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CENAS PORTUGUESAS
I
A Capital!
(começos de uma carreira)
Eça de Queirós
Capítulo I
A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso de um velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia caindo com uma ...
Na estação, havia apenas um passageiro esperando o comboio: era um mocetão do campo que se conservava imóvel, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos duramente cravados no chão; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito de...
O chefe da estação, gordo, com o queixo amarrado num lenço de seda preta, o boné de galão sujo posto muito ao lado, apareceu à porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para ele:
— Creio que o comboio vem atrasado...
O chefe afirmou silenciosamente com a cabeça, e depois de uma fumaça:
— Vem sempre atrasado aos sábados... É a demora em Espinho.
O rapaz esteve um momento raspando o chão com a bengalinha — e foi andando devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moço do campo: decerto ia a Lisboa, embarcar para o Brasil; e sensibilizado pela face tão desolada da velha, pensava que o Emigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de cor rica ...
Ei-lo que deixa o lar, a mãe chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho...
Procurava a rima, já interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de boné escocês, apareceu na grade da estação, com uma chapeleira de papelão azul, a galhofar com duas raparigas que o seguiam, oferecendo ovos moles ou mexilhões para ele levar para Lisboa.
— A ti é que eu te levava, Mariquinhas; queres tu vir?
— É já, Sr. Joãozinho... Vou buscar o Sr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo.
Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de paletot cor de pinhão, e a estação de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto. exclamou:
— Olá, sô Artur! Então também se vai até Lisboa?
O Sr. Artur sorriu:
— Quem dera! Não; vim apenas esperar meu padrinho que vai de passagem para lá.
O outro puxou as calças para a cinta e disse, rindo:
— Homessa! E vem o amigo de Oliveira de Azeméis aqui, para ver passar seu padrinho no comboio?...
— Então? Para lhe apertar a mão, desejar-lhe boa viagem...
— Diabo! — disse o outro. — Já é ser bom afilhado!... Eu não o fazia nem por meu pai. Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fumaça do cigarro, continuou com satisfação: — Pois eu vou-me até à capital!... Desenferrujar... Se quiser alguma coisa...
— Que se divirta!
— Fica por minha conta! Há-de encher-se este ventrezinho! E então que vamos ter um rico Inverno em Lisboa! Sassi em S. Carlos, cancanistas francesas no Casino... Naturalmente fornada nova de espanholas... Não lhe digo mais nada... Deu outro puxão às calças e foi colocar com prudência a chapeleira de papelão ao lado de ...
Lá na eterna Salgadeira,
Ensacando duma vez,
Dentro da tripa da Asneira,
Um naco gordo e roliço
Do lombo da Estupidez,
Fez-nos Deus este Chouriço!
O Taveira, com todo o seu génio, era um advogado pobre no fundo de Trás-os-Montes e o Chouriço, proprietário, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer... Aquele bochechudo, em Lisboa, parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o mel de um cálice de madressilva; e esta comparação subtil, que o Chouriço nunc...
Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e imediatamente o comboio apareceu. deslizando sobre os rails, dardejando ao alto jactos direitos de fumo branco.
— Pois eu, disse o Chouriço, aproximando-se com júbilo, enquanto o comboio parava, estendo-me agora ao comprido e levo a noite de uma soneca até Lisboa. Sei-a toda, hem? E amanhã a estas horas, na pândega! Vem pouca gente... Caramba, bonita pequena!
Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruçara à portinhola de um vagão de primeira classe; tinha um livro fechado na mão e o seu chapéu pequenino, feito de penas, parecia o peito roliço de uma ave negra.
Artur foi ao comprido do comboio, procurando o padrinho: não o encontrou. Quis interrogar o condutor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem não o atendeu, atarantado, de boné para a nuca, os olhos esgazeados: em volta dele, um guarda, o chefe da estação com as mãos atulhadas de papéis, o cocheiro...
Aí, o rapaz do campo acomodava devagar, debaixo do assento, o seu saco de chita e o farnel, passou depois o lenço pela testa como para limpar o suor, e, muito pálido, com os beiços a tremer:
— Adeus, mãe! — disse.
A velha abraçou-se-lhe desesperadamente ao pescoço:
— Meu filho! meu rico filho, que não te torno a ver! Oh! meu filho, oh! Senhor, que não o torno a ver!
— Adeus, mãe! Adeus, Joaquina! Tem de ser, tem de ser!
Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braços a rapariga, saltou para o vagão e ficou com a cabeça enterrada nos punhos, aos soluços.
Artur comoveu-se. Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas existências trabalhosas em que o pão é um cuidado amargo. Quando viria à terra uma revolução de paz e de justiça dar a cada um um campo próprio a lavrar, uma lareira farta na velhice?
Veio andando devagar junto ao comboio. O Chouriço já se instalara numa primeira classe, de gabão pelos ombros, charuto nos dentes.
— E então o padrinho? — perguntou galhofando.
— Não veio.
O Chouriço esfregou as mãos, divertido:
— É boa! É muito boa! E vir o amigo expressamente de Oliveira de Azeméis...
— E depois de um momento: — A propósito, diga-me uma coisa, como vai o Teodósio?
— Não o tenho visto. Está prà quinta.
— E o que faz o amigo por Oliveira?
— Pra lá estou.
— Ainda se faz seu versinho, hem?
Artur sorriu ambiguamente. O Chouriço tirava o relógio, impaciente.
O guarda fechava as portinholas. As raparigas, com os tabuleiros à cabeça, recolhiam à vila; havia agora um silêncio na plataforma, de onde tinha desaparecido o chefe e o condutor. Naquela estação sonolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena; só uma rapariguita ia dizendo a espaços, num tom plangente...
— Então nós ficamos aqui toda a vida? — exclamou uma voz irritada.
Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Artur então reparou nela; e pareceu-lhe tão linda, que ficou com os olhos pasmados num enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração: nunca vira aquela delicadeza fina de pele, nem uma doçura tão tenra da linha oval; os seus olhos negros de gran...
Ela pareceu notar também aquele rapaz tão admirado; retirou-se devagar para dentro da carruagem, mas tornou logo a debruçar-se à portinhola, compondo ligeiramente o laço fofo da gravata de renda — e os olhos de ambos encontraram-se.
— Boa pequena, hem? — disse o Chouriço. — Eu estive para me meter na mesma carruagem e tinha divertimento para toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido.
Artur achou-o também odioso — com as suas bochechas balofas e brancas, o chapelinho de casimira sobre o cabelo encarapinhado, o beiço sensual de comilão e um enorme pince-nez, com a fita passada por trás da orelha.
— Eu parece-me que o conheço de Lisboa, creio até que é Barão — disse o Chouriço.
Mas o chefe da estação badalava a campainha e o comboio começou a rolar devagar com estalidos secos dos freios retesados.
— Adeus, amigo, saúde! — exclamou o Chouriço.
— Até à vista!
Os olhos da senhora de vestido de xadrez pousaram-se ainda um momento nos de Artur. Outras faces passaram diante dele, apoiadas aos vidros: os soldados e o desertor galhofavam de garrafa à boca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como carvões, dizia adeus agitando um grande lenço; a velha ia seguindo o vagão, a ...
Artur sentia-se triste. Toda a noite, assim, aquele comboio rolaria, passando as estações iluminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chouriço, feliz, estirado no seu gabão, o pobre emigrante banhado em lágrimas, o desertor para a enxovia, aquela linda mulher para o seu palacete. De madrugada chegariam a Lisboa: a L...
Artur deu ainda um olhar aos rails que iam assim, continuamente, paralelos e luzidios, até Lisboa — e ia atravessar para o outro lado da estação onde o esperava o char-à-bancs de Oliveira de Azeméis, quando viu um sobrescrito caído na plataforma, no lugar sobre que ela se debruçara. Apanhou-o vivamente, leu:
Ex.ma Sr.a Baronesa de Pedralva
Hotel Francfort
Porto.
Então imaginou logo que ela o deixara cair, para lhe dar com o seu nome a certeza da sua simpatia; e entreviu, num relance, uma correspondência romanesca trocada entre eles, mais tarde um encontro em Lisboa, ou em Sintra, e um grande amor à Rafael, todo cheio de glórias e martírios... — e estava tão perturbado, que o M...
— Não veio. Vamos lá, vamos lá!
Atirou-se para um canto do char-à-bancs. Sentia bem uma carta dentro do sobrescrito mas queria lê-la só no quarto em Oliveira, onde o mesmo ar estava repassado dos sonhos e desejos de amor. E enquanto o carro rolava surdamente na estrada já escura, Artur, olhando pela vidraça aberta, uma claridade terna de luar que apa...
Et j'étais devant toi plein de joie et de flamme
Car tu me regardais avec toute ton âme...
Artur tinha então vinte e três anos. Pertencia a uma família burguesa, originária de Lisboa, mas dispersada na província desde a guerra civil. Seu bisavô paterno, que ficara na tradição familiar como uma glória doméstica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se entusiasmavam platonicamente nos botequ...
Foi lá que Artur nasceu, anos depois — e a mãe, encantada, dera-lhe este nome, em memória dos seus tempos de harpa e dos cavaleiros de xácara, cujos amores e proezas na Terra Santa tanto a tinham comovido.
O pai, esse, homem excelente e terno que até aí se desolara com a esterilidade do seu casamento, adorou logo a criança e com o seu respeito supersticioso pela magistratura, ainda Artur não fora baptizado, já o bom Manuel Corvelo decidira economizar com método, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer dele um bacharel;...
Às vezes, quando o pequeno Artur rabujava muito — o pobre pai, alta noite, de chinelos e paletot, embalava-o nos braços pelo quarto, cantarolando-lhe, numa voz roufenha, o Gentil Pajem de El-Rei até o adormentar; e ficava, então, enlevado a olhar para aquele rostozinho amarelo de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha n...
Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do Arturzinho, como folhear algum venerável in-fólio de antiga legislação; e sobretudo, mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, não era rufar em tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da mãe, coser caderninho...
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Eça de Queirós

The collected works of the Portuguese novelist Eça de Queirós (1845-1900) as one plain UTF-8 text file: eça.txt, 10.3M characters, 1.74M words, 62,057 lines.

Titles, chapter headings and paragraphs are separated by newlines. Text is in 19th-century Portuguese spelling.

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The author died in 1900 and his works are in the public domain. The transcription comes from the Coimbra site linked above; check its terms before reusing the file.

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