence as águas cabalinas; E convosco do Tejo as flores finas Farão inveja à cópia mantuana. E pois, a vós de si não sendo avaras, As filhas de Mnemósine fermosa Partes dadas vos têm, ao Mundo claras; A minha Musa e a vossa tão famosa, Ambas se podem nele chamar raras, A vossa de alta, a minha de invejosa. Revuelvo en la incesable fantesía Cuando me he visto en más dichoso estado, Si ahora que de Amor vivo inflamado, Si cuando de su ardor libre vivía. Entonces desta llama solo huía, Despreciando en mi vida su cuidado; Ahora, com dolor de lo pasado, Tengo por gloria aquello que temía. Bien veo que era vida deleitosa Aquella que lograba sin temores, Cuando gustos de Amor tuve por viento; Mas viendo hoy á Natércia tan hermosa, Hallo en esta prisión glorias mayores, Y en perderlas, por libre, hallo tormento. Saudades me atormentam cruamente, Saudades do meu bem já passado; Não sou a tantos males condenado Sem rezão, pois que posso ser ausente. Por amor me vi um tempo já contente, Por amor eu me quis atormentado, Bem é que veja meu erro tão pagado, Como o é com minha dor e mal presente. Que bem mereceu, pois fez tal partida Não vos ver, ou não me verdes vós, Senhora, Porque assi pagasse eu com minha vida; Mais, pois minha alma seu erro chora, Não queirais que chore a sorte perdida, Vejam-vos meus olhos branda algũa hora. Se a fortuna inquieta e mal olhada, Que a justa lei do Céu consigo infama, A vida quieta, que ela mais desama, Me concedera honesta e repousada, Pudera ser que a Musa, alevantada Com luz de mais ardente e viva flama, Fizera ao Tejo lá na pátria cama, Adormecer co som da lira amada. Porém, pois o destino trabalhoso, Que me escurece a Musa fraca e lassa, Louvor de tanto preço não sustenta, A vossa, de louvar-me pouco escassa, Outro sujeito busque valeroso, Tal qual em vós ao mundo se apresenta. Se a ninguém tratais com desamor, Antes a todos tendes afeicão, E se a todos mostrais um coração Cheio de mansidão, cheio de amor; Desde hoje me tratai com disfavor, Mostrai-me um ódio esquivo, ũa isenção, Poderei acabar de crer então Que somente a mim me dais favor. Que, se tratais a todos brandamente, Claro é que aquele é só favorecido A quem mostrais irado o continente. Mal poderei eu ser de vós querido Se tendes outro amor n'alma presente, Que amor é um, não pode ser partido. Se algũa hora em vós a piadade De tão longo tormento se sentira, Não consentira amor que se partira De vossos olhos minha saudade. Aparto de vós, mas a vontade Que n'alma pelo natural vos tira, Me faz crer que esta ausência é mentira, Mas inda mal porém, que é verdade. Ir-me-ei, Senhora, e neste apartamento Tomarão tristes lágrimas vingança Nos olhos de quem foste mantimento. Assi darei a vida a meu tormento, Que enfim cá me achará minha lembranca Já sepultado em vosso esquecimento. Se algũa hora essa vista mais suave Acaso a mim volveis, em um momento Me sinto com um tal contentamento, Que não temo que dano algum me agrave. Mas quando com desdém esquivo e grave O belo rostro me mostrais isento, Ũa dor provo tal, um tal tormento, Que muito vem a ser que não me acabe. Assi está minha vida, ou minha morte No volver de esses olhos; pois podeis Dar cuma volta deles morte, ou vida. Ditoso eu, se o Céu quer, ou minha sorte, Que ou vida, pera dar-vo-la, me deis, Ou morte, pera haver morte querida? Se ao que te quero desses tanta fé Quanto dás tormento ao coração, Meus suspiros não seriam tanto em vão, Nem eu te pediria em vão mercê. Mas é tanta a tua dureza, que não crê Os males que me faz tua condicão, Podendo contigo mais a sem-rezão Do que é o terno amor que em mim se vê E pois, sempre à morte me chegaste Com desamor que não merecia, Eu morrerei,mas sabe que ganhaste? Dizerem-te as gentes cada dia: Ah! Senhora cruel porque mataste A quem mais que a vida te queria? Se as penas com que Amor tão mal me trata Permitirem que eu tanto viva delas, Que veja escuro o lume das estrelas, Em cuja vista o meu se acende e mata; E se o tempo,que tudo desbarata, Secar as frescas rosas, sem colhê-las, Deixando a linda cor das trancas belas Mudada de ouro fino em fina prata; Também, Senhora, então vereis mudado O pensamento e a aspereza vossa, Quando não sirva já sua mudança. Ver-vos-eis suspirar por o passado, Em tempo quando executar-se possa No vosso arrepender minha vingança. Se com desprezos, Ninfa, te parece Que podes desviar do seu cuidado Um coracão constante, que se of'rece A ter por glória o ser atormentado, Deixa a tua porfia, e reconhece Que mal sabes de amor desenganado, Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece, Crescendo em mim, de ti mais desamado. O esquivo desamor com que me tratas Converte em piadade, se não queres Que cresça o meu querer e o teu desgosto. Vencer-me com cruezas nunca esperes, Bem me podes matar, e bem me matas; Mas sempre há-de viver meu pressuposto. Se como em tudo o mais fostes perfeita, Fôreis de condição menos esquiva, Fora a minha fortuna mais altiva, Fora a sua altiveza mais sujeita. Mas quando a vida a vossos pés se deita, Porque não a aceitais, não quer que eu viva; Ela própria de si já a mim me priva, Que, porque me enjeitais, também me enjeita. Se nisso contradiz vossa vontade, Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim À minha profundíssima tristeza. Pois ela não mo dá, porque piadade Tenha deste meu mal, mas porque em mim Possais assi fartar vossa crueza. Se da célebre Laura a fermosura Um numeroso cisne ufano escreve, Ũa angélica pena se te deve, Pois o Céu em formar-te mais se apura. E se voz menos alta te procura Celebrar (oh! Natércia!), em vão se atreve, De ver-te já a ventura Liso teve, Mas de cantar-te falta-lhe a ventura. No Céu nasceste, certo, e não na Terra: Fera glória do mundo cá desceste, Quem mais isto negar, muito mais erra. E eu imagino que de lá vieste Pera emendar os vícios que ele encerra, Cos divinos poderes que trouxeste. Se de vosso fermoso e lindo gesto Nasceram lindas flores pera os olhos, Que pera o peito são duros abrolhos, Em mim se vê, mui claro e manifesto. Pois vossa fermosura e vulto honesto Em os ver, de boninas vi mil molhos; Mas se meu coracão tivera antolhos, Não vira em vós seu dano o mal funesto. Um mal visto por bem, um bem tristonho, Que me traz enlevado o pensamento Em mil, porém diversas fantesias. Nas quais eu sempre ando e sempre sonho, E vós não cuidais mais que em meu tormento Em que fundais as vossas alegrias. Se em mim, ó Alma, vive mais lembrança Que aquela só da glória de querer-vos, Eu perca todo o bem que logro em ver-vos E de ver-vos também toda a esperança. Veja-se em mim tão rústica esquivança, Que possa indino ser de conhecer-vos; E, quando em mor empenho de aprazer-vos Vos ofenda, se em mim houver mudança. Confirmado estou já nesta certeza; Examine-me vossa crueldade, Exp'rimente-se em mim vossa dureza. Conhecei já de mim tanta verdade, Pois, em penhor e fé desta pureza, Tributo vos fiz ser o que é vontade. Se lágrimas choradas de verdade O mármore abrandar podem mais duro, Porque as minhas que nascem de amor puro Um coração não rendem a piadade? Por vós perdi, Senhora, a liberdade, E nem da própria vida estou seguro; Rompei desse rigor o forte muro, Não passe tanto avante a crueldade. Ao prezar de desprezos dai já fim, Não vos chamem cruel; nome devido A quem se ri de quem suspira e ama. Abrandai esse peito endurecido, Por o que toca a vós, já não por mim, Que eu aventuro a vida e vós a fama. Se me vem tanta glória só de olhar-te, É pena desigual deixar de ver-te; Se presumo com obras merecer-te, Grão paga de um engano é desejar-te. Se aspiro por quem és a celebrar-te, Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te; Se mal me quero a mim por bem querer-te, Que prémio querer posso mais que amar-te? Porque um tão raro amor não me socorre? Ó humano tesouro! Ó doce glória! Ditoso quem à morte por ti corre! Sempre escrita estarás nesta memória E esta alma viverá, pois por ti morre, Porque ao fim da batalha é a vitória. Se no que tenho dito vos ofendo, Não é a intenção minha de ofender-vos; Que inda que não pretenda merecer-vos, Não vos desmerecer sempre pretendo. Mas é meu fado tal, segundo entendo, Que, por quanto ganhava em entender-vos, Não me deixa até'gora conhecer-vos, Por a mim próprio me ir desconhecendo. Os dias ajudados da ventura A cada qual de si dão desenganos E a outros sói dá-los a desventura. Qual destas sirva a mim, dirão os danos Ou gostos que eu tiver, enquanto dura Esta vida, tão larga em poucos anos. Se pena por amar-vos se merece, Quem dela estará livre? quem isento? Que alma,que rezão, que entendimento No instante em que vos vê não obedece? Qual mor glória na vida já se of'rece Que a de ocupar-se em vós o pensamento? Não só todo rigor, todo tormento Com ver-vos não magoa, mas se esquece. Porém se heis de matar a quem amando, Ser vosso de amor tanto só pretende, O mundo matareis, que todo é vosso. Em mim podeis, Senhora, ir começando, Pois bem claro se mostra e bem se entende Amar-vos quanto devo e quanto posso. Se pera mim tivera, que algum dia Movida com paixão de meu tormento Tivéreis um pequeno sentimento De quem com isto só descansaria; A meus males por glória julgaria, E por prazeres quantas penas sento, E em meio do pesar contentamento Com tão doces lembrancas sentiria. Mas ai! triste de mim, que estou cuidando Cousas que me darão mais cedo a morte, Em paga de doudice tão notória. De que serve estar tanto desejando, Pois vosso merecer e minha sorte Me fazem duvidosa esta glória. Se quando vos perdi, minha esperança, A memória perdera juntamente Do doce bem passado e mal presente, Pouco sentira a dor de tal mudança; Mas Amor, em quem tinha confiança, Me representa mui miudamente Quantas vezes me vi ledo e contente, Por me tirar a vida esta lembrança. De coisas de que apenas um sinal Havia, porque as dei ao esquecimento, Me vejo com memórias perseguido. Ah! dura estrela minha! Ah grão tormento! Que mal pode ser mor, que no meu mal Ter lembranças do bem que é já passado? Se, Senhora Lurina, algum começo Houvesse em vos louvar com igual canto, Seria no que sois disfavor tanto Quanto por minha pluma em alto preço. Que se espera louvar-vos, me ofereço Em o sentido ao que sois levanto, Sinto no pensamento tal espanto Que certo então de vós menos conheço. Alçando a vós em vossas cousas altas De tão alto ardor e ardente chama Derrete as asas de minha ousadia. E se caio no mar de minhas faltas Já dou a meu defeito nome e fama, Mas a vosso valor quem o daria? Se somente hora algũa em vós piadade De tão longo tormento se sentira, Amor sofrera mal que eu me partira De vossos olhos, minha Saudade. Apartei-me de vós, mas a vontade, Que por o natural na alma vos tira, Me faz crer que esta ausência é de mentira; Porém, venho a provar que é de verdade. Ir-me-ei, Senhora; neste apartamento Lágrimas tristes tomarão vingança Nos olhos de quem fostes mantimento. Desta arte darei vida a meu tormento; Que, enfim, cá me achará minha lembrança Sepultado no vosso esquecimento. Se tanta pena tenho merecida Em pago de sofrer tantas durezas, Provai, Senhora, em mim vossas cruezas, Que aqui tendes ũa alma oferecida. Nela experimentai, se sois servida, Desprezos, disfavores e asperezas; Que mores sofrimentos e firmezas Sustentarei na guerra desta vida. Mas contra vossos olhos quais serão? É preciso que tudo se lhes renda; Mas porei por escudo o coração. Porque, em tão dura e áspera contenda É bem que, pois não acho defensão, Com meter-me nas lanças me defenda. Se tomo a minha pena em penitência Do erro em que caiu o pensamento, Não abrando, mas dobro meu tormento, Que a tanto, e mais, obriga a paciência. E se ũa cor de morto na aparência, Um espalhar suspiros vãos ao vento, Não faz em vós, Senhora, movimento, Fique o meu mal em vossa consciência. Mas se de qualquer áspera mudança Toda a vontade isenta Amor castiga, Como eu vejo no mal que me condena, E se em vós não se entende haver vingança, Será forçado, pois Amor me obriga, Que eu só da culpa vossa pague a pena. Seguia aquele fogo, que o guiava, Leandro, contra o mar e contra o vento, Quebravam-lhe ondas o animoso alento, Por mais e mais que o Amor lho renovava Com sentir já que quase lhe faltava, Sem nada esmorecer, no pensamento, Não podendo falar, de seu intento, O fim ao surdo mar encomendava: - Ó mar - dezia o moço só consigo- Já te não peço a vida; só queria Que a de Hero me salvasses; nao me veja. Este defunto corpo lá o desvia Daquela torre. Sê-me nisto amigo, Pois no meu maior bem me houveste inveja! Sempre a Rezão vencida foi de Amor; Mas, porque assi o pedia o coração, Quis Amor ser vencido da Rezão, Ora que caso pode haver maior! Novo modo de morte e nova dor! Estranheza de grande admiração, Pois, enfim, seu vigor perde a afeição, Porque não perca a pena o seu vigor! Fraqueza, nunca a houve no querer, Mas antes muito mais se esforça assim Um contrário com outro por vencer. Mas a Rezão, que a luta vence, enfim, Não creio que é Rezão; mas deve ser Inclinação que eu tenho contra mim. Sempre, cruel Senhora, receei, Medindo vossa grã desconfiança, Que desse em desamor vossa tardança, E que me perdesse eu, pois vos amei. Perca-se, enfim, já tudo o que esperei, Pois noutro amor já tendes esperança. Tão patente será vossa mudança, Quanto eu encobri sempre o que vos dei. Dei-vos a alma, a vida e o sentido; De tudo o que em mim há vos fiz senhora. Prometeis e negais o mesmo Amor. Agora tal estou que, de perdido, Não sei por onde vou, mas algũa hora Vos dará tal lembrança grande dor. Senhor João Lopes, o meu baixo estado Ontem vi posto em grau tão excelente, Que sendo vós inveja a toda a gente, Só por mim vos quiséreis ver trocado. O gesto vi suave e delicado, Que já vos fez contente e descontente, Lançar ao vento a voz tão docemente, Que fez o ar sereno e sossegado. Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto Ninguém diria em muitas; mas eu chego A expirar só de ouvir a doce fala. Oh! mal o haja a Fortuna, e o Moço cego! Ele, que os corações obriga a tanto; Ela, porque os estados desiguala. Senhora já desta alma, perdoai De um vencido de Amor os desatinos, E sejam vossos olhos tão beninos Com este puro amor, que da alma sai. A minha pura fé somente olhai, E vede meus extremos se são finos; E, se de algũa pena forem dinos, Em mim, Senhora minha, vos vingai. Não seja a dor que abrasa o triste peito Causa por onde pene o coração, Que tanto em firme amor vos é sujeito. Guardai-vos do que alguns, Dama, dirão, - Que, sendo raro em tudo vosso objeito, Possa morar em vós ingratidão. Senhora minha, inda que ausente esteja, Se contudo viver de vós ausente, Comigo vos terei sempre presente, Que o longe faz amor que perto seja. Faz a fortuna ausências com inveja Da glória e bens de um coracão contente, Mas porque minha fé se exp'rimente Ordenou hoje amor que vos não veja. Que amar presente vossa vista obriga, Amar ausente só o amor constrange, E isto quer amor que se lhe deva. Mas como um fio tem com que nos liga, Por ele vai e vem, que longe abrange, Ũa alma até outra alma em fogo a leva. Senhora minha, se de pura inveja Amor me tolhe a vista delicada, A cor, de rosa e neve semeada, E dos olhos a luz que o Sol deseja; Nāo me pode tolher que vos não veja Nesta alma, que ele mesmo vos tem dada, Onde vos terei sempre debuxada Por mais cruel imigo que me seja. Nela vos vejo, e vejo que não nasce Em belo e fresco prado deleitoso, Senão flor que dá cheiro a toda a serra. Os lírios tendes nũa e noutra face; Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso Quem os tiver, se há tanto bem na Terra. Senhora minha, se eu de vós ausente Me defendera de um penar severo, Suspeito que ofendera o que vos quero, Esquecido do bem de estar presente. Trás este, logo sinto outro acidente, E é ver que se da vida desespero, Perco a glória que vendo-vos espero; E assi estou em meus males dif'rente. E nesta diferenca meus sentidos Combatem com tão áspera porfia, Que julgo este meu mal por desumano. Entre si sempre os vejo divididos; E, se acaso concordam algum dia, É só conjuração pera meu dano. Senhora, quem a tanto se atreve Que consente em servir vossa lembrança, Sabendo que a tem sem esperança, Não é pouco o que por isso se lhe deve. Mais cala esta alma do que escreve, Sem esperar que seu mal faca mudança, Não querendo outra bem-aventurança Maior do que amor com que vos serve. Que esperar grandes casos da ventura É ofender vosso merecimento, Com esse pagais meu tormento. Tendo por impossível sua cura, E inda fique meu pensamento Devendo a vossa fermosura. - Señor, no se despacha pretendiente, El Turco baja, el Francés se altera, Quema tus puertas con audacia fera, El poderoso imigo en Occidente. Armada no parece, falta gente Que sulque el mar y empare tu frontera, En palacio no hay blanca, y paga espera El rico, pobre, el sano y el doliente. Tu majestad lo vea y dé la traza, Que al provido remedio más importe, Que mi vejez en llanto la resuelvo. -Denme caballos, salga el duque a caza, Corranme taras, mudese la Corte; Y digan a la Reyna que ya vuelvo. Sentindo-se alcançada a bela esposa De Céfalo, no crime consentido, Pera os montes fugia do marido E não sei se de astuta ou vergonhosa. Porque ele, enfim, sofrendo a dor ciosa, Da cegueira obrigado de Cupido, Após ela se vai como perdido, Já perdoando a culpa criminosa. Deita-se aos pés da ninfa endurecida, Que do cioso engano está agravada; Já lhe pede perdão, já pede a vida. Oh! força da afeição desatinada! Que, da culpa contra ele cometida, Perdão pedia à parte que é culpada! Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, Que a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava,contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe deu a Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Assi lhe era negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida, Comecou a servir outros sete anos, Dizendo: - Mais servira, se não fora Pera tão longo amor tão curta a vida! Si el fuego que me enciende, consumido De algún mas suelto Aquario ser pudiese; Si el alto suspirar me convertiese En aire, por el aire desparecido; Si un horrible rumor siendo sentido, La alma á dejar el cuerpo redujese; O por estos mis ojos al mar fuese Este mi cuerpo en llanto convertido; Nunca podería la fortuna airada, Com todos sus horrores, sus espantos, Derrocar la alma mía de su gloria. Porque en vuestra beldad ya transformada, Ni del Estigio lago eternos llantos Os podrian quitar de mi memoria. Si el triste corazón que siempre llora, Sin ser obra de llanto meritoria, Pudiese ya gozar de la victoria De la guerra del amor que s'empeora. Si entre los verdes árboles, do ahora Estoy apacentando la memoria, Pudiese yo gozar por suma gloria De ver un solo punto a mi pastora. Ni el aire,que con el aire, que consiente Amor el mi dolor se aumentaría, Ni con la de mis ojos esta fuente. Mas para despojarme de alegría Ordena una pasión, que viva ausente De quien ya más lo estuvo el alma mía. Si mil vidas tuviera que entregaros, Vuestras fueron, divina prenda mía, Y todo el oro que el Arabia cría Tener quisiera para solo daros. Argos quisiera ser para miraros, Orfeo para daros alegría, Sol para alumbraros noche e día, Ambar y viento para regalaros. Abril quisiera ser para vestiras, Amor quisiera ser para quereros, Yedra quisiera ser para ceñiros. Muralla para solo defenderos, Señor quisiera ser para serviros, Y Rey quisiera ser para obedeceros. Sobre os rios do Reino escuro, quando Tristes, quais nossas culpas o ordenaram, Lágrimas nossos olhos derramaram, Por ti, Sião divina, suspirando, Os que iam nossas almas infestando, De contino em error, as cativaram; E em vão por nossos salmos perguntaram; Que tudo era silêncio miserando. Dezendo estamos: - Como cantaremos As aceitas canções a Deus benino, Quando a contrários seus obedecemos? Mas já, Senhor só Santo, determino, Deixando viciosíssimos extremos, Os cantos prosseguir de Amor divino. Sobre un olmo que al cielo parecía Llegar do flor no oja, se mostrava Una ave sola y triste vi que estava, Y alli su soledad encarecía. En una fuente clara que corría Con dulce son lloroso se bajava, Y en el sa metendo la enturbiaba, Y viendo la agua turbia la bebía. La causa por que al dolor tanto se entregaba La sola tortorilla es verse ausente, Mirad a quanto el mal d'ausencia llega. Se tanto sentimiento el accidente De una ave sin sentido amor la llega Sentió, que sentirá quien algo siente. Sospechas, que en mi triste fantesía Puestas haceis la guerra a mi sentido, Bolviendo y rebolviendo el afligido Pecho con dura mano noche y día. Ya se acabó la resistencia mía, Y la fuerca dei alma, ya rendido Vencer de vos me dexo arrependido De averos contrastado en tal porfía. Llevademe a aquel lugar tan espantable Que por no ver mi muerte ali esculpida, Cerrados hasta aqui tuve los ojos. Las armas pongo, que concedida No es tan larga defensa ai miserable; Colgad en vuestro carro mis despojos. Suspiros inflamados, que cantais A tristeza com que eu vivi tão ledo, Eu mouro e não vos levo, porque hei medo Que ao passar do Leteio vos percais. Escritos pera sempre já ficais Onde vos mostrarão todos co dedo, Como exemplo de males; que eu concedo Que pera aviso de outros estejais. Em quem, pois, virdes largas esperanças De Amor e da Fortuna, cujos danos Alguns terão por bem-aventuranças, Dizei-lhe que os servistes muitos anos, E que em Fortuna tudo são mudancas, E que em Amor não há senão enganos. Sustenta meu viver ũa esperança Derivada de um bem tão desejado, Que quando nela estou mais confiado, Mor dúvida me põe qualquer mudança. E quando inda este bem na mor pujança De seus gostos me tem mais enlevado, Me atormenta então ver eu que alcançado Será por quem de vós não tem lembrança. Assi, que nestas redes enlaçado, Apenas dou a vida, sustentando Ũa nova matéria a meu cuidado: Suspiros de alma tristes arrancando, Dos silvos duma pedra acompanhado, Estou matérias tristes lamentando. Tal mostra de si dá vossa figura, Sibela, clara luz da redondeza, Que as forças e o poder da Natureza Com sua claridade mais apura. Quem confiança há visto tão segura, Tão singular esmalte da beleza, Que não padeça mal de mais graveza, Se resistir a seu amor procura? Eu, pois, por escusar tal esquivança, A rezão sujeitei ao pensamento, A quem logo os sentidos se entregaram. Se vos ofende o meu atrevimento, Inda podeis tomar nova vingança Nas relíquias da vida que ficaram. Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O mundo todo abarco, e nada aperto. É tudo quanto sinto um desconcerto; Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando; Nũa hora acho mil anos, e é de jeito Que em mil anos não posso achar ũa hora. Se me pergunta alguém, porque assi ando? Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. Tanto se foram, Ninfa, costumando Meus olhos a chorar tua dureza, Que vão passando já por natureza O que por acidente iam passando. No que ao sono se deve estou velando, E venho a velar só minha tristeza; O choro não abranda esta aspereza, E meus olhos estão sempre chorando. Assi, de dor em dor, de mágoa em mágoa, Consumindo-se vão inutilmente, E esta vida também vão consumindo. Sobre o fogo de amor inútil água! Pois eu em choro estou continuamente, E do que vou chorando te vás rindo. Tem feito os olhos neste apartamento Um mar de saudosa tempestade, Que pode dar saudade, à saudade, Sentimentos, ao próprio sentimento. Em dor vai convertido o sofrimento, Em pena convertida a piadade; A rezão tão vencida da vontade, Que escravo faz do mal o entendimento. A língua não alcança o que alma sente, E assi, se alguém quiser em algũa hora Saber que cousa é dor não compreendida, Parta-se do seu bem, porque exp'rimente Que antes de se partir, milhor lhe fora Partir-se do viver pera ter vida! Todas as almas tristes se mostravam Pela piadade do Feitor divino, Onde, ante o seu aspecto benino, O devido triburo lhe pagavam. Meus sentidos então livres estavam. Que até i foi costume o seu destino, Quando uns olhos, de que eu não era dino, A furto da Rezão me salteavam. A nova vista me cegou de todo; Nasceu do descostume a estranheza Da suave e angélica presenca. Pera remediar-me não há i modo? Oh! porque fez a humana natureza Entre os nascidos tanta diferença? Todo o animal da calma repousava, Só Liso o ardor dela não sentia; Que o repouso do fogo, em que ele ardia, Consistia na ninfa que buscava. Os montes parecia que abalava O triste som das mágoas que dezia; Mas nada o duro peito comovia, Que na vontade de outro posto estava. Cansado já de andar por a espessura, No tronco de ua faia, por lembrança, Escreve estas palavras de tristeza: «Nunca ponha ninguém sua esperança Em peito feminil, que de natura Somente em ser mudável tem firmeza.» Tomava Daliana por vingança Da culpa do pastor que tanto amava, Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava O erro alheio e pérfida esquivança. A discrição segura, a confiança Das rosas que o seu rosto debuxava, O descontentamento lhas mudava; Que tudo muda ũa áspera mudança. Gentil planta, disposta em seca terra, Lindo fruito de dura mão colhido, Lembranças de outro amor e fé perjura, Tornaram verde prado em serra dura: Interesse enganoso, amor fingido, Fizeram desditosa a fermosura. Tomou-me vossa vista soberana Adonde tinha as armas mais à mão, Por mostrar a quem busca defensão Contra esses belos olhos, que se engana. Por ficar da vitória mais ufana, Deixou-me armar primeiro da rezão; Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão, Que contra o Céu não val' defensa humana. Contudo, se vos tinha prometido O vosso alto destino esta vitória, Ser-vos ela bem pouca está entendido. Pois, inda que eu me achasse apercebido, Não levais de vencer-me grande glória; Eu a levo maior de ser vencido. Tornai essa brancura à alva açucena, E essa purpúrea cor às puras rosas; Tornai ao Sol as chamas luminosas Dessa vista que a roubos vos condena. Tornai à suavíssima sirena Dessa voz as cadências deleitosas; Tornai a graça às Graças, que queixosas Estão de a ter por vós menos serena; Tornai à bela Vénus a beleza; A Minerva o saber, o engenho e arte; E a pureza à castíssima Diana. Despojai-vos de toda essa grandeza De dões; e ficareis em toda a parte Convosco mesma, que é ser inumana. Transforma-se o amador na cousa amada. Por virtude do muito imaginar: Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assi com a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma. Transunto sou, Senhora, neste engano. Tratar dele comigo é escusado, Que mal pode de vós ser enganado Quem doutras como vós tem desengano. Já sei que foi à custa de meu dano Que só no doce dar tendes cuidado; Mas pera como eu sou de vós julgado, Mui vãs são as esp'ranças deste ano. Tratei grão tempo o Amor, e daqui veio Conhecer o fingido facilmente, Que tal é, gentil Dama, o que mostrais. De treslida caíste neste enleio; Querei de mim o que eu quiser boamente, Que no al a costa arriba caminhais. Ũa admirável erva se conhece Que vai ao Sol seguindo, de hora em hora, Logo que ele do Eufrates se vê fora, E, quando está mais alto, então florece. Mas, quando ao Oceano o carro dece, Toda a sua beleza perde Flora, Porque ela se emurchece e se descora; Tanto coa luz ausente se entristece! Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa, Mostrando-lhe esse rosto que dá vida, Cria flores em seu contentamento; Mas logo em não vos vendo, entristecida Se murcha e se consume em grão tormento. Nem há quem vossa ausência sofrer possa. A Circuncisão Ũa fineza grande, um lance bravo, Neste transe, meu Deus, vejo escondido, Um desusado amor, um nunca ouvido Extremo entre o Senhor e o vil escravo. Em Vós vejo o ferrete e em Vós o cravo, Eu sou o pecador, Vós o ofendido, Eu o servo, Senhor, Vós o vendido, Em mim a culpa está e em Vós o agravo. Grande mostra, meu bem, do amor estreito Com que buscais os homens que amais tanto, Grão secreto de Vossa omnipotência; Pois, pera os obrigar cum novo espanto, Peca o primeiro homem, homem feito, E Vós fazeis, Minino, a penitência. Um firme coração posto em ventura; Um desejar honesto, que se enjeite De vossa condição, sem que respeite A meu tão puro amor, a fé tão pura; Um ver-vos de piadade e de brandura Sempre imiga, faz-me que suspeite Se algũa hircana fera vos deu leite, Ou se nascestes de ũa pedra dura. Ando buscando causa, que desculpe Crueza tão estranha; porém quanto Nisso trabalho mais, mais mal me trata. Donde vem, que não há quem nos não culpe; A vós, porque matais quem vos quer tanto, A mim, por querer tanto a quem me mata. Um mover de olhos, brando e piadoso, Sem ver de quê; um riso brando e honesto, Quase forçado; um doce e humilde gesto, De qualquer alegria duvidoso. Um despejo quieto e vergonhoso; Um repouso gravíssimo e modesto; Ua pura bondade, manifesto Indício da alma, limpo e gracioso. Um encolhido ousar; ũa brandura; Um medo sem ter culpa; um ar sereno; Um longo e obediente sofrimento: Esta foi a celeste fermosura Da minha Circe, e o mágico veneno Que pôde transformar meu pensamento. Vencido está de amor………meu pensamento O mais que pode ser………..vencida a vida, Sujeita a vos servir e…………instituída, Oferecendo tudo………………a vosso intento. Contente deste bem,…………louva o momento Ou hora em que se viu………tão bem perdida; Mil vezes desejando………….assi ferida, Outras mil renovar……………seu perdimento. Com esta pretensão………….está segura A causa que me guia…………nesta empresa, Tão sobrenatural,………………honrosa e alta Jurando não querer……………outra ventura, Votando só por vós…………….rara firmeza, Ou ser no vosso amor………..achado em falta. Ventana venturosa, do amanece Cual resplandor d'Apollo el de mi dama Abrasarte veja yo con una llama De las con que mi alma resplandece. Porque se ves el mal que se padece Y sientes el dolor que el pecho inflama, No dejas a mis ojos ver la rama Que dentro en mí con lágrimas florece. Si no te mueve ya la pena mía, Muevate ver lo pouco que se gana De no dejar el alma su alegría. Ya pues lo sabes, ya cruda ventana Antes que mi dolor discubra el día, Lejame ver mi ninfa soberana. Verdade, amor, rezão, merecimento Qualquer alma farão segura e forte; Porém, fortuna, caso, tempo e sorte Têm do confuso mundo o regimento. Efeitos mil revolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte; Mas sabe que o que é mais que vida e morte Não se alcança de humano entendimento. Doutos varões darão rezões subidas, Mas são as exp’riências mais provadas, E por tanto é melhor ter muito visto. Cousas há i que passam sem ser cridas E cousas cridas há sem ser passadas; Mas o melhor de tudo é crer em Cristo. Vi queixosos de Amor mil namorados, E nenhuns inda vi com seus louvores; E aquele que mais chora o mal de amores, Vejo menos fugir de seus cuidados. Se das dores de Amor sois maltratados, Porque tanto buscais de Amor as dores? E se também as tendes por favores, Porque delas falais como agravados? Não queirais alegria achar algũa No Amor, porque é composto de tristeza, Na fortuna que acheis mais agradável. Nela e nele achei sempre a mesma Lua, Em quem nunca se viu outra firmeza, Que não seja a de ser sempre mudável. Vós, Ninfas da gangética espessura, Cantai suavemente, em voz sonora, Um grande capitão que a roxa Aurora Dos filhos defendeu da Noite escura. Ajuntou-se a caterva negra e dura, Que na Aurea Quersoneso afouta mora, Pera lançar do caro ninho fora Aqueles que mais podem que a Ventura. Mas um forte Leão, com pouca gente, A multidão tão fera como néscia, Destruindo, castiga e torna fraca. Ó Ninfas! cantai, pois, que claramente Mais do que Leónidas fez em Grécia, O nobre Leonis fez em Malaca! Vós outros, que buscais repouso certo Na vida, com diversos exercícios; A quem, vendo do mundo os benefícios, O regimento seu fica encoberto; Dedicai, se quereis, ao Desconcerto Novas honras e cegos sacrifícios; Que, por castigo igual de antigos vícios, Quer Deus que andem as cousas por acerto. Não caiu neste modo de castigo Quem pôs culpa à Fortuna, quem somente Crê que acontecimentos há no Mundo. A grande experiência é grão perigo; Mas o que a Deus é justo e evidente Parece injusto aos homens e profundo. Vós que, de olhos suaves e serenos, Com justa causa a vida cativais, E que os outros cuidados condenais Por indevidos, baixos e pequenos; Se de Amor os domésticos venenos Nunca provastes, quero que sintais Que é tanto mais o amor depois que amais, Quanto são mais as causas de ser menos. E não presume alguém que algum defeito, Quando na cousa amada se apresenta, Possa diminuir o amor perfeito; Antes o dobra mais; e, se atormenta, Pouco a pouco desculpa o brando peito; Que Amor com seus contrários se acrescenta. Vós que escutais em rimas derramado Dos suspiros o som que me alentava Na juvenil idade, quando andava Em outro, em parte do que sou, mudado; Sabei que busca só do já cantado No tempo em que ou temia ou esperava, De quem o mal provou, que eu tanto amava. Piadade, e não perdão, o meu cuidado. Pois vejo que tamanho sentimento Só me rendeu ser fábula da gente (Do que comigo mesmo me envergonho), Sirva de exemplo claro meu tormento, Com que todos conheçam claramente Que quanto ao mundo apraz é breve sonho. Vós só podeis, sagrado evangelista, Angélico abrasado serafim, E na ciência mais alto querubim, Do que é mais sábio Amor ser coronista. Divina e real águia, cuja vista Viu o que é sem princípio, o que é sem fin De Jacob mais querido Benjamim, Quem mais campeia de Josef na lista. Apóstolo e profeta e patriarca, Ao príncipe dos Céus o mais aceito, Que em seu seio dormindo então mais via. A quem o mesmo Deus por irmão marca; Quem por filho da Mãe única feito, Em corpo e alma goza o claro dia. Vossos olhos, Senhora, que competem Com o Sol em beleza e claridade, Enchem os meus de tal suavidade, Que em lágrimas, de vê-los, se derretem. Meus sentidos prostrados se submetem Assi cegos a tanta majestade; E da triste prisão da escuridade, Cheios de medo, por fugir remetem. Porém se então me vedes por acerto, Esse áspero desprezo com que olhais Me torna a animar a alma enfraquecida. Oh gentil cura! Oh estranho desconcerto! Que dareis cum favor que vós não dais, Quando com um desprezo me dais vida?