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Empresa fadada ao insucesso tem duas caras: uma real, outra para o cliente. Na hora de vender, promessas; quando o cliente confere, decepções. É difícil encontrar o responsável, quando a empresa não é direcionada à satisfação total dos clientes. Nas estruturas tradicionais de empresas, onde o mando predomina sobre a responsabilidade individual, não é possível sequer aprender em cima dos próprios erros. Faz-se de tudo para que não haja registro do erro, para que ele não seja do conhecimento dos que detêm o poder de mando. É preciso inverter a estrutura, colocando o cliente como a pessoa mais importante da organização. Mas isso não pode ser apenas um discurso de boas intenções. Vai exigir mudanças para as quais existem duas palavras-chave: delegação e cooperação; disseminação das informações. 1 SATISFAÇÃO DO CLIENTE Colocar a pessoa certa, na hora certa, para fazer certo, da primeira vez, o que o cliente deseja. Este é o padrão de excelência desejado. Mas será que existe mesmo na organização o "lugar certo" para essa "pessoa certa"? Será que a estrutura da empresa está direcionada à satisfação total do cliente? A maioria das empresas possui estruturas tradicionais de comando, onde o cliente relaciona-se com as pessoas que têm menor poder de decisão. Existe uma distância enorme entre os que detêm o poder (a direção superior) e o cliente. O ovo de Colombo é revirar totalmente esta estrutura superada. E adotar a "pirâmide invertida" da Qualidade Total. Aí, as pessoas mais importantes na organização passam a ser as de atendimento e vendas. São elas que têm contato direto com o cliente. Os demais funcionários são responsáveis pelo bom desempenho do pessoal de frente. A direção fica na base da pirâmide: seu papel é dar sustentação à finalidade de bem atender. A delegação de poder é fundamental nesse tipo de organização participativa e cooperativa. Os acontecimentos mais importantes não são as reuniões de chefia, mas os momentos em que a empresa tem contato direto com o cliente, os "momentos da verdade". A empresa passa a estruturar-se para transformar em sucesso esses "momentos da verdade". Por isso, os clientes estão no topo do organograma. Todos os demais setores se transformam em fornecedores de facilidade para os eventos de satisfação do cliente. O fluxo de operações estará direcionado para o atendimento do cliente. 2 RELACIONAMENTO COOPERATIVO A responsabilidade compartilhada e o trabalho em equipe só poderão se desenvolver se a estrutura permitir uma interação constante entre as áreas. A empresa toda é um macroprocesso, uma equipe única voltada para o objetivo comum de atingir altos níveis de produtividade, com a manutenção e a conquista de novos clientes. 3 DISSEMINAÇÃO DE INFORMAÇÕES O fluxo de informações que parte do cliente (pedidos, avaliações, reclamações, expectativas) passa pelos diferentes departamentos da empresa e deve retornar como resposta e solução, de maneira ágil, ao cliente. O fluxo da decisão e a cadeia cliente-fornecedor devem estar alinhados aos valores que o cliente preza: cortesia, presteza, eficiência, receptividade e personalização. É conhecido o fenômeno de "ruído na comunicação": a informação se enfraquece e deforma quanto maior o número de transmissores e receptores intermediários. É comum a gerência desconhecer a realidade da operação "na ponta". A perda de competitividade é a consequência mais direta da falta de agilidade nas decisões, perda de informações, aumento da burocracia interna, pois, nos "momentos da verdade", o funcionário precisa tomar decisões que implicam, muitas vezes, questões vitais para o cliente. Frequentes consultas aos níveis superiores causam perda de tempo e dinheiro. A redução dos níveis hierárquicos ao mínimo necessário traz agilidade. Experimente.
A satisfação total do cliente é a meta fundamental de uma empresa moderna. O alcance desse objetivo significa o sucesso dela. Nas empresas tradicionais , o culto da figura do chefe ou diretor levava os funcionários a não corrigir erros, mas a ocultá-los a fim de não desagradar-lhe. Na empresa moderna, é primordial inverter essa primazia. O que vai exigir delegar decisões, incentivar o espírito de cooperação e disseminar informações. Os funcionários que contatam diretamente com o cliente devem ter bastante autonomia de decisões , a fim de que este confie neles. Portanto, o seu nível de competência para tal função deve ser o melhor possível. Os demais participantes da empresa devem constituir-se em suporte para a sua eficiência . O relacionamento cooperativo deve ser resultado da interação estrutural entre as áreas. Ele pressupõe compartilhar responsabilidades , evitar estrelismos , com vistas a otimizar a produção e a conquistar novos clientes. O pedido de informações ou sugestões dadas pelo cliente devem fluir rapidamente pelos diversos departamentos da empresa, e o resultado retornar com a mesma presteza, para que as decisões do funcionário-atendente conquistem o cliente e não o percam para o concorrente.
A empresa Produtos Pirata Indústria e Comércio Ltda., de Contagem (na região metropolitana de Belo Horizonte), deverá registrar este ano um crescimento de produtividade nas suas áreas comercial e industrial de 11% e 17%, respectivamente. Os ganhos são atribuídos pela diretoria da fábrica à nova filosofia que vem sendo implantada na empresa desde outubro do ano passado, quando a Pirata se iniciou no Programa Sebrae de Qualidade Total. Dona de 65% do mercado mineiro de temperos, condimentos e molhos, a Pirata reúne atualmente 220 funcionários. A coordenadora do programa de qualidade na empresa, Márcia Cristina de Oliveira Neto, disse que ainda não é possível dimensionar os ganhos financeiros que "certamente" a empresa terá, em consequência da melhoria da qualidade de seus produtos e serviços. Por enquanto, os benefícios mais visíveis, segundo ela, são a organização e a limpeza da fábrica. "Também a relação entre as pessoas tem melhorado bastante. As informações estão mais claras e os funcionários e clientes, mais satisfeitos." O resultado da satisfação dos funcionários, segundo ela, pode ser medido pela eliminação do desperdício de matérias-primas no processo de produção. "Para se ter uma idéia, antes de adotarmos o programa de qualidade, o refeitório da fábrica jogava fora, diariamente, 48 quilos de comida ou 70 refeições. Agora esse número está caindo a cada dia e a nossa meta é zerá-lo", diz Márcia Cristina. Ela conta também que outro grave problema de desperdício enfrentado pela empresa dizia respeito à linha de produção. "Estamos conseguindo economizar bastante, só com a diminuição da perda de alho e sal, que caem no chão na hora da pesagem". Maria Cristina diz que, quando se adota um programa de qualidade, não se pode querer resultados imediatos. Para ela, isso é a causa, invariavelmente, para a maioria dos fracassos das empresas que se iniciam no programa. Ela também afirma que a educação e a mudança de mentalidade dos empregados, princípios básicos para a implantação do processo, têm um custo alto para as empresas. "A gestão da empresa passa a ser mais participativa. Isso implica também mudanças radicais no comportamento dos membros da diretoria da empresa. A situação passa a ser de troca." Como consequência, os funcionários da Pirata se tornaram mais exigentes. "A primeira exigência foi a implantação de algum tipo de lazer na hora do almoço. Pusemos mesas para jogos de cartas e reformamos os banheiros. Procuramos atender as reivindicações na medida do possível", diz. Márcia Cristina conta que a empresa passou a encarar esse tipo de benefício como um investimento. "Os funcionários trabalham mais satisfeitos, diminuem o retrabalho com a eliminação do desperdício e, além de aumentar a produtividade, passam a cobrar mais qualidade das matérias-primas." Segundo Márcia Cristina, todo esse trabalho se reflete no aumento das vendas. "A partir do momento em que se tem produtos com qualidade, os clientes ficam mais satisfeitos e a demanda por seus produtos passa a ser maior", diz. Fundada em 15 de março de 1972, a Pirata possui capacidade instalada para produzir 5.750 toneladas anuais de temperos, condimentos e molhos. Atualmente ela opera com 55% da sua capacidade e atua nos mercados de Minas, Rio, Distrito Federal e interior de São Paulo.
A empresa Produtos Pirata Indústria e Comércio Ltda. , sediada em Contagem-MG , dona de 65% do mercado mineiro de temperos , espera este ano um crescimento de produtividade significativo nas áreas comercial e industrial. Segundo a diretoria, isso será resultado da adesão da empresa ao Programa Sebrae de Qualidade Total. A coordenadora do programa de qualidade reconhece que ainda não é possível calcular os inevitáveis ganhos financeiros , e que os benefícios mais palpáveis aparecem na organização e na limpeza da fábrica , além da melhoria da relação entre as pessoas e da clareza de informações , com resultados evidentes na satisfação de funcionários e clientes. A eliminação de desperdício , quer no refeitório da empresa, quer na linha de produção já é bastante significativo. A expectativa de resultados imediatos, segundo a coordenadora, é um dos erros de empresários que adotam o programa. Até porque o investimento na educação e mudança de mentalidade do funcionário , apesar de rendoso, tem um prazo de gestação. E forçosamente deve haver , também, mudanças radicais nos membros da diretoria. A maior participação dos funcionários na gestão da empresa torna-os mais exigentes , por exemplo, exigiram a implantação de algum tipo de lazer na hora do almoço. Apesar do custo, o retorno vem na satisfação deles, que trabalham melhor e produzem mais. Os resultados com a qualidade do produto só podem significar lucro.
Ainda que comece em 1922, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, o segundo módulo da "Bienal Brasil Século 20" tem origem em 1917, ano em que Anita Malfatti (1896-1964) faz sua primeira exposição individual em São Paulo. A exposição provoca grande rebuliço. O escritor Monteiro Lobato faz uma crítica à exposição, chamada "Paranóia ou Mistificação?", em que condena a adesão de Malfatti ao cubismo, futurismo "e outros ismos" que então surgiam na Europa. Com influência inicial do expressionismo alemão, Malfatti vai contra a tendência neoclássica da arte brasileira do início do século. Para o curador da Fundação Bienal, Nelson Aguilar, Lobato ficou chocado com a economia de traços e a franqueza de cores de sua pintura. Malfatti também volta sua técnica moderna ao mundo rural brasileiro, usando motivos primitivistas em seu trabalho. A atitude é inédita. Mas, segundo a curadora do módulo, Annateresa Fabris, a modernidade que São Paulo começaria a adotar não é a prescrita por Malfatti. Fabris dá o exemplo de Victor Brecheret (1894-1955), cuja aceitação pelo meio intelectual foi muito maior. Para Annateresa, Brecheret lançava mão de referências do passado, em diálogo com a tradição da escultura, e isso lhe rendeu sucesso entre os críticos paulistas. A modernidade que lhes interessava seria, então, mais de conteúdo que de forma, mais de ordem que de ímpeto destrutivo -o contrário do que pregava a maioria das vanguardas internacionais. "A estética de Brecheret não chocava o senso comum da época", diz Annateresa. Outro exemplo desse comportamento é o temor que o escritor Mário de Andrade manifestou à pintora Tarsila do Amaral (1890- 1973). "Ele temia que a temporada que Tarsila passaria em Paris fosse 'despersonalizar' sua linguagem artística." Ali se começa a formar um "discurso nacional", diz Annateresa. O que críticos como Sérgio Milliet e Mário admiravam em Tarsila era sua "brasilidade". Para Annateresa, esse discurso impediu a avaliação de características importantes nas obras de Anita, Tarsila, Di Cavalcanti (1897-1976), Vicente do Rêgo Monteiro (1899-1970), Lasar Segall (1891-1957) e Oswaldo Goeldi (1895-1961). Ao mesmo tempo, consagrou pintores apenas por mérito temático. O maior exemplo, segundo Fabris, é Cândido Portinari (1903-1962). Mário de Andrade o converte em protótipo do artista nacional. Já é a década de 30. Desse período em diante, julga Aguilar, a arte moderna brasileira "entra num figurativismo cada vez mais dogmático". Segall, por exemplo, depois da ousadia de "Paisagem Brasileira" (1925), volta às cores sombrias e formas conservadoras de seu expressionismo. A consequência disso é exemplificada pela trajetória da pintora portuguesa Vieira da Silva (1908-1991) na década de 40. Radicada em Paris desde os anos 20, ela vem para o Brasil em 1940 e, para ter repercussão aqui, praticamente abandona seu abstracionismo (leia definição abaixo). O outro curador deste segundo módulo, Tadeu Chiarelli, se dedicou a pensar nos artistas "marginalizados" por aquele discurso nacional -e não só por ele. "Também houve os que foram postos à margem por não ser de vanguarda", diz Chiarelli. Ele encaixa nessa categoria, entre outros, Anita Malfatti, porque voltou à ordem, a repensar a tradição; Flávio de Carvalho (1899-1973) e Ismael Nery (1900- 1934), cujas obras são ousadas e conturbadas; e Maria Martins (1900-1978), por sua investigação do irracionalismo. "Vamos mostrar uma visão não-institucionalizada do modernismo", diz. "É preciso rever as obras dos artistas independentemente dos grupos a que pertenceram."
Anita Malfatti , com sua exposição individual de pintura em 1917, dá os primeiros sinais da Semana de Arte Moderna de 1922. A polêmica em torno do acontecimento ficou marcada na crítica de Monteiro Lobato no artigo “Paranóia ou Mistificação”, em que ele condena as influências do cubismo e futurismo , tendências em voga na Europa. Sob influência inicial do expressionismo alemão, Malfatti se opõe à tendência neoclássica da arte brasileira do início do século XX. Procura inspiração , também, no primitivismo do mundo rural brasileiro. Segundo Annateresa Fabris, curadora do segundo módulo da “Bienal Brasil Século 20”, a modernidade adotada por São Paulo não foi a de Anita, mas a de Victor Brecheret, que interligava referências do passado com a tradição da escultura. O senso comum dos paulistanos não se chocava com a estética de Brecheret, menos destrutiva e mais voltada para temas nacionais. A crítica se mostra empenhada em valorizar a elaboração de um “discurso nacional”, que priorizasse a brasilidade temática mais do que tudo. Mário de Andrade, por exemplo, considera Cândido Portinari o modelo do artista nacional, por esse motivo. Tal prisma impediu a avaliação de características importantes nas obras de outros artistas da época. A partir de 1930, segundo Aguilar, curador da Fundação Bienal, a nossa arte “entra num figurativismo cada vez mais dogmático”. A moda acaba levando alguns artistas a abandonarem outros vôos e a se enquadrarem. Outro curador do segundo módulo, Tadeu Chiarelli , se preocupou em mostrar os efeitos redutores desse enquadramento para a avaliação da obra de certos artistas.
Ao primeiro minuto da próxima quarta-feira as nove capitais provinciais da África do Sul ouvirão pela primeira vez, ao menos oficialmente, os sons de "Nkosi Sikeleli Afrika" ("Deus Abençoe a África"). É o novo hino nacional oficial, depois de ter sido, anos a fio, o hino clandestinamente cantado pela maioria negra, submetida ao apartheid, o nefando regime de segregação racial. Bem que a África do Sul vai necessitar das bençãos dos deuses depois das eleições marcadas para os dias 26 a 28. Em seus 1,22 milhão de quilômetros quadrados, vão ensaiar uma difícil convivência 40,4 milhões de pessoas, divididas entre 5,1 milhões de brancos, 3,4 milhões de mestiços e 30,7 milhões de negros, por sua vez, subdividos em 11 etnias diferentes. Desde que, em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais estabeleceu sua primeira colônia na costa sul-africana, brancos e negros amaram odiar-se. Antes e depois, negros de uma tribo matavam os de outra. Em 1990, depois de 338 anos de cruentos conflitos, seus líderes decidiram trocar os fuzis pelo diálogo, em busca de um fim negociado do apartheid. O processo reduzira à miséria uma majoritária fatia da população negra e conduzira ao fausto a elite branca. As eleições desta semana são o ponto de chegada dessa negociação, um desses raros momentos que de fato merecem a qualificação de históricos. Até banqueiros, habitualmente frios, recorrem à retórica incandescente para avaliar a situação. "O processo de transição em andamento envolve, talvez, o mais substancial realinhamento de poder político, militar, social e econômico jamais completado em uma mesa de negociação, em vez de no campo de batalha, incluindo o Oriente Médio, a Europa Oriental e a antiga União Soviética". A avaliação foi publicada em folheto do Salomon Brothers, banco internacional de investimento. Tarefa tão ciclópica não se limitou, no entanto, à mesa de negociação. Por indefinidos campos de batalha ficaram, nesses quatro anos de diálogo, os corpos de 13.724 pessoas, conforme o mais recente cômputo da Comissão de Direitos Humanos. Quase dez mortos por dia, só pela violência política, sem contar a elevada cota da criminalidade comum (16 mil assassinatos apenas no ano de 1992). Seria otimismo desmesurado supor que a realização da primeira eleição multirracial, por mais histórica que seja, basta para pôr fim à violência, política ou comum. Os conflitos tribais que ensaguentam boa parte do mapa africano e as guerras étnicas em plena Europa assombram uma África do Sul democrática. "As experiências da África independente, da Iugoslávia e da ex- URSS demonstraram claramente como é difícil substituir identidades étnicas individuais por um compromisso com um único e abrangente nacionalismo", admite Zola Skweyiya, advogado do partido Conselho Nacional Africano (CNA), o mais provável ganhador da eleição. O período pré-eleitoral dá razão a ele. Pelo menos uma parcela dos brancos começa a se concentrar em áreas do Transvaal e do Estado Livre de Orange, na zona centro-oriental do país. É um ensaio para se criar um "Volkstaat" (pátria para os afrikâners, os brancos sul-africanos). Também a fatia dos zulus, a maior etnia negra (8,3 milhões), pretende fazer do KwaZulu (literalmente "o lugar dos zulus") um país independente. À essa pressão de fundo étnico, soma-se a pressão social. Marginalizada durante séculos, a maioria negra dificilmente terá paciência para esperar muito tempo para ter a uma vida melhor. Na edição que foi anteontem às bancas, o semanário "The Weekly Mail and Guardian" publica história na popular tira "Madame e Eva". Um casal de negros apresenta-se na casa de uma senhora branca, afirmando estar "caçando casa para depois da eleição". O casal encanta-se com o lustre de cristal, quando a dona avisa: "Sinto, mas a casa não está à venda". Os negros retrucam: "E quem disse algo sobre comprar?" O alto nível de expectativas da maioria negra com a troca de guarda no palácio governamental é admitido pela cúpula do CNA. "Não há crime em as pessoas desejarem coisas que lhes dêem uma vida melhor", afirma Cyril Ramaphosa, secretário-geral do partido. De fato não há crime em querer melhorar de vida. Mas tampouco há resposta para a pergunta que o Ramaphosa faz a respeito do futuro imediato: "Seremos capazes de satisfazer tais expectativas?" Pelo menos no papel, o CNA promete muito: criar, em dez anos, 2,5 milhões de empregos, por meio de um programa nacional de obras públicas; construir 1 milhão de casas, em cinco anos; no mesmo prazo, colocar eletricidade em 2,5 milhões de residências; prover dez anos de educação grátis e de qualidade para todos, dentro de meros 365 dias. Se conseguir tudo isso e, ainda, controlar os previsíveis conflitos étnicos, a África do Sul nem precisará cantar "Nkosi Sikelele Afrika", porque já terá sido abençoada pelos deuses. Se não, será apenas mais um inferno africano.(CR)
A África do Sul está prestes a ouvir pela primeira vez, pelo menos oficialmente, o seu hino nacional “Nkosi Sikeleli Afrika”( “Deus Abençoe a África”) . Depois das próximas eleições , após secular período de apartheid , ela vai precisar , mesmo, de proteção divina. A primeira colônia na costa sul-africana , em 1652, implantada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais inaugurou um longo período de ódio entre brancos e negros e de extermínio fratricida. O enriquecimento dos brancos à custa da espoliação dos negros alimentou esse ódio , que, infelizmente, contaminou as 11 etnias negras diferentes. Enfim, em 1990, os líderes decidiram negociar o fim do apartheid , certamente não por espírito humanitário , mas por falta de lucro nos conflitos e por pressão. Até os próprios banqueiros , habitualmente frios, se entusiasmam com a magnitude da negociação. Se milhares de corpos tombaram neste longo e cruento conflito, não é de se esperar que a solução venha pacífica, como num passe de mágica. Também é difícil supor que essas 11 etnias negras se organizem tranqüilamente num único país. Pelo menos parte dos brancos, neste período pré-eleitoral, já começa a agrupar-se em áreas do Transvaal e do Estado Livre de Orange , certamente preocupada em se isolar para proteger-se. E do lado dos negros, principalmente os zulus , a etnia dominante, procuram recuperar o que lhes foi tomado e garantir melhor qualidade de vida. Certamente prevendo as tensões criadas pelas novas expectativas, a cúpula do partido promete muito na área social. Mas o próprio secretário-geral do partido tem suas dúvidas sobre a possibilidade de satisfazê-las. É fácil imaginar os resultados de uma frustração generalizada.
Traidor para uns, herói para outros, mas acima de tudo pragmático. Frederik Willem de Klerk, 58, passará à história como o político que, ao lado de Nelson Mandela, tornou real o sonho de tentar pôr fim ao apartheid na África do Sul. Não por acaso, De Klerk e Mandela, ex-inimigos, dividiram o prêmio Nobel da Paz de 1993. O ex-racista De Klerk libertou o ex-extremista Mandela em 1990, após 27 anos de prisão. O prêmio foi um estímulo para que os dois liderassem o processo de mudanças que culmina nas eleições das quais pela primeira vez participam os negros, que são 76,1% da população. "Creio que poderemos abandonar o círculo vicioso da desconfiança, das divisões, das tensões e conflitos, partindo para uma África do Sul totalmente nova", disse De Klerk ao assumir a Presidência em setembro de 1989. Descendente de africâners (colonizadores de origem holandesa), De Klerk nasceu em Johannesburgo, em 18 de março de 1936. Seu pai foi membro do Partido Nacional (PN), fundado em 1948. Foi o PN o principal responsável pela política do apartheid. Praticante de golfe e tênis, De Klerk nunca escondeu seu passado racista. Em 1956, após ter ingressado na Faculdade de Direito, tornou-se membro da Juventude Nacionalista, a ala jovem do PN. Em 1972 foi eleito deputado pelo Partido Nacional. Ocupou diversos ministérios e, como titular da Educação, cargo para o qual foi nomeado em 1984, defendeu a segregação racial nas escolas. A mudança de De Klerk em relação ao apartheid foi resultado de pressões e sanções internacionais. A partir de 1987, ele vestiu a camisa de liberal, numa atitude pragmática diante da crise econômica, agravada por sanções impostas pelos EUA e ONU desde 1977 e pela saída de empresas do país. Em 1989, De Klerk assume o comando do Partido Nacional no lugar do presidente Piether Botha, afastado por motivo de doença. Botha renuncia e De Klerk assume interinamente a Presidência em 15 de agosto de 1989. É confirmado no cargo no mês seguinte, após eleições. Dois meses depois, em novembro, De Klerk anuncia o fim da segregação racial nas praias. Mas as principais medidas contra o apartheid viriam em 1990. Em fevereiro, De Klerk legaliza cerca de 30 grupos políticos, entre eles o Congresso Nacional Africano (CNA), banido na década de 60, e o Partido Comunista, ilegal desde 1950. Mandela, líder do CNA, é libertado. Em outubro cai um pilar do apartheid, a lei que dividia locais públicos entre brancos e negros. Em 1991, junho, é abolida a lei que reservava 87% do território à minoria branca e que proibia os negros de morar nas cidades. Ainda em junho é extinta a lei que classificava a população segundo a raça e é decretado o fim oficial do apartheid. Em março de 1992, 68,7% dos eleitores brancos aprovam, em plebiscito, a política reformista de De Klerk. Em novembro de 92, o presidente propõe um amplo programa de negociações para a realização das primeiras eleições multirraciais da África do Sul. Em abril do ano passado, num gesto surpreendente, disse adeus a seu passado racista e pediu desculpas pelo apartheid que vigorou de 1948 a 1989. "Não era nossa intenção privar as pessoas de seus direitos e causar miséria, mas a segregação e o apartheid levaram exatamente a isso e eu o lamento profundamente", afirmou.
Frederik Willem de Klerk e Nélson Mandela parecem exemplificar a constatação de que os opostos se atraem. O primeiro , descendente de africâneres, racista ; o segundo , líder negro extremista. Klerk teve uma atividade política atuante , como deputado e ministro , inclusive da Educação. Neste cargo, defendeu a segregação racial nas escolas. A pressão dos Estados Unidos e da ONU levou-o a uma posição liberal. Depois de que assume a presidência do Partido Nacional , por afastamento e posterior renúncia do presidente Piether Botha, ele põe em prática uma série de medidas liberais , por exemplo, a eliminação da lei que proibia a convivência de negros com brancos em lugares públicos, e a que reservava maior parte do território à minoria branca e proibia aos negros morar na cidade. A abertura política comandada por ele leva à legalização de vários grupos políticos, entre eles o Partido Comunista e Congresso Nacional Africano (CNA) , do qual Mandela era líder . Ao mesmo tempo, liberta Mandela, preso havia 27 anos. O prêmio Nobel da Paz de 1993, dividido entre os dois líderes apressou posições liberais e anti-racistas, que levaram às primeiras eleições com participação multirracial.
O deputado João Alves de Almeida (ex-PPR-BA) não está conseguindo andar nas ruas: "Fui fazer compras com a proteção de um delegado e um safado gritou pega ladrão. A coisa esquentou e eu tive que voltar para casa", disse Alves em seu apartamento. O poder político e econômico, Brasil afora, criou e aferrou-se a um mundo próprio, com regras e costumes particulares. Alves é apenas um rosto que se tornou mais visível em meio a este conglomerado de poder até há pouco invisível. Um rosto sem rugas, o de Alves, graças à plástica da clínica brasiliense Daher.e João Alves é chegado a cirurgias corretivas. Nascido em São Miguel dos Campos (AL), declara ser natural de Maceió. Os cabelos são negros? Tintura "Tabletes Santo Antonio". As cirurgias são, às vezes, delicadas. Grace, aos l7 anos, é a razão da vida do deputado. Na sala do apartamento, acima do piano Schneider e da estatueta de Franz Wagner, está o retrato de Grace. Que já foi neta e hoje é filha de Alves. Nascida do amor de João com um sobrinha, Maria, Grace foi registrada inicialmente como filha de Carlos Almeida, filho do deputado. Quando ela tinha quatro anos, João Alves fez nova cirurgia corretiva. Foi ao cartório e Grace deixou de ser neta para se tornar filha. Os olhos se enchem de lágrimas quando Alves fala de Grace. Com os gritos de "pega ladrão" o deputado se trancou em seu mundo particular, mas os ecos fizeram mal à filha. Perturbada, quando a CPI se iniciava foi atropelada e quebrou a bacia. Deitada na cama, o pai não conseguia afastá-la dos telejornais. "Ela não diz nada. Todo dia ela me dá um abraço, um beijo, mas não diz nada", conta o deputado. Em Salvador o irmão, Cícero, assiste aos telejornais: "É horrível, choca, você não tem o que dizer." Cícero é l3 anos mais novo, mas sabe que o irmão passava pouco dos 12 anos quando deixou o interior de Alagoas e rumou para Maceió, onde trabalharia no comércio por 8 anos até a mudança para Salvador. Em 1942 João Alves se tornava inspetor nacional da Previdência. Da Previdência viria o salto para a política. Ambicioso, Alves frequentava o Palace Hotel, na avenida Chile, o grande ponto de encontro de políticos e poderosos em Salvador. Através do senador e futuro governador Landulfo Alves, conheceu Getúlio Vargas. Candidato a deputado federal, foi derrotado. Getúlio, a pedido de Landulfo, nomeou-o delegado do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários da Bahia."Getúlio era um grande homem, muito amigo meu", diz Alves. Com Getúlio, conheceu João Goulart. Com Jango chegou ao poder. Frequentava o Palácio do Catete, viajou com Jango pelo interior da Bahia montando o PTB e nesse partido obteve o primeiro dos seus oito mandatos em 1962. Empregava médicos e funcionários na Previdência. É o autor da emenda que permite aos médicos a acumulação de dois cargos. É dele a emenda que instituiu o 13.º salário para aposentados e pensionistas da Previdência. É ainda o responsável pela legalização do trabalho temporário, das férias para trabalhadores avulsos, e pela lei que obriga o reajuste das aposentadorias e pensões a cada elevação do salário mínimo. O João Alves dos anos 60 chegou a ser um radical -e chegou a defender um "golpe com Jango". Recordou Alves em sua conversa com a Folha: "Eu cobrava do Jango uma aliança com os generais, não com cabos e soldados." Talvez pela explicitação de suas alianças preferenciais, o golpe dos generais, quando veio, passou ao largo do deputado radical. Nos governos militares e já nos anos 80, ele, na Arena e sucedâneos, se tornaria o homem forte do Orçamento. O deputado deixava escapar sinais exteriores de riqueza no final da década. A Mercedes-Benz cor de ouro começou a ser usada mesmo para atravessar os 100 metros que separam os anexos 3 e 4 na Câmara dos deputados. O Learjet foi, repetidamente, oferecido aos amigos. João Alves de Almeida tem obsessão por tentar parecer aquilo que não é, assim como imagina não ser o que é. "Eu não sei porque tudo isso", diz, na porta do elevador, pedindo um favor ao repórter, o único em duas horas de conversa: "Meu filho, vê se bota uma foto onde eu tô bonito."
João Alves de Almeida , um dos anões do Orçamento, é um representante bem típico do mundo diferente do poder político, cujas normas de vida seguem padrão próprio , diferente do da maioria dos mortais. Fez um esforço para colocar-se na fronteira do poder. Trabalhou inicialmente no comércio, depois se tornou inspetor nacional da Previdência. A ambição o levou a freqüentar o ponto de encontro de políticos e poderosos de Salvador Esse convívio rendeu uma aproximação com Getúlio Vargas, que , posteriormente, o nomeou delegado do IAPB ( Instituto de Aposentadora e Pensão dos Bancários) da Bahia. Depois , conheceu Jango e com ele chegou ao poder. A partir daí, iniciou sua carreira de oito mandatos como deputado. Ao sabor dos seus interesses, defendeu um golpe com Jango, mas que fosse com o apoio dos generais e não com cabos e soldados. Esse feeling político , possivelmente, o tenha preservado depois do golpe de 64. Coerente com o princípio de Maquiavel, segundo o qual os fins justificam os meios, após o golpe embarcou na Arena e se tornou o homem forte do Orçamento. Já então, não continha a exposição de sinais de riqueza, exibindo a sua Mercedes-Benz e o Learjet, que freqüentemente servia os amigos. Na vida particular, também, revelou estranhezas de comportamento , próprias da ética desse mundo do poder : do relacionamento com uma sobrinha, teve uma filha (Grace) , que inicialmente foi registrada como filha de Carlos Almeida, filho do deputado. Com o escândalo do Orçamento, a tranqüilidade do deputado foi ameaçada, a ponto de não poder andar impunemente pelas ruas. Sua filha , perturbada pelos acontecimentos, foi atropelada e ficou imobilizada. Com o enclausuramento a que foi condenado, ela passou a ser sua razão de vida. Hoje, o traço que talvez o mantenha mais ligado ao mundo exterior é a sua vaidade de manter a eterna juventude.
O senador Jarbas Passarinho (PPR-PA) está com a corda toda. Aos 74 anos, em boa forma física e mental, conquistou até uma namorada de 39, a bonita Armênia, gerente do Banco do Brasil. Na presidência da CPI, somou mais elogios que críticas, além da súbita popularidade, a maior de sua vida pública, iniciada ao entrar no Exército, em 1943, de onde saiu coronel em 1964 para ser governador biônico do Pará. Passarinho é cumprimentado no açougue, na rua, no cinema. Quando foi a São Paulo gravar entrevista no programa de Jô Soares, ficou surpreso com o modo como foi recebido pelas pessoas no aeroporto de Cumbica. Muitos saíam da fila para dizer que continuasse o trabalho e pedir autógrafos. "Estou até preocupado", diz Passarinho. "Se essa CPI não der resultado, em vez de palmas vou levar é um soco na rua." Na CPI, sua atuação foi ao mesmo tempo enérgica e bem-humorada. As piadas e citações variaram do erudito à simples galhofa. Como no dia em que resolveu definir a CPI: "Ela funciona como um sutiã. Corrige os desviados, contém os exaltados e revela os decaídos." Experiente, fez "vazar" algumas informações para a imprensa embora mantivesse a proibição aos demais parlamentares. Chegou a trancar um documento em seu cofre para impedir sua divulgação. No trato com a mídia eletrônica, chega ao requinte de carregar no bolso do paletó um pedaço de cartolina branca. Sempre que uma emissora de TV deseja entrevistá-lo, expõe o cartão e oferece: "Quer bater o branco?" Os cinegrafistas lhe são gratos. A filmagem de uma superfície branca é indispensável para o ajuste de cores das câmeras. Já na reta final, surgiram as maiores críticas. Nos bastidores, alguns deputados diziam que estava protegendo a Fundação Roberto Marinho. Outros se queixavam que teria dificultado as investigações em torno do governador Joaquim Roriz. De viva voz, os mesmos parlamentares afirmavam apenas que "conduziu bem" os trabalhos. A atuação de Passarinho na CPI ajuda a deixar cada vez mais distante o tempo dos bilhetes do SNI alertando: "Iminente sequestro". Era o período pós AI-5, que o senador assinou como ministro do Trabalho de Costa e Silva. Curiosamente, mesmo quem sofreu naquela época não guarda mágoa dele. "Não tenho rancor", diz Maurílio Ferreira Lima (PSDB-PE), cassado pelo AI-5. O ex-guerrilheiro José Genoíno (PT-SP), que trocou presentes com Passarinho no final do ano, conta que a ligação entre os dois começou durante o Congresso constituinte, quando o senador presidiu a subcomissão do Estado e Forças Armadas. "Ele é imparcial quando preside, eu disputava com Fiuza e ele soube conduzir muito bem", diz Genoíno. Os dois só evitam conversar sobre guerrilha do Araguaia, para evitar "constrangimentos". Uma qualidade que todos reconhecem em Passarinho, aliás, é que sempre assumiu ter sido um homem do regime. Defende o Exército com unhas e dentes e, na reserva já há 29 anos, também fala em nome dos cidadãos comuns. Há um mês, perguntado sobre uma suposta obtusidade dos homens de farda por um repórter, respondeu com uma de suas tiradas filosóficas: "Os militares pensam que são monopolistas do patriotismo e os civis pensam que são monopolistas da inteligência."
Ainda vigoroso nos seus 74 anos a ponto de conquistar uma namorada de 39, o senador Jarbas Passarinho também conta pontos na condução da CPI, a ponto de até estranhar a súbita popularidade. A sua formação militar , certamente, deve estar contribuindo na sua gestão enérgica da CPI. Habilidoso também no trato com a imprensa , chegou a vazar algumas informações a repórteres , ao mesmo tempo que as proibia aos parlamentares. Parece ter conquistado o senso político civil e desfeito da hierarquia autoritária da caserna , de onde está afastado há 29 anos. Já iam distantes os tempos do SNI em que atuou. Apesar de discordâncias da sua atuação na CPI, os parlamentares , ao vivo, elogiavam a condução dos trabalhos. Assim como os cassados da época da ditadura militar não guardavam mágoas. Até o ex-guerrilheiro José Genoino fala da sua imparcialidade na presidência da submissão do Estado e Forças Armadas. Outra reconhecida qualidade sua é a clara definição de que lado estava; nunca escondeu sua anuência ao AI-5 e sua afinidade com os ideais do Exército .
Os relatores Roberto Magalhães (PFL-PE) e Roberto Rollemberg (PMDB-SP) decidiram pedir a cassação de 18 parlamentares. Dos 43 congressistas citados, o relatório final solicitará às Mesas da Câmara e do Senado que prossigam a investigação sobre 13. São parlamentares contra quem não foram encontradas provas concretas de envolvimento em corrupção, mas há indícios de irregularidades. Os que saíram ilesos da investigação somam 12. A lista com os nomes só foi concluída às 21h30 após amplas negociações com os coordenadores de subcomissões. Sofreu várias alterações ao longo do dia. O último parlamentar a ser incluído nos pedidos de cassação foi o deputado Anníbal Teixeira (PTB-MG). A solicitação de perda de mandato de Teixeira foi feita pela Subcomissão de Patrimônio. Dois nomes que constavam anteontem da lista de cassações de Magalhães acabaram sendo agrupados na categoria daqueles em que será solicitada o prosseguimento da investigação pela Mesa da Câmara: o líder afastado do PPR, José Luiz Maia (PI), e José Carlos Aleluia (PFL-BA). No caso de Aleluia, o relator começou a rever seu caso logo pela manhã. O pedido de cassação de Aleluia foi sugerido pela Subcomissão de Emendas. "Nós conseguimos identificar que o parlamentar era um despachante da empreiteira Norberto Odebrecht", afirmou o deputado Sérgio Miranda (PC do B-MG), membro da comissão. Para Magalhães, no entanto, as provas podem ser consideradas subjetivas pela Comissão de Constituição e Justiça, responsável pelo encaminhamento dos processos contra os parlamentares. O suplente de deputado Féres Nader (PTB-RJ) entrou na lista de perda de mandato na madrugada de quarta para quinta-feira, após horas de discussão regimental entre Magalhães e seus assessores. Havia dúvidas se era possível pedir a cassação de um suplente -que está sem mandato, mas que pode consegui-lo se o titular sair do Congresso. Nader é suplente de Fábio Raunheitti, que teve sua perda de mandato requerida. O relatório está dividido em três grandes partes. Na apresentação, Magalhães trata de conceituar temas como a ética e a honestidade. Afirma, principalmente, que um homem público não pode desassociar sua vida pública da privada. Cita desde antigos gregos até Ruy Barbosa, ex-ministro da Fazenda e escritor. Numa segunda parte da apresentação, Magalhães conceitua o que é decoro parlamentar. Cita vários juristas, com suas respectivas definições. Segundo o relator, são através destes subsídios que ele definiu o destino dos parlamentares. O outro grande capítulo do relatório trata das recomendações para a mudança da estrutura dos Poderes Executivo e Legislativo. Entre as principais, estão o fim da Comissão do Orçamento e das subvenções sociais. A forma de atuação das empreiteiras no poder público é aqui relatada. Magalhães guardou para o último capítulo a parte mais esperada: a definição do que acontece com cada parlamentar. "Se eu falasse logo no início, o povo iria embora", alegou o relator. São nestas páginas que também os governadores, ex-ministros, funcionários públicos e demais pessoas envolvidas no escândalo são relacionadas. A dificuldade do deputado Roberto Magalhães em terminar seu relatório deveu-se, principalmente, à falta de um critério claro para decidir sobre o destino dos parlamentares citados. As diferentes interpretações das quatro subcomissões sobre os envolvidos atravancaram o trabalho do relator. Magalhães não teve problemas em concluir os pareceres sobre os parlamentares que se situam em dois grupos extremos: aqueles em que as provas são incontestáveis e aqueles em que não se conseguiu prova alguma. A dificuldade ficou com o grupo de parlamentares que não estavam nem de um lado nem do outro.
Dos 43 parlamentares citados para serem investigados, os relatores Roberto Magalhães e Roberto Rollemberg propuseram a cassação de 18, solicitaram a continuidade de investigação de 13, e inocentaram 12. Enquanto o relatório se atém às considerações sobre ética e honestidade na vida de homem público; enquanto conceitua o que é decoro parlamentar ; enquanto sugere mudanças na estrutura do Executivo e do Legislativo, propondo o fim da Comissão do Orçamento e das subvenções sociais, a situação é tranqüila. Mas , na hora de definir quem sai e quem fica , a questão muda. A dificuldade para decidir , de um lado, tem a ver com as diferenças de interpretação das quatro subcomissões; de outro , parece estar ligada a interesses escusos que nunca transparecem. Por exemplo, uma das subcomissões diz que identificou o deputado Aleluia como despachante da empreiteira Norberto Oderbrecht , mas o relator Magalhães contrapõe afirmando que a Comissão de Constituição e Justiça pode considerar a prova como subjetiva. Também houve problemas de interpretação jurídico-regimental. Por exemplo, se o suplente Féres Nader poderia ser cassado , uma vez que o titular , Fábio Raunheitti, teve a perda de mandato requerida. De qualquer modo, paira um clima de dúvida sobre a lisura.
Aos 440 anos São Paulo já foi cantada em pelo menos 1.800 músicas. Essa história de citar a cidade começou em 1750, quando dois compositores (Calixto e Anchieta Arzão) decidiram fazer "Missa à São Paulo", partitura recuperada e gravada pela primeira vez em 1970 com regência de Júlio Medaglia. Depois disso, parece que não foi mais possível conter homenagens e desilusões musicais dos compositores pela que é hoje a terceira maior metrópole do mundo. Até a primeira frase do Hino Nacional menciona São Paulo: "Ouviram do Ipiranga..." Esses dados foram pesquisados por um paraibano de João Pessoa, radicado em São Paulo desde 75, que há cinco anos levanta a história musical da cidade em sebos e livrarias. O escritor e jornalista Assis Angelo, 41, está agora preparando o que ele chama de a primeira enciclopédia musical sobre São Paulo. Os primeiros 300 verbetes já estão escritos. Angelo acredita que o material resultante da sua pesquisa é suficiente para 900 verbetes e umas 600 páginas de livro, à espera de patrocinadores. E como seu trabalho é enciclopédico, vale dizer que a cidade já foi cantada de "A" a "Z", passando por "X" e "Y", por intérpretes e compositores de todos os Estados brasileiros. Por exemplo, com "Z", "Zona Leste Total" (de Luiz Carlos, 1991); com "X", "Xamego Paulista" (de Arlindo Bettio e Nhozinho, 1987); com "Y", "Yayá do Peruche" (de L. Correa e Rodolfo Vila) e com "A", entre outras, "A Baixada do Glicério" (de Enerdino Ortiz, João Marques e Manoel Lourenço). Se quantidade significar amor, Adoniram Barbosa foi o mais apaixonado dos cantores. Adoniram lidera o ranking com nada menos que 22 músicas sobre São Paulo. Tom Zé e a dupla Tonico e Tinoco também têm lá sua quedinha pela cidade. Cada um gravou 11 músicas. Quem pensa que Caetano Veloso parou na "arroz de festa" Sampa quando quis falar da cidade, mostra ou que não entende nada desta cidade ou que não sabe nada de Caetano. O doce bárbaro fala de São Paulo em outras cinco músicas, menos que Itamar Assumpção (dez músicas) e mais que Alvarenga e Ranchinho, que gravaram quatro composições. O ano em que mais se cantou São Paulo foi o do 4.º Centenário, 1954. Foram gravadas 72 músicas, com versões até japonês enaltecendo a cidade. Nem Hebe Camargo deixou de gravar a sua. "A Hebe vai ficar uma arara, mas a música que ela gravou, "Paulicéia em Festa", era um horror, muito ruim", diz o pesquisador Angelo. Já a composição "IV Centenário", de Mário Zan e J. M. Alves, fez tanto sucesso na época, que vendeu, numa São Paulo quase provinciana, mais de cinco milhões de discos. Só para registro, Mário Zan é o autor do bolero que só estourou e ficou bastante conhecido depois de gravado em espanhol. A estrofe é esta: "Dizem que os homens/ não devem chorar/ por uma mulher/ que não soube amar..." Se o Campeonato Paulista algum dia for definido pela quantidade de música composta para os times, só vai dar Corinthians. Das 140 músicas compostas para os clubes paulistas, 85 foram dedicadas ao time do Parque São Jorge.
Nos seus 440 anos , São Paulo já mereceu , pelo menos, 1.800 músicas. A primeira , “Missa a São Paulo, de l750, foi gravada pela primeira vez por Júlio Medaglia. O Hino Nacional também registrou a presença da cidade: “Ouviram do Ipiranga...” O jornalista Assis Angelo está organizando uma enciclopédia musical sobre São Paulo, já com material suficiente para 900 verbetes e 600 páginas. Percorrendo o alfabeto , constam músicas cujas letras iniciam até com as menos prováveis letras. Por exemplo: “Zona Leste Total”, “Xamego Paulista” , Yayá do Peruche”. Entre os compositores , Adorinam Barbosa bate o recorde , com 22 músicas falando da capital paulista; Tom Zé e dupla Tonico e Tinoco, cada um com 11 músicas; Caetano Veloso , com 6 ; Itamar Assumpção, com 10 ; Alvarenga e Ranchinho com 4 composições. No entanto, Mário Zan e J.M. Alves marcaram época com o “IV Centenário”, que vendeu na época mais de cinco milhões de discos , um exagero a São Paulo de 1954. Mas se se for colecionar instituições celebradas, o Corinthians ganha de goleada: de 140 músicas dedicadas a clubes paulistas, 85 são para ele.
Para a maioria dos paulistanos que não estuda ou ensina lá, a Universidade de São Paulo (USP) parece ser não muito mais que um parque Ibirapuera na zona oeste da cidade. Mas a USP se integra na cidade através de projetos que vão desde ônibus a gás para a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos até o de coleta seletiva de lixo, além de outros 3 mil serviços específicos como atendimento veterinário e cursos de aperfeiçoamento de executivos. Mas ao completar sessenta anos de fundação, no mesmo dia do aniversário da cidade, a universidade responsável por quase metade dos doutoramentos do país pretende ampliar mesmo é sua participação nos grandes debates nacionais. Através do Instituto de Estudos Avançados (IEA), a USP pretende discutir e apresentar propostas para questões como a Amazônia e o sistema Judiciário do país. "Não vamos de modo algum diminuir o atendimento a solicitações específicas da sociedade, mas vamos aumentar a atenção, na universidade, a propostas estruturais para o país, como já fizemos no fórum capital-trabalho ou no projeto para a revisão constitucional", diz Jacques Marcowitch, novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária. Marcowitch vai apresentar seu projeto para a área de extensão da USP no próximo dia dez de março, no Conselho Universitário. Serviços "A USP não pode tapar buracos na área de serviços sociais e de saúde", diz Eduardo Siqueira Barbosa, diretor de projetos da Coordenação Universitária de Cooperação Universitária e Atividades Especiais (Cecae) da USP. Segundo Siqueira, o atendimento ao público em geral tem que estar relacionado ao aperfeiçoamento de pessoal e do conhecimento. O cuidado de Siqueira se transforma em susto quando se fala em divulgar mais os serviços de laboratório ou atendimento especializado de saúde, por exemplo. Procurada pela Folha para confirmar o telefone do departamento, uma funcionária de um dos serviços de saúde da USP disse: "Você vai botar isso no jornal? Meu Deus, isso aqui vai virar o pronto-socorro das Clínicas". Na verdade, o atendimento de massa e genérico na área de saúde deve ser prestado por centros como as Clínicas -que se chama, por extenso, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E o atendimento médico, psicológico ou mesmo odontológico na USP nas unidades de ensino é mais dirigido às necessidades de ensino e pesquisa -em suma, trata-se de uma troca entre a população, estudantes e pesquisadores. Mesmo assim, pessoas com problemas raros ou de baixa renda podem recorrer à universidade (veja alguns exemplos no quadro ao lado). Siqueira, o diretor da Cecae, órgão que coordena e divulga muitos dos serviços da universidade, diz que a USP não investe em divulgação de massa do atendimento que ela pode oferecer "e talvez nem seja o caso de fazê-lo. Não teríamos condições de receber todo mundo. Em alguns casos, deve haver uma seleção natural da procura". De qualquer modo, quem quiser procurar a USP para resolver algum problema pode se dirigir à Cecae (tel.: 815-0163 ou 818-4165). Alguns dos serviços são gratuitos, outros, como os de laboratório e análises clínicas, são cobrados. O atendimento em veterinária é mais barato do que o das clínicas particulares.
Embora a maioria da população não saiba, a USP presta serviços fundamentais à cidade, como projetos relacionados a ônibus a gás, a coleta de lixo, além de outros 3 mil serviços , como atendimento veterinário e cursos de aperfeiçoamento de executivos. Sem diminuir os atendimentos específicos à sociedade , o novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, Jacques Marcowitch, através do Instituto de Estudos Avançados ( IEA) pretende que a Universidade se envolva com grandes projetos nacionais , por exemplo , a questão da Amazônia , o sistema judiciário do país . Isto sem abandonar a sua responsabilidade por quase metade dos doutoramentos do país. Eduardo Siqueira Barbosa, diretor de projetos do Cecae esclarece que o atendimento na área de serviços sociais e de saúde deve estar relacionado ao aperfeiçoamento do pessoal e ao conhecimento. Não se trata de mais um posto de saúde. Tanto que a Universidade não alardeia publicidade sobre essa prestação de serviço , a fim de não ser asfixiada por excesso de procura.
O reggae domina a primeira etapa do M2.000 Summer Concerts. Inner Circle, Shabba Ranks, Chakka Demus & Pliers e o fluminense Cidade Negra prometem levar à ebulição as areias das praias do Gonzaga e da Barra. Isso sem contar com a presença de Chico Science e o mangue beat de sua Nação Zumbi. O reggae é uma música essencialmente mutante. O estilo criado pelos Wailing Wailers de Bob Marley e Peter Tosh viveu seu auge quase ao mesmo tempo em que explodia o movimento punk nas ruas de Londres, circa 77. Coincidência ou não, graças a um inglês -Eric Clapton- o estilo tornou-se conhecido mundialmente. Muito do espírito fraternal e engajado do reggae se perdeu com a morte de Marley e Tosh, seus dois maiores nomes. Veio a geração de Yellowman -atualmente em franca decadência-, que, na prática, propunha exatamente o oposto do que seus antecessores pregavam. As mensagens rastafári de amor universal e paz foram aposentadas. Na virada dos 90 surgiu uma nova versão do estilo, batizada de dancehall. No fundo, a receita é simples: elimine os grooves -bases sonoras encorpadas baseadas no casamento de baixo e bateria-, adicione fortes doses de hip hop e eletrônica e passe a falar sobre violência -o "guntalk"-, sexo fácil e baladas homéricas. O sucesso instantâneo da reciclagem do reggae provocou uma busca desenfreada das grandes gravadoras por novos nomes. Em apenas dois anos, 15 jamaicanos assinaram contratos internacionais polpudos. O primeiro nome do estilo a ganhar fama fora da ilha foi Shabba Ranks. Em 91, ele assinou com a Epic, por onde lançou dois álbuns e duas coletâneas de remixes. Shabba chega ao Brasil com a autoridade de quem emplacou o megahit "Mr. Loverman" em praticamente todas as rádios do país em 93. A maliciosa canção deve grande parte de seu impacto ao produtor Clifton "Specialist" Dillon. Shabba forjou o visual do homem do dancehall: roupas estilosas e cabelos curtos, além de muitos anéis e pulseiras. Chakka Demus & Pliers seguiram o rastro aberto por Ranks, injetando mais elementos de rap e hip hop à receita. A dupla é composta por um DJ e um MC, e gravou em 93 o álbum "Tease Me", cheio de alusões sexistas. Desembarcam no Brasil sem um hit sequer. O contraponto da noite será feito pelos rastas do Inner Circle e seu reggae de raiz e pelos fluminenses do Cidade Negra, que fazem um som ainda próximo do estilo original. O Inner Circle foi criado pelos irmãos Ian e Roger Lewis (baixista e guitarrista), há 17 anos. Seu maior sucesso aconteceu em 76, com a canção "Everything Is Great". Desde então, é considerado um dos principais nomes do reggae e esteve em evidência até a morte do vocalista Jacob Miller, em 80. Ficaram em jejum até 86, quando Calton Coffey assumiu os vocais. A banda reencontrou o sucesso em 89, com o disco "Identified" e a entrada do baterista Lance Hall. Com o último disco, "Bad To The Bone", veio a pegajosa "Sweat (A La La La La Long)". Resultado: mais de dois milhões de cópias vendidas. O disco ainda traz "Bad Boys", tema do seriado americano "Cops" e sucesso por lá. Prepare-se para começar a balançar seus dreadlocks.
O evento musical M2.000 Summer Concerts destaca-se na sua primeira etapa pela presença de representantes do reggae , estrangeiros e nacionais. Esse estilo musical é essencialmente mutante. O espírito fraternal e engajado da produção de seus criadores - Bob Marley e Peter Tosh morreu com eles. A geração de Yellowman , que os seguiu, ao contrário , pregava a violência. Na virada dos anos 90, surgiu uma nova tendência ---dancehall--- com modificações na parte de som e de coreografia, que fala sobre violência, sexo fácil e baladas homéricas. O sucesso dos representantes da nova tendência foi grande , concretizado em contratos internacionais milionários. Estarão presentes no evento , no Rio de Janeiro , Shabba Ranks; Chakka Demus & Pliers; Inner Circle, além dos nacionais, Cidade Negra e Chico Science.
O capitalismo tem proporcionado oportunidades para pessoas que desejam entrar, de alguma forma, no mundo dos negócios. Cada vez mais jovens, executivos, profissionais liberais e trabalhadores se transformam em empreendedores movidos por seus sonhos e pelas oportunidades oferecidas pelo mercado. Quanto mais aberto o mercado, mais oportunidades para que pessoas se arrisquem no mundo dos negócios. O livre mercado é a fonte natural de novas oportunidades para empreendedores. E, ao contrário do que alguns apregoam, cada vez mais existirão novas e notáveis alternativas de empreendimento, em função da entrada de novos atores no palco dos negócios. Como o mercado possui suas próprias leis e se move com grande velocidade é preciso estar alerta. O mercado é bondoso e recompensa os empreendedores que, através de sua inteligência e trabalho, demonstrem "competência" para competir. Por outro lado, o mercado é enérgico e não hesita em penalizar aqueles que se estabeleceram, mas não adquiriram ou trouxeram novas formas para se autoproteger da concorrência. Estes, que são a maioria, acabaram rotulados pelo fracasso. Com a velocidade do mercado, inúmeros produtos, serviços e negócios simplesmente desapareceram pela incapacidade de percepção ou adaptação às novas expectativas de consumo. Por outro lado, surgem novas e fantásticas alternativas para produtos, serviços ou negócios que pela mudança de hábitos de nossa sociedade, proporcionam um terreno fértil para novos empreendimentos. Não basta apenas sonhar para que um novo empreendedor obtenha sucesso. São inúmeras as variáveis para se garantir o sucesso de um empreendimento: capital, a nova idéia, o ponto, a experiência anterior, o nicho, o grau de inovação, o nível de diferenciação, a forma de atendimento, o horário de funcionamento, o "timing" para entrada no negócio, o volume de trabalho despendido, a equipe e muito mais. Sugiro a análise de um só item. Em já havendo o sonho, a experiência é a principal peça para o acerto ou, pelo menos, para minimizar o insucesso. Muitas vezes, pela precariedade do sonho, que beira mais à fantasia, e pela ansiedade do novo empreendedor -somado à autoconfiança-, arrisca-se um novo negócio, sem qualquer experiência anterior. Movido, geralmente, pela errônea análise da "fruta do vizinho". Se fosse possível, o sonho teria que acontecer com os pés no chão. A partir daí, entra-se no processo de dominar a ansiedade, que, na maioria das vezes, determina o insucesso do empreendimento pela incapacidade de uma análise mais detida sobre o assunto. A autoconfiança, que é um fator altamente positivo, aliada à ansiedade pode provocar um desastre. Pode-se evitar tudo isso com a experiência, preferivelmente, na atividade a ser exercida. Experiência é fundamental para minimizar desacertos. Só existe uma coisa pior do que a falta de experiência: um empreendedor desprovido de conhecimento anterior básico para o novo negócio, mas com capital. Inexperiência, somada a capital, não é garantia de êxito. Se não for possível contar com a experiência, o convívio indireto com a nova atividade e um conhecimento mínimo do mundo dos negócios poderão proporcionar bons passos rumo ao sucesso. O que deve ser lembrado é que cada caso é um caso e não existe receita de sucesso. O que existe, sim, são fatores que podem evitar o fracasso.
O capitalismo , nos dias de hoje, oferece inúmeras oportunidades para quem sonha entrar no mundo dos negócios , tem competência e soma experiência no ramo. A mobilidade dos hábitos sociais está sempre oferecendo novas alternativas para os iniciantes. É necessário, porém, que não sejam ingênuos, que se informem o quanto podem, que se dediquem em período integral . É preciso vigiar cada lado traiçoeiro dos negócios, pois o mercado não perdoa. Quem se arrisca nos negócios deve estar atento a estas condições para o sucesso: capital, a nova idéia, o ponto , a experiência anterior, o nicho, o grau de inovação, o nível de diferenciação, a forma de atendimento, o horário de funcionamento, o timing para entrada no negócio, o volume de trabalho despendido , a equipe. Mesmo assim, a garantia não é total . Até o que é qualidade pode servir de tropeço. Por exemplo, a autoconfiança, fator altamente positivo, se contaminada pela ansiedade, pode provocar o fracasso.
Uma legião que varia entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros acredita que o juízo final, ou o dia do apocalipse, pode acontecer entre hoje e o ano 2000. Esse coro, suficiente para lotar 185 Maracanãs, é estimado por entidades tão diversas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Cristão de Pesquisas (ICP). Os apocalípticos são compostos por uma horda de fiéis intitulada "evangélicos", que inclui membros de igrejas como a Presbiteriana, Batista, Metodista, Assembléia de Deus, Deus é Amor e Universal do Reino de Deus. Considerada uma das características do nosso "espírito de época", essa crença no fim do mundo nasceu de múltiplas leituras que os fiéis fizeram de axiomas bíblicos, retirados sobretudo dos textos de Mateus, Habacuque e do Livro dos Provérbios. A Folha percorreu o centro de São Paulo por dez dias, em busca das leituras que cada fiel fez dessas frases. Mario Silva Ramos, por exemplo, é pregador presbiteriano que frequenta a praça Ramos de Azevedo (centro de São Paulo). Diz que acredita no fim do mundo para o ano de 1999 -graças a uma frase que ele retirou do livro do Apocalipse: "um raio branco varrerá os não convertidos do centro da terra e só serão arrebatados ao Paraíso os merecedores". Até alguns católicos têm sustentado que o fim do mundo pode acontecer a qualquer momento, antes do clássico 1999. Segundo a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja Católica perde em média, só no Brasil, 600 mil fiéis para outras religiões, sobretudo as apocalípticas. E alguns desses dissidentes do catolicismo, atormentados pelo fantasma do juízo final, saem para as ruas pregando o fim do mundo -sem abrir mão dos cânones católicos mas também sem aceitar integralmente a idéia das religiões adventistas. É o caso de Maria de Lourdes Batistella, 45, que há cinco anos "torra" sua existência no centro de São Paulo alertando os pedestres como sobre se salvar dos pecados. Olhos azuis, vestida de branco como uma freira, trazendo em punho um megafone de última geração, ela distribuiu santinhos de metal dourado, na intenção de salvar os paulistanos do "mal". "Um dos sinais do apocalipse é que os padres deixaram de usar batina e que eles mesmos têm medo de falar sobre o fim do mundo", sustenta a pregadora. "A única forma de salvação seria rezar um rosário mais de 40 vezes por dia", diz Maria de Lourdes, que prega carregando um retrato de Nossa Senhora. Assim como ela, há membros de seitas que esperam o fim do mundo para qualquer hora, a partir de agora. Em 1992, por exemplo, as seitas coreanas Bank ik Ha e Missão Taberá, do Brás (zona leste), anunciaram o fim do mundo para o dia 28 de setembro daquele ano -também escolhido como o ano "final" pela seita carioca Auto-Clamor. O mais curioso de tudo é que a Missão Taberá sustentava que a língua dos anjos que desceriam do céu seria o coreano. E que as "bestas" do apocalipse poderiam ser identificadas por trazerem o "código de barras" na testa. Segundo pesquisador Paulo Romeiro, do Instituto Cristão de Pesquisas, a diversidade de datas e meios pelo qual virá o juízo final reside em várias interpretações do capítulo 4º, versículo 18, onde se faz menção à vinda da "luz", que arrebatará os fiéis aos céus. "Cada seita diz que essa luz virá numa data e, com esse tipo de ameaça, conseguem extorquir dinheiro de seus fiéis, que se sentem ameaçados." Em 1994, apenas uma igreja marcou data para o fim do mundo. Trata-se da seita Family Radio, dos EUA, comandada por Harold Camping, um pastor da Califórnia. No início do ano, ele enviou ao Brasil 50 discípulos que se hospedaram no Othon Palace Hotel, em São Paulo. Passaram 100 dias no Brasil distribuindo a obra "1994", um calhamaço de 556 páginas, que pode ser encontrado em qualquer livraria da cidade. Detalhe: lê-se à página 524 que a vinda de Cristo à Terra já teria sido anunciada em 1994 "no primeiro dia do sétimo mês". E mais: na página 528, está escrito que o dia do juízo final está marcado para o próximo dia 15 de setembro. Diz o pesquisador de religiões Joaquim de Andrade, 32, que alguns membros dessas seitas têm sustentado que, quando finalmente o apocalipse chegar, só haverá "vagas" no céu para um número justo de 144 mil pessoas "puras". "Agora eles vêm dizendo que a maioria dessas vagas já foi preenchida e que só vai haver lugar mesmo é para 8.000 pessoas."
Segundo o IBGE e o Instituto Cristão de Pesquisa (ICP) , entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros acreditam que o juízo final pode se dar de hoje até o ano 2000. Entre esses crentes , denominados de evangélicos, estão membros de igrejas como a Presbiteriana, Metodista , Assembléia de Deus, Deus É Amor, e Universal do Reino de Deus. Seguidores dessas seitas, com base na leitura de certas passagens bíblicas, apregoam o fim do mundo, alguns até com data marcada. Há muitos dissidentes do catolicismo que , influenciados por esses pregadores, também fazem coro com eles nas suas pregações de rua. Todos esses pretensos profetas querem salvar os que ainda não assimilaram a sua verdade. Além da tragédia apocalíptica , muitos deles pressionam alertando para o limite de vagas no céu :só 144 mil , algumas já preenchidas, segundo alguns . É uma fórmula fácil de convencer os crédulos e, conseqüentemente, de tirar dinheiro deles. Uma seita americana , Family Radio, chegou a marcar data para o juízo final. Na época , mandaram 50 discípulos ao Brasil, que se hospedaram no Othon Palace Hotel, em São Paulo. Passaram aqui 100 dias distribuindo a obra “1994”
Até o fim do século o mundo vai assistir ao fenômeno da "desmetropolização", ou seja, a tendência desta década será a desconcentração populacional das metrópoles. Em alguns casos, espera-se crescimento negativo nas grandes cidades. Uma das razões para a guinada na expectativa de crescimento, na opinião de Elza Berquó, diretora do Nepo (Núcleo de Estudos de População da Unicamp), é a busca maciça, por parte dos habitantes dos grandes centros urbanos, de uma qualidade de vida melhor da que oferecem as metrópoles. Segundo Berquó, haverá a fixação das pessoas em cidades medianas que se transformarão em pólos de referência, menores e com menos problemas que as megacidades. Algo parecido com o que está acontecendo em Campinas e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, que oferecem vida cultural e infra-estrutura de serviços parecida com a das grandes cidades, sem, no entanto, estarem saturadas. Essa mudança na concentração populacional estará ocorrendo ao mesmo tempo em que outra tendência for se cristalizando: uma distribuição de renda mais harmônica e mais equitativa. "O sonho de que as soluções para todos os problemas estão nos grandes centros está no fim. E isso é uma boa notícia. Deve-se comemorar", diz Berquó. Números do Seade (Sistema Estadual de Análises de Dados) mostram que a cidade de São Paulo, por exemplo, cresce menos a cada década. Nos anos 60/70, tinha sua população aumentada anualmente na razão de 4,92%. Nos anos 70/80, o crescimento diminuiu e foi para 3,67%. De 1980 a 1991, o crescimento anual chegou a 1,15%. Até o ano 2000 não deve sair desse patamar percentual. De acordo com dados do Nepo, a taxa atual de fecundidade no Brasil é de 2,5 filhos por mulher. Em 1980, era de 4,5 filhos por mulher. Até na região Nordeste, onde essa taxa chegou, em 1980, a seis filhos por mulher, atualmente já baixou para 3,7. Hoje vivem no Brasil 152 milhões de pessoas. Em 2000, serão 179 milhões de brasileiros. Com exceção dos países africanos, a taxa de fecundidade no mundo está diminuindo, com forte tendência de estabilização ou crescimento populacional negativo. Na África, a média de fecundidade ainda é de seis filhos por mulher. No caso específico do Brasil, a expectativa dos cientistas é que a partir de 2020 o país vá ter seu crescimento populacional estabilizado e, por volta de 2050, essa taxa chegará a zero. Isso significa que o número de mortes vai se igualar ao de nascimentos. A desaceleração populacional no Brasil poderia até ser mais rápida, "não fosse o alto contingente de mulheres que ainda está se reproduzindo", segundo Elza Berquó. Se o excesso de população é um problema, a implosão demográfica também. Hungria, Alemanha e Itália, entre outros países, enfrentam crescimento populacional negativo e envelhecimento de suas populações. Ou seja, em breve terão que "importar" gente para suprir as atividades mais corriqueiras. Na Itália, por exemplo, o número de óbitos é maior que o de nascimentos. Na França, a média de fecundidade é de 1,3 filho por mulher. Para efeito de comparação, em São Paulo, segundo a demógrafa Bernadete Waldvogel, do Seade, a média é de 2,2 filhos por mulher. Na década de 80, cada brasileira tinha 3,4 filhos. Na de 70, 4,2. "Em cada década está diminuindo um filho", resume Waldvogel. Sem levar em conta essa tendência de queda apontada pelo Seade e Nepo, um relatório produzido pela ONU (Organização das Nações Unidas) projeta que em 2010 a cidade de São Paulo será a segunda maior do mundo, perdendo apenas para Tóquio e na frente de Bombaim, Xangai, Lagos, Cidade do México, Beijing, Dacar, Nova York e Jacarta, nessa ordem. O relatório da ONU mostra uma São Paulo caótica no ano 2000, com 25 milhões de habitantes. Estudos do Seade projetam uma cidade parecida com o que é hoje, com 10,7 milhões de habitantes. No segundo semestre deste ano, no Cairo (no Egito), acontece uma conferência internacional sobre crescimento populacional.
Até o fim o ano 2000, haverá uma desconcentração populacional nas metrópoles do mundo--- em algumas , o crescimento será negativo. Cada vez mais , as pessoas procuram cidades de porte médio, com menos problemas que as metrópoles, sem perder na oferta de vida cultural e infra-estrutura de bens de serviços. Segundo Berquó, diretora da Nepo ( Núcleo de Estudos de População da Unicamp) , uma das razões é a busca de qualidade de vida. Paralelamente a essa desconcentração , ocorre uma melhor distribuição de renda. Ir para a capital , a fim de fazer a vida, já não é o grande sonho. Cálculos do Seade indicam que as décadas de 60 , 70, 80 apresentam , respectivamente, índices de 4,92% , 3,67% , 1,15% , para a cidade de S.Paulo A relação mulher/filho tem diminuído, inclusive no Nordeste , onde de 6 filhos por mulher em 1980 , caiu para 3,7. Com exceção dos países africanos, a taxa de fecundidade vem diminuindo no mundo inteiro. No Brasil, segundo cientistas, até o ano 2020 , o crescimento estará estabilizado , e aproximadamente até 2050, será zero. Desprezando os cálculos da Nepo e do Seade, a ONU apresentou um relatório falando da explosão populacional de São Paulo, que será a segunda maior cidade do mundo até o ano 2010. Se é pavorosa essa antevisão , também o é a implosão demográfica, que já ocorre na Hungria, Alemanha e Itália, que precisarão importar gente para determinados serviços.
O ano 1000 da era cristã foi comemorado apenas numa pequena região do planeta, por uma fração reduzida da humanidade. A data só tinha significado para uma cristandade sitiada, numa parte da Europa, por pagãos do Norte, invasores nômades ao Leste e muçulmanos ao Sul. Meio milênio mais tarde, a cristandade começou sua conquista do mundo rebatizando-se aos poucos de Ocidente e impondo seu calendário. O ano 2000, embora longe de gerar a ansiedade da virada anterior de milênio, suscitará uma comemoração mais ou menos planetária. O ano 1000 foi precedido de profecias apocalípticas. O que acontecerá no ano 2000 e depois tem sido tema para escritores, economistas, politicólogos e cineastas. Todo um gênero literário nasceu dessas especulações: a ficção-científica. Dois de seus primeiros praticantes, o francês Jules Verne e o inglês H.G. Wells, fizeram predições interessantes. Verne concentrou-se na evolução da tecnologia e os desenvolvimentos que tematizou concretizaram-se antes do que se previa. A viagem à lua de Wells também é coisa do passado. Mas este, em "A Máquina do Tempo", abordou as possíveis consequências de um aprofundamento do abismo entre as classes, imaginando que ele chegaria a gerar uma mutação que subdividiria a humanidade em duas espécies distintas. Num país como o Brasil, isto talvez não esteja tão longe de acontecer. No entanto, as três obras de antecipação mais discutidas pertencem ao que poderíamos chamar de ficção científico-política. A primeira delas é "Nós" do russo Ievguêni Zamiátin que, por sua vez, inspirou as duas outras, "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell, ambos autores ingleses. As três imaginavam qual seria o destino do homem num mundo concebido segundo as fórmulas dessa invenção particularmente moderna: a engenharia social. Seu pano de fundo era o totalitarismo e todas se mostravam profundamente pessimistas. Hiroshima e Nagasaki, em 1945, realimentaram a ficção-científica com o elemento central da ansiedade do primeiro milênio, pois a Bomba transformara, durante a Guerra Fria, o apocalipse numa possibilidade real. Mas em 1989 aconteceu o que nenhum escritor do ramo ousara profetizar: o bloco comunista começou a desmoronar e, pouco depois, Leningrado foi desrebatizada, voltando a se chamar São Petersburgo. Nos Bálcãs, o futuro voltou ao passado, primeiro a 1941 e, agora, a 1912 ou mesmo antes. No Cáucaso e na África Central o que está ocorrendo é um renascimento do neolítico ou talvez do paleolítico, com guerras tribais de todos contra todos, como já dizia, séculos atrás, Thomas Hobbes. Isso, novamente, quase ninguém previu. O passado, aliás, tornou-se no século 20 um assunto muito mais palpitante do que o futuro, principalmente porque a arqueologia produziu mais novidades do que a política ou a ciência. Não é a toa, portanto, que os livros dedicados a recontar a história de acordo com novas teorias e conhecimentos –"O Nome da Rosa" de Umberto Eco, ou "Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar– obtiveram mais sucesso que obras proféticas e/ou especulativas. Assim, as fantasias futuristas deslocaram-se dos livros para o cinema. Não há uma única obra literária desse gênero que tenha conseguido a repercussão do "2001 - Uma Odisséia no Espaço", filme de Stanley Kubrick. No entanto, seu porvir asséptico e seu imenso computador rebelde parecem hoje obsoletos. Afinal, os anos 80 domesticaram definitivamente o computador e a nova consciência ecológica faz muita gente imaginar o próximo milênio como algo superpovoado, poluído e sujo. A encarnação mais durável, até o momento, da fantasia futurista se encontra em "Blade Runner" de Ridley Scott, que tematiza não apenas a degradação ambiental, mas também a engenharia genética. O autor do livro em que se baseou o filme, Phillip K. Dick, foi dos poucos que, na ficção-científica, aproximou-se da profecia ao tratar tanto desses assuntos como da importância crescente das drogas no mundo moderno. As previsões mais exatas, contudo, foram recentemente realizadas não por um futurólogo profissional nem por um roteirista hollywoodiano, mas pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger. O posfácio ao seu "A Outra Europa" é uma reportagem ficcional extraída do "The New New Yorker" de 21 de fevereiro de 2006. O repórter americano que a escreve fala de Ceausescu, o ditador comunista da Romênia: "Aquele velho gângster demoliu o que pôde, até ser morto à tiros por seu próprio pessoal". Só que Enzensberger escreveu de fato seu texto em 1987, enquanto Ceausescu foi morto em fins de 1989. A reportagem refere-se também às ruínas do muro de Berlim e à abolição do tabagismo nos EUA. Tal clarividência é rara, mas existe. E onde menos se espera.
O ano 1000 foi comemorado só numa parte da Europa , exatamente aquela em que contexto histórico mostrava a Igreja Católica sitiada por três forças invasoras ,que a ameaçavam. Não é à toa que ele foi precedido de profecias apolípticas, divulgadas pela própria Igreja , com finalidade estratégica. A chegada do ano 2000 veio antecedida de previsões de outra natureza, sem descartar ameaças apocalípticas comprovadas. Júlio Vernes e H.G. Wells previram acontecimentos fantásticos com base na evolução tecnológica, que de fato aconteceram. Mas as três obras de previsão com caráter mais polêmico estão ligadas à ficção científico-política. São elas: “Nós”do russo Ievguêni Zamiátin , que inspirou as duas outras --- “Admirável Mundo Novo”de Aldous Huxley e “1984” , de George Orwell. As três mostram a atuação totalitária do poder sobre a sociedade , numa visão muito pessimista. As bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki trouxeram as antevisões apocalípticas para o plano real. Mas as surpresas que nenhum escritor do ramo conseguiu anunciar foram o desmantelamento da União Soviética , e as guerras tribais que estão acontecendo no Cáucaso e na África Central. Esse retorno ao passado, no ano 2000, é mais palpitante do que o interesse pelas conquistas do futuro. Mais recentemente, as fantasias futuristas foram incorporadas pelo cinema, por exemplo, em “2001 - Uma Odisséia no Espaço” , cujo conteúdo já parece, hoje, obsoleto. O filme que mantém mais atualidade quanto a essa fantasia futurista é “Blade Runner” . Além de focalizar a degradação ambiental e a engenharia genética, mostra a importância crescente das drogas na atualidade. No entanto , as previsões mais exatas vêm pela sensibilidade do poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger. O posfácio do seu livro “A Outra Europa” é uma reportagem ficcional de um americano , que fala dos abusos de Ceausescu e da sua morte a tiros pelo seu próprio pessoal. O curioso é que seu texto é de 1987 e a morte de Ceausescu é de 1989.
Um estudo realizado com 25 municípios do interior paulista mostra que as prefeituras se esforçaram em compensar o corte no financiamento federal à assistência médica. Entre 1987 e 1992, houve uma queda de 39% nos gastos do governo federal em saúde. No mesmo período, os 25 municípios aumentaram em 155% suas despesas com atendimento médico, de acordo com um relatório ainda a ser publicado pelo Cepam (Centro de Estudos e Pesquisa de Administração Municipal), na USP. A municipalização é um dos princípios básicos do SUS (Sistema Único de Saúde). Criado com a Constituição, em 1988, o SUS dá a todos os cidadãos o direito à saúde –o que também foi uma grande conquista: antes de 1988, para ser atendido pelo extinto Inamps, o paciente precisava mostrar sua carteira de previdenciário. Como era de se esperar, a municipalização –que significa descentralização de decisões e distribuição de verbas, ou, em outras palavras, de poder– encontrou e encontra muitas resistências –comparáveis às encontradas no programa de privatização. Mas apesar das resistências, a extinção do Inamps e a absorção de suas instalações e funcionários pelos Estados e municípios, fundamental à descentralização já está quase terminada. Praticamente todas as instalações do Inamps –que tinha 125 mil funcionários e 670 unidades– já foram transferidas aos Estados e municípios. As resistências vieram e vêm de todos os lados. Mas, de acordo com o Ministério da Saúde, a principal está dentro do próprio governo federal. Para que a descentralização dê certo, os municípios precisam ser responsáveis não só pela assistência médica mas também pelo uso sensato das verbas de saúde. O maior incentivo a essa otimização financeira é um decreto que dá direito aos municípios receberem do governo federal, automaticamente e sem negociações políticas, recursos proporcionais a suas populações. Com verba fixa, eles vão precisar se virar como podem para custear as necessidades de seus pacientes –e não simplesmente cuidar dos cidadãos e depois cobrar, através das AIHs –os famosos "cheques em branco" da saúde– pelo serviço prestado. O decreto, elaborado pelo ministério, está há quatro meses na mesa do presidente da República, Itamar Franco, esperando para ser assinado. Outro foco de resistência são os funcionários que fazem as auditorias do extinto Inamps. O SUS previa um sistema descentralizado de auditoria, em que os municípios e os próprios usuários do sistema de saúde deveriam atuar na fiscalização. Não foi o que aconteceu. De acordo com técnicos do ministério, o grupo de auditores, cerca de 500, conseguiu fazer prevalecer um sistema centralizado de auditoria, o recém-criado Sistema Nacional de Auditoria –que traz semelhanças com o sistema que fiscalizava o Inamps, tão conhecido pelos escândalos e fraudes. "Foi um revés para SUS", informou um técnico do ministério. As resistências não vieram só de dentro do governo federal. Peça-chave na atomização do poder, o conselho estadual tem a função de formular as estratégias de saúde nos Estado (veja figura). Metade dele é composta por representantes dos usuários de saúde e a outra metade por representantes dos segmentos do governo, prestadores de serviços e profissionais da saúde. Dos 5.000 municípios do país, 1.400 já se integraram ao SUS. O Rio de Janeiro foi o que mais resistência apresentou (leia texto abaixo). Não é coincidência que o Rio é a cidade que mais tem unidades do Inamps –27. O SUS está no caminho certo, pois investe em quem mais tem condições de tratar de saúde –os municípios. O que falta é vencer as resistências à implantação e, com isso, permitir que os municípios corrijam as distorções herdadas do antigo sistema federal.(Cláudio Csillag)
A criação do SUS ( Sistema Único de Saúde) com a Constituição de 1988 ampliou o direito de atendimento médico a todos os cidadãos, eliminando a limitação imposta pelo sistema anterior , o Inamps , que exigia a apresentação da carteira de previdenciário. O novo sistema prevê a municipalização , com a conseqüente descentralização de decisões , e distribuição de verbas , sem que os prefeitos tenham que ir de chapéu na mão ao governo federal. Sem dúvida, o processo agiliza o atendimento. Apesar da reações contrárias , --- possivelmente por interesses políticos contrariados e por controle de verbas mais transparente --- , as instalações e funcionários do Inamps , praticamente, já foram transferidos para os Estados e Municípios. Houve, também, resistência por parte dos funcionários responsáveis pelas auditorias no Inamps. Contrariando previsão do SUS, conseguiram fazer prevalecer o Sistema Nacional de Auditoria, semelhante ao do antigo Inamps, famoso pelos escândalos e fraudes. O SUS está no caminho certo, pois delega aos municípios uma competência que lhes é mais própria. O fato de só 1.400 dos 5.000 terem se integrado ao novo sistema , sem dúvida, vai por conta de vantagens pessoais contrariadas.
Apesar do consenso sobre a necessidade de reformular a Previdência Social, as propostas hoje em discussão apresentam pontos divergentes. Para que as mudanças sejam feitas, o Congresso terá que realizar mudanças na Constituição. A criação de um sistema básico e público de previdência tem o apoio de parlamentares de diversos partidos. O sistema básico concederia benefícios apenas para quem contribui. As divergências surgem no momento de definir, por exemplo, qual o valor máximo do benefício do sistema básico. Variam de um a dez salários mínimos. A proposta da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) prevê a criação do VRS (Valor de Referência Social), igual a um salário mínimo na data da reforma. A partir daí, o seu valor seria corrigido pela variação do custo de uma cesta básica. O benefício do regime básico seria até três VRS e custeado unicamente pelo trabalhador. A Febraban (Federação Brasileira das Associações dos Bancos) defende um regime básico com benefícios até dois salários mínimos. A CUT (Central Única dos Trabalhadores), por sua vez, defende que o valor máximo dos benefícios do sistema básico seja equivalente a dez salários mínimos, o equivalente hoje a cerca de R$ 650. No caso da aposentadoria por tempo de serviço, a tendência é criar no seu lugar um sistema misto. Apenas sete países em todo o mundo adotam o sistema de aposentadoria por tempo de serviço, entre eles o Brasil. A idéia do sistema misto é levar em conta a idade e o tempo de contribuição do trabalhador para a Previdência. É o caso, por exemplo, da fórmula 95, apresentada por Wladimir Martinez, especialista no assunto. Por ela, o trabalhador se aposentaria quando a soma de sua idade e do tempo de contribuição fosse igual a 95. O deputado Reinhold Stephanes (PFL-PR), ex-ministro da Previdência, propõe que os critérios de aposentadoria sejam iguais para os homens e para as mulheres. Para ter direito à aposentadoria por tempo de serviço, o trabalhador precisaria de 40 anos de contribuição. A aposentadoria por idade seria concedida aos 62 anos e 35 anos de contribuição. A CUT quer a manutenção da aposentadoria por tempo de serviço. A extinção da aposentadoria por tempo de serviço é defendida pela Força Sindical. A Febraban defende a aposentadoria por idade aos 63 anos para ambos os sexos. Outro ponto polêmico é a fonte de financiamento da Previdência. A CUT quer manter a contribuição atual das empresas. A Fiesp propõe que a contribuição previdenciária do empregador seja eliminada. A proposta da Febraban prevê o financiamento através de contribuição dos segurados e das empresas até a faixa de dois salários mínimos. As alíquotas seriam diferenciadas de acordo com o tipo de benefício, totalizando 22% para ser dividida entre empresa e empregado. A proposta baseada no modelo chileno prevê um regime de capitalização. Haveria contribuições individuais dos trabalhadores e um seguro obrigatório de riscos e enfermidades ocupacionais. O regime seria obrigatório para os empregados e facultativa para os trabalhadores autônomos. Para o homem se aposentar aos 65 anos e a mulher aos 60 anos, seria necessário estarem filiados ao sistema há pelo menos 20 anos. O valor mínimo do benefício corresponderia a 85% do menor valor base de contribuição para indíviduos com menos de 70 anos e de 90% para quem estiver acima dessa idade. Para pensão, o valor mínimo é de 85% do menor valor base de contribuição. Está previsto ainda um benefício de caráter assistencial para a população carente. Seria de 50% da pensão mínima. Não haveria aposentadoria por tempo de serviço. Seriam adotadas as mesmas regras para os servidores públicos. Para viabilizar as mudanças na Previdência, serão necessárias mudanças na Constituição aprovada em 1988.
Apesar do consenso sobre a necessidade de reformular a Previdência Social, as propostas em discussão apresentam pontos divergentes. Por exemplo, se há bastante consenso sobre a criação de um sistema básico e público, que beneficiaria apenas quem contribui, há divergência quanto à definição do valor máximo do benefício. As classes patronais propõem menos ( Fiesp, um salário mínimo na data da reforma; Febraban, até dois salários); a Central Única dos Trabalhadores - CUT - defende até 10 salários mínimos como valor máximo do regime básico. Para substituir o sistema de aposentadoria ---que funciona só em sete países, entre os quais o Brasil--- a tendência é criar um sistema misto ---idade e tempo de contribuição. O especialista Wladimir Martinez , criador da fórmula 95, defende que o trabalhador se aposente quando a soma da sua idade e do tempo de contribuição é 95. O deputado Reinhold Stephanes propõe critérios iguais para homens e mulheres. A CUT e a Força Sindical pensam diferentemente: a primeira quer a aposentadoria por tempo de serviço; a segunda defende sua extinção A fonte financiadora é outro ponto de discordância. A CUT quer manter a contribuição atual das empresas. A Fiesp, não. A Febraban defende a contribuição de segurados e empresas , até a faixa de dois salários mínimos. Há ainda a proposta baseada no modelo chileno, uma forma de capitalização , com contribuições individuais e um seguro obrigatório . Esse regime seria obrigatório para os empregados e facultativo para os autônomos. Também prevê o valor mínimo do benefício para os contribuintes e um valor menor, de caráter assistencial, para os carentes.
A taxa oficial de analfabetismo no Brasil é de 18%. Isto quer dizer que, para as estatísticas, cerca de 28 milhões de brasileiros não sabem nem ao menos identificar letras. Educadores concordam que não há como começar a reverter esse quadro sem tornar novamente interessante a carreira do magistério. Isto é, pagar melhores salários, treinar e exigir mais dos docentes. Aumentar simplesmente o número de escolas e vagas não é prioridade. Mesmo em estados onde a cobertura escolar –vagas disponíveis- é aceitável, o desempenho escolar é sofrível. A situação de boa parte dos 82% 'não analfabetos' não é muito melhor que a dos que nunca foram à escola. O critério oficial identifica alfabetizados pela capacidade de "saber escrever um bilhete simples". Conceitos mais exigentes, no entanto, abarcariam quase 60 milhões de brasileiros na categoria de analfabetos. Para os critérios mais refinados, defendidos por pesquisadores de serviços de estatísticas educacionais e educadores, a exigência de quatro anos de escolaridade é o requisito mínimo para que alguém não seja considerado um analfabeto funcional. Isto é, aquele capaz de aproveitar de alguma forma produtiva a instrução que recebeu e não regredir. No Brasil, quase metade da população de mais de 10 anos de idade não completou esse ciclo. O critério que qualifica alguém que saiba rabiscar um bilhete como alfabetizado foi estabelecido pela Unesco em 1958. A revolução tecnológica nos sistemas produtivos jogou esse padrão no lixo. "Mudou o paradigma da educação. As próprias empresas chegaram à conclusão de que se a mão-de-obra não for melhor preparada, o país não terá condições de competir internacionalmente, diz Célio Cunha, chefe do departamento de Projetos Educacionais do ministério da Educação. É justamente nessa área que o governo federal investe menos. É atribuição dos governos municipais e estaduais a educação básica, mas a maioria deles não tem recursos para construir escolas que não sejam taperas, quanto mais para bancar um ensino de qualidade. "Nos municípios menores, a situação da educação básica é muito ruim, tanto em termos de evasão e repetência como em termos de nível de conhecimentos dos alunos aprovados", diz Azuete Fogaça, professora da Universidade Federal de Viçosa. Pelo menos nos últimos cinco anos, o governo federal vem investindo cerca de 50% a 60% de seus recursos em educação no ensino superior –nas instituições federais de ensino. "Recursos federais quase não vão para a educação primária. O resultado é que a Constituição não é cumprida", diz Cunha. "A União é obrigada a investir 18% de seus recursos em educação. Boa parte desse dinheiro, cerca de 75%, é gasta com a rede federal, ou seja ensino superior e escolas técnicas. Desse dinheiro, 25% é gasto com aposentadorias das universidades", afirma Cunha. Professores "A Coréia, em meados dos anos 60, tinha um quadro educacional tão ruim ou pior do que o brasileiro. Em duas décadas e meia conseguiu que 95% dos jovens completassem o 2º grau", diz a professora Azuete. "Como a Coréia fez isso? Investiu na formação e na carreira do professor. Hoje, no Brasil, o magistério primário é a carreira de quem não tem horizontes", diz Azuete. Tanto Azuete como Célio Cunha concordam que a extensão da rede escolar brasileira tem falhas, mas é satisfatória. "O Brasil já conseguiu colocar cerca de 90% das crianças nas salas de aula, mas só poucas se formam e estas são despreparadas", diz Cunha. "A rede atende muita gente, mas atende muito mal. Só 20% dos que entram chegam às últimas séries do 1º grau. É muito dinheiro desperdiçado pelo Estado e pelas pessoas", afirma Azuete. Segundo ela, um exemplo de reforma é o Japão do pós-guerra. "na reconstrução, o governo selecionou os melhores alunos das universidades vocacionados para o magistério. Alguns deles viviam em internatos, para se dedicarem mais intesnsamente aos estudos", conta. A qualificação do corpo docente depende também de uma reforma na política de carreira e de salários dos professores, segundo Azuete. "No Japão, um professor ganha mais do que os técnicos de nível médio. Em geral, duas vezes e meia mais. Com isso, há procura suficiente para escolher os melhores", afirma a professora.
A taxa oficial de analfabetismo no Brasil é de 18% , ou seja, de 28 milhões de brasileiros que sabem escrever um bilhete simples, conforme o critério estabelecido pela Unesco em 1958. A situação dos 82% dos alfabetizados não é muito melhor. Como a proposta de critério para se considerar alguém alfabetizado é , hoje, que se tenha quatro anos de escolaridade , a situação nossa é mais séria. As próprias empresas não vêem possibilidade de competição com o mundo globalizado , se o país não melhorar o preparo escolar de seus trabalhadores. A falha brasileira não é tanto de quantidade quanto de qualidade. Para tanto, é necessário investir na qualificação do professor e na melhoria salarial. Se se examinar a forma como o governo federal cumpre a obrigatoriedade constitucional de investir na educação , percebe-se uma distorção muito grande : 75% dos 18% reservados para a educação são aplicados no ensino superior ; e 25% desse montante é destinado a pagamento de aposentadorias nas universidades. O ensino fundamental e médio é incumbência dos Estados e Municípios. Não é o que aconteceu com dois países , que servem de lição ao Brasil nesse campo: Coréia e Japão. O primeiro , começando nos meados de 60, conseguiu , em duas décadas, que 95% dos jovens terminassem o segundo grau. O segundo , no pós-guerra, qualificou o seu corpo docente e o remunerou significativamente. O resultado foi o boom de desenvolvimento que conhecemos. O desafio continua para nós, apesar do esforço de ampliação quantitativa do ensino fundamental.
Comparada com a potencialidade econômica do país, o nível da educação básica brasileira está em último lugar no mundo. A informação está num relatório preparado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas pela Infância), a ser divulgado este ano no Brasil. O dado é preocupante não apenas por revelar a baixa taxa de cidadania. Revela também um obstáculo para o crescimento econômico, cada vez mais dependente de mão-de-obra educada, compatível com o avanço tecnológico. A pesquisa sobre a situação educacional no mundo está incluída num relatório intitulado "The Progress of Nations" (O Progresso das Nações). Para se determinar a posição de cada nação, o Unicef comparou a taxa de evasão escolar com o Produto Interno Bruto per capita –soma de todos os bens e serviços produzidos, dividida pela população do país. Para cada país foi estipulada uma taxa de crianças que deveriam ter completado pelo menos cinco graus de escolaridade. Essa taxa corresponde ao nível da potencialidade econômica, definido pelo PIB, de cada país. Essa taxa foi então comparada com taxa real de escolarização. O nível real de escolarização foi subtraído do nível esperado. Este valor definiu a posição do país no ranking de 129 nações. Pelo potencial econômico brasileiro, pelo menos 88% das crianças matriculadas no primeiro grau deveriam concluir pelo menos a 5ª série. Com base em dados fornecidos pelo Ministério da Educação, a lista da ONU informa que apenas 39% chegam a este estágio. Com isso, o país ficou com índice negativo de 49 pontos. Acima do Brasil, está o Gabão, na África, com índice negativo de 40 pontos. Na América do Sul, nações bem mais pobres do que o Brasil exibem um índice expressivamente mais alto. O Paraguai, por exemplo, recebeu 6 pontos negativos –ou seja, está próximo do nível aceitável. O Uruguai apresenta 6 pontos positivos. Eles deveriam ter matriculados 88% das crianças até a 5ª série: sua taxa é de 94%, comparável aos países mais desenvolvidos do planeta. Na Suíça, todos os meninos (100%) continuam nas escola até esse estágio. O ministro da Educação, Murílio Hingel, admite: "Apesar de todos os esforços, nosso ensino básico é vexaminoso." Segundo as estimativas do ministério, apenas 22% dos alunos completam a 8ª série. Só 5% conseguem concluir o 1º grau sem repetir um ano. A média de permanência na escola de um aluno que completa a 8ª série é de aproximadamente 12 anos. "É um tremendo desperdício de recursos. Tivéssemos uma taxa menor, haveria menos sobrecarga de professores e salas de aula", afirma Hingel, numa opinião compartilhada pela imensa maioria dos educadores brasileiros. Ao se aprofundar a discussão do desperdício da repetência, encontra-se um antigo mito: a criança sai da escola por falta de condições econômicas da família. As mais recentes pesquisas estão demonstrando que a família valoriza a educação, vista como um mecanismo de ascensão social.Mas o aluno não consegue progredir, assimilar conhecimento e, depois de várias tentativas em meio à repetência, engrossa as estatatísticas de evasão escolar. Há uma série de fatores que confluem: os professores recebem baixos salários e são mal-treinados, a metodologia e o currículo são inadaptados, o aluno chega à sala de aula sem nenhuma base educacional da família ou da pré-escola. Até as instalações facilitam a evasão, criando um ambiente inadequado. Recente pesquisa patrocinada pelo Ministério do Planejamento mostra que, em 75% das escolas públicas, não existem banheiro ou eles não estão funcionando. O Ministério da Educação calcula que existem ameaças dificultando a melhoria das escolas. Devido a mudanças legais, facilitaram-se as aposentadorias de professores, o que fez aumentar a despesa do ministério com inativos. Até cinco anos atrás, os gastos com aposentados representavam 15% da folha de pessoal do ministério. Agora, chegam a 40%, cerca de R$ 700 milhões por ano. O ministro Hingel chega a prever o que chama de "caos": "Se mantivermos esse ritmo, num prazo de 10 anos todas as verbas do ministério serão destinadas apenas aos aposentados".
Comparada com a potencialidade econômica do país, o nível da educação básica brasileira está em último lugar no mundo , segundo relatório do Unicef. O dado é preocupante pelo que significa de exclusão de cidadania e de entrave ao desenvolvimento econômico. O cálculo se baseia na comparação da evasão escolar---levando-se em conta a expectativa de pelo menos cinco anos de escolaridade--- com a divisão do PIB pela população do país. Segundo ele, 88% das crianças brasileiras deveriam concluir pelo menos a 5ª série. Com base nos dados do Ministério da Educação , apenas 39% chegam lá , e o país ficou com 49 pontos negativos. Abaixo , portanto, do Gabão , na África, (40 pontos negativos), do Paraguai (6 pontos negativos), Uruguai ( 6 pontos positivos) , sem contar a Suíça onde 100% das crianças continuam na escola até esse estágio. A evasão escolar representa um imenso desperdício de recursos. Mais do que culpar a falta de condições econômicas da família como causa da evasão , é preciso rever os baixos salários, o mau treinamento dos professores , a metodologia , o currículo , e até má qualidade das instalações educacionais. O Ministério da Educação vê dificuldades na melhoria das escolas, pois há um comprometimento muito sério com aposentadorias precoces. E exemplifica com dados: até cinco atrás , os gastos com aposentados representavam 5% da folha de pagamento; agora, chegam a 40%. Nesse ritmo, segundo o ministro Hingel , o emperramento da máquina será total.
O brasileiro hoje morre de maneira diferente do que há 30 anos - e precisa agora tentar modificar o padrão atual da morte no país para não ter que pagar um preço alto demais ao sistema de saúde, tanto público como privado, nas próximas décadas. Passou a fase em que o grosso das mortes no país ocorria devido às chamadas doenças da pobreza, como infecções que causam diarréia em crianças. A tendência que se estabeleceu mostra que problemas como os infartos e câncer, erroneamente considerados "doenças de Primeiro Mundo", são responsáveis por um número cada vez maior de mortes. Mas os contrastes do Brasil fizeram surgir um novo padrão, que não é típico nem de Primeiro Mundo: a explosão das mortes violentas. Acidentes de trânsito matam muito, graças à convivência do Brasil civilizado e incivilizado: há bastante gente com dinheiro para comprar carros, mas não há respeito às leis básicas de trânsito. O principal responsável pelo aumento nas mortes violentas são os homicídios, em que os contrastes sociais são causa básica. O final da década passada selou a tendência: mais pessoas foram assassinadas no Estado de São Paulo do que mortas em acidentes de trânsito. Os dados fazem parte do estudo "Mudanças no perfil de saúde da população brasileira", realizado por pesquisadores do Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), ainda não publicada. De acordo com o estudo, é necessário investir agora, antes que seja tarde, na prevenção de doenças crônicas, como o câncer. A população do Brasil ainda é jovem, mas taxas de natalidade decrescentes e os avanços médicos estão fazendo surgir uma proporção de idosos cada vez maior. Se programas de prevenção não atingirem agora os adultos e idosos do ano 2020, a conta para tratar todos os infartos, derrames e tumores poderá ser alta demais. É muito mais barato investir em campanhas de alimentação saudável, que visam reduzir o colesterol no sangue, do que pagar por pontos de safena. O mesmo vale para programas contra o tabagismo, contra o álcool e a obesidade, todos fatores de risco reconhecidos para diversas doenças. O "progresso" de ter as doenças crônicas assumindo importância crescente pode ser enganoso. Por trás dele, há algo que distancia o Brasil do Primeiro Mundo. "As doenças crônicas aqui matam mais, e mais precocemente", diz Carlos Augusto Monteiro, professor titular de nutrição da Faculdade de Saúde Pública e coordenador do estudo no Nupens. Um brasileiro de 60 anos, por exemplo, tem seis vezes mais chance de morrer se sofrer um derrame do que um americano. Infartos causam quase cinco vezes mais mortes em brasileiras da mesma idade do que e argentinas. Parte da culpa é sem dúvida do atendimento médico, mais precário aqui. Mas há uma outra explicação, desmistificadora. O fato de os países ricos terem controlado as doenças infecciosas fez as crônicas, de tratamento mais difícil, assumirem importância maior. Isso dá a impressão de que os fatores de risco das doenças crônicas estão associados apenas ao estilo de vida existente no Primeiro Mundo. Na verdade, os pobres são os que correm mais riscos de desenvolverem essas doenças - assim como as infecciosas. A obesidade, por exemplo, se disseminou mais rapidamente entre mulheres brasileiras com renda mensal entre US$ 30 e US$ 90 do que entre as que têm renda maior. Uma pesquisa realizada em Porto Alegre, divulgada pelo Banco Mundial, mostra que pessoas sem escolaridade (um indicador que sugere pobreza) têm cerca de cinco vezes mais chance de terem pressão arterial elevada, o que predispõe a infartos, do que pessoas com instrução superior. Da mesma maneira, analfabetos são mais propensos a fumar, consumir àlcool, viver de maneira sedentária e serem obesos. A baixa instrução implica menor esclarecimento médico e menos cuidado com a saúde. Algo que programas de prevenção - que comprovadamente apresentam excelente relação custo/benefício - devem atacar de frente.
As causas de morte no Brasil atual são diferentes das de 30 anos atrás. As ocorrências atribuídas à pobreza, como diarréias , deixaram de ser as mais freqüentes. Priorizamos, cada vez mais, as chamadas doenças do Primeiro Mundo: câncer e infarto. Mas , como somos do Terceiro Mundo, aliamos o atraso com a modernidade: temos muito mais carros , que causam muitas mortes por causa da incivilidade. Porém, a causa maior de mortes são os homicídios, fruto principalmente da nossa desigualdade socioeconômica. Um estudo da Nupens/USP “Mudanças no perfil de saúde da população brasileira” mostra a urgência de prevenir as doenças crônicas entre nós , como o câncer e o infarto. Uma alimentação saudável, o controle do tabagismo , do álcool e da obesidade constituem formas muito mais baratas de evitá-las. Entre nós, é perigoso modernizar com doenças do Primeiro Mundo, porque aqui se morre muito mais facilmente por causa de um câncer ou infarto do que nos Estados Unidos, quer por não termos a mesma presteza de atendimento médico, quer porque temos mais pobres --- e essas doenças, apesar da crença em contrário, atingem mais os mais pobres. Aliado à pobreza, vem o analfabetismo , que, segundo pesquisa realizada em Porto Alegre, leva as pessoas a terem cinco vezes mais chance de pressão arterial elevada, antecâmara do infarto, do que as de instrução superior. Também os analfabetos são mais propensos ao fumo, ao álcool, ao sedentarismo e à obesidade.
SEUL - As Coréias do Sul e do Norte puseram ontem mais lenha na fogueira diplomática que começou a queimar há quatro dias, quando os norte-coreanos iniciaram suas incursões militares na localidade de Panmunjom, na zona desmilitarizada entre os dois países: Na sexta-feira o exército do Norte mandou 100 soldados à região; no sábado, 200; e no domingo, 180. O presidente sul-coreano, Kim Young-sam, alertou Pionguiangue que as "inconseqüentes provocações" não irão mais ser toleradas, aumentou o alerta militar e deu oprens de atirar se houver nova incursão. Os norte-coreanos acusaram seus vizinhos de estarem preparando uma invasão a seu país, com a ajuda militar dos Estados Unidos. Violação - Os sul-coreanos tentaram ontem angariar o apoio mundial à sua denúncia contra a Coréia do Norte pela violação da trégua acertada em 1953, que acabou com a guerra entre os dois países. O porta-voz do ministro do Exterior, Suh Dae-won, disse que a Coréia do Sul pediu a 30 países, entre eles Estados Unidos, China, Japão e Rússia, para que pressionassem Pionguiangue a respeitar o armistício de mais de 40 anos. Segundo indicou Suh, o país pensa até em recorrer ao Conselho de Segurança das Nações Unidas contra as agressões. O ministro da Defesa sul-coreano, Lee Yang-ho, disse ontem que as tropas do país, apoiadas por 37.000 soldados americanos, estariam prontas para responder a qualquer agressão militar de seus vizinhos. Ele revelou ter se reunido com os chefes militares do país para decidir como agir frente às provocações. Segundo a agência Yonhap, as tropas foram instruídas ontem para atirar em qualquer soldado norte-coreano que cruzasse a partir de ontem a fronteira com a zona desmilitarizada. O Comando das Nações Unidas considerou a invasão norte-coreana de domingo uma "violação significativa" do armistício, mas agregou que não havia motivo para um alarme. A mesma opinião é partilhada pelo governo americano. Mesmo assim, os presidentes Kim Young-sam e Bill Clinton irão se reunir na próxima terça-feira, na cidade sul-coreana de Cheju, para discutir qual a melhor atitute frente às movimentações militares norte-coreanas. Um editorial no jornal do Partido Comunista da Coréia do Norte, Rodong Sinmun dizia ontem que os vizinhos do sul enfrentariam um "desastre irrevogável" caso ignorassem os alertas de Pionguiangue sobre o que considerava ser "movimentações beligerantes". Os sul-coreanos realizaram exercícios militares, do dia 28 do mês passado ao último dia 2, reunindo as três Forças Armadas. Além disso, Seul e Washington examinam a possibilidade de reforçar a vigilância sobre a Coréia do Norte, principalmente com aviões-radar. Tratado de paz - Muitos analistas acreditam que Pionguiangue espera, com suas supostas provocações, obrigar os americanos a iniciar conversações bilaterais. O objetivo seria substituir o velho acordo do armistício por um tratado de paz negociado em separado. Assim, os norte-coreanos passariam por cima do governo de Seul, que consideram um "marionete". "Eles estão apenas pondo um ponto de exclamação na sua afirmação, feita ao longo dos últimos dois anos, de que o armistício está morto", analisou Jim Coles, porta-voz do Comando das Nações Unidas.
A penetração de tropas norte-coreanas numa região desmilitarizada entre as duas Coréias reesquentou o clima diplomático dos dois países , em paz desde o armistício de 1953, que selou o fim da guerra entre eles. A Coréia do Sul reagiu e ameaçou contra-atacar se as provocações continuassem. Tentou também angariar apoio de 30 países ---entre eles Estados Unidos, China , Japão e Rússia--- , a fim de que eles pressionassem a Coréia do Norte a respeitar a trégua. O ministro da Defesa sul-coreano informou que suas tropas, apoiadas por 37.000 soldados americanos, responderiam a qualquer ataque do vizinho. O Comando das Nações Unidas e o governo americano reconheceram a violação, mas não vêem motivo para alarme. Mesmo assim, o presidente sul-coreano e Bill Clinton se reunirão para discutirem a melhor atitude a ser tomada. Por sua vez, um editorial norte-coreano contrapôs sérias ameaças , se os sul-coreanos continuassem com movimentações militares. Muitos analistas vêem a atitude dos norte-coreanos como uma forma de ser revisto o tratado de paz entre os dois países , e conseguirem um outro em separado , com o qual se desvinculariam de compromissos com Seul.
TÓQUIO - O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, formalizou ontem uma parceria militar mais ativa com o Japão, que passará a partilhar com os EUA a responsabilidade pela defesa do Pacífico. De acordo com analistas políticos, o acordo pode abrir caminho para que o Japão participe no futuro de operações militares no exterior (a Constituição do país só permite que as Forças Armadas sejam usadas em defesa própria). Clinton afirmou que os americanos vão continuar no Pacífico, ressaltando que a aliança entre Japão e EUA é uma peça chave para a paz na região. "A parceria de segurança é fundamental para manter a paz no Pacífico, especialmente nessa época de profundas mudanças na região", disse o presidente americano, durante uma entrevista à imprensa concedida ao lado do primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto. "O primeiro-ministro e eu concordamos firmemente em que, como duas das democracias mais fortes e economias mais importantes do mundo, Japão e Estados Unidos têm uma responsabilidade especial de liderança", acrescentou Clinton. Soldados - O acordo entre os dois países prevê a permanência da força americana na Ásia - 100 mil soldados, dos quais 47 mil estão no Japão. Os dois países terão maior cooperação em áreas como inteligência e transferência de tecnologia militar - estão previstos o desenvolvimento de novas armas, como os aviões F-2, e o estudo de um novo sistema de defesa de mísseis. Além disso, Japão e Estados Unidos se comprometem a fornecer munição e serviços em tempos de paz. Para que possa honrar este último compromisso, o Japão fará uma exceção à proibição de exportar armas e componentes bélicos, adotada em 1967. Uma outra declaração, assinada separadamente, amplia a cooperação em temas globais, incluindo o combate à falta de alimentos, ao terrorismo, a doenças infecciosas e a desastres naturais. Para analistas políticos, o acordo firmado ontem muda substancialmente a relação entre EUA e Japão. "Até agora, os papéis de segurança dos dois países eram muito claros - o Japão era um escudo protegendo-se apenas a si próprio e os Estados Unidos eram a espada", comparou Tetsuo Meda, professor de política da Universidade Internacional de Tóquio, para a agência Reuters. "Mas as declarações de hoje [ontem] mostram que esses papéis estão superados e que o Japão pode ser levado a fornecer algum tipo de espada." Restrição - O texto da declaração evita cuidadosamente qualquer sugestão de que os Estados Unidos estejam pedindo ao Japão para revisar sua Constituição de 1947, compreensivelmente pacifista depois do passado militarista do país, exacerbado durante a Segunda Guerra. A Carta japonesa proíbe o uso de meios militares para resolver disputas internacionais - o que vem sendo interpretado, há vários e sucessivos governos, como uma proibição a integrar forças de paz em outros países. As boas vindas ao presidente americano, que viaja acompanhado da mulher, Hillary Clinton, foram dados pelo imperador Akihito e pela imperatriz Michiko. Clinton chegou a Tóquio na terça-feira. Hoje de manhã discursa no Parlamento, onde deverá explicar o acordo assinado ontem, e à tarde visita uma sucursal da montadora de automóveis americana Chrysler. Depois, parte para São Petersburgo e Moscou, onde participará da cúpula do G-7 (grupo dos sete países mais ricos). Durante a estadia de Clinton em Tóquio, o trabalho da imprensa foi bastante restringido, para evitar o registro de situações como o que envolveu o então presidente George Bush, em 1992 - que vomitou durante uma recepção.
O presidente norte-americano, Bill Clinton, e o primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto, assinaram um acordo militar , com o que o Japão se compromete com a defesa do Pacífico. Esse acordo pode levar o Japão a operações militares no exterior , contrariando a sua Constituição , que estabelece que suas Forças Armadas sejam usadas em defesa própria. O trato prevê a permanência da força armada americana na Ásia , a cooperação em tecnologia militar , a produção de armas de ataque e defesa. Uma outra declaração, assinada separadamente, amplia a cooperação em temas como combate fome, ao terrorismo , a doenças infecciosas e a desastres naturais. Os analistas políticos vêem no acordo uma mudança substancial na relação entre os dois países. Apesar das evidências, o texto evita explicitar que os Estados Unidos querem que o Japão mude sua Constituição ----fundamentalmente pacifista desde o fim da guerra. A agenda de viagem do presidente americano, que está acompanhado da esposa, Hillary Clinton, inclui as boas-vindas do imperador e da imperatriz, uma visita ao Parlamento, onde explicará o acordo assinado e uma à montadora americana Chrysler.
BEIRUTE - O confronto entre Israel e a guerrilha fundamentalista do Hisbolá (Partido de Deus) completou ontem oito dias de forma sangrenta. Bombardeios da artilharia israelense contra o Sul do Líbano provocaram dois massacres: o primeiro, em Nabatié, matou 10 pessoas, entre elas um bebê de três dias. O segundo, horas depois, atingiu uma base das Nações Unidas transformada em acampamento em Caná, nos arredores de Tiro, matando pelo menos 100 pessoas e ferindo mais de 190, quase todos civis, a maioria mulheres e crianças, que se haviam refugiado no local para escapar dos bombardeios israelenses. O bombardeio israelense aconteceu em resposta a um ataque com foguetes Katyusha, lançados pelo Hisbolá de uma posição a 300 metros da base. A rota dos foguetes foi refeita por radares israelenses, e 15 minutos depois Israel bombardeou em resposta, errando o alvo. O Hisbolá negou que tivesse lançado foguetes de posições próximas à base da Força Provisória das Nações Unidas no Líbano (Unifil, das iniciais em inglês), acusando Israel, num comunicado divulgado em Beirute, de "espalhar boatos falsos". Mas o ataque do Hisbolá foi confirmado por um porta-voz das Nações Unidas. O massacre deixou indignada a população, arrasados até mesmo fotógrafos e cinegrafistas acostumados a registrar cenas semelhantes, e provocou imediata e vigorosa reação internacional. Parentes da vítimas gritavam ao lado dos corpos, culpando Israel mas também acusando o Hisbolá, por ter atirado de local tão próximo ao campo sabendo que Israel costuma rastrear os ataques. O primeiro-ministro israelense, Shimon Peres, disse lamentar o bombardeio, mas responsabilizou o Hisbolá pelo episódio. "O único culpado é o Hisbolá, e se os sírios e os libaneses não impedirem ele vai provocar uma tragédia no Líbano", afirmou o primeiro-ministro, durante entrevista coletiva à imprensa, em Tel Aviv. Israel acusa o Líbano e a Síria de serem coniventes com os terroristas instalados em território libanês, de onde atacam constantemente alvos civis no Estado judeu. Em entrevista à televisão francesa Antenne 2, o primeiro-ministro libanês, Rafic Hariri, declarou-se "verdadeiramente comovido" pelas declarações de Peres, e desafiou o premier israelense a mostrar "coragem", reconhecendo que o bombardeio foi "um erro". Carnificina - Quinhentos civis libaneses se haviam refugiado no campo para fugir dos bombardeios israelenses ao Sul do Líbano. O repórter Brent Sadler, da rede de TV a cabo CNN, falou de "cenas terríveis de carnificina". Sadler, que esteve no local, contou que muitos fotógrafos e cinegrafistas baixaram as câmeras e começaram a chorar diante dos corpos mutilados de homens, mulheres e crianças. Os feridos, entre eles alguns soldados da ONU, foram levados para hospitais de Tiro. Antes do bombardeio contra Caná, um ataque da aviação israelense contra Nabatié, também no Sul do Líbano, destruiu uma casa, matando 10 pessoas, entre elas uma mãe e sete filhos. Uma das crianças era um bebê, de apenas três dias. O pai, em peregrinação a Meca, não chegou a conhecer o filho. Apesar do choque provocado pela morte de tantos civis, Israel afirmou que pretende continuar os bombardeios. "Acredito que a operação vá continuar, pelo menos por alguns dias, mas é impossível fixar um prazo. Pode levar uma semana ou 10 dias", disse o ministro do Exterior, Ehud Barak, ex-comandante militar, à rádio do exército israelense. Alvos - Um porta-voz do governo israelense, Uri Dromi, reiterou que Israel não tem outra escolha, pois a prioridade é interromper os ataques de Katyushas contra o país. Dromi afirmou que as operações parariam se foguetes parassem de cair. "Mas o Hisbolá aumentou os ataques, em vez de cessá-los", afirmou. Os israelenses acusam o Hisbolá de se esconder atrás de civis. Questionado por um repórter da CNN sobre o ataque a Nabatié, o chanceler Barak disse que Israel bombardeou a casa onde morreram vários civis porque momentos antes aviões israelenses tinham sido alvejados exatamente daquele local. Quando o repórter perguntou a Barak sobre a promessa de não atacar o Hisbolá se houvesse perigo de matar civis, Barak respondeu que o piloto que bombardeou a casa não podia saber que havia civis lá. Shimon Peres, que se reuniu com o presidente palestino Yasser Arafat ontem, reagiu ao ataque de Nabatié (o outro não havia ocorrido ainda) dizendo que pensava que a cidade estava vazia, que todos foram instruídos a deixar suas casas. Mas os libaneses responderam a isso dizendo que não tinham para onde ir com seus filhos e perguntaram que direito Peres teria de mandá-los sair de suas casas. O primeiro-ministro israelense disse que está disposto a aceitar o cessar-fogo proposto pelos EUA se o Hisbolá se comprometer a parar de atirar contra o Norte de Israel. Em entrevista à CNN, de Damasco, na Síria, o primeiro-ministro libanês, Rafic Hariri, acusou Israel de obstruir as negociações. "Não é o Líbano que está recusando uma solução política, é Peres", disse Hariri. "Veja o que está acontecendo. Ele está matando inocentes e deixando o Hisbolá intacto", afirmou. Os ataques de Israel foram iniciados há nove dias, depois que foguetes Katyusha lançados pelo Hisbolá feriram 36 civis na cidade israelense de Kiriat Shmona. Desde então, Israel vem bombardeando sistematicamente o Sul do Líbano, sem ter conseguido impingir grandes danos ao grupo terrorista - as baixas são praticamente todas civis.
Em resposta aos foguetes Katyusha do grupo fundamentalista Hisbolá , Israel bombardeou o Sul do Líbano, matando mais de 100 pessoas e ferindo cerca de 190 --- a maioria mulheres e crianças, que ali estavam refugiadas numa base. O massacre deixou indignada a população , e os repórteres e cinegrafistas, apesar de acostumados a tais cenas ficaram arrasados. A reação internacional veio rápida e vigorosa. A auto-defesa dos responsáveis pode ser resumida no simplismo irresponsável das brigas de moleques: ---Foi você! / ---Não, foi você! / ---Você começou primeiro! / ---Não, foi você! Apesar dos lamentos oficiais pelo bombardeio, um porta-voz do governo israelense disse que o país não tem outro jeito, pois a prioridade é a interrupção dos ataques dos foguetes Katyushas. Em nenhum momento , as declarações oficiais priorizaram a vida humana --- de civis inocentes.
ASSUNÇÃO - Pressionado pela população e pela oposição parlamentar, o presidente do Paraguai, Juan Carlos Wasmosy, tentava ontem encontrar uma maneira de impedir a posse do general golpista Lino César Oviedo no Ministério da Defesa, enquanto vinham à tona os bastidores da crise que explodiu na segunda-feira, quando Oviedo se rebelou contra a decisão de Wasmosy de demiti-lo da chefia do Exército. Segundo foi revelado ontem em Assunção, há três dias Oviedo ameaçou explodir a residência presidencial e assassinar a família de Wasmosy caso o presidente insistisse em sua demissão. "Se ele não renunciar até às duas da manhã, vou explodir o palácio", avisou o general, à meia-noite de segunda-feira. "Prefiro a renúncia e até a morte a um derramamento de sangue", respondeu Wasmosy que, diante das pressões do general, chegou a escrever que pediria licença da presidência. Um blefe em resposta aos blefes do virulento e carismático Oviedo que, por aqui, entre diplomatas estrangeiros, tem fama de narcotraficante, entre militares a marca de competente e na boca do povo provoca insinuações maledicentes por sua excessiva paixão em desfilar de César no carnaval. "Sou um guerreiro guarani", definiu-se Oviedo ontem. Wasmosy só não desistiu da presidência, que exerce há três anos, porque recebeu respaldo internacional, do papa João Paulo II ao presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos. Ao lado de pelo menos outras 60 autoridades mundiais, eles formaram a rede internacional que sufocou o golpe. Wasmosy contou ainda com decisiva colaboração dos colegas do Mercosul. Os embaixadores do Brasil, Márcio Dias, e da Argentina, Nestor Auad, participaram diretamente das negociações entre Wasmosy e Oviedo. Impasse - Ontem, o país viveu um dia de impasse. O acordo feito terça-feira entre Wasmosy e Oviedo - pelo qual o general deixaria a chefia do Exército, mas seria nomeado ministro da Defesa - fazia água, rejeitado pela população que, segunda-feira à noite, tinha saído à rua para defender a democracia. Numa cerimônia da qual Wasmosy participou, Oviedo deixou a chefia do Exército e passou para a reserva, mas sua posse no Ministério da Defesa foi adiada. Os comandantes da Marinha, almirante López Moreira, e da Aeronaútica, brigadeiro César Cramer, ainda tentavam convencer Oviedoa desistir do ministério. E poucos paraguaios - muitos voltaram a xingar ontem o presidente de covarde e hijo de p... - conheciam os bastidores da ameaça de golpe militar e das negociações entre Wasmosy e Oviedo, que duraram 17 horas. Temendo os grampos, os interlocutores entre o presidente e o general golppista se recusavam a usar telefones e passaram a madrugada de segunda para terça-feira entre a casa de Wasmosy, uma improvisada fortaleza de negociações, e o quartel de cavalaria, onde o general, que insistia em desacatar a ordem do presidente e não abria mão do comando do Exército, devolvia seus explosivos recados. "Que ele rasgue o decreto que me afasta do governo", insistia. Temendo os atentados, Wasmosy mandou que até os soldados deixassem o palácio presidencial e foi dormir fora de casa com três dos quatro filhos. A mulher, Estela, está nos Estados Unidos.
Com o seu conhecido rompante, o general Lino César Oviedo , do Paraguai , ameaça explodir o palácio e matar a família do presidente Juan Carlos Wasmosy, caso ele insista na sua demissão da chefia do Exército. De acordo com a negociação, o general sairia do comando do Exército , mas seria nomeado ministro da Defesa. Ele passou para a reserva, porém a posse como ministro foi adiada. Daí a ameaça ao presidente, que foi instado a se afastar do cargo. Wasmosy só não desistiu , porque recebeu apoio internacional, desde o papa João Paulo II ao presidente Bill Clinton, além de pelos 60 outras autoridades mundiais. Além dessa demonstração de apoio , o presidente conta com o trunfo de não haver consenso sobre a figura do general: é visto como narcotraficante por diplomáticos estrangeiros, como competente pelos militares e como cultor excessivo da própria figura pelo povo. Os interlocutores entre o general e o presidente temem os grupos e evitam usar os telefones . As conversações se dão na casa de Wasmosy e no quartel da cavalaria , onde Oviedo continua desacatando as ordens.
PEQUIM - Os presidentes da China, Jiang Zemin, e da Rússia, Boris Yeltsin, anunciaram ontem em Pequim uma parceria estratégica, definida por Yeltsin como um "modelo de relações para outros países". Num comunicado conjunto, os chefes de Estado alertaram contra nações que tentam dominar o mundo pós-Guerra Fria, recado claro aos Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar ocidental). Os chanceleres dos dois países frisaram, no entanto, que a nova parceria não é uma aliança destinada a fazer frente a outras potências. Além do comunicado conjunto, Yeltsin e Jiang assinaram 13 acordos. Entre eles, um de cooperação para desenvolvimento de tecnologia militar e maior intercâmbio entre suas Forças Armadas. Também estabeleceram uma linha direta de telefone ligando os dois gabinetes. Os dois presidentes disseram ainda que pretendem assinar um tratado para retirar seus soldados da fronteira comum. Yeltsin disse à imprensa que a China vai aderir às conversações do G-7 (grupo dos sete países mais ricos) e Rússia sobre o banimento de testes nucleares. Mas de acordo com um porta-voz do governo chinês, a história não é bem assim. "Acho que é preciso haver mais estudos e discussões", disse o porta-voz Shen Guofang. A China insiste na permissão de se realizar explosões nucleares pacíficas depois da assinatura do tratado. Hegemonia - A parceria entre China e Rússia foi estabelecida um dia depois da divulgação, em Londres, do relatório anual do Instituto Internacional de Estudos Estratégico (IIEE). O relatório destaca a volta da diplomacia da força, usada principalmente pelos Estados Unidos, potência hegemônica no mundo depois do colapso do comunismo. (Apesar de apontar também, como exemplo desta diplomacia, as manobras militares da China no Estreito de Formosa.) Pressões - No comunicado, Jiang e Yeltsin dizem que "hegemonia, poderes políticos e repetida imposição de pressões sobre outros países continuam a ocorrer. A política de blocos tomou espaço de outras manifestações". Em resposta, a China diz considerar a campanha militar russa na Chechênia um assunto interno; a Rússia assume a mesma posição em relação a Formosa e ao Tibete. A questão da expansão da Otan para os países da Europa Central e do Leste, a que Yeltsin se opõe, também foi tratada pelos dois chefes de Estado. "No que diz respeito à ampliação da Otan, o presidente Jiang Zemin decididamente compartilha da opinião da Rússia de que a expansão da Otan em direção às suas fronteiras é inadmissível", disse Yeltsin. Para diplomatas, o acordo marca o ápice dos laços entre Pequim e Moscou desde que a aliança sino-soviética desmoronou nos anos 60, em meio à rivalidade pela supremacia do mundo comunista e a conflitos de fronteira. "Queremos que as relações entre Rússia e China amadureçam de modo que possam resistir a qualquer reviravolta", disse Yeltsin. "As relações de amizade sino-russas entraram numa nova era", confirmou Jiang. Yeltsin, que termina hoje a visita de três dias à China, não perdeu a oportunidade de alfinetar seus adversários comunistas. Sem nenhum constrangimento, o presidente russo disse para uma platéia formada pela elite comunista chinesa que uma vitória comunista nas eleições de junho na Rússia seria uma tragédia para o país.
Os presidentes da China e da Rússia, Jiang Zemin e Boris Yeltsin, firmaram uma parceria estratégica, designada por Yeltsin com um “modelo de relações para outros países”. Num comunicado conjunto , previnem as nações que tentam dominar o mundo pós-Guerra Fria--- Estados Unidos e aliados do Otan. Além desse, assinaram 13 acordos , entre os quais, um de cooperação para desenvolvimento de tecnologia militar e maior intercâmbio entre as suas Forças Armadas. Estabeleceram, também, uma ligação telefônica direta entre os dois gabinetes , e pretendem retirar as tropas da fronteira comum. O retorno da diplomacia da força, principalmente por parte dos Estados Unidos, certamente tem a ver com a decisão dos dois países. No clima do acordo, China e Rússia esquecem mutuamente os conflitos político-militares internos. E na direção dos próprios interesses, firmam posição contra a expansão da Otan para os países da Europa Central e do Leste. Para os diplomatas , o acordo representa o ponto alto das relações entre os dois países , desde o desmoronamento da aliança entre eles, provocado pelos conflitos de fronteira e pela vaidade de definir a supremacia no mundo comunista. Apesar dos votos de amor eterno , Yeltsin , no seu discurso a uma platéia formada pela elite comunista chinesa, disse que uma vitória comunista na Rússia nas próximas eleições seria uma tragédia.
PARIS - Está em ponto de ebulição na França a polêmica provocada pelo apoio do Abade Pierre, considerado o homem mais popular do país, a seu velho amigo o filósofo Roger Garaudy - ex-comunista e ex-católico convertido ao islamismo - em torno das teses de revisão do Holocausto que este sustenta em seu livro Os Mitos fundadores da política israelense. A simpatia hipotecada pelo sacerdote ao polemista - e não necessariamente a todo o conteúdo de suas teses - repercutiu mal no momento em que Garaudy é processado com base na lei que pune a negação de crimes contra a humanidade, e semeou a confusão na comunidade judaica e na opinião pública. Ânimos - O tema não podia ser mais delicado, e os ânimos, mais facilmente exaltáveis. Militante islâmico, Garaudy considera no livro que genocídio e holocausto são palavras exageradas para os "pogroms" nazistas; propõe "uma história crítica dos crimes hitleristas"; e assume posição combatente contra "o dogma dos seis milhões de judeus exterminados", que segundo ele é usado para justificar os excessos da política de Israel na Palestina e para deixar o Estado judeu "acima das leis internacionais". Garaudy apresenta os "historiadores críticos" - ou negacionistas - como pesquisadores perseguidos cujos trabalhos não foram contestados cientificamente. E se aventura numa tentativa de relativizar o horror: segundo ele, gente de outros povos foi morta também pelos nazistas e nem todos os judeus morreram em câmaras de gás, mas também de fome, em marcha forçada ou a bala. A questão poderia ser: aonde semelhante linha de pensamento levaria? Mas o fato é que, relativização, revisão ou negação, o que escreve Garaudy é passível, na França, das penas da lei Gayssot, que no seu caso foi invocada pelo Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos. O pensador foi indiciado e poderá passar um ano na cadeia. Onde a porca torceu o rabo, no entanto, foi na intervenção do Abade Pierre, o homem que espalhou pelo mundo as Comunidades de Emaús, que ensinou os franceses a pensarem mais nos pobres, que renunciou à fortuna pessoal, ajudou judeus a escaparem para a Suíça durante a Segunda Guerra e é membro da Liga Contra o Racismo e o Anti-semitismo (Licra). Calúnia - Também simpatizante da causa palestina, o sacerdote de 83 anos foi solicitado por Garaudy a sair em sua defesa, como outros amigos. Começou por considerar "uma calúnia confundir teu livro com as teses revisionistas". Mais adiante, reconheceu não ter lido o livro, mas um resumo, insistindo porém em argumentos como o do número de mortos no campo de concentração de Auschwitz, onde se afirmou inicialmente que houve 4 milhões de vítimas, número corrigido posteriormente para 1 milhão; mesmo considerando que "a abominação é a mesma", o abade sustenta haver aí uma demonstração de que o tema deve ser objeto de investigação imparcial. O Abade Pierre foi chamado a explicações na Liga contra o Racismo. Recuou, disse que não entra no mérito do livro nem apóia suas teses, mas repisou o argumento da integridade intelectual de Garaudy e da necessidade de debater livremente este tema. Os jornais estão cheios de contestações, respostas e desafios ao abade. E ontem, enquanto a hierarquia católica mantém cauteloso silêncio, ele voltou à carga em entrevista ao Libération, dizendo-se satisfeito com a polêmica: "Muita gente me tem dito obrigado pela coragem de questionar um tabu. É preciso parar de chamar de anti-semita quem questiona a história do Holocausto. Não nos deixaremos mais chamar de antijudeus ou anti-semitas por dizer que um judeu canta mal."
Está quente na França a polêmica provocada pelo apoio do Abade Pierre ao filósofo Roger Garaudy, convertido ao islamismo, que , no seu livro “Os mitos fundadores da política israelense”, propõe uma revisão do holocausto judeu , considerado por ele uma forma de justificar os excessos israelenses contra os palestinos. O filósofo vê exagero na atribuição a Hitler dos crimes contra os judeus , quer na quantidade quer na qualidade. Mesmo não inocentando o ditador, ele é passível de infringir a lei Gayssot, invocada pelo Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos para indiciá-lo. A questão se acende mais, porque o Abade, de 83 anos, é conhecido pelo seu desapego aos bens, por ajudar judeus a escapar, por ser membro da Liga Contra o Racismo e o Anti-Semitismo . Mas também é simpatizante da causa palestina , e, por isso, Garaudy pediu que o defendesse. E na defesa, mesmo dizendo só ter lido um resumo do livro , insiste em argumentos que põem em cheque a quantidade de judeus mortos. Chamado a dar explicações na Liga contra o Racismo, o abade recuou dizendo que não entrava no mérito do livro e nem apoiava as suas teses, mas reforçou sua convicção na integridade intelectual de Garaudy e a necessidade de um debate despreconcebido sobre o tema.
SANTO DOMINGO - Equipes de socorro retiraram ontem das águas do Atlântico 79 corpos dos 189 ocupantes de um Boeing 757-200 que caiu no mar por volta de meia-noite de terça-feira, cinco minutos depois de ter levantado vôo do centro turístico de Porto Plata, na República Dominicana. O aparelho, da empresa turca Birgen-Air, fretado pela agência alemã Oeger Tours, transportava 176 passageiros, todos alemães, com uma possível exceção de dois deles, que seriam poloneses. Levava também 13 tripulantes, 11 deles turcos, e duas aeromoças dominicanas, as irmãs Francis e Ibeyse Ramos. Segundo a Força Aérea Dominicana, que está sendo ajudada nos trabalhos de resgate por unidades da Guarda Costeira dos Estados Unidos, nada indica que tenham havido sobreviventes. O avião caiu numa área infestada de tubarões, onde ontem as ondas se elevavam a mais de três metros. Pequenos pedaços do aparelho foram vistos flutuando em meio a uma grande mancha de combustível e óleo. Helicópteros e embarcações particulares também participam da busca aos corpos. Por falta de lugar suficiente no necrotério da cidade, eles estão sendo depositados em caminhões frigoríferos, para posterior identificação. Comoção - Porto Plata é um balneário dominicano muito procurado por turistas alemães. O Boeing fazia um vôo charter com destino a Berlim, com escala em Frankfurt. No aeroporto de Schoenefelf, em Berlim, os parentes dos passageiros, desesperados com as notícias do acidente e a impossibilidade de haver sobreviventes, tiveram à sua disposição uma sala especial onde, isolados da imprensa e dos curiosos, eram atendidos por médicos, psicólogos e religiosos. Em Hamburgo, o proprietário da agência de viagens Oeger Tours, Vural Oeger, disse estar informado de que as condições meteorológicas eram extremamente desfavoráveis no momento da decolagem, e que o aparelho "foi muito provavelmente atingido por um raio", que paralisou suas duas turbinas. Em Frankfurt, Oliver Will, diretor da associação Cockpit (Cabine), de aeronautas alemães, afirmou que o acidente "é um exemplo típico de linhas aéreas exóticas que entram nos mercados alemães sem que estes conheçam seus padrões de segurança". Riscos - De acordo com Will, as pessoas devem ser sempre lembradas de que a passagem mais barata envolve algum risco, pois os preços reduzidos são geralmente uma decorrência de cortes nas revisões dos aparelhos e redução do tempo de treinamento das tripulações. O representante da Cockpit recusou-se a especular sobre as causas do acidente, mas rejeitou a hipótese de este ter sido conseqüência de um raio. "Para um avião desse tamanho não existe mau tempo", disse. Investigações - Depois de ter emitido uma nota segundo o qual o Boeing não estava segurado - o que significa que não tinha condições de vôo -, o Ministério dos Transportes da Alemanha retificou essa informação, quando a Oeger Tours apresentou as apólices de seguro. Ainda assim, o aparelho não tinha permissão para entrar no espaço aéreo alemão, acrescentou o Ministério. Técnicos alemães partiram ontem para a República Dominicana, para participar das investigações sobre as causas do acidente, um dos maiores da década. Em 20 de dezembro do ano passado, um avião do mesmo tipo, Boeing 757, da empresa American Airlines, caiu na Colômbia, causando a morte de 161 pessoas. Em 1994, a queda de um Airbus da China Airlines, de Formosa, causou 264 mortes nas imediações do aeroporto de Nagóia, no Japão. Houve sete sobreviventes.
Um Boeing 757-200 da empresa turca Birgen-Air, fretado pela agência alemã Oeger Tours, caiu com 176 passageiros , na maioria alemães, logo depois de ter decolado do centro turístico Porto Plata na República Dominicana. Segundo a Força Aérea Dominicana , que prestava socorro ajudada pela Guarda Costeira americana, não deve ter havido sobreviventes . A região da queda é infestada de tubarões e , no dia, as ondas se elevavam a mais de três metros. por falta de espaço no necrotério Diferentemente de Porto Plata, onde os corpos eram depositados provisoriamente em caminhões frigoríferos, no aeroporto Schoenefelf, em Berlim, os parentes das vítimas esperavam notícias atendidos por médicos , psicólogos e religiosos. O proprietário da agência que fretou o avião informou que , na hora da decolagem, o tempo estava muito ruim e que , possivelmente, um raio tenha atingido a aeronave. Já o diretor da associação de aeronautas alemães , sutilmente, censurou a entrada de linhas aéreas pouco confiáveis no mercado alemão, alertou para o risco de viagens baratas e descartou a possibilidade de um raio ter afetado um avião daquele tamanho. O Ministério de Transportes alemão retificou uma primeira notícia segundo a qual o Boeing não estava segurado. Mesmo com o seguro, ele não poderia entrar na Alemanha. Técnicos alemães partiram para a República Dominicana , a fim de participar nas investigações.
ROMA - O rigor da polícia do aeroporto internacional de Roma não impediu que Silvana Saturnina Santos - uma alagoana esperta - chegasse a Brescia, perto de Milão, no norte da Itália, para apresentar o pequeno Lucas, de oito meses, ao pai italiano de dois de seus filhos. Depois de permanecer retida e isolada por quase 30 horas numa sala do posto policial do Leonardo da Vinci, aeroporto romano de Fiumicino, Silvana, 29 anos, artesã e empregada num escritório de advocacia em Caraguatatuba, São Paulo, acompanhada de suas três crianças - Sílvia, 11 anos, filha de um pai brasileiro; Bárbara, 5, e Lucas, 8 meses, filhos de Davide Parziale, que conheceu há 6 anos quando o italiano trabalhava como pintor na cidade paulista, foi finalmente autorizada a terminar sua aventura em Brescia, como hóspede da família Parziale. As 30 horas mais longas e angustiantes da vida de Silvana - como ela qualificou sua detenção no aeroporto de Roma - começaram às 7 horas de domingo, quando se apresentou, com os três filhos, ao controle de passaportes da polícia italiana. A presença de uma jovem mulata, com crianças em idades de adoção, foi suficiente para tornar os policiais romanos suspeitosos, exigentes e intratáveis. Esquecendo que a Itália não exige vistos de entrada nos passaportes dos cidadãos brasileiros, sem levar em conta o fato de que Silvana possuía quatro passagens com data marcada (o próximo 8 maio) de volta ao Brasil e uma documentação que confirmava a paternidade italiana de Bárbara e Lucas, os policiais insistiam numa única exigência: que a brasileira exibisse US$ 1.000, quantia que consideravam indispensável para as despesas de uma breve estadia na Itália. Em vão, Silvana tentou explicar, em português, que viajava pela primeira vez à Itália a convite do pai e dos avós italianos de Bárbara e Lucas, que seria hospedada na casa deles de Brescia. Nenhum dos policiais quis comunicar-se com os números de telefones da família Parziale. "O mais nervoso deles não queria perder tempo em conversas, gritando para que seus colegas expulsassem logo questa puttana (esta puta) da Itália", Silvana contou mais tarde. A alagoana começou a vencer sua guerra contra a intolerância da polícia italiana recorrendo a uma espanhola que conhecera no vôo da Alitália de São Paulo a Roma. A ela, Silvana pediu que informasse aos Parziale de Brescia do drama que estava vivendo no aeroporto romano. A resposta a esse pedido de socorro chegou com um conselho de Davide, o italiano de 30 anos que a alagoana conhecera em Maceió há seis anos. "Diga que está se sentindo mal, faça-se internar num hospital." Silvana seguiu o conselho, mas no hospital, depois de vários exames, os médicos disseram que ela não tinha nada, era mais saudável do que um peixe. De volta ao aeroporto, Silvana soube que seria reembarcada para São Paulo no vôo noturno da Alitália. Com a desculpa de comprar água e biscoitos para os filhos, obteve autorização para sair do isolamento - e esconder-se da polícia, por mais de três horas, dentro das lojas do aeroporto. De onde ouviu também os diversos avisos lançados pelos alto-falantes de que o vôo da Alitália não podia mais retardar sua decolagem. Sem qualquer queixa contra o pessoal da companhia aérea, ontem à noite, falando pelo telefone da casa dos pais de Davide Parziale em Brescia, Silvana não queria esquecer os momentos de discriminação, humilhação e de toda sorte de descortesias que viveu no aeroporto até a manhã de ontem,quando seu caso se tornou notícia da primeira página do Corriere della Sera e o consulado geral do Brasil em Roma procurou saber do inspetor Pronabi, da polícia do aeroporto Leonardo da Vinci, que tratamento estava sendo dispensado à cidadã brasileira Silvana Saturnino Santos, mãe de duas crianças com direito à cidadania italiana. Dois episódios que mudaram da água para o vinho o tratamento dispensado à moça morena das Alagoas, que ontem à tarde pôde ser recebida e abraçada calorosamente por Davide, sua mãe e sua irmã no aeroporto Linate de Milão, de onde seguiram para Brescia.
Silvana Saturnina Santos, alagoana , viajou para a Itália a convite do pai e avós de dois de seus três filhos--- o mais novo, de oito meses, ainda não apresentado ao pai. No aeroporto de Roma, foi detida no posto policial , apesar de todos os documentos em ordem, e tratada com descaso e ofensivamente. Os policiais não quiseram se comunicar com a família do marido, apesar de ela lhes ter dado o telefone. Queriam que ela comprovasse que tinha US$ 1.000 para uma pequena permanência no país. Caso contrário , tinha que retornar a São Paulo. Sem poder se ausentar do aeroporto, recorreu a uma espanhola com quem viajou de São Paulo a Roma. Esta telefonou para a família de Davide, para cuja casa iria. Por conselho dele, fingiu estar passando mal, para ser internada no hospital. Infelizmente, os médicos constataram que ela não tinha absolutamente nada. A estratégia não deu certo. Retornou ao aeroporto e tentou a última cartada: com a desculpa de comprar água e biscoito para os filhos, obteve permissão para sair do isolamento. Conseguiu esconder-se da polícia por mais de três horas, ali mesmo nas lojas do aeroporto. Com o truque , chegou ao destino. Sem queixas contra a companhia aérea, confessou-se humilhada pela polícia italiana. A notícia chegou à primeira página do Corriere della Sera , e o consulado geral do Brasil em Roma cobrou do inspetor policial esclarecimentos sobre a arbitrariedade . Após isso, o tratamento foi outro.
WASHINGTON - O resultado da eleição primária no estado americano de Iowa, o primeiro grande passo na marcha para a indicação do candidato do Partido Republicano que desafiará Bill Clinton na eleição presidencial de novembro, tem implicações muito maiores que a simples divisão dos votos. Como era esperado, o senador Bob Dole ganhou, com 26% dos votos, mas teve uma vantagem de apenas 3 pontos percentuais sobre o segundo lugar. Até mesmo o ex-comentarista de televisão Pat Buchanan se surpreendeu com seus 23% de votos, que o fizeram ficar parecendo o verdadeiro vencedor. O ex-governador do Tennessee Lamar Alexander, em terceiro lugar, com 18%, terá agora seus 15 minutos de fama, a menos que consiga milagres nos próximos estados que votarão. O quarto lugar de Steve Forbes, com 10%, mostra que é impossível comprar a eleição, e o quinto lugar do senador Phil Gramm, com 9%, coloca um ponto final em sua campanha. Aborto - "Iowa desempenhou o seu papel tradicional", disse o analista político Steffen Smith, professor da Iowa State University. "Reduziu o campo de pré-candidatos de nove para quatro, talvez cinco, mas dificilmente Gramm se recuperará." Pat Buchanan, que segundo pesquisas de boca de urna levou 41% dos votos da chamada direita cristã, foi oficialmente consagrado como porta-estandarte da ala mais conservadora do partido, a ala anti-aborto, na qual a Coalizão Cristã - grupo que se torna cada vez mais forte desde 1988 - domina um bloco de eleitores muito bem organizados. "Essas pessoas se vestem todos os domingos para ir à igreja", disse Smith. "Se vestirão também para votar." Em Iowa, eles representaram 35% dos cerca de 100 mil republicanos que votaram, e também foram vitais na vitória de Buchanan em Louisiana, no início deste mês. Buchanan pode ser visto pelos brasileiros que têm acesso à rede de TV CNN: ele aparece todos os domingos, às 21h30, no programa Crossfire, como representante do pensamento conservador. Entre os que votaram em Buchanan, 43% o fizeram porque ele "melhor representa os valores conservadores do partido", e 51% porque ele promete que, como presidente, faria tudo para tornar ilegal o aborto. Defensor de uma política isolacionista e protecionista que propõe erguer uma cerca na fronteira dos EUA com o México, para acabar com a imigração ilegal, Buchanan também dominou entre os eleitores mais pobres - aqueles que se sentem mais ameaçados pela situação econômica atual dos EUA. Idosos - A vitória de Dole, 72 anos, além de muito apertada, é problemática também porque a maior parte de seus eleitores no estado - 41% - tinham mais de 60 anos de idade. Nenhum outro estado tem uma população idosa tão grande quanto Iowa. Dole briga pela indicação do partido pela terceira vez (perdeu para Ronald Reagan em 1980 e para George Bush em 1988) e é muito identificado como político da velha guarda, num momento em que o eleitorado quer sangue novo. O terceiro lugar de Lamar Alexander, que além de ex-governador foi secretário de Educação no governo de George Bush, não deixa de consagrar o único candidato que procurou não basear toda a sua campanha em anúncios de televisão negativos (criticando os outros candidatos). A maioria dos republicanos que votaram nele (28%) se consideram moderados, e 31% ainda não haviam decidido em quem votar três dias atrás. Steve Forbes - que acabou gastando US$ 400 por cada voto que recebeu em Iowa - prometeu que gastará vários milhões de dólares em anúncios de televisão em New Hampshire - o próximo estado que votará, para onde todos os republicanos embarcaram ontem.
A eleição primária no estado de Iowa mostra a tendência para a escolha do candidato republicano que desafiará Bill Clinton na competição à presidência. O esperado vencedor, Bob Dole, ficou com 26% dos votos , só três pontos acima do segundo colocado, Pat Buchanan , que pareceu o vencedor. O terceiro lugar(com 18%) ficou com Lamar Alexander ; o quarto (com 10%) , com Steve Forbes, apesar do enorme gasto ; e o quinto ( com 9%), com Phil Gramm , com nenhuma chance. O perfil do eleitorado fica bem demonstrado nos votos de Pat Buchanan: a ala conservadora do partido , contrária ao aborto , escolheu-o como seu porta-estandarte. Outra pregação que lhe deu muitos eleitores foi sua proposta de fechar a fronteira do México para evitar a imigração clandestina. E ainda conseguiu votos dos mais pobres, que se sentem ameaçados com a situação econômica atual do país. A vitória de Dole, 72 anos, não parece alentadora, porque se deu no estado com o maior índice de idosos dos Estados Unidos . Identificado como o político de velha guarda, vai de encontro à tendência atual por sangue novo. O terceiro lugar de Lamar Alexander foi dado por moderados e por indecisos de última hora. E o candidato foi o único a não fazer campanha estraçalhando os adversários.
A Internet é um ambiente propício para os altos e baixos do coração. Isso todo mundo ficou sabendo ao acompanhar o romance entre Dara e Júlio Falcão, na novela Explode Coração, da TV Globo. Na grande rede de computadores que interliga pessoas no mundo todo, o amor e o ódio estão presentes, por isso, ontem, dia de São Valentim (Valentine's Day), em que se comemora o dia dos namorados em vários países do Hemisfério Norte, a grande rede abriu espaço para os apaixonados. Na Internet há vários endereços dedicados ao assunto. Neles, pode-se comprar chocolate, vinho, lingeries, enviar cartões e até pedir o ser amado em casamento pela rede, de modo público ou não. Um dos endereços mais óbvios é o Valentines.com - love at first site (amor no primeiro endereço) (http://www.valentines.com). Nesse ciberlocal, o objetivo é ajudar os apaixonados a manter a chama do amor acesa. Há cartões de visitas, cartas românticas. Duas pessoas respondem dúvidas amorosas via correio eletrônico. Entre as dúvidas dos internautas apaixonados estão: o que fazer se uma mulher lhe oferecer flores ou como confiar em alguém depois de ter sido magoado em outro relacionamento. No Palácio do amor de Afrodite (http://www.purple.co.uk/purplet/love.html), além de ligações para várias outras páginas regidas pelo Cupido, os enamorados encontram, entre muitos desenhos melosos e apaixonados, músicas, poemas, cartões, dicas para mimar os amantes e arquivos com sons de vários tipos de beijo (french kiss, cyberkiss, english french kiss), além de uma proposta de casamento on-line, em que basta preencher seu nome e nome do futuro cônjuge. Nessa página, há ligações para páginas comerciais onde pode-se comprar flores, vinho, chocolate, lingeries e até um carro para presentear namorados. Tímidos - Para os enamorados tímidos ou que têm dificuldade para lidar com as palavras, o melhor é apelar para o The Cyrano Server (http://www.nando.net/toys/cyrano.html). Calcada na peça teatral escrita no século passado pelo francês Edmond Rostan - em que o feio Cyrano de Bergerac escrevia as cartas que apaixonavam a namorada de um amigo bonitão -, a página se propõe a escrever os e-mails enquanto o usuário leva a fama. Um detalhe: as cartas são escritas em inglês. Para o computador escrever uma carta pelo internauta, a máquina pede dados como o estilo de carta desejado (indecisa, surreal, desesperada, intelectual) e adjetivos que descrevam a pessoa amada, além da comida preferida dela. Na página Valentine's Day (http://www.nando.net/toys/valentine.html) há dados curiosos sobre o dia de São Valentim, santo decapitado por um imperador romano no dia 14 de fevereiro de 269. Valentim, um bispo estudioso, entrou para a história como um protetor dos jovens, aos quais ajudava a escrever cartas de amor. Seus ossos, guardados hoje na igreja de Santo Antônio, em Madri, atraem até hoje romarias de pessoas que vão pedir ao santo felicidade no amor. Até o dia 17, na Internet, também está sendo comemorada a Semana do dia do casamento: no endereço http://www.randomc.com/÷rmachan fica-se sabendo que há vários eventos sobre o assunto e, no mesmo site, é possível votar no casal mais romântico já existente. Outras páginas da World Wide Web (parte gráfica da rede) têm sugestivos títulos como A escolha do Cupido, The Valentine's Thief: a children story, Hearts- the game, Cupid's Chapel of Love, Love Bytes Web Valentine e a Screen Saver for Valentine's Day (um descanso de tela para o dia dos namorados). Como o dia dos namorados no Brasil cai em 12 de junho, dá tempo de pesquisar as dicas nos endereços internacionais e utilizá-las por aqui. Namoro no ciberspaço acaba em... casamento no ciberspaço. Nada mais natural. Faltava apenas um casal que se dispusesse a reconhecer a seriedade de sua relação e resolvesse subir no altar informatizado. Os americanos Joseph Perling e Victoria Vaughn aceitaram o desafio e se tornaram pioneiros do sacramento on line. Ontem, em pleno dia dos namorados nos EUA, eles disseram sim e juraram fidelidade eterna via Internet - ele, de seu laptop em Venice Beach, na Califórnia; ela de seu terminal em Hollywood, no mesmo estado. A cerimônia, realizada através da rede Compuserve, foi abençoada e oficializada - via computador, é claro - por um padre de uma igreja em Beverly Hills, também na Califórnia.
São Valentim , que entrou para a história como protetor dos jovens, é o patrono dos namorados. Ontem, seu dia e dia dos namorados, a Internet abriu seu espaço para os enamorados em vários sites. Nos vários endereços eletrônicos, propõe-se a atender a todos os gostos, dúvidas e ansiedades dos apaixonados. Se alguém quer presentear com vinho, chocolate , lingeries, enviar cartões ou cartas românticas é só buscar um dos sites. Os tímidos têm quem lhes exprima as declarações ao/à amado/a conforme o seu gosto. É só entrar no (Http://www.nando.net/toys/cyrano.html) . Outros querem estimular a paixão ouvindo músicas , poemas, diversos sons de beijos e até propostas de cansamento on-line ; basta procurar o Palácio do Amor de Afrodite. E ,para não se acusar isso de pura realidade virtual, ontem os americanos Joseph Perling e Victoria Vaughn concretizaram sua união --- ele no seu laptop em Venice Beach , Califórnia; e ela no seu terminal em Hollywood, no mesmo estado. Logicamente, abençoados , via computador, por um padre em Beverly Hills.
MIAMI - O governo americano instruiu seu representante nas Nações Unidas a convocar uma reunião imediata do Conselho de Segurança da ONU para discutir o ataque da Força Aérea cubana, no final da tarde de sábado, a dois aviões civis do grupo Irmãos para o Resgate, formado por exilados cubanos em Miami. A reunião deveria começar na madrugada de hoje, às 3h (hora de Brasília). A decisão foi anunciada pelo secretário de estado americano, Warren Christopher, pouco antes dele iniciar sua primeira viagem oficial à América Latina. Christopher disse ainda que o presidente Bill Clinton recebeu uma coleção de opções de retaliação contra Cuba, preparada em uma reunião de altos funcionários civis e militares de seu governo, realizada ontem sem a presença do presidente, na Casa Branca. Ele prometeu anunciar, a qualquer momento, mais detalhes da reação americana ao ataque da Força Aérea de Cuba. Resposta - "A conduta dos cubanos é injustificável. Ela não ficará sem resposta. A derrubada dos dois aviões, civis e desarmados, fere qualquer lei internacional. Ela não deve ser possível ou aceitável. Iremos consultar nossos aliados mas já posso adiantar que os Estados Unidos deverão tomar atitudes próprias e isoladas", disse o secretário, recusando-se a adiantar a lista de opções que o presidente Clinton irá considerar na maior crise que seu governo enfrenta no relacionamento com Cuba. Ainda há dúvidas sobre a localização exata dos dois aviões, ambos monomotores do tipo Cessna Skymaster, no momento em que foram abatidos. Num comunicado divulgado ontem, 15 horas depois do incidente, o governo de Cuba afirmou que os aviões foram derrubados dentro do espaço aéreo cubano, entre oito e 13 quilômetros ao norte de Baracoa, praia a oeste de Havana. Terceiro - O secretário de Estado americano Warren Christopher, entretanto, disse que o ataque aconteceu fora do espaço aéreo cubano, sem precisar a localização exata em que os aviões estariam quando foram derrubados. Um terceiro Cessna, também pertencente ao grupo Irmãos para o Resgate, voava junto com os dois aviões abatidos, mas conseguiu escapar do ataque. Fontes da comunidade exilada cubana em Miami disseram que os aviões foram interceptados por caças Mig, de fabricação soviética, quando estavam a cerca de oito quilômetros do limite das águas territóriais cubanas, que se estendem por 17 quilômetros a partir da costa, mas já em um espaço aéreo monitorado por controladores de vôo cubanos, na região do estreito da Flórida. O porta-voz do governo cubano, José Ponce, declarou que pouco antes dos aviões serem abatidos as autoridades de seu país já haviam detectado uma primeira invasão do seu espaço aéreo e que, no segundo incidente, os aviões abatidos foram avisados duas vezes de que deveriam retornar. Autoridades americanas confirmaram que os aviões abatidos foram avisados de maneira "inequívoca" pelos cubanos antes de serem atacados. Plano de vôo - Apesar de EUA e Cuba não terem concordado sobre a localização exata dos aviões na hora do ataque, está claro que os três aviões deixaram território americano com plano de vôo rumo às Bahamas e depois desviaram seu caminho para Cuba, o que já caracteriza uma violação das leis de aviação civil dos EUA e de quase todos os países do mundo. Está claro ainda que os pilotos abatidos deveriam obeceder ordens de controladores de vôo cubanos, já que estavam em uma região por eles monitorada. A reação do governo cubano ao ataque foi curta e grossa. Além de afirmar que os aviões foram avisados antes do ataque e definir sua posição como "invasora", os cubanos repetiram versões de leis internacionais de proteção territorial. "Cuba tem obrigação de defender seu território contra qualquer tipo de invasão e foi o que fez neste episódio. Os intrusos foram avisados e continuaram seu caminho, por isso acabaram abatidos", disse o porta-voz cubano, José Ponce. Moderação - Além da reação em duas velocidades dos EUA, primeiro moderada do presidente Bill Clinton na noite de sábado, e depois agressiva do secretário Warren Christopher na tarde de ontem, nenhum outro país da comunidade internacional se manifestou sobre o incidente. Até o final da tarde de ontem, a Guarda Costeira americana, que entrou em águas territóriais cubanas com proteção de caças F-15 da Força Aérea dos EUA e com autorização do governo de Havana, não tinha encontrado nenhum sobrevivente ou os corpos dos quatro tripulantes que viajavam nos dois aviões abatidos. Eles foram identificados em Miami como sendo os pilotos Carlos Costa, Pablo Morales, Mario de La Peña e Armando Alejandre Jr.. Segundo informações americanas, a primeira notícia dos aviões abatidos chegou na Guarda Costeira dos EUA às 15h45 de sábado, no horário local (17h45 no horário do Brasil).
Dois aviões Cessna Skykmaster , da aviação civil, saídos de Miami, foram abatidos pela Força Aérea cubana por terem violado o seu território, conforme declarou o porta-voz do governo. O governo americano instruiu seu representante nas Nações Unidas para convocar uma reunião do Conselho de Segurança da ONU , que discutisse o ataque. As sugestões de retaliação foram várias na cúpula do governo americano. Sempre alegando o absurdo desrespeito às leis internacionais. Cuba, por sua vez, com base na própria legislação internacional, afirma que o país tem a obrigação de defender seu território. E acrescentou que os invasores foram avisados da infração. De ambos os lados, não se tinha certeza da localização exata dos aviões. Mas o fato de os aviões terem um plano de vôo para as Bahamas e desviado para Cuba já caracteriza uma violação. Até o final da tarde de ontem, a Guarda Costeira americana, com a devida autorização de Cuba, não tinha encontrado nenhum sobrevivente ou os corpos dos quatro tripulantes.
JERUSALÉM - Pelo menos 25 pessoas morreram na manhã de ontem em Israel, vítimas de dois atentados terroristas praticados por membros da Organização Fundamentalista Islâmica, Hamas. No mais grave deles, uma bomba acionada por um terrorista suicida no interior de um ônibus, no centro de Jerusalém, deixou 23 pessoas mortas e mais de 50 feridas. Pouco depois, novo atentado a bomba, em Ashkelon, no sul do país, causou dois mortos e 22 feridos. O atentado ocorrido em Jerusalém, o mais sangrento de que se tem lembrança em Israel, ocorreu pouco antes das sete da manhã, no momento em que um ônibus lotado de passageiros, em sua maioria soldados que voltavam para suas bases, se aproximava da estação rodoviária. O terrorista esperou que o ônibus parasse num sinal e acionou a bomba. O enorme impacto causado por cerca de dez quilos de dinamite destruiu totalmente o ônibus e atingiu vários outros nas proximidades. Os 50 feridos foram internados, e oito deles estão em estado grave. Metal - A Rua Jaffa, a principal de Jerusalém, se assemelhou a um campo de batalha, com dezenas de corpos mutilados espalhados num raio de dez metros, e feridos presos nas ferragens. Segundo a polícia, o efeito destruidor da explosão foi ampliado por pedaços de metal introduzidos na bomba para causar mais danos. Cerca de 45 minutos mais tarde ocorreu nova explosão. Disfarçado numa farda do Exército israelense, um terrorista aproximou-se dos soldados que se aglomeravam num ponto de ônibus de Ashkelon, próximo à Faixa de Gaza, e acionou a bomba que trazia junto a seu corpo. A semelhança entre os dois atentados levou a polícia a deduzir que se tratou de uma operação coordenada por uma mesma facção do Hamas, num ato de vingança contra o atentado praticado por um extremista judeu há exatamente dois anos em Hebron, episódio em que 29 palestinos foram assassinados. Outra data lembrada foi a dos 50 dias do assassinato do terrorista Yahia Ayash, conhecido como "o Engenheiro", presumivelmente praticado pelo serviço secreto israelense. Pouco depois, um volante do Hamas encontrado próximo ao local do atentado de Jerusalém dizia que toda atividade armada será suspensa quando Israel "suspender todas as ações terroristas" contra o grupo e libertar seus ativistas presos. Fronteiras - Os dois atentados de ontem ocorreram apenas dois dias depois da reabertura das fronteiras de Israel com os territórios palestinos de Cisjordânia e Gaza, determinado a partir de informações de que radicais muçulmanos tentariam vingar a morte de Ayash. O clima de insegurança que voltou a imperar em Israel obrigou o governo a fechar novamente as fronteiras, desta vez por tempo indeterminado. Também os contatos do governo com a Autoridade Nacional Palestina (ANC) foram suspensos, e só serão retomados depois dos funerais das vítimas. Pouco depois dos atentados, o primeiro-ministro Shimon Peres afirmou que seu país não dará trégua ao terrorismo, e que prosseguirá com o processo de paz com os palestinos. Em Gaza, o líder palestino Yasser Arafat condenou duramente os dois ataques. "São ações terroristas, ações criminosas, voltadas não apenas contra pessoas inocentes mas contra todos o processo de paz", disse ele. Horas mais tarde, a polícia palestina prendeu na região de Gaza cerca de 50 militantes do Hamas, e anunciou seu propósito de nas próximas horas deter mais 150 suspeitos. Os presidentes Bill Clinton, dos EUA, e Hosni Mubarak, do Egito, bem como o rei Hussein, da Jordânia, enviaram mensagens de condolências às famílias das vítimas e ao governo israelense.
Dois ataques terroristas do grupo Hamas , num intervalo pequeno, mataram pelo menos 25 pessoas e deixaram cerca de 72 feridos. A violência , principalmente do primeiro , praticado dentro de um ônibus, fazia lembrar uma praça de guerra. Os dois atentados foram vingança contra o morticínio de 29 palestinos, praticado por um extremista judeu , dois anos antes, e contra o assassinato do terrorista Yahia Ayash , possivelmente praticado pelo serviço secreto israelense. Os dois atentados , ocorridos apenas dois dias depois da reabertura das fronteiras de Israel com os territórios palestinos de Cisjordânia e Gaza, deixou um clima de insegurança tal que obrigou o governo a fechá-las novamente. O primeiro-ministro Shimon Peres afirmou que não dará trégua ao terrorismo e que continuará com o processo de paz. Do lado palestino, Yasser Arafat condenou os dois ataques , prendeu 50 militantes do Hamas e anunciou o propósito de prender imediatamente mais 150. Bill Clinton , Hosni Mubarak , do Egito, e o rei Hussein da Jordânia enviaram condolências às famílias das vítimas e ao governo israelense.
LONDRES - O grande conto de fadas deste fim de século termina sem final feliz. Ontem, dois meses depois do apelo da rainha Elizabeth II, a princesa Diana aceitou o pedido do divórcio do príncipe Charles. Diana vai continuar morando no Palácio de Kesington, terá um escritório no Palácio de Saint James, poderá opinar em todas as decisões sobre os filhos e manterá o título de princesa de Gales, anunciou uma porta-voz da princesa. Mas a família real disse que estas condições são um pedido e ainda não estão acertadas definitivamente. Em encontro sigiloso, ontem à tarde, no Palácio Saint James, residência oficial do príncipe Charles desde a separação do casal real, em dezembro de 1992, Diana finalmente concordou com o divórcio. Os advogados dos dois princípes vão discutir agora os termos da dissolução do casamento. Especula-se que o acordo financeiro possa chegar a quase R$ 40 milhões. Tanto o Palácio de Buckingham quanto o governo britânico foram aparentemente tomados de surpresa pelo anúncio, feito por Jane Atkinson, porta-voz de Diana, em declaração exclusiva à rádio e televisão britânica BBC: "A princesa de Gales concordou com o pedido de divórcio do príncipe Charles. A princesa continuará a se envolver em todas as decisões relativas aos filhos e permanecerá no Palácio de Kesington, mantendo escritórios no Palácio de Saint James. A princesa de Gales vai reter o título e será chamada de Diana, princesa de Gales." Igreja - A maior autoridade eclesiástica da Igreja da Inglaterra, o arcebispo da Cantuária, George Carey, "espera e acredita que isto seja do melhor interesse de todos os envolvidos", comentou laconicamente um assessor. Como o rei ou rainha chefia a Igreja Anglicana, Charles deve acumular este cargo quando subir ao trono. O problema é que atualmente a lei proíbe que uma pessoa divorciada chefie a Igreja. Mas juristas britânicos entendem que não haverá problema em mudar a lei. Afinal, Henrique VIII rompeu com o Vaticano, criando a Igreja da Inglaterra, em 1534, para se divorciar de Catarina de Aragão, a primeira de suas seis esposas. O príncipe promete não se casar de novo, apesar de ter sido visto em público, no ano passado, em companhia de sua amante, Camilla Parker-Bowles. Diana, no entanto, jamais será rainha-mãe, explica o historiador real David Starkey: "Para ser rainha-mãe, é preciso ter sido rainha-consorte. Ela será apenas princesa. Mas não vejo problema constitucional. O problema é de opinião pública", diz. Starkey acredita que houve um conflito de personalidade entre os príncipes porque Charles é uma pessoa discreta, recatada e Diana preferiu se tornar uma celebridade. Sem dúvida, a princesa gosta de brincar com fogo e de manipular a mídia. Sua grande tacada publicitária custou-lhe o divórcio. Na entrevista à TV BBC divulgada em novembro passado, Diana admitiu ter cometido adultério com o capitão James Hewitt. Foi demais para a rainha. Em dezembro, Elizabeth II ordenou aos príncipes de Gales que se divorciassem o mais rapidamente possível. Diana resistiu um pouco mas acabou concordando. Três dos quatro filhos da rainha da Inglaterra estão separados. O quarto, o príncipe Edward, deve anunciar em breve o seu casamento com Sophie Rhis-Jones. Caberá a ele, que já foi acusado de homossexualismo pela imprensa sensacionalista, lavar a honra da escandalosa monarquia da Inglaterra.
A separação da princesa Diana e do príncipe Charles pôs fim ao conto de fada tão divulgado pela mídia. A rainha Elizabeth II , mãe de Charles , pressionou para eles se divorciassem. Além das diferenças de personalidade ---o príncipe mais contido, e Diana mais afeita à mídia ----, a rainha-mãe não pôde tolerar a declaração da princesa à BBC , em que confessou ter cometido adultério com o capitão James Hewitt. Diana continuará com o título de princesa, com moradia no palácio de Kesington , poderá opinar em todas as decisões sobre os filhos e ---especula-se---o acordo financeiro pode chegar a R$ 40 milhões. Mas a família não confirma como certas, ainda, essas condições. Tanto o palácio de Buckingham quanto o governo britânico , aparentemente, se surpreenderam com a notícia do divórcio, dada a relutância da princesa. A autoridade máxima da Igreja da Inglaterra, George Carey, acredita que tenha sido essa a melhor solução. Como o rei ou a rainha comanda a Igreja Anglicana, o príncipe Charles poderá acumular este cargo. É verdade que há uma lei proibindo que um divorciado ocupe a função , mas os juristas entendem que a lei pode ser mudada --- o caso de Henrique VIII é um precedente histórico famoso.
NAÇÕES UNIDAS - Decidido a capitalizar no terreno diplomático a crise surgida com a derrubada de dois aviões civis americanos, no último sábado, o governo de Cuba - visado na terça-feira por uma declaração do Conselho de Segurança da ONU que lamentava a derrubada dos aviões - pediu a democratização do organismo multilateral e denunciou a ascendência política que nele exercem as potências atômicas, e em especial os Estados Unidos. Negociando a apresentação das razões cubanas na Assembléia Geral, e não no Conselho, Cuba jogou suas cartas na tese da defesa da soberania de seu espaço aéreo e de suas águas territoriais, freqüentemente invadidos por organizações anticastristas sediadas nos EUA. "O que não discutiremos com este organismo [o Conselho de Segurança] nem com especialistas de organização alguma é nosso direito e nosso dever de proteger a soberania de nosso país", disse Robaina ao chegar a Nova Iorque e anunciar que seu governo deseja que a investigação encomendada pelo Conselho à Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) se estenda a incursões anteriores dos anticastristas. Para o chanceler cubano, o Conselho está sendo transformado pelos EUA "numa espécie de tribunal universal para julgar qualquer país que desobedeça a seus desígnios"; tornou-se "uma dependência do Departamento de Estado". Adversidade - Uma circunstância adversa, para os cubanos, foi o fato de o Conselho estar (até amanhã), sob presidência americana. Presidindo os trabalhos, a embaixadora americana, Madeleine Albright, não conseguiu na terça-feira a desejada "resolução" condenando Cuba, mas manteve o Conselho reunido por 16 horas até extrair dele pelo menos a "declaração" mais branda - apesar do pedido cubano de que Robaina fosse ouvido primeiro. O Ministério cubano das Relações Exteriores também considerou que "a atuação do Conselho de Segurança da ONU demonstra o preço que representa, para os países pequenos, viver num mundo unipolar sob a hegemonia dos Estados Unidos", encarecendo "a urgência de trabalhar pela democratização das Nações Unidas e para encontrar formas de tornar mais representativo e imparcial o Conselho de Segurança". O Conselho é formado por 10 países que nele têm assento rotativamente e pelas cinco potências nucleares oficiais (EUA, Rússia, China, França e Grã-Bretanha), únicas com poder de veto. Os cubanos decidiram - não se sabe ainda em que nível administrativo ou governamental - derrubar os dois Cessna com quatro tripulantes da organização anticastrista Irmãos pelo Resgate apesar de a chamada Convenção de Chicago, sobre segurança no espaço aéreo, rezar que aviões civis não podem ser alvo de ataques militares em circunstância alguma. Mas o governo de Cuba disse ontem que "é necessário definir bem o que é um avião civil, pois com aviões supostamente civis procedentes dos Estados Unidos se cometeram muitos crimes contra nosso país". Em entrevista ontem à noite, Robaina disse que Cuba já obteve o apoio do Movimento dos Não-Alinhados - formado por 110 países - para convocar a Assembléia Geral onde Cuba exporá suas posições. O chanceler cubano também afirmou que os EUA serão responsabilizados por quaisquer "novas provocação e violações" do espaço aéreo cubano.
A derrubada de dois aviões civis que saíram de Miami e invadiram o território cubano levou o Conselho de Segurança da ONU a exigir explicações do governo de Fidel. O governo cubano pediu que o Conselho se democratizasse e não fosse porta-voz somente das potências nucleares, fundamentalmente dos Estados Unidos. Por infelicidade de Cuba, naquele momento o Conselho estava sendo presidido pela americana Madeleine Albright. . Mesmo assim , ela não conseguiu extrair uma condenação de Cuba. O embaixador cubano procurou negociar suas razões na Assembléia Geral e não no Conselho. Insistiu na tese do direito do seu país em defender o seu espaço aéreo. Diante do argumento de que a Convenção de Chicago proíbe qualquer ataque militar a aviões civis, Cuba contrapôs dizendo que é necessário distinguir avião civil de avião supostamente civil. E acrescentou que várias outras incursões tinham sido feitas por elementos anticastristas provindos de Miami. O chanceler cubano também que os EUA seriam responsabilizados por novas violações.
BUENOS AIRES - Na sua primeira eleição direta, a capital do tango elegeu ontem o senador da oposicionista União Cívica Radical (UCR) Fernando De La Rúa, de 58 anos, para prefeito da cidade. O resultado fortaleceu a esquerda e promete agitar a eleição presidencial que será realizada em 1999 e até agora só apresentava como opção certa o presidente Carlos Menem, que está em seu segundo mandato. Meia hora depois de anunciado os resultados das pesquisas boca-de-urna, às 18h, que lhe deram cerca de 40% dos votos, Fernando De La Rúa, advogado, casado, pai de três filhos, anunciou: "Foi a vitória da democracia." O presidente do seu partido, Rodolfo Terragno, foi mais duro: "É o início de uma nova etapa para o país. O fim da corrupção e do desemprego." À noite, apesar do frio, os radicais, que estavam politicamente apagados, reuniram uma multidão num comício improvisado no centro da cidade. Segundo as pesquisas de boca-de-urna, o segundo colocado foi Norberto de la Porta, da também oposicionista Frente País Solidário (Frepaso). O atual prefeito biônico Jorge Domíngues, do governista Partido Justicialista (peronista), ficou em terceiro lugar, com cerca de 15% dos votos. No dia do seu 66° aniversário, ao reconhecer a derrota de seu candidato, o presidente Menem disse que a eleição foi um "resultado da democracia". Além da prefeitura, os governistas perderam ainda na escolha para os chamados constituintes. Desemprego - Nessa corrida, a líder foi a senadora Graciela Fernández Meijidi, da Frente País Solidário, que com outros parlamentares e representantes da sociedade redigirá a Constituição da cidade. O vice-presidente Carlos Ruckaulf chegou em terceiro. "Vamos fazer um estatuto preocupado com a situação dos cidadãos argentinos", disse Graciela, uma das principais vozes de oposição a Menem. A senadora lembrou que a Frepaso, apesar de só ter cinco anos, chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais do ano passado, a elegeu senadora no fim do ano passado e agora a sagrou constituinte. Ontem, existiam várias justificativas para a vitória da oposição nas urnas. Além do tradicional voto de protesto na capital federal, ela foi atribuída ao aumento do índice de desemprego (que atinge agora 2,2 milhões de trabalhadores, ou 17,1% da população economicamente ativa) e ao provável reajuste das tarifas telefônicas e outros serviços públicos. O governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que é do mesmo partido de Menem, mas já está de olho na corrida presidencial, comparou os desempregados argentinos a "párias". Ele reconheceu que o desemprego é um problema mundial, mas disse que na Europa, por exemplo, existem programas sociais de compensação à falta de trabalho. A eleição de Fernando De La Rúa, senador por três mandatos, sendo que um interrompido durante a ditadura militar, foi possível graças à reforma constitucional realizada há dois anos, que deu à capital argentina o direito de eleger seus governantes, além de permitir a reeleição do presidente. "Agora é trabalhar, trabalhar e trabalhar", afirmou o novo prefeito da cidade. "É apenas o ponto de partida. E para acabar com as injustiças precisaremos do apoio da sociedade." A vitória de De la Rúa significa, também, o renascimento da União Cívica Radical, o mais antigo partido da Argentina, que entrou em crise devido ao final turbulento do governo de Raúl Alfonsín, em 1989, quando a hiperinflação e as ameaças de golpe militar levaram o então presidente a antecipar em dois meses a posse de Menem.
Na sua primeira eleição direta , Buenos Aires consagrou como seu prefeito o oposicionista Fernando De La Rua, da União Cívica Radical. A vitória da esquerda estimulou-a a subverter o consenso em torno de Carlos Menem para a próxima eleição presidencial. O segundo colocado, nas pesquisas de boca-de-urna, foi Norberto de la Porta , oposicionista da Frente País Solidário ( Frepaso). Embora novo , o partido chegou em segundo lugar nas eleições presidenciais do ano passado , e , agora, elegeu a senadora Graciela Fernández Meijidi, que , junto com outros parlamentares, redigirá a Constituição da cidade. As explicações correntes na véspera da eleição para a vitória da oposição incluíam estas causas: o tradicional voto de protesto na capital; o aumento do índice de desemprego; a possibilidade de reajuste das tarifas telefônicas e de outros serviços públicos. Para que fossem possíveis a eleição direta do prefeito de Buenos Aires e a reeleição do presidente da República, houve, há dois anos, reforma na Constituição.
MOSCOU - Após um sumiço de quatro dias, o presidente da Rússia, Boris Yeltsin, reapareceu ontem para um pronunciamento de dois minutos pela televisão. A mensagem - que leu no teleprompter - era um pedido aos eleitores para que não deixem de votar amanhã no segundo turno que ele e o comunista Guenadi Ziuganov vão disputar. "Sei exatamente o que fazer, tenho força, desejo e decisão. O que preciso agora é de seu apoio", afirmou Yeltsin com a voz cansada. "Vocês não devem ficar em casa. Não votar é uma opção contra a Rússia." Praticamente sem se mover, mexendo apenas os lábios, Yeltsin era uma sombra do candidato que há semanas dançou rock durante um showmício para jovens eleitores. Se ontem tranquilizou o eleitorado (já se especulava que sofrera outro ataque cardíaco e morrera) mostrando que está vivo, o presidente, que busca a reeleição, deixou muitas dúvidas sobre sua saúde e sua capacidade para governar a Rússia por mais quatro anos. Gripe - A explicação oficial para os quatro dias de sumiço, quando deixou de comparecer a cerimônias oficiais e abandonou a campanha, foi dada pelo primeiro-ministro Viktor Chernomirdin: Yeltsin estava com laringite. Mas Yeltsin não parecia rouco e, rapidamente, a versão oficial passou a ser que ele está muito gripado. Foi o bastante para a imprensa russa especular sobre o ocorrido nas décadas de 70 e 80 com Leonid Brejnev, Yuri Andropov e Konstantin Chernenko, que permaneceram no Kremlin, apesar de incapacitados. Quem também se lembrou dos velhos tempos foi o adversário Ziuganov. "Não vemos o Senhor Yeltsin há quatro dias". Assim, o comunista começou um pronunciamento pela televisão, antes do reaparecimento do presidente. "Quero ver o laudo oficial sobre o estado de saúde do Senhor Yeltsin. Gostaria de saber o que está acontecendo. Por que todos os compromissos oficiais foram cancelados?" No Parlamento, Stanislav Govorukhin, deputado nacionalista partidário de Ziuganov, disse que Yeltsin "parecia um zumbi" durante sua fala pela televisão. "Sumiu durante dias e o que nos mostraram hoje (ontem) foi uma múmia pintada e estão pedindo que votemos nela." Govorukhin exigiu do Kremlin o adiamento das eleições por duas, três semanas ou até um mês para dar a Yeltsin a chance de se recuperar. Em sua opinião, os assessores de Yeltsin estão se comportando como gerações de funcionários do Kremlin que escondem a verdade até que seja tarde demais. "Vocês se lembram que quando Stalin morreu, só anunciaram três dias depois." Leis - Com Yeltsin parecendo estar na ante-sala da UTI, não se sabe o que pode acontecer de hoje para amanhã. A Constituição diz que se o presidente ficar doente, o primeiro-ministro assume e convoca nova eleição em três meses. Mas a lei sobre as eleições presidenciais diz que, se um dos candidatos ao segundo turno se retirar, será substituído pelo terceiro colocado no primeiro turno. No caso o general Alexander Lebed, atual responsável pela segurança nacional. Aos 65 anos, Boris Yeltsin já viveu mais do que a média de seus compatriotas. Cardíaco desde 1987, o presidente russo nos últimos 18 meses esteve internado pelo menos três vezes: em dezembro de 1994, no fim de julho de 1995 e em outubro passado. Da primeira vez, Yeltsin passou duas semanas no hospital, oficialmente para extração de tumor benigno no nariz. Mas em julho de 1995, após nova internação, o Kremlin foi obrigado a informar que ele sofrera uma isquemia do miocárdio (falta de oxigênio no músculo cardíaco) e ficaria 15 dias se recuperando. Três meses depois, novo ataque cardíaco e 60 dias no hospital. Os problemas cardíacos do presidente russo datam de novembro de 1987 e são agravados pela cirrose, causada pela bebida. Além disso, Yeltsin sofre de depressão e insônia e tem problemas de coluna, desde um acidente em 1990 na Espanha.
A aparência do candidato Boris Yeltsin, ontem, no seu pronunciamento de dois minutos pela televisão indicava um péssimo estado de saúde. Aos 65 anos, cardíaco, o presidente esteve internado pelo menos três vezes nos últimos 18 meses. O sumiço de quatro dias antes do seu pronunciamento foi explorado pela imprensa e , certamente, é um prato cheio para a oposição , principalmente para o concorrente Ziuganov. Além disso , as explicações oficiais truncadas, a respeito do afastamento de quatro dias, permitem vôos ao passado russo , durante o apogeu do comunismo, quando se escondiam informações sobre a situação de saúde de ocupantes do poder. A Constituição do país diz que , se o presidente adoecer, o primeiro-ministro assume e convoca nova eleição em três meses. Mas a lei sobre as eleições presidenciais informa que, se um dos candidatos ao segundo turno se retirar, será substituído pelo que ficou em terceiro no primeiro turno. No caso, o general Alexander Lebed, responsável pela segurança nacional.
GDANSK, POLÔNIA - Os estaleiros de Gdansk, no norte da Polônia, de que emergiram ao poder o Sindicato Solidariedade e seu primeiro líder, o ex-eletricista e ex-presidente Lech Walesa, não resistiram à maré capitalista. No sábado passado, a junta geral de acionistas decidiu pela liquidação da Stocznia Gdanska SA, berço histórico da luta contra o regime comunista polonês a partir dos anos 80. A companhia vai à falência afogada em dívidas que podem chegar a US$ 110 milhões. Em seu lugar, o governo, que detém 60% das ações, pretende criar uma empresa que funcione por 12 meses, apenas para terminar cinco navios em construção. Para Walesa, que voltou simbolicamente a ocupar o cargo de eletricista após perder, para os ex-comunistas, as eleições presidenciais de novembro de 1995, tudo não passa de uma manobra política. "Finalmente, os ex-comunistas sentem a satisfação de liquidar os estaleiros de Gdansk", disse, ontem, Walesa, que liderou, em 1980, a criação, dentro as instalações da companhia, do primeiro sindicato livre do Leste Europeu. Naquele ano, o Sindicato Solidariedade seria reconhecido por força de uma greve geral que abalou o governo comunista. No ano seguinte, com a decretação de lei marcial, o movimento foi reprimido, e Walesa, preso. Protestos - Ainda assim o Solidariedade seria o motor das reformas democráticas na Polônia e, de algum modo, inspiração para a queda do socialismo em todo a Europa socialista no final da década. Em 1989, o movimento voltou à legalidade e ganhou força de partido. Walesa, que encabeçou o Solidariedade por 10 anos, chegou à presidência da República em 1990. O ex-presidente prometeu apoiar as manifestações contra a falência dos estaleiros, que os operários - detentores de 40% das ações da empresa - prometem levar às ruas. Mas Walesa, que atualmente se ocupa de proferir palestras mundo afora, recusou-se a lideras protestes. "Diriam que é revanche. Mas, no lugar dos operários, lutaria pelos estaleiros. Naturalmente, com métodos pacíficos", disse Walesa, que acusou o governo de nada ter feito pela empresa. O chefe do sindicato dos operários de Gdansk, Jersy Borowczak, disse que os trabalhadores promoverão passeatas e bloquerão estradas. Há meses, os operários vêm recebendo salários com atraso e em parcelas. Amanhã, deverão receber 65% do salário de maio. Somente a bancos e companhias locais, os estaleiros devem US$ 56 bilhões. Ao decidir pela falência - com que condordaram 79% dos acionistas -, a junta alegou "falta de dinheiro para cobrir as perdas da companhia no último ano", estimadas em US$ 31,7 milhões. Os estaleiros tinham 18 navios encomendados por um total de US$ 580 milhões. Cinco estavam em construção, e o governo polonês não descarta pretende criar uma empresa sobre as ruínas econômicas do velho complexo. O novo estaleiro deve herdar apenas 3 mil dos 7.300 operários da antiga companhia. A previsão é de que funcione apenas por um ano, proibido de aceitar novos contratos. Ainda assim, nasce com os mesmos problemas da empresa que faliu: depende de que bancos financiem a construção dos navios e cubram as eventuais perdas.
Os estaleiros de Gdansk , que ascenderam ao poder o Sindicato Solidariedade e Lech Walesa , está em vias de liquidação , por questões econômicas. Dali surgiu a luta histórica contra o regime comunista polonês e um líder operário, que comandou o sindicato por dez anos, e que chegou à presidência do país. O ex-presidente prometeu apoiar as manifestações contra a falência do Solidariedade , mas , agora empenhado em fazer palestras pelo mundo afora, diz que não vai liderar os protestos , até porque isso soaria como revanche. “Mas , no lugar dos operários, lutaria pelos estaleiros; naturalmente, com métodos pacíficos.” O chefe do sindicato dos operários, Jersy Borowczak, disse que os operários, sem receber há meses, promoverão passeatas. Diante dessa tendência falimentar dos estaleiros, o governo vê como saída a criação de uma nova empresa que cumpra a produção de 18 navios encomendados , mas que não aceite novos contratos e que , portanto , não sobreviva a um ano.
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