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àquele Espírito.
A segunda circunstância resulta da natureza mesma das respostas que
muitas das vezes — especialmente quando se trata de questões abstratas ou
científicas — estão notoriamente fora dos conhecimentos e certas vezes fora
do alcance intelectual do médium, que, além disso, como normalmente
sucede, não tem consciência do que se escreve sob sua influência; que muito
frequentemente não entende ou não compreende a questão proposta, pois ela
pode ser num idioma que lhe seja estranho, ou até mentalmente, e que a
resposta possa ser feita nessa língua. Enfim, acontece muito que a cesta
escreva espontaneamente, sem questão prévia, sobre um assunto qualquer e
inteiramente improvisado.
Em certos casos, essas respostas têm um toque de sabedoria, de
profundidade e de propósito; elas revelam pensamentos tão elevados, tão
sublimes, que não podem vir senão de uma inteligência superior, impregnada
da mais pura moralidade; de outras vezes, são tão levianas, tão fúteis, e até
tão vulgares que a razão se recusa crer que possam proceder da mesma fonte.
Tal diversidade de linguagem não pode ser explicada a não ser pela
diversidade das inteligências que se manifestam. Essas inteligências estão na
humanidade ou fora da humanidade? Eis o ponto a ser esclarecido e cuja
explicação completa se encontrará nesta obra tal como foram fornecidas pelos
próprios Espíritos.
Aqui estão os efeitos patentes que se produzem fora do círculo habitual
de nossas observações, que não se passam misteriosamente, mas à luz do dia,
que todo mundo pode ver e comprovar, que não constituem privilégio de um
único indivíduo e que milhares de pessoas repetem todos os dias à vontade.
Esses efeitos têm necessariamente uma causa, e a partir do momento que
mostram a ação de uma inteligência e de uma vontade, eles saem do domínio
puramente físico.
26 – Allan Kardec
Várias teorias têm sido emitidas sobre esse assunto; vamos examiná-las
agora e veremos se elas podem dar conta de todos os fatos que se produzem.
Por enquanto, vamos admitir a existência de seres distintos da humanidade,
pois esta é a explicação fornecida pelas inteligências que se revelam, e
vejamos o que eles nos dizem.
VI
Como temos dito, os próprios seres que se comunicam assim se
designam pelo nome de Espíritos ou gênios, dos quais alguns declaram terem
pertencido aos homens que viveram na Terra. Eles compõem o mundo
espiritual, como nós — durante nossa vida terrena — constituímos o mundo
corporal.
Vamos resumir aqui os pontos principais da doutrina que eles nos
transmitiram a fim de responder mais facilmente a certas objeções.
• “Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente
justo e bom.
• “Ele criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados,
materiais e imateriais.
• “Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres
imateriais, compõem o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos.
• “O mundo espírita é o mundo normal, primordial, eterno, preexistente e
sobrevivente a tudo.
• “O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir ou não ter
jamais existido sem alterar a essência do mundo espírita.
• “Os Espíritos revestem temporariamente um envoltório material perecível,
cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade.
• “Entre as diferentes espécies de seres corporais, Deus escolheu a espécie
humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a certo grau de
desenvolvimento, o que lhe dá a superioridade moral e intelectual sobre as
27 – O Livro dos Espíritos
outras espécies.
• “A alma é um Espírito5 encarnado cujo corpo não passa de envoltório.
• “Há no homem três coisas: 1º o corpo, ou ser material idêntico ao dos
animais, e animado pelo mesmo princípio vital; 2º a alma, ou ser imaterial,
Espírito encarnado no corpo; 3º o liame que une a alma ao corpo, princípio
intermediário entre a matéria e o Espírito.
• “O homem tem então duas naturezas: pelo seu corpo, ele participa da
natureza dos animais, da qual ele tem os instintos; pela sua alma, participa
da natureza dos Espíritos.
• “O liame, ou perispírito, que une o corpo e o Espírito, é uma espécie de
envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais
grosseiro, porém o Espírito conserva o segundo, que constitui para ele um
corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, mas que pode se tornar
acidentalmente visível, e até palpável, como acontece no fenômeno das
aparições.
• “O Espírito, portanto, não é um ser abstrato, indefinido, que só o
pensamento pode conceber; ele é um ser real, definido, que em certos
casos torna-se apreciável pelo sentido da visão, da audição e do tato.
• “Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais nem em
poder, nem em inteligência, nem em sabedoria e nem em moralidade. Os
da primeira ordem são os Espíritos superiores, que se diferenciam dos
outros pela sua perfeição, seus conhecimentos, sua proximidade com Deus,
pela pureza de seus sentimentos e por seu amor ao bem: são os anjos ou
Espíritos puros. Os das outras classes se distanciam cada vez mais dessa
perfeição; aqueles das categorias inferiores são na sua maioria inclinados
às nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho etc.; eles se divertem
com o mal. Nesse número há também os que não são nem muito bons nem
5 No original, esta palavra consta toda em minúsculo (esprit) provavelmente por descuido da
tipografia, já que Kardec sempre utiliza a primeira letra em maiúsculo quando este vocábulo se
refere a uma individualidade, tal a razão de aqui a grafarmos “Espírito”. O mesmo equívoco se
verifica em outras partes da obra, e em todas elas esta tradução faz a devida correção. — N. T.
28 – Allan Kardec
muito malvados; mais bagunceiros e travessos do que perversos, a malícia
e a irresponsabilidade parecem fazer parte deles: são os Espíritos