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Balas de Estalo, de Machado de Assis Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: NUPILL - Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica <http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html> Universidade Federal de Santa Catarina Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>. Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso possvel. Balas de Estalo Machado de Assis 1883 [20] [2 julho] SABE-SE que a Sociedade Portuguesa de Beneficncia acaba de abrir uma enfermaria medicina dosimtrica. Este o nome, creio eu; e no h por onde trocar os nomes s coisas, que j os trazem de nascena. Mas no basta abrir enfermarias; til explic-las. Se a dosimetria quer dizer que os remdios dados em doses exatas e puras curam melhor ou mais radicalmente, ou mais depressa, , na verdade, grande crueza privar os restantes enfermos de to excelso benefcio. Uns ficaro meio curados, ou mal curados, outros sairo dali lestos e pimpes; e isto no parece justo. Note-se bem que eu no ignoro que os doentes, por estarem doentes, no perdem o direito liberdade; mas, entendamo-nos: a liberdade do voto, a liberdade de conscincia, a liberdade de testar, a liberdade do ventre (teoria Lulu Snior); por um sentimento de compaixo, a liberdade de descompor. Mas, no que toca aos medicamentos, no! Concedo que o doente possa escolher entre a alopatia e a homeopatia, porque so dois sistemas, ou duas escolas, a escola cadavrica (verso Maximiano) e a escola aqutica. Mas no tratando a dosimetria seno
da perfeita composio dos remdios, no h, para o doente, a liberdade de medicar-se mal. Ao contrrio, este era o caso de aplicar o velho grito muulmano: cr ou morre. Se, ao menos, a prpria dosimetria permitisse o uso de ambos os modos, as doses bem medidas, e as doses mal medidas, tinha a enfermaria uma explicao. E no seria absurdo. Conheci um mdico, que dava alopatia aos adultos, e homeopatia s crianas, e explicava esta aparente contradio com uma resposta pica de ingenuidade: para que hei de martirizar uma pobre criana? A prpria homeopatia, quando estreou no Brasil, teve seus eclticos; entre eles, o Dr. R. Torres e o Dr. Tloesquelec, segundo afirmou em tempo (h quarenta anos) o Dr. Joo V. Martins, que era dos puros. Os eclticos tratavam os doentes, "como a eles aprouvesse". o que imprimia ento o chefe dos propagandistas. Mas a dosimetria contrria a esses tristes recursos. Parece mesmo que esta nova religio ainda no passou do vers. 18, cap. IV, de So Mateus, que o lugar em que Jesus chama os primeiros apstolos, Pedro e Andr: "Vinde aps mim, e farei que sejais pescadores de homens". No h ainda tempo de ter hereges nem cismticos: est nas primeiras pescas de doentes. O nico ponto em que a escola dosimtrica se parece com a homeoptica na facilidade que d ao doente de tratar-se a si mesmo; mas isto no quer dizer que tenha de cair no mesmo abuso do ecletismo. Quer dizer que a cincia, como todas as moedas, tem seus trocos midos. Dois amigos meus andam munidos de caixas dosimtricas; ingerem isto ou aquilo, conforme um papelinho impresso, que trazem consigo. Levam a sade nas algibeiras, chegam mesmo a distribu-la aos amigos. L que isto seja novo, o que nego redondamente. O autor
destas vulgarizaes parece ser um certo Asclepades, contemporneo de Pompeu. Esse cavalheiro era mestre de eloqncia, mas sentindo em si outros talentos, estudou a medicina, criou uma arte nova, e anunciou cinco modos de cura aplicveis a todas as enfermidades. Esto ouvindo? Cinco, nem mais uma plula para remdio. Essas drogas eram: dieta, abstinncia de vinho, frices, exerccio a p e passeios de liteira. Cada um sentia que podia medicar-se a si prprio, escreve Plnio, e o entusiasmo foi geral. Tal qual a homeopatia e a dosimetria. Nem uma nem outra tocou ao sublime daquele Asclepades, que, segundo o mesmo autor, encontrando o saimento de um desconhecido, fez com que o inculcado morto no fosse deitado fogueira levou-o consigo e curou-o; mas, em suma, aguardemos o primeiro fregus que a escola cadavrica remeter para a Jurujuba. Voltando ao ponto, espero que a direo da Beneficncia atenda aos meus conselhos. No negue a cem doentes o que to liberalmente distribui a sete ou quinze. Que o semelhante cure ao semelhante, ou o contrrio ao contrrio, so afirmaes que se excluem; mas, contrrio ou semelhante, de rigor que as doses sejam as mesmas. [21] [4 julho] OCORREU-ME compor umas certas regras para uso dos que freqentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre ns esse meio de locomoo, essencialmente democrtico, exige que ele no seja deixado ao puro capricho dos passageiros. No posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vo apenas dez. ART. I Dos encatarroados Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condio de no tossirem mais de trs vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for to teimosa, que no permita esta limitao, os encatarroados tm dois alvitres: ou
irem a p, que bom exerccio, ou meterem-se na cama. Tambm podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no prprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou manico, vocao, etc., etc. ART .II Da posio das pernas As pernas devem trazer-se de modo que no constranjam os passageiros do mesmo banco. No se probem formalmente as pernas abertas, mas com a condio de pagar os outros lugares, e faz-los ocupar por meninas pobres ou vivas desvalidas, mediante uma pequena gratificao. ART. III Da leitura dos jornais Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, ter o cuidado de no roar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapus. Tambm no bonito encost-los no passageiro da frente. ART. IV Dos quebra-queixos permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstncias: a primeira quando no for ningum no bond, e a segunda ao descer. ART. V Dos amoladores Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negcios ntimos, sem interesse para ningum, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidncia, se ele assaz cristo e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe- se prefere a narrao ou uma descarga de pontaps. Sendo provvel que ele prefira os pontaps, a pessoa deve imediatamente pespeg-los. No caso alis extraordinrio e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narrao, o proponente deve faz-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstancias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses no cair em outra. ART. VI Dos perdigotos Reserva-se o banco da frente para a emisso dos perdigotos, salvo nas ocasies em que a chuva obriga a mudar a posio
do banco. Tambm podem emitir-se na plataforma de trs, indo o passageiro ao p do condutor, e a cara para a rua. ART. VII Das conversas Quando duas pessoas, sentadas a distncia, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, tero cuidado de no gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem aluses maliciosas, principalmente se houver senhoras. ART. VIII Das pessoas com morrinha As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bonds indiretamente: ficando na calada, e vendo-os passar de um lado para outro. Ser melhor que morem em rua por onde eles passem, porque ento podem v-los mesmo da janela. ART. IX Da passagem s senhoras Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, no s porque incmodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque uma grande m-criao. ART.X Do pagamento Quando o passageiro estiver ao p de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamemc pagar por ele: evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa. [21a] [2julho] O SR. DEPUTADO Penido censurou a Cmara por lhe ter rejeitado duas emendas: uma que mandava fazer desconto aos deputados que no comparecessem s sesses; outra que reduzia a importncia do subsdio. Respeito as cs do distinto mineiro, mas permita-me que lhe diga: a censura recai sobre S. Ex. no s uma, como duas censuras. A primeira emenda descabida.S. Ex. naturalmente ouviu dizer que aos deputados franceses so descontados os dias em que no comparecem; e, precipitadamente, pelo vezo de tudo copiarmos do estrangeiro, quis logo introduzir no regimento da nossa Cmara esta clusula extica. No advertiu S. Ex., que esse desconto lgico e possvel num pas, onde os
jantares para cinco pessoas contam cinco croquetes, cinco figos e cinco fatias de queijo. A Frana com todas as suas magnificncias, um pas srdido. A economia ali mais do que sentimento ou um costume, mais que um vcio, uma espcie de p torto, que as crianas trazem do tero de suas mes. A livre, jovem e rica Amrica no deve empregar tais processos, que estariam em desacordo com um certo sentimento esttico e poltico C, quando h algum para jantar, mata-se um porco; e se h intimidade, as pessoas da vizinhana, que no comparecerem, recebem no dia seguinte um pedao de lombo, uma costeleta, etc. Ora, isso que se faz no dia seguinte, nas casas particulares, sem censura nem emenda, porque que merecer emenda e censura na Cmara onde alis o lombo e as costeletas so remetidos s no fim do ms? Nem remetidos so: os prprios obsequiados que ho de ir busc-los. Demais, subsdio no vencimento no sentido ordinrio: pro labore. um modo de suprir s necessidades do representante, para que ele, durante o tempo em que trata dos negcios pblicos, tenha a subsistncia afianada. O fato de no ir Cmara no quer dizer que no trata dos negcios pblicos; em casa pode fazer longos trabalhos e investigaes. Ser por andar algumas vezes na Rua do Ouvidor, ou algures? Mas quem ignora que o pensamento, obra secreta do crebro, pode estar em ao em qualquer que seja o lugar do homem? A mais bela freguesa dos nossos armarinhos no pode impedir que eu, olhando para ela, resolva um problema de matemticas. Arquimedes fez uma descoberta estando no banho. Mas, concedamos tudo; concedamos que a mais bela freguesa dos nossos armarinhos me leva os olhos, as pernas e o corao. Ainda assim estou cumprindo os deveres do cargo. Em primeiro
lugar, jurei manter as instituies do pas, e o armarinho, por ser a mais recente, no a menos slida das nossas instituies. Em segundo lugar, defendo a bolsa do contribuinte, pois, enquanto a acompanho com os olhos, as pernas e o corao, impeo que o contribuinte o faa, claro que este no o pode fazer, sem emprego de veculo, luvas, gravatas, molhaduras, cheiros, etc. * * * No menos curiosa a segunda emenda do Sr. Penido: a reduo do subsdio. Ningum ignora que a Cmara s pode tratar dessa matria no ltimo ano de legislatura. Da a rejeio da emenda. O Sr. Penido no nega a inconstitucionalidade desta, mas argumenta de um modo singularssimo. O aumento de subsdio fez-se inconstitucionalmente; logo, a reduo pode ser feita pela mesma forma inconstitucional. Perdoe-me S. Ex., este seu raciocnio no srio; lembra o aforismo popular mordedura de co cura- se com o plo do mesmo co. O ato da Cmara, aumentando o subsdio, foi inconstitucional? Suponhamos que sim. Por isso mesmo que o foi, a Cmara obrigou-se a no repeti-lo, imitando assim de um modo moderno a palavra daquele general romano, que bradava aos soldados ao iniciar uma empresa difcil: preciso ir at ali, no necessrio voltar! [22] [15 agosto] NOTA-SE h algum tempo certa tristeza nos generais da armada. H em todos uma invencvel melancolia, um abatimento misterioso. A expresso jovial do Sr. Silveira da Mota acabou. O Sr. De Lamare, conquanto tivesse sempre os mesmos modos pacatos, mostra na fisionomia alguma coisa nova e diferente, uma espcie de aflio concentrada. No falo do Sr. Baro da Passagem, nem do Sr. Lomba; todos sabem que esses jazem no leito da dor com a mais impenetrvel das molstias humanas. No atinando com a causa do fenmeno, os mdicos resolveram fazer uma conferncia, e
todos foram de opinio que a molstia tinha uma origem puramente moral. Os generais sentem necessidade de alguma coisa. No pode ser aumento dos vencimentos; eles contentam-se com o soldo. Nem honras, eles as tm bastantes, e no querem mais. Nisto interveio o Sr. Meira de Vasconcelos. S. Ex. conversou com os enfermos, e descobriu que eles padeciam de uma necessidade de denominao nova. Fcil era o remdio; eis a receita que S. Ex. lavrou ontem, no Senado, em forma de aditivo ao oramento da Marinha: Os postos de generais do corpo da Armada passaro a ter as seguintes denominaes, sem alterao dos vencimentos nem das honras militares: Almirante (passa a ser) almirante da armada; vice-almirante (idem) almirante; chefe da esquadra (idem) vice- almirante; chefe de diviso (idem) contra-almirante. No de supor que o Senado rejeite uma coisa to simples; podemos felicitar desde j os ilustres enfermos. No ter escapado ao leitor, que, por este artigo passamos a ter quatro categorias de almirantes, em vez de duas; e ningum imagina corno isto faz crescer os pepinos. Outra coisa tambm no ter escapado ao leitor, o dom prolfico deste aditivo, porquanto ele ainda pode dar de si ,quando a molstia atacar os outros oficiais, uma boa dzia de almirantes: um quase-almirante, um almirante-adjunto, um almirante suplente, etc., at chegar ao atual aspirante de marinha, que ser aspirante a almirante. No h que dizer nada contra a medicao. A Cmara Municipal aplica-a todos os dias s ruas. Quando alguma destas padece de falta de iluminao ou sobra de atoleiros, a Cmara muda-lhe o nome. Rua de D. Zeferina, Rua de D. Amlia, Rua do Comendador Alves, Rua do Brigadeiro Jos Anastcio da Cunha Souto; c'est pas plus malin que . Foi assim que duas velhas ruas, a da Carioca e a do
Rio Comprido, cansadas de trazer um nome que as prendia demasiadamente histria da cidade, pelo que padeciam de enxaquecas, foram crismadas pela ilustre corporao: uma passou a chamar-se So Francisco de Assis, outra Malvino Reis. * Creio que o leitor sabe de um banquete que as sumidades inglesas deram agora ao clebre ator Irving. O presidente da festa foi o lord chief justice. Levantando o brinde rainha, disse, entre outras, estas palavras: Usarei de uma metfora apropriada ocasio; direi que Sua Majestade, durante muitos anos, tem desempenhado um grande papel no tablado dos negcios humanos, representando com graa, com dignidade, com honra e com uma nobre simpleza (Apoiados). Os seus sbditos sabem como ela amava o drama na mocidade... Agora, nos ltimos tempos, sob a influncia de uma grande tristeza, tem se retirado do teatro pblico. Ah! Se o Sr. Lafayette casse em usar c uma tal metfora! Se Sganarello lhe deu tantas amarguras, que diramos desta comparao da rainha com uma atriz, e do governo com um tablado? No sei se j disse que o discurso foi do lord chief justice. J o fato de ir este homem jantar com um ator extraordinrio; mas o que dir o leitor de um bilhete com que Gladstone, que atualmente governa a Inglaterra, pede desculpa a Irving de no poder comparecer, acrescentando que h dois anos para c, s tem ido aos jantares de lord mayor, que so jantares de rigor? E a nfase com que o bispo de York escreve, dizendo que os que se interessam pela moralidade pblica, devem simpatizar com as honras feitas a Irving, que to nobremente tem levantado a arte dramtica na Inglaterra? No quero citar mais nada; bastam-se estas palavras do lindo brinde do lord chief justice ao artista festejado: Em concluso: assim como a Amrica
nos mandou Booth, assim mandamos Irving Amrica, e assim como Irving e a Inglaterra receberam Booth de braos abertos, assim tambm, estou certo, aquele grande e generoso pas receber o nosso primeiro e admirvel ator. * vista destes deplorveis exemplos quer-me parecer que Sganarello e Molire no fariam to m figura na Cmara dos Comuns... * No vamos agora dar um banquete ao Sr. Pedrosa s para imitar os ingleses. * Um articulista annimo, tratando h dias do uso da folga acadmica nas quintas-feiras, escreveu que Moiss e Cristo s recomendaram um dia de descanso na semana, e acrescenta que nem Spencer nem Comte indicaram dois. Nada direi de Spencer; mas pelo que respeita a Comte, nosso imortal mestre, declaro que a afirmao falsa. Comte permite (excepcionalmente, verdade) a observncia de dois dias de repouso. Eis o que se l no Catecismo do grande filsofo. O dia de descanso deve ser um e o mesmo para todas as classes de homens. Segundo o judasmo, esse dia o sbado; e segundo o cristianismo, o domingo. 0 positivismo pode admitir, em certos casos, a guarda do sbado e do domingo, ao mesmo tempo. Tal , por exemplo, o daquelas instituies criadas para a contemplao dos filhos da Gr-Bretanha, como sejam, entre outras, os parlamentos de alguns pases, etc. E a razo esta. Sendo os ingleses, em geral, muito ocupados, pouco tempo lhes resta para ver as coisas alheias. Da a necessidade de limitar os dias de trabalho parlamentar dos ditos pases, a fim de que aqueles insulares possam gozar da vista recreativa das mencionadas instituies. (Cat. Posit., p. 302). Rio de Janeiro, 3 do Brigadeiro Jos Anastcio da Cunha Souto de 94 (14 de agosto de 1883) . [23] [16 outubro] No MOMENTO em que me sentava a escrever, recebi uma carta
de um nosso hspede ilustre. As-tu vu le mandarin ? * Pois foi ele mesmo, o mandarim, que me escreveu, pedindo a fineza de inserir nas "Balas de Estalo'' uma exposio modesta das impresses que at agora tem recebido do nosso pas. No traduzi a carta, para lhe no tirar o valor. Alm disso, h dela alguns juzos demasiado crus, que melhor fiquem conhecidos to-somente dos que sabem a lngua chinesa. Em alguns lugares, o meu ilustre correspondente inseriu expresses nossas; ou por no achar equivalente na lngua dele ou (como me parece) para mostrar que j est um pouco familiar com o idioma do pas. Eis a carta: Vu pan Llio, Lamakatu ap ling-ling "Balas de Estalo", mapapi tung? Ker siri mamma,ulama'i tik'. *Esta pergunta,reminiscente de um verso de Musset,se refere passagem,pelo Rio,do famoso mandarim,que aqui veio tratar da vinda de colonos chineses. Foi isto motivo para artigos e discursos de protesto, como para a revista O Mandarim, de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, estreada em janeiro de 1884. Ton-ton pacamar Rua do Ouvidor nappi Botafogo, nappi Laranjeiras mappi Petrpolis gog. China cava miraka Rua do Ouvidor! Naka ling! tica milung! Ita marica armarinho, gavamacu moa bonita, vala ravala balvo; caixeiro sika maripu derretido. Moanigu vaia pea fita, agulha, veludo, colchete, iva curva trapalhada. Moo lingu istu passa na rua, che-beru pitigaia entra, namora, rini mamma. Viliki xaxi xali xaliman. Acalag ting-ting valixu. Upa Costa Braga rel minag katu Integridade abaxung kapi a ver navios. Lamarika ana bapa bung? Gog xupit? Nepa in pav. Brasil desfalques latecatu. Inglese poeta, Shakespeare, kar: make money, upa lamar in lngua Brasil: mete dinheiro no bolso. Vaia, Vaia, gapaling capita passa a unha sim teka laparika. Eting pe-se a panos, etang mer xilindr. lt poxta, China kiva Li-vai-p, ab nan Otaviano Hudson, naka
panaka, neka paneca, mingu. Musa vira kassete. Mira lung Minas Gerais longu senado. Vet min Lima Duarte passi Cesrio Alvim; mar kari Evaristo da Veiga seba Incio Martins. Rebag sara Coromandel? Teca laia Coromandel? Aba lili tramway Copacabana. Vasi lang? Tacatu, pacatu, pacatu. Hu-huchi edital Wagner, limaraia Duvivier. Toca xuxu Figueiredo de Magalhes, upa, upa upa. Baba China pri. Hh... Siba- lami assemblia provincial nanakat. Mir bob xalu Galvo Peixoto: ridin teca maneca cabelinho na venta. Pantutu? Hermann limpatuba Arang chikang Companhia Telefnica ruru mamma, ipi, xuchi paripangatu, Caminha Magalhes Castro, xela kopa, xela kipa, xela kopa. Neka siri lipa Cmara dos Deputados abaling. China seca pareka amolador empala. Laka pitak? Nana pari. Faro e Lino papyros, biblos, mak gog. Lino abatukamu, Faro abatiki. Eba lat! Casteles zuru! Club Beethoven paka xali! Tarinanga ax acaritunga. Harritoff dansa mari xali! Xulica Brasil par; aba lingu retrica, palrao, tempo perdido, pari mamma; xulica Kurimantu. Iva nen, iva tat. Brasil gamela tika moka, ingls ver. Veriman? Calunga, mussanga, monau dengu. Valavala. Dara dara bastonara. Malan drice paku. Ocuoco; momero-diar. Ite, issa est. Mandarim de 1 classe TONG KONG S ING Como se ter visto, no meio de alguns reparos crus, h muita simpatia e viva observao. Quanto ao estilo, do mais puro, da escola de Macau, s doutrinas do sculo XII antes da Criao. A nossa crtica ter notado a linda imagem com que o ilustre escritor define o progresso, chegando praia da Copacabana: pacatu, pacatu, pacatu. Em suma, um documento honroso para o autor e para ns. [24] [23 outubro] A Gazeta de Londres publicou, em seu nmero de 8 do ms passado, um ofcio do vice-rei da ndia ao Conde Granville, contendo informaes interessantssimas para a questo dos trabalhadores asiticos. Visto que h tanto horror aos chins, pareceu-me interessante transcrever esse
documento: S. Ex. o Sr. Conde Granville, Secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros. Calcut, 13 de agosto de 1883. Senhor Conde Noutro ofcio que ora dirijo ao Honrado Secretrio de Estado das Colnias dou conta de alguns fatos relativos ao trabalho agrcola na ndia. Peo licena a V. Ex. para resumi-los aqui, no caso de que o governo de Sua Majestade tenha de intervir naqueles pases da Amrica, onde o trabalho chim usado, ou vai s-lo. Em primeiro lugar, devo lembrar a V. Ex. que preciso distinguir o chim do chim. O chim comum est de muito abandonado em toda a sia, onde foi suplantado por uma variedade de chim muito superior outra. Essa variedade, como j tive ocasio de dizer ao governo de Sua Majestade, o chimpanz. O deplorvel equvoco que, durante dilatados anos, classificou o chimpanz entre os macacos, estava h muito abandonado. Mas persistia a convico de que, embora pertencente famlia humana, o chimpanz fosse refratrio ao trabalho. Esta mesma convico vai desaparecer, depois das brilhantes experincias feitas nos domnios de Sua Majestade, e at na China e no Japo. O primeiro sbdito de Sua Majestade que empregou o chimpanz, foi Sir John Sterling, que reside na ndia h trinta anos. Desde 1864 o seu trabalhador era o chim comum .Ultimamente, porm, deu-se uma desordem, verdadeira rebelio, e a maior parte dos trabalhadores retiraram-se. Sir John Sterling resolveu liquidar e voltar pare a Europa; mas tendo notcia de que o chimpanz era moralmente superior ao chim comum, mandou contratar uns trinta para ensaio, e deu-se muito bem com eles. Da a seis meses a plantao tinha cerca de cem indivduos: hoje conta setecentos e trinta. Dois parentes seus lanaram mo do mesmo instrumento de trabalho; hoje h muitssimas plantaes que no tm outro. Foram os parentes de
Sir John Sterling, que me deram as notcias que nesta data transmito a V. Ex. o Sr. Secretrio das Colnias, e que vou resumir pare uso de V. Ex. A primeira vantagem do chimpanz que muito mais sbrio que o Chim comum. As aves domsticas, geralmente apreciadas por este (galinhas, patos, gansos, etc.), no o so pelo outro, que se sustenta de cocos e nozes.O chimpanz no usa roupa, calado ou chapu. No vive com os olhos na ptria; ao contrrio, Sir John Sterling e seus parentes afirmaram que tm conseguido fazer com que os chimpanzs mortos sejam comidos pelos sobreviventes, e a economia resultante deste meio de sepultura pode subir, numa plantao de dois mil trabalhadores, a duzentas libras por ano. No tendo os chimpanzs nenhuma espcie de sociedade, nem instituies, no h em parte alguma embaixadas nem consulados;o que quer dizer que no h nenhuma espcie de reclamao diplomtica, e pode V. Ex. calcular o sossego que este fato traz ao trabalho e aos trabalhadores. Est provado que toda a rebelio do chim comum provm da imagem, que eles tm presente, de um governo nacional, um imperador e inmeros mandarins. Por outro lado, a imprensa no poder tomar as dores por ele, para no confessar uma solidariedade da espcie, que ainda repugna a alguns. Quanto aos lucros, dizem-me que so de vinte e cinco a vinte e oito por cento, Sir John Sterling fez no ano de 1881, com o chim comum, vinte mil libras; em 1882, tendo introduzido em maro os primeiros chimpanzs, apurou quinze mil libras; e nos primeiros seis meses deste ano vai em onze mil e quinhentas. A perfeio do trabalho , ou a mesma, ou maior. A celeridade dobrada, e a limpeza to superior, que Sir John no viu nada melhor na Inglaterra.
No ofcio ao Secretrio das Colnias, mando alguns dados estatsticos, desenvolvidos, que no reproduzo para no alongar este. A princpio houve relutncia em admitir o chimpanz pelo fato de andar muita vez a quatro ps; mas Sir John Sterling, que naturalista e antropologista emrito, fez observar aos parentes e amigos, que a atitude do chimpanz uma questo de costumes. Na Europa e outras partes, h muitos bpedes por simples hbito, educao, uso de famlia, imitao e outras causas, que no implicam com as faculdades intelectuais. Mas tal a fora do preconceito que, assim como no caso daqueles bpedes se conclui da posio das pernas para a qualidade da pessoa, assim tambm se faz com o chimpanz; sendo ambos o mesmssimo caso: uma questo de aparncia e preconceito. Felizmente, a propaganda vai fazendo desaparecer esse erro funesto, e o chimpanz comea a ser julgado de um modo eqitativo, cientfico e prtico. Rogo a V. Ex. se digne submeter estes fatos ao conhecimento do Sr. Gladstone. Sou, etc. WEBSTER. Esta carta realmente importante, e espero sejam devidamente apreciadas e no fiquem perdidas as lies que contm. O nosso defeito no dar ateno a coisas srias! Esta das mais srias. As pessoas que preferem os chins, no podem deixar de aceitar este substituto. Segundo a carta transcrita, o chimpanz tendo as mesmas aptides do outro chim, muito mais econmico. Por outro lado, os adversrios, os que receiam o abastardamento da raa, no tero esse argumento, porque o chimpanz no se cruzar com as raas do pas. [25] [7 novembro] NASCER RICO uma grande vantagem que nem todos sabem apreciar. Qual no ser a de nascer rei? Essa ainda mais preciosa, no s por ser mais rara, como porque no se pode l chegar por esforo prprio, salvo alguns desses lances to extraordinrios, que
a histria toda se desloca. Sobe-se de carteiro a milionrio ; no se sobe de milionrio a prncipe. Entretanto, dado o caso de vocao (porque a natureza diverte-se s vezes em andar ao invs da sociedade), como h de um homem que sente mpetos rgios, combinar o sentimento pessoal com a paz pblica? A est o caso em que nem o mais fino Escobar era capaz de resolver; a est o que resolveram alguns cidados de Guaratinguet. Reuniram-se e organizaram uma irmandade de Nossa Senhora do Rosrio, que irmandade s no nome; na realidade, um reino; e tudo indica que o reino dos cus. Os referidos cidados acharam o meio de cingir a coroa sem vir busc-la a S. Cristovo: elegem anualmente um rei, e a coroa passa de uma testa a outra, pacificamente, alegremente, como no jogo do papelo. Aqui vai o papelo. O que traz o papelo? No presente ano (1883 1884), o Rei da irmandade o Sr. Martins de Abreu, nome pouco sonoro, mas no de sonoridade que vivem as boas instituies. A Rainha a Sra. D. Clara Maria de Jesus. H um Juiz do Ramalhete, que o Sr. Francisco Ferreira, e uma juza do mesmo Ramalhete que a Sra. D. Zelina Rosa do Amor Divino. No h a menor explicao do que seja este ramalhete. realmente um ramalhete ou nome simblico do principado ministerial? Segue-se o Capito do Mastro. Este cargo coube ao Sr. Antnio Gonalvez Bruno, e no tem funes definidas. Capito do Mastro faz cismar. Que mastro, e por que capito? Compreendo o Juiz da Vara, compreendo mesmo o Alferes da Bandeira. Este provavelmente o que leva a bandeira, e, para supor que o capito tem a seu cargo carregar um mastro, preciso demonstrar primeiramente a necessidade do mastro. J no digo a mesma
coisa do Tenente da Coroa, cargo desempenhado pelo Sr. Joo Marcelino Gonalves. Pode-se notar somente a singularidade de ser a coroa levada por um tenente; mas, dadas as propores limitadas do novo reino, no h que recusar. H tambm um sacristo, que alferes, o Sr. alferes Bueno, e. .. No, isto pede um pargrafo especial. H tambm um (digo?) h tambm um Meirinho. O Sr. Neves da Cruz o encarregado dessas funes citatrias e compulsivas, e provavelmente no cargo honorfico, se o fosse, teria outro nome. No; ele cita, ele penhora, ele captura os irmos do Rosrio. Assim, pois, esta irmandade tem um tesoureiro para recolher o dinheiro, um procurador para ir cobr-lo e um meirinho para compelir os remissos. Un capo d'opera. Agora, como que se tratam uns aos outros esses dignitrios? No sei; mas presumo, pelo pouco que conheo da natureza humana, que eles no ficam a meio caminho da fico. O Rei pode ter Majestade, e assim tambm a Rainha. E quando receberem os cumprimentos, adivinho que os recebero com certa complacncia fina, certo ar digno e grande. Ho de chover os ttulos Vossa Majestade, Vossa Perfumaria Vossa Mastreao. . . Em roda o povo de Guaratinguet, e por cima a lua cochilando de fastio e sono.. [26] [24 novembro] A Folha Nova afirma em seu nmero de ontem, na parte editorial, que os membros da polcia secreta; agora dissolvida, tinham o costume de gritar para se darem importncia: Sou polcia secreta! Pour un comble, viol un comble. H de haver alguma razo,igualmente secreta, para um caso to fora das previses normais.Por mais que a parafuse, no acho nada, mas vou trabalhar e um dia destes, se Deus quiser, atinando com a coisa, dou com ela no prelo. Porquanto (e esta a parte sublime do meu raciocnio),
porquanto eu no creio que fosse a idia de darem-se importncia que levasse os secretas a descobrirem-se. Conheci esses modestos funcionrios. No eram s modestos, eram tambm lgicos. Nenhum deles bradaria que era secreta, com a inteno vaidosa de aparecer; mas, dado mesmo que quisessem faz-lo, era intil porque os petrpolis que traziam na mo definiam melhor do que os mais grossos livros do universo. Eu pergunto aos homens de boa vontade razo clara e corao sincero: - Quando a gente via, na esquina, trs ou quatro sujeitos encostadinhos da Silva, com fuzis nos olhos, e petrpolis na mo, no sabia logo, no jurava que eram trs ou quatro secretas? Afinal achei a razo do fato que assombrou ao nosso colega e a ns. Peo ao leitor que espane primeiro as orelhas e faa convergir toda a ateno para o que vou dizer, que no de compreenso fcil. Os secretas compreenderam que a primeira condio de uma po1cia secreta era ser secreta. Para isso era indispensvel, no s que ningum soubesse que eles eram secretas, como at que nem mesmo chegasse remotamente a suspeit-lo. Como impedir a descoberta ou a desconfiana? De um modo simples: gritando: Sou secreta! os secretas deixavam de ser secretas, e, sabendo o pblico que eles J no eram secretas, agora que eles ficavam verdadeiramente secretas. No sei se me entendem. Eu no entendi nada. Mas, neste assunto, tudo o que se possa dizer no vale a cena, que se deu h cinco ou seis anos, na Rua da Uruguaiana. Est nos jornais do tempo. Um grupo de homens do povo perseguia a um indivduo, que acusavam de ter praticado um furto. Os perseguidores corriam gritando: secreta! secreta! Perto da Rua do Ouvidor, conseguem apanhar o fugitivo, e aparece um urbano. Este chega, olha para o
perseguido, e, com um tom de repreenso amiga: Deixa disso, Gaudncio! Polcia secreta, que se divulga, ministros de uma repblica, que matam o presidente, eis a dois fenmenos que comprovam aquele dito do Cardeal Antonelli: il mondo casca. Que diria o bom cardeal, se visse, como vi h dias, um frade dentro de um tlburi? verdade que chovia, e que a chuva, quando cai, no poupa ningum ;pode ser mesmo que a coisa no encontre oposio nos cnones. Mas para mim a questo de esttica. H em mim um resto de costela romntica, que no permite frade fora do mosteiro. Concedo-lhe que ande a p, concedo-lhe um cavalo, uma cama, um refeitrio; mas homem, tlburi! [27] [16 dezembro] VALENTIM MAGALHES perdeu uma bela ocasio de no ficar zangado. As suas "Notas Margem", de ontem, so uma das mais odiosas injustias deste tempo, alis to farto delas. No tenho nada com os quatro bacharis em direito que foram ao enterro de Teixeira de Freitas, nem com os que l no foram. Entretanto, podia lembrar ao meu amigo Valentim Magalhes, que algum motivo poderoso, embora insignificante, pode ter causado a escassez de colegas no enterro; por exemplo, a falta de calas pretas. Por mais poeta que seja, Valentim Magalhes tem obrigao (visto que est na imprensa) de compulsar os documentos oficiais e comerciais, os livros dos economistas, as tabelas de importao e exportao. Se o fizesse, saberia que todos os anos, desde fins de novembro at princpios de maro, os pases quentes exportam para a Groenlndia grande nmero de calas pretas. Nos pases frios, a exportao verifica-se entre abril e agosto. Este fenmeno tem sido objeto de profundas cogitaes. Laveleye (Da Vtement Humain, p. 79) afirma que o consumo imoderado de calas pretas entre os groenlandeses h de produzir imensa alterao nos
hbitos europeus. Eis as prprias palavras do economista belga: Je crois mme, avec de bons auteurs, que dans un sicle l'Europe ne portera plus que de pantalons gris, jaunes ou mme bleus, car il est aver qu'avec nos moyens chimiques c'est impossible de teindre une telle quantit de pantalons noirs. I1 faudra bien, ou changer nos habitudes, ou supprimer les groelandais. Leia Valentim Magalhes o ornal dos Alfaiates (tomo XVII, p. 14) e achar que, nos ltimos dez anos, a exportao de calas pretas da Europa e dos Estados Unidos para a Groenlndia atingiu a dez milhes de exemplares. Essa pode ser a causa da escassez dos amigos e colegas. Essa foi tambm a causa da pouca gente que acompanhou Alencar ao ltimo jazigo. Alencar morreu em dezembro.Tambm ele era jurisconsulto, e era romancista, orador e poltico. No era s isto: era o chefe da nossa literatura. Poderemos crer que a pouca gente no enterro dele era uma expresso de indiferena? De nenhum modo. Mas, em suma, nada tenho com os mortos. Vivam os vivos! Os vivos so os que meu amigo Valentim designa pelo nome de medalhes. Em primeiro lugar, h ainda um certo nmero de espritos bons, fortes e esclarecidos que no merecem tal designao. Em segundo lugar, se os medalhes so numerosos, pergunto eu ao meu amigo: Tambm eles no so filhos de Deus? Ento, porque um homem medocre, no pode ter ambies e deve ser condenado a passar os seus dias na obscuridade? Quer me parecer que a idia do meu amigo da mesma famlia da de Plato, Renan e Shopenhauer, uma forma aristocrtica de governo, composto de homens superiores, espritos cultos e elevados, e ns que fssemos cavar a terra. No! mil vezes no! A democracia no gastou o seu sangue na destruio de outras
aristocracias, para acabar nas mos de uma oligarquia ferrenha, mais insuportvel que todas, porque os fidalgos de nascimento no sabiam fazer epigramas, e ns os medocres e medalhes padeceramos nas mos dos Freitas e Alencares, pare no falar dos vivos E, depois, onde que o meu Valentim compra as suas balanas? Ignora ele que a felicidade humana e social depende da repartio eqitativa dos nus e das vantagens? Perante qual princpio e aceitvel essa teoria, de dar tudo a uns e nada aos outros? Lstima que Teixeira de Freitas no tivesse uma cadeira de legislador. Mas, com todos os diabos! no se pode ao mesmo tempo votar as leis e consolid-las. Que um as consolide, e tanto melhor, se a obra sair perfeita mas que outros as faam; que o Sr. Jos Zzimo, que no consolidou nada, levante a voz no arepago da nao. Ele no paga imposto? No est no gozo dos direitos civis e polticos? Que lhe falta, pois? No inventa, verdade; mas o meu amigo esquece que tudo ou quase tudo est inventado:a plvora, a imprensa, o telescpio. Portanto, emende a sua filosofia social, e venha tomar ch comigo. 1884 [28] [10 janeiro] Ho de ter pacincia; mas, se cuidam que a bala hoje de quem a assina, enganam-se. A bala de um finado, e um velho finado, que pior; de Drummond, o diplomata. Se o leitor pode desviar os olhos das graves preocupaes de momento, para algumas coisas do passado, venha ler dois ou trs pedaos da memria indita que a Gazeta Literria est publicando. A memria, realmente, trata de coisas antediluvianas, coisas de 1822, mas, em suma, 1822 existiu como este ano de 1884 h de um dia ter existido; e se qualquer de ns fala de seu av, que os outros no conheceram, falemos
um pouco de Drummond, Jos Bonifcio, D. Joo VI e D. Pedro. Diabo! Mas, pelos modos, no uma bala de estalo, uma bala de artilharia! No, no; tudo o que h mais bala de estalo. Eu s extraio de Memria aquilo que o velho Drurmmond escreveu prevendo a Gazeta de Notcias e os autores desta nossa confeitaria diria. No que a Memria no seja toda curtssima de anedotas do tempo; mas os que se interessam por essas coisas, so naturalmente em pequeno nmero, e eu s amolarei a maioria dos meus semelhantes, quando no der por isso; de propsito, nunca. Assim, por exemplo, credo que ao leitor de hoje importa pouco saber, se em 1817, dadas as denncias contra os maons, houve grandes patrulhas e tropas nos quartis, s pare prender o maon Lus Prates, que morava na Rua da Alfndega. Creio mesmo que no lhe interessa este juzo de Drummond acerca do oficial encarregado de prender aquele indivduo: "era o Coronel Gordilho(diz o velho diplomata) que depois foi pelo merecimento da sua ignorncia Marqus de Jacarepagu e senador pelo imprio." Entretanto, esta expressomerecimento da sua ignorncia de bala de estalo. Vamos, porm, a uma anedota desse mesmo ano de 1817, galantssima, uma verdadeira bala de estalo, feita pelo rei D. Joo VI, que tambm tinha momentos de bom humor: Entre os maons que se denunciaram a si mesmos, refiro os nomes de dois pelas cenas bufas que essas denncias causaram. Foram o Marqus de Angeja e o Conde de Parati. O rei caiu estupefacto das nuvens, e ainda lhe parecia impossvel que dois camaristas seus, ambos estimados e um valido, fossem maons! O Marqus de Angeja ajuntou aos protestos do seu arrependimento a oferta, que foi aceita, de toda a sua prata pare as urgncias do Estado. Foi logo
expedido em comisso para Portugal, a fim de tomar o comando e conduzir ao Rio de Janeiro a diviso auxiliadora, que se mandava vir extrada do exrcito de Portugal. Quanto ao Conde de Parati, o negcio era mais srio. O rei era muito afeioado a este conde, que foi no Rio de Janeiro o seu primeiro valido e morava no pao. Nem os protestos de arrependimento, nem a oferta de sua prata, que a no tinha, porque se servia da que era da casa real, podiam inspirar inteira confiana a respeito de quem, em razo do seu ofcio e das relaes de amizade, devia continuar no servio e no valimento de Sua Majestade. Em to apuradas circunstncias, o rei saiu pela tangente de um expediente assaz curioso. Disse ao conde, que, pare lhe no ficar nada do passado, de que se arrependia, era necessrio que tomasse o hbito de irmo da Ordem Terceira de S. Francisco da Penitncia. Foi um dia de festa no pao aquele em que o conde prestou juramento e foi recebido irmo da Ordem Terceira. O contentamento do rei no podia ser maior. O Conde de Parati, para fazer a vontade Sua Majestade, andou no pao todo aquele dia com o hbito da Ordem; destinado a lav- lo dos seus erros. Na verdade, a cena engraada, e fora dizer que o absolutismo tinha coisas boas. O marqus, dando a prata para salvar a pele, est indicando ao nosso governo constitucional um recurso til nas urgncias do Estado. Mas o caso do conde melhor. Esse maon, obrigado a passear vestido de hbito de So Francisco, foi um belo achado do rei. De certo modo, foi uma antecipao do conflito que mais tarde levou dois bispos aos tribunais, com a diferena que aquilo que o Conde de Parati
s pde fazer obrigado, foi justamente o que a maonaria queria fazer por vontade prpria: andar de hbito. No penso nisto que me no lembre do nome que em geral teve esse famoso conflito, um nome inventado para castigo dos meus pecados. Lembra-se o leitor? Questo epscopo-manica. Recite isto com certa nfase: questo epscopo-manica. No lhe parece que vai andando aos solavancos numa calea de molas velhas? Epscopo-manica. J transcrevi outros trechos, mas recuei. So interessantes, muito interessantes. mas no so alegres. So anedotas relativas todas independncia, e nelas que entram D. Pedro e Jos Bonifcio. Por conseqncia; o dito por no dito; no dou mais nada. Contudo, sempre lhes direi, aqui, que ningum nos ouve: o conselho de ministros no pao, as palavras de Jos Bonifcio ao Bregaro; a volta de D. Pedro depois de declarar a independncia; a gente que correu a So Cristvo; a imperatriz, que, no tendo mais fitas verdes para fazer laos, f-los com as do prprio travesseiro; D. Pedro, um rapaz de 24 anos, impetuoso e ardente; Jos Bonifcio grave e forte, e, quando preciso, alegre; a gente que encheu noite o teatro; as senhoras de lao verde ao peito; toda essa nossa aurora d-me uma certa sensao profunda e saudosa, que no encontro... Onde? no nariz do leitor, por exemplo. [29] [26 abril] ENFIM! Os lobos dormem com os cordeiros, e as lingias andam atrs dos ces. So as notcias mais frescas do dia. Que os lobos dormem com os cordeiros, basta ver o anncio que anda nas folhas, um anncio extraordinrio, pasmoso, um anncio da Rua do Hospcio. Vende-se ali, est ali espera de algum amador que o queira comprar, no um chapu ou um gato, no um jogo de cortinas, um armrio, um livro, uma comenda que seja, mas um (custa
diz-lo!) mais um (nimo!) mas um (palavra, s escrever o nome d um arrepio pela espinha abaixo), mas um (vamos!) mas um tigre. Sim, senhores, vende-se ali um tigre. O tigre, essa fera que os poetas arcdicos nunca deixaram de dizer que era da Hircnia, e ao qual comparavam os namorados, quando elas olhavam para outros; o tigre j no um simples desenho dos livros infantis ou uma criatura empalhada do museu; o tigre vende-se na Rua do Hospcio como o ch preto e as cadeiras americanas. Um pouco mais, e vamos ouvir discursar um camelo ou um jumento, ou damos a calada a verdadeiros cavalos. Se isto no a terra da promisso, faam-me o favor de dizer o que . Quanto aos ces perseguidos por lingias, vo ver se minto. Morreu um homem, deixando em testamento alguns legados. Noutro tempo, os legatrios nunca mais perdiam de olho o inventrio tinham procurador para lhes cuidar do negcio, farejavam o cartrio, e passavam algumas noites em claro. Tudo mudou depois que os tigres se vendem na Rua do Hospcio. Agora so os testamenteiros que andam atrs dos legatrios. Um daqueles, desesperado de esperar por estes, fez um anncio repleto de legtima impacincia, em que declara, decorrido algum tempo da publicao do testamento do Comendador Pacheco, que, estando o inventrio a encerrar-se, pede aos interessados vo requerer o que for a bem do seu direito "sob pena de, julgadas as partilhas, irem haver do herdeiro da tera os seus legados." Ubinam gentium sumus? Os legados atrs dos legatrios as lingias farejando os ces! Deus meu, bateu finalmente a hora da harmonia e do desinteresse? Vamos ver as comendas atrs das casacas, e elas a fugirem-lhes vexadas e desdenhosas? Os vencimentos em vez de os irmos ns buscar, iro ter com a gente?
Os bens passaro a correr atrs dos frades? [30] [15 maio] CHEGANDO anteontem, noite, de Macacu, onde fui estudar as febres de 1845, fiquei surpreendido com a notcia de ter o meu nome figurado em uma comisso que foi pedir a Lulu Snior a reentrada do colega Dcio. Jurei a todas as pessoas que era falso; mas mostraram-me o nmero da Gazeta em que Lulu Snior narrava tudo, e com efeito vi o meu nome, e at palavras que me so atribudas. Parecendo-me a graa um tanto pesada, entendi que era caso de um desforo pelas armas, e incumbi dois amigos, o Dr. F. C., distinto mdico, e um membro do parlamento, lhe irem pedir satisfao ou testemunhas. Eram oito horas da manh, quando os meus dois amigos treparam ao morro, e onze quando voltaram ambos com a alma aos ps. Imaginei a princpio que ele recusara o duelo; mas o Dr. F. C. tirou-me logo esta idia, dizendo: Coisa pior, coisa pior. Que ento? Tenha nimo; seja homem. O seu amigo... Que tem? No se irrite contra ele. Tudo aquilo um puro caso patolgico. Estivemos seguramente duas horas juntos, e reconheci que ele est louco. No me diga isto! No digo louco varrido, formalmente louco; mas padece de alucinaes, idias delirantes; no est bom, no; e se no tiverem cuidado, pode acabar mal, muito mal. A histria da comisso foi verdadeira, quero dizer, ele imaginou que tinha a comisso diante de si, conversou com as pessoas, ouviu as palavras e escreveu-as. Quando chegamos, ele sups logo que ramos outra comisso, e que ramos cinco. Dirigiu- se a uma cadeira vazia pare lhe dizer: "Mas, V. S.a como relator da comisso. . . " Em suma, padece do que chamamos em medicina comissiomania ou mania das comisses. A prova que
o sondei logo, segundo nos ensinam os patologistas, e perguntei-lhe se iria hoje igreja de S. Francisco, Rua Municipal, e ao paquete Amazone. Respondeu-me alegre que sim, que tenha que falar em So Francisco com o comissrio da Ordem Terceira, na Rua Municipal com dois comissrios de caf, e no paquete com o respectivo comissrio. V Sempre a mesma mania. Mas, ento, perdido?... No, ainda pode salvar. Essas alucinaes e delrios, quando no tratados, podem chegar demncia total, e mesmo idiotice e imbecilidade, para a qual noto-lhe uma certa tendncia. Urge no perder tempo. Mas, doutor, impossvel, ele raciocina perfeitamente. Que tem isso? H mil, h cem mil pessoas no universo, que raciocinam perfeitamente. e. entretanto, padecem de uma dessas alucinaes ou delrios. Conheo um alferes que est persuadido de ser major. Um deputado da legislatura de 1864 imaginava que o imperador lhe oferecia todas as manhs a pasta dos negcios estrangeiros. Contou-me mais de uma vez como se passavam as coisas. O imperador entrava (era na casa de D. Maria, Rua da Ajuda), ia ao quarto dele, com a pasta na mo, e dizia-lhe: "Romualdo, tu por que que no hs de ser ministro?" Pois bem; este deputado proferiu muitos dos melhores discursos parlamentares de 1864 e 1865. Voc no tem lido nos jornais notcias de comisses que vo oferecer isto ou aquilo, um retrato, uma venera, etc., a pessoas completamente obscuras ou insignificantes? Tenho; leio muitas vezes. Pois saiba que no h tal. So casos de comissiomania. Essas pessoas vem, sinceramente, por alucinao, uma comisso diante de si, oferecendo-lhes alguma coisa venera ou retrato, ouvem os discursos, agradecem, convidam para um copo d'gua, e crem que danam, e que as danas se prolongam at madrugada. So casos puramente patolgicos. No h neles a menor sombra de comisso ao
menos no estado agudo da molstia, porque observao feita que, quando a cura comea a operar-se, o doente ilude-se a si mesmo arranjando uma comisso de verdade, que vai deveras casa dele com a venera, que ele mesmo comprou, e lhe fazem discursos, comem realmente, e as danas prolongam-se at de manh... Pobre Lulu Snior! Que faremos ento? Sujeit-lo a um regime rigoroso. Eu creio que os excessos da mesa, os comes e bebes, que o tm perdido. O ilustre Maudsley vem em apelo da minha opinio, no seu magnfico livro: "Se os homens (diz ele) quisessem viver com sobriedade e castidade, diminuiria logo o nmero dos loucos, e mais ainda na gerao seguinte". E ele aconselha aos homens uma coisa a que chama self-restraint restringir-se, abster- se. Entende-me? Perfeitamente. Ora bem; o que convm aplicar ao seu amigo. Nada de finos pratos, nem borgonha, nem champanha, dem-lhe durante seis meses bacalhau de porta de venda e vinho de Lisboa fabricado no Rio de Janeiro; podem mesmo aumentar no vinho a dose txica, com um ou dois decigramas de pau-campeche por litro, ou meio decigrama de estricnina: a mesma coisa. [31] [4 agosto] AGORA que vamos ter eleio nova, lembraram-se alguns amigos que eu bem podia ser deputado. Tanto me quebraram a cabea, que afinal consenti em correr s urnas. Resta s a profisso de f, que o ponto melindroso. Eu podia, semelhana de um candidato ingls, em 1869, fazer este pequenino speech: "Quero a liberdade poltica, e por isso sou liberal; mas para ter a liberdade poltica preciso conservar a constituio, e por isso sou conservador". Mas, alm de copi-lo se apresentasse um tal programas (o que no fica bem), no sei se essas poucas linhas, que parecem um paradoxo, no so antes (comparadas com as nossas coisas) um
truismo. Porquanto: H muitos anos, em 1868, quando Lulu Snior andava ainda no colgio, e, se fazia gazetas, no as vendia e menos ainda as publicava, nesse ano, e no ms de dezembro, fui uma vez assemblia provincial do Rio de Janeiro, vulgarmente salinha. Orava ento o deputado Magalhes Castro. Nesse discurso, essencialmente poltico e terico, o digno representante ia dizendo o que era e o que no era, o que queria e o que no queria. Ao p dele, ou defronte, no me lembro bem, ficava o deputado Monteiro da Luz, conservador, e o deputado Herdia, liberal, que ouviam e comentavam as palavras do orador. Eles o aprovavam em tudo, e, no fim, quando o Sr. Magalhes Castro, recapitulando o que dissera, perguntou com o ar prprio de um homem que sabe e define o que quer, eis o dilogo final (consta dos jornais do tempo ): O SR. MAGALHES CASTRO: Agora pergunto: quem tem estes desejos o que ? o que pode ser? O SR. MONTEIRO DA LUZ: conservador. O SR. HERDIA: liberal. O SR. MONTEIRO DA LUZ: Estou satisfeito. O SR. HERDIA: Estou tambm satisfeito. Portanto, basta que eu exponha as teorias para que ambos os partidos votem em mim, uma vez que evite dizer se sou conservador ou liberal. O nome que divide. Resta, porm, a questo do momento, o projeto do governo, a liberdade dos 60 anos, com ou sem indenizao, ou o projeto do Sr. Felcio dos Santos, que tambm um sistema, ou o do Sr. Figueira, que no um nem outro. Sobre este ponto confesso que estive sem saber como explicar-me, at que li a circular de um distinto deputado, candidato a um lugar de senador. Nesse documento que corre impresso, exprimia-se assim o autor: "Quanto a questo, servil j expendi o meu
modo de pensar em dois folhetos que publiquei, um sobre a baixa do acar, outro sobre colonizao". Desde que li isto vi que tinha achado a soluo necessria ao esclarecimento dos leitores. Com efeito, impossvel que eu no tenha publicado algum dia, em alguma parte, um outro folheto sobre qualquer matria mais ou menos correlata com os atuais projetos. Na pior das hipteses, isto , se no tiver publicado nada, ento que estou com a votao unnime. A razo que devemos contar em tudo com a presuno dos homens. Cada leitor querer fazer crer ao vizinho que conhece todos os meus folhetos, e da um piscar de olhos inteligente e os votos. Eu, pelo menos, o que vou fazer. De tanta gente que andou pelas ruas, no centenrio de Cames, podemos crer que uns dois quintos no leram Os Lusadas, e no eram dos menos fervorosos. O mesmo me vai acontecer com o Sr. Peixoto. Vou dizer a toda a gente que li e reli os dois folhetos do Sr. Peixoto, tanto o do acar como o da colonizao, acreditarei que so in 8., com 80 ou 100 pginas, talvez 120, bom papel, estatsticas e notas. Interrogado sobre o valor comparativo de ambos, responderei que prefiro o do acar por um motivo patritico, visto que o acar um produto do pas e a colonizao vem de fora; mas direi tambm que o da colonizao tem idias muito prticas e aceitveis. Podia tambm citar a Cmara anterior, que com infinita serenidade votou pela reforma eleitoral constitucional, e depois pela mesma reforma eleitoral constitucional; mas no adoto esse alvitre, um dos mais singulares que conheo, para no ser acusado injustamente de mudar a opinio ao sabor dos ministros. Prefiro entrar sem programa, e eis aqui o meu piano consubstanciado nesta anedota de
1840: Era uma vez um sujeito que aparecia em todos os casamentos. Em sabendo de algum vestia-se de ponto em branco e ia para a igreja. Depois acompanhava os noivos casa, assistia ao jantar ou ao baile. Os parentes e amigos da noiva cuidavam que ele era um convidado da noiva, e, vice-versa, cuidavam que era pessoa do noivo. sombra do equvoco ia ele a todas as festas matrimoniais. Um dia, ao jantar, disse-lhe um vizinho: V. S a parente do lado do noivo ou do lado da noiva? Sou do lado da porta, respondeu ele, indo buscar o chapu. Levava o jantar no bucho. [32] [23 agosto] ANDA NOS JORNAIS, e j subiu s mos do Sr. Ministro dos Negcios Estrangeiros, uma representao do Clube ou Centro dos Molhadistas contra os falsificadores de vinhos. Trata-se de alguns membros da classe que, a pretexto de depsito de vinhos, tm nos fundos da casa nada menos que uma fbrica de falsificaes. Segundo a representao, os progressos da qumica permitem obter as composies mais ilusrias, com dano da sade pblica. Ou me engano, ou isto quer dizer que se trata de impedir a divulgao de certa ordem de produtos, a pretexto de que eles fazem mal gente. No digo que faam bem; mas no vamos cair de um excesso em outro. Os homens reunidos em sociedade (relevem-me este tom meio pedante) esto virtual e tacitamente obrigados a obedecer s leis formuladas por eles mesmos pare a convenincia comum. H, porm, leis que eles no impuseram, que acharam feitas, que precederam as sociedades, e que se ho de cumprir, no por uma determinao de jurisprudncia humana, mas por uma necessidade divina e eterna. Entre essas, e antes de todas figure a da luta pela vida, que um amigo meu nunca diz seno em
ingls: struggle for life. Se a luta pela vida uma lei verdadeira e s um louco poder neg-lo, como h de lutar um molhadista em terra de Molhadistas? Sim, se este nosso Rio de Janeiro tivesse apenas uns vinte molhadistas, claro que venderiam os mais puros vinhos do mundo,e por bom preo,o que faria enriquecer depressa, pois no os havendo mais baratos, iriam todos compr-los a eles mesmos. Eles, porm, so numerosos, so quase inumerveis, e tm grandes encargos sobre si; pagam aluguis de casa, caixeiros, impostos, pagam muita vez o pato, e ho de pagar no outro mundo os pecados que cometerem neste, e tudo isso lutando, no contra cem, mas contra milhares de rivais. Pergunto: o que que lhes fica a um canto da gaveta? No iremos ao ponto de exigir que eles abram um armazm s para o fim de perder. O mais que poderamos querer que no o abrissem; mas uma vez aberto, entram na pura fisiologia universal; e tanto melhor se a qumica os ajuda. Tambm matar um crime. Mas as leis sociais admitem casos em que ilcito matar, defendendo-se um homem a si prprio. Bem, o molhadista do n 40, que falsifica hoje umas vinte pipas de vinho, que outra coisa fez seno defender-se a si mesmo, contra o molhadista do n. 34 que falsificou ontem dezessete? Struggle for life, como diz o meu amigo. Depois, faamos um pouco de filosofia Pangloss, penetremos nas intenes da Providncia. Se com drogas qumicas se pode chegar a uma aparncia de vinho, no parece que este resultado legtimo, lgico e natural? Acaso a natureza uma escola de crimes? E dado mesmo que um tal vinho seja danoso sade pblica, no pode acontecer que seja til virtude pblica, levando os homens a abater-se? E, porventura, a virtude merece
menos que a sade? No so ambas a mesma coisa, com a diferena que a virtude ainda superior? No entrar tudo isso nos clculos do cu? Eu bem sei que era melhor no vender nada, nem vinho puro, nem vinho falsificado, e viver somente daquele produto a que se refere o meu amigo Baro de. Capanema, no Dirio do Brasil de hoje: "Alguns milhes de homens livres no Brasil (escreve ele) vivem do produto da pindaba. .." Realmente eu conheo um certo nmero que no vive de outra coisa. E quando o escritor acrescenta: "...pindaba do tatu que arrancam do buraco. . ." penso que elude a alguns nqueis de mil-ris que tm sado da algibeira de todos ns. Era melhor; mas isto mesmo pode dar lugar a falsificaes. Nem todas as pindabas so legtimas. E a prpria qumica finge algumas, por meio das lgrimas que so, em tais casos, qumica verdadeira. Talvez por isso tudo, que um cavalheiro, que no sei quem seja mas que more na Travessa do Maia, lembrou-se de fazer este anncio: "Braso de armas, composio de cartas da nobreza, rvore genealgica, todo e qualquer trabalho herldico, em pergaminho, pintura em aquarela e dourados, letras gticas, trata-se na travessa etc." Esse cidado no viver na pindaba, nem lhe diro que fez vinho nos fundos da fbrica. No fez vinho, fez historia, fez geraes, escolha, latinas ou gticas. E no se pense que oficio de pouca renda Na mesma case convidam-se as senhoras que se dedicam arte de pintura e quiseram trabalhar. Se ainda acharem que h a muita qumica, cito-lhes fsica, cito-lhes um "grande cartomante" (sic) da Rua da Imperatriz, que d consultas das 7 s 9 da manh. Fsica, e boa fsica. Que querem? preciso comer. Cartomancia, herldica, pindaba de tatu, ou vinhos confeccionados no
fundo do armazm, tudo isso vem a dar na lei de Darwin. [33] [29 outubro] J tnhamos Lafaiete, ministro de Estado e presidente do Conselho, citando Molire na Cmara. No tudo. Para cit-lo bastam florilgios e o incomensurvel Larousse, nelas o nosso ex-ministro leva o desplante ao ponto de o ler e reler. Felizmente, a indignao parlamentar e pblica lavou a Cmara e o pas de to grande mancha, e podemos esperar com tranqilidade o juzo da histria. Agora temos Taunay, em vsperas de eleio, cuidando das msicas do Padre Jos Maurcio, e citando (custa-me diz-lo), citando Haydn e Mozart. No ignoro que tudo isto de Taunay e Lafaiete, afinal de contas, so francesias de nomes e de cabeas. Ouviram dizer que em Frana alguns deputados lem os clssicos, e imaginaram transportar o uso para aqui. No advertiram que nem todas as coisas de um pas podem aclimar-se em outro. No concluamos da pomada Lubin para o Misantropo. So coisas diferentes. Paul-Louis-Courrier, to conhecido dos nossos homens, compondo na cadeia um opsculo poltico, interrompia o trabalho para escrever mulher que lhe mandasse uma certa frase de Beaumarchais. Segue-se da que devemos todos ler Beaumarchais? Pelo amor de Deus! O caso de Taunay mais grave. Lafaiete conspurcou. verdade, a tribuna parlamentar com um pobre- diabo que, posto viva h dois sculos na memria dos homens, era, todavia, um saltimbanco ou pouco mais. Taunay levanta os braos no cu, consternado, porque as obras musicais do Padre Jos Maurcio andam truncadas, perdidas ou quase perdidas. A melhor explicao que se pode dar de um tal destempero, que o estado mental de Taunay no bom; mas, se no assim, no sei como qualifique esta preocupao do meu amigo. Reparem bem que Taunay embarca para a provncia de Santa Catarina, onde vai pedir que Lhe
dem votos para deputado. Nesse momento solene, em que o mais medocre esprito gemeria pela queda de alguns delegados ou majores, Taunay lastima a perda de alguns responsrios de Jos Maurcio. Responsrios! Mas de suspensrios que tu precisas, Taunay, tu precisas de suspensrios eleitorais que te levantem e segurem os calas legislativas. Deixa l os responsrios do padre. Esto perdidos? pacincia; perde-se muita coisa por esse mundo. Eu hoje, ao ler-te perdia tramontana, e tu, se vais nesse andar, perdes a eleio. J tinhas a enxaqueca literria e as belas pginas de Inocncia, e como se isso no bastasse, pes c para fora ~ tua sabena musical. Taunay, Taunay, amigo Taunay, deixa as coisas de arte onde elas esto, achadas ou perdidas, muda de fraseologia, atira-te aos cachorros, paulas, lees, todo esse vocabulrio, que s aparentemente d ares de aldeia, mas encerra grandes e profundas idias. J estudaste o coronel? Estuda o coronel, Taunay. Estuda tambm o major, e no os estuda s, ama-os, cultiva-os. Que s tu mesmo, seno um major forrado de um artista? Descose o forro, et ambula. Sim, Taunay, fica prtico e local. Nada de responsrios, nem romances e ests no trinque, voltas eleito e podes ento, vontade, danar cinco ou seis polcas por ms. Tambm msica, e no de padre. [34] [3 novembro] O SR. DR. CASTRO LOPES deseja juntar aos seus louros de latinista eminente os de legislador. Apresenta-se candidato pelo 1. distrito com uma circular em que promete aplicar todos os esforos em prover de remdio as finanas do pas. Tendo-as estudado desde longos anos, o recente candidato formulou alguns projetos, que apresentar na Cmara, tendentes principalmente "a aliviar a nao da sua dvida interna e externa, sem o mnimo gravame nem do povo nem do tesouro`'. Povo e tesouro para os efeitos
puramente pecunirios pode dizer- se que so a mesma coisa; mas o importante que a medida, qualquer que seja, nada menos que a salvao do Estado. Vde, porm, como uma idia se liga a outra. A circular recordou-me um drama, que escrevi h muitos anos (vinte e trs, no digam nada), obra incorreta e fraca, mas que ainda assim conservei comigo at 1878, ano em que mudei de casa e queimei vrios manuscritos. Chamava-se Triptolemo XVII ou O Talism. Tratava tambm de um Estado oberado de grandes dvidas. Triptolemo quer casar a filha, a princesa Miostis, com o prncipe Falco, e no acha quem lhe empreste dinheiro para as bodas. Oferece altos juros, hipotecas, comisses gordas, e nada, ningun1 acode. Ao contrrio, os credores renem-se, amotinam-se e correm ao pao, que fica cercado por eles. pedindo com altos brados que lhes mandem dar tudo, capital e juros Os ministros sucedem-se com uma rapidez vertiginosa. Duram sete a oito minutos: no achando meio de pagar a dvida pblica, so enforcados logo. O ltimo nomeado est com a pasta desde as nove e cinco; Triptolemo vem dizer-lhe que s faltam oito para salvar o Estado ou morrer e retira-se. Nisto aparece um respeitvel ancio que declara possuir um segredo para salvar tudo, o Estado e a vida do ministro. Este manda-o embora, abre a janela e contempla a forca. Daqui a dez minutos serei cadver, murmura ele. No! brada uma voz. Era uma fada, a fada Argentina,que, enamorada da beleza do ministro. vem oferecer-lhe um talism, ensinando-lhe que, sempre que bater com ele no ombro de Triptolemo, as algibeiras deste regurgitaro de ouro. O ministro recusa crer; mas a fada pede-lhe que v verific-lo e desaparece. Nove horas e onze minutos. Entra Triptolemo: fora ouvem-se os berros dos credores, o pao est
prestes a ser assaltado. Ento o ministro pede licena a Triptolemo. bate-lhe no ombro, e as algibeiras rgias comeam a entornar moedas de ouro. Estupefao do rei e do ministro. Outro toque, outra emisso, e as moedas correm, descem, amontoam-se. So ducados, libras, florins, liras, duros, rublos, thalers tudo, so milhes, vinte milhes, duzentos milhes, quinhentos milhes. Triptolemo paga aos credores juros e capital, casa a filha e o talism guardado nas arcas do Estado como um recurso para os lances difceis. No fim, aparece outra vez o ancio respeitvel e confessa em pblico e raso que o seu meio, posto que eficaz, era muito mais lento. Consistia, concluiu ele, na aplicao desta regra de Franklin: "Se te disserem que podes enriquecer por outro modo, que no seja o trabalho e a economia, no acredites". Eu aplicava a regra ao pagamento das dvidas, que um modo de enriquecer. Paga o que deves, v o que te fica. Mas, reconheo que era levar muito tempo, e... J se compreende que a circular me lembrasse o drama. O nico ponto obscuro para mim se o remdio da circular o talism ou a regra de Franklin. 1885 [35] [26 janeiro] H PESSOAS que no sabem, ou no se lembram de raspar a casca do riso para ver o que h dentro. Da a acusao que me fazia ultimamente um amigo, a propsito de alguns destes artigos, em que a frase sai assim um pouco mais alegre. Voc ri de tudo, dizia-me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da comdia, de peur d'tre oblig d'en pleurer. Mas to depressa lhe dei essa resposta como recebi das mos do destino um acontecimento deplorvel, que me obriga a ser srio? na casca e no miolo. Nem h outro
modo de apreciar o ato praticado pela polcia, ontem? pouco antes das dez horas da manh, nas duas casas em que esto expostos alguns ossos de defunto. Apareceu em ambas um agente policial, acompanhado de dois urbanos, e polidamente pediu aos donos que retirassem os ossos da vitrina Responderam-lhe naturalmente que no podiam faz-lo, desde que ali foram levados por outras pessoas, mas que iam entender-se com elas. O agente, porm, que levava o plano feito, declarou que no trazia ordem de esperar e insistiu em que os ossos fossem retirados imediatamente. Antes de obedecer? perguntaram-lhe. em ambas as casas, se havia lei que proibisse a exposio dos ossos de gente morta. Na primeira, apanhado de supeto, deu uma resposta que Lhe servia tambm para a outra, disse que, efetivamente, no havia lei especial, mas que a lei era feita para as hipteses possveis, no para absurdos. Reconhecia as intenes puras de todos e no entrava nem podia entrar na controvrsia dos nmeros; mas, como agente da autoridade, no podia consentir em tal profanao. Em uma das casas, um rapazinho, fregus adventcio, como tinha algumas lambujens da qumica dos ossos, lembrou-se de dizer que no havia tal profanao: tratava-se de um punhado disto e daquilo. Mas para a polcia no h qumica? no h nada. Resolvida a ir adiante, pediu segunda vez a retirada dos ossos. Em ambas as casas, ainda lhe disseram que, aparentando respeitar os mortos, a polcia diminua-os, desde que punha os respectivos ossos abaixo de um estandarte de carnaval: pode expor-se um emblema de folia, uma vitela de duas cabeas, um anans monstro, e no se h de expor dois ou trs meros, quatro que sejam? Mas estava escrito. A polcia trazia o plano de, sem lei nem nada exceto uma razo de convenincia e decoro,
fazer retirar dali os ossos, e conseguiu-o. Meteu-os em duas urnas, trazidas pelos urbanos e remeteu-os para a Faculdade de Medicina. Em tudo isso, no h duvida que se portou com muito tacto e polidez; mas nem por isso os homens srios deixaram de ficar acabrunhados, ao ver essa limitao da liberdade. Eu, alm desta razo ltima, fiquei aborrecido, porque tinha mandado dizer a umas primas de Itabora que viessem ver os ossos do Malta e os do outro que pelo nome no perca: elas chegam amanh e no acham nada; e, pobres como so, tero de fazer maior despesa o que contavam. Costumam, efetivamente, todos os anos, vir corte pelo carnaval, mas desta vez adiantaram a viagem para ver as duas coisasos meros e os mscarase s lhe ficaram os mscaras. No pouco, mas no tudo Enfim, est acabado. Concluo dizendo autoridade que um erro abusar do poder; as liberdades vingam- se, e a liberdade de expor no e a menos vivaz e rancorosa. Hoje tiram-nos o direito de expor um par de canelas; amanh arrancam-nos o de expor as nossas queixas. No vejam nisso um trocadilho: premissa traz conseqncia. Liberdade morta, liberdade moribunda. [36] [30 janeiro] SABE O LEITOR o que Lhe trago aqui? Uma prola. No acredita J esperava por isso; mas a minha vingana que voc to depressa lhe puser o olho, pe-lhe a mo, e manda engast-la em um boto de camisa, se no for casado, porque ela e tamanha, que est pedindo um colo de senhora. Pesquei-a agora mesmo na costa da Cmara Municipal. Gosto daqueles mares, s vezes tempestuosos, s vezes banzeiros, mas sempre fecundos. Dizem que h um plano de fazer desaguar ali os rios Maranho e Caiap, contra todas as indues de geografia, e a despeito das leis da hidrulica. Contanto
que me no tirem as prolas. Vamos a que acabo de colher. Todos os anos, em se aproximando o entrudo, a Cmara manda correr um edital que o probe, citando a postura e apontando as penas. At aqui a ostra; agora a prola. Este ano a Cmara fez saber duas coisas: primeiro, que a postura est em seu inteiro vigor; segundo, que deve ser cumprida literalmente. Sim meu senhor, literalmente: deve ser cumprida literalmente. Je suis dj charm de ce petit morceau Isto em trocos midos, quer dizer: Meus filhos, olhem que agora serio. Estou cansada de publicar editais que nem mesmo os ingleses vem. ao, no pode ser. Canso-me em dizer que atirar gua um delito, encrespo as sobrancelhas, pego na vara de marmeleiro, e o mesmo que se casse um carro. Nada, agora srio. Ho de cumprir I literalmente a postura, ou vai tudo raso. Entretanto, a coisa menos fcil do que parece. A postura impe multa aos que jogam entrudo, e, no podendo o infrator pagar a ' multa, sofrer "dois a oito dias de priso"; sendo escravo, porem, i sofrer "dois a oito dias de cadeia". Como encaminhar literalmente esses dois infratores, um para a priso, outro para a cadeia. Se no fosse a condio da literalidade, eu, no caso dos urbanos, mandava-os ' ambos para o xilindr, que um meio-termo; mas devendo ser literal, no saberia que fazer. Um grande romano recomendava, para os casos de dvida, absteno H de ser provavelmente a prtica dos urbanos. No sabendo distinguir entre as duas penas, mandaro os infratores para suas casas. Mas tambm pode ser que eles prefiram as mximas cristas aos preceitos pagos, e, em tal caso, lembrados de que a letra mata e o esprito vivifica, traduziro o literalmente do edital por esta frase: trabalho
o refle. Se a letra mata, no h nada mais literal que o refle. Mas o que o leitor no suspeita que no Lhe dou esta prola, e assim castigo a incredulidade com que me recebeu. Vou restitui-la a matrona municipal. Ela a por ao colo, nos trs dias de entrudo, pare assistir ao baile dos limes-de-cheiro, que promete ser esplndido, to esplndido que ela acabar por danar com os outros. Se assim acontecer, que far a Cmara nos anos seguintes. Ter de recorrer a outros advrbios, ferrenhamente, implacavelmente! terrivelmente, e sempre inutilmente, porque nestas coisas, amiga minha, ou se trata de um recreio popular, e preciso fazer como aquele chefe de polcia, que o trocou por outro;ou se trata de eleies, e ento, antes de dar um advrbio execuo das leis, melhor dar-nos o sentimento da legalidade, que est muito por baixo. E depois, pode ser que o povo imagine que o direito de fazer entrudo, como o de expor ossos de defunto nas vitrinas. e constitucional. Se assim for, creia a Cmara que ele h de defend-lo, a todo custo, considerando que, se hoje lhe tirasse o de jogar gua, amanh pode tirar-lhe o de profanar ossos nas vitrinas da Rua do Ouvidor. Premissa traz conseqncia; liberdade morta, liberdade moribunda. Ou mais derramadamente: as liberdades dependem tanto umas as outras, que o dia da morte de uma a vspera da morte de outra. a l em vinte palavras o que estava em duas. [37] [17 fevereiro] NO ACABO de entender por que motivo as folhas de hoje, unanimemente noticiam que o entrudo este ano foi menor que nos anteriores, quando a verdade que no houve entrudo nenhum, nem muito, nem pouco. No se chamar entrudo ao nico limo que se atirou na cidade, e foi obra de um
homem que chegou na vspera e no tinha lido as ordens proibitivas da polcia e da Cmara Municipal. Assim o disse ele ao subdelegado, pagando a multa em dobro, e declarando (por um nobre sentimento de filantropia) que o excesso da multa legal fosse aplicado ao fundo de emancipao O subdelegado apertou-lhe as mos com efuso e dignidade. Eu teria feito a mesma coisa. E essa foi a contraveno nica, aqui vai agora um admirvel exemplo da estrita obedincia s ordens policiais . Sabe-se que nestes trs dias, das quatro horas da tarde em diante, no passa carro sem pessoa mascarada, nas ruas da Quitanda, Ourives, Gonalves Dias e Uruguaiana, na parte compreendida entre as do Rosrio e Sete de Setembro. Mora na primeira daquelas ruas um compadre meu, negociante de massames e aparelhos nuticos (Ship-Chandler), com armazm na Rua da Sade. Em outubro ltimo, foi acometido de uma frouxido de nervos, que o no permite andar a p. Comprou um carro, em que sai de casa para o armazm, s oito horas da manh, e que o traz do armazm para casa _ s 5 da tarde. Diante da ordem policial, achou-se o meu compadre um tanto perplexo, por lhe parecer que as qualidades e disposies do carro no ficavam alteradas pelo fato de trazer a pessoa que vai dentro um pedao de papelo na cara ou no bolso. Releu a ordem a ver se ficavam executados os moradores daquelas ruas, mas no achou nada. Nesse conflito entre o dever e as circunstncias, no quis recorrer minha casa, onde ele sabe que ter sempre cama e um lugar mesa. No senhor; mandou comprar uma mscara. s cinco horas sai da Rua da Sade sem mscara; chega esquina da Rua do Rosrio, manda parar o carro, pe a mscara, o
carro continua a andar, e chega porta da casa sem inconveniente. Chamem-me o que quiserem; declaro que acho isto bonito procedimento. Com pequena despesa (pois no h necessidade de mscara rica para andar algumas braas de rua), submete-se um homem regra comum, sem grave alterao dos hbitos. Note-se que a mscara, apesar de barata, no feia. Quem quiser v-la ainda hoje v postar-se na Rua da Quitanda, esquina da do Rosrio. s cinco horas e dez ou cinco minutos, ver parar um carro, e observar o resto. Nestes dois dias tem sido o recreio da vizinhana. [38] [8 maro] H UM FALAR e dois entenderes, costume dizer o povo, e no diz tudo, porque a verdade que h um fa1ar e dois, cinco ou mais entenderes, segundo os casos. Contemplamos, por exemplo, a companhia de Carris Urbanos. A ltima assemblia geral dos acionistas desta companhia adotou duas propostas: uma para construir o capital por meio de medidas que se vo descobrir e estudar, e outra para distribuir provisoriamente os dividendos de trimestre em trimestre. Na vida comum, estas duas propostas pareceriam excluir-se. Eu, quando tenho que reconstruir a algibeira, no dou aos amigos mais que um aperto de mo. Nenhum me pilha charuto. Nas associaes o caso diferente. Em primeiro lugar o dividendo trimestral o mesmo que o semestral ou anual; d-se em quatro partes em vez de se dar em duas. S aumenta a escriturao e o trabalho. Em segundo lugar, o sistema que consistisse em pegar dos dividendos e reconstruir com ele o capital, suspendendo a entrega aos acionistas por algum tempo, seria ridiculamente emprico e singularmente odioso, alm de valer tanto como uma pinga dgua. Emprico, porque assim que fazem os autores de quadrinhas, modinhas e outras obrinhas miudinhas: estando cansados de compor, vo primeiro refazer o
intelecto, por qu? Eis que eles no sabem. Odioso, porque quando o acionista estava em casa, rumindo a morte da bezerra, as pessoas que o foram buscar, no lhe disseram que os capitais so sujeitos a emagrecer no vero; ao contrrio, em geral os capitais, mormente os capitais em preparo, so de uma gordura que faz pena. 0 mesmo digo companhia de S. Cristvo, que anda discutindo na imprensa que ho de ser os seus diretores: e discutindo a soco, a pontap, a bolacha, quando a coisa para mim est resolvida por si mesma: a do personagem de Moliere. Le vritable Amphytrion c'est l Amphytrion o lon dne Tudo isto claro e clarssimo, para quem se dar o trabalho de ver se as coisas correspondem todas ao nome que tem. As questesdevem ser examinadas. As idias devem comear por ser entendidas. No sou eu que o digo: di-lo um dos ornamentos do nosso clero, Monsenhor Calino, que ainda ontem me fazia esta reflexo: Voc repare que cada coisa tem o seu nome; mas o mesmo nome pode no, corresponder a coisas ou pessoas semelhantes. Quiosque, por exemplo. L fora o quiosque ocupado por uma mulher que vende jornais. C dentro o lugar onde um cavalheiro vende coisas diversas, lei de aclimao. [39] [8 maro] A ARTE DE DIZER as coisas sem parecer diz-las to preciosa e rara, que no resisto ao desejo de recomendar dois modelos recentes. Um deles at um decreto. Com o especioso pretexto de reformar o regulamento de 12 de maio de 1883, o Sr. Conselheiro De Lamare expediu uma verdadeira advertncia oposio da Cmara, para o caso de que esta queira dar batalha ao ministrio. No recusa a batalha (abalroao, na terminologia do documento), mas no quer ser apanhado de surpresa. Da as multiplicadas recomendaes aos
barcos de boca aberta, ou embarcaes de pescaria, tanto os que pescam de rede, como os de linha ou de arrasto, para que tragam luzes de duas ou mais cores, a fim de serem vistos de todos os pontos do horizonte. Horizonte um sinnimo. O segundo modelo desta arte de escrever o programa da Associao Instrutiva e Beneficente. Esta associao, que vai inaugurar os seus trabalhos no dia 25 do corrente, d mdico e botica aos scios, cem mil-ris para o enterro e quinhentos mil-ris como legado aos substitutos institudos pelo scio morto. Conta seis mdicos, quatro alopatas e dois homeopatas, e duas farmcias. Um dos farmacuticos membro do conselho. Quanto s obrigaes, so, por enquanto, a entrada mensal de 4$180; em breve, porm, s se admitiro scios que entrem com 100$000 de jia. On ne parle ici que de ma mortexclama certo personagem de comdia. No se pode dizer outra coisa deste prospecto, em que a gente sai do mdico para a botica, e da botica para o mdico. E a parte instrutiva? A parte instrutiva c est: A associao, por sua administrao, tendo tido imensos pedidos para que quanto antes d comeo aos seus trabalhos, mas sendo o seu intuito nunca prejudicar os associados, resolveu, por ora, suspender o benefcio da instruo primria, contido em estatutos, para p-lo em vigor em poca mais favorvel; bem como que ir contratando outros farmacuticos... Bem; adiemos a instruo primria para tempos melhores. No nos falta tudo, temos as farmcias, que parte beneficente. O pior que a associao ainda no comeou os seus trabalhos, e j pesa sobre ela a mo da fatalidade, trazendo uma lacuna, ainda que passageira, diretoria. Adoeceu uma pessoa da famlia do tesoureiro, e este teve de retirar-se para o interior, donde oxal que volte, antes mesmo que
a instruo principie. Tudo, porm, se recomps ficando a tesouraria interinamente confiada a um dos farmacuticos, que j era membro do conselho. Creio haver dito que vo ser contratados outros farmacuticos, e consequentemente outras farmcias tanto alopticas como homeopticas... Mas, com os diabos! On ne parle ici que de ma mort! [40] [14 maro] TRAGO AQU! no bolso um remdio contra os capoeiras. Nem tenho dvida em dizer que muito superior ao clebre Xarope do Bosque que fez curas admirveis e at milagrosas, at princpios de 1856, decaindo em seguida, como todas as coisas deste mundo. A minha droga pode dizer-se que tem em si o sinal da imortalidade. Agora, principalmente, que a guarda urbana foi dissolvida, entregando ontem os refles, receiam alguns que haja uma exploso de capoeiragem (s para os moer), enquanto que outros crem que a substituio da guarda bastante para fazer recuar os maus e tranqilizar os bons. Ho de perdoar-me: eu estou antes com o receio do que com a esperana, no tanto porque acredite na exploso referida, como porque desejo vender a minha droga. Pode ser que haja nesta confisso uma ou duas gramas de cinismo; mas o cinismo, que . a sinceridade dos patifes, pode contaminar uma conscincia reta. pura e elevada, do mesmo modo que o bicho pode roer os Mais sublimes livros do mundo. Vamos, porm, droga, e comecemos por dizer que estou em desacordo com todos os meus contemporneos, relativamente ao motivo que leva o capoeira a plantar facadas nas nossas barrigas. Diz- se que o gosto de fazer mal, de mostrar agilidade e valor, opinio unanime e respeitada como um dogma. Ningum v que simplesmente absurda. Com efeito, no duvido que um ou outro, excepcionalmente, nutra essa perverso de entranhas, mas a natureza humana no comporta a extenso de
tais sentimentos. No incrvel que tamanho nmero de pessoas se divirtam em rasgar o ventre alheio, s para fazer alguma coisa. No se trata de vivisseco, em que um certo abuso, por maior que seja, sempre cientfico, e com o qual, s padece cachorro, que no gente, como se sabe. Mas como admitir tal coisa com homem e fora cio gabinete? Bastou-me fazer esta reflexo, para descobrir a causa das facadas annimas e adventcias, e logo o medicamento apropriado. veja o leitor se no concorda comigo? Capoeira homem. Um dos caractersticos do homem viver com o seu tempo. Ora, o nosso tempo (nosso e do capoeira) padece de uma coisa que poderemos chamarerotismo de publicidade. Uns podero crer que achaque, outros que uma recrudescncia de energia, porque o sentimento natural. Seja o que for, o fato existe, e basta andar na aldeia sem ver as casas, para reconhecer que nunca esta espcie de afeio chegou ao grau em que a vemos. Sou justo. H casos em que acho a coisa natural. Na verdade, se eu, completando hoje cinqenta anos, janto com a famlia e dois ou trs amigos. por que no farei participante do meu contentamento este respeitvel pblico? Embarco, desembarco, dou ou recebo um mimo, nasce-me um porco com duas cabeas. qualquer caso desses pode muito bem figurar em letra redonda, que d vida a coisas muito menos interessantes. E. depois. o nome da gente, em letra redonda. tem outra graa, que no em itera manuscrita; sai mais bonito, mais ntido mete-se pelos olhos dentro sem contar que as pessoas que o ho de comemorar as folhas, e a gente fica notria sem despender nada No nos envergonhemos de viver na rua; muito mais fresco. Aqui tocamos o ponto essencial. O capoeira est nesta matria como Crbillon em matria
de teatro. Perguntou-se a este, por que compunha peas de fazer arrepiar os cabelos; ele respondeu que, tendo Racine tomado o cu para si e Corneille a terra, no lhe restava mais que o inferno em que se meteu. O mesmo acontece ao capoeira. No pode distribuir mimos espirituais, ou drogas infalveis, todos os porcos nascem-lhe com uma s cabea, nenhum meio de ocupar os outros com a sua preciosa pessoa. Recorre navalha, espalha facadas certo de que os jornais daro notcias das suas faanhas e divulgaro os nomes de alguns. J o leitor adivinhou o meu medicamento. No se pode falar com gente esperta; mal se acaba de dizer uma coisa, conclui logo a coisa restante. Sim, senhor, adivinhou, isso mesmo: no publicar mais nada, trancar a imprensa s valentias da capoeiragem. Uma vez que se no d mais notcia, eles recolhem-se s tendas, aborrecidos de ver que a crtica no anima os operosos. Logo depois a autoridade, tendo mo algumas associaes, becos e suspensrios ainda sem ttulo, entra pelas tendas e oferece aos nossos Aquiles uma compensao de publicidade. Vitria completa: eles aceitam o derivativo, que os traz ao cu de Racine e terra de Corneille, enquanto as navalhas, restitudas aos barbeiros, passaro a escanhoar os queixos da gente pacfica. Ex fumo dare lucem. [41] [19 maro] TODA A Gente sabe que eu, sempre que preciso elogiar-me, no recorro aos vizinhos; sirvo-me da prata de casa, que prata velha e de lei Agora mesmo, podia dizer prata ordinria ou casquinha, mas no digo. Digo prata de lei. O sistema da mutualidade, inventada por Trissotin e Vadius, tem o defeito da dependncia em que nos pe uns dos outros Diz Trissotin a Vadius: Aux ballades surtout, vous tes admirable. Se Vadius, em vez de responder, como na comdia: Et
dans le bouts-rims je vous trouve adorable, disser simplesmente: A propsito, que que h do ministrio?l se vai todo o plano de Trissotin, que gastou o seu versinho bonito, sem receber nada. Em vez disso, inaugurei o meu sistema, fundado no princpio de que o homem deve dizer tudo o que pensa. Se o meu vizinho pensa que um pasccio, por que no h de escrev-lo? Se eu cuido que sou um cidado conspcuo e ilustrado, por que hei de cal-lo' A verdade, quer ofenda o meu vizinho, quer me lisonjeie, deve ser pblica. Nua saiu ela do poo, nua deve ir s casas particulares. Quando muito, pem-se-lhe umas pulseiras de ouro; em vez de dizer ilustrado dareiprofundamente ilustrado. Agora vejam. Isto que justo, claro, transparente e racional, no o tinha podido at aqui meter no bestunto dos meus contemporneos. Vivia como uma espcie de Maom sem Ali, pregava no vcuo falava a surdos. Nas cmaras, continuava a dobrar-se o colo humilde de Trissotin: "Perante esta cmara to rica de talentos, eu, o ltimo dos seus membros . . . " Logo Vadius retificando: "No apoiado! V. Ex.a um dos ornamentos do pas!" Concordo que bonito, mas esta trocado. Desanimado, cheio de desgostos, que s pode sentir quem j foi profeta sem aderentes, ia abandonar a empresa, quando a Providncia fez reunir os acionistas do Banco Auxiliar; foi a primeira manifestao desse poder misterioso e oportuno. A segunda foi 0 parecer da comisso do exame de contas, papel excelente, em que leio que o Sr. Del Vecchio, "no louvvel intuito de concorrer para desenvolver o banco", tinha proposto em tempo certa reforma. E o Sr Del Vecchio justamente um dos signatrios do parecer; circunstancia que ele acentua bem para mostrar a sua adeso a idia nova. Del Vecchio, amado Del
Vecchio, tu que acreditaste em mim, fica sendo o meu califa. No h mais que um Deus, e Maom e o seu profeta. Agora posso fugir para Medina, a verdade vencer, a despeito da fraqueza de uns, da maldade de outros e do erro de todos. Coraes que sufocais em grmen os mais belos adjetivos do mundo, deixai que eles brotem francamente, que cresam e apaream, que floresam, que frutifiquem! So os frutos da sinceridade. Eia, coraes medrosos, sacudi o medo, bradai que sois grandes e divinos. As primeiras pessoas que ouvirem a confisso de um desses coraes retos, diro sorrindo umas para as outras: Ele diz que nobre e divino. As segundas: Parece que ele nobre e divino. As terceiras: Com certeza ele nobre e divino. As quartas: No h nada mais nobre e divino. As quintas: Ele o que mais nobre e divino. As sextas: Ele o nico que nobre e divino. E tu descansars nas stimas, que amaciaro para ti o regao absoluto. Tudo porque eu, um dos caracteres mais elevados do nosso tempo, esprito esclarecido e abalizado, iniciei a prtica do verdadeiro princpio. E o que que se d comigo mesmo? Lulu Snior, que e hoje (com razo) um dos meus mais estrnuos admiradores, j no me chama outra coisa: esprito abalizado para ca, espirito abalizado para l. Ainda ontem: Llio, tu que s um dos espritos mais abalizados que conheo, podes dizer-me por que que no jantar poltico ao Silva Tavares no houve discursos polticos? Culpa do cozinheiro, respondi eu. Como se no bastasse um poisson fin la diplomate, incluiu ele no menu, publicado no Pas, uma certa Dinde farcie la Prigord... Prigord, como sabes, puro Talleyrand Talleyrand-Prigord, o gro-mestre dos diplomatas. No se pode contestar que s dos espritos mais abalizados deste pas. Apoiado!
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