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O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos |
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de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. |
No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, ... |
Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o «D. Galeão», descendo uma tarde pela Travessa da Trabuqueta, rente dum muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de gross... |
— Oh Jacinto «Galeão», que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras? |
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o senhor infante D. Miguel! |
Desde essa tarde amou aquele bom infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto, o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do «seu salvador», enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tin... |
anjinho |
, a tramar o regresso do |
anjinho |
. No dia, entre todos bendito, em que a «Pérola» apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Ca... |
— Também cá não fico! também cá não fico! |
Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para França com a mulher, a Sr.a D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenç... |
— Irra! É de mais! |
Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto «Galeão» comprou a um príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia se metera a frade cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, n.o 202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descansando de tantas agitações, numa vida de pacho... |
— Eu, por mim, aqui fico no 202 — declarara ela —, ainda que me faz falta a boa água de Alcolena... O Cintinho, esse, em crescendo, que decida. |
O Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um círio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam ... |
Cintinho, porém, no seu aferro de sombra, não se quis arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra. |
Três meses e três dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu. |
Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a «sorte ruim», Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica dum pinheiro das dunas. |
Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os camaradas, nos pátios dos colégios, erguendo a sua espada de lata e lançando um brado de comando, foi logo o vencedor, o rei que se adula, e a quem se cede a fruta das merendas. Na i... |
Sabei, senhora, que esta Vida é um rio... |
Pois um rio de Verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com frutas e Champagne a refrescar em gelo, um anjo governando ao leme, outros anjos ... |
Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe da Grã-Ventura»! |
Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontrámos e acamaradámos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino — para onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia |
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, a cara sórdida do Dr. Pais Pita. |
Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Príncipe concebera a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde Aristóteles, e multiplicando a pot... |
bocks |
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poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no Boulevard Saint-Michel. |
Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a Espingarda de Agulha que vencera em Sadowa e fora o Mestre-de... |
E durante dias, do Odéon à Sorbonne, foi louvada pela mocidade positiva a Equação Metafísica de Jacinto. |
Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente metafísico e lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa: — mas constituía uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a vida. E já a esse tempo, em concordância com o seu preceito — ele se sortira da |
Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos Universais |
em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados do 202, num mirante envidraçado, um telescópio. Justamente com esse telescópio me tornou ele palpável a sua ideia, numa noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam relâmpagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolav... |
— Aqui tens tu, Zé Fernandes — começou Jacinto, encostado à janela do mirante —, a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos junt... |
Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em distinguir através do espaço manchas num astro, ou, através da Avenida dos Campos Elísios, presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque sou bom, e nunca desalojarei um espírito ... |
— Vamos então beber, nas máximas proporções, |
brandy and soda |
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, com gelo! |
Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, duma enorme Cidade, com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam os... |
tramways |
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, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões duma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo — o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver! |
Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado. Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!... |
— Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião não prova a alma? |
Ele encolhia os ombros. A religião! A religião é o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, já constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em rezas ante o Deus que distribui o Céu ou o I... |
— Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho. Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade! |
E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na Natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego,... |
Eu murmurava, impressionado: |
— Caramba! |
Ao contrário, no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão. Estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome, nenhuma árvore, por mais carregada, ... |
Geórgicas |
; e fora necessário o socorro ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento milagre para que o lobo de Gubbio não devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidad... |
E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam sentimentos reais — que eu testemunhei, que muito me divertiram, no único passeio que fizemos ao campo, à bem amável e bem sociável floresta de Montmorency. Oh delícias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava dos pavimentos de madeira, do macadame... |
Depois duma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desanuviou quando penetrámos no lajedo e no gás de Paris — e a nossa vitória quase se despedaçou contra um ónibus retumbante, a... |
Boulevards |
, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, aquela materialização em que sentia a cabeça pesada e vaga como a dum boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para sacudir, com os estribilhos de |
Femme à Papa |
, o rumor importuno que lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos. |
Subsets and Splits
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