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se duvidar da realidade. |
Se tal fenômeno tivesse se limitado ao movimento de objetos materiais, |
poderia ser explicado por uma causa puramente física. Estamos longe de |
conhecer todos os agentes ocultos da natureza e todas as propriedades |
daquilo que conhecemos; a eletricidade, por exemplo, diariamente multiplica |
ao infinito os recursos que ela proporciona ao homem e parece destinada a |
esclarecer a ciência com uma luz nova. Portanto, não havia nada de impossível |
em que eletricidade, modificada por certas circunstâncias, ou qualquer outro |
agente desconhecido, fosse a causa desses movimentos. A reunião de várias |
pessoas aumentando a potencialidade da ação parecia apoiar essa teoria, pois |
podia-se considerar esse conjunto como uma pilha múltipla cuja potência seja |
proporcional ao número dos elementos. |
O movimento circular não tinha nada de extraordinário: faz parte da |
20 – Allan Kardec |
natureza; todos os astros se movem circularmente; poderíamos ter então, em |
pequena escala, um reflexo do movimento geral do Universo, ou, melhor |
dizendo, uma causa até então desconhecida poderia produzir acidentalmente, |
com pequenos objetos e em determinadas condições, uma corrente |
semelhante àquela que move os mundos. |
Ocorre que o movimento nem sempre era circular; muitas vezes era |
brusco e desordenado, sendo o objeto violentamente sacudido, derrubado, |
levado numa direção qualquer e, contrariamente a todas as leis da estática, |
levantado do chão e mantido no espaço. Ainda aqui nada havia que não |
pudesse ser explicado pela força de um agente físico invisível. Não vemos a |
eletricidade derrubar edifícios, arrancar árvores, atirar longe os mais pesados |
corpos, atraí-los ou repulsá-los? |
Os ruídos estranhos, as batidas — supondo que não fossem um dos |
efeitos comuns da dilatação da madeira ou de qualquer outra causa acidental |
— podiam muito bem ser produzidos pela acumulação de um fluido oculto: a |
eletricidade não produz ruídos dos mais violentos? |
Até aí, como se vê, tudo pode estar dentro dos fatos puramente físicos e |
fisiológicos. Sem sair desse campo de ideias, já havia ali assunto para estudos |
sérios e dignos de prender a atenção dos sábios. Por que não aconteceu |
assim? É penoso dizê-lo, mas o fato decorre de causas que provam, entre mil |
fatos semelhantes, a leviandade do espírito humano. Talvez, de início, isso |
tem a ver com a vulgaridade do objeto principal que serviu de base às |
primeiras experiências. Que influência muitas vezes uma palavra teve sobre |
as coisas mais graves! Sem considerar que o movimento podia ser aplicado a |
um objeto qualquer, a ideia das mesas prevaleceu, sem dúvida porque foi o |
objeto mais conveniente, e porque as pessoas se sentavam muito mais |
naturalmente em torno de uma mesa do que em torno de qualquer outro |
móvel. Ora, os homens importantes às vezes são tão infantis que nada teria aí |
de impossível que certos espíritos de elite tivessem considerado vergonhoso |
se ocupar com o que se convencionara chamar a dança das mesas. É mesmo |
provável que se o fenômeno observado por Galvani tivesse sido por homens |
vulgares e ficasse caracterizado por um nome burlesco, ainda estaria relegado |
ao lado da varinha mágica. De fato, qual é o sábio que não teria pensado |
21 – O Livro dos Espíritos |
derrogar em se ocupar com a dança das rãs?3 |
Alguns sábios, entretanto, bastante modestos para admitir que a |
natureza poderia ainda não lhes ter dito a última palavra, quiseram ver para |
tranquilizar suas consciências; mas aconteceu que o fenômeno nem sempre |
correspondia às suas expectativas, e como não era produzido constantemente |
à vontade deles e segundo o seu modo de experimentação, eles concluíram |
pela negação; apesar da censura deles, as mesas — já que há mesas — |
continuam a girar, e podemos dizer como Galileu: e no entanto elas se |
movem! 4 Nós diremos mais: que os fatos se multiplicaram tanto que eles |
desfrutam hoje do direito à cidadania, e não se pensa em mais nada senão |
encontrar uma explicação racional. Pode-se deduzir algo contra a realidade do |
fenômeno pelo fato de ele não se produzir de uma maneira sempre idêntica |
conforme a vontade e as exigências do observador? Os fenômenos de |
eletricidade e de química não estão subordinados a certas condições? |
Devemos negá-los pelo fato de eles não se produzem fora dessas condições? É |
então de se admirar que o fenômeno do movimento dos objetos pelo fluido |
humano também tenha suas condições de ser e deixe de se produzir quando o |
observador, colocando-se no seu próprio ponto de vista, pretenda fazê-lo |
seguir segundo seu capricho, ou o sujeite às leis dos fenômenos conhecidos, |
sem considerar que para fatos novos pode e deve haver novas leis? Ora, para |
se conhecer essas leis, é preciso estudar as circunstâncias pelas quais os fatos |
se produzem, e esse estudo não pode deixar de ser o fruto de uma observação |
perseverante, atenta e às vezes muito demorada. |
Porém, certas pessoas contestam: há frequentemente fraudes evidentes. |
Em primeiro lugar, perguntaremos se elas estão bem certas de que haja |
3 Foi observando o que ele mesmo chamou de “dança das rãs” que o médico e físico italiano |
Luigi Galvani (1737-1798) desenvolveu o estudo que resultou na descoberta do fluido elétrico |
conduzido aos músculos através dos nervos, que mais tarde resultaria também na invenção da |
pilha elétrica por Alessandro Volta. Aqui, Kardec faz um paralelo entre dois eventos |
aparentemente grotescos e os importantes resultados deles extraídos. — N. T. |
4 Kardec aqui parafraseia o célebre astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) que, segundo |
a tradição, ironizou a sentença condenatória que a Igreja lhe impôs por ele defender a ideia de |
que a Terra girava em torno do Sol (enquanto o clero pregava que o centro do Universo era a |
Terra, em torno da qual tudo o mais girava); apesar da sentença eclesiástica, Galileu teria dito: |
“E no entanto ela (a Terra) gira!” — N. T. |
22 – Allan Kardec |
fraudes e se não tomaram por falsos os efeitos que elas não podiam explicar, |
mais ou menos como o camponês que tenha confundido um sábio professor |
de física fazendo suas experiências por um astuto enganador. Admitindo-se |
mesmo que algumas vezes haja fraudes, isso seria razão para negarmos o |
fato? Devemos negar a física por haver ilusionistas que dão a si mesmo o |
título de físicos? Ao demais, devemos levar em conta o caráter das pessoas e o |
interesse que possam ter em iludir. Então, seria tudo mera brincadeira? Podese muito bem se divertir por algum tempo, mas uma brincadeira prolongada |
indefinidamente seria tão enfadonha para o mistificador quanto para o |
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