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2961_3765_000220|qual prometeu tu me amarraste um dia do deserto na rubra penedia infinito galé por abutre me deste o sol candente e a terra de suez foi a corrente que me ligaste ao pé|qual prometeu tu me amarraste um dia do deserto na rubra penedia infinito galé por abutre me deste o sol candente e a terra de suez foi a corrente que me ligaste ao pé
2961_3765_000221|a estátua range estremecendo move-se o rei de bronze na deserta praça o povo grita independência ou morte vendo soberbo o imperador que passa|a estátua range estremecendo move-se o rei de bronze na deserta praça o povo grita independência ou morte vendo soberbo o imperador que passa
2961_3765_000222|livre como o tufão corre o vaqueiro pelos morros e várzea e tabuleiro do intrincado cipó que importaos dedos da jurema aduncos a anta ao vê-los oculta se nos juncos voa a nuvem de pó|livre como o tufão corre o vaqueiro pelos morros e várzea e tabuleiro do intrincado cipó que importaos dedos da jurema aduncos a anta ao vê-los oculta se nos juncos voa a nuvem de pó
2961_3765_000223|toda noite tem auroras raios toda a escuridão moços creiamos não tarda a aurora da redenção gemer é esperar um canto chorar aguardar que o pranto faça-se estrela nos céus|toda noite tem auroras raios toda a escuridão moços creiamos não tarda a aurora da redenção gemer é esperar um canto chorar aguardar que o pranto faça-se estrela nos céus
2961_3765_000224|manuela manuela bela como tu ninguém luziu minha travessa morena pena pena tem de quem te viu manuela eu não perjuro juro pela luz dos olhos teus|manuela manuela bela como tu ninguém luziu minha travessa morena pena pena tem de quem te viu manuela eu não perjuro juro pela luz dos olhos teus
2961_3765_000225|quebre se o cetro do papa faça-se dele uma cruz a púrpura sirva ao povo pra cobrir os ombros nus que aos gritos do niagara sem escravos guanabara se eleve ao fulgor dos sóis|quebre se o cetro do papa faça-se dele uma cruz a púrpura sirva ao povo pra cobrir os ombros nus que aos gritos do niagara sem escravos guanabara se eleve ao fulgor dos sóis
2961_3765_000226|stamos em pleno mar do firmamento os astros saltam como espumas de ouro o mar em troca acende as ardentias constelações do líquido tesouro|stamos em pleno mar do firmamento os astros saltam como espumas de ouro o mar em troca acende as ardentias constelações do líquido tesouro
2961_3765_000227|terra de santa cruz sublime verso da epopéia gigante do universo da imensa criação com tuas matas ciclopes de verdura onde o jaguar que passa na espessura roja as folhas no chão|terra de santa cruz sublime verso da epopéia gigante do universo da imensa criação com tuas matas ciclopes de verdura onde o jaguar que passa na espessura roja as folhas no chão
2961_3765_000228|quando através das palmas dos coqueiros tua forma desliza aérea e pura ó maria meus olhos se deslumbram julgo ver um espírito que passa|quando através das palmas dos coqueiros tua forma desliza aérea e pura ó maria meus olhos se deslumbram julgo ver um espírito que passa
2961_3765_000229|são mulheres desgraçadas como agar o foi também que sedentas alquebradas de longe bem longe vêm trazendo com tíbios passos filhos e algemas nos braços n'alma lágrimas e fel|são mulheres desgraçadas como agar o foi também que sedentas alquebradas de longe bem longe vêm trazendo com tíbios passos filhos e algemas nos braços n'alma lágrimas e fel
2961_3765_000230|astros noites tempestades rolai das imensidades varrei os mares tufão existe um povo que a bandeira empresta p'ra cobrir tanta infâmia e cobardia|astros noites tempestades rolai das imensidades varrei os mares tufão existe um povo que a bandeira empresta p'ra cobrir tanta infâmia e cobardia
2961_3765_000231|tudo é deserto somente à praça em meio se agita dúbia forma que palpita se estorce em rouco estertor espécie de cão sem dono desprezado na agonia larva da noite sombria mescla de trevas e horror|tudo é deserto somente à praça em meio se agita dúbia forma que palpita se estorce em rouco estertor espécie de cão sem dono desprezado na agonia larva da noite sombria mescla de trevas e horror
2961_3765_000232|corno és feliz quanto eu dera pela eterna primavera que o teu castelo contém sob o cristal abrigada tu nem sentes a geada que passa raivosa além|corno és feliz quanto eu dera pela eterna primavera que o teu castelo contém sob o cristal abrigada tu nem sentes a geada que passa raivosa além
2961_3765_000233|treme a terra hirta e sombria são as vascas da agonia da liberdade no chão ou do povo o braço ousado que sob montes calcado abala os como um titão|treme a terra hirta e sombria são as vascas da agonia da liberdade no chão ou do povo o braço ousado que sob montes calcado abala os como um titão
2961_3765_000234|mas é infâmia demais da etérea plaga levantai vos heróis do novo mundo andrada arranca esse pendão dos ares colombo fecha a porta dos teus mares|mas é infâmia demais da etérea plaga levantai vos heróis do novo mundo andrada arranca esse pendão dos ares colombo fecha a porta dos teus mares
2961_3765_000235|banhem se em luz os prostíbulos e das lascas dos patíbulos erga se a estátua aos heróis basta eu sei que a mocidade é o moisés no sinai das mãos do eterno recebe as tábuas da lei marchai|banhem se em luz os prostíbulos e das lascas dos patíbulos erga se a estátua aos heróis basta eu sei que a mocidade é o moisés no sinai das mãos do eterno recebe as tábuas da lei marchai
2961_3765_000236|e o grande andrada esse arquiteto ousado que amassa um povo na robusta mão o vento agita do tribuno a toga da lua pálida ao fatal clarão|e o grande andrada esse arquiteto ousado que amassa um povo na robusta mão o vento agita do tribuno a toga da lua pálida ao fatal clarão
2961_3765_000237|depois o areal extenso depois o oceano de pó depois no horizonte imenso desertos desertos só|depois o areal extenso depois o oceano de pó depois no horizonte imenso desertos desertos só
2961_3765_000238|deus não ouves dentre a imensa orquesta que a natureza virgem manda em festa soberba senhoril um grito que soluça aflito vivo o retinir dos ferros do cativo um som discorde e vil|deus não ouves dentre a imensa orquesta que a natureza virgem manda em festa soberba senhoril um grito que soluça aflito vivo o retinir dos ferros do cativo um som discorde e vil
2961_3765_000239|deus ó deus onde estás que não respondes em que mundo em qu'estrela tu t'escondes embuçado nos céus há dois mil anos te mandei meu grito que embalde desde então corre o infinito onde estás senhor deus|deus ó deus onde estás que não respondes em que mundo em qu'estrela tu t'escondes embuçado nos céus há dois mil anos te mandei meu grito que embalde desde então corre o infinito onde estás senhor deus
2961_3765_000240|cai orvalho de sangue do escravo cai orvalho na face do algoz cresce cresce seara vermelha cresce cresce vingança feroz|cai orvalho de sangue do escravo cai orvalho na face do algoz cresce cresce seara vermelha cresce cresce vingança feroz
2961_3765_000241|jaguar e no furor desmedido saltar raivando atrevido o ramo o tronco estalar morder os cães que o morderam de vítima feita algoz em sangue e horror envolvido terrível bravo feroz|jaguar e no furor desmedido saltar raivando atrevido o ramo o tronco estalar morder os cães que o morderam de vítima feita algoz em sangue e horror envolvido terrível bravo feroz
2961_3765_000242|e o senhor que na festa descanta pare o braço que a taça alevanta coroada de flores azuis e murmure julgando-se em sonhos que demônios são estes medonhos que lá passam famintos e nus|e o senhor que na festa descanta pare o braço que a taça alevanta coroada de flores azuis e murmure julgando-se em sonhos que demônios são estes medonhos que lá passam famintos e nus
2961_3765_000243|é porque um dia escutai me dai-me sim dai-me antes que beber é que um dia mas bebamos vamos no copo afogue se a dor manuela manuela bela fez-se amante do senhor|é porque um dia escutai me dai-me sim dai-me antes que beber é que um dia mas bebamos vamos no copo afogue se a dor manuela manuela bela fez-se amante do senhor
2961_3765_000244|debalde aos vidros pintados aos balcões arabescados vais bater em doudo afã soam tímbalos na sala e a dança ardente resvala sobre os tapetes do irã|debalde aos vidros pintados aos balcões arabescados vais bater em doudo afã soam tímbalos na sala e a dança ardente resvala sobre os tapetes do irã
2961_3765_000245|minhas irmãs são belas são ditosas dorme a ásia nas sombras voluptuosas dos haréns do sultão ou no dorso dos brancos elefantes embala se coberta de brilhantes nas plagas do|minhas irmãs são belas são ditosas dorme a ásia nas sombras voluptuosas dos haréns do sultão ou no dorso dos brancos elefantes embala se coberta de brilhantes nas plagas do
2961_3765_000246|agar trema a terra de susto aterrada minha égua veloz desgrenhada negra escura nas lapas voou|agar trema a terra de susto aterrada minha égua veloz desgrenhada negra escura nas lapas voou
2961_3765_000247|o sono sempre cortado pelo arranco de um finado e o baque de um corpo ao mar ontem plena liberdade a vontade por poder|o sono sempre cortado pelo arranco de um finado e o baque de um corpo ao mar ontem plena liberdade a vontade por poder
2961_3765_000248|junto às estátuas de pedra tua vida cresce medra ao fumo dos narguillés no largo vaso da china da porcelana mais fina que vem do império chinês|junto às estátuas de pedra tua vida cresce medra ao fumo dos narguillés no largo vaso da china da porcelana mais fina que vem do império chinês
2961_3765_000249|queres saber então qual seja o arcanjo que inda vem m'enlevar o ser corruto o sonho que os cadáveres renova o amor que o lázaro arrancou da cova o ideal de satã eu vos escuto olhai signora além dessas cortinas o que vedes|queres saber então qual seja o arcanjo que inda vem m'enlevar o ser corruto o sonho que os cadáveres renova o amor que o lázaro arrancou da cova o ideal de satã eu vos escuto olhai signora além dessas cortinas o que vedes
2961_3765_000250|figuras pelo sol tisnadas lúbricas sorrisos sensuais sinistro olhar os bigodes retorcidos o cigarro a fumegar|figuras pelo sol tisnadas lúbricas sorrisos sensuais sinistro olhar os bigodes retorcidos o cigarro a fumegar
2961_3765_000251|porém não que esmague o povo mas lhe seja o pedestal que ao menino dê-se a escola ao veterano uma esmola a todos luz e fanal|porém não que esmague o povo mas lhe seja o pedestal que ao menino dê-se a escola ao veterano uma esmola a todos luz e fanal
2961_3765_000252|mas o que vejo é um sonho a barbaria erguer-se neste séc'lo à luz do dia sem pejo se ostentar e a escravidão nojento crocodilo da onda turva expulso lá do nilo vir aqui se abrigar|mas o que vejo é um sonho a barbaria erguer-se neste séc'lo à luz do dia sem pejo se ostentar e a escravidão nojento crocodilo da onda turva expulso lá do nilo vir aqui se abrigar
2961_3765_000253|entram três negros possantes brilham punhais traiçoeiros rolam por terra os primeiros da morte nas contorções um momento depois a cavalgada levava a trote largo pela estrada a criança a chorar|entram três negros possantes brilham punhais traiçoeiros rolam por terra os primeiros da morte nas contorções um momento depois a cavalgada levava a trote largo pela estrada a criança a chorar
2961_3765_000254|fatalidade atroz que a mente esmaga extingue nesta hora o brigue imundo o trilho que colombo abriu nas vagas como um íris no pélago profundo|fatalidade atroz que a mente esmaga extingue nesta hora o brigue imundo o trilho que colombo abriu nas vagas como um íris no pélago profundo
2961_3765_000255|porém vós que no lixo do oceano a pérola de luz ides buscar mergulhadores deste pego insano da sociedade deste tredo mar vinde ver como rasgam se as entranhas de uma raça de novos prometeus|porém vós que no lixo do oceano a pérola de luz ides buscar mergulhadores deste pego insano da sociedade deste tredo mar vinde ver como rasgam se as entranhas de uma raça de novos prometeus
2961_3765_000256|meus leões africanos alerta vela a noite a campina é deserta quando a lua esconder seu clarão seja o bramo da vida arrancado no banquete da morte lançado junto ao corvo seu lúgubre irmão|meus leões africanos alerta vela a noite a campina é deserta quando a lua esconder seu clarão seja o bramo da vida arrancado no banquete da morte lançado junto ao corvo seu lúgubre irmão
2961_3765_000257|nossas mortalhas o presente inunda no sangue escravo que nodoa o chão anchietas gracos vós dormis na orgia da lua pálida ao fatal clarão|nossas mortalhas o presente inunda no sangue escravo que nodoa o chão anchietas gracos vós dormis na orgia da lua pálida ao fatal clarão
2961_3765_000258|mudou-se o férreo cetro esse aguilhão dos povos na virga do profeta coberta de renovos e o velho cadafalso horrendo e corcovado ao poste das idades por irrisão ligado|mudou-se o férreo cetro esse aguilhão dos povos na virga do profeta coberta de renovos e o velho cadafalso horrendo e corcovado ao poste das idades por irrisão ligado
2961_3765_000259|a fria geada que importa a loura alvorada virá beijar-te amanhã poeta romperás logo a cada beijo de fogo na cantilena louçã|a fria geada que importa a loura alvorada virá beijar-te amanhã poeta romperás logo a cada beijo de fogo na cantilena louçã
2961_3765_000260|o cavalo estafado do beduíno sob a vergasta tomba ressupino e morre no areal minha garupa sangra a dor poreja quando o chicote do simoun dardeja o teu braço eternal|o cavalo estafado do beduíno sob a vergasta tomba ressupino e morre no areal minha garupa sangra a dor poreja quando o chicote do simoun dardeja o teu braço eternal
2961_3765_000261|da mortalha de seus bravos fez bandeira a tirania oh armas talvez o povo deseus ossos faça um dia|da mortalha de seus bravos fez bandeira a tirania oh armas talvez o povo deseus ossos faça um dia
2961_3765_000262|senhor deus dos desgraçados dizei-me vós senhor deus se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus ó mar por que não apagas co'a esponja de tuas vagas do teu manto este borrão|senhor deus dos desgraçados dizei-me vós senhor deus se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus ó mar por que não apagas co'a esponja de tuas vagas do teu manto este borrão
2961_3765_000263|a estrela se cala se a vaga à pressa resvala como um cúmplice fugaz perante a noite confusa dize o tu severa musa musa libérrima audaz|a estrela se cala se a vaga à pressa resvala como um cúmplice fugaz perante a noite confusa dize o tu severa musa musa libérrima audaz
2961_3765_000264|um grito passa despertando os ares levanta as lousas invisível mão os mortos saltam poeirentos lívidos da lua pálida ao fatal clarão|um grito passa despertando os ares levanta as lousas invisível mão os mortos saltam poeirentos lívidos da lua pálida ao fatal clarão
2961_3765_000265|e livre maria e esqueceria tudo por ti esqueceria tudo a família o dever reino e vingança sim até a vingança ainda que cedo tenha enfim de colher este acre fruto acre e doce que tarde amadurece|e livre maria e esqueceria tudo por ti esqueceria tudo a família o dever reino e vingança sim até a vingança ainda que cedo tenha enfim de colher este acre fruto acre e doce que tarde amadurece
2961_3765_000266|passa um dia a caravana quando a virgem na cabana cisma da noite nos véus adeus ó choça do monte adeus palmeiras da fonte adeus amores adeus|passa um dia a caravana quando a virgem na cabana cisma da noite nos véus adeus ó choça do monte adeus palmeiras da fonte adeus amores adeus
2961_3765_000267|senhor deus dos desgraçados dizei-me vós senhor deus se é loucura se é verdade tanto horror perante os céus ó mar por que não apagas co'a esponja de tuas vagas de teu manto este borrão|senhor deus dos desgraçados dizei-me vós senhor deus se é loucura se é verdade tanto horror perante os céus ó mar por que não apagas co'a esponja de tuas vagas de teu manto este borrão
2961_3765_000268|duas coroas seu cavalo pisa mas duas cartas ele traz na mão por guarda de honra tem dous povos livres da lua pálida ao fatal clarão|duas coroas seu cavalo pisa mas duas cartas ele traz na mão por guarda de honra tem dous povos livres da lua pálida ao fatal clarão
2961_3765_000269|se aqui houve cativos eles os libertaram se aqui houve selvagens eles os educaram se aqui houve fogueiras eles nelas sofreram se lá carrascos foram cá mártires morreram|se aqui houve cativos eles os libertaram se aqui houve selvagens eles os educaram se aqui houve fogueiras eles nelas sofreram se lá carrascos foram cá mártires morreram
2961_3765_000270|a ciência desertar do egito vi meu povo seguir judeu maldito trilho de perdição depois vi minha prole desgraçada pelas garras d'europa arrebatada amestrado falcão|a ciência desertar do egito vi meu povo seguir judeu maldito trilho de perdição depois vi minha prole desgraçada pelas garras d'europa arrebatada amestrado falcão
2961_3765_000271|quando arquejante em hórrido granito se estorce prometeu gigantesco precito vós nereidas gentis meigas filhas do mar o oceano lhe trazeis pra em prantos derramar|quando arquejante em hórrido granito se estorce prometeu gigantesco precito vós nereidas gentis meigas filhas do mar o oceano lhe trazeis pra em prantos derramar
2961_3765_000272|vejo lhe o pé resvalando brando no fandango a delirar inda ao som das castanholas rolas diante do meu olhar manuela mesmo agora chora minh'alma pensando em ti e na viola relembro lembro tiranas que então gemi|vejo lhe o pé resvalando brando no fandango a delirar inda ao som das castanholas rolas diante do meu olhar manuela mesmo agora chora minh'alma pensando em ti e na viola relembro lembro tiranas que então gemi
2961_3765_000273|senhor não deixes que se manche a tela onde traçaste a criação mais bela de tua inspiração o sol de tua glória foi toldado teu poema da américa manchado manchou o a escravidão|senhor não deixes que se manche a tela onde traçaste a criação mais bela de tua inspiração o sol de tua glória foi toldado teu poema da américa manchado manchou o a escravidão
2961_3765_000274|desce do espaço imenso ó águia do oceano desce mais inda mais não pode olhar humano como o teu mergulhar no brigue voador|desce do espaço imenso ó águia do oceano desce mais inda mais não pode olhar humano como o teu mergulhar no brigue voador
2961_3765_000275|morrem escravo quero um canto vibra a lira de orfeu desperta a fibra dolorida canta a volúpia das bacantes nudas fere o hino de amor que inflama a vida doce como do himeto o mel dourado puro como o perfume|morrem escravo quero um canto vibra a lira de orfeu desperta a fibra dolorida canta a volúpia das bacantes nudas fere o hino de amor que inflama a vida doce como do himeto o mel dourado puro como o perfume
2961_3765_000276|e se escuto os acentos encantados que em melodia escapam de teus lábios meu coração palpita em meu ouvido misturando um queixoso murmurio de tua voz à lânguida harmonia|e se escuto os acentos encantados que em melodia escapam de teus lábios meu coração palpita em meu ouvido misturando um queixoso murmurio de tua voz à lânguida harmonia
2961_3765_000277|e o coração tredo lodo fezes d'ânfora doirada negra serpe que enraivada morde a cauda morde o dorso e sangra às vezes piedade e sangra às vezes remorso|e o coração tredo lodo fezes d'ânfora doirada negra serpe que enraivada morde a cauda morde o dorso e sangra às vezes piedade e sangra às vezes remorso
2961_3765_000278|punir te sigo só caminhando serra acima e meu cavalo a galopar se anima aos bafos da manhã a alvorada se eleva do levante e ao mirar na lagoa seu semblante julga ver sua irmã|punir te sigo só caminhando serra acima e meu cavalo a galopar se anima aos bafos da manhã a alvorada se eleva do levante e ao mirar na lagoa seu semblante julga ver sua irmã
2961_3765_000279|no mundo tenda imensa da humanidade inteira que o espaço tem por teto o sol tem por lareira feliz se aquece unida a universal família|no mundo tenda imensa da humanidade inteira que o espaço tem por teto o sol tem por lareira feliz se aquece unida a universal família
2961_3765_000280|mas não mártir divino encélado tombado junto ao calvário teu por todos desprezado a musa do poeta irá filha do mar o oceano de sua alma em cantos derramar|mas não mártir divino encélado tombado junto ao calvário teu por todos desprezado a musa do poeta irá filha do mar o oceano de sua alma em cantos derramar
2961_3765_000281|amigo eu quero o ferro da vingança a cruz|amigo eu quero o ferro da vingança a cruz
2961_3765_000282|impaciência escravo dá-me a c'roa de amaranto que mandou-me inda há pouco afra impudente orna me a fronte enrola me os cabelos quero o mole perfume do oriente|impaciência escravo dá-me a c'roa de amaranto que mandou-me inda há pouco afra impudente orna me a fronte enrola me os cabelos quero o mole perfume do oriente
2961_3765_000283|meu filho dorme como ruge o norte nas folhas secas do sombrio chão folha dest'alma como dar-te à sorte é tredo horrível o feral tufão|meu filho dorme como ruge o norte nas folhas secas do sombrio chão folha dest'alma como dar-te à sorte é tredo horrível o feral tufão
2961_3765_000284|homens que fídias talhara vão cantando em noite clara versos que homero gemeu nautas de todas as plagas vós sabeis achar nas vagas as melodias do céu|homens que fídias talhara vão cantando em noite clara versos que homero gemeu nautas de todas as plagas vós sabeis achar nas vagas as melodias do céu
2961_3765_000285|quem cai na luta com glória tomba nos braços da história no coração do brasil moços do topo dos andes pirâmides vastas grandes vos contemplam séc'los mil|quem cai na luta com glória tomba nos braços da história no coração do brasil moços do topo dos andes pirâmides vastas grandes vos contemplam séc'los mil
2961_3765_000286|e deixa-a transformar-se nessa festa em manto impuro de bacante fria meu deus meu deus mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia silêncio musa chora e chora tanto que o pavilhão se lave no teu pranto|e deixa-a transformar-se nessa festa em manto impuro de bacante fria meu deus meu deus mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia silêncio musa chora e chora tanto que o pavilhão se lave no teu pranto
2961_3765_000287|não mais inunda o templo a vil superstição a fé a pomba mística e a águia da razão unidas se levantam do vale escuro d'alma ao ninho do infinito voando em noite calma|não mais inunda o templo a vil superstição a fé a pomba mística e a águia da razão unidas se levantam do vale escuro d'alma ao ninho do infinito voando em noite calma
2961_3765_000288|que tens criança o areal da estrada luzente a cintilar parece a folha ardente de uma espada tine o sol nas savanas morno é o vento à sombra do palmar o lavrador se inclina sonolento|que tens criança o areal da estrada luzente a cintilar parece a folha ardente de uma espada tine o sol nas savanas morno é o vento à sombra do palmar o lavrador se inclina sonolento
2961_3765_000289|meu capote roto e pobre mal os meus ombros encobre quanto à gorra tu bem vês ai meu deus se rosa fora como eu zombaria agora dos louros dos menestréis|meu capote roto e pobre mal os meus ombros encobre quanto à gorra tu bem vês ai meu deus se rosa fora como eu zombaria agora dos louros dos menestréis
2961_3765_000290|cala-te miserável meus senhores o escravo podeis ver e a mãe em pranto aos pés dos mercadores|cala-te miserável meus senhores o escravo podeis ver e a mãe em pranto aos pés dos mercadores
2961_3765_000291|são teus cães que têm frio e têm fome que há dez séc'los a sede consome quero um vasto banquete feroz venha o manto que os ombros nos cubra para vós fez-se a púrpura rubra fez-se a manto de sangue pra nós|são teus cães que têm frio e têm fome que há dez séc'los a sede consome quero um vasto banquete feroz venha o manto que os ombros nos cubra para vós fez-se a púrpura rubra fez-se a manto de sangue pra nós
2961_3765_000292|rebenque prateado do pulso dependurado largas chilenas luzidas que vão tinindo no chão e as garruchas embebidas no bordado cinturão|rebenque prateado do pulso dependurado largas chilenas luzidas que vão tinindo no chão e as garruchas embebidas no bordado cinturão
2961_3765_000293|que importa do nauta o berço donde é filho qual seu lar ama a cadência do verso que lhe ensina o velho mar cantai que a morte é divina resvala o brigue à bolina como golfinho veloz|que importa do nauta o berço donde é filho qual seu lar ama a cadência do verso que lhe ensina o velho mar cantai que a morte é divina resvala o brigue à bolina como golfinho veloz
2961_3765_000294|companheiros já na serra erra a tropa inteira a pastar tropeiros junto à candeia eia soltemos nosso trovar té que as barras do oriente rente saiam dos montes de lá cada qual sua cantiga diga aos ecos do sincorá|companheiros já na serra erra a tropa inteira a pastar tropeiros junto à candeia eia soltemos nosso trovar té que as barras do oriente rente saiam dos montes de lá cada qual sua cantiga diga aos ecos do sincorá
2961_3765_000295|impossível que me roubem da vida o único bem apenas sabe rir é tão pequeno inda não sabe me chamar também senhor vós tendes filhos quem não tem|impossível que me roubem da vida o único bem apenas sabe rir é tão pequeno inda não sabe me chamar também senhor vós tendes filhos quem não tem
2961_3765_000296|a história cega aquentando o estilete nas brasas que apagar não pôde o guadalete tem jus de vos marcar com o ferro do labéu como queima o carrasco o ombro nu do réu|a história cega aquentando o estilete nas brasas que apagar não pôde o guadalete tem jus de vos marcar com o ferro do labéu como queima o carrasco o ombro nu do réu
2961_3765_000297|albatroz albatroz águia do oceano tu que dormes das nuvens entre as gazas sacode as penas leviathan do espaço albatroz albatroz dá-me estas asas|albatroz albatroz águia do oceano tu que dormes das nuvens entre as gazas sacode as penas leviathan do espaço albatroz albatroz dá-me estas asas
2961_3765_000298|maria eu sei que és branca e eu negro mas precisa o dia unir-se à noite feia escura para criar as tardes e as auroras mais belas do que a luz mais do que as trevas|maria eu sei que és branca e eu negro mas precisa o dia unir-se à noite feia escura para criar as tardes e as auroras mais belas do que a luz mais do que as trevas
2961_3765_000299|em vez do inquisidor tivemos a vedeta loiola aqui foi nóbrega arbues foi anchieta oh não mil vezes nãol|em vez do inquisidor tivemos a vedeta loiola aqui foi nóbrega arbues foi anchieta oh não mil vezes nãol
2961_3765_000300|embalam lhe os sonhos na tarde saudosa os cheiros agrestes do vasto sertão e a triste araponga que geme chorosa e a voz dos tropeiros em terna canção|embalam lhe os sonhos na tarde saudosa os cheiros agrestes do vasto sertão e a triste araponga que geme chorosa e a voz dos tropeiros em terna canção
2961_3765_000301|o mundo é o nauta nas vagas terá do oceano as plagas se existem justiça e deus no entanto inda há muita noite no mapa da criação sangra o abutre tirano muito cadáver nação|o mundo é o nauta nas vagas terá do oceano as plagas se existem justiça e deus no entanto inda há muita noite no mapa da criação sangra o abutre tirano muito cadáver nação
2961_3765_000302|sol jaz por terra e lá soluça juarez que se debruça e diz-lhe espera o arrebol o quadro é negro que os fracos recuem cheios de horror a nós herdeiros dos gracos traz a desgraça valor|sol jaz por terra e lá soluça juarez que se debruça e diz-lhe espera o arrebol o quadro é negro que os fracos recuem cheios de horror a nós herdeiros dos gracos traz a desgraça valor
2961_3765_000303|na hipérbole do ousado cataclisma um dia deus morreu fuzila um prisma do calvário ao tabor viu-se então de palmira os pétreos ossos de babel o cadáver de destroços mais lívidos de horror|na hipérbole do ousado cataclisma um dia deus morreu fuzila um prisma do calvário ao tabor viu-se então de palmira os pétreos ossos de babel o cadáver de destroços mais lívidos de horror
2961_3765_000304|ai borboleta na gentil crisálida as asas de ouro vais além abrir ai rosa branca no matiz tão pálida longe tão longe vais de mim florir|ai borboleta na gentil crisálida as asas de ouro vais além abrir ai rosa branca no matiz tão pálida longe tão longe vais de mim florir
2961_3765_000305|ante esse escuro problema há muito irônico rir pra nós o vento da esp'rança traz o pólen do porvir e enquanto o cepticismo mergulha os olhos no abismo que a seus pés raivando tem rasga o moço os nevoeiros pra dos morros altaneiros ver o sol que irrompe além|ante esse escuro problema há muito irônico rir pra nós o vento da esp'rança traz o pólen do porvir e enquanto o cepticismo mergulha os olhos no abismo que a seus pés raivando tem rasga o moço os nevoeiros pra dos morros altaneiros ver o sol que irrompe além
2961_3765_000306|nero escravo infame quebras as cordas nos convulsos dedos deixa esta lira como o tempo é longo insano insano que tormento sinto traze o louro falerno transparente na mais custosa taça de corinto|nero escravo infame quebras as cordas nos convulsos dedos deixa esta lira como o tempo é longo insano insano que tormento sinto traze o louro falerno transparente na mais custosa taça de corinto
2961_3765_000307|se aponta a alvorada por entre as cascatas que estrelas no orvalho que a noite verteu as flores são aves que pousam nas matas as aves são flores que voam no céu|se aponta a alvorada por entre as cascatas que estrelas no orvalho que a noite verteu as flores são aves que pousam nas matas as aves são flores que voam no céu
2961_3765_000308|desfira quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos às harpas das estrelas ao mar aos elementos mas ai longos gemidos de míseros cativos tinidos de mil ferros soluços convulsivos vêm me bradar nas sombras como fatal vedeta que|desfira quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos às harpas das estrelas ao mar aos elementos mas ai longos gemidos de míseros cativos tinidos de mil ferros soluços convulsivos vêm me bradar nas sombras como fatal vedeta que
2961_3765_000309|assim dizia o fazendeiro rindo e agitava o chicote a mãe que ouvia imóvel pasma doida sem razão à virgem santa pedia com prantos por oração e os olhos no ar erguia que a voz não podia não|assim dizia o fazendeiro rindo e agitava o chicote a mãe que ouvia imóvel pasma doida sem razão à virgem santa pedia com prantos por oração e os olhos no ar erguia que a voz não podia não
2961_3765_000310|o francês predestinado canta os louros do passado e os loureiros do porvir os marinheiros helenos que a vaga jônia criou belos piratas morenos do mar que ulisses cortou|o francês predestinado canta os louros do passado e os loureiros do porvir os marinheiros helenos que a vaga jônia criou belos piratas morenos do mar que ulisses cortou
2961_3765_000311|é triste ver uma alvorada em sombras uma ave sem cantar o veado estendido nas alfombras mocidade és a aurora da existência quero ver-te brilhar canta criança és a ave da inocência|é triste ver uma alvorada em sombras uma ave sem cantar o veado estendido nas alfombras mocidade és a aurora da existência quero ver-te brilhar canta criança és a ave da inocência
2961_3765_000312|canta longe do caminho por onde o vaqueiro trilha se quer descansar as asas tem a palmeira a baunilha tem a palmeira a baunilha tem o brejo a lavadeira tem as campinas as flores tem a relva a trepadeira|canta longe do caminho por onde o vaqueiro trilha se quer descansar as asas tem a palmeira a baunilha tem a palmeira a baunilha tem o brejo a lavadeira tem as campinas as flores tem a relva a trepadeira
2961_3765_000313|livre o tropeiro toca o lote e canta a lânguida cantiga com que espanta a saudade a aflição solto o ponche o cigarro fumegando lembra a serrana bela que chorando deixou lá no sertão|livre o tropeiro toca o lote e canta a lânguida cantiga com que espanta a saudade a aflição solto o ponche o cigarro fumegando lembra a serrana bela que chorando deixou lá no sertão
2961_3765_000314|que faz que em santo êxtase eu veja a terra e os céus e o vácuo povoado de tua sombra ó deus eu vejo a erra livre|que faz que em santo êxtase eu veja a terra e os céus e o vácuo povoado de tua sombra ó deus eu vejo a erra livre
2961_3765_000315|negras mulheres suspendendo às tetas magras crianças cujas bocas pretas rega o sangue das mães outras moças mas nuas e espantadas no turbilhão de espectros arrastadas em ânsia e mágoa vãs|negras mulheres suspendendo às tetas magras crianças cujas bocas pretas rega o sangue das mães outras moças mas nuas e espantadas no turbilhão de espectros arrastadas em ânsia e mágoa vãs
2961_3765_000316|donde vem onde vai das naus errantes quem sabe o rumo se é tão grande o espaço neste saara os corcéis o pó levantam galopam voam mas não deixam traço|donde vem onde vai das naus errantes quem sabe o rumo se é tão grande o espaço neste saara os corcéis o pó levantam galopam voam mas não deixam traço
2961_3765_000317|cresce cresce seara vermelha cresce cresce vingança feroz dorme o raio na negra tormenta somos negros o raio fermenta nesses peitos cobertos de horror|cresce cresce seara vermelha cresce cresce vingança feroz dorme o raio na negra tormenta somos negros o raio fermenta nesses peitos cobertos de horror
2961_3765_000318|debalde em meu palácio altivo imenso de mosaicos brilhantes embutido nuas volvem as filhas do oriente no morno banho em termas de porfido só|debalde em meu palácio altivo imenso de mosaicos brilhantes embutido nuas volvem as filhas do oriente no morno banho em termas de porfido só
2961_3765_000319|oh que doce harmonia traz me a brisa que música suave ao longe soa meu deus como é sublime um canto ardente pelas vagas sem fim boiando à toa|oh que doce harmonia traz me a brisa que música suave ao longe soa meu deus como é sublime um canto ardente pelas vagas sem fim boiando à toa