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Sem dúvidas, esta definição é a mais comum, porque, sob um nome ou outro, a
ideia de esse ser que sobrevive ao corpo se encontra no estado de crença
instintiva, e independe de qualquer ensinamento, entre todos os povos,
qualquer que seja o grau de sua civilização. Esta doutrina, segundo a qual a
alma é a causa e não o efeito, é a dos espiritualistas.
Sem discutir o mérito dessas opiniões e considerando somente o lado
17 – O Livro dos Espíritos
linguístico da questão, diremos que estas três aplicações do termo alma
constituem três ideias distintas que demandariam um vocábulo diferente
para cada uma. Portanto, essa palavra tem um tríplice significado e cada um
tem razão em seu ponto de vista na definição que lhe dá; o erro está em a
língua possuir uma palavra só para três ideias. Para evitar todo equívoco,
seria necessário restringir a acepção do vocábulo alma a uma daquelas
ideias; a escolha é indiferente, a questão toda é se entender, é um caso de
convenção. Julgamos mais lógico tomá-lo na sua acepção mais comum; por
isso chamamos ALMA o ser imaterial e individual que reside em nós e que
sobrevive ao corpo. Mesmo que esse ser não existisse, e não passasse de um
produto da imaginação, ainda assim seria preciso um termo para designá-lo.
Na ausência de um vocábulo especial para cada uma das outras duas
ideias, nós designamos:
Princípio vital, o princípio da vida material e orgânica, qualquer que
seja sua origem, e que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas até o
homem. Já que a vida pode existir sem a faculdade de pensar, o princípio vital
é uma coisa distinta e independente. A palavra vitalidade não daria a mesma
ideia. Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que
se produz quando a matéria se encontra em certas circunstâncias; segundo
outros — e esta é a ideia mais comum —, ele reside em um fluido especial,
universalmente espalhado e do qual cada ser absorve e assimila uma parcela
durante a vida, tal como vemos os corpos inertes absorverem a luz; esse seria
então o fluido vital que, na opinião de alguns, não seria outro que o fluido
elétrico animalizado, assim designado pelos nomes de fluido magnético,
fluido nervoso etc.
Seja como for, há um fato que ninguém poderia contestar, pois é um
resultado da observação: é que os seres orgânicos têm em si uma força íntima
que produz o fenômeno da vida, enquanto essa força exista; que a vida
material é comum a todos os seres orgânicos e que ela é independente da
inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento são
faculdades próprias de certas espécies orgânicas; enfim, que entre as espécies
orgânicas dotadas de inteligência e de pensamento há uma dotada de um
senso moral especial que lhe dá uma incontestável superioridade sobre as
18 – Allan Kardec
outras: está é a espécie humana.
Concebe-se que, com uma significação múltipla, a alma não exclui nem o
materialismo nem o panteísmo. O próprio espiritualista pode bem entender a
alma de acordo com uma ou outra das duas primeiras definições, sem
prejuízo do ser imaterial distinto ao qual dará então um nome qualquer.
Assim, essa palavra não é a representante de uma única opinião: é um proteu2
que cada qual acomoda ao seu gosto; daí tantas disputas intermináveis.
A confusão seria evitada, mesmo se usássemos a palavra alma nos três
casos, desde que acrescentássemos a ela um qualificativo que especificasse o
ponto de vista sob o qual a consideramos, ou a aplicação que fazemos dela.
Seria então um termo genérico, representando ao mesmo tempo o princípio
da vida material, da inteligência e do senso moral, e que se distinguiriam por
um atributo, como os gases, por exemplo, que distinguimos acrescentandolhes as palavras hidrogênio, oxigênio ou azoto. Assim, poderíamos dizer, e
talvez fosse o melhor, a alma vital para o princípio da vida material; a alma
intelectual para o princípio da inteligência, e a alma espírita para o princípio
da nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isto é uma questão
de palavras, mas uma questão muito importante para o entendimento. Com
isso, a alma vital seria comum a todos os seres orgânicos: plantas, animais e
homens; a alma intelectual seria própria dos animais e dos homens; e a alma
espírita pertenceria somente ao homem.
Julgamos necessário insistir ainda mais nestas explicações, porque a
doutrina espírita fundamenta-se naturalmente sobre a existência em nós de
um ser independente da matéria e sobrevivente ao corpo. Como a palavra
alma deve aparecer frequentemente no decorrer desta obra, era importante
definir o significado que lhe atribuímos para evitar qualquer mal-entendido.
Vamos agora ao objeto principal desta instrução preliminar.
III
Como toda novidade, a doutrina espírita tem seus adeptos e seus
2 Alusão ao deus Proteu da mitologia grega, caracterizado pelo dom da metamorfose, pelo qual
assume várias formas; representa o indivíduo que muda facilmente de opinião. — N. T.
19 – O Livro dos Espíritos
contraditores. Vamos tentar responder a algumas das objeções destes
últimos, examinando o valor dos motivos sobre os quais eles se apoiam,
todavia, sem alimentarmos a pretensão de convencer todo mundo, pois há
pessoas que creem que a luz foi feita exclusivamente para elas. Vamos nos
dirigir aos indivíduos de boa-fé, sem ideias preconcebidas ou mesmo
intransigentes, mas sinceramente desejosos de se instruir, e nós lhes
demonstraremos que a maior parte das objeções que se opõem à doutrina
vem de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento formado
com muita ligeireza e precipitação.
Lembremos primeiramente, em poucas palavras, a série progressiva dos
fenômenos que deram origem a esta doutrina.
O primeiro fato observado foi o de objetos diversos postos em
movimento; eles foram vulgarmente designados pela expressão mesas
girantes ou dança das mesas. Esse fenômeno, que parece ter sido observado
primeiramente na América — ou melhor, que se renovou naquele país, pois a
história prova que ele remonta à mais alta Antiguidade — se produziu
acompanhado de circunstâncias estranhas, tais como barulhos insólitos,
pancadas sem causa evidente conhecida. De lá, foi rapidamente propagado na
Europa e em outras partes do mundo; ele a princípio suscitou muita
incredulidade, porém a multiplicidade das experiências logo impossibilitou de