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EXMO. SR. DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª
REGIÃO ? TRF2
Recurso Especial na Apelação Cível
Processo nº 5008336-35.2020.4.02.5101
GYPSUM S.A MINERAÇÃO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO (?Recorrente?), já
qualificada nos autos do processo em epígrafe, por seus advogados abaixo assinados, com
fundamento no art. 105, III, ?a)? e ?c)? da Constituição Federal de 1988 (CF/1988) e nos
arts. 994, inciso VI, 1.029 e seguintes do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015 - NCPC),
interpõe RECURSO ESPECIAL contra o v. acórdão EVENTO 61, integrado pelo v. acórdão
EVENTO 82, conforme as razões de fato e de direito que passa a expor e requer, desde já, a
posterior remessa do feito ao E. Superior Tribunal de Justiça.
Renata De Paoli Gontijo Mariana Fineberg De Angelis
OAB/RJ 93.448 OAB/RJ 103.401
Carolina Martins Moreira Rocha André Luís Duarte do Amaral Lisbôa
OAB/RJ 173.758 OAB/RJ 199.554
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EGRÉGIO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
RECORRENTE: GYPSUM S.A MINERAÇÃO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO
RECORRIDO: UNIÃO FEDERAL // FAZENDA NACIONAL
RAZÕES DE RECORRENTE
1. DA TEMPESTIVIDADE
1.1. Nos termos do art. 219 c/c o art. 1.003, § 5º, do NCPC/2015, o prazo para
interposição de recurso especial é de 15 (quinze) dias úteis. Considerando: i) que a
Recorrente foi intimada tacitamente em 08.04.2022 (sexta-feira); ii) a suspensão dos
prazos processuais nos dias 13.04.2022 a 15.04.2022 (Semana Santa ? Portaria nº TRF2-
PTP-2021/00458, de 26.11.2021) e nos dias 21.04.2022 e 22.04.2022 (Feriado de
Tiradentes - Portaria nº TRF2-PTP-2021/00458, de 26.11.2021 e Portaria TRF2-PTP-
2022/00121 de 30.03.2022) (DOC.01); ii) a contagem do prazo se iniciou em 11.04.2022
(segunda-feira), encerrando-se, portanto, em 06.05.2022 (sexta-feira).
1.2. É, pois, manifestamente tempestivo o presente Recurso Especial se apresentado
nesta data.
2. DOS FATOS
2.1. A questão de mérito objeto do presente Mandado de Segurança é amplamente
conhecida por esse E. Tribunal: discute-se, à luz da tese fixada pelo E. Supremo Tribunal
Federal (STF) no Recurso Extraordinário (RE) nº 574.706/PR (Tema 69), a validade da
inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias bases de cálculo.
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2.2. O MM. Juízo a quo denegou a segurança e a E. 3ª Turma Especializada do Tribunal
Regional Federal (TRF) da 2ª Região, por maioria de votos e mediante a sistemática do art.
942 do CPC/2015 (quórum ampliado), negou provimento à apelação interposta pela
Recorrente, por entender, em essência, que:
tributo componha a base de cálculo dele próprio ou de outro tributo?
(técnica de tributação conhecida como ?cálculo por dentro?); e
b) a decisão proferida no RE nº 574.706/PR não poderia ser aplicada por
analogia, em relação à exclusão do próprio PIS e da própria COFINS porque ali
ter-se-ia decidido apenas a respeito da exclusão do ICMS da base de cálculo
do PIS e da COFINS.
2.3. A Recorrente opôs os Embargos de Declaração de EVENTO 66 para suprir omissões
e prequestionar os seguintes dispositivos:
a) o art. 195, I, b) da Constituição Federal de 1988 (CF/1988): a vedação a que o
PIS e a COFINS integrem as suas próprias base de cálculo decorre do texto
constitucional, ao utilizar os vocábulos receita e faturamento para outorgar
competência tributária à União Federal, sendo irrelevante que a legislação
ordinária contenha eventual previsão autorizativa; e
b) os arts. 926, 927, III e 932, IV b), do CPC/2015: a partir da premissa acima, a
ratio decidendi do E. STF adotada no RE nº 574.706/PR deve, sim, ser aplicada
ao presente caso, na medida em que o que ali se decidiu foi que tributo ?
qualquer que seja ele ? não integra a receita/faturamento e, pois, não compõe
a base de cálculo do PIS e da COFINS.
2.4. A E. 3ª Turma Especializada do TRF da 2ª Região rejeitou os vícios apontados e
negou provimento aos Embargos de Declaração.
2.5. A Recorrente interpôs Recurso Extraordinário, com fundamento no art. 102, III, a),
da CF/1988, porque o acórdão recorrido ofendeu os arts. 195, I, b), e 145, § 1º da CF/1988
ao validar a inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias bases, repelindo a interpretação
dada aos conceitos de faturamento/receita e a ratio decidendi adotada pelo E. STF no RE nº
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2.6. Com fundamento no art. 105, III, a) e c), da CF/1988, a Recorrente interpõe o
presente Recurso Especial, porque o acórdão recorrido:
a) viola os arts. 489, § 1º, IV e 1.022, I, II e § único, ambos do CPC/2015, ao rejeitar
os Embargos de Declaração opostos pela Recorrente e recusar-se a analisar as
omissões apontadas, impondo-se a sua anulação e o retorno do feito ao
Tribunal a quo;
b) viola os arts. 926, 927, III e 932, IV, b) do CPC/2015, porque caminha na
contramão do sistema de precedentes consagrado pelo diploma processual ao
recursar-se a aplicar, ao caso concreto, a ratio decidendi do E. STF adotada no
RE nº 574.706/PR, no sentido de que tributo ? qualquer que seja ele ? não
integra a receita/faturamento e, pois, não compõe a base de cálculo do PIS e da
COFINS;
c) viola o art. 110 do CTN, pois é ilegal qualquer previsão do legislador ordinário
que estabeleça que ?na receita bruta incluem-se os tributos sobre ela
incidentes?, assim como o fazem o art. 12, § 5º, do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e
o art. 1º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, na medida em que desvirtua
o conceito de receita/faturamento utilizado pela Constituição Federal para
definir competência tributária; e
d) deu à legislação federal interpretação divergente da que lhe haviam dado: i) a
4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região na Apelação nº 5022842-
67.2018.4.03.6100 e ii) a 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região,
no julgamento da Apelação nº 0807959-37.2017.4.05.8400.
3. DO PREQUESTIONAMENTO DA MATÉRIA VENTILADA NO RECURSO ESPECIAL
3.1. Para os fins do cabimento de Recurso Especial com fundamento no art. 105, III, a),
da CF/1988, o acesso às vias excepcionais de recurso é condicionado ao cumprimento de
pressupostos específicos de admissibilidade recursal, como o prequestionamento.
3.2. Nesta Seção ? a par da rejeição dos Embargos de Declaração -, a Recorrente
pretende demonstrar que todas as questões ventiladas no presente Recurso Especial foram
devidamente prequestionadas na origem, tendo sido examinadas pelo acórdão recorrido.
Confira-se:
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A) VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489, § 1º, IV e 1.022, I e II DO CPC/2015:
Como cediço, os embargos de declaração, consoante o art. 1.022 do CPC/15, destinam-se
a esclarecer obscuridade, eliminar contradição, suprir omissão ou corrigir erro material no
julgado.
No caso em tela, contudo, inexistem os vícios apontados no acórdão embargado, sendo
certo que omissão haveria caso não ocorresse a apreciação das questões de fato e de
direito relevantes para o deslinde da causa (cf. José Carlos Barbosa Moreira,
?Comentários ao Código de Processo Civil?, RJ, Forense, 6a edição, volume V, p. 502;
Eduardo Arruda Alvim, ?Curso de Direito Processual Civil?, SP, RT, volume 2, 2000, p. 178).
O voto é expresso ao afastar a tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal no RE no
574.706/PR, destacando que ?(...) não há, no sistema tributário brasileiro, vedação à
incidência de tributo sobre tributo, existindo apenas a exceção do inciso XI do parágrafo 2º
do art. 155 da CRFB/88, que dispõe que o ICMS não compreenderá, em sua base de
cálculo, o montante do IPI, quando a operação, realizada entre contribuintes e relativa a
produto destinado à industrialização ou à comercialização, configure fato gerador dos dois
impostos?.
Acrescenta, ainda, que, ?Inexistindo posicionamento firmado pela Suprema Corte sobre o
tema específico, deve se adotar o entendimento de que o sistema tributário não veda a
incidência de tributo sobre tributo, como decidido pelo Supremo Tribunal Federal, no
julgamento do RE nº 585.461, com repercussão geral reconhecida?, e pelo Superior
Portanto, verifica-se que, na verdade, com base em alegações de omissão, deseja a
embargante modificar o julgado por não-concordância, sendo esta a via inadequada.
Necessa?rio se faz esclarecer que, para fins de prequestionamento, basta que a questa?o
tenha sido debatida e enfrentada no corpo da decisa?o, o que ocorreu, sendo
dispensa?vel a indicac?a?o de dispositivo legal ou constitucional.
declarac?a?o.?
(acórdão dos Embargos de Declaração ? grifos da Recorrente)
B) VIOLAÇÃO AOS ARTS. 926, 927, III e 932, IV, b) do CPC/2015:
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repercussão geral reconhecida, fixou a tese no sentido de que o ICMS não compo?e a base
de cálculo para incidência do PIS e da COFINS, procedeu a? análise de uma exigência
tributária específica, sendo descabida a sua aplicação automática, principalmente quando
em discussão tributo diverso.
A jurisprude?ncia dos Tribunais Regionais Federais vem se posicionando no sentido de
na?o aplicar o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no RE nº
574.706/PR, em casos como o presente. [...]?
?O voto e? expresso ao afastar a tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal no RE nº
2o do art. 155 da CRFB/88, que dispo?e que o ICMS na?o compreendera?, em sua base de
produto destinado a? industrializac?a?o ou a? comercializac?a?o, configure fato gerador dos dois
impostos?. [...]? (acórdão dos Embargos de Declaração ? grifos da Recorrente)
C) VIOLAÇÃO AO ART. 110 do CTN
geral; c) o resultado auferido nas operac?o?es de conta alheia; e d) as receitas da
atividade ou objeto principal da pessoa juri?dica na?o compreendidas nos incisos I a III,
sendo certo que o § 5º estabelece que na ?receita bruta incluem-se os tributos sobre ela
incidentes (...)?.
Não resta du?vida, portanto, que a inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias bases de
cálculo está em consona?ncia com o princípio da legalidade tributária expresso no art. 150,
A jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais vem se posicionando no sentido de
não aplicar o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no RE nº
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cálculo [...]?
Nos termos da legislação de regência, a base de cálculo da contribuição ao PIS e da
COFINS e? o faturamento, compreendido como a totalidade das ?receitas auferidas pela
pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil?, ou
seja: a receita bruta da venda de bens e serviços, nas operações em conta própria ou
alheia, e todas as demais receitas auferidas (artigo 1º, caput e § 1º, das Leis nºs
10.637/2002 e 10.833/2003, aplicáveis ao regime não cumulativo e editadas já sob a
égide da Emenda Constitucional nº 20/98). Nesse aspecto, ainda, acerca da base
econômica das exações em comento, no regime cumulativo, veja-se a Lei 9.718/98 (art.
3º): ?O faturamento a que se refere o art. 2º compreende a receita bruta de que trata o
art. 12 do Decreto-Lei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977?, conforme redação dada
pela Lei 12.973/14.
Em que pese a inexistência de comando normativo legal que exclua o PIS e a COFINS de
sua própria base econômica, a vedação se extrai do disposto no art. 195, I, ?b?, da Lei das
Leis de nosso ordenamento, que previu como base de cálculo das aludidas contribuições a
receita ou faturamento, sendo esse o alcance que pode ser conferido à legislação
tributária mencionada acima, vez que, nos termos do art. 110 do CTN: ?A lei tributária não
pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de
direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal (...)?.
Com efeito, o conceito de receita ou faturamento não pode ser alargado ou modificado,
sob pena de desprezar-se o modelo constitucional, adentrando-se a seara imprópria da
exigência da contribuição, relativamente a valor que não passa a integrar o patrimônio do
contribuinte e que, portanto, não está abarcado pelo conceito de receita, não sendo
possível, portanto, interpretar a Lei n. 12.973/14 no sentido de que o PIS e a COFINS
podem compor a sua própria base de cálculo, mediante ?cálculo por dentro?.
(acórdão da Apelação ? voto proferido pelo Desembargador Federal Theóphilo Antonio
Miguel Filho - grifos da Recorrente)
3.3. É, pois, evidente que o acórdão recorrido apreciou todas as questões jurídicas
objeto do presente Recurso Especial, impondo-se o seu regular processamento.
4. DAS RAZÕES PARA A REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO
4.1. DA VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489, § 1º, IV e 1.022, I e II DO CPC/2015
4.1.1. O art. 1.025 do CPC/2015 traz a ideia de que a simples oposição de Embargos de
Declaração, ainda que rejeitados, supre o requisito do necessário prequestionamento para
viabilizar a apreciação da demanda pelos Tribunais Superiores, in verbis:
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?Art. 1.025. Consideram-se incluídos no acórdão os elementos que o embargante
suscitou, para fins de pré-questionamento, ainda que os embargos de declaração sejam
inadmitidos ou rejeitados, caso o tribunal superior considere existentes erro, omissão,
contradição ou obscuridade.?
4.1.2. O art. 1.025 do CPC/2015 pareceu positivar a jurisprudência construída ao longo
de anos pelo E. STF no sentido de que, mesmo que rejeitados os Embargos de Declaração
pelo Tribunal a quo, considera-se prequestionada a questão constitucional ventilada, não
mais se exigindo que a parte recorrente suscite violação aos arts. 5º, XXXV e 93 IX da
CF/1988. Vejamos:
a) No julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 219.934/SP, de que foi
Relator o Ministro Octávio Gallotti, o E. STF decidiu que se considera
regularmente apreciada a respectiva questão pela simples oposição de
embargos de declaração, ainda que estes tenham sido rejeitados pelo
Tribunal a quo (Informativo do STF nº 193/2000); e
b) No julgamento da questão de ordem suscitada no AI nº 791.292, de que foi
Relator o Ministro Gilmar Mendes, e cuja repercussão geral foi então
reconhecida, o E. STF decidiu que a decisão judicial deve ser fundamentada,
ainda que sucintamente, sem que seja necessário o exame pormenorizado de
cada uma das alegações suscitadas pelas partes (Tema 339) (DJe de
13.08.2010). A título exemplificativo: AgRg em ARE nº 914.359, STF, Primeira
Turma, Rel. Min. Rosa Weber, DJe 16.12.2015 e AgRg em ARE nº 915.689, STF,
Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, DJe 09.12.2015.
4.1.3. Para esse E. STJ, todavia, a exegese consolidada e ainda hoje em vigor é a de que,
rejeitados os competentes Embargos de Declaração, cumpre ?... à parte recorrente, nas
razões do apelo especial, indicar ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 e alegar a existência
de possível omissão? (AgInt no AREsp nº 1.590.041/SP, 1ª Turma, Relator Ministro Sergio
Kukina ? DJe de 24.08.2020)1.
1 Vejamos, a título meramente exemplificativo, alguns dos inúmeros precedentes proferidos nesse exato
sentido:
?ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. SERVIDOR PÚBLICO. CONTRATAÇÃO
TEMPORÁRIA. SUCESSIVAS RENOVAÇÕES DO CONTRATO. RE 765.320/MG-RG. DIREITO AOS DEPÓSITOS DO
FGTS. INFRINGÊNCIA AO ART. 5º DA LEI 11.960/2009. TESE RECURSAL NÃO PREQUESTIONADA. SÚMULA 211
DO STJ. ACÓRDÃO RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM O ENTENDIMENTO DESTA CORTE. PRECEDENTES DO
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4.1.4. É, pois, na linha do entendimento dessa E. Corte Superior de Justiça que a
Recorrente passa a demonstrar que o acórdão recorrido ofendeu o art. 489, § 1º, IV e o art.
1.022, ambos do CPC/2015.
STJ. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESSA EXTENSÃO, IMPROVIDO.
I. Recurso Especial interposto contra acórdão publicado na vigência do CPC/2015.
III. Por simples cotejo das razões recursais e dos fundamentos do acórdão recorrido, percebe-se que a tese
referente à afronta ao 5º da Lei 11.960/2009 não foi apreciada, no acórdão recorrido, não tendo servido de
fundamento à conclusão adotada pelo Tribunal de origem, incidindo o óbice da Súmula 211/STJ.
IV. Nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, \"a admissão de prequestionamento ficto
(art. 1.025 do CPC/15), em recurso especial, exige que no mesmo recurso seja indicada violação ao art.
1.022 do CPC/15, para que se possibilite ao Órgão julgador verificar a existência do vício inquinado ao
acórdão, que uma vez constatado, poderá dar ensejo à supressão de grau facultada pelo dispositivo de lei\"
(STJ, REsp 1.639.314/MG, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, DJe de 10/04/2017). Hipótese
em julgamento na qual a parte recorrente não indicou, nas razões do apelo nobre, contrariedade ao art.
1.022 do CPC/2015.
XI. Recurso Especial parcialmente conhecido, e, nessa extensão, improvido.?
(REsp nº 1.923.473/MG, Relatora Ministra Assusete Magalhães, 2ª Turma, DJe de 16.04.2021 ? grifos do
?PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ENUNCIADO
ADMINISTRATIVO 3/STJ. PROCESSO ADMINISTRATIVO. NULIDADE. DISPOSITIVOS DA LEI Nº 9.784/99.
AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA DE ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO DO ART. 1022 DO CPC/2015.
SÚMULA 211/STJ. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO.
1. O STJ não considera suficiente, para fins de prequestionamento que a matéria tenha sido suscitada pelas
partes ou apenas citada no acórdão, mas sim que a respeito tenha havido efetivo debate no acórdão
recorrido.
2. Ocorrendo omissão no julgamento dos embargos de declaração pelo Tribunal local sob ponto relevante
da demanda, cabe ao recorrente, nas razões do recurso especial, suscitar preliminar de violação do artigo
1.022 do CPC/2015, e não insistir no mérito.
3. Somente se poderá entender pelo prequestionamento implícito quando a matéria tratada no dispositivo
legal for apreciada e solucionada pelo Tribunal de origem, de forma que se possa reconhecer qual norma
direcionou o decisum objurgado.
4. Agravo interno não provido.?
(AgInt no AREsp nº 1.589.171/SP, Relator Ministro Mauro Campbell Marques, 2ª Turma, DJe de 27.04.2020 ?
grifos do Recorrente)
?CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. INVENTÁRIO. LIQUIDAÇÃO PARCIAL DE SOCIEDADE
LIMITADA. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS PROPORCIONAIS ÀS COTAS INVENTARIADAS - HERDEIROS SÓCIOS EM
CONDOMÍNIO ? CABIMENTO - PRESCRIÇÃO DO DIREITO - NÃO OCORRÊNCIA.
01. Inviável o recurso especial na parte em que a insurgência recursal não estiver calcada em violação a
dispositivo de lei, ou em dissídio jurisprudencial.
03. Inviável a análise de violação de dispositivos de lei não prequestionados na origem, apesar da
interposição de embargos de declaração.
04. A admissão de prequestionamento ficto (art. 1.025 do CPC/15), em recurso especial, exige que no
mesmo recurso seja indicada violação ao art. 1.022 do CPC/15, para que se possibilite ao Órgão julgador
verificar a existência do vício inquinado ao acórdão, que uma vez constatado, poderá dar ensejo à
supressão de grau facultada pelo dispositivo de lei.
06. Recurso especial não provido.?
(REsp nº 1.639.314/MG, Relatora Ministra Nancy Andrighi, 3ª Turma, DJe de 10.04.2017 ? grifos do
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4.1.5. Pois bem. Como já visto, o v. acórdão recorrido negou provimento ao recurso de
Apelação interposto pela Recorrente, por entender que:
tributo componha a base de cálculo dele próprio ou de outro tributo? (te?cnica
de tributação conhecida como ?cálculo por dentro?); e
b) a decisão proferida no RE nº 574.706/PR não poderia ser aplicada por analogia,
em relação à exclusão do próprio PIS e da própria COFINS porque ali ter-se-ia
decidido apenas a respeito da exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da
COFINS.
4.1.6. A ora Recorrente opôs Embargos de Declaração para:
a) Prequestionar o art. 195, I, b) da Constituição Federal de 1988 (CF/1988): a
vedação a que o PIS e a COFINS integrem as suas próprias base de cálculo
decorre do texto constitucional, ao utilizar os vocábulos receita e
faturamento para outorgar competência tributária à União Federal, sendo
irrelevante que a legislação ordinária contenha eventual previsão
autorizativa; e
b) Prequestionar os arts. 926, 927, III e 932, IV b), do CPC/2015: a partir da
premissa acima, a ratio decidendi do E. STF adotada no RE nº 574.706/PR
deve, sim, ser aplicada ao presente caso, na medida em que o que ali se
decidiu foi que tributo ? qualquer que seja ele ? não integra a
receita/faturamento e, pois, não compõe a base de cálculo do PIS e da
COFINS; e
4.1.7. Os referidos Embargos de Declaração foram rejeitados, nos seguintes termos:
Conheço dos embargos de declaração, porque presentes os requisitos de admissibilidade.
Como cedic?o, os embargos de declarac?a?o, consoante o art. 1.022 do CPC/15, destinam-
se a esclarecer obscuridade, eliminar contradic?a?o, suprir omissa?o ou corrigir erro
material no julgado.
No caso em tela, contudo, inexistem os vi?cios apontados no aco?rda?o embargado, sendo
certo que omissão haveria caso não ocorresse a apreciação das questo?es de fato e de
direito relevantes para o deslinde da causa (cf. Jose? Carlos Barbosa Moreira, ?Comentários
ao Código de Processo Civil?, RJ, Forense, 6a edição, volume V, p. 502; Eduardo Arruda
Alvim, ?Curso de Direito Processual Civil?, SP, RT, volume 2, 2000, p. 178).
O voto e? expresso ao afastar a tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal no RE nº
2º do art. 155 da CRFB/88, que dispo?e que o ICMS na?o compreendera?, em sua base de
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produto destinado a? industrializac?a?o ou a? comercializac?a?o, configure fato gerador dos
dois impostos?.
Acrescenta, ainda, que, ?Inexistindo posicionamento firmado pela Suprema Corte sobre
o tema especi?fico, deve se adotar o entendimento de que o sistema tributa?rio na?o veda
a incide?ncia de tributo sobre tributo, como decidido pelo Supremo Tribunal Federal, no
julgamento do RE nº 585.461, com repercussa?o geral reconhecida?, e pelo Superior
Portanto, verifica-se que, na verdade, com base em alegac?o?es de omissa?o, deseja a
embargante modificar o julgado por na?o-concorda?ncia, sendo esta a via inadequada.
Necessário se faz esclarecer que, para fins de prequestionamento, basta que a questão
tenha sido debatida e enfrentada no corpo da decisão, o que ocorreu, sendo dispensável
a indicação de dispositivo legal ou constitucional.
declaração.? (grifos da Recorrente)
4.1.8. Ora Exa., a despeito da consistência dos argumentos expostos pela ora Recorrente
nos Embargos de Declaração então opostos, o Tribunal a quo deixou de se manifestar
minimamente sobre as questões suscitadas.
4.1.9. O v. acórdão limita-se a alegar que ?Inexistindo posicionamento firmado pela
Suprema Corte sobre o tema específico, deve se adotar o entendimento de que o sistema
tributário não veda a incidência de tributo sobre tributo? ? muito embora a Recorrente
tenha deixado claro que não está discutindo se tributo pode integrar a base de cálculo de
um mesmo ou de outro tributo, nem tampouco a validade da sistemática do ?cálculo por
dentro? de um tributo.
4.1.10. Tanto é assim que a Recorrente demonstrou que no próprio julgamento do RE nº
574.706/PR, o Ministro Luiz Fux diferenciou a discussão relativa ao ?cálculo por dentro? de
um tributo e a discussão relativa à acepção constitucional do faturamento, tal como
encartado no art. 195, I da CF/1988.
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4.1.11. Nos Embargos de Declaração, a Recorrente também demonstrou que a ratio
decidendi do E. STF adotada no RE nº 574.706/PR deve, sim, ser aplicada ao presente caso,
porque o que ali se decidiu foi que tributo ? qualquer que seja ele ? não integra a
receita/faturamento e, pois, não compõe a base de cálculo do PIS e da COFINS.
4.1.12. Mas, de igual forma, o Tribunal a quo também não se manifestou adequadamente
sobre tal fato. E, muito menos, sobre os motivos que poderiam justificar o afastamento da
ratio decidendi adotada pelo E. STF no RE nº 574.706/PR (Tema 69) e, por conseguinte, da
teoria dos precedentes consagrada nos arts. 926, 927, III e 932, IV b), do CPC/2015.
4.1.13. Dessa forma, ao deixar de apreciar os vícios apontados pela Recorrente,
perpetuando as omissões apontadas nos Embargos de Declaração, conclui-se que o v.
acórdão recorrido incorre em nulidade, devendo os presentes autos retornarem ao E.
Tribunal Regional Federal da 2ª Região para novo julgamento, sob pena de violação aos
arts. 489, § 1º IV e 1.022, I e II, ambos do CPC.
4.1.14. Nesse sentido é a jurisprudência desse E. STJ:
?PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. INCONGRUÊNCIA ENTRE A
FUNDAMENTAÇÃO DA SENTENÇA E SUA PARTE DISPOSITIVA. OMISSÃO NO ACÓRDÃO DO
TRIBUNAL DE ORIGEM. NULIDADE.
1. Assiste razão à embargante, na medida em que a Corte a quo não respondeu ao
questionamento formulado na via dos embargos declaratórios relativo à incongruência
entre a fundamentação da sentença primária e sua parte dispositiva.
2. A sentença teria acolhido apenas um dos pedidos deduzidos na inicial, atinente à
aplicação indevida do regime de caixa na apuração do IRPF, facultando novo lançamento
por parte do fisco, com a utilização do regime da competência, mas declarando devida a
exação sobre as referidas verbas.
3. Nesse contexto, a insurgência veiculada na apelação da Fazenda Pública restringiu-se à
extensão da procedência do pedido na sentença de piso, se total ou parcial, até para
efeito de aferição da sucumbência recíproca.
4. Tendo o acórdão impugnado deixado de analisar matéria de relevância para o
deslinde da controvérsia, impõe-se o reconhecimento de sua nulidade por ofensa ao
artigo 1.022, inciso II, do CPC/2015.
5. Recurso especial a que se dá provimento para anular o acórdão dos embargos de
declaração e determinar o retorno dos autos à Corte de origem, a fim de que se
manifeste, expressamente, a respeito do quanto alegado em sede declaratória.?
(REsp nº 1.657.996/RN, STJ, Segunda Turma, Rel. Ministro Og Fernandes, DJe 30.06.2017
? grifos da Recorrente)
13
?PROCESSUAL CIVIL. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 1022 DO CPC/2015. OMISSÃO. NULIDADE
DO JULGADO. RETORNO DOS AUTOS. NECESSIDADE.
1. Existindo na petição recursal alegação de ofensa ao artigo 535 do CPC/1973 (ar. 1.022
do CPC/2015), a constatação de que o Tribunal de origem, mesmo após a oposição de
Embargos Declaratórios, não se pronunciou sobre pontos essenciais ao deslinde da
controvérsia autoriza o retorno dos autos à instância ordinária para novo julgamento
dos aclaratórios opostos.
2. Na espécie, apesar da oposição dos Aclaratórios, o Tribunal de origem não se
pronunciou sobre a seguinte alegação: \"de que, no caso em tela, trata-se de execução de
sentença contra a Fazenda Pública oriunda da ação coletiva nº 1999.38.00.014767 (em
que foram partes o SINTSPREV/MG versus INSS), sendo cabível, por essa razão, a fixação
de honorários advocatícios, conforme o disposto nos artigo 20, caput e §§ 3º e 4º, do CPC,
artigos 90, 91, 97 e 98 do CDC, artigos 15 e 21 da Lei nº 7.347/85 e nos termos da súmula
345 deste Superior Tribunal de Justiça, in verbis: 'São devidos os honorários advocatícios
pela Fazenda Pública nas execuções individuais de sentença proferida em ações coletivas,
ainda que não embargadas'\" (fl. 270, e- STJ, grifos no original).
3. Nesse contexto, deve ser dado provimento ao Recurso Especial a fim de que os autos
retornem ao Tribunal de origem para que este se manifeste sobre a matéria articulada
nos Embargos de Declaração, em face da relevância da omissão apontada.
4. Recurso Especial provido, determinando o retorno dos autos à Corte de origem, para
novo julgamento dos Embargos de Declaração.?
(REsp nº 1.663.643/DF, STJ, Segunda Turma, Rel. Ministro Herman Benjamin, Dje
16.06.2017 ? grifos da Recorrente)
?ADMINISTRATIVO. AUTO DE INFRAÇÃO. INMETRO. INAPLICAÇÃO DO DECRETO Nº
70.235/72. VIOLAÇÃO AO ARTIGO 535 DO CPC CONFIGURADA.
1. A Corte regional entendeu pela anulação de auto de infração do IPEM/RJ por não
constar devidamente identificada o valor da multa aplicada, o que acarretaria
cerceamento de defesa do administrado.
2. Em embargos de declaração, alegou-se que o Decreto n.º 70.235/72 não seria aplicável
ao caso dos autos, ante o fato de que a multa aplicada não teria natureza tributária. Não
houve a devida resposta pelo Tribunal a quo.
3. Viola o artigo 535, II, do Código de Processo Civil, o acórdão que não analisa ponto
essencial ao deslinde da controvérsia, o que determina a anulação do acórdão que
julgou os aclaratórios e o retorno dos autos à origem para novo julgamento.
4. Recurso especial provido.?
(REsp nº 1.138.736/RJ, STJ, Segunda Turma, Rel. Ministro Castro Meira, DJe 05.10.2009 ?
grifos da Recorrente)
4.1.15. Resta, pois, configurada a violação aos arts. 489, § 1º, IV e 1.022, I e II, ambos do
CPC/2015, impondo-se a anulação do v. acórdão recorrido e o retorno do feito ao Tribunal
a quo para que sejam sanados os vícios apontados nos Embargos de Declaração manejados
pela Recorrente.
14
4.2. DA VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489, § 1º, VI, 926, 927, III e 932, IV, b) do CPC/2015
4.2.1. Os arts. 489, § 1º, VI, 926, 927, III e 932, IV, b) do CPC/2015 consagram o sistema
processual de vinculação de precedentes, e assim dispõem:
?Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e
coerente.?
?Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:
III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas
repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos;?
?Art. 932. Incumbe ao relator:
IV - negar provimento a recurso que for contrário a:
b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça
em julgamento de recursos repetitivos;?
?Art. 489. São elementos essenciais da sentença:
§ 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória,
sentença ou acórdão, que:
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela
parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação
do entendimento.?
4.2.2. Nas lições de José Miguel Medina in ?Novo Código de Processo Civil Comentado?2,
o caráter vinculante dos juízes e tribunais, previsto no art. 927 do CPC/2015, está
relacionado a ratio decidendi do recurso extraordinário repetitivo. Nesse sentido:
Assim, em determinada decisão judicial haverá ratio decidendi útil para utilização em
casos futuros não apenas quando um tribunal decide determinada questão de forma
pontual ou direta (X deve fazer A). Por vezes, na mesma decisão, poderá haver uma
regra geral que abranja, além de X, os indivíduos Y, Z e outros em mesma situação no
2 MEDINA, José Miguel Garcia. Novo Código de Processo Civil Comentado. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2017, p. 1.348.
15
futuro. Com isso, uma vez que podem haver várias ratios [ou, sendo mais fiel ao latim,
rationes] decidendi em diferentes níveis de generalidade, umas pontuais (ou específicas)
e outras gerais, então não há que se falar em uma única ratio decidendi. Todas essas
regras, portanto, têm força de precedentes. Essas decisões que variam em graus de
generalidade, porém, precisam ser imprescindíveis ao resultado da decisão. [...]?
4.2.3. Nas palavras de Luiz Guilherme Marinoni, citada nas lições de Teresa Arruda Alvim
Wambier e Fredie Didier Jr. em seu livro ?Breves Comentários ao Novo Código de Processo
Civil?3, ?o que realmente pode ter efeito obrigatório perante os juízes e tribunais é a ratio
decidendi ou os efeitos determinantes da decisão?:
De modo que, se o caput da norma é obscuro, cabe à teoria explicitar que em todas as
hipóteses lembradas pelo legislador, o que realmente pode ter efeito obrigatório
perante os juízes e tribunais é a ratio decidendi ou os efeitos determinantes da decisão.
Isso, aliás, está bem claro no artigo que trata da fundamentação da sentença.
2. Justificativa e precedente. É sempre necessário justificar a aplicação de um precedente
que se deseja aplicar. Os fatos do precedente são, em princípio, enquadráveis em
categorias ou grupos. Verificar se determinada situação de fato, não abordada
especificamente no precedente, enquadra-se na categoria a que pertence o fato que por
ele foi considerado, importa para analisar a extensão da sua aplicabilidade. Essa tem
relação com a latitude da categoria em que os fatos do precedente estão inseridos. Sem
dúvida, quanto mais larga for a categoria a que pertencem os fatos do precedente, mais
ampla será a área de sua aplicação (Luiz Guilherme Marinoni. O STJ enquanto Corte de
Precedentes. 2. Ed., p. 199).?
4.2.4. No caso, como já visto, discute-se a validade da inclusão do PIS e da COFINS em
suas próprias bases de cálculo, exclusivamente à luz da tese fixada pelo E. STF no RE nº
574.706/PR (Tema 69).
4.2.5. A ratio decidendi adotada expressamente pelo E. STF no julgamento do RE nº
574.706/PR é a de que parcela correspondente a tributo, SEJA ELE QUAL FOR, não pode
integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS, porque tributo não é receita do contribuinte,
mas sim, do respectivo ente político.
3WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; JR., Fredie Didier; TALAMINI, Eduardo; DANTAS, Bruno. Breves Comentários
ao Novo Código de Processo Civil. 2 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, pp. 2.169 e 2.170.
16
4.2.6. Vale citar trechos essenciais dos votos proferidos pelos Ministros Luiz Fux e Celso
de Mello quando do julgamento do Tema 69, como segue:
?Então, essa primeira premissa realmente me conduz a uma exegese do artigo 195, inciso
I, no que concerne à expressão \"faturamento\". Onde é que vou buscar essa expressão
\"faturamento\"? Eu vou buscá-la no Direito que regula o faturamento das empresas, que é
o Direito Comercial, que, ao regular o faturamento das empresas, menciona - como Vossa
Excelência citou no seu voto fazendo remissão ao Ministro Cezar Peluso - o artigo da Lei
nº 6.404, a Lei das Sociedades Anônimas, que prevê a exclusão de impostos para se
entrever faturamento. Essa - digamos assim - recepção, pelo Direito Tributário, dos
conceitos derivados de outras ciências é comuníssimo: compra e venda, inúmeros
institutos de Direito Privado, transmissão causa mortis, transmissão inter vivos. Toda essa
tributação se vale de conceitos privados.?
?Quanto à definição de faturamento, este Supremo Tribunal Federal dedicou muitas
sessões de julgamento a essa elucidação, em razão da complexidade do tema. Para não
reiniciar debate sobre matéria antes examinada e concluída, peço vênia para transcrever
trechos do voto do Ministro Cezar Peluso, proferido nos Recursos Extraordinários ns.
346.084, 358.273, 357.950 e 390.840, no qual traçado histórico da legislação e da
jurisprudência sobre o tema: ?faturamento na?o pode soar o mesmo que receita, nem
confundidas ou identificadas com as operac?o?es (fatos) ?por cujas realizac?o?es se
manifestam essas grandezas numéricas?.
Inaceitável, por isso mesmo, que se qualifique qualquer ingresso como receita, pois a
noção conceitual de receita compõe-se da integração, ao menos para efeito de sua
configuração, de 02 (dois) elementos essenciais:
a) que a incorporação dos valores faça-se positivamente, importando em acréscimo
patrimonial; e
b) que essa incorporação revista-se de caráter definitivo.?
4.2.7. Embora reconheça que a ratio decidendi adotada pelo STF se relaciona com o
conceito constitucional de faturamento, o v. acórdão recorrido decidiu de forma
diametralmente oposta, se limitando a afastar o entendimento vinculante do E. STF sob o
fundamento de que ?o precedente firmado pelo STF não se aplica por analogia? e que
?não há, no sistema tributário brasileiro, vedação à incidência de tributo sobre tributo?:
17
Consignou-se, ainda, que na?o ha?, no sistema tributa?rio brasileiro, vedac?a?o a? incide?ncia
de tributo sobre tributo [...]
referidos diplomas legais. [...]
repercussão geral reconhecida, fixou a tese no sentido de que o ICMS não compõe a
base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS, procedeu à análise de uma exigência
tributária específica, sendo descabida a sua aplicação automática, principalmente
quando em discussão tributo diverso.?
4.2.8. Mas que lógica é essa, Exas., que, de um lado, permite a exclusão do ICMS mas, de
outro, veda a exclusão do PIS e da COFINS de suas próprias bases de cálculo? Com a devida
e máxima vênia, pouco importa a sistemática de recolhimento de quaisquer desses
4.2.9. Como já visto, a tese jurídica construída pelo E. STF no Tema 69 é uma só: à luz do
art. 195, I, b) da CF/1988, parcela correspondente a tributo, seja ele qual for, não pode
integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS, porque tributo não é receita nem
faturamento do contribuinte. E o fato desse entendimento ter sido fixado para fins de
exclusão do ICMS não impede a sua aplicação para fins de exclusão do PIS e da COFINS de
suas próprias bases de cálculo.
4.2.10. E não é só! O acórdão recorrido também adota como razão de decidir o
entendimento firmado pelo E. STJ no REsp nº 1.144.469 (julgado sob a sistemática de
18
recurso repetitivo) e pelo E. STF no RE nº 585.461 (com repercussão geral reconhecida),
aplicando-os em detrimento do posicionamento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no
RE nº 574.706/PR (Tema 69).
4.2.11. Invocar tais precedentes como razão de decidir, data vênia, beira o absurdo pois
absolutamente inaplicáveis à hipótese sub judice, na medida em que:
a) a primeira tese fixada no REsp nº 1.144.4694 está absolutamente superadas pela
posterior decisão proferida pelo E. STF no julgamento do RE nº 574.706, sob a
sistemática de repercussão geral, em que restou fixado o entendimento de que
o ICMS não compõe a base de cálculo do PIS e da COFINS;
b) a segunda tese fixada no REsp nº 1.144.4695 não tem qualquer relação com o
caso concreto: lá, discutiu-se, apenas, se o contribuinte teria direito de excluir
das bases de cálculo do PIS e da COFINS valores computados a título de receita
mas transferidos a outras pessoas jurídicas, à luz do art. 3º, § 2º, III da Lei nº
9.718/1998;
c) o entendimento que atualmente prevalece no E. STJ é no sentido de que o tema
relativo à inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias bases possui natureza
constitucional, submetendo-se à apreciação exclusiva do E. STF, porque a
controvérsia jurídica deve ser dirimida à luz do conceito de faturamento
previsto no art. 195, inciso I, b), da CF/1988; e, por fim,
d) o fato de o E. STF ter, no RE nº 585.461, fixado a tese no sentido de que é
constitucional a inclusão do ICMS em sua própria base de cálculo, não legitima
que o PIS e a COFINS também integrem a base de cálculo dessas mesmas
contribuições; o cálculo por dentro do ICMS encontra respaldo expresso em
nosso ordenamento jurídico (art. 155, § 2º, XII, i), da CRFB/1988 c/c art. 13, § 1º,
I, da Lei Complementar nº 87/1996).
4.2.12. Em suma, o acórdão recorrido afronta duplamente o sistema de precedentes
arduamente construído pelo ordenamento jurídico brasileiro e positivado nos arts. 489, §
1º, VI, 926, 927 III e 932 IV b), todos do CPC/2015: i) afasta indevidamente o precedente
4
?O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento,
submetendo-se à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do
conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exaço?es.?
5
?O artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9718/98 não teve eficácia jurídica, de modo que integram o faturamento e
também o conceito maior de receita bruta, base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os
valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica.?
19
fixado pelo E. STF no RE nº 574.706/PR (Tema 69) e ii) adota como razão de decidir
precedentes já superados ou inaplicáveis ao caso concreto (REsp nº 1.144.469, REsp nº
976.836/RS e RE nº 585.461).
4.2.13. Resta, portanto, expressamente demonstrada a violação do v. acórdão recorrido
aos arts. 489, § 1º, VI, 926, 927 III e 932 IV b) do CPC/2015.
4.3. DA VIOLAÇÃO AO ART. 110 DO CTN
DA AMPLIAÇÃO INDEVIDA DO CONCEITO DE FATURAMENTO/ RECEITA
UTILIZADO PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL PARA DEFINIR COMPETÊNCIA
TRIBUTÁRIA (ART. 195, I, ?B?)
4.3.1. Em sua redação original, o art. 1º, § 1º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003
estabeleceram que o PIS e a COFINS incidiam ?sobre o total das receitas auferidas?, sendo
que o total das receitas compreendia ?... a receita bruta da venda de bens e servic?os nas
operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa
jurídica?.
4.3.2. O entendimento das autoridades fiscais-administrativas, por sua vez, sempre foi
no sentido de que a expressão ?total das receitas auferidas? compreenderia qualquer
ingresso na contabilidade da Recorrente. Para o Fisco, o PIS e a COFINS deveriam ser
incluídos em suas próprias bases de cálculo i) a partir de uma interpretação, a contrário
senso, do conceito de receita líquida (receita bruta diminuída das vendas canceladas, dos
descontos concedidos incondicionalmente e dos impostos incidentes sobre vendas) e ii)
porque não haveria disposição legal expressa autorizando a sua exclusão (art. 3º, § 2º, I da
Lei nº 9.718/1998 c/c art. 1º, § 3º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003).
4.3.3. Este entendimento foi reforçado pela edição da Lei nº 12.973/2014 (com efeitos a
partir de janeiro de 2015), que alterou o art. 12, § 5º, do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e o art.
1º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, para estabelecer expressamente que ?na
receita bruta incluem-se os tributos sobre ela incidentes?.
20
4.3.4. Como visto, o v. acórdão recorrido entendeu que o PIS e a COFINS devem ser
incluídos em suas próprias bases de cálculo, porque somente as verbas expressamente
elencadas no art. 1º, § 3º, das Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03 podem ser excluídas, e,
não há, no ordenamento jurídico brasileiro, vedação a? incidência de tributo sobre tributo:
Por sua vez, o art. 12 do Decreto-Lei nº 1.598/77, com a redação dada pela Lei nº
venda de bens nas operaço?es de conta própria; b) o preço da prestação de serviços em
geral; c) o resultado auferido nas operaço?es de conta alheia; e d) as receitas da atividade
4.3.5. O entendimento fixado pelo acórdão recorrido, assim como a previsão contida no
art. 12, § 5º, do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e no art. 1º das Leis nºs 10.637/2002 e
10.833/2003 são ilegais e esbarram na regra geral de Direito Tributário consagrada no art.
110 do CTN.
4.3.6. Com efeito, o art. 110 do CTN veda que o legislador infraconstitucional altere o
conteúdo ou o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados pela
Constituição Federal para outorgar competência tributária aos entes políticos, como segue:
?Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de
institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente,
pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do
Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias.?
21
4.3.7. Ao longo dos anos, e atento ao que dispõe o art. 110 do CTN, a jurisprudência do
STF fixou importantes parâmetros para definir o verdadeiro alcance da disciplina
constitucional relativa ao PIS e a COFINS, quais sejam:
a) O PIS e a COFINS são espécies de contribuição para a seguridade social
(Plenário: Res nºs 346.084, 357.950, 358.273 e 390.840, Relator Ministro Marco
Aurélio ? acórdãos publicados no DJ de 15.08.2006; ADC nº 01-DF, Relator
Ministro Moreira Alves, RTJ nº 156/721 e RE nº 240.266-5, Relator Ministro
Maurício Corrêa, DJ de 06.10.2000);
b) Os vocábulos utilizados pela CF/1988 devem ser interpretados em seu sentido
técnico, especialmente para a definição de competências tributárias (RE nº
116.121-SP, Relator para acórdão Ministro Marco Aurélio, DJ de 25.05.2001);
c) O conceito de faturamento previsto no art. 195, I, da CF/1988, na sua redação
original, correspondia à receita bruta da venda de mercadorias e/ou de serviços
(Plenário, REs nºs 346.084, 357.950, 358.273 e 390.840, Relator Ministro Marco
Aurélio, DJ de 15.08.2006; e RE nº 150.755, Relator Ministro Sepúlveda
Pertence, DJ de 20.08.1993; e
d) Na sua maior amplitude, o conceito de receita previsto no art. 195, I, b), da
CF/1988, com a redação dada pela EC nº 20/1998, pode compreender: a receita
bruta e líquida das vendas e serviços, as receitas operacionais e as receitas não
operacionais da pessoa jurídica (voto do Ministro Cezar Peluso no julgamento
dos REs nºs 346.084, 357.950, 358.273 e 390.840, Relator Ministro Marco
Aurélio, DJ de 15.08.2006).
4.3.8. Ora, se, como visto acima, os vocábulos ?faturamento? e ?receita? são utilizados
pelo legislador constitucional para definir a competência tributária da União Federal para
instituir o PIS e a COFINS (art. 195, I, b), da CF/1988), é certo que tais expressões devem
ser interpretadas em seu sentido técnico, assim como determina o art. 110 do CTN.
4.3.9. A base de cálculo do PIS e da COFINS, portanto, está limitada, pelo legislador
constitucional, às receitas auferidas pela pessoa jurídica.
4.3.10. É justamente esta definição te?cnica do conceito de ?receita/faturamento? que
compreende a questão jurídica objeto da presente demanda: a ?receita/faturamento? que
representa a base de cálculo do PIS e da COFINS é aquela que traduz um incremento
22
efetivo e definitivo ao patrimônio preexistente do contribuinte, o que, por óbvio, não
compreende um tributo ? no caso, o próprio PIS e a própria COFINS ? que,
necessariamente, será transferido aos cofres do ente público sujeito ativo da respectiva
relação jurídico-tributária.
4.3.11. E a definitividade do ingresso não está relacionada ao seu tempo de
permanência no patrimônio da pessoa jurídica, mas sim à titularidade e disponibilidade
dos valores ingressados, conferidas pelo título jurídico que acoberta a referida
operação. Titularidade e disponibilidade estas que, no caso do PIS e da COFINS,
pertencem à União Federal, mas jamais à Recorrente.
4.3.12. A única distinção entre o ICMS, o PIS e a COFINS, para fins de avaliação da
procedência de sua inclusão na base de cálculo dessas próprias contribuições sociais,
diz respeito ao ente público responsável por sua instituição e cobrança (Estado e
Distrito Federal para o ICMS, e União Federal para o PIS e a COFINS), distinção esta que
em nada desnatura a característica de receita pública desses valores, que, em
verdade, representam ônus fiscal para o contribuinte. Não se fatura tributo nem se
tem este como receita bruta.
4.3.13. Nesse particular, vale ressaltar os trechos pertinentes do voto proferido pelo
Ministro Relator MARCO AURÉLIO, no julgamento do RE nº 240.785-2/MG, oportunidade
em que, antes mesmo do Tema 69, o E. STF examinou a matéria:
?As expressões utilizadas no inciso I do artigo 195 em comento hão de ser tomadas no
sentido técnico consagrado pela doutrina e jurisprudencialmente. Por isso mesmo, esta
Corte glosou a possibilidade de incidência da contribuição, na redação primitiva da Carta,
sobre o que pago àqueles que não mantinham vínculo empregatício com a empresa,
emprestando, assim, ao vocábulo ?salários?, o sentido te?cnico-jurídico, ou seja, de
remuneração feita com base no contrato de trabalho ? Recurso Extraordinário nº
128.519-2/DF. Jamais imaginou-se ter a referência à folha de salários como a apanhar, por
exemplo, os acessórios, os encargos ditos trabalhistas resultantes do pagamento
efetuado. Óptica diversa não pode ser emprestada ao preceito constitucional, revelador
da incidência sobre o faturamento. Este decorre, em si, de um negócio jurídico, de uma
operação, importando, por tal motivo, o que percebido por aquele que a realiza,
considerada a venda de mercadoria ou mesmo a prestação de serviços. A base de cálculo
da Cofins não pode extravasar, desse modo, sob o ângulo do faturamento, o valor do
23
negócio, ou seja, a parcela percebida com a operação mercantil ou similar. O conceito
de faturamento diz com riqueza própria, quantia que tem ingresso nos cofres de quem
procede à venda de mercadorias ou à prestação dos serviços, implicando, por isso
mesmo, o envolvimento de noções próprias ao que se entende como receita bruta.
Descabe assentar que os contribuintes da Cofins faturam, em si, o ICMS. O valor deste
revela, isto sim, um desembolso a beneficiar a entidade de direito público que tem a
competência para cobrá-lo. A conclusão a que chegou a Corte de origem, a partir de
premissa errônea, importa na incidência do tributo que é a Cofins, não sobre o
faturamento, mas sobre outro tributo já agora da competência de unidade da Federação.
No caso dos autos, muito embora com a transferência do ônus para o contribuinte, ter-se-
á, a prevalecer o que decidido, a incidência da Cofins sobre o ICMS, ou seja, a incidência
de contribuição sobre imposto, quando a própria Lei Complementar nº 70/91, fiel à dicção
constitucional, afastou a possibilidade de incluir-se, na base de incidência da Cofins, o
valor devido a título de IPI. Difícil é conceber a existência de tributo sem que se tenha
uma vantagem, ainda que mediata, para o contribuinte, o que se dirá quanto a um ônus,
como é o ônus fiscal atinente ao ICMS. O valor correspondente a este último não tem a
natureza de faturamento. Não pode, então, servir à incidência da Cofins, pois não revela
medida de riqueza apanhada pela expressão contida no preceito da ali?nea ?b? do inciso
I do artigo 195 da Constituição Federal. Cumpre ter presente a advertência do ministro
Luiz Gallotti, em voto proferido no Recurso Extraordinário nº 71.758: ?se a lei pudesse
chamar de compra e venda o que não é compra, de exportação o que não é exportação,
de renda o que não e? renda, ruiria todo o sistema tributário inscrito na Constituição? - RTJ
66/165. Conforme salientado pela melhor doutrina, ?a Cofins só pode incidir sobre o
faturamento que, conforme visto, é o somatório dos valores das operações negociais
realizadas?. A contrário sensu, qualquer valor diverso deste não pode ser inserido na base
de cálculo da Cofins. Há de se atentar para o princípio da razoabilidade, pressupondo-se
que o texto constitucional mostre-se fiel, no emprego de institutos, de expressões e de
vocábulos, ao sentido próprio que eles possuem, tendo em vista o que assentado pela
doutrina e pela jurisprudência. Por isso mesmo, o artigo 110 do Código Tributário
Nacional conta com regra que, para mim, surge simplesmente pedagógica, com sentido
didático, a revelar que: A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o
alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados, expressa ou
implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis
Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios para definir ou limitar competências
tributárias. Da mesma forma que esta Corte excluiu a possibilidade de ter-se, na
expressão ?folha de salários?, a inclusão do que satisfeito a administradores, autônomos e
avulsos, não pode, com razão maior, entender que a expressão ?faturamento? envolve,
em si, ônus fiscal, como é o relativo ao ICMS, sob pena de desprezar-se o modelo
constitucional, adentrando-se a seara imprópria da exigência da contribuição,
relativamente a valor que não passa a integrar o patrimônio do alienante quer de
mercadoria, quer de serviço, como é o relativo ao ICMS. Se alguém fatura ICMS, esse
alguém é o Estado e não o vendedor da mercadoria. Admitir o contrário é querer, como
salientado por Hugo de Brito Machado em artigo publicado sob o título ?Cofins -
Ampliação da base de cálculo e compensação do aumento de alíquota?, em
?CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS - PROBLEMAS JURÍDICOS?, que a lei ordinária redefina
conceitos utilizados por norma constitucional, alterando, assim, a Lei Maior e com isso
afastando a supremacia que lhe é própria. Conforme previsto no preceito constitucional
em comento, a base de cálculo é única e diz respeito ao que faturado, ao valor da
mercadoria ou do serviço, não englobando, por isso mesmo, parcela diversa. Olvidar os
parâmetros próprios ao instituto, que é o faturamento, implica manipulação geradora de
insegurança e, mais do que isso, a duplicidade de ônus fiscal a um só título, a cobrança da
contribuição sem ingresso efetivo de qualquer valor, a cobrança considerado, isso sim, um
desembolso.
[...]? (grifos da Recorrente)
24
4.3.14. Em suma, os valores referentes ao PIS e a COFINS - tal como decidido pelo STF, em
relação ao ICMS - NÃO integram de forma definitiva o patrimônio da pessoa jurídica,
porque são ônus fiscais, correspondentes ao valor de um tributo que é repassado pela
pessoa jurídica aos cofres federais. Tratam-se de valores que consubstanciam receitas da
União Federal e não da pessoa jurídica e que, portanto, não podem compor suas próprias
bases de cálculo.
4.3.15. Enquanto o art. 195, I, b), da CF/1988 utilizar o termo ?faturamento/receita
bruta? para nortear a competência tributária detida pela União Federal para instituir o PIS
e a COFINS, será ilegal qualquer previsão do legislador ordinário que estabeleça que ?na
receita bruta incluem-se os tributos sobre ela incidentes?, assim como o fazem o art. 12, §
5º, do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e o art. 1º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003.
4.3.16. Parafraseando o Ministro Marco Aurélio no voto transcrito no item 4.3.13., retro,
se alguém fatura o PIS e a COFINS, esse alguém é a União Federal, mas jamais o
contribuinte que vende a mercadoria ou presta o serviço.
4.3.17. Impõe-se, pois, a reforma do acórdão recorrido porque alarga indevidamente o
conceito de receita/faturamento da pessoa jurídica, em flagrante violação ao disposto no
art. 110 do CTN.
5. DO CABIMENTO E DO PROVIMENTO DO PRESENTE RECURSO ESPECIAL COM BASE
NO ARTIGO 105, III, ?C?, DA CF/1988
DA DIVERGÊNCIA COM OS ACÓRDÃOS PROLATADOS NA APELAÇÃO N o 5022842-
67.2018.4.03.6100 PELO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3ª REGIÃO E NA
APELAÇÃO Nº 0807959-37.2017.4.05.8400 PELO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA
5ª REGIÃO
5.1. No caso, como já visto e revisto, discute-se a validade da inclusão do PIS e da
COFINS em suas próprias bases de cálculo, exclusivamente à luz da tese fixada pelo E. STF
no RE nº 574.706/PR (Tema 69).
25
5.2. O v. acórdão recorrido validou a inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias
bases de cálculo, afastando o entendimento adotado pelo E. STF no RE nº 574.706/PR, sob
o fundamento de que a Suprema Corte ?... procedeu a? ana?lise de uma exige?ncia tributa?ria
especi?fica, sendo descabida a sua aplicac?a?o automa?tica, principalmente quando em
discussa?o tributo diverso? e, ainda, que ?a base de ca?lculo das referidas contribuic?o?es sera?
o valor total do faturamento ou da receita da pessoa juri?dica, e nesta se incluem os tributos
sobre elas incidentes?.
5.3. Eis os trechos pertinentes do respectivo voto condutor:
A questa?o cinge-se a? inclusa?o, ou na?o, da contribuic?a?o para o PIS e COFINS nas suas
pro?prias bases de ca?lculo, a partir de janeiro de 2015.
que, não existindo norma constitucional ou legal que proíba a presença de qualquer
cálculo, e, não havendo jurisprudência vinculante que se aplique ao caso concreto, não e?
possível excluir as próprias contribuiço?es ao PIS e COFINS de suas bases de cálculo:
geral; c) o resultado auferido nas operac?o?es de conta alheia; e d) as receitas da atividade
ou objeto principal da pessoa juri?dica na?o compreendidas nos incisos I a III, sendo certo
Na?o resta du?vida, portanto, que a inclusa?o do PIS e da COFINS em suas pro?prias bases de
ca?lculo esta? em consona?ncia com o princi?pio da legalidade tributa?ria expresso no art. 150,
repercussa?o geral reconhecida, fixou a tese no sentido de que o ICMS na?o compo?e a base
de ca?lculo para incide?ncia do PIS e da COFINS, procedeu a? ana?lise de uma exige?ncia
26
tributa?ria especi?fica, sendo descabida a sua aplicac?a?o automa?tica, principalmente quando
em discussa?o tributo diverso.
Inexistindo posicionamento firmado pela Suprema Corte sobre o tema especi?fico, deve se
adotar o entendimento de que o sistema tributa?rio na?o veda a incide?ncia de tributo sobre
tributo, como decidido pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE nº 585.461,
com repercussa?o geral reconhecida, que assentou que e? constitucional a inclusa?o do ICMS
em sua pro?pria base de ca?lculo, visto que esta, definida como o valor da operac?a?o da
circulac?a?o de mercadorias, inclui o pro?prio montante do ICMS incidente, pois ele faz parte
da importa?ncia paga pelo comprador e recebida pelo vendedor na operac?a?o, consoante a
seguinte ementa:
No mesmo sentido, decidiu o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp nº
1.144.469, conforme ementa a seguir transcrita, tendo sido afastada, outrossim, eventual
violação ao princípio da capacidade contributiva:
cálculo, devendo ser mantida a sentença recorrida.
Isto posto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO a? apelação da impetrante.?
5.4. Veja bem, Exa., as seguintes afirmativas que constam do acórdão recorrido:
?[...] não existindo norma constitucional ou legal que proíba a presença de qualquer
cálculo, e, não havendo jurisprudência vinculante que se aplique ao caso concreto, não é
possível excluir as próprias contribuições ao PIS e COFINS de suas bases de cálculo.?
?Cabe salientar que, de acordo com as Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03, que regem a
referidos diplomas legais.?
?Por sua vez, o art. 12 do Decreto-Lei nº 1.598/77, com a redação dada pela Lei nº
12.973/14, dispõe sobre o conceito de receita bruta, que compreende: a) o produto da
venda de bens nas operações de conta própria; b) o preço da prestação de serviços em
geral; c) o resultado auferido nas operações de conta alheia; e d) as receitas da atividade
?Não resta dúvida, portanto, que a inclusão do PIS e da COFINS em suas próprias bases de
cálculo está em consonância com o princípio da legalidade tributária expresso no art. 150,
I, da CRFB/88.?
27
5.5. Por sua vez, a 4ª Turma do TRF da 3ª Região, no julgamento da Apelação/Reexame
Necessário nº 5022842-67.2018.4.03.6100, de que foi Relator o Desembargador Federal
André Nabarrete, decidiu que o entendimento adotado pelo E. STF no RE nº 574.406 (Tema
69) é plenamente aplicável ao caso porque, tal qual o ICMS, os valores devidos a título de PIS
e COFINS não são incorporados ao patrimônio do contribuinte e que não afasta esse
entendimento o fato de o STF ter concluído pela constitucionalidade da inclusão do valor do
ICMS na sua própria base de cálculo.
5.6. Eis a ementa do paradigma em referência bem como os trechos pertinentes do voto
?TRIBUTÁRIO E PROCESSO CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. EXCLUSÃO DO PIS E DA
COFINS DA BASE DE CÁLCULO DAS PRÓPRIAS CONTRIBUIÇÕES. SENTENÇA QUE
CONCEDEU A ORDEM. REMESSA OFICIAL E APELO DA UNIÃO DESPROVIDOS.
- Recurso Extraordinário n. 574706. Repercussão geral reconhecida. Os valores arrecadados
a título de ICMS não são incorporados ao patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não
podem integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS, uma vez que a arrecadação daquele
imposto constitui tão somente ingresso de caixa ou trânsito contábil a ser totalmente
repassado ao fisco estadual e, assim, não representa faturamento ou receita. Destarte,
razoável que se aplique o mesmo raciocínio ao presente caso, haja vista a identidade de
fundamentos e especialmente porque tributos não devem realmente integrar a base de
cálculo de outros tributos. Quanto a essa matéria, saliente-se que não afasta o presente
entendimento o fato de o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE n. 582461, ter
concluído no sentido de ser constitucional a inclusão do valor do ICMS na sua própria
base de cálculo, uma vez que, ao contrário do que acontece com as contribuições ao PIS e
a COFINS, há autorização expressa no texto da Carta Magna de 1988.
- Ao se entender que o quantum pago a título de PIS e de COFINS (destacados em nota
- Lei n. 12.973/14. Com relação à Lei n. 12.973/14, especificamente no que concerne às
contribuições para o PIS e à COFINS, tal diploma normativo apenas manteve a expressão
total das receitas auferidas (artigos 54 e 55 ? para a sistemática da não cumulatividade),
bem como especificou as receitas compreendidas na definição de receita bruta (artigo 2º, o
qual alterou o artigo 12 do Decreto-Lei n. 1.598/77 ? para a sistemática da cumulatividade).
No entanto, apesar de a mencionada lei incluir o § 5º ao artigo 12 deste decreto-lei,
entendo que o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do RE n. 574.706 encerrou tal
discussão ao considerar expressamente neste julgado as alterações concernentes ao tema
trazidas pela Lei 12.973/2014. Portanto, em respeito ao ordenamento jurídico brasileiro, se
a inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS foi declarada inconstitucional de
forma legítima e pelo órgão competente para tanto, descabido o pleito da apelante no que
toca a essa análise, conforme se comprova ao se analisar o inteiro teor do acórdão citado.
- Receita líquida. Receita bruta diminuída dos valores relativos a devoluções e vendas
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canceladas, descontos concedidos incondicionalmente, tributos sobre ela incidentes e
valores decorrentes do ajuste a valor presente, de que trata o inciso VIII do caput do art.
183 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, das operações vinculadas à receita bruta.
Em outras palavras, apenas no cálculo da receita líquida é que foi expressamente
mencionada a hipótese de desconto de tributos sobre ela incidentes. Porém, o fato de a
técnica legislativa ter-se valido da exclusão de tributos somente ao se referir à receita
líquida (artigo 12, § 1º, do Decreto-Lei n. 1598/77) não significa automaticamente que
esses devam ser incluídos na receita bruta (artigo 12, caput, do Decreto-Lei n. 1598/77),
uma vez que, se assim fosse, estar-se-ia diante de um raciocínio interpretativo tão somente
dedutivo, porém em relação a algo que somente por lei poderia ser estabelecido, qual seja,
a especificação da base de cálculo de um tributo, nos termos do princípio da legalidade
(artigo 150, inciso I, da CF/88) e do artigo 44 do CTN. Por fim, cumpre ressaltar que os
valores de ICMS, nos moldes do que consta no artigo 13, §1º, da LC n. 87/96, permitem
destaque na respectiva nota fiscal, no que se conclui jamais poderem integrar o preço da
mercadoria ou da prestação do serviço para fins de cálculo da receita bruta do contribuinte.
- Negado provimento à remessa oficial, bem como igualmente ao apelo da União.?
?O Plenário do STF, no julgamento do Recurso Extraordinário n. 574706, com repercussão
geral reconhecida, entendeu que os valores arrecadados a título de ICMS não são
incorporados ao patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não podem integrar a base de
cálculo do PIS e da COFINS, uma vez que a arrecadação daquele imposto constitui tão
somente ingresso de caixa ou trânsito contábil a ser totalmente repassado ao fisco estadual
e, assim, não representa faturamento ou receita. Destarte, razoável que se aplique o
mesmo raciocínio ao presente caso, haja vista a identidade de fundamentos e
especialmente porque tributos não devem realmente integrar a base de cálculo de outros
Nesse ponto, cumpre lembrar a forma de cálculo das contribuições em causa. À vista de
que a base de cálculo de tais tributos é a receita bruta ou faturamento, vale tomar como
caso hipotético os valores expressos em uma eventual nota fiscal emitida pelo contribuinte,
quais sejam:
Valor da mercadoria: R$ 100,00
Base de cálculo do ICMS: R$ 100,00
Valor de ICMS: R$ 18,00 (considerada a alíquota de 18%)
Valor de IPI: R$ 20,00 (considerada a alíquota de 20%)
Valor do PIS: R$ 1,65 (considerada a alíquota de 1,65%)
Valor da COFINS: R$ 7,60 (considerada a alíquota de 7,6%)
Valor total da nota: R$ 129,25 (registre-se que o PIS e a COFINS serão destinados à fazenda
da mesma forma que o ICMS e o IPI, os quais já foram devidamente excluídos da base de
cálculo das contribuições mencionadas: o primeiro (ICMS), nos termos do julgamento do
RE n. 574706, ao passo que o segundo (IPI) o foi em decorrência de sua natureza não
cumulativa e da cobrança destacada na nota, nos termos do artigo 2º da Lei n. 12.973/14, o
qual adicionou o § 4º ao artigo 12 do Decreto-Lei n. 1.598/77).
Cabe esclarecer, de forma conclusiva, que, no momento em que a empresa for contabilizar
o que deve ser pago a título de PIS e de COFINS (incidentes sobre o seu faturamento, ou
seja, de acordo com o exemplo hipotético, sobre o valor total da nota ? R$ 129,25),
deparar-se-á com uma situação de verdadeiro extrapolamento, eis que sofrerão essa
incidência numerários que tão somente transitaram pela contabilidade da pessoa
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jurídica, sem jamais terem participado efetivamente do resultado de sua atividade
econômica.
Ao se entender que o quantum pago a título de PIS e de COFINS (destacados em nota
Ressalve-se que, apesar de o assunto em debate não tratar da exceção prevista no artigo
155, § 2º, inciso XI, da CF/88 (exclusão do IPI da base de cálculo do ICMS, em operações em
que se configurem fatos geradores dos dois impostos e relativas a produto destinado à
industrialização ou à comercialização), não há se falar em legitimidade da inclusão de
tributos na base de cálculo de outros, especialmente porque, ao se permitir essa adição,
desconsidera-se a base imponível deles.?
5.7. Ou seja, ao contrário do acórdão recorrido, o acórdão paradigma proferido pelo TRF
da 3ª Região na Apelação/Reexame Necessário nº 5022842-67.2018.4.03.6100 conclui que, à
luz da tese fixada pelo E. STF no Tema 69, o PIS e a COFINS não podem integrar a sua própria
base de cálculo, porque tais contribuições representam mero ingresso de caixa ou trânsito
contábil a ser totalmente repassado ao Fisco federal, de modo que não configuram receita
nem tampouco faturamento.
5.8. O acórdão também diverge do entendimento prestigiado pela 3ª Turma do Tribunal
Regional Federal da 5ª Região, quando do julgamento da Apelação no 0807959-
37.2017.4.05.8400, sob a relatoria do Desembargador Federal Rogério Roberto Gonçalves de
Abreu, no sentido de que o PIS e a COFINS não devem compor a própria base de cálculo
porque representam receita da União Federal, e não dos contribuintes.
5.9. Eis a ementa do paradigma em referência bem como os trechos pertinentes do voto
?TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO E REEXAME NECESSÁRIO. DEDUÇÃO DO PIS, DA COFINS, DO ICMS
E DO ISS DA BASE DE CÁLCULO DO PIS, COFINS, IRPJ - PRESUMIDO E CSLL - PRESUMIDO. RE
574.706/PR. PRECEDENTES. COMPENSAÇÃO EM MS. SÚMULA 213 STJ. REsp 1.111.164/BA.
LEI 11.457/07.
1. Trata-se de apelação desafiada pela Fazenda Pública e Remessa Oficial em face da
30
sentença a qual concedeu a ordem de segurança pleiteada, para reconhecer o direito de a
impetrante proceder ao recolhimento do PIS e da COFINS sem a inclusão das parcelas
relativas ao próprio PIS/COFINS, ao IRPJ presumido, a CSLL e ao ISS; excluir o PIS, a COFINS
e o ISS da composição das bases de cálculo do IRPJ presumido e da CSLL, bem como para
assegurar o seu direito à compensação do indébito tributário referente ao que recolheu
indevidamente a tal título, nos últimos cinco anos que antecederam a impetração do
mandamus.
2. O STF firmou o entendimento de que a receita bruta e o faturamento, para fins de
definição da base de cálculo para a incidência do PIS e da COFINS, são termos equivalentes
e consistem na totalidade das receitas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços
ou de mercadorias e serviços, assim entendido como a soma das receitas oriundas do
3. A partir desta inteligência, no julgamento do RE 574.706/PR, em regime de repercussão
equiparada na forma da lei. Outrossim, a jurisprudência deste Tribunal está solidificada
no sentido de que a Lei 12.973/2014, ao alterar as Leis 10.637/02 e 10.833/03, não se
coaduna com a interpretação dada pelo colendo STF no RE 574.706. A interpretação que
se deve dar aos dispositivos das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2002, quando definem a
receita bruta como o somatório das receitas auferidas pelo contribuinte é no sentido de
que somente podem abarcar aquilo que efetivamente ingressa na disponibilidade
patrimonial do obrigado pelo PIS e pela COFINS.
4. No que tange a incidência do ISS, é possível a interpretação analógica do RE 574.706,
uma vez que tanto o ICMS quanto o ISS são tributos que incidem sobre a produção ou
circulação, além de possuírem idêntica base de cálculo, qual seja, a receita bruta. É como
vem decidindo este Tribunal.
5. Quanto a incidência do PIS e da COFINS ao próprio PIS e à própria COFINS, a situação é
até mais impactante. Soa contraditória a inclusão do valor do tributo na sua própria base
de cálculo. Afora a exceção constitucional relacionada à incidência do ICMS sobre si
mesmo, nos termos do art. 155, parágrafo 2º, XII, j da CF/88, não há como admitir outro
tributo que possa incidir sobre si próprio.
[...] ?
(grifos do Recorrente)
Cinge-se a questão a respeito da possibilidade de exclusão da base de cálculo da
contribuição para o PIS/COFINS dos valores apurados de ICMS, ISS e do próprio PIS e
COFINS, além de excluí-los também da base de cálculo do IRPJ e CSLL, na modalidade de
lucro presumido.
1. Da base de cálculo do PIS/COFINS:
O STF firmou o entendimento de que a receita bruta e o faturamento, para fins de definição
da base de cálculo para a incidência do PIS e da COFINS, são termos equivalentes e
consistem na totalidade das receitas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços ou
de mercadorias e serviços, assim entendido como a soma das receitas oriundas do
31
1.1. Do ICMS incidente sobre o PIS/COFINS:
A partir desta inteligência, no julgamento do RE 574706/PR, em regime de repercussão
equiparada na forma da lei.
Outrossim, a jurisprudência deste Tribunal está solidificada no sentido de que a Lei
12.973/2014, ao alterar as Leis 10.637/02 e 10.833/03, não se coaduna com a interpretação
dada pelo colendo STF no RE 574.706. A interpretação que se deve dar aos dispositivos
das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2002, quando definem a receita bruta como o
somatório das receitas auferidas pelo contribuinte é no sentido de que somente podem
abarcar aquilo que efetivamente ingressa na disponibilidade patrimonial do obrigado
pelo PIS e pela COFINS.
1.3. Do PIS e da COFINS incidente sobre o próprio PIS e da própria COFINS:
Quanto ao próprio PIS e à própria COFINS, a situação é até mais impactante. Soa
contraditória a inclusão do valor do tributo na sua própria base de cálculo. Afora a
exceção constitucional relacionada à incidência do ICMS sobre si mesmo, nos termos do
art. 155, § 2º, XII, j da CF/88, não há como admitir outro tributo que possa incidir sobre si
próprio.
Por todos os motivos expendidos, dou parcial provimento à apelação da Fazenda Nacional e
à Remessa necessária SOMENTE para reconhecer a impossibilidade de dedução dos valores
de PIS e COFINS da base de cálculo do IRPJ e CSLL na modalidade presumidos.?
5.10. Ou seja, ao contrário do acórdão recorrido, o acórdão paradigma proferido pelo TRF
da 5ª Região na Apelação no 0807959-37.2017.4.05.8400 também conclui que, à luz da tese
fixada pelo E. STF no Tema 69, o PIS e a COFINS não podem integrar a sua própria base de
cálculo, seja porque tais contribuições não traduzem efetiva disponibilidade patrimonial do
contribuinte, seja porque tributo não pode compor a sua própria base de cálculo, salvo
previsão constitucional expressa.
5.11. Constata-se, pois, que:
a) Em todos os casos, a situação de fato é a mesma: trata-se de demanda que
objetiva reconhecer o direito do contribuinte de excluir o PIS e COFINS de suas
próprias bases de cálculo, uma vez que tais valores não estão inseridos no
conceito constitucional de ?receita bruta/faturamento?;
b) Em todos os casos discute-se a mesma tese jurídica: a aplicabilidade da ratio
decidendi adotada pelo E. STF, quando do julgamento do RE nº 574.706/PR, para
excluir o PIS e a COFINS de suas próprias bases de cálculo, uma vez que tais
contribuições são receitas da União Federal e não do contribuinte;
32
c) A conclusão do acórdão recorrido contrapõe-se às conclusões adotadas pelos
paradigmas apresentados:
c.1) enquanto o acórdão recorrido conclui que a decisão proferida no RE nº
574.706/PR não pode ser aplicada em relação à exclusão do PIS e da COFINS
de suas próprias bases de cálculo, sob o fundamento de que de que a
Suprema Corte ?procedeu a? ana?lise de uma exige?ncia tributa?ria especi?fica,
sendo descabida a sua aplicac?a?o automa?tica, principalmente quando em
discussa?o tributo diverso? e que ?a base de ca?lculo das referidas contribuic?o?es
sera? o valor total do faturamento ou da receita da pessoa juri?dica, e nesta se
incluem os tributos sobre elas incidentes?;
c.2) os acórdãos paradigmas concluem em sentido diametralmente oposto e
ratificam a plena aplicabilidade da ratio decidendi adotada pelo STF no RE nº
574.706/PR (Tema 69) porque a correta interpretação que se deve dar aos
dispositivos das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2002, quando definem a
receita bruta como o somatório das receitas auferidas pelo contribuinte, é a
de que somente pode abarca-la aquilo que efetivamente ingressa na
disponibilidade patrimonial do contribuinte, sendo certo que o PIS e a COFINS
não são receita sua, mas sim da União Federal.
5.12. Resta, assim, demonstrada de forma analítica a divergência entre o v. acórdão
recorrido e os julgados proferidos pela 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região e
pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, o que impõe seja conhecido e
provido o presente Recurso Especial, também com base no art. 105, III, ?c?, da Constituição
Federal.
6. DO PEDIDO
6.1. Pelo exposto, a Recorrente pede e espera que o presente Recurso Especial seja
admitido, conhecido e provido, para:
a) Se reconhecida a violação aos arts. 489, § 1º, IV e 1.022, I e II, ambos do CPC/2015,
anular-se o acórdão que rejeitou os Embargos de Declaração então opostos pela
Recorrente e determinar-se o retorno do feito ao Tribunal Regional Federal da 2ª
Região para que, em novo julgamento, supra as omissões ali apontadas; ou
33
b) Se superada a questão jurídica acima, considerando-se apreciados todos os
aspectos invocados pela Recorrente nos referidos Embargos de Declaração, que
seja reformado o acórdão recorrido, julgando-se procedentes os pedidos
formulados na Seção 6 da petição inicial.
6.2. A Recorrente i) informa que não há porte de remessa e retorno a ser recolhido,
porque este Recurso Especial será enviado de forma eletrônica ao Superior Tribunal de
Justiça ii) junta o comprovante de pagamento das custas judiciais devidas pela interposição
do presente Recurso Especial; e iii) junta a cópia da íntegra obtida em site certificado dos
acórdãos paradigmas citados na Seção 5, para fins de comprovação da divergência suscitada,
quais sejam (DOC. 02):
* TRF da 3ª Região: Apelação nº 5022842-67.2018.4.03.6100 // Publicado em
21.01.2020
https://pje2g.trf3.jus.br/pje/ConsultaPublica/DetalheProcessoConsultaPublica/docu
mentoSemLoginHTML.seam?ca=6a8446124e1c94c2e445684ca3a91fd877ccbbe417
bc3c01d82513f7d0eab5fee0cd3e7faf4efa36e2ecf0afc012073f0d2827a0fadce261&i
dProcessoDoc=108988445
* TRF da 5ª Região: Apelação nº 0807959-37.2017.4.05.8400 // Publicado
em 30.07.2018 //
https://pje.trf5.jus.br/pjeconsulta/ConsultaPublica/DetalheProcessoConsultaP
ublica/documentoSemLoginHTML.seam?idProcessoDocumento=47bcc45937e
8337385f640eff9d809bc
Renata De Paoli Gontijo Mariana Fineberg De Angelis
OAB/RJ 93.448 OAB/RJ 103.401
Carolina Martins Moreira Rocha André Luís Duarte do Amaral Lisbôa
OAB/RJ 173.758 OAB/RJ 199.554
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