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2961_3765_000020|senhor deus dá que a boca da inocência possa ao menos sorrir como a flor da granada abrindo as pet'las da alvorada ao surgir|senhor deus dá que a boca da inocência possa ao menos sorrir como a flor da granada abrindo as pet'las da alvorada ao surgir |
2961_3765_000021|soltar ao vento a inspiração de graco envolver se no manto de spartaco dos servos entre a grei lincoln o lázaro acordar de novo e da tumba da ignomínia erguer um povo fazer de um verme um rei|soltar ao vento a inspiração de graco envolver se no manto de spartaco dos servos entre a grei lincoln o lázaro acordar de novo e da tumba da ignomínia erguer um povo fazer de um verme um rei |
2961_3765_000022|é muito estreito esse leito que importa abre me teu peito ninho infinito de amor palmeira quero-te a sombra terra dá-me a tua alfombra santo fogo o teu calor|é muito estreito esse leito que importa abre me teu peito ninho infinito de amor palmeira quero-te a sombra terra dá-me a tua alfombra santo fogo o teu calor |
2961_3765_000023|é de um escravo humilde sepultura foi-lhe a vida o velar de insônia atroz deixa-o dormir no leito de verdura que o senhor dentre as selvas lhe compôs|é de um escravo humilde sepultura foi-lhe a vida o velar de insônia atroz deixa-o dormir no leito de verdura que o senhor dentre as selvas lhe compôs |
2961_3765_000024|ó mãe do cativo que fias à noite à luz da candeia na choça de palha embala teu filho com essas cantigas ou tece lhe o pano da branca mortalha a|ó mãe do cativo que fias à noite à luz da candeia na choça de palha embala teu filho com essas cantigas ou tece lhe o pano da branca mortalha a |
2961_3765_000025|das matas entre os desvios passar nos antros bravios por onde o jaguar passou é belo e já quantas vezes não saudei a terra o céu e o universo bíblia imensa que deus no espaço escreveu|das matas entre os desvios passar nos antros bravios por onde o jaguar passou é belo e já quantas vezes não saudei a terra o céu e o universo bíblia imensa que deus no espaço escreveu |
2961_3765_000026|que seja covarde que marche encurvado que de homem se torne sombrio reptíl nem core de pejo nem trema de raiva se a face lhe cortam com o látego vil|que seja covarde que marche encurvado que de homem se torne sombrio reptíl nem core de pejo nem trema de raiva se a face lhe cortam com o látego vil |
2961_3765_000027|numa dessas manhãs enquanto a moça sorrindo-lhe dos beijos ao ressábio cantava como uma ave ou uma criança ela sentiu que um riso de esperança abria-lhe do amante lábio a lábio|numa dessas manhãs enquanto a moça sorrindo-lhe dos beijos ao ressábio cantava como uma ave ou uma criança ela sentiu que um riso de esperança abria-lhe do amante lábio a lábio |
2961_3765_000028|depois o fogo apagou-se tudo no quarto calou-se e eu também calei-me então somente acesa uma vela triste de cera amarela tremia na escuridão|depois o fogo apagou-se tudo no quarto calou-se e eu também calei-me então somente acesa uma vela triste de cera amarela tremia na escuridão |
2961_3765_000029|nunca mais eu virei pobres violetas vos arrancar das moitas perfumadas nunca mais eu irei risonha e louca roubar o ninho do sabiá choroso perdoai me que eu parto para sempre venderam para longe a pobre lúcia|nunca mais eu virei pobres violetas vos arrancar das moitas perfumadas nunca mais eu irei risonha e louca roubar o ninho do sabiá choroso perdoai me que eu parto para sempre venderam para longe a pobre lúcia |
2961_3765_000030|e louca sacodes nesta alma inda em trevas o raio da espr'ança cruel ironia e ao pássaro mandas voar no infinito enquanto que o prende cadeia sombria|e louca sacodes nesta alma inda em trevas o raio da espr'ança cruel ironia e ao pássaro mandas voar no infinito enquanto que o prende cadeia sombria |
2961_3765_000031|criança não trema dos transes de um mártir mancebo não sonhe delírios de amor marido que a esposa conduza sorrindo ao leito devasso do próprio senhor|criança não trema dos transes de um mártir mancebo não sonhe delírios de amor marido que a esposa conduza sorrindo ao leito devasso do próprio senhor |
2961_3765_000032|ai tu vês nos teus sonhos de criança a ave de amor que o ramo da esperança traz no bico a voar e eu vejo um negro abutre que esvoaça que co'as garras a púrpura espedaça do manto popular|ai tu vês nos teus sonhos de criança a ave de amor que o ramo da esperança traz no bico a voar e eu vejo um negro abutre que esvoaça que co'as garras a púrpura espedaça do manto popular |
2961_3765_000033|vê a inocência o amor o brio a honra e o velho no balcão do berço à sepultura a infâmia escrita senhor deus compaixão|vê a inocência o amor o brio a honra e o velho no balcão do berço à sepultura a infâmia escrita senhor deus compaixão |
2961_3765_000034|caminheiro do escravo desgraçado o sono agora mesmo começou não lhe toques no leito de noivado há pouco a liberdade o desposou|caminheiro do escravo desgraçado o sono agora mesmo começou não lhe toques no leito de noivado há pouco a liberdade o desposou |
2961_3765_000035|porém tu por que dormias por que já não me dizias filha do meu coração stavas aflita comigo mãe abracei me contigo pedi te embalde perdão|porém tu por que dormias por que já não me dizias filha do meu coração stavas aflita comigo mãe abracei me contigo pedi te embalde perdão |
2961_3765_000036|alma é como as veigas sorrentinas onde passam gemendo as cavatinas cantadas ao luar a minha eco do grito que soluça grito de toda dor que se debruça do lábio a soluçar|alma é como as veigas sorrentinas onde passam gemendo as cavatinas cantadas ao luar a minha eco do grito que soluça grito de toda dor que se debruça do lábio a soluçar |
2961_3765_000037|salve amazona guerreira que nas rochas da clareira aos urros da cachoeira sabes bater e lutar salve nos cerros erguido ninho onde em sono atrevido dorme o condor e o bandido a liberdade e o jaguar|salve amazona guerreira que nas rochas da clareira aos urros da cachoeira sabes bater e lutar salve nos cerros erguido ninho onde em sono atrevido dorme o condor e o bandido a liberdade e o jaguar |
2961_3765_000038|e eu disse a senhora volta com as flores da sapucaia veio o tempo trouxe as flores foi o tempo a flor desmaia colhereira que além voas onde está meu coração chora chora na viola violeiro do sertão|e eu disse a senhora volta com as flores da sapucaia veio o tempo trouxe as flores foi o tempo a flor desmaia colhereira que além voas onde está meu coração chora chora na viola violeiro do sertão |
2961_3765_000039|tu deixarás na liça o férreo guante que há de colher a geração futura mas não crê no porvir na mocidade sol brilhante do céu da liberdade|tu deixarás na liça o férreo guante que há de colher a geração futura mas não crê no porvir na mocidade sol brilhante do céu da liberdade |
2961_3765_000040|o inverno envolto em mantos de geada cresta a rosa de amor que além se erguera ave de arribação voa anuncia da liberdade a santa primavera|o inverno envolto em mantos de geada cresta a rosa de amor que além se erguera ave de arribação voa anuncia da liberdade a santa primavera |
2961_3765_000041|é o fumo da chama vasta sombra que o século arrasta negra torcida a seus pés tronco enraizado no inferno que se arqueia escuro eterno das idades através|é o fumo da chama vasta sombra que o século arrasta negra torcida a seus pés tronco enraizado no inferno que se arqueia escuro eterno das idades através |
2961_3765_000042|num desses dias em que o lord errante resvalando em coxins de seda mole a laureada e pálida cabeça sentia-lhe embalar essa condessa essa lânguida e bela|num desses dias em que o lord errante resvalando em coxins de seda mole a laureada e pálida cabeça sentia-lhe embalar essa condessa essa lânguida e bela |
2961_3765_000043|tu foste a estrela vésper que alumia aos pastores d'arcádia nos fraguedos ave que no meu peito se aquecia ao murmúrio talvez dos meus segredos|tu foste a estrela vésper que alumia aos pastores d'arcádia nos fraguedos ave que no meu peito se aquecia ao murmúrio talvez dos meus segredos |
2961_3765_000044|não precisa de ti o gaturamo geme por ele à tarde no sertão e a juriti do taquaral no ramo povoa soluçando a solidão dentre os braços da cruz a parasita num abraço de flores se prendeu|não precisa de ti o gaturamo geme por ele à tarde no sertão e a juriti do taquaral no ramo povoa soluçando a solidão dentre os braços da cruz a parasita num abraço de flores se prendeu |
2961_3765_000045|insultam e desprezam da velhice a coroa de cãs ante os olhos do irmão em prostitutas transformam se as irmãs a esposa é bela um dia o pobre escravo solitário acordou e o vício quebra e ri do nó perpétuo que a mão de deus atou|insultam e desprezam da velhice a coroa de cãs ante os olhos do irmão em prostitutas transformam se as irmãs a esposa é bela um dia o pobre escravo solitário acordou e o vício quebra e ri do nó perpétuo que a mão de deus atou |
2961_3765_000046|passa ó vento das campinas leva a canção do tropeiro meu coração stá deserto stá deserto o mundo inteiro quem viu a minha senhora dona do meu coração chora chora na viola violeiro do sertão|passa ó vento das campinas leva a canção do tropeiro meu coração stá deserto stá deserto o mundo inteiro quem viu a minha senhora dona do meu coração chora chora na viola violeiro do sertão |
2961_3765_000047|a esperança a esperança no precito a esperança nesta alma agonizante e mais lívida e branca do que a cera ela disse a tremer george eu quisera saber qual seja a vossa nova amante|a esperança a esperança no precito a esperança nesta alma agonizante e mais lívida e branca do que a cera ela disse a tremer george eu quisera saber qual seja a vossa nova amante |
2961_3765_000048|ó mãe do cativo que alegre balanças a rede que ataste nos galhos da selva melhor tu farias se à pobre criança cavasses a cova por baixo da relva|ó mãe do cativo que alegre balanças a rede que ataste nos galhos da selva melhor tu farias se à pobre criança cavasses a cova por baixo da relva |
2961_3765_000049|eu sei que o ódio o egoísmo a hipocrisia a ambição almas escuras de grutas onde não desce um clarão peitos surdos às conquistas olhos fechados às vistas vistas fechadas à luz|eu sei que o ódio o egoísmo a hipocrisia a ambição almas escuras de grutas onde não desce um clarão peitos surdos às conquistas olhos fechados às vistas vistas fechadas à luz |
2961_3765_000050|canto adeus meu canto é a hora da partida o oceano do povo s'encapela filho da tempestade irmão do raio lança teu grito ao vento da procela|canto adeus meu canto é a hora da partida o oceano do povo s'encapela filho da tempestade irmão do raio lança teu grito ao vento da procela |
2961_3765_000051|ela era a cria mais formosa e meiga que jamais na fazenda vira o dia morena esbelta airosa eu me lembrava sempre da corça arisca dos silvados quando via-lhe os olhos negros negros como as plumas noturnas da graúna|ela era a cria mais formosa e meiga que jamais na fazenda vira o dia morena esbelta airosa eu me lembrava sempre da corça arisca dos silvados quando via-lhe os olhos negros negros como as plumas noturnas da graúna |
2961_3765_000052|então lúcia sorrindo eu murmurava meu deus um beija-flor fez-se criança uma criança fez-se mariposa mas um dia a miséria a fome o frio foram pedir um pouso nos teus lares|então lúcia sorrindo eu murmurava meu deus um beija-flor fez-se criança uma criança fez-se mariposa mas um dia a miséria a fome o frio foram pedir um pouso nos teus lares |
2961_3765_000053|ser e a cativa desgraçada deita seu filho calada e põe-se triste a beijá-lo talvez temendo que o dono não viesse em meio do sono de seus braços arrancá-lo|ser e a cativa desgraçada deita seu filho calada e põe-se triste a beijá-lo talvez temendo que o dono não viesse em meio do sono de seus braços arrancá-lo |
2961_3765_000054|quando aquela mão régia de madona tomava aos ombros essa cruz insana e do giaour o lúgubre segredo e esse crime indizível do manfredo madornavam aos pés da italiana|quando aquela mão régia de madona tomava aos ombros essa cruz insana e do giaour o lúgubre segredo e esse crime indizível do manfredo madornavam aos pés da italiana |
2961_3765_000055|que vezes nas cordilheiras ao canto das cachoeiras eu lancei minha canção escutando as ventanias vagas tristes profecias gemerem na escuridão|que vezes nas cordilheiras ao canto das cachoeiras eu lancei minha canção escutando as ventanias vagas tristes profecias gemerem na escuridão |
2961_3765_000056|o sabes confessas sim confesso e o seu nome qu'importa fala alteza|o sabes confessas sim confesso e o seu nome qu'importa fala alteza |
2961_3765_000057|maldição sobre vós tribuno falso rei que julgais que o negro cadafalso é dos tronos o irmão bardo que a lira prostituis na orgia eunuco incensador da tirania sobre ti maldição|maldição sobre vós tribuno falso rei que julgais que o negro cadafalso é dos tronos o irmão bardo que a lira prostituis na orgia eunuco incensador da tirania sobre ti maldição |
2961_3765_000058|é tempo agora pra quem sonha a glória e a luta e a luta essa fatal fornalha onde referve o bronze das estátuas que a mão dos sec'los no futuro talha|é tempo agora pra quem sonha a glória e a luta e a luta essa fatal fornalha onde referve o bronze das estátuas que a mão dos sec'los no futuro talha |
2961_3765_000059|a negra tormenta na enxárcia nos mastaréus uivavam nos tombadilhos gritos insontes de réus vi a equipagem medrosa da morte à vaga horrorosa seu próprio irmão sacudir|a negra tormenta na enxárcia nos mastaréus uivavam nos tombadilhos gritos insontes de réus vi a equipagem medrosa da morte à vaga horrorosa seu próprio irmão sacudir |
2961_3765_000060|maldição sobre tí rico devasso que da música ao lânguido compasso embriagado não vês a criança faminta que na rua abraça u'a mulher pálida e nua tua amante talvez|maldição sobre tí rico devasso que da música ao lânguido compasso embriagado não vês a criança faminta que na rua abraça u'a mulher pálida e nua tua amante talvez |
2961_3765_000061|ela cantava com uma voz extinta uma cantiga triste e compassada e eu que a escutava procurava embalde uma lembrança juvenil e alegre do tempo em que aprendera aqueles versos|ela cantava com uma voz extinta uma cantiga triste e compassada e eu que a escutava procurava embalde uma lembrança juvenil e alegre do tempo em que aprendera aqueles versos |
2961_3765_000062|coorte contra a estátua sagrada pela morte do grande imperador hipócrita amotina a populaça que morde o bronze como um cão de caça no seu louco furor|coorte contra a estátua sagrada pela morte do grande imperador hipócrita amotina a populaça que morde o bronze como um cão de caça no seu louco furor |
2961_3765_000063|depois me arrastaram depois sim te carregaram p'ra vir te esconder aqui eu sozinha lá na sala stava tão triste a senzala mãe para ver-te eu fugi|depois me arrastaram depois sim te carregaram p'ra vir te esconder aqui eu sozinha lá na sala stava tão triste a senzala mãe para ver-te eu fugi |
2961_3765_000064|tu vês na onda a flor azul dos campos donde os astros errantes pirilampos se elevam para os céus e eu vejo a noite borbulhar das vagas e a consciência é quem me aponta as plagas voltada para deus|tu vês na onda a flor azul dos campos donde os astros errantes pirilampos se elevam para os céus e eu vejo a noite borbulhar das vagas e a consciência é quem me aponta as plagas voltada para deus |
2961_3765_000065|senhor deus que após a noite mandas a luz do arrebol que vestes a esfarrapada com o manto rico do sol tu que dás à flor o orvalho às aves o céu e o ar que dás as frutas ao galho ao desgraçado o chorar|senhor deus que após a noite mandas a luz do arrebol que vestes a esfarrapada com o manto rico do sol tu que dás à flor o orvalho às aves o céu e o ar que dás as frutas ao galho ao desgraçado o chorar |
2961_3765_000066|sim quando vejo ó deus que o sacerdote as espáduas fustiga com o chicote ao cativo infeliz que o pescador das almas já se esquece das santas pescarias e adormece junto da meretriz|sim quando vejo ó deus que o sacerdote as espáduas fustiga com o chicote ao cativo infeliz que o pescador das almas já se esquece das santas pescarias e adormece junto da meretriz |
2961_3765_000067|desvario das frontes coroadas na página das púrpuras rasgadas ninguém mais estudou e no sulco do tempo embalde dorme a cabeça dos reis semente enorme que a multidão plantou|desvario das frontes coroadas na página das púrpuras rasgadas ninguém mais estudou e no sulco do tempo embalde dorme a cabeça dos reis semente enorme que a multidão plantou |
2961_3765_000068|basta de covardia a hora soa voz ignota e fatídica revoa que vem donde de deus a nova geração rompe da terra e qual minerva armada para a guerra pega a espada olha os céus|basta de covardia a hora soa voz ignota e fatídica revoa que vem donde de deus a nova geração rompe da terra e qual minerva armada para a guerra pega a espada olha os céus |
2961_3765_000069|palmares a ti meu grito a ti barca de granito que no soçobro infinito abriste a vela ao trovão e provocaste a rajada solta a flâmula agitada aos uivos da marujada nas ondas da escravidão|palmares a ti meu grito a ti barca de granito que no soçobro infinito abriste a vela ao trovão e provocaste a rajada solta a flâmula agitada aos uivos da marujada nas ondas da escravidão |
2961_3765_000070|cometa adeus meu canto na revolta praça ruge o clarim tremendo da batalha águia talvez as asas te espedacem bandeira talvez rasgue te a metralha|cometa adeus meu canto na revolta praça ruge o clarim tremendo da batalha águia talvez as asas te espedacem bandeira talvez rasgue te a metralha |
2961_3765_000071|e nessas horas julgo que o passado dos túmulos a meio levantado me diz na solidão que és tu poeta a lâmpada da orgia ou a estrela de luz que os povos guia à nova redenção|e nessas horas julgo que o passado dos túmulos a meio levantado me diz na solidão que és tu poeta a lâmpada da orgia ou a estrela de luz que os povos guia à nova redenção |
2961_3765_000072|rezar sentei-me junto ao teu leito stava tão frio o teu peito que eu fui o fogo atiçar parece que então me viste porque dormindo sorriste como uma santa no altar|rezar sentei-me junto ao teu leito stava tão frio o teu peito que eu fui o fogo atiçar parece que então me viste porque dormindo sorriste como uma santa no altar |
2961_3765_000073|adota a escravidão por filha amolando nas páginas da bíblia o cutelo do algoz sinto não ter um raio em cada verso para escrever na fronte do perverso maldição sobre vós|adota a escravidão por filha amolando nas páginas da bíblia o cutelo do algoz sinto não ter um raio em cada verso para escrever na fronte do perverso maldição sobre vós |
2961_3765_000074|chorar que desfias diamantes em cada raio de luz que espalhas flores de estrelas do céu nos campos azuis senhor deus tu que perdoas a toda alma que chorou como a clícia das lagoas que a água da chuva lavou|chorar que desfias diamantes em cada raio de luz que espalhas flores de estrelas do céu nos campos azuis senhor deus tu que perdoas a toda alma que chorou como a clícia das lagoas que a água da chuva lavou |
2961_3765_000075|levanta das orgias o presente levanta dos sepulcros o passado voz de ferro desperta as almas grandes do sul ao norte do oceano aos andes|levanta das orgias o presente levanta dos sepulcros o passado voz de ferro desperta as almas grandes do sul ao norte do oceano aos andes |
2961_3765_000076|e agora ó deus se te chamo não me respondes se clamo respondem me os ventos suis no leito onde a rosa medra tu tens por lençol a pedra por travesseiro uma cruz|e agora ó deus se te chamo não me respondes se clamo respondem me os ventos suis no leito onde a rosa medra tu tens por lençol a pedra por travesseiro uma cruz |
2961_3765_000077|estrela que anuncia a luz da aurora da harpa do meu amor nota perdida orvalho que do seio se evapora é tempo de partir voa meu canto que tantas vezes orvalhei de pranto|estrela que anuncia a luz da aurora da harpa do meu amor nota perdida orvalho que do seio se evapora é tempo de partir voa meu canto que tantas vezes orvalhei de pranto |
2961_3765_000078|chora orvalhos a grama que palpita lhe acende o vaga-lume o facho seu quando à noite o silêncio habita as matas a sepultura fala a sós com deus prende se a voz na boca das cascatas e as asas de ouro aos astros lá nos céus|chora orvalhos a grama que palpita lhe acende o vaga-lume o facho seu quando à noite o silêncio habita as matas a sepultura fala a sós com deus prende se a voz na boca das cascatas e as asas de ouro aos astros lá nos céus |
2961_3765_000079|que vale o ramo do alecrim cheiroso que lhe atiras nos braços ao passar vais espantar o bando buliçoso das borboletas que lá vão pousar|que vale o ramo do alecrim cheiroso que lhe atiras nos braços ao passar vais espantar o bando buliçoso das borboletas que lá vão pousar |
2961_3765_000080|o escravo calou a fala porque na úmida sala o fogo estava a apagar e a escrava acabou seu canto pra não acordar com o pranto o seu filhinho a sonhar|o escravo calou a fala porque na úmida sala o fogo estava a apagar e a escrava acabou seu canto pra não acordar com o pranto o seu filhinho a sonhar |
2961_3765_000081|tu eras a alegria da fazenda tua senhora ria-se contente quando enlaçavas seus cabelos brancos co'as roxas maravilhas da campina e quando à noite todos se juntavam aos reflexos doirados da candeia na grande sala em torno da fogueira|tu eras a alegria da fazenda tua senhora ria-se contente quando enlaçavas seus cabelos brancos co'as roxas maravilhas da campina e quando à noite todos se juntavam aos reflexos doirados da candeia na grande sala em torno da fogueira |
2961_3765_000082|irmã ensina lhe as dores de um fero trabalho trabalho que pagam com pútrido pão depois que os amigos açoite no tronco depois que adormeça co'o sono de um cão|irmã ensina lhe as dores de um fero trabalho trabalho que pagam com pútrido pão depois que os amigos açoite no tronco depois que adormeça co'o sono de um cão |
2961_3765_000083|o escravo então foi deitar-se pois tinha de levantar-se bem antes do sol nascer e se tardasse coitado teria de ser surrado pois bastava escravo ser|o escravo então foi deitar-se pois tinha de levantar-se bem antes do sol nascer e se tardasse coitado teria de ser surrado pois bastava escravo ser |
2961_3765_000084|sim cantar o campo as selvas as tardes a sombra a luz soltar su'alma com o bando das borboletas azuis ouvir o vento que geme sentir a folha que treme como um seio que pulou|sim cantar o campo as selvas as tardes a sombra a luz soltar su'alma com o bando das borboletas azuis ouvir o vento que geme sentir a folha que treme como um seio que pulou |
2961_3765_000085|são estes os cantos que deves na terra ao mísero escravo somente ensinar ó mãe que balanças a rede selvagem que ataste nos troncos do vasto palmar|são estes os cantos que deves na terra ao mísero escravo somente ensinar ó mãe que balanças a rede selvagem que ataste nos troncos do vasto palmar |
2961_3765_000086|e tu me dizes pálida inocente derramando uma lágrima tremente como orvalho de dor por que sofres a selva tem odores céu tem astros os vergéis têm flores nossas almas o amor|e tu me dizes pálida inocente derramando uma lágrima tremente como orvalho de dor por que sofres a selva tem odores céu tem astros os vergéis têm flores nossas almas o amor |
2961_3765_000087|sem poder esmagar a iniqüidade que tem na boca sempre a liberdade nada no coração que ri da dor cruel de mil escravos hiena que do túmulo dos bravos morde a reputação|sem poder esmagar a iniqüidade que tem na boca sempre a liberdade nada no coração que ri da dor cruel de mil escravos hiena que do túmulo dos bravos morde a reputação |
2961_3765_000088|que a donzela não manche em leito impuro a grinalda do amor que a honra não se compre ao carniceiro que se chama senhor dá que o brio não cortem como o cardo filho do coração nem o chicote acorde o pobre escravo a cada aspiração|que a donzela não manche em leito impuro a grinalda do amor que a honra não se compre ao carniceiro que se chama senhor dá que o brio não cortem como o cardo filho do coração nem o chicote acorde o pobre escravo a cada aspiração |
2961_3765_000089|não quero mais esta vida não quero mais esta terra vou procurá-la bem longe lá para as bandas da serra ai triste que eu sou escravo que vale ter coração chora chora na viola violeiro do sertão|não quero mais esta vida não quero mais esta terra vou procurá-la bem longe lá para as bandas da serra ai triste que eu sou escravo que vale ter coração chora chora na viola violeiro do sertão |
2961_3765_000090|arranca o do leito seu corpo habitue se ao frio das noites aos raios do sol na vida só cabe lhe a tanga rasgada na morte só cabe lhe o roto lençol|arranca o do leito seu corpo habitue se ao frio das noites aos raios do sol na vida só cabe lhe a tanga rasgada na morte só cabe lhe o roto lençol |
2961_3765_000091|já também amei as flores as mulheres o arrebol e o sino que chora triste ao morno calor do sol ouvi saudoso a viola que ao sertanejo consola junto à fogueira do lar amei a linda serrana cantando a mole tirana pelas noites de luar|já também amei as flores as mulheres o arrebol e o sino que chora triste ao morno calor do sol ouvi saudoso a viola que ao sertanejo consola junto à fogueira do lar amei a linda serrana cantando a mole tirana pelas noites de luar |
2961_3765_000092|minha terra é lá bem longe das bandas de onde o sol vem esta terra é mais bonita mas à outra eu quero bem sol faz lá tudo em fogo faz em brasa toda a areia ninguém sabe como é belo ver de tarde a|minha terra é lá bem longe das bandas de onde o sol vem esta terra é mais bonita mas à outra eu quero bem sol faz lá tudo em fogo faz em brasa toda a areia ninguém sabe como é belo ver de tarde a |
2961_3765_000093|mas não importa a ti que no banquete o manto sibarita não trajaste que se louros não tens na altiva fronte também da orgia a coroa renegaste|mas não importa a ti que no banquete o manto sibarita não trajaste que se louros não tens na altiva fronte também da orgia a coroa renegaste |
2961_3765_000094|meu deus da negra lenda que se inscreve co'o sangue de um luís no chão da grve não resta mais um som em vão nos deste pra maior lembrança do mundo a europa mas d'europa a frança mas da frança um bourbon|meu deus da negra lenda que se inscreve co'o sangue de um luís no chão da grve não resta mais um som em vão nos deste pra maior lembrança do mundo a europa mas d'europa a frança mas da frança um bourbon |
2961_3765_000095|mas hoje sempre sisuda me ouviste ficaste muda sorrindo não sei pra quem quase então que eu tive medo parecia que um segredo dizias baixinho a alguém depois depois|mas hoje sempre sisuda me ouviste ficaste muda sorrindo não sei pra quem quase então que eu tive medo parecia que um segredo dizias baixinho a alguém depois depois |
2961_3765_000096|na úmida senzala sentado na estreita sala junto ao braseiro no chão entoa o escravo o seu canto e ao cantar correm lhe em pranto saudades do seu torrão|na úmida senzala sentado na estreita sala junto ao braseiro no chão entoa o escravo o seu canto e ao cantar correm lhe em pranto saudades do seu torrão |
2961_3765_000097|tudo era festa em volta da pousada cantava o galo alegre no terreiro o mugido das vacas misturava-se ao relincho das éguas que corriam de crinas soltas pelo campo aberto aspirando o frescor da madrugada|tudo era festa em volta da pousada cantava o galo alegre no terreiro o mugido das vacas misturava-se ao relincho das éguas que corriam de crinas soltas pelo campo aberto aspirando o frescor da madrugada |
2961_3765_000098|e o povo é como a barca em plenas vagas a tirania é o tremedal das plagas o porvir a amplidão homens esta lufada que rebenta é o furor da mais lôbrega tormenta ruge a revolução|e o povo é como a barca em plenas vagas a tirania é o tremedal das plagas o porvir a amplidão homens esta lufada que rebenta é o furor da mais lôbrega tormenta ruge a revolução |
2961_3765_000099|natureza adeus pra sempre adeus ó meus amigos passarinhos do céu brisas da mata patativas saudosas dos coqueiros ventos da várzea fontes do deserto|natureza adeus pra sempre adeus ó meus amigos passarinhos do céu brisas da mata patativas saudosas dos coqueiros ventos da várzea fontes do deserto |
2961_3765_000100|que o apóstolo o símplice romeiro sem bolsa sem sandálias sem dinheiro pobre como jesus que mendigava outrora à caridade pagando o pão com o pão da eternidade pagando o amor com a luz|que o apóstolo o símplice romeiro sem bolsa sem sandálias sem dinheiro pobre como jesus que mendigava outrora à caridade pagando o pão com o pão da eternidade pagando o amor com a luz |
2961_3765_000101|no entanto fora belo nesta idade desfraldar o estandarte da igualdade de byron ser o irmão e pródigo a esta grécia brasileira legar no testamento uma bandeira e ao mundo uma nação|no entanto fora belo nesta idade desfraldar o estandarte da igualdade de byron ser o irmão e pródigo a esta grécia brasileira legar no testamento uma bandeira e ao mundo uma nação |
2961_3765_000102|ó maria mal sabes o fadário que o moço bardo arrasta solitário na impotência da dor quando vê que debalde à liberdade abriu sua alma urna da verdade da esperança e do amor quando vê que uma lúgubre coorte|ó maria mal sabes o fadário que o moço bardo arrasta solitário na impotência da dor quando vê que debalde à liberdade abriu sua alma urna da verdade da esperança e do amor quando vê que uma lúgubre coorte |
2961_3765_000103|grito eu sei que ao longe na praça ferve a onda popular que às vezes é pelourinho mas poucas vezes altar|grito eu sei que ao longe na praça ferve a onda popular que às vezes é pelourinho mas poucas vezes altar |
2961_3765_000104|do abismo em pego de desonra em crime rola o mísero a sós da lei sangrento o braço rasga as vísceras como o abutre feroz|do abismo em pego de desonra em crime rola o mísero a sós da lei sangrento o braço rasga as vísceras como o abutre feroz |
2961_3765_000105|não vês no futuro seu negro fadário ó cega divina que cegas de amor ensina a teu filho desonra misérias a vida nos crimes a morte na dor|não vês no futuro seu negro fadário ó cega divina que cegas de amor ensina a teu filho desonra misérias a vida nos crimes a morte na dor |
2961_3765_000106|canta filho da luz da zona ardente destes cerros soberbos altanados emboca a tuba lúgubre estridente em que aprendeste a rebramir teus brados|canta filho da luz da zona ardente destes cerros soberbos altanados emboca a tuba lúgubre estridente em que aprendeste a rebramir teus brados |
2961_3765_000107|tem o povo mar violento por armas o pensamento a verdade por farol e o homem vaga que nasce no oceano popular tem que impelir os espíritos tem uma plaga a buscar|tem o povo mar violento por armas o pensamento a verdade por farol e o homem vaga que nasce no oceano popular tem que impelir os espíritos tem uma plaga a buscar |
2961_3765_000108|epílogo muitos anos correram depois disto um dia nos sertões eu caminhava por uma estrada agreste e solitária diante de mim ua mulher seguia co o cântaro à cabeça pés descalços co'os ombros nus mas pálidos e magros|epílogo muitos anos correram depois disto um dia nos sertões eu caminhava por uma estrada agreste e solitária diante de mim ua mulher seguia co o cântaro à cabeça pés descalços co'os ombros nus mas pálidos e magros |
2961_3765_000109|minha mãe a noite é fria desce a neblina sombria geme o riacho no val e a bananeira farfalha como o som de uma mortalha que rasga o gênio do mal|minha mãe a noite é fria desce a neblina sombria geme o riacho no val e a bananeira farfalha como o som de uma mortalha que rasga o gênio do mal |
2961_3765_000110|pendido através de dois abismos com os pés na terra e a fronte no infinito traze a bênção de deus ao cativeiro levanta a deus do cativeiro o grito|pendido através de dois abismos com os pés na terra e a fronte no infinito traze a bênção de deus ao cativeiro levanta a deus do cativeiro o grito |
2961_3765_000111|o sol do espaço briaréu gigante pra escalar a montanha do infinito banha em sangue as campinas do levante então em meio dos saarás o egito humilde curva a fronte e um grito errante vai despertar a esfinge de granito|o sol do espaço briaréu gigante pra escalar a montanha do infinito banha em sangue as campinas do levante então em meio dos saarás o egito humilde curva a fronte e um grito errante vai despertar a esfinge de granito |
2961_3765_000112|crioula o teu seio escuro nunca deste ao beijo impuro luzidio firme duro guardaste pra um nobre amor negra diana selvagem que escutas sob a ramagem as vozes que traz a aragem do teu rijo caçador|crioula o teu seio escuro nunca deste ao beijo impuro luzidio firme duro guardaste pra um nobre amor negra diana selvagem que escutas sob a ramagem as vozes que traz a aragem do teu rijo caçador |
2961_3765_000113|que zombam do bardo atento curvo aos murmúrios do vento nas florestas do existir que babam fel e ironia sobre o ovo da utopia que guarda a ave do porvir|que zombam do bardo atento curvo aos murmúrios do vento nas florestas do existir que babam fel e ironia sobre o ovo da utopia que guarda a ave do porvir |
2961_3765_000114|mas hoje que sinistra ventania muge nas selvas ruge nos rochedos condor sem rumo errante que esvoaça deixo-te entregue ao vento da desgraça|mas hoje que sinistra ventania muge nas selvas ruge nos rochedos condor sem rumo errante que esvoaça deixo-te entregue ao vento da desgraça |
2961_3765_000115|poeta sábio selvagem vós sois a santa equipagem da nau da civilização marinheiro sobe aos mastros piloto estuda nos astros gajeiro olha a cerração|poeta sábio selvagem vós sois a santa equipagem da nau da civilização marinheiro sobe aos mastros piloto estuda nos astros gajeiro olha a cerração |
2961_3765_000116|chorei muito ai triste vida chorei muito arrependida do que talvez fiz a ti depois rezei ajoelhada a reza da madrugada que tantas vezes te ouvi|chorei muito ai triste vida chorei muito arrependida do que talvez fiz a ti depois rezei ajoelhada a reza da madrugada que tantas vezes te ouvi |
2961_3765_000117|sim de longe das raias do futuro parte um grito pra os homens surdo obscuro mas para os moços não é que em meio das lutas da cidade não ouvis o clarim da eternidade que troa n'amplidão|sim de longe das raias do futuro parte um grito pra os homens surdo obscuro mas para os moços não é que em meio das lutas da cidade não ouvis o clarim da eternidade que troa n'amplidão |
2961_3765_000118|então ela apanhou do mato as flores como outrora enlaçou as nos cabelos e rindo de chorar disse em soluços não te esqueças de mim que te amo tanto|então ela apanhou do mato as flores como outrora enlaçou as nos cabelos e rindo de chorar disse em soluços não te esqueças de mim que te amo tanto |
2961_3765_000119|pela última vez ela chorando veio sentar-se ao banco do terreiro pobre criança que conversas tristes tu conversaste então co'a natureza|pela última vez ela chorando veio sentar-se ao banco do terreiro pobre criança que conversas tristes tu conversaste então co'a natureza |
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