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echo d'aquelle queixume de eterno escravo d'aquella mal definida resignação dos esmagados havia alguma coisa de aleijão n'esse protesto e a incapacidade de uma expressão livre e elevada fazia crescer a angustia o velho continuava meneando a cabeça e resmungando um choro
hoje em dia tudo aqui é de extrangeiro governo não faz nada por brasileiro só pune por allemão n'um estremecimento o preto velho com o olhar perdido no vácuo a mão estendida fazendo gestos tardos e incertos proseguia no seu monologo
dos olhos d'este baixava uma claridade suave uma calma dominadora que perturbava o velho negociante ora a ler ora a mirar pensativo e aborrecido afinal dobrou vagaroso a carta e poz-se a tamborilar na secretária
a creança acolheu se a ella boquiaberta com a baba á escorrer dos beiços túmidos da porta milkau via claramente o interior da habitação a cobertura era alta no centro e pendia em declive tão rápido para os lados que nas extremidades um homem não podia íicar em pé
a figura da filha de uma indolência sinistra dava maior oppressão a tudo milkau sentia um estrangulamento como si o peso de toda a responsabilidade da sorte d'aquella gente cahisse também sobre elle
eu com minha gente vim para cá para essas terras de seu coronel tempo hoje anda tristb governo acabou com as fazendas e nos poz todos no olho do mundo a caçar de comer a comprar de vestir a trabalhar como boi para viver
cheia de luz com a sua casaria toda branca em plena gloria da còr da claridade e da musica feita dos sons da cachoeira represa do fervido rio que se liberta em franjas de prata a cidadesinha era n'aquelle delicioso e rápido instante a filha do sol e das aguas
contou a velha casa cheia de escravos as festas simples os trabalhos e os castigos e na tosca linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua turva recordação ah tudo isto meu sinhô moço se acabou cá dê fazenda defunto meu sinhô morreu
mas ainda assim elle representava a figura humana a mesma vida superior envolta na queda das coisas arrastada na ruina geral e não ha quadro mais doloroso do que este em que a acção do tempo a forçada destruição
no interior estava armada a bolandeira como uma sobrevivência das antigas moendas e ao lado a roda onde no tempo do serviço se ralava a mandioca havia também dois tachos em que se mexia a farinha pelo processo rudimentar das pás
pequeno guia adeantou se para a casa instinctivamente como movido por longo habito a porta do rancho um velho cafuso com os olhos nevoados fitava vagamente o espaço encostado ao moirão
e de outras direcções á casa de vivenda ao lado uma capella havia muitos annos fechada guardando no seu silencio a voz da devoção que por ali passara transformada em ignorado e mvsterioso relicário de antigas imagens de santos talvez bellezas ingénuas de uma arte primitiva simples e religiosa
coisas interrompia se alli o ruido incessante da vida o movimento perturbador que cria edestróe o próprio sol nascente vinha erguendo-se repousado na calmaria da noite e os seus raios não tinham ainda a potencia de alvoroçar as entranhas da terra socegada
mora aqui ha muito tempo perguntou milkau fui nascido e creado n'essas bandas sinhò moço alli perto do angarahy tateando o espaço estendia a mão para o outro lado do rio não vê um casarão lá no fundo foi alli que me liz homem na fazenda do capitão mattos defunto meu sinhò que deus haja
os olhos de milkau tinham os estremecimentos das passagens bruscas dos panoramas contrários não possuiam fixidez nem calma para precisar qualquer observação apenas guardavam na retina inconsciente a vaga sensação de uma cidadesinha allemã no meio da selva tropical
ahl tempo bom de fazenda a gente trabalhava junto quem apanhava café apanhava quem debulhava milho debulhava tudo de parceria bandão de gente mulatas cafusas
esperto milkau acompanhava instinctivamente essa actividade e os dois assim fugitiva ligação da piedade e da miséria avançavam pelo caminho afora pouco tempo depois n'uma curva da estrada o menino apontou para deante e voltando-se disse ao companheiro estamos na samambaia
oh patrão o pae diz que eu volte já hoje é dia de ir com a mãe fazer lenha após tratar dos animaes concertar a rede que a canoa de seu zé francisco arrebentou esta madrugada
escapa se então por entre uma floresta sem grandeza insinua se vivaz no seio de coliinas torneadas e brandas que parece cntregarem se complacentes áquella risonha e húmida loucura
o rolar do santa maria batendo sobre pedras amontoadas despedaçando se como um louco nas lages augmentaaa e as suas aguas revoltas espumantes recolhiam e reverberavam a luz do sol como um vacillante espelho
os cavallos arfavam dando á marcha fatigada uma sensação de movimentos irregulares como si descessem com medo montanhas pedregosas uma espuma abundante ensopava os e abandonados de rédeas iam tropeçando nas pedras soltas da rua
no batente da porta sentava-se uma mulata moça toda ella era a própria indolência os cabeilos não penteados faziam pontas como chifres a camisa suja cahia á tôa no collo descarnado e os peitos de muxiba pendiam molles sobre o ventre
tubos caldeiras rodas dentadas attestando ter havido alli uma installação melhor qlie o homem cahindo de prostração em prostração perdendo todo o polido de uma civilisação artificial abandonara agora em sua decadência
ah nhor não que fazes então a gente ajuda o pae asaezes de madrugadinha vamos para a pescaria levantar a rede hoje antes do patrão chegar estávamos já de volta
a loja áquella hora já estava cheia de gente e milkau para chegar até ao balcão foi desviando os ciianaan lu freguezes alli amontoados em pé todos indecisos pesados brancos e tardos allemães
mordia o freio curvava o pescoço e accelerava brioso o passo então de uma pequena elevação que ia galgando milkau o olhar espraiado na paizagem dominava a povoação apertada entre a montanha e o santa maria
o extrangeiro apertou a mão callosa e áspera do velho que abriu os lábios n'uma rude expressão de riso mostrando as gengivas roxas e desdentadas a cafusa não se mexeu apenas mudando vagarosamente o olhar descançou o cheio de preguiça e desalento no rosto do viajante
disseram a roberto que havia um viajante á sua procura e immediatamente milkau foi conduzido ao cscriptorio onde um homem taurino e barbado o recebeu o immigrante entregou-lhe uma carta de apresentação que elle principiou a ler interrompendo se de vez em quando para fitar o
e nós vamos á noite antes da lua apparecer deitar a rede porque hoje si a agua estiver quente é noite de peixe o pae disse o immigrante compadecido testemunhava n'aquelles nove annos do desgraçado a assombrosa precocidade dos filhos dos miseráveis
pequeno animado pela conversa alinhava se garboso no velho cavallo empunhava a s rédeas com firmeza fincava as pernas de esqueleto e punha o animal n'um trote esperto
quasi á beira do caminho estava a casa do forno onde se preparava a farinha era um velho barracão coberto de telha carcomida e negra sobreaqual um limo verde crescia qual espessa e microscópica floresta
teu serviço em casa de teu pae é só acompanhar os passageiros para o caciíociro continuou milkau no seu interrogatório que despertava e alegrava a creança esta respondeu-lhe agora promptamente
ás quaes o velho respondia gostoso por ter occasião de relembrar os tempos de outr'ora sentindo-se incapaz como todos os humildes e primitivos de tomar a iniciativa dos assumptos
e os seus olhos tristes obscureceram se a névoa que os cobria tornou-se mais densa como que sobrecarregada agora da pesada visão da conquista da terra pátria pelos bandos invasores seguiu-se um oppressivo silencio
elle contou por phrases gaguejadas a sua triste vida toda ella um pobre drama sem movimento sem lances sem variedade mas de quão intensa e profunda agonia
os humildes ruidos da natureza contribuíam para uma voluptuosa sensação de silencio a aragem mansa o sussurro do rio as vozesinhas dos pequeninos insectos ainda tornavam mais sedativa e profunda a inquebrantável immobilidade das coisas
mas o rosto macillenlo se esclarecia com a grande doçura de uma longa resignação de raça quanto falta para chegarmos meu filho perguntou ainda o viajante
não se limita somente ás tradições e aos inanimados mas envolve no descalabro as pessoas e as paralysa e fulmina fazendo d'ellas o eixo central da morte e augmentando a sensação desoladora de uma melancolia infinita
o morro na frente tapava a estrada e parecia que esta estirando-se
o rio descia em direcção contraria á marcha dos viajantes e esses movimentos oppostos davam a impressão de que toda a paizagem se animava e docemente ia desfilando aos olhos do cavalleiro
mais da metade do caminho ainda não se avista a fazenda da samambaia e de lá á cidade é o mesmo que para o queimado tu voltas logo para casa ou queres descançar um pouco fica até á tarde
a estrada se alargava outras vinham apparecendo desconhecidas infinitas e incertas como são os caminhos do homem sobre a terra a brisa fresca encanava se pelas duas ordens fronteiras de collinas parallelas ao rio e trazia ao encontro do viajante um mugido sonoro de cascata
as eternas as boas as santas creações do espirito e do coração são todas geradas nas forças mysteriosas e fecundas do silencio na frente do immigrante vinha como guia um menino filho de um alugador de animaes no queimado
tropical ao espirito do immigrante desceu uma confusa e ténue recordação de outros tempos ao entrever essa população toda branca e ao sentir a irradiação do sol batendo sobre as cabeças das creanças como refulgentes chapas de ouro
da fazenda descrevia uma curva que abraçava o valle e se approximava da barranca do rio o caminho barrento pegajoso e húmido cheio de sulcos de carro de boi desprendia um cheiro de lama e estrume da estrada pelo morro acima o terreno era inculto coberto de matapasto crescido e sobre elle viam-se bois
o armazcm de roberto schultz era vasto tinha quatro portas de frente e as mercadorias innumeras davam-lhe uma feição de grandeza e opulência alli se negociava em tudo em fa zendas em vinhos em instrumentos de lavoura em café
isto aqui é triste e enfadonho vae-se aborrecer afianço-lhe talvez fosse melhor ir para o rio ou s paulo ahi sim são os grandes centros de commercio onde acharia um emprego com facilidade a colónia é um engano n'outro tempo ganhava se algum dinheiro porém agora os negócios não marcham
a physionomia era triste como si elle tivesse consciência de que sobre si recahia o peso do descalabro da raça e da familia o olhar turvo apagado para os aspectos da vida como o de um idiota o exgottamento das suas faculdades das emoções e sensações era completo e o reduzira a uma attitude miseranda de autómato
n'essa região a terra exprime uma harmonia perfeita no conjuncto das coisas nem o rio é largo e monstruoso precipitando-se como espantosa torrente nem a serra se compõe de grandes montanhas d'essas que enterram a cabeça nas nuvens e fascinam e attráem como inspiradoras de cultos tenebrosos convidando á morte como a um tentador abrigo
e dentro da egrejinha velados pelas divindades enclausuradas jaziam no chão sagrado os túmulos de senhores e de escravos egualados pela morte e pelo esquecimento
os nervos a vontade transmittiam um fluido activo ao lerdo animal que ao sopro da viração ao contacto dos logares próximos á cidade fim das suas jornadas também se transformou em vida e agora de narinas escancaradas bu fando sacudia as crinas relinchava asperamente
apenas trajava uma usada calça o tronco estava nú e sob a pelle resequida desenhava-se a envergadura de um esqueleto deathleta sobre o dorso como em moribundo cepo de arvore crescia uma pennugem branca encaracolada
filho d'elle foi vivendo até que governo tirou os escravos tudo debandou patrão se mudou com a familia para victoria onde tem seu emprego meus parceiros furaram esse matto grande e cada um levantou casa aqui e acolá onde
ahi no queimado vocês não tem carne ah nhor sim carne secca na venda do pae mas é para a frcguezia nós comemos peixe e quando falta a gente bebe mingáo
pulou da sella e abandonando o seu cavallo segurou pelo freio o do viajante emquanto este punha o pé erti terra e bocejava n'uma satisfação de repouso
parda e desegual aqui e alli o bolor sobre as paredes traçava extranhas e disformes visagens da varanda descia uma escada de madeira já com falta de degráos e com os corrimãos arrancados na frente crescia livre a herva com touceiras de matto rasteiro apenas cortado pelas picadas que levavam da estrada
o vulto do coronel ficava immovel na soleira da escada presidindo com o olhar pasmado ao desmoronar silencioso d'aquelles restos de cultura esperando na lúgubre attitude do inconsciente a lenta invasão do matto
mas meu amigo disse milkau você aqui ao menos está no que é seu tem sua casa sua terra é dono de si mesmo qual terra qual nada rancho é do marido de minha filha que está ahi assentada terra é de seu coronel arrendada por dez mil reis por anno
entravam agora mais devagar na cidade onde se apeia patrão perguntou solicito o guia em casa do sr roberto schultz conhece ah nhor sim quem não sabe o maior sobrado da cidade domingo passado levei também um moço para lá
uma pequena divisão de palha como um biombo fixo separava um dos cantos da peça formando um quarto onde se viam uma esteira e uma espingarda
para se servir dos apparelhos primitivos que se harmonisavam com afeição embrutecida do seu espirito milkau proseguia pela estrada abrangendo ainda com os olhos o quadro d'essa triste fazenda
e onde tudo tinha a fixidez e a perfeição da immobilidade quando quebrando o caminho á direita elles enfrentaram quasi subitamente com um rancho de moradores era um pardieiro armado em cruz coberto de palha cujas linguas se projectavam desordenadas da
a fazenda lá no alto sumia-se no fundo do longínquo horizonte o immigrante notava o manso desenrolar do panorama como o de fitas magicas casas de moradores homens tudo ia passando rolando mansamente mas arrastado por uma força incessante que nada deixava repousar
milkau cahia em longa scisma funda e consoladora quem não esteve em repouso absoluto não viveu em si mesmo no turbilhão a sua bocca proferiu accentos que não percebia hoje sereno cue mesmo se espanta do fluido perturbador que emanava dos seus nervos doloridos e máos
chegados a um grande sobrado o guia pulou lesto do cavallo e ajudou milkau a apear despediram-se como bons amigos e emquanto o viajante penetrava na loja o menino voltava com os animaes
quando milkau se viu em frente á casa largou esquecidas as rédeas do cavallo e poz-se a mirar em torno o casarão á vista agora era grande e acachapado com uma immensa varanda em volta sem janellas e para onde se abriam as desbotadas portas do interior fora branco mas estava ennegrecido com uma cor
era um d'esses typos de armazém de colónia que são uma abreviação de todo o commercio e conservam na profusão e multiplicidade das coisas certo traço de ordem e de harmonia
espelho milkau via ao longe na matta ainda fumegante de névoas uma larga mancha branca na frente o guia estendendo o braço gritou-lhe porto do cachoeiro
cachoeiro milkau como si despertasse respirou sôfrego o corpo se lhe agitou e estremeceu n'essa anciã de quem penetra na terra desejada mas o sangue em alvoroço saudou a apparição do povoado
eram de cobre e destoavam do resto da engenhoca milkau notou além d'isso no grande desleixo da casa abandonada restos de machinismos espalhados pelo chão
o preto abandonou ihe a mão os outros da familia ficaram quietos apatetados milkau caminhava pela grande luz da manhã agora de todo inflammada os ventos começavam a soprar mais espertos e como que agitavam as almas das coisas arrancando as do torpor para a vida
o pequeno muito enfastiado d'aquella viagem e do companheiro deixava-se conduzir pelo seu velho cavallo umas vezes soltava uma palavra que ficava morta no ar outras para se expandir resmungava com o animal esporeava o e o fazia galopar descompassado e arquejante
também foi só cocorócae um pinguinho só quatro o rio está escasso seu zé francisco diz que é porque a agua está fria mas tia rita diz que agora é tempo de lua e a mãe d'agua não deixa o peixe sahir o melhor é pescar com bombas mas o subdelegado não consente e a gente tem que se cançar por nada
tijupá milkau cumprimentou o grupo que sem o menor alvoroço o deixava approximar-se apenas o velho disse respondendo á saudação se apeie moço não obrigado quero chegar cedo eh meu sinhô d'aqui ao cachoeiro é um instantinho olhe só vencendo duas curvas do rio está-se na cidade
que subia até ao queixo e formava uma rasteira barba a sua postura era de adoração rudimentar de um nunca terminado pasmo deante do esplendor e da gloria do mundo
mas ainda assim procurando os derradeiros e longínquos raios do calor humano e deitando se á soleira das cidades para elles extrangeiras e prohibidas os viajantes desceram a rampa e foram ter a uma porteira que o pequeno tomando a frente escancarou para dar passagem a
elias por sua vez se alteiam graciosas vestidas de uma relva curva que suave lhes desce pelos flancos como túnica fulva envolvendo as n'uma caricia quente e infinita
que importava feitor nunca ninguém morreu de pancada comida sempre havia e quando era sabbado véspera de domingo ah meu sinhò tambor velho roncava até de madrugada
monologo vosmecê vae ficar aqui d'aqui a um anno está podre de rico todos seus patrícios eu vi chegar sem nada com as mãos abanando e agora todos têm uma casa têm cafcsal burrada de brasileiro governo tirou tudo fazenda cavallo e negro não me tirando a graça de deus
e o guia chegaram a uma porteira que fechava a estrada no trecho em que esta cortava as terras da samambaia o menino empurrou a cancella e com uma das mãos foi abrindo a emquanto ella rangia com um grito agudo milkau passou e atraz d'elle uma pancada surda cerrou a estrada esta logo ao penetrar nas
o extrangeiro acompanhando o gesto apenas divisava ao longe um amontoado de ruínas que interrompia a verdura da matta e a conversa foi continuando por uma serie de perguntas de milkau sobre a vida passada d'aquella região
lá dentro de si mesmo batia se em vão para encontrar a claridade de um sentimento a limpidez de uma palavra consoladora nada achou n'um gesto contrafeito despediu-se adeus até á vista meu velho
milkau cumprimentou tirando cortezmente o chapéu o homem lá no alto correspondeu erguendo indolente o sombreiro de palha o dono da fazenda de pés nús calça de zuarte camisa de chita sem gomma parecia com a barba branca muito velho attestando na alvura da tez a pureza da geração
arquejante milkau n'esses momentos attentava no menino e se compungia deante da trefega e ossuda creança que era essa rebento fanado de uma raça que se ia extinguindo na dôr surda e inconsciente das espécies que nunca chegam a uma florescência superior a uma plena expansão da individualidade
o cavallo de milkau continuava a passo o guia bocejava indifferente e erguendo uma perna alçava a sobre a sella n'um gesto de resignação voltando-se para a casa viu um vulto que chegava á soleira da varanda reconheceu-o e disse vagarosamente ao companheiro lá está seu coronel affonso
a rédea cahia frouxa sobre o pescoço do animal que balançava moroso a cabeça oaixando de quando em quando as pálpebras pesadas e longas sobre os olhos viscosos tudo era um abandono preguiçoso um arrastar languido por entre a tranquillidade da paizagem
os viajantes continuavam apressados as primeiras casas iam chegando eram pobres habitações como soltas na estrada para saudarem alviçareiras os viandantes
e assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres de hontem da sua vida congregada amparada na domesticidade da fazenda com o desespero do isolamento de agora com a melancolia de um mundo desmoronado
viajante sahia da contemplação surgia do fundo dos seus pensamentos e chamando a si o pequeno então vens sempre ao cachoeiro ah disse o menino como que espantado de ouvir uma voz humana venho sempre quando ha freguez
em pé ao seu lado um negrinho vestido apenas de um cordão ao pescoço donde se dependuravam uma figa de páo e um signo de salomão mirava embasbacado os cavalleiros que se achegavam ao tijupá
continuavam a marchar pela estrada a dentro a paizagem não variava no desenho apenas o sol começava a incendiar o espaço milkau íitava com bondade o pequeno guia este sorria agradecido abrindo os lábios descorados mostrando os dentes verdes e ponteagudos como afiada serra
depois o velho como si reflectisse um momento e sentisse despertar em si uma anciã de communicabilidade insistiu com milkau para que se apeasse o guia não esperou mais
que n'uma desforra triumphante vinha vindo circumscrevendo apertando o homem e as coisas humanas os viajantes continuavam a mover-se dentro d'aquella paizagem onde as forças da vida parecia estarem paralysadas
a solidão formada pelo rio e pelos morros era n'aquelle glorioso momento luminosa e calma sobre ella não pairava a menor angustia de terror absorto na contemplação milkau deixava o cavallo tomar um passo indolente e desencontrado
prolongavam a illusão da madrugada sentia-se ao contemplar aquella terra sem forças exhausta e risonha uma turva mistura de desfallecimento e de prazer mofino a terra morria alli como uma bella mulher ainda moça com o sorriso gentil no rosto violáceo mas extenuada para a vida infecunda para o amor
traducção da força da seiva e ccloria se de um verde claro brilhando aos tons dourados da luz os pés de mandioca finos delgados oscillavam como si lhes faltassem raizes e pudessem ser levados pelo vento cmquantoo sol esclarecia docemente o grande céu e o ar era cheio dos cantos do rio e das vozes dos pássaros
mirando asattentamente milkau observou que essas casas eram moradas de gente preta da raça dos antigos escravos e adivinhou os batidos pela invasão dos brancos
no fundo a porta abria para uma clareira do matto na qual uma touca de bananeiras se multiplicava e junto a essa porta pedras negras que se misturavam a restos de tições apagados indicavam a cozinha
a mobilia miserável e simples compunha-se de uma rede côr de urucú armada n'um canto de outra dobrada em rolo e suspensa n'um gancho uma esteira estendida no chão de soque dois banquinhos rasteiros um remo molhos de linha de pescar e alguns pobres instrumentos de lavoura
com o movimento inquieto das cabeças a sineta que traziam ao pescoço bufando e cat indo insoffridos a herva desenhava-se sob a pelle dos pobres animaes a rija ossadura faziam lhes companhia aves de máu agouro anuns que trepavam nas suas costas de esqueletos piando como pássaros da morte
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