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31 – O Livro dos Espíritos |
nos fizessem, isto é, fazer o bem e nunca fazer o mal. Neste princípio o |
homem encontra a regra universal de conduta até para as suas menores |
ações. |
• “Eles nos ensinam que o egoísmo, o orgulho e a sensualidade são paixões |
que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à matéria; que já |
neste mundo, o homem que se desliga da matéria pelo desprezo das |
futilidades mundanas e pelo amor ao próximo, se aproxima da natureza |
espiritual; que cada um deve tornar-se útil de acordo com as faculdades e |
os meios que Deus lhe pôs nas mãos para experimentá-lo; que o Forte e o |
Poderoso devem amparo e proteção ao Fraco, pois aquele que abusa da |
força e do seu poder para oprimir seu semelhante viola a lei de Deus. |
Finalmente, eles ensinam que no mundo dos Espíritos — nada podendo |
ser escondido — o hipócrita será desmascarado e todas as suas |
perversidades são reveladas; que a presença inevitável e constante |
daqueles contra quem procedemos mal é um dos castigos que estão para |
nós reservados; que ao estado de inferioridade e superioridade dos |
Espíritos estão ligados os sofrimentos e as satisfações que desconhecemos |
na Terra. |
• “Mas eles também nos ensinam que não há faltas imperdoáveis que não |
possam ser apagadas pela expiação. O homem encontra o meio nas |
diferentes existências que lhe permite avançar, conforme seu desejo e seus |
esforços, na via do progresso à perfeição, que é o seu objetivo final.” |
Este é o resumo da doutrina espírita, assim como ela resulta do |
ensinamento dado pelos Espíritos superiores. Vejamos agora as oposições |
que lhe fazem. |
VII |
Para muita gente, a oposição das sociedades eruditas é, se não uma |
prova, pelo menos uma forte opinião contrária. Não somos daqueles que se |
32 – Allan Kardec |
revoltam contra os sábios, pois não queremos que digam que nós os |
afrontamos; ao contrário, nós os temos em grande estima e ficaríamos muito |
honrados em nos contar entre eles; não obstante, a opinião deles não pode, |
em todas as circunstâncias, representar um julgamento irrevogável. |
Desde que a ciência saia da observação material dos fatos e que deixe de |
analisar e explicar esses fatos, o campo fica aberto para as suposições; cada |
uma traz seu pequeno sistema que quer fazer prevalecer, sustentando-o de |
maneira implacável. Não vemos diariamente as opiniões mais divergentes |
alternadamente aceitas e rejeitadas, ora rebatidas como erros absurdos e |
depois proclamadas como verdades incontestáveis? Fatos, eis o verdadeiro |
critério de nosso julgamento, o argumento sem contestação; na ausência de |
fatos, a dúvida é a opinião do homem sábio. |
Para as coisas evidentes, a opinião dos sábios é fidedigna e com toda a |
razão, pois eles sabem mais e melhor do que o homem comum; mas na |
questão de princípios novos, de coisas desconhecidas, sua maneira de ver não |
é mais do que hipotética, porque eles não estão mais isentos de preconceitos |
do que os outros; direi até mesmo que o sábio talvez tenha mais preconceitos |
que qualquer outro, dado que uma inclinação natural o leva a subordinar tudo |
sob o ponto de vista que ele tenha aprofundado: o matemático não vê a prova |
senão em uma demonstração algébrica, o químico relaciona tudo à ação dos |
elementos, etc. Todo homem que tem uma especialidade prende a ela todas as |
suas ideias; tire-o de sua especialidade e geralmente ele se perde, por querer |
submeter tudo ao seu modo de ver as coisas: esta é uma consequência da |
fraqueza humana. Assim pois, de boa vontade e com toda confiança, |
consultarei um químico sobre uma questão de composição de uma substância, |
um físico sobre a potência elétrica, um mecânico sobre uma força motora; |
porém eles deverão me permitir — sem que isto afete a admiração que o seu |
saber especial merece — que eu não leve muito em conta sua opinião |
negativa acerca do espiritismo, não mais do que o parecer de um arquiteto |
sobre uma questão de música. |
As ciências comuns se fundamentam nas propriedades da matéria que se |
pode experimentar e manipular ao seu gosto; os fenômenos espíritas se |
repousam sobre a ação de inteligências que têm sua vontade própria e nos |
33 – O Livro dos Espíritos |
provam a cada instante que elas não estão subordinadas ao nosso capricho. |
Portanto, as observações não podem ser feitas da mesma forma; elas |
requerem condições especiais e outro ponto de partida; querer submetê-las |
aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não |
existem. A ciência propriamente dita, como ciência, é então incompetente |
para se pronunciar na questão do espiritismo: ela não tem que se ocupar com |
isso, e qualquer que seja o seu julgamento — favorável ou não — não poderá |
ter nenhum peso. O espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que |
os sábios podem ter como indivíduos, independentemente de sua qualidade |
de sábios; mas querer deferir a questão à ciência equivaleria a condicionar a |
existência da alma pela decisão de uma assembleia de físicos ou de |
astrônomos; efetivamente, o espiritismo fundamenta-se inteiramente na |
existência da alma e no seu estado após a morte; ora, é absolutamente ilógico |
pensar que um homem deva ser grande psicólogo por ser um ilustre |
matemático ou um notável anatomista. Dissecando o corpo humano, o |
anatomista procura a alma, e como não a encontra pelo seu bisturi, |
encontrando ali um nervo, ou porque não a vê se evolar como um gás, ele |
conclui que ela não existe, porque ele se coloca sob um ponto de vista |
exclusivamente material; segue-se que ele tenha razão contra a opinião |
universal? Não! Vejam, portanto, que o espiritismo não é da alçada da ciência. |
Quando as crenças espíritas tiverem se popularizado, quando forem aceitas |
pelos povos — e a julgar pela rapidez com que elas se propagam, esse tempo |
não está longe — com elas se dará o que tem acontecido com todas as ideias |
novas que encontraram oposição e os sábios se renderão à evidência; eles aí |
chegarão individualmente pela força das coisas; até então será inoportuno |
desviá-los de seus trabalhos especiais para obrigá-los a se ocuparem com um |
assunto estranho que não está nem nas suas atribuições, nem no seu |
programa. Enquanto isso, aqueles que, sem estudo prévio e aprofundado da |
matéria, se pronunciarem pela negação e zombarem de quem não lhes é a |
favor, esquecem que aconteceu o mesmo com a maior parte das grandes |
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