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2474 e, um requerimento tendo em vista a prorrogação do prazo legal para a abertura de instrução, no qual faz referência, expressa e inequívoca, ao teor da acusação deduzida "vasta prova documental indicada em sede de acusação”). |
Como tal, pelo menos em 18 de agosto de 2021 a Ilustre Mandatária tinha já tomado conhecimento do teor da acusação proferida, não invocando então, a este propósito, qualquer irregularidade processual até ao dia 23 de agosto de 202 Efetivamente, a ter-se verificado a invocada falta de notificação, a mesma sempre constituiria, de facto, uma irregularidade processual a ser arguida nos termos do preceituado no artigo 12, n. 1 do, na medida em que não se encontra prevista no elenco de nulidades previsto nos artigos 11 e 12 do CPP, nem é qualificada como tal em qualquer outra disposição legal neste sentido, veja-se o Ac. |
do Tribunal da Relação de Lisboa de 202018, proc. |
n. 123/14PGOER.L1-3, relator: Conceição Gonçalves e o Ac. |
do mesmo Tribunal da Relação de 002020, proc. |
n. 3276/13T9SXL.L1-5, relator: Ricardo Cardoso, bem como o Ac. |
do Tribunal da Relação de Guimarães de 212020, proc. |
n. 754/10T9BRG.G1, relator: António Teixeira, todos disponíveis em www.dgsi.pt). |
Deste modo, e atendendo a que o prazo para a abertura de instrução é de vinte dias artigo 28, n.1, al. |
do, julga-se que, devendo a Ilustre Defensora considerar-se notificada do despacho de acusação pelo menos em 23 de julho de 2021 e, ainda que assim não se entendesse, em 24 de agosto de 2021, o requerimento de abertura de instrução ora apresentado, em 10 de novembro de 2021, é manifestamente extemporâneo. |
Assim, decide-se rejeitar, por ser manifestamente extemporâneo, o aludido requerimento de abertura de instrução, em conformidade com o disposto no artigo 28, n.1, al. |
e n. 3 do CPP. |
Custas a fixar a final, em caso de condenação, nos termos do disposto no artigo 51 do CPP e artigo , n. 9 do RCP, por referência à correspondente tabela Notifique». |
B.2 –Cumpre conhecer. |
B.1 – O objecto do presente recurso é de simples enunciação. |
A questão a apreciar nesta decisão, em função das conclusões de recurso, é a de saber se o tribunal recorrido podia considerar sanada a eventual invalidade processual praticada nos autos por ausência de notificação da acusação à ilustre mandatária recorrente, pressupondo existente essa invalidade. |
E é certo que a acusação deve ser notificada ao arguido e seu mandatário não só pelo que se prevê no artigo 113, n. 10 do Código de Processo Penal, também porque é uma exigência de um due process, de um processo justo. |
A notificação de uma acusação é um direito pessoal do arguido que se não basta com a mera notificação do seu defensor – artigo 6, n 3, al. |
da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. |
- Vide gratia a proposição do acórdão do STJ de 10-10-2007 Relator o Cons. |
Henriques Gaspar, proc. |
n.: "- A notificação da acusação deve ser feita pessoalmente ao arguido, além do defensor, como expressamente refere o n. 9 do art. |
11 do CPP. |
Esta exigência constitui um pressuposto do exercício efectivo do direito de defesa, dada a função processual do acto de acusação e da posição eminentemente pessoal do arguido perante os factos da acusação, como delimitação do perímetro dentro do qual se desenha o direito e se impõem as necessidades de defesa da pessoa acusada”. |
E o n 10 do artigo 113 do Código de Processo Penal é muito claro quando assevera que «As notificações do arguido, do assistente e das partes civis podem ser feitas ao respectivo defensor ou advogado. |
Ressalvam-se as notificações respeitantes à acusação, à decisão instrutória, à designação de dia para julgamento e à sentença, bem como as relativas à aplicação de medidas de coacção e de garantia patrimonial e à dedução do pedido de indemnização , as quais, porém, devem igualmente ser notificadas ao advogado ou defensor nomeado; neste caso, o prazo para a prática de acto processual subsequente conta-se a partir da data da notificação efectuada em último lugar». |
Assim, para o actual ordenamento jurídico português a exigência do referido n 10 anterior n tem um duplo sentido. |
Tem, em primeira linha, o sentido de que a "a notificação de uma acusação é um direito pessoal do arguido” pretendendo afirmar-se que a notificação se não basta com a notificação ao defensor e que o arguido tem um direito próprio, pessoal, de receber uma notificação da acusação deduzida, nos termos em que essa notificação deva ser feita segundo as regras do ordenamento processual interno. |
Mas também tem o sentido de que o arguido tem um direito a uma defesa efectiva, o que começa pela notificação ao seu defensor das peças essenciais ao exercício do direito de defesa e o saber do teor da acusação é o pináculo do efectivo exercício do direito de defesa que lhe permita uma defesa atempada tendo presente o prazo que começa a correr a contar dessa notificação. |
Tal "realidade” processual, claramente uma invalidade processual caso não ocorra, como se qualifica? |
E deve ser conhecida oficiosamente pelo tribunal? |
Neste ponto e in illo tempore, a jurisprudência maioritária ia no sentido de qualificar a dita invalidade como uma irregularidade sanável, afastando a tese da nulidade insanável. |
- Esta por via da previsão da al. |
do artigo 119 do Código de Processo Penal por interpretação extensiva do termo "presença”. |
Mas hoje, quando já se conhece não é? |
): - o teor do artigo 6, n 1, al. |
da Convenção Europeia dos Direitos do Homem «) Defender-se a si próprio ou ter a assistência de um defensor da sua escolha e, se não tiver meios para remunerar um defensor, poder ser assistido gratuitamente por um defensor oficioso, quando os interesses da justiça o exigirem» - o Artigo 48 n 2 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia 2016/202/02), «É garantido a todo o arguido o respeito dos direitos de defesa») - a Diretiva 2013/48/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 22 de outubro de 2013 relativa ao direito de acesso a um advogado em processo penal e nos processos de execução de mandados de detenção europeu, - e a Diretiva 2012/13/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 22 de maio de 2012 relativa ao direito à informação em processo penal, que nos seus artigos 3 e 6 afirmam: Artigo 3 Direito a ser informado sobre os direitos Os Estados-Membros asseguram que os suspeitos ou acusados de uma infração penal recebam prontamente informações sobre pelo menos os seguintes direitos processuais, tal como aplicáveis nos termos do direito nacional, a fim de permitir o seu exercício efetivo: a) O direito de assistência de um advogado; b) Artigo 6 Direito à informação sobre a acusação Os Estados-Membros asseguram que os suspeitos ou acusados recebam informações sobre o ato criminoso de que sejam suspeitos ou acusados de ter cometido. |
Os Estados-Membros asseguram que, pelo menos aquando da apresentação da fundamentação da acusação perante um tribunal, sejam prestadas informações detalhadas sobre a acusação, incluindo a natureza e qualificação jurídica da infração penal, bem como a natureza da participação do acusado. |
Os Estados-Membros asseguram que os suspeitos ou acusados sejam prontamente informados das alterações nas informações prestadas nos termos do presente artigo caso tal seja necessário para salvaguardar a equidade do processo. |
Talvez seja muito limitativo hoje em dia restringir a discussão à muito badalada e algo anorética argumentação da natureza sanável da invalidade processual e ao prazo de três dias do processo penal português. |
É que essa argumentação é uma forma de revogar a dita legislação comunitária e Convencional, do P.P., de tornar inviável o direito de defesa e, assim, não cumprir as obrigações defacere do Estado português em cada processo, que muito claramente ressalta dessa legislação a expressão "Os Estados-Membros asseguram” é consabidamente a consagração de uma "obrigação positiva” a vincular os Estados membro da. |
Porque, claramente, estas disposições comunitárias e convencionais estabelecem obrigações positivas vinculando os Estados membros, incompatíveis com um "lavar de mãos” processual. |
Mas mesmo no simples processo penal português a inexistência de notificação da acusação é uma questão prévia que obsta a conhecer de mérito e que o juiz está legitimado a conhecer no momento do artigo 311 do Código de Processo Penal. |
E, vendo o juiz que a notificação da acusação não existe, tem que constatar um vício processual de grande relevo, na medida em que essa notificação é uma exigência processual com bastos aspectos substantivos. |
Esse vício processual tem importantes reflexos substantivos – não é uma mera questão processual – já que briga com o direito a conhecer os factos de que se é acusado, a saber, qual o objecto do processo e o âmbito do julgamento a que poderá ser submetido. |
E, face a isto, a argumentação da sanabilidade por decurso de um prazo de três dias cai por terra. |
Por isso que a ausência dessa notificação se deva considerar uma irregularidade de conhecimento oficioso, nos termos do disposto no artigo 123 do P.P.. Mas será essa a questão essencial nos presentes autos? |
Claramente não é! |
B.2 – A ilustre recorrente não invoca – nem nega – que os advogados dos arguidos não tenham sido notificados da acusação. |
O que invoca é que pessoalmente não foi notificada dessa acusação! |
Mas a notificação – não sendo um direito pessoal do advogado - tem que ser feita ao advogado que, no momento próprio, estava constituído nos autos. |
E se houver alteração de mandatário constituído – designadamente por substabelecimento com ou sem reservas – o novo mandatário não ganha um direito pessoal a ser notificado, de novo, da acusação. |
Tudo depende, pois, da data da junção do substabelecimento aos autos e dos efeitos jurídicos daí resultantes que, parece-nos, têm sido vistos, erradamente, com efeitos automáticos resultantes da simples junção do substabelecimento. |
E não é assim, de há muito! |
É um dado adquirido que a diferença entre o substabelecimento com reserva e o substabelecimento sem reserva reside na circunstância de, no primeiro caso, o advogado que o outorga manter os seus poderes de representação e, no segundo, o advogado constituído, perder os seus iniciais poderes. |
Desta forma tudo depende de saber em que momento o advogado substabelecido assume, em pleno, os poderes nos autos. |
Afirma-se no artigo 44 ns 3 e 4 do Código de Processo Civil que «o substabelecimento sem reserva implica a exclusão do anterior mandatário» e que «a eficácia do mandato depende de aceitação, que pode ser manifestada no próprio instrumento público ou em documento particular, ou resultar de comportamento concludente do mandatário». |
Logo, não basta a simples junção do substabelecimento para que se considere existente a exclusão do anterior mandatário e a aceitação do novo enquanto não ocorrer um dos três actos indicados pela norma. |
E acto concludente será a mera junção do substabelecimento pelo substabelecido, ou a sua junção pelo mandatário substabelecente com aceitação do substabelecido no instrumento apresentado. |
O que não ocorreu nos autos! |
No caso dos autos ocorrem, os seguintes factos relevantes, neste ponto: a mandatária substabelecente foi quem juntou o substabelecimento mas sem aceitação da mandatária substabelecida nesse instrumento processual; esta mandatária não juntou instrumento ou documento particular de aceitação e só vem a ter um comportamento concludente de aceitação do mandato em 18-08-2021, após a notificação da acusação à anterior mandatária. |
Assim, entre a data de junção do substabelecimento 04-06-2021) e 18-08-2021 data de um acto os arguidos continuaram a ser representados pela mandatária substabelecente, sendo pois lícita a notificação da acusação ocorrida em 28-07-2021 à mandatária anterior. |
E tendo sido constituída mandatária nos autos a partir de certo momento, a nova mandatária tem a obrigação de apurar o estado dos autos e verificar se a dita notificação da acusação foi efectivada em momento anterior. |
Ou vir demonstrar nos autos que não foi realizada. |
Aliás – e como o despacho recorrido bem refere – a ilustre recorrente tem perfeito conhecimento do teor da acusação e demonstra-o quando vem pedir a prorrogação do prazo para requerer a instrução e faz expressa referência ao que dela consta. |
Desta forma, sendo este o único fundamento de recurso este é improcedente na totalidade.Dispositivo Em face do exposto acordam os Juízes que compõem a Secção Criminal deste Tribunal da Relação de Évora em negar provimento ao recurso interposto pelos arguidos. |
Custas pelos recorrentes com o mínimo de taxa de justiça. |
Notifique elaborado e revisto pelo relator antes de. |
Évora, 05 de Abril de 2022 processado e revisto pelo. |
João Gomes de Sousa António Condesso Gilberto Cunha Presidente da Secção) |
Acordam no Supremo Tribunal de Justiça Relatório AA, mais detidamente identificado nos autos, foi condenado em Instância, no Tribunal Coletivo ..., pela prática de 7494 crimes p. e p. pelo art. |
176, n. 1 al. |
do CP; 859 crimes p. e p. pelo art. |
176, n. 1 al. |
agravado nos termos do art. |
177, n. 7, ambos do CP; 350 crimes p. e p. pelo art. |
176, n. 1 als. |
e, agravado nos termos do art. |
177, n. 6, ambos do CP; e 441 crimes p. e p. pelo art. |
176, n. 1 als. |
e do CP. |
A pena, em cúmulo jurídico, foi fixada em 6 anos e 6 meses de prisão. |
Decidiu ainda aquele Tribunal: Condenar AA, em conformidade com o disposto no art. |
69 -, n. 2, do Código Penal, na pena acessória de proibição de assumir a confiança de menor, em especial a adopção, tuteia, curatela, acolhimento familiar, apadrinhamento , entrega, guarda ou confiança de menores, por um período de 20 anos. |
Condenar AA, em conformidade com o disposto no art. |
6-B, n. 2, do Código Penal, na pena acessória de proibição de exercer profissão, emprego, funções ou actividades, públicas ou privadas, cujo exercício envolva contacto regular com menores, por um período de 20 anos. |
Absolver AA da prática de 148 cento e quarenta e crimes de pornografia de menores p. e p. pelo art. |
17. n 1, al., do Código Penal. |
Declarar perdidos a favor do Estado os objectos/instrumentos apreendidos nestes autos. |
Condenar o arguido no pagamento de 6 UC de taxa de justiça e demais custas. |
Após trânsito: Remeta boletim ao registo criminai; Comunique ao registo de agressores sexuais; Inconformado, recorreu para o Tribunal da Relação ... que, por Acórdão proferido em 102021, decidiu confirmar o Acórdão recorrido. |
Interpôs ulteriormente o presente recurso para fixação de jurisprudência, por considerar haver incompatibilidade da solução jurídica do Acórdão que o condenou com a do Acórdão proferido, no âmbito do Processo n. 194/18TEL.SB. |
S1, por este STJ, na sua Secção, datado de 17-05-201 Inicialmente não tendo apresentado Conclusões, veio em momento ulterior o requerente suprir essa falta, a convite do relator, o que fez em 23-02-202 São elas do seguinte teor: "A. O presente recurso de fixação de jurisprudência veio interposto com fundamento no conflito jurisprudencial existente entre o Acórdão do Venerando Tribunal da Relação ..., datado de 10 de fevereiro de 2021, e o Acórdão do Egrégio Supremo Tribunal de Justiça, Secção, proferido em 17 de maio de 2017 Processo n. 194/18TEL.SB.. B. Ambos os Acórdãos, já transitados em julgado, foram proferidos sobre idêntica situação de facto e no domínio da mesma legislação alíneas e, do n. 1 do artigo 17 e n. 6 e n. 7, do artigo 17 ambos do Código, legislação, essa, que não sofreu alterações entre a data de trânsito em julgado do Acórdão fundamento e a de trânsito em julgado do Acórdão recorrido, não ocorrendo, assim, modificação legislativa que interfira, direta ou indiretamente, na resolução da questão de direito controvertida. |
Entendeu o Acórdão fundamento, proferido pelo Egrégio Supremo Tribunal de Justiça, que a conduta do Arguido que importou, partilhou e detinha com vista à sua partilha, ficheiros com conteúdo pornográfico com menores de idade inferiores a 16 e 14 anos integra a prática de um único crime de pornografia de menores agravado, p. e p. pelo artigo 17, n. 1, alíneas e e artigo 17, n. 6 e n. 7 do Código Penal. |
O Supremo Tribunal de Justiça adotou aquela posição, com fundamento na natureza jurídica do bem violado, que, no seu entender, não contende imediatamente com a liberdade e autodeterminação sexual ou interesses exclusivamente pessoais, mas com outros interesses supra individuais, de interesse público, de proteção e defesa da dignidade de menores, na produção de conteúdos pornográficos e divulgação ou circulação destes pela comunidade, ou seja, criminalizando o comércio de material pornográfico com menores de idade inferior a 18 anos. |
E. Contrariamente, o Tribunal da Relação ... considerou que, perante matéria de facto idêntica, era de condenar o Arguido por uma pluralidade de crimes, em concurso efetivo entre si, entendendo que ocorreram tantos crimes quantos foram os ficheiros de imagem e vídeo importados e/ou partilhados pelo Arguido. |
F. O Acórdão recorrido entendeu, por oposição ao defendido pelo Supremo Tribunal de Justiça, que o bem jurídico tutelado nas alíneas e, do n. 1, do artigo 17 do Código Penal, tem natureza iminentemente pessoal, estando em causa a tutela direta de um bem jurídico e que, ao abrigo do disposto no n. 3, do artigo 3 do Código Penal, não poderia a conduta do arguido consubstanciar a prática de um único crime. |
G. Assim, o conflito de jurisprudência incide na qualificação jurídica dada à conduta daquele que partilha, importa ou detém ficheiros de imagem e de vídeo, de conteúdo pornográfico, com intenção de os partilhar, atendendo que o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça e o Acórdão do Tribunal da Relação ... adotam posições contrapostas relativamente a ela. |
H. Termos em que, face à oposição de julgados existente, em razão da segurança jurídica, impõe-se ser fixada jurisprudência. |
Termos em que, com o Douto suprimento de Vossas Excelências, deve ser admitido o presente Recurso Extraordinário de Fixação de Jurisprudência, ao abrigo das disposições conjugadas dos artigos 43 e 43 do Código de Processo Penal. |
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