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4,026
De Olhar atento e Ouvidos à escuta… - A espionagem militar na cronística portuguesa de Quatrocentos: Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara
História Militar,Espionagem,Idade Média
Nesta dissertação propomo-nos identificar um conjunto de ações de busca, exploração e comunicação de informação inteligente em âmbito militar, no final da Idade Média. O contexto escolhido foi o do reino português de finais de Trezentos e de princípios de Quatrocentos, e o dos espaços onde se jogaram a sua independência e o seu futuro próximo. Ou seja, quisemos perceber alguns dos aspetos particulares e dos meios técnicos utilizados durante o continuado confronto luso-castelhano de 1383-1411 e nas ações desencadeadas pela monarquia de Avis para a Conquista de Ceuta (1415) e para a sua manutenção, enquanto primeira praça-forte portuguesa em África, por D. Pedro de Meneses. Para este desiderato decidimos perscrutar algumas das mais belas páginas da historiografia portuguesa; assim, de um leque mais ou menos alargado da cronística de Quatrocentos que poderíamos utilizar, selecionámos como fontes: a Crónica de D. João I de Fernão Lopes (1.ª e 2.ª Partes), a Crónica da Tomada de Ceuta e a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, estas duas da autoria de Gomes Eanes de Zurara. Um grupo restrito de fontes mas, como julgamos ter demonstrado, suficientemente ricas e ilustrativas do tema em análise e do período em questão. Rico, pelo espetro de acontecimentos que estas crónicas cobrem; ilustrativo, pela diversidade e importância das operações militares nelas descritas, dos protagonistas que nos dão a conhecer e das paragens e contextos para os quais nos transportam.
Humanidades
4,028
A comunidade ibero-americana de nações : o protagonismo da Espanha
Comunidade Ibero americana,Comunidade Ibero-Americana de Nação,Relações ibero-americanas
Esta dissertação procura problematizar o lugar da criação da Comunidade Iberoamericana de Nações, no contexto das relações que se estabelecem entre a Espanha e a América Latina, de 1976 a 2005. No entanto, é necessário recuar ao século XIX, para encontrar as origens deste projecto e perceber onde radica a querela em torno de qual o melhor termo para definir estas relações e aquele que se deveria utilizar para denominar a própria região, objecto dos interesses hegemónicos espanhóis. A política ibero-americana constitui então a versão solidária e pluralista da política espanhola para a América Latina, que se começa a definir, no período da democracia, sendo o seu arranque da responsabilidade dos governos centristas (1976- 1982). No entanto, ela conhece um grande desenvolvimento quando socialistas (1982- 1996) chegam ao poder. Na verdade, durante os anos de 1980, estes estimulam a realização dos Encontros na Democracia com o objectivo de debater a importância de se levar a cabo esta Comunidade e iniciam um processo de diálogo que permitirá pôr em marcha, na década seguinte, o projecto das Cimeiras ibero-americanas. O sucesso desta iniciativa deveu-se certamente ao facto de o seu primeiro anfitrião não ter sido a Espanha. Contudo, ela desempenha desde o início deste percurso, o papel de protagonista, demonstrando ser o seu motor. Apesar da Comunidade ainda não estar institucionalizada nem consolidada, embora as Cimeiras afirmem e reconheçam a sua existência, ela tem vindo a demarcar o seu posicionamento, na cena política internacional, numa tentativa de fazer frente ao unilateralismo que se afirmou no pós-guerra fria. O grande desafio para a Comunidade passa então por conseguir estabelecer objectivos e interesses comuns, que ultrapassem a partilha de traços identitários e, assim, desenvolver uma voz própria nos fóruns internacionais.
Humanidades
4,029
A participação portuguesa em projectos culturais de dimensão europeia : enquadramento institucional e parcerias transnacionais
Projecto cultural,Projectos comunitários -- participação portuguesa
O conceito de cultura europeia é tratado no primeiro capítulo deste trabalho como o resultado da produção de toda uma variedade de bens e serviços. Devemos também considerar o trabalho que um grande número de entidades colectivas e de agentes individuais desenvolvem nesta área. Este estudo procura mostrar que os programas e os planos de acção comunitários favorecem uma crescente aproximação à dimensão interdisciplinar da realidade cultural. Os numerosos projectos têm como fundamentos os modelos e valores culturais europeus. Entre estes destacam-se a democracia, a liberdade, a solidariedade, a tolerância e a cooperação. A diversidade e a riqueza de conteúdos que caracterizam a cultura europeia devem-se em grande parte aos contributos dos povos que numa duração milenar povoaram o continente. As suas migrações aproximaram também a Europa das regiões vizinhas. Actualmente por influência desta tradição a União Europeia valoriza a cooperação com os países terceiros. Entre estes incluem-se a Suíça, a Islândia, a Rússia e a Noruega. Os documentos oficiais revelam o crescente interesse que há cerca de vinte anos passou a existir pelas actividades culturais. Estas transformaram-se numa das áreas de acção a que os Estados-Membros dão uma atenção particular. Os programas comunitários têm sido marcados por uma evolução inicial que os orientou para um apoio sectorial e mais limitado quanto às áreas culturais a que se dirigiam. A partir do ano 2000 este apoio tornou-se mais global. Um único programa podia patrocinar projectos relativos à literatura, às artes plásticas, às artes do espectáculo, ao património, à educação ou à formação profissional. O impacto da aplicação destes programas concretizou-se na organização de parcerias entre instituições e entre Estados, na criação de redes culturais e no aumento da mobilidade dos criadores e operadores. A União é cada vez mais considerada como uma realidade transfronteiriça. Aperfeiçoa-se, assim, o conceito de cidadania europeia tão divulgado por intelectuais como Salvador de Madariaga ou Jean Monnet. Tal como acontece com muitas instituições europeias, também as entidades portuguesas têm colaborado na realização de projectos culturais com características e objectivos muito diversos. Esta cooperação tem sido realizada com maior frequência pelas instituições nacionais não como co-organizadoras mas sobretudo como parceiras. Como exemplos de excepções a esta regra devemos referir os Projectos Euromint e A Soul For Europe em que as nossas entidades exerceram funções de coordenação. No caso português os compromissos de parceria estabeleceram-se preferencialmente como instituições congéneres, a partir de convites ou tendo por base os conhecimentos proporcionados por experiências anteriores.
Humanidades
4,031
O mosteiro de Santa Maria de Seiça - Das origens aos alvores da Modernidade
Seiça,Ordem de Cister,Mosteiro de Santa Maria de Seiça,Monges,Camponeses
O trabalho que ora se apresenta evidencia o crescimento da ordem de Cister, a marca que deixou na Europa ocidental do século XII e seguintes, e o importante contributo que os monges agrários deram na construção do Portugal da Reconquista Cristã. Contudo, o principal objectivo é o estudo do mosteiro cisterciense de Santa Maria de Seiça, cuja evolução nos surge como um bom modelo desta dinâmica: soube captar do poder real e de outros doadores, extensas áreas, atrair povoadores para brenhas inóspitas, fazendo delas terras férteis e produtivas, que tão generosamente alimentaram os seus celeiros, satisfizeram as necessidades locais e forneceram excedentes ao reino. Num outro plano, soube gerir a complexa teia de relações regionais, nacionais e internacionais, contribuindo, decisivamente, para o progresso da região em que se implantou. Procurámos identificar os elementos da comunidade conventual que mais se destacaram nestas grandiosas e complexas acções. Ao longo da documentação arrolámos cerca de uma centena de nomes, entre abades, priores, monges e outros oficiais que foram determinantes no desenvolvimento a que assistimos e que foram os principais obreiros na transformação verificada no mítico vale de Seiça. No entanto, uma vida duradoura traz sempre alguns obstáculos. Os sete longos séculos de vida, arrastaram consigo enormes vicissitudes. Não resistiram incólumes à crise monástica da Baixa Idade Média, e passaram, durante três anos, pela extinção (anexação). Porém, em 1559, no âmbito do movimento reformista, recuperaram a sua antiga dignidade, tendo conhecido um novo esplendor, que se manteve até próximo da extinção geral, de todas as ordens religiosas em Portugal, em 1834. Daremos conta das múltiplas acções que os responsáveis do mosteiro tiveram de desencadear e estabeleceremos o necessário fio condutor entre si: cartas de povoação, aforamentos, contendas, concórdias, dificuldades e percalços de vária ordem.
Humanidades
4,034
A Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses - Reconstruída para os turistas
Baixa de Lisboa,Edifícios pombalinos,Funcionalidades do CBD,Unidades hoteleiras
O presente trabalho intitula-se A Baixa de Lisboa: Reconstruída para os portugueses – Reconstruída para os turistas, e trata do processo de reconstrução da parte baixa da cidade, levada a cabo por Sebastião José de Carvalho e Melo, hoje conhecido como Marquês de Pombal, após o terramoto de 1 de novembro de 1755, que deitou por terra, no século XVIII, uma cidade com características ainda medievais e que permitiu o reerguimento de uma nova cidade, cuidadosamente projetada, cuja malha urbana se caracteriza pela sua quadrícula. O ponto fulcral em estudo são os edifícios que permitem o traçar da quadrícula que delimita os quarteirões da Baixa Pombalina, característicos pela sua simetria e repetição ao longo de todo o perímetro em estudo. Recentemente, estes típicos edifícios da Baixa de Lisboa, devido ao seu avançado estado de degradação, passaram a ser alvo de grande solicitação por parte de entidades privadas, com o objetivo de sujeitarem os mesmos às necessárias obras de reconstrução, que permitam a sua transformação em unidades hoteleiras.
Humanidades
4,102
Em defesa da arte do quotidiano : a estética socialista e humanista de William Morris
Arte vitoriana,Morris, William -- arte -- Inglaterra -- séc.19
Esta dissertação centra-se no estudo da obra política e da obra artística de William Morris [1834-96], realçando a ligação entre a arte e a política como um dos mais importantes contributos deste artista para a cultura inglesa. Partindo de uma análise das circunstâncias político-económicas e sócio-culturais da Inglaterra vitoriana, tal como esta se representa na Grande Exposição de 1851, este trabalho começa por se debruçar sobre a controversa questão do design industrial inglês do século XIX (cap. I e II). O movimento de reforma do design industrial liderado por Henry Cole [1802-82] é contraposto às influentes críticas do medievalista Augustus W. N. Pugin [1812-52]. No capítulo III são analisadas as críticas à sociedade industrial e às propostas de reforma artística e social de John Ruskin [1819-1900], com realce para a sua poderosa influência sobre duas gerações de artistas e escritores, nomeadamente os Pré-Rafaelitas - cuja estética medievalista é o foco do capítulo IV. A análise da obra de Morris ocupa os restantes capítulos, centrando-se em primeiro lugar na sua produção artística, com destaque para a firma de artes decorativas, fundada em 1861, cuja influência se estende para além do final do século. Segue-se uma análise aprofundada das suas conferências sobre arte e dos seus escritos políticos, a qual revela uma teoria da arte que transcende a sua frequente caracterização como "pré-rafaelita". Defende-se que a estética morrisiana, apesar de nunca ter sido formalmente enunciada pelo autor, não é por isso menos consistente, alicerçada numa concepção da arte genuína e simples, resultante do trabalho feito com prazer e saber, e empenhada na sua sobrevivência perante o avanço do capitalismo industrial. A concluir, aborda-se a influência directa desta "arte do quotidiano" na formação do Movimento Artes e Ofícios, assim como a sua alegada e controversa influência na Bauhaus. Apesar de certas limitações, resultantes da sua recusa de alguns imperativos da sociedade industrial e pós-industrial, a obra de Morris é valorizada pela sua crítica ao consumismo, o qual, aliás, tudo tem feito para transformar o próprio Morris - as suas ideias quase tanto como os seus padrões decorativos - em mercadoria.
Humanidades
4,105
O efeito de irreal : a fantasia científica de Philip K. Dick
Dick, Philip K -- obra
A dissertação explora a obra de Philip K. Dick (1928-1982), autor norte-americano de ficção científica, para abordar e discutir certo número de questões relevantes para a história e ciência da literatura, nomeadamente: = a relação entre literatura canónica e os géneros da literatura massificada, popular (ou simplesmente não-canónica), de que a ficção científica é actualmente talvez o mais importante; = a relação que, para os praticantes da ficção científica enquanto género de literatura popular, se estabelece entre esse género e a fantasia, relação essa que tem razões tanto histórico-literárias como socioculturais; = a relação entre fantasia, entendida no seu aspecto mais lato de literatura fantástica tout court, e a alegoria: Assumindo a tese borgesiana de que toda a ficção tende para a alegoria (e que toda a ficção é, também, de certo modo, fantasia). Partindo destes pressupostos, o escritor Philip K. Dick, um ";autor menor" segundo os cânones académicos, revela-se um objecto de estudo a um tempo paradigmático e esclarecedor. A sua frustrada tentativa de se tornar um autor canónico (do que se chama já frequentemente mainstream literature) e o consequente enveredar pela fc como único mercado editorial que se lhe abria; e o tratamento autenticamente subversivo que faz das convenções da ficção científica, transformando-a afinal numa forma nova de fantasia científica, vai permitir extensivas interpretações alegóricas dos seus textos (onde se revela uma aguda visão política e moral da circunstância norte-americana), com incidências, no campo literário, em aspectos notórios do chamado pós-modernismo.
Humanidades
4,107
Pelos espaços da pós-modernidade : literatura de viagens inglesa da segunda grande guerra à década de noventa
Literatura de viagens inglesa -- 1945-1990
A tese estuda a produção recente de Literatura de Viagens Inglesa em função das seguintes questões: 1. A relação dos textos contemporâneos com a tradição (ou tradições) anteriores do género. 2. A influência dos novos meios de comunicação em geral e do turismo de massas em particular nas condicionantes exteriores e nas manifestações formais do género. 3. A situação pós-colonial e a alteração do estatuto do inglês como viajante. O reflexo destes dois factores no tipo de viagem efectuada e no sentido geral dessa viagem. 4. A redefinição dos conceitos de “civilização” e “primitivo” e sua influência nas viagens ao mundo urbano e ao mundo “selvagem”. 5. As viagens dentro da própria Inglaterra: Mitos e imagens convencionais do país e sua redefinição. 6. Novas tendências da literatura de viagens: O revisitar de outras viagens e de outros textos e as viagens sem destino, formas inovadoras de enfrentar algumas ameaças à sobrevivência do género. A integração deste tipo de viagens no contexto de um mundo e cultura pós-modernos.
Humanidades
4,108
The WiIliam Blake Archive: da gravura iluminada à edição electrónica
Blake, William, 1757-1827 -- obra,Edição impressa,Edição electrónica
The William Blake Archive: Da Gravura Iluminada à Edição Electrónica parte da análise do modo de produção da impressão iluminada criado por William Blake para demonstrar a forma como esse método e a materialidade do meio integram o significado da iluminura. Descreve-se em seguida a história da edição impressa da obra de William Blake nos séculos XIX e XX, reflectindo-se sobre a forma como a imagem biográfica e da obra foi construída pelos dispositivos tecnológicos e institucionais que separam imagem e texto. A amputação da página iluminada pela eliminação da imagem resultou numa recodificação bibliográfica, da qual dependeu a disseminação e canonização da sua obra. Esta história editorial da obra blakiana é enquadrada na história dos métodos e teorias da edição, incluindo a problemática da edição electrónica, essencial para a compreensão das práticas actuais. The William Blake Archive, um arquivo em construção desde 1996, institui um novo modelo editorial, que permite reunir as vertentes pictórica e verbal da página iluminada, na sua singularidade e na sua multiplicidade. A recuperação da integridade visual do objecto através do fac-símile digital assinala a conjunção entre um novo paradigma editorial e um novo contexto tecnológico. A análise da edição electrónica revela a função da estrutura hipertextual, da interface gráfica, da marcação textual e da codificação das imagens na simulação da materialidade e da historicidade do livro impresso iluminado. Pela sua capacidade de simulação documental, de metatextualidade crítica e de acumulação de ficheiros, este arquivo digital cria um novo contexto metodológico e científico para o estudo da obra de William Blake
Humanidades
4,111
"My daughter! O my ducats!..." : as mulheres e a economia em The Merchant of Venice
Shakespeare, William, 1564-1616. O mercador de Veneza
Adoptando uma perspectiva crítica que se pretende materialista feminista, este trabalho é dedicado ao estudo dos diversos papéis representados pelas três personagens femininas no contexto político-económico da obra The Merchant of Venice de William Shakespeare, tanto a nível dramático como a nível estilístico e retórico. A tese parte de uma discussão e revisão sistemáticas da crítica shakespeariana mais recente — neo- historicista, materialista cultural e feminista — e inclui informação de áreas em desenvolvimento na investigação feminista como a história da família, a antropologia, as mulheres e o direito, bem como a história do sistema jurídico britânicos, a literatura e o direito e a história económica. Neste sentido, o principal objecto de análise são os papéis ambíguos que a comédia shakespeariana destina às mulheres na estrutura económica familiar e na rede homossocial de funcionamento do estado. Através dos motivos do disfarce e do travestimento, estas personagens são investidas do desestabilizador poder carnavalesco que as conota com modelos coevos de inversão e desordem que, nos textos e contextos da Renascença inglesa, são apresentados como indícios da ansiedade da época relativamente à emergência de um sistema de mercado e às mudanças no tecido social, e evidenciada na preocupação do patriarcado com noções de ordem e de hierarquia, social e sexual. Desenvolve-se um estudo dos discursos contemporâneos dominantes sobre a natureza e representação do dinheiro, da riqueza e do valor, a reprodução do capital e a usura, de modo a definir a intersecção do discurso biológico e económico na literatura da época, e a historicizar não só a dimensão de Portia como deusa Fortuna mas também a resolução cómica, em termos das transformações coevas do conceito de casamento e do sistema de economia doméstica no espaço urbano do capitalismo emergente.
Humanidades
4,112
O que Billy quer vestir : dinâmicas sociossexuais em Willa Cather e William Faulkner
Faulkner, William, 1897-1962 -- Obra,Cather, Willa, 1873-1947 -- Obra,Sexualidade -- Aspectos sociais -- Estados Unidos da América
A dissertação trata da construção de identidades sociossexuais, da representação e de conflitos de natureza sociossexual nas obras de Willa Cather e de William Faulkner. Em cada um dos quatro capítulos desta análise são tratados comparativamente dois romances, um de cada autor. O primeiro capítulo explora a reformulação de conceitos de feminidade em contextos novecentistas de agitação social, nomeadamente em Absalom, Absalom! e A Lost Lady. A seguir, numa secção sobre Sanctuary e My Ántonia, são discutidas definições e crises de masculinidade branca na América do início do século XX. A dissolução de estereótipos sociossexuais em contextos de conflito militar é o tema central do terceiro capítulo, que aborda One of Ours e The Unvanquished. O capítulo final consiste numa análise da transição de alguns modelos de masculinidade e feminidade na América urbana do virar do século XX, bem como das transformações da instituição do casamento. Nesta discussão final as obras comentadas são My Mortal Enemy e "Wild Palms."
Humanidades
4,115
Novos equilíbrios após o ‘11-de-setembro’: Diálogos intelectuais entre os Estados Unidos da América e a França
Intelectuais,Americanismo,Anti-intelectualismo,Anti-americanismo
Esta tese observa, em primeiro lugar, o estado do intelectualismo e do anti-intelectualismo e a sua relação com o americanismo, nas sociedades norte-americana e francesa. Num segundo momento questiona a adequação do conceito de ‘intelectual público’ nas sociedades americana e francesa atuais e a valorização do intelectual e o seu estatuto, nestas sociedades. Por fim, observa alguns ensaios críticos, publicados entre setembro de 2001 e março de 2006 por Jean Baudrillard, Joan Didion, Bernard-Henri Lévy, Susan Sontag e Gore Vidal, e a forma como dialogam entre si, no sentido musical do termo. Estuda, assim, como as vozes (de intelectuais norte-americanos e franceses) e os instrumentos (os seus ensaios) se alternam e respondem umas às outras, no que concerne aos temas indissociáveis do americanismo: o imperialismo, o excecionalismo, o terrorismo e o estado de exceção. Um dos pontos em análise é se objetivo destes intelectuais acaba por ser o reforço do equilíbrio que preside ao projeto do americanismo, quando este é posto em causa pela multiplicação de reações antiamericanas, vindas, e com veemência, de França. Sendo a América uma construção intelectual, é modelada pela expressão do consenso ou do dissenso de um vasto elenco de intelectuais de todos os quadrantes políticos, sociais, e étnicos. Nas obras consultadas, aponta-se, sobretudo, para a desconfiança que a sociedade americana deposita na relação entre intelectuais e o americanismo. Este facto explica as raras referências ao intelectualismo e aos intelectuais no contexto sociocultural americano, por oposição às numerosas menções feitas ao anti-intelectualismo. Esta avaliação do intelectualismo e dos intelectuais americanos merece, porém, uma análise menos facciosa, pois o intelectualismo precede o anti-intelectualismo. Apresenta-se, deste modo, uma linhagem de intelectuais americanos, cuja expressão do dissenso tem preservado o americanismo da destruição e de transgressão dos seus valores e metas. Estas diversas perspetivas intelectuais sobre o americanismo desafiam os interesses de alguns sectores americanos (económicos e políticos) e, por isso, a presença dos intelectuais na esfera pública e política, continua a ser objeto de algum repúdio. As ‘vozes atentas’, expressão que uso como alternativa ao ‘intelectual’, expõem, com clareza e insistência, o estado de exceção e de terror psíquico e intelectual que foi imposto aos cidadãos americanos pelo governo de George W. Bush. Na ótica do governo estas medidas eram legitimadas pela “Guerra ao Terrorismo”, mas as ‘vozes atentas’ consideram que elas derivaram afinal da fantasia do excecionalismo e evidenciaram uma manifestação nova deste fenómeno. Estas vozes lembram, assim, que esta prática singular de política externa e interna americana não é nova, nem inócua. As ‘vozes atentas’ defendem que os americanos encontrarão numa observação ponderada e desapaixonada do americanismo, os valores, conceitos e princípios para reinstaurar o equilíbrio no processo de construção da nação americana e melhorar a imagem da América e dos EUA. A ignorância, o anti-intelectualismo, o antirracionalismo, o terrorismo, o antiamericanismo, comportamentos e conceitos que, inegavelmente, por vezes, permeiam a história dos EUA, devem ser objeto de uma reflexão crítica contínua, uma prática secular, presente na indissolúvel e discreta aliança entre o americanismo e o intelectualismo.
Humanidades
4,119
A "Palavra Larga" : mulheres nas revistas portuguesas de poesia contemporânea : três estudos de caso na "outra tradição"
Revista de poesia -- Portugal,Literatura feminina -- séc. 19-20
Esta dissertação toma por objecto de estudo a produção poética portuguesa no contexto das revistas de poesia, entendidas na linha de Charles Bernstein, como “instituições alternativas à cultura oficial”. Apresenta-se, como estudo de caso, a análise de três revistas de poesia portuguesa contemporâneas e de três mulheres poetas portuguesas que nelas publicam. Recorro a vários contributos e problematizações teóricas, apoiando-me no conceito de poesia da “outra tradição”, enunciado pela teórica norte-americana Marjorie Perloff, nos contributos da L=A=N=G=U=A=G=E School, no modelo agonista de linguagem proposto por Jean Jacques Lecercle e no conceito de “literatura menor” de Deleuze e Guattari. As questões literárias, políticas e epistemológicas que estas propostas teóricas nos apresentam são trabalhadas, empiricamente, a partir das revistas de poesia portuguesa contemporâneas e da poesia escrita por mulheres. Verifica-se o predomínio de revistas que se mantêm numa poética “ventríloqua”, que repete formas usadas – num discurso que é, simultaneamente, lírico, confessional e discursivo. No entanto, mostro como algumas revistas de poesia da “outra tradição” resistem, tal como as poéticas de mulheres resistem, nas suas constelações identitárias, políticas e sociais – nesse espaço de “inquirição” (Hejinian, 2000) que interrompe o discurso da “cultura oficial”.
Humanidades
4,120
Needles, hats, shirtwaists and strikes : tornar-se americana no início do século XX
Judeu -- Estados Unidos da América -- séc. 19-20,Cultura norte-americana -- séc. 19-20
Um dos objectivos desta pesquisa foi voltar a percorrer o caminho, muitas vezes penoso, que as jovens emigrantes judias e italianas iniciaram, na sua chegada a Nova Iorque, no final do séc. XIX e princípio do séc. XX. Para melhor compreender esse percurso, tornou-se necessário analisar os condicionalismos económicos, sociais e políticos que as levaram a abandonar os seus países na Europa e a enfrentar uma realidade completamente incerta e que frequentemente as decepcionou, mas que também as levou a reinventar-se como mulheres, de modo a enfrentar as exigências de um novo estilo de vida, numa sociedade bem diferente daquela que deixavam para trás. Avaliar a forma como estas jovens se integraram na sociedade americana foi, sem dúvida, a tarefa mais relevante, salientando que essa integração passava quase sempre, inicialmente, pela apropriação de uma nova imagem, à qual estava obrigatoriamente associada a adesão à cultura de consumo, proporcionada pelo acesso ao trabalho das fábricas, sobretudo de confecção de vestuário. Ao longo deste trajecto, foi também absolutamente imprescindível constatar a ambiguidade com que foi percepcionada a entrada das jovens emigrantes nas fábricas e a sua participação nas primeiras lutas laborais do século XX.
Humanidades
4,122
"Essa marca que eu tenho na língua" [documento electrónico] : o papel da escrita criativa na reinserção social : um estudo de caso
Escrita criativa,Reinserção social,Hermenêutica diatópica,Etnopoética
Este é um estudo exploratório em que se pretende indagar acerca da utilidade da poesia e da escrita criativa no ensino da língua e da literatura a jovens em cumprimento de medida tutelar educativa em Centro Educativo do Instituto de Reinserção Social. Na convicção de que experiências diferentes trarão um novo conhecimento de nós próprios/as e do que nos rodeia, procura-se, nesta investigação e partindo da experiência de produção de textos poéticos, da realização de entrevistas em profundidade e de participação em leituras públicas, observar nos alunos os processos de formação de dinâmicas criativas e de reflexão, e, assim, de formas de resistência a um sistema fechado. Este estudo pretende, assim, aceitar a inevitabilidade de ser um acto político de busca de um determinado tipo de conhecimento para uma dinâmica de sobrevivência. Há, neste trabalho, uma opção clara por uma determinada teoria poética – a da L=A=N=G=U=A=G=E School, o que significa a rejeição da adopção de um modelo comunicativo de linguagem na abordagem do tema da escrita criativa e a opção pelas formas contra-hegemónicas de um fazer na linguagem com base num modelo agonista. Ao optar pela defesa da escrita criativa em contexto de centro educativo, inevitavelmente me encontro a reflectir sobre questões de lei, de justiça, de identidade e de raça, de etnopoéticas (Rothenberg & Tedlock), de discursos marginalizados e de violentos territórios do excesso (Jean-Jacques Lecercle), de desafio e resistência a um qualquer centro de poder. A palavra “caos” reveste-se, assim, de uma enorme importância nesta reflexão, já que significa a consciencialização da existência de territórios desconhecidos na busca do conhecimento, no reconhecimento da incompletude de uma hermenêutica sempre diatópica (Sousa Santos) para a criação efectiva de linhas de fuga (Deleuze e Guattari) que permitem abrir os inúmeros caminhos para inúmeras formas de ver o mundo, a linguagem, o sujeito e a identidade, reconhecendo-se, sobretudo, cada um no direito à sua diferença e à sua igualdade.
Humanidades
4,126
Encontros de poetas : voz, silêncio e glifo na obra de Próspero Saíz : o encontro das línguas nos cânticos : p.s. - todos os nomes, todos os poetas
Saíz, Próspero -- obra,Poesia,Poética
Atrevo-me a apresentar uma tese de Mestrado académica que foge aos cânones por que se rege esta nossa Faculdade. Mesmo assim, assumindo a transgressão, proponho-me dar a lume esta dissertação que mais não é do que o resultado da investigação e reflexão em que se enquadra a Estética de Recepção na literatura de língua inglesa e dos seus tantos afluentes de costa atlântica. Será uma abordagem muito pessoal, revestida de algum pendor poético, mas que procurará não descurar o rigor no tratamento das temáticas abordadas ao longo deste percurso. A poesia por mim seleccionada tem como gavinha comum um Encontro de Poetas, enquanto estuário do imaginário poético, merecendo especial referência o trilho das novas Descobertas. Transatlânticas, estas marés abarcadoras de continentes vários são receptáculos e arautos de culturas, enquanto elo de contributos relevantes em áreas como as da Mitocrítica, da Tematologia, da Literatura Comparada e da Tradução de Poesia que irão ser aludidas ao longo da exposição, em companhia de poetas que, como eu, têm a poesia por referência. E porque a não concebendo senão enquanto espaço interArtes, numa relação de dependência ou em representações de poesia e artes plásticas, como que se orientando constitutivamente, para harmonia do ser humano, hão-de encontrar-se, de onde em onde, páginas atravessadas por um pássaro do nada,1 o qual, debicando por entre paletas de cores e de ritmos, deixará rasto na mancha do texto. A minha dissertação irá debruçar-se sobre os elementos voz, silêncio e glifo. Os poemas seleccionados, cuja selecção poderá, por si só, ser questionável, ela própria, apresentam-se como um corpus, num modelo de cooperação selectiva, onde as áreas acima descritas poderão ser observadas. Será, em simultâneo, um encontro de inter poetas e inter poemas. A minha relação com os poetas que elegi perfila-se numa linguagem ancorada no simbólico e na subjectividade que tende a direccionar-se quase sempre numa vertente de liberdade, num horizonte de possibilidades mediatizadas pelo contexto social e político, em que a representação da língua desempenha papel preponderante. Nesta minha travessia que tem por barqueiro-mor próspero saíz, não posso deixar de referir o empenhamento que a investigadora Maria Irene Ramalho tem vindo a devotar à inclusão e divulgação da obra deste poeta, designadamente incluindo a sua poesia nos programas da Licenciatura em Estudos Americanos e do Mestrado de Poesia e Poética. E foi assim, ao lhe reconhecer capacidades técnicas e concepções originais de pensamento e de escrita, que decidi dedicar-lhe uma atenção e um cuidado muito especiais enquanto objecto de estudo para a minha tese, não hesitando em elegê-lo como um dos grandes poetas da lírica ocidental, pelo carácter inovador da sua poesia.
Humanidades
4,129
A ventriloquia de Maryse Condé atravessando o Manguezal de hibridismos e ambivalências
Condé, Maryse -- Criticismo e interpretação,Ventriloquia,Subversão,Identidade,Condé, Maryse, 1937- -- obra,Literatura afro-americana
A proposta do presente trabalho é analisar até que ponto a escritora caribenha Maryse Condé atua como ventríloquo da tradição literária dominante, tida aqui como o modelo imperial colonial, ao mesmo tempo que articula em seus textos processos de ruptura para resistir e subverter a cultura e a tradição literária dominantes. Em meio a muitas ambivalências deste posicionamento apontadas neste estudo, veremos que as questões levantadas acerca da identidade diaspórica são fundamentais para descrever os diferentes percursos por onde a escritora se ancorou e as razões pelas quais tais ancoragens se refletem em seus romances. Para o sucesso desta análise, foi preciso recorrer à teorização de Stuart Hall e Boaventura de Sousa Santos sobre identidades em contextos pós-coloniais para observar como os sujeitos afro-descendentes articulam tais questões na literatura. Neste processo de construção de identidades, observamos o regresso à ancestralidade, as tradições inventadas, o cultivo das africanidades e as negociações entre margens e centro(s) como modelos de resistência e subversão. Identificamos também os processos subversivos de desarticulação da estrutura formal do texto, jogando com a dinâmica de seu conteúdo e de sua forma. Tais posicionamentos estão em constante conflito, abrindo, portanto, perspectivas de negociação e hospitalidade, tal como a concebe Derrida.
Humanidades
4,131
Peste e literatura : a construção narrativa de uma catástrofe
Peste,Tucídides, ca.465-ca. 495 a. C. -- obra,Defoe, Daniel, 1661?-1731 -- obra,Boccaccio, Giovanni, 1313-1375 -- obra
A presente dissertação tem por objectivo estudar a construção de narrativas sobre uma epidemia (real ou imaginária) na literatura ocidental. Será feita uma análise literária que faça sobressair o papel da peste numa obra, em detrimento de uma preocupação com a veracidade dos factos. Procura-se estudar de que diferentes formas a narrativa de uma peste demonstra uma desordem social na qual o irracional (o Mythos) triunfa sobre o racional (O Logos). De igual modo se explora a forma como diferentes narrativas constroem ou não um Pathos destinado a comover o leitor. No texto mais antigo, A História da Guerra do Peloponeso de Tucídides, vemos a desordem social manifesta na incapacidade de manter o funcionamento das estruturas sociais durante a peste de Atenas ao mesmo tempo que se estuda uma relação da epidemia com o Pathos da guerra. No Decameron de Boccaccio, estuda-se a ligação com o Pathos do amor e a possível existência de uma catarse que leva a um novo estado na vida das personagens e a dizer-se que a vitória do Mythos sobre o Logos é temporária. Já em A Journal of the Plague Year a vitória do Mythos sobre o Logos nunca é absoluta e o Pathos, a existir, é o Pathos da cidade. Conclui-se vendo como em obras como La Peste de Camus o uso da epidemia se assume como metafórico, neste caso de um Pathos da condição humana. Após o que se demonstra que ao longo das três principais obras vamos assistindo a uma diminuição da intensidade do Pathos: em Tucídides um Pathos que continua por longos anos devido à guerra, mesmo após o fim da peste; em Boccaccio um Pathos momentâneo que é motivo para uma reconstrução; em Defoe um Pathos que nunca é absoluto e cujo objectivo é mais o de prevenir os seus contemporâneos.
Humanidades
4,136
O poder de ser. O que sou e o que quero ser. Uma leitura feminista da banda desenhada o vagabundo dos limbos
Estudos feministas,Banda Desenhada,Ciborgue,Queer
A banda desenhada, O vagabundo dos limbos, com textos de Christian Godard e desenhos de Julio Ribera, é o alvo deste estudo. A obra em questão teve início no final dos anos 70 do séc. XX e não se encontra ainda concluída, assim como as questões sexuais que contrariam a heterossexualidade também não estão resolvidas na nossa sociedade contemporânea. Esta série apresenta variadíssimas imagens estereotipadas das mulheres, que pretendo analisar de um ponto de vista feminista. Mas o meu centro de interesse está numa das personagens, Musky, cuja possibilidade de escolha de sexo abre todo um potencial emancipatório para as perspetivas de identidade que me importa analisar. Com a ajuda dos contributos teóricos feministas de Monique Wittig, Judith Butler, Rosi Braidotti e Donna Haraway, e os conceitos de, respetivamente, categoria de sexo, performatividade, queer e ciborgue, este trabalho interpela a forma como a proposta potencialmente libertária que se anuncia com Musky acaba por ser limitada pelo seu enquadramento num sistema ainda percorrido pelos modelos patriarcais, assim como a sua escolha final de sexo é condicionada pelos mesmos. Tendo como principal ponto de partida os Estudos Feministas, pretendo também chamar a atenção para a importância que as imagens, neste caso específico a banda desenhada, têm na formação de ideias e na transmissão de mensagens, podento também contribuir para alterar ou perpetuar perspetivas acerca do que são e devem ser as mulheres.
Humanidades
4,143
A avaliação da oralidade em Inglês e Alemão no Ensino Secundário
Oralidade,Avaliação,Inglês,Alemão,Ensino Secundário,Ensino,Línguas Estrangeiras
O presente documento constitui o Relatório do Mestrado em Ensino de Inglês e de Alemão no 3.º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Humanidades
4,145
O feminismo distópico: as vozes de Brave New World e de The Handmaid's Tale
Utopismo,Feminismo
Nesta dissertação, são explorados as personagens femininas de dois romances distópicos - Brave New World e The Handmaid's Tale - sob uma perspectiva de crítica feminista
Humanidades
4,148
CLIL: Uma Abordagem Diferente na Aprendizagem de Inglês no Ensino Básico e Secundário
Métodos de ensino de Língua Estrangeira,Content and Language Integrated Learning,CLIL,Ciências Naturais,Biologia,Inglês como Língua Estrangeira
A metodologia CLIL (Content and Language Integrated Learning), embora seja valorizada pela comunidade europeia, é ainda pouco promovida e utilizada nas escolas portuguesas. No entanto, num contexto social, cultural e profissional cada vez mais exigente, entendo que é prioritário que as práticas pedagógicas utilizadas no ensino do Inglês sejam capazes de ir ao encontro das necessidades de hoje. Este estudo centra-se na implementação da metodologia CLIL numa escola de ensino básico (3º ciclo) e secundário, associando a aprendizagem de Inglês LE e de Ciências Naturais/Biologia, na tentativa de perceber quais as implicações que a aplicação desta metodologia comporta ao nível das condições organizacionais da própria escola, bem como monitorizar as perceções dos/as alunos/as perante uma experiência de ensino diferente. Os resultados obtidos evidenciam que as potencialidades da metodologia CLIL na aprendizagem de Inglês merecem um maior investimento da comunidade educativa na implementação da mesma. Este estudo é antecedido, numa primeira parte, por uma reflexão crítica sobre o meu percurso profissional enquanto docente de Inglês.
Humanidades
4,323
Sobre livros impossíveis: quatro personagens escritores na obra de Eça de Queirós
Eça de Queirós; Classe Social; Século XIX; História de Portugal; Realismo.,Eça de Queirós; Social Class; 19th Century; History of Portugal; Realism.
Esta tese (chamada Sobre livros impossíveis: quatro personagens escritores na obra de Eça de Queirós) tem por objetivo investigar a relação entre a escrita e classe social na vida de quatro personagens de três livros de Eça de Queirós: A Capital! (começos duma carreira); Os Maias — Episódios da vida romântica e A Ilustre Casa de Ramires. Pretende-se analisar os interesses de classe que perpassam a publicação ou não das obras planejadas por Carlos da Maia, João da Ega, Gonçalo Mendes Ramires e Artur Corvelo. Assim, faz-se necessário conhecer o “campo literário” (Bourdieu, 1996) português da segunda metade do século XIX para melhor entender as influências condicionantes que pesavam sobre o escritor iniciante. Há um capítulo que pretende traçar linhas gerais que são percebidas como um padrão da Fortuna Crítica a respeito de Eça de Queirós. Nele, não se almeja esgotar os temas aqui elencados, mas tão somente mostrar que eles têm sido os preferidos dos estudiosos queirosianos e, portanto, os mais trabalhados até então. Com isso, pretende-se elucidar o caminho para os que estão a iniciar-se nos estudos sobre este escritor ou ainda resgatar uma visão geral dos estudos queirosianos para os que encontram-se por demais dedicados à sua especialização dentro deste campo. Assim, foram percebidos seis eixos principais dentro da Fortuna Crítica estudada: a ironia; a decadência e o “vencidismo”; o tédio; o francesismo; o último Eça e o erotismo. Também é importante analisar historicamente a sociedade portuguesa como um todo e qual o papel que os diferentes grupos que a compunham destinavam à leitura e à escrita. A partir daí, pode-se perceber qual o significado social de se publicar ou não e o efeito de cada tipo de publicação e género textual. Deste modo, portanto, entende-se melhor alguns fatores que contribuem para o sucesso de Gonçalo, o fracasso de Artur e a desistência de Carlos e Ega; personagens criados dentro de uma proposta de retratar fielmente a realidade. Percebe-se, por fim, que a escrita e mesmo a não escrita podem ser pensadas como partes de uma estratégia, mais ou menos consciente, de busca por poder no âmbito da luta de classes. Isto é evidente no caso de Gonçalo, que escreve por almejar tornar-se deputado, mas também é válido para as demais personagens. Para Carlos e Ega, a não escrita era mais interessante dentro do âmbito da luta de classes que a escrita: por isso sua revista e seus livros tornam-se “impossíveis” socialmente. Para Artur, o sucesso é impossível, já que suas obras e suas estratégias para bem lançá-las são inviáveis e mesmo contraproducentes. Só Gonçalo alcança o que quer, pois só ele realiza a escrita de um modo coerente com sua posição de classe.
Humanidades
4,329
Ideias Morais e Políticas em Plínio-o-Antigo.
Plínio, o Velho, 23?-72 -- filosofia política
Nesta dissertação são estudadas as ideias morais e políticas de Plínio-o-Antigo em três capítulos : 1. As formas de constituição; 2. A imagem do governante; 3. A acção do governante. Nas 453 p. de texto, que incluem uma centena de p. de notas, o A. procura situar o Naturalista no pensamento político romano, aproximando-o da ideologia do principado, da temática da diatribe clínico-estóica e da influência da retórica escolar. Plínio parece aceitar um regime de ‘monocracia’. Para o governante, propõe um conjunto de virtudes ‘imperatoriae’, que são defenidas por oposição às categorias tradicionais da imagem do tirano. Não é repudiado um regime de sucessão dinástica como o regime dos Flávios. Todavia, o Naturalista não privilegia os grandes lemas da propaganda oficial e as especulações teóricas, revelando um pragmatismo e um sincretismo ideolólogico interclassista, cujos temas preferenciais são a aversão à guerra civil, a aspiração à paz e à segurança. Dotado de um espírito satírico acentuado, Plínio exercita a sua invectiva contra o mau governante, concomitantemente propondo um regresso às virtudes tradicionais.
Humanidades
4,337
O principe ideal no séc. XVI e o De regis institutione et disciplina de D. Jerónimo Osório
Osório, Jerónimo, 1506-1580 -- obra,Educação de príncipes -- tratados
Desde a Antiguidade, sobretudo a partir de Isócrates, até aos tempos modernos que é possível rastrear as componentes essenciais dos tratados de educação de príncipe, apurar-lhes a sua identidade própria, adaptada a cada momento temporal. Pode mesmo considerar-se que é a ideologia imperial romana, imbuída da espiritualidade helenística, um sólido alicerce do modelo de príncipe cristão. É na época carolíngia que os tratados medievais de inspiração cristã se definem, com as principais linhas de orientação que a época moderna seguiu: por isso se nos pôs o problema da especificidade deste género, dentro de cada época. Diversos eram, na verdade, os tratados renascentistas dos tratados medievais. A filosofia que lhes serviu de base, conferia-lhes uma estrutura diferente e uma diversidade e amplitude temáticas, que ultrapassam em muito os limites do, quase sempre, esquemático manual de preceitos religiosos, morais e políticos da Idade Média. No séc. XVI, os tratados de educação de príncipes, pela sua dimensão cultural, desempenham um papel de relevo - como os tratados de educação para crianças, adolescentes e homens adultos - no grande movimento pedagógico, de renovação de estruturas de pensamento, de conduta humana, moral e social, de que foi pioneiro o Quattrocento italiano. O príncipe, arquitecto e responsável por todo o edifício público, deve encarnar o ideal de sapientia que a doutrina pedagógica do Renascimento pretende atingir. Na tratadística portuguesa, significativa é a obra de D. Jerónimo Osório, De regis institutione et disciplina, dedicado em 1572 a D. Sebastião, que segue as normas ético-jurídicas da teorização aristotélico-tomista, imbuída do idealismo ético de Platão - síntese digna de um Cícero. Não fora o célebre bispo de Silves intitulado, sobretudo pelo colorido e vigor da sua frase límpida e ritmada, o Cícero português ! Assim se compreende que a obra deste autor, humanista corresponsável na condução da respublica e orientação do seu príncipe, se torne o modelo paradigmático do ideal de príncipe, no século áureo da nossa história. Em suma, o De regis institutione et disciplina, verdadeiro espelho das realidades sociais e políticas do tempo, revela-nos a dimensão do humanismo estético-ideológico de um autor representativo de uma época, a sua concepção de príncipe ideal e a sua forma de encarar a problemática do homem, enquanto ser social e político, e enquanto pessoa, na sua finitude e transcendência.
Humanidades
4,347
Mal de ausência : o canto do exílio na lírica novilatina portuguesa do século XVI
Poesia novilatina portuguesa -- séc. 16,Saudade -- poesia novilatina -- Portugal -- séc. 16
Desde tempos remotos, o exílio constitui marca profunda na personalidade dos que têm de o suportar. Os exemplos abundam. O escritor e, em particular, o poeta, adquirem lugar de relevo em qualquer estudo sobre o assunto; a quantidade de obras nascidas sob o signo do exílio comprovam-no. Além disso, a definição do quadro conceptual de exílio não é fácil, conheceu oscilações ao longo dos séculos e não se circunscreve à ciência jurídica, antes é merecedora de tratamento transdisciplinar. Na relação com a literatura, o facto merece olhar especial: importa considerar a literatura produzida por autores desterrados, mas também a que, não sendo essas as circunstâncias, faz de tal situação o centro das atenções. A primeira parte (Exílio e exílios) aborda o conceito jurídico, as relações com a literatura e, por fim, procede a uma visão diacrónica, da Antiguidade (Ulisses, o cosmopolitismo estóico, Cícero, Séneca, Ovídio) até ao Renascimento. As segunda e terceira partes, intituladas, respectivamente, O canto do exílio no humanismo português e Três figuras paradigmáticas, são integralmente dedicadas a poetas portugueses. Estuda-se, primeiro, O sentimento nostálgico das raízes, isto é, manifestações poéticas de uma relação intensa com o lugar de origem, o canto do exílio propriamente dito e os poemas que manifestam o caso especial do chamado exílio interno; a seguir, o fenómeno da separação - os poemas de despedida, aqueles em que os poetas não ausentes exprimem a saudade dos que se encontram longe e os cantos festivos compostos no momento do regresso; depois, os modelos, bíblicos, colhidos na Antiguidade Clássica, ou encontrados na história portuguesa; e ainda os casos de adesão portuguesa (escassa) ao cosmopolitismo do século XVI. Um longo capítulo analisa reflexos do pensamento bíblico e platónico que considera o homem um desterrado da pátria celeste, dedica largas páginas ao salmo Super flumina Babylonis e às inúmeras paráfrases de que foi objecto entre nós, e compara-as com mais de duas dezenas de paráfrases feitas por humanistas estrangeiros. Na última parte, seleccionam-se três poetas: Henrique Caiado (nostalgia de uma pátria que lhe não era vedada), António de Gouveia (consciência dissimulada de um exílio voluntário) e o caso paradigmático de Diogo Pires (exílio real e desesperado).
Humanidades
4,350
Suetónio e os Césares : teatro e moralidade
Suetónio -- vida e obra
Este estudo apresenta-se, antes de mais, como uma leitura das Vidas dos Césares. Depois de uma introdução propedêutica e de uma primeira parte sobre as técnicas usadas pelo biógrafo na construção das Vidas, a parte II constitui o núcleo do trabalho, onde predomina a análise textual. A consideração Vida por Vida, meramente metodológica a princípio, acabou por impor, em definitivo, a estrutura desta secção, depois de verificarmos que, com outra divisão, se perderia muito do encadeamento entre as partes das Vidas e da noção de conjunto: pois foi precisamente a leitura extensiva do texto que nos despertou para o empobrecimento resultante de uma abordagem esparsa de Suetónio. Intitulámos esta parte "evolução das personagens": evolução externa — no palco de Roma; e evolução interna — a progressiva manifestação do carácter. Para compreender alguns recursos do biógrafo era preciso confrontar o texto com opiniões de outros autores antigos e modernos: optámos por fazê¬ lo geralmente nas notas. Além de servir de demonstração do tema proposto, procura também esta parte preparar o material e fornecer informações que possam ser úteis a dramaturgos ou novelistas que elejam o biógrafo ou este período da história romana como fontes de inspiração. Depois de se verificar, pelo desenvolvimento da segunda parte, que a estrutura das Vidas assentava, em grande parte, em valores morais, impunha¬ se naturalmente o tratamento do conteúdo da mensagem de Suetónio: é este o assunto da terceira parte.
Humanidades
4,361
Poesia e iconografia : o mito nos Epinícios de Baquílides
Mitos,Poesia,Iconografia,Epinício,Literatura grega -- Baquílides
A presente dissertação de doutoramento em Estudos Clássicos, na especialidade de Literatura Grega busca ser um estudo de conjunto centrado num género poético em específico, o do epinício, com vista a averiguar as formas como Baquílides se serviu de mitos estabelecidos pela tradição (local ou pan-helénica), tantas vezes com diferentes versões, para cumprir aquela que é, no limite, a função de qualquer canto de vitória atlética: o elogio do vencedor, da sua terra ou da sua família. É também com esse intuito que analisamos a relação da versão dos mitos atualizados pelo poeta com os dados iconográficos de que dispomos, entendidos a um nível genérico, isto é, contemplando a pintura de vasos, a escultura e outros registos materiais (não literários) que a arqueologia nos permitiu conhecer ou, em alguns casos, de que as fontes literárias antigas dão testemunho. Mais do que estabelecer relações de dependência, procuramos determinar a teia significativa que, para cada mito selecionado, o poeta tinha ao seu dispor, para em seguida, compreendidas as razões da sua escolha, avaliar o uso que dela fez e como a transformou em matéria poética e, não menos importante, encomiasta. Fontes literárias e iconográficas são pois tomadas em paralelo, sendo a ambas reconhecido semelhante estatuto de importância no estabelecimento do contexto ou informação mítica acessível ao poeta e à audiência, em face do que, apenas, pode averiguar-se da criatividade artística do primeiro.
Humanidades
4,364
Ética e retórica forense: asebeia e hybris na caracterização dos adversários em Demóstenes
Demóstenes,retórica,hybris e asebeia,Demosthenes,rhetoric,hybris and asebeia
O intuito da investigação é analisar o uso dos termos asebeia e hybris nos discursos forenses presentes no corpus Demosthenicum. Ambos desempenham um papel importante nos discursos para descrever negativamente o caráter do adversário e atribuir uma culpa maior ao delito cometido. A eficiência dos termos em atrair a simpatia dos juízes é comprovada por meio da recorrência nos discursos de diversas situações, tais como homicídios, agressões, mau uso da cidadania, rivalidades políticas e disputas familiares, que serão abordadas no presente estudo.
Humanidades
4,365
Os Timbiras: os paradoxos antiépicos da Ilíada Brasileira
Indianismo,Antiépico
São muitos os motivos que nos estimularam a desenvolver um trabalho em que as duas epopeias escolhidas pertencem, uma a um poeta latino do século I a.C, a outra a um poeta do Novo Mundo, do século XIX. Em primeiro lugar, notámos a excecional influência de Virgílio na estrutura épica d’Os Timbiras, apesar de Gonçalves Dias tê-la designado, no princípio, de Ilíada Brasileira; daí o porquê de o título dessa pesquisa evocar o poema de Homero. Ambos os poemas surgiram da mesma maneira e com a mesma intenção: encomendados pelos monarcas, deveriam tornar-se o poema épico nacional, um panegírico da nacionalidade de um povo que carecia afirmar-se enquanto tal, com vista a legar um monumento com uma mensagem de paz e amor aos seus descendentes. Em Meditação, Gonçalves Dias havia refletido sobre a falta de monumentos excecionais no Império do Brasil, e por isso exaltara mais as pinturas do Japurá, sentindo que elas transmitiam mais contentamento do que as cidades do Império – semelhantes às árvores raquíticas plantadas no sertão. Decidido a mudar essa realidade, ciente de que os Portugueses eram mais famosos pelo poema do seu vate maior do que pelas armas, encorajado pelo Imperador e por seus admiradores, com a promessa de uma gratificação vantajosa e a glória de ser chamado de “poeta nacional”, Gonçalves Dias anunciou Os Timbiras, a que ele mesmo também chamou de Génesis Americano. Contudo, Os Timbiras se tornaram um poema de sofrimento, do amor que não sobrevive sem a guerra, do homem americano para sempre perdido, uma reflexão daquilo que o Brasil realmente é: um filho de Portugal. Do outro lado, a Eneida celebrava a paz por meio da guerra, porque só ela é capaz de assegurar o controlo sobre a turba insatisfeita; é o poema de Tróia ressuscitada no Lácio, embora o herói fundador não tenha chegado a ver cumprir a profecia dos deuses, e por isso tenha preferido perecer junto com os outros Troianos, nas muralhas da cidade. As semelhanças entre os poemas são muitas: Eneias é um homem sem pátria à procura de asilo no Lácio; Itajuba e os Timbiras irão numa busca debalde por asilo na terra dos seus ancestrais, no vale imponente e hostil do Amazonas (esse rio, o exemplo excelso da nacionalidade brasileira, mestiço no nome, conservou no seu curso o indígena “Solimões”, substituindo “Pará” pelo termo europeu, surgido de uma lenda sobretudo europeia). A América infeliz e arruinada é a imagem de Tróia arrasada; Roma surge das cinzas de Tróia e o Brasil das cinzas do homem Americano. A forma como Eneias conduz a batalha contra Turno, bem como o seu desfecho, revelaram o espírito do homem Romano, daí o porquê de tanto pessimismo. Do outro lado, Gonçalves Dias queixar-se-ia que a América era um arremedo das terras longínquas: uma mistura de África e Europa amalgamada com as cinzas da América distante no espaço. Eis a fraqueza do poeta: não consegue assistir ao (triste) arremedo e cantá-lo sem despojar a sua mágoa com os infortúnios da raça brasileira, do homem africano e do homem americano diante da cobiça e soberba do europeu. Assim, em Meditação o poeta cai exânime; em Os Timbiras, Jurucei é quem cai, sob a mira de uma flecha traiçoeira. Por fim, o seu Génesis assumiu feições apocalíticas, e a Ilíada vestiu as roupagens de uma Eneida tropical. O Brasil, enquanto arremedo, não teve a sorte de Portugal. Dom Pedro II não teve a sorte de Augusto. Gonçalves Dias não teve a sorte de Camões, porque não conseguiu salvar o seu poema das águas bravias do Atlântico, junto à baía de Cumã. A Eneida ficou inacabada, Os Timbiras também. Inacabado para sempre porque o poeta não encontrou fôlego para concluir a sua epopeia, além de que a era dos poemas longos tinha já cumprido o seu ciclo. Restou-nos um poema taciturno bastante semelhante à Eneida, porque ambos revelam a realidade nua e cruel da humanidade: o rosto da morte que não vive sem a vida, o rosto da glória que surge da ruína. Ambos os poetas, Gonçalves Dias e Virgílio, morreram tristes, magoados, feridos com todas as mágoas de uma nação inteira, sem que as suas mensagens tenham sido compreendidas pelas gentes de seu tempo, além da angustiante incerteza de que as do futuro, essas sim, viriam a entendê-los.
Humanidades
4,366
Hecateu de Mileto e a Formação do Pensamento Histórico Grego
Hecateu de Mileto,Mundo Antigo
Hecateu de Mileto é um autor pouco lembrado nos estudos de historiografia grega, e sobre sua figura muita “poeira” foi depositada. A presente pesquisa pretende mostrar, dentre outros propósitos, que a importância desse autor clássico para a formação da historiografia é bem maior do que muitos têm acreditado. Ele representa muito bem a produção intelectual da aristocracia grega arcaica, e sua figura e obras merecem ser reavaliadas sob um novo prisma, para que sejam alargadas e atualizadas as reflexões sobre o pensamento histórico grego. A razão histórica que ele cultivou, expressa em sua principal sentença, o fragmento 1, tornou-se um modelo para o tratamento apurado acerca do passado, na cultura grega. A revisão crítica das narrativas míticas presentes na tradição épica, especialmente a de Homero e Hesíodo, constituem o primeiro passo para a construção do pensamento histórico. Do mesmo modo, o surgimento da história grega não seria possível sem dois elementos que a cultura jônica produziu: o desenvolvimento do letramento, com a produção de obras em prosa, e a exploração de mundo que homens como Hecateu realizaram. Como representante da tradição logográfica, o Milésio fará uso da escrita para expor e difundir a sua consciência histórica. As suas duas obras, a Periegesis e as Genealogiai, das quais pouca coisa restou, supriram o conhecimento do espaço e do passado no mundo grego, como se fosse uma verdadeira enciclopédia. No século V a.C., elas serviram de fonte para Helânico de Lesbos e Heródoto, e mais tarde, ao chegarem às bibliotecas do período helenístico, tornaram-se, de fato, monumentos da prosa jônica arcaica. O que se propõe nesta pesquisa é analisar os fragmentos atribuídos a Hecateu dentro de um plano mais amplo do que tem sido seguido nas pesquisas modernas, de comumente considerá-los antigos exemplos de geografia ou mitografia. Sua vasta obra não se limitou à investigação do espaço e dos mitos, mas abrangeu um espectro de conhecimentos plenamente condizente com as características da histórie jônica. A análise dos fragmentos, no estado em que nos chegaram, ainda são suficientes para sugerir tendências ou indícios do que a tradição preservou. Isso permite de forma limitada formar um esboço do que foi a obra original de Hecateu, e qual sua influência nos autores posteriores. Enquanto na moderna na historiografia Hecateu é tido por mero precursor de Heródoto, a tradição grega antiga o considerou um pensador digno de menção. Pelo que podemos retirar dos indícios presentes nos fragmentos e testemunhos disponíveis, acreditamos que Hecateu foi um autor que merece figurar entre os principais formadores do pensamento historiográfico grego.
Humanidades
4,368
As sementes de Cadmo : autoctonia, miasma, nemesis e o trágico nas tragédias do ciclo tebano
Autoctonia,Miasma,Nemesis,Trágico,Tragédia,Cadmo,Tragédias do ciclo tebano
A linhagem real do fundador da cidade de Tebas, o Tírio Cadmo, é representada em sete tragédias escritas pelos três tragediógrafos atenienses cujas obras chegaram até o nosso tempo: Ésquilo, em Os Sete contra Tebas; Sófocles, em Antígona, Rei Édipo e Édipo em Colono; Eurípides, em As Suplicantes, As Fenícias e As Bacantes. O objetivo deste trabalho de tese foi verificar a presença da autoctonia nestas setes peças atenienses ambientadas em Tebas, a partir do mito tebano de autoctonia protagonizado por Cadmo, e as influências desta no destino trágico que assola as sucessivas gerações de reis do oikos do fundador e sua cidade. A autoctonia é o substantivo que se refere à qualidade de autochthon atribuída àquele povo que habita a mesma terra desde há tempos imemoriais ou, em um contexto mítico, àquele que brotou da terra. Nestes dois contextos, a autoctonia tornou-se um aspecto de suma importância para a organização social e política das cidades-estado gregas, especialmente em relação à Atenas. Nesta cidade, entre os séculos VII e IV a.C., a autoctonia foi um importante critério na atribuição da cidadania, além de ser utilizada como instrumento ideológico na elaboração de leis e na condução da política interna e externa da Ática. Para além destas duas concepções, a presente investigação, contudo, apontou para uma terceira acepção, na qual a autoctonia configura-se como um ‘sentimento de pertença mútua’ entre autochthon e patris, caracterizado como uma ligação congênita, inata, afetiva e misteriosa a qual os une incondicionalmente. Esta relação entre filho e terra-mãe revelou-se como algo que exerce grande influência na formação da identidade e na vida de ambos. Nas sete tragédias do ciclo tebano, tais influências ficam evidentes em relação à formação da identidade coletiva e ao destino trágico que recai sobre Tebas durante o domínio do oikos de Cadmo representado no percurso das sete peças. Verificamos ainda que, no caso de Tebas, ao contrário do que se vê na história antiga ateniense, a autoctonia não é representada em seus valores positivos, mas como o fio condutor de uma maldição resultante da nemesis de Ares, desencadeada pelas ações de Cadmo as quais formam o mito tebano de autoctonia, e que recaiu sobre a linhagem real do fundador e sua cidade na forma de várias ações aniquiladoras. Assim, a autoctonia tornou-se um miasma que polui o solo tebano, é transmitido aos descendentes do primeiro rei de Tebas e condena a cidade ao sofrimento e à ruína ininterrupta até que a linhagem do fundador chegue ao fim. De resto, torna-se perceptível que o entendimento dos motivos pelos quais Tebas sofre seguidos infortúnios passa pela leitura conjunta destas sete tragédias do ciclo tebano que chegaram até nós, pois apenas desta maneira é possível observar de forma completa a saga do oikos de Cadmo, o qual revelou-se protagonista de uma tragédia própria, que não foi escrita na forma de uma peça pelos antigos dramaturgos, mas que se revela entremeada no corpo destas sete tragédias.
Humanidades
4,369
Katabasis e Psyche em Platão
Estudos Clássicos,Mundo Antigo
Platão foi e continua a ser um dos filósofos mais influentes do pensamento Ocidental. A modernidade de suas teorias alcança ainda hoje relevância em muitas áreas do conhecimento humano. O estudo da psyche humana em seu filosofar revela uma profunda reflexão acerca de fatores psíquicos que circundam o comportamento e as ações da vida particular e pública da humanidade. Para tanto, o filósofo ateniense recorre a uma imagem muito cara à antiguidade: a katabasis. É por meio desta imagem, comum a vários mythoi da antiguidade, que Platão teoriza acerca da responsabilidade moral da psyche. Será discutido neste trabalho, portanto, como o filósofo utiliza-se de mythoi originários para sustentar a psyche enquanto responsável pelo seu próprio destino. Entende-se por mythos originário histórias ligadas a façanhas divinas. Para utilizar um mythos originário, todavia, Platão altera e substitui muitos de seus elementos, a fim de recriá-lo. Com isto, o filósofo sustenta, pela diferença entre o mythos originário e a recriação que faz deste mythos, suas próprias teorias acerca da psyche humana. O filósofo também opera pela criação de alguns mythoi, que neste trabalho são chamados de mythoi alegóricos. Por meio de tais mythoi, Platão elabora teorias que sustentam o melhoramento da psyche e a responsabilidade que esta tem sobre o destino da polis. É nesse sentido que a katabasis torna-se elemento fundamental em Platão, uma vez que oferece uma imagem mítica que lhe permite alterar a ideia da descida por um mergulho psíquico da psyche, para poder alcançar níveis de percepção mais elevados e assumir um estágio de compreensão da realidade que a coloque em uma posição favorável a seu melhoramento e ao melhoramento da polis.
Humanidades
4,370
O Divino nos Sofistas e em Eurípides
Sofistas,Eurípides,Tragédia,Religião,Deuses
O tema do divino nos sofistas e em Eurípides confere unidade de fundo ao presente trabalho. São dificilmente recortáveis passos dramáticos das peças do tragediógrafo que constituam transposições inequívocas de posições de sofistas sobre religião, por duas ordens de razões: a escassez de ipsissima verba desses pensadores sobre o assunto e a multiplicidade e variedade de elementos religiosos na obra do dramaturgo. Para enfrentar o primeiro óbice era indispensável tratar da problemática da receção da sofística. Distinguiram-se, na 1ª parte da dissertação, dois enfoques principais da sua reabilitação: a moderna e a pós-moderna. Neste último sobressai o movimento neosofista, o qual aproxima a primeira sofística de pensadores de referência do pós-modernismo, de que destacámos Nietzsche, Heidegger, Derrida, Rorty. A retórica neosofista procede polemicamente no que respeita à relação entre sofistas e Platão. Será claro que, em tal querela, nos subtraímos à animosidade antiplatónica, dando corpo à sugestão de que conhecemos o pensamento dos sofistas graças ao filósofo e não apesar dele. Por implicação, era mister debruçarmo-nos sobre a possibilidade do conhecimento histórico. Sobre a religião grega, defendemos que a visão ritualista é insuficiente e unilateral, dando o nosso assentimento à síntese doutrinal de Harvey Yunis que pour cause a encontra definida, exceto numa variante, em As Leis e que procura a respetiva ilustração teatral na obra de Eurípides. Já na Introdução havíamos discutido acerca da função social e política do teatro grego, sobre até que ponto a tragédia ática reflete ou refrata a sociedade coetânea e, por inerência, a religião popular. Na abordagem ao texto de Eurípides, optámos como fio condutor por um critério simples, distinguindo entre peças em que se verificam epifanias dos deuses, como Hipólito, Íon e As Bacantes, de peças como Medeia e Hécuba em que os deuses não aparecem no palco. A relevância do primeiro grupo de peças impõe-se por si, contudo, é habitual referir Medeia como uma peça onde a problemática religiosa não é proeminente. Pelo contrário, a hipótese teológica reclama detetar o dedo de Zeus na filigrana da peça e possuir um maior poder explanatório para as mutações alogon (assim denunciadas por Aristóteles) do seu entrecho. Por seu turno, Hécuba constitui um exemplo impressivo para aqueles que pensam que o grande problema que atormentava Eurípides era como viver num mundo sem deuses. Arriscámo-nos a abordar in toto cinco peças de Eurípides, embora tenham sido considerados objeto de menção a quase totalidade do seu corpus, ou passos desse corpus, desde Alceste até Orestes, passando por As Troianas, As Suplicantes, Ifigénia entre os Tauros e Helena. Relevámos os fragmentos de Belerofonte, por veicularem um ateísmo explícito; e de Os Cretenses, por abrirem uma janela para o afluxo de cultos estrangeiros em Atenas. O nosso Eurípides, a imagem desse Proteu que fixámos, começou a ganhar forma: um Eurípides, afinal, pessimista, nos antípodas daquela outra, esmerada por anteriores gerações de estudiosos, do poeta, do grande poeta, do Iluminismo Grego. Um nostálgico do abrigo da crença tradicional, mas que já não pode aderir à Ordem Divina, a uma configuração divina, estável, do mundo.
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4,373
Um Conceito Plural: a ATH na Tragédia Grega
Grekk tragedy,Tragédia grega
In the first half of the twentieth century, E. R. Dodds not only stimulated new perspectives through the book The Greeks and the irrational (1953), but also has become the benchmark for future scholars to discuss the concept of ἄτη in the Iliad. Extremely complex, the word ἄτη means in the first instance a blinding stage of human thought and, later, the very accomplished disgrace. Suzanne Saïd (1978) adds that later in classical tragedy, the concept would refer to all sorts of misfortunes. It was R. Doyle (1984) who analyzed the concept in all classical tragedies, just trying to establish its different meanings. Thus, this thesis aims to defend that the concept of ἄτη, along the classical Greek tragedy in the fifth century BC, undergoes changes, assuming different meanings according to the context presented, and may even have lost its original meaning, that the epic and all previous literature recorded. In addition, being united with other terms, the concept of ἄτη achieves new contours and different meanings, which prevents its translation to be fixed at a single semantic field. Hence the proposal, also, to point out that the translation respects the proper use made in each of the tragedies by their authors. Therefore, the argument permeates all the classic tragedies of Aeschylus, Sophocles and Euripides in which the word is present (twenty-eight), in which the term indicates change or addition of semantic value, a fact that will be based on the analysis of the transformation of thought of the Greek man, along the fifth century, underwent extreme changes from the foundation of democracy and the victory against the Persians, until the end of the Peloponnesian War, the fall of the Athenian power and the development of rational thought. Keywords: Greek tragedy, ἄτη, Aeschylus, Sophocles, Euripides RESUMO Na primeira metade do século XX, E. R. Dodds não apenas estimulou novas perspectivas com o livro The Greeks and the irrational (1953), como tornou-se referência aos futuros estudiosos ao discutir o conceito de ἄτη na Ilíada. Extremamente complexo, o vocábulo ἄτη designa, em primeira instância, um estágio de cegueira do pensamento humano e, mais tarde, a própria desgraça consumada. Suzanne Saïd (1978), acrescenta que, posteriormente, na tragédia clássica, o conceito passaria a fazer referência a toda sorte de infortúnios. Foi R. Doyle (1984) quem fez a análise do conceito em todas as tragédias clássicas, apenas tentando estabelecer seus diferentes sentidos. Dessa forma, a presente tese tem por objetivo defender que o conceito de ἄτη, ao longo da tragédia clássica grega, no século V a.C., passa por mudanças, assumindo diferentes acepções de acordo com o contexto apresentado, podendo, inclusive, ter perdido seu sentido original, aquele que a épica e toda a literatura anterior registravam. Para além disso, ao estar unido a outros termos, o conceito de ἄτη ganha novos contornos e significados diferentes, o que impede que sua tradução seja fixada em um único campo semântico. Daí a proposta, também, de pontuar que sua tradução respeite o uso adequado feito em cada uma das tragédias por seus autores. Para tanto, a tese perpassa todas as tragédias clássicas de Ésquilo Sófocles e Eurípides em que o vocábulo está presente (vinte e oito), nas quais o termo indica mudança ou acréscimo de valor semântico, fato este que será fundamentado na análise da transformação de pensamento do homem grego que, ao longo do século V, passou por mudanças extremas, desde a fundação da democracia e a vitória contra os persas, até o fim da Guerra do Peloponeso, com a queda do poderio ateniense e o desenvolvimento do pensamento racional. Palavras-chave: tragédia grega, ἄτη, Ésquilo, Sófocles, Eurípides
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4,374
A tragédia de Sófocles e o papel pedagógico das personagens secundárias
História da Educação,Tragédia grega,Sófocles,Personagens secundárias,Transformação social,History of Education,Greek tragedy,Sophocles,Secondary characters,Social transformation
Esta tese tem como tema a importância social e educativa das personagens secundárias nas tragédias de Sófocles. Para explorar esse assunto se buscou como fontes primárias as peças Antígona (442/441 a.C.), Rei Édipo (430/429 a.C.) e Édipo em Colono (401 a.C.). Essas tragédias sofoclianas foram encenadas em Atenas no século V a.C., período em que a cidade-estado passou por várias transformações. Através de uma análise histórica foi possível compreender que essas transformações sociais foram favorecidas pelo aparecimento do comércio, e com ele surgiu um novo setor social não aristocrático que enriquecera com as relações comerciais. Este foi responsável também pelo enfraquecimento do poder patriarcal que vinha perdendo sua influência com a desorganização da sociedade gentílica. Com a substituição do genos pela polis, a religião sofreu mudanças e deixou de ter o papel de norteadora na vida do homem, passando a ser usada pelos legisladores como um recurso para manter os cidadãos reunidos por um culto comum da cidade-estado. Por fim, o oikos deixou de reunir toda a comunidade em torno de sua propriedade e suas leis, e a família passou a fazer parte de uma organização social maior, a cidade. Essas mudanças provocaram conflitos os quais o homem grego teve que conviver diante das desarticulações ocorridas na relação familiar, no interior do oikos, e com a nova estrutura da polis. Diante dessas mudanças, fez-se necessárias novas maneiras de formar um novo homem para a polis, que requisitava um outro modo de reordenação das relações sociais, em substituição a antiga forma de viver da comunidade gentílica. Tendo por criador o educador grego por excelência, o poeta, a tragédia foi utilizada pelos setores dominantes de Atenas como um instrumento para educar o cidadão e formar o homem do povo. Partindo destes referenciais, o objetivo central deste estudo foi mostrar a importância das personagens secundárias de Sófocles e como o tragediógrafo propôs através delas um modelo de homem ideal e/ou modelos de homens (cidadão e/ou gente do povo) para viver na cidade. Desta maneira, a análise das peças sofoclianas levou a uma discussão sobre a função social e o papel educativo da tragédia, o que possibilitou compreender as contribuições formativas que esse gênero teve na antiguidade. Assim, esta pesquisa encontrou justificativa por dar a sua colaboração, sem a pretensão de esgotar o tema, buscando mostrar a importância da tragédia grega para as pesquisas em estudos clássicos e em história da educação, tendo a literatura como fonte. Por fim, entendeu-se que houve em Sófocles uma intencionalidade em propor uma caracterização de suas personagens secundárias como modelos de cidadãos ideais e/ou gente do povo, que deveriam ser imitados pelos atenienses com o objetivo de procurar o bem comum e buscar uma harmonia social numa sociedade em conflito.
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4,375
A igreja como locus ideal de formação na problemática antidonatista de Santo Agostinho
Santo Agostinho,Antiguidade Tardia,Igreja Católica,Império Romano,Donatismo e Antidonatismo,Magistério Católico,Disciplina Eclesiástica,Educação,Saint Augustine,Antiquity,Late Antiquity,Catholic Church,Roman Empire,Donatism and anti-Donatism
A presente tese tem como objetivo analisar nas réplicas do corpus antidonatista de Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (norte da África), como o seu conceito de universalidade da Igreja está vinculado a um caráter educativo, isto é, como locus ideal formativo, argumento que respondeu ao processo de ascensão do catolicismo no final da Antiguidade. Para tanto, a pesquisa se sustentou em uma metodologia que contempla a necessidade de desvendar as transformações sociais do mundo romano em meio à integração do Império com o catolicismo, e tal situação, longe de ser um processo idílico, como demonstra a crise donatista – dissidência religiosa e política da província romana da África – conduziu Agostinho a elaborar uma argumentação sobre a relação Igreja e Império, em que este, por adotar o cristianismo como religião, deveria assumir a tarefa de auxiliador do catolicismo, inclusive, como força disciplinar. Com investigação em dados historiográficos, ou seja, respaldado pela lógica histórica, foi possível apreender como o clero elaborou uma visão de mundo (modelador de comportamentos) e articulou meios para sua relação de dominação que possibilitou à Igreja católica ascender como instituição organizadora da sociedade: em suma, o conceito agostiniano de Igreja foi tomado em sua historicidade, a Antiguidade Tardia. A rigor, Agostinho apontou como resposta aos problemas sociais de sua época a defesa de uma instituição ideal e/ou idealizada: a Igreja, definida em sua universalidade como “Católica”. Para demonstrar isto, defendeu-se a tese de que três dimensões educativas fundamentaram o seu pensamento: primeiro, o papel formativo atribuído ao clérigo, sobretudo o bispo, desde o seu exercício pedagógico a partir da cathedra até a sua colegialidade episcopal na elaboração do magistério católico; segundo: a defesa de uma prática pedagógica com a disciplina ecclesiastica tendo em vista corrigir erros comportamentais e doutrinais para a unidade dos cristãos; e por último, a ideia da possibilidade de mudança inerente à condição humana como lógica da transformação e, conforme pensou, a santificação dos cristãos, mas cujo proveito dependeria do percurso educativo desenvolvido na Igreja.
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4,377
O ideal do príncipe e a cidade ideal: reflexões sobre o mundo antigo em diálogo com os "FVNDAMENTA" da construção brasília
Príncipe ideal,Cidade ideal
Os tratados de educação do príncipe, desde a Antiguidade até ao Renascimento são diretamente responsáveis por um esboço da própria história de construção dos Estados e das relações mais amplas na natureza política, ou são verdadeiramente o seu speculum. Através de incursões feitas sobre este género de Literatura – um tema europeu no Renascimento – surgiram textos que atestam a necessidade de uma cidade ideal, configurada e construída por um estadista ideal, ou por alguém que se considera personificar um ideal de estadista. A par desta linha idealista tradicional, que incorporou no papel dos príncipes uma educação pró-ativa de Humanismo, outra perspectiva, pragmática e realista se delineou, no início do século XVI, traçada pelas pegadas da História. Esta perspectiva – motivada pela experiência dos tempos conturbados da definição das fronteiras dos estados intra-europeus e da actuação despótica de chefes políticos ambiciosos – justifica o estereótipo do príncipe, herdeiro de uma tradição violenta e sanguinária, que Maquiavel exemplifica muitas vezes em Il Principe (ms.1513-1514), saído a lume em 1516, no mesmo ano da Utopia de Thomas More. Foi na linha humanista da Institutio principis christiani de Erasmus dos tratados de educação de Príncipes que o Renascimento Europeu e Português afirmou e dignificou o conceito de homo faber, pensamento e ação, que deixou a sua herança na construção do Brasil, descoberto pelo povo Lusitano em 1500. Neste particular, uma análise atenta dos princípios humanistas que informavam os tratados pedagógico-políticos quinhentistas – que a tradição greco-latina alimentava – revela-nos que, apesar da distância temporal,os valores pemanecem e ultrapassam a barreira do tempo e do espaço. Através de reflexões e incursões sobre o ideal do príncipe e a cidade ideal na Antiguidade e no Renascimento, foi possivel constatar como este mesmo ideal de príncipe (estadista) e de cidade ideal dialogam com a ideia, projeto e construção de Brasília, no papel principesco de seu fundador, Juscelino Kubitschek: entre a maiestas regis – as obrigações políticas do "Statesman" e sua dignidade – e o seu papel de civitatis architectus – na concretização da utopia da cidade construída. E, enfim,o olhar privilegiado sobre a cidade perfeita que se pretendia para a capital do Brasil.
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4,384
Suicídio mítico : uma luz sobre a Antiguidade Clássica
Suicídio -- Antiguidade Clássica
No presente trabalho, constitui-se um corpus com os mitos Greco-Romanos onde existe intenção concretizada de alguém se suicidar. As fontes foram dicionários, enciclopédias e autores antigos. Constituiu-se uma grelha classificativa, aplicada a cada entrada e na qual a lógica construtiva foi resultado de reflexão sobre como distinguir e caracterizar os motivos e os modos que levaram ao acto. Compararam-se sempre os resultados obtidos com o estudo de Anton van Hoof: From Autothanasia to Suicide. O corpus inventariado representa um número de suicídios muito superior ao anteriormente referenciado e a tipologia proposta é mais elaborada. As duzentas e trinta e uma entrada revelam que os mitos se constituem, sobretudo, por mitos epónimos e etiológicos, fundamentalmente ligados a rios, mas também a outras especificidades marítimas. Foi possível, igualmente, identificar padrões de comportamento feminino e masculino e perceber características culturais, sociais e factos históricos das épocas em que os mitos se encontram inseridos.
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4,391
Entre representação e realidade histórica : considerações sobre a configuração social da sociedade homérica
Homero, ca 850 a.C. -- obra,Civilização grega,Civilização grega
A tese hegemônica acerca das características principais da sociedade homérica sustenta que esta era uma sociedade tribal e socialmente igualitária. De uma parte, esta dissertação faz uma revisão crítica desta tese, de outra parte, apresenta evidências filológicas, literárias e históricas da presença de classes sociais nos Poemas Homéricas e na realidade histórica grega do século oitavo a.C. Do ponto de vista filológico, faz-se uma análise dos vocábulos que possuem conotação sociopolítica como agathos, esthlos, kakos, cheiron, e principalmente aphneios, o termo mais preciso usado por Homero para destacar a classe dominante e que é pouco comentado pelos defensores da sociedade homérica enquanto tribal. Do ponto de vista literário, recorre-se ao modelo teórico-metodológico do “Inconsciente Político” de Fredric Jameson junto com conceitos da Narratalogia para discutir a querela do Canto II da Ilíada entre Tersites, Agamémnon e Odisseu, dando ênfase ao modo pelo qual o narrador principal esvazia o caráter político da intervenção de Tersites como uma forma de resolver de maneira imaginária os conflitos sociais de outro modo insolúveis. Usando a base psicanalítica que o programa analítico de Jameson prõpoe, sustenta-se que o “Real” que está sendo suprimido pela resolução mágica dos conflitos na narrativa é justamente o antagonismo social advindo do agravamento da desigualdade social e da reemergência das classes sociais no decorrer do século oitavo de Homero. Assim, o surgimento de Tersites na narrativa é visto como um sintoma deste “Real”, quando os homens livres não-nobres rompem as estratégias ideológicas de contenção do elemento dissidente fabricadas pela visão de mundo aristocrata que controla o universo ficcional da epopeia. No que concerne ao aspecto histórico, é dado destaque ao impacto causado na sociedade grega por conta das mudanças estruturais advindas com o “Renascimento grego” do século oitavo, a fim de mostrar que uma das consequências deste processo histórico foi o agravamento da estratificação social entre “ricos” e “pobres”, que pode ser percebido nos Poemas Homéricos concebidos como fontes históricas deste período já classista da História da Grécia.
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4,392
Anacársis ou Sobre os exercícios físicos : Luciano de Samósata : introdução, tradução do grego e notas
Arete,Atleta,Educação física -- Grécia Antiga,Civilização grega -- Grécia Antiga,Luciano de Samósata, ca. 120-ca. 180 -- obra,Sofística,Ginásio,Paideia,Exercícios físicos -- Grécia
O tema central deste trabalho relaciona-se com a paideia, mais propriamente com a importância dos exercícios físicos na educação dos jovens na Grécia antiga. Trata-se de um tema atual, uma vez que a prática de atividades físicas assume na sociedade contemporânea grande destaque, não apenas em contexto educativo, constando dos currículos escolares, como social, para um desenvolvimento saudável e equilibrado. Da presente tese constam duas partes. Da primeira parte, na introdução, constam os dados biográficos do autor da obra em estudo, Luciano de Samósata, e um breve enquadramento histórico na época em que viveu, bem como no movimento cultural em que se insere, a Segunda Sofística. Segue-se a apresentação de Anacársis ou Sobre os exercícios físicos, uma caracterização geral da obra para que a sua leitura se torne mais clara e profunda. E, uma vez que a obra aborda vários aspetos ligados à cultura, esta primeira parte também integra uma abordagem ao modelo educativo, com especial destaque para o tema central - os exercícios gímnicos; por conseguinte, o modelo que se pretende atingir (kalos kai agathos), os espetáculos atléticos e uma breve alusão ao modelo espartano, pois é tido como exemplo na obra. Seguem-se considerações sobre os protagonistas do diálogo, Anacársis e Sólon, bem como sobre o povo cita. Esta primeira parte finda com uma conclusão sobre o autor e a obra. A segunda parte é dedicada à tradução da obra deste autor, sírio helenizado da época Imperial. A tradução foi feita a partir da obra original grega e contém notas que permitem esclarecer o leitor sobre determinadas questões relativas, essencialmente, ao enquadramento cultural e histórico. Trata-se de um diálogo satírico entre Anacársis, sábio cita, que nos descreve em tom crítico o que se passa à sua volta, e questiona costumes diferentes dos seus, os quais não entende, e o sábio legislador Sólon, que tenta esclarecê-lo sobre determinadas práticas e instruir o estrangeiro quanto a costumes helénicos.
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4,393
Representações e hermenêutica do "Eu" em Safo : análise de quatro fragmentos
Safo, séc. 7-6 a.C. -- obra,Cultura clássica,Safo, séc. 7-6 a.C.
A presente dissertação debruça-se sobre quatro fragmentos de Safo: o fr. 1 PLF, o fr. 31 PLF, o fr. 16 PLF e o fr. 58 PLF/P.Köln. 21351. Cada capítulo corresponde a um fragmento e pode ser analisado e consultado isoladamente sem que para isso seja necessária qualquer contextualização prévia no âmbito do que foi escrito antes e/ou depois. O primeiro capítulo (fr. 1 PLF) apresenta uma leitura do poema questionando o recurso à estrutura da prece e o seu potencial propósito na construção da concepção da natureza do amor. O segundo capítulo, correspondente à análise do fr. 31 PLF, procura congregar as principais teorias acerca deste que é o fragmento mais estudado de Safo, na esperança de estabelecer as posições de contraste entre as três figuras presentes na composição e o seu significado. O terceiro capítulo, onde se propõe uma leitura para o fr. 16 PLF, preocupa-se com as noções de relativismo e o deleite estéticos na sua relação directa com o amor. O quarto e último capítulo, inevitável por se tratar da mais recente descoberta no quadro da poesia de Safo, explora a problemática das dicotomias juventude/velhice e mortalidade/imortalidade.
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4,395
Comentário político-filosófico ao político de Platão : lado A : o poder entre a razão e a violência : introdução, parte I (Diérese) e parte II (O Mito)
Platão, 427-347 a.C. -- obra
Este trabalho é a primeira metade de um comentário alargado ao Político de Platão. Aqui são discutidas a Introdução Dramática, a Parte I (a diérese) e a Parte II (o mito), com especial ênfase nos aspectos políticos do texto. Eis algumas das teses principais aqui defendidas: (1) a diérese deve ser levada a sério; (2) a definição alcançada no final da Parte I é correcta e por isso não é rejeitada; (3) a vida sob Cronos é, do ponto de vista do filósofo, melhor do que a nossa e o governo do deus é apresentado como um modelo para o político; (4) o paradigma do pastor é válido e apenas formalmente abandonado; (5) a menorização pelo Estrangeiro do elemento racional nos seres humanos revela uma consciência aguda da faceta nãoracional da política. Esta é a razão pela qual o corpo e a violência desempenham papéis tão importantes no diálogo, que, contudo, não esquece nunca o político ideal (o objecto do inquérito). O fosso e o choque entre o que o poder é e aquilo que devia ser está no centro (o coração) deste drama filosófico.
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4,396
Interpretatio e Imitatio no De Amore de Marsilio Ficino
Literatura Neolatina,Neoplatonismo,Tradução
A dissertação intitulada “Interpretatio e Imitatio no De Amore de Marsilio Ficino” aborda um dos legados mais relevantes do património literário renascentista, uma vez que a obra se assume como um expressivo testemunho da recepção de textos clássicos no Renascimento e serviu de inspiração a muitas outras réplicas nas Literaturas europeias. Trata-se de um estudo sobre a obra, com base na elaboração de uma tradução portuguesa. A actividade translatória implicou, antes de mais, o conhecimento das circunstâncias que envolveram a génese do texto, e permitiu uma leitura cotejada com o modelo do Banquete platónico. Esta análise comparativa evidenciou as técnicas a que Ficino recorreu para concretizar os princípios da interpretatio e da imitatio no Commentarium, dado que o autor revela a sua perícia elocutória para explorar os aspectos estilísticos em benefício da pragmática textual. Devidamente fundamentadas por orientações metodológicas teóricas, a prática tradutória desenvolvida e a reflexão que a justifica foram empreendidas com o objectivo de trazer ao actual receptor da língua de chegada uma versão fiel de um texto que terá entrado na Literatura portuguesa por via mediatizada, principalmente através dos Diálogos de Amor de Leão Hebreu e de obras líricas contemporâneas. Nesta perspectiva, a dissertação apresentada pretende sobretudo dar a conhecer uma obra essencial para a difusão do Neoplatonismo no contexto do Renascimento e fornecer um instrumento de trabalho que possa de alguma forma contribuir para a investigação sistematizada dos reflexos do De Amore na produção literária nacional
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4,399
A Vida de São Martinho. Estudo introdutório, tradução e comentário
São Martinho,Hagiografia,Sulpício Severo
A seguinte dissertação de mestrado fornece uma tradução de latim para português da "Vida de São Martinho", escrita no final do século IV por Sulpício Severo. Contém uma introdução que aborda as coordenadas epocais, literárias e autorais do texto, assim como um comentário final que procura tornar acessíveis as subtilezas da obra.
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4,401
De Rei Édipo de Sófocles a Edipo Re de Pier Paolo Pasolini: uma análise da representação cinematográfica do mito
Édipo,Lévi-Strauss,Freud,Pasolini,Cinema
O mito de Édipo é muito antigo, e também um dos mais revisitados da Antiguidade Clássica. Através do filme Edipo Re, de Pier Paolo Pasolini, ganhou uma nova versão. A proposta deste trabalho foi analisar a representação cinematográfica do mito edípico no filme Edipo Re, de Pier Paolo Pasolini (1967), delimitando a presença da inspiração trágica sofocliana e da teoria psicanalítica freudiana, identificando aspectos particulares a esta versão do mito. Para tanto, discutimos brevemente a problemática em torno da definição de mito e tragédia. Partimos do princípio de que a sistematização de alguns conceitos sobre o termo seria importante como ponto de partida, ainda que não encerrasse a discussão acerca do tema. Ainda, discorremos brevemente sobre a vida de Sófocles, autor de Édipo Rei, e procedemos a uma análise sumária da sua versão dramática para o mito edípico. A seguir, discutimos alguns pontos fundamentais para a análise do filme de Pasolini presentes na teoria psicanalítica de Freud e na teoria estruturalista de Lévi-Strauss. Tendo delimitado nosso objeto de estudo e os aspectos teóricos que serviriam como pilares para a análise do filme, partimos então para a execução da análise a que nos propusemos. Nosso propósito era o de analisar o filme em questão, delimitando a presença da inspiração trágica sofocliana e da teoria psicanalítica freudiana, enquanto identificávamos aspectos particulares a esta versão do mito e que mereciam destaque. Além da clara divisão entre a parcela autobiográfica (prólogo e epílogo) e a parcela onírica, a subdivisão da parcela onírica permitiu a clara identificação da tragédia sofocliana no filme de Pasolini. Através da apropriação pessoal do mito, Pasolini nos abriu uma paisagem de conflitos biográficos e uma dimensão de universalidade através dos conflitos na ação de seu filme.
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4,402
A Função dos Oráculos no Livro I das Histórias de Heródoto
Oráculo de Delfos,Função Científica na Literatura de Heródoto
Considerado o pai da História, são recorrentes em toda a sua vasta e complexa obra alusões a profecias e ao termo oráculo, que em sua etimologia significa palavra proferida. Inegavelmente proferida em todo seu trabalho literário e indissociável da compreensão da obra como um conjunto e mesmo em suas partes, desvela-se em sua escrita a sua funcionalidade, tanto quanto prognóstico, inspirador de decisões e afetação do comportamento dos personagens, mas também enquanto veículo de transmissão do saber e interdependência entre os mesmos. Revelando-se em termos de estilo, trata-se de um método importante para a compreensão do sentido de destino no que comporta a felicidade ou desgraça humana, e essa análise é a que persiste em toda a sua obra. Acerca do comportamento humano enquanto fundo moral de compreensão da realidade, o autor das Histórias permite-nos entender, na particularidade e no seu conjunto, a própria função oracular enquanto método e ciência, quando o prognóstico se revela em última instância, no leitor. Palavras–chave: Heródoto, Oráculo, Histórias, Prognóstico, Função, Palavra, Método, Personagens, Ciência, Destino.
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4,403
Temas do Ciclo Troiano – Contributo para o estudo da tradição mitológica grega
Ciclo Troiano,Proclo,Mitologia,Literatura,Iconografia
Esta dissertação de Mestrado tem como principal objectivo reconstruir os múltiplos eventos que tomavam lugar durante os episódios da parte central do Ciclo Troiano, ou seja, todos aqueles que ocorriam entre o final da trama da Ilíada e o princípio da Odisseia. Com a intenção de se atingir esse objectivo primário, iremos recorrer ao estabelecimento de múltiplas intertextualidades e à leitura de diversas fontes iconográficas. Esse trabalho principiará por discutir, sucintamente, a existência de algumas fragilidades no Epítome da Crestomatia de Proclo, fonte que tende a ser considerada como uma das mais importantes evidências para o que teve lugar nos episódios aqui em consideração. Num segundo momento serão apresentadas outras fontes literárias que fazem referência a cada um desses episódios – incluindo textos de Ésquilo, Píndaro, Eurípides, Virgílio ou Ovídio, mas também obras muito menos conhecidas e estudadas, como o Excidium Troiae ou alguns dos textos de Tzetzes – prestando-se particular atenção às várias referências e relações que são feitas no contexto desses episódios que pretendemos reconstruir. Em terceiro lugar, as evidências recolhidas serão usadas numa tentativa de reconstrução dos vários eventos que teriam lugar nessa parte central do Ciclo Troiano, sendo essa síntese baseada nas diversas provas directas que os textos e imagens têm para nos oferecer.
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4,404
Do encanto à hybris: Representações de seres mitológicos com atributo musical na pintura de vasos gregos
Estudos Clássicos,Mitologia,Música,Vasos gregos,Iconografia
A pesquisa aqui apresentada traz uma análise do tratamento dado na iconografia de vasos gregos à imagem de seres mitológicos que integram aspectos musicais. Para tanto, foram selecionados quatro seres cuja influência se faz presente no imaginário cultural grego: Sereias, Orfeu, Mársias e Tâmiris. As representações iconográficas serão analisadas, então, a partir da caracterização mitológica de cada personagem, levando em conta sua presença na tradição literária a que temos acesso, de modo a relacionar ambos os modos de representação, literária e iconográfica, identificando semelhanças e discrepâncias entre as formas de transmissão do mito. Fazendo prevalecer o aspecto representativo do mito, serão levantados aspectos concernentes à sua esfera musical, como o tipo de instrumento utilizado e as variações aplicadas, bem como possíveis justificativas para essas variações. Transcorrendo o percurso histórico da assimilação iconográfica de cada uma das personagens desde o século XIII a.C. até o século IV a.C., a análise pretende expor as variações, persistências e rupturas na abordagem do mito em linguagem iconográfica dos vasos cerâmicos gregos, considerando o período de produção e a destinação dada ao material analisado, conforme o contexto em que está inserido, quando possível.
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4,406
Sobre o Direito de Guerra
Tradução,História do Direito Internacional,Escola Espanhola da Paz,Segunda Escolástica,Filosofia Política,Direito de Guerra
Esta dissertação tem como primeiro escopo oferecer à língua portuguesa uma tradução comentada da Relectio de iure belli escrito por Francisco de Vitória, uma das obras mais influentes do pensamento político-filosófico do séc. XVI. Dedicámos uma maior atenção às características político-filosóficas - e históricas - da obra. Assim, a tradução é antecedida por um estudo introdutório dividido em três capítulos: o primeiro expõe o contexto histórico do autor e da obra, terminando com uma análise da Relectio de Indis; o segundo apresenta um estudo do pensamento político-filosófico de Vitória, explorando certos conceitos próprios do autor; o terceiro parte de uma abordagem histórica do conceito de bellum iustum, expõe uma análise dos princípios jurídico-morais - que são parte estrutural da relectio - e termina com um exposição do legado intelectual de Vitória.
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4,408
O mito de Atalanta. Das fontes clássicas à receção na arte ocidental
Atalanta,Mitologia,Literatura,Arte,receção,cinema
O presente trabalho de investigação, inscrito na linha de Mundo Antigo, Estudos Clássicos, tem por base de estudo a figura e o mito de Atalanta. Enquadrado devidamente na sua época e contexto em que tomou forma, é nosso objetivo central analisar os diversos tratamentos a que o mito foi sujeito. Pretendemos examinar as fontes literárias e iconográficas, revisitando os estudos já existentes e procurando compreender o envolvimento da personagem e a sua caraterização por parte dos diferentes autores, nas diversas cenas em que é referida: na caça ao javali de Cálidon, nos jogos fúnebres em honra de Pélias, na expedição dos Argonautas e, finalmente, na prova atlética contra Hipómenes, cujo intuito era a eterna escapatória aos laços do casamento. O nosso estudo contempla, assim, a análise da figura de Atalanta de um ponto de vista literário e cultural, abordando a figuração do mito em vasos gregos, espelhos etruscos e frescos romanos, focalizando ainda a nossa atenção na arte ocidental, designadamente na arte da glíptica, na pintura e no mundo cinematográfico.
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4,443
Ficção e história : a figura de Uriel da Costa na obra de Karl Gutzkow
Gutzkow, Karl, 1811-1878 -- obra,Costa, Uriel da, ca.1585-1640
A dissertação de Doutoramento em Literatura Alemã que aqui se apresenta, intitulada Ficção e História: A Figura de Uriel da Costa na Obra de Karl Gutzkow, constitui um estudo aprofundado da novela Der Sadducäer von Amsterdam (1834) e da tragédia Uriel Acosta (1846), incidindo especialmente sobre o tratamento ficcional dado à figurado referido livre-pensador judeo-português, bem como à temática histórica correlacionada, aspectos até aqui amplamente negligenciados pela crítica literária. O trabalho, de dimensão interdisciplinar, inicia-se com um conjunto de reflexões introdutórias (I) sobre a problemática da representação narrativa e dramática da matéria histórica na obra de arte literária, sem descurar a fundamentação da perspectiva teórico metodológica adoptada. Seguidamente, abordam-se os principais aspectos e etapas da (re)construção tanto historiográfica como literária da vida e do pensamento de Uriel da Costa, desde 1644 até aos nossos dias (II), procurando identificar e caracterizar os testemunhos de recepção na Alemanha até à época da Restauração, os quais constituem as fontes de Karl Gutzkow. A parte principal da dissertação (III) começa por se debruçar sobre a posição do autor no panorama sociopolítico, cultural e literário dos anos 30 e 40 do século XIX, não apenas no que concerne ao ideário estético-literário e ideológico do autor, mas também ao modelo de ficção histórica por ele preconizado. Os dois capítulos centrais (III.2 e III.3), dedicados ao estudo da ficcionalização da História no supramencionado corpus, abordam primeiro a génese e a recepção de cada uma das obras em apreço (III.2.1/2 e III.3.1/2). De seguida, tais capítulos centram-se, respectivamente, na análise da novela da Jovem Alemanha (III.2.3) e da tragédia inserida no período do Vormärz (III.3.3), em especial no que diz respeito às estratégias de apropriação e representação ficcional do caso histórico de Uriel da Costa. Tanto na novela Der Sadducäer von Amsterdam como no drama Uriel Acosta, a reescrita do histórico conflito que opôs a figura do luso-judeu converso à ortodoxia judaica de Amesterdão comprovam uma intensa simbiose entre dados historiográficos e fictícios. Todavia, a selecção e configuração literária das matérias históricas na novela e na tragédia em verso revelam também consideráveis diferenças, devidas, por um lado, a peculiaridades genológicas e, por outro, ao específico enquadramento histórico e cultural dos textos em causa.
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4,451
Tempos verbais do passado e do presente em português e alemão : estudo comparativo de aspectos semânticos e pragmáticos
Linguística contrastiva,Tempos verbais -- língua portuguesa,Tempos verbais -- língua alemã,Semântica temporal
A dissertação tem como objectivo comparar os tempos verbais mais frequentes do passado e do presente no português e no alemão: Presente, Pretérito Imperfeito, Pretérito Perfeito Simples, Pretérito Perfeito Composto e Pretérito Mais-que-perfeito, por um lado, e Präsens, Präteritum, Perfekt e Plusquamperfekt, por outro. Baseia-se na análise de um pequeno corpus paralelo constituído por textos alemães acompanhados de uma ou mais traduções portuguesas, totalizando cerca de 100000 palavras. O estudo das correspondências entre formas verbais alemãs e portuguesas neste corpus revela que a selecção do tempo verbal da tradução é influenciada não só pela forma verbal do texto original, mas também, em grande parte dos casos, por outros factores, de entre os quais se destacam a 'aktionsart' do predicado do texto alemão e as relações discursivas que se estabelecem entre as proposições que compõem esse texto. A análise dos tempos verbais estudados baseia-se, por isso, na forma como eles interagem com esses factores, revelando diferenças assinaláveis entre as duas línguas. As formas portuguesas, para além de localizarem as situações no tempo relativamente a determinados 'pontos de perspectiva temporal', condicionam também os limites dessas situações. Daí advêm, por um lado, restrições à possibilidade de associar essas formas verbais a predicados de diferentes classes de 'aktionsart' e a diferentes tipos de expressões adverbiais de tempo, e, por outro lado, o condicionamento da interpretação temporal que resulta dessas associações. Trata-se de questões muitas vezes encaradas como sendo de aspecto verbal, mas que aqui são vistas como resultado da interacção entre tempo verbal e ‘aktionsart’ do predicado. Pelo contrário, os tempos verbais alemães do passado desempenham igualmente uma função de localização temporal, mas não influenciam as fronteiras da situação localizada, combinando-se livremente com diferentes classes de 'aktionsart' e expressões adverbiais de tempo, e impondo poucas condições à interpretação temporal dos textos. Estas diferenças entre os tempos verbais alemães e portugueses no que respeita ao seu significado e à sua interacção com outros elementos linguísticos que veiculam valores associados ao tempo levam à utilização de mecanismos distintos para a interpretação temporal de textos nas duas línguas, criando problemas de tradução específicos, alguns dos quais são abordados no trabalho.
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4,458
Mausoleum de Hans Magnus Enzensberger : a balada moderna e o mito do progresso
Balada alemã -- 1970-1979,Enzensberger, Hans Magnus -- obra
Centrada em Mausoleum. Siebenunddreißig Balladen aus der Geschichte des Fortschritts, um controverso volume de lírica de Hans Magnus Enzensberger publicado em 1975, a dissertação tem como tema o estudo desta obra como análise literária do mito do progresso. Nela se enunciam as seguintes teses principais: 1. Mausoleum não inicia nenhuma etapa nova na produção de Enzensberger, indiciadora, como se afirmou, de uma revisão de posições políticas. A partir da contextualização exaustiva desta obra no conjunto da produção de autor, procura demonstrar-se que ela se insere, pelo contrário, tanto do ponto de vista temático, como formal, organicamente, na produção enzensbergeriana dessa década. 2. Estes textos líricos são legitimamente classificáveis como baladas. Operando-se com um conceito moderno de balada, que rejeita tanto definições normativas como a tese da morte do género, sustenta-se que estes poemas configuram as características típicas do género lírico balada. Enzensberger aproveita, por um lado, o velho subgénero balada histórico-heróica, que preserva e subverte, e, por outro lado, a tradição do Bänkelsang, o que lhe permite contar, de forma distanciadamente irónica, a história do nascimento e queda da utopia setecentista de progresso.
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4,459
Magellan. Der Mann und seine Tat de Stefan Zweig : um exemplo de "biografia moderna" dos anos 30 sobre uma figura histórica portuguesa
Magalhães, Fernão de, 1480?-1521
A dissertação que apresentei à Faculdade de Letras, intitulada «Magellan. Der Mann und seine Tat de Stefan Zweig: um exemplo de "biografia moderna" dos anos 30 sobre uma figura histórica portuguesa», debruça-se sobre a menos estudada das grandes biografias do célebre autor austríaco, precisamente aquela em que ele se ocupou de Fernão de Magalhães. A dissertação inicia-se com um balanço sobre o "estado da arte" nos vários domínios atinentes ao tema e prossegue com uma exposição sobre o género literário paraficcional que é a biografia. Seguem-se dois capítulos de contextualização histórico-cultural: o primeiro aborda a diversidade tipológica da "moda biográfica" dos anos 20 a 40 na literatura de expressão alemã; o segundo trata do percurso biográfico e literário de Stefan Zweig até às grandes biografias, bem como da concepção de História que subjaz aos seus textos. A segunda parte do trabalho incide sobre Magellan. Der Mann und seine Tat. Após o estudo da génese, das fontes e das circunstâncias ligadas à primeira publicação (1937), examina-se o texto biográfico propriamente dito – quer na sua aproximação à História, quer, sobretudo, na sua qualidade de texto literário. De seguida, acentuam-se taxonomicamente os vários papéis sociais e políticos que Magalhães desempenha na biografia e, a terminar, avaliam-se ainda algumas reacções nacionais e internacionais à publicação de Magellan. Der Mann und seine Tat. A análise revela de que forma a apresentação de Magalhães por Stefan Zweig, filiando-se na tradição da "biografia moderna" e valendo-se de uma sólida base documental, mostra os traços menos gloriosos da figura sem abdicar totalmente da sua heroicidade. Este texto biográfico, porém, não constituía somente uma homenagem ao navegador português. Para o humanista e europeísta Zweig – e para os seus leitores dos anos 30 – o feito de abraçar toda a Terra através do Oceano e conseguir juntar, de forma pacífica, o Ocidente com o Oriente tinha uma dimensão simbólica. Num tempo de brutalidade e de racismo, Magellan. Der Mann und seine Tat exortava à co-existência, apontava os valores humanistas como instrumentos de entendimento fraterno entre todos os povos e mostrava que mesmo épocas tão conturbadas como a década de 30 do século passado podiam ser conjunções de mudança, desde que o ser humano acreditasse em si mesmo e nos seus ideais.
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4,460
Verbos de percepção visual em português e alemão : a semântica de ver, olhar e sehen
Linguística contrastiva,Verbo -- língua portuguesa,Verbo -- língua alemã,Verbos de Percepção,Semântica lexical
O presente trabalho tem como objectivos a descrição semântica dos verbos de percepção pt. ver, olhar e al. sehen e a sua contrastação. Trata-se de itens lexicais polissémicos que evidenciam uma semântica complexa, cuja descrição tem sido elaborada de modo apenas parcial por vários autores.1 A escolha destes três verbos em particular decorre do facto de serem verbos nucleares no domínio dos verbos perceptivos e no subdomínio respeitante à modalidade da percepção visual. As aproximações à semântica destes três verbos e dos seus equivalentes noutras línguas europeias, nomeadamente o francês e o inglês, têm sido fundamentalmente centradas na questão da complementação, a partir da qual os diversos autores retiram algumas conclusões sobre aspectos pontuais do significado; é o que sucede numa grande parte dos estudos que se ocupam da distinção entre percepção directa e indirecta apoiada na observação da complementação sob forma frásica (cf. 3.2.1 e respectivas subsecções). Para além do elenco e descrição da pluralidade de sentidos dos itens em análise, procederei também a uma tentativa de explicação das respectivas ligações polissémicas, identificando, sempre que possível, a relação semântica entre sentidos e o princípio que preside ao aparecimento de cada novo sentido, do ponto de vista do linguista observador de contextos de uso, em sincronia. Trata-se, portanto, de explicar de que modo itens lexicais nucleares no campo da percepção visual adquirem significados em domínios semânticos tão diversos como os da acção/interacção humana (Vou ver das chaves; O Pedro e a Joana vêem-se todos os dias ao fim da tarde), da emissão de juízos, opiniões ou avaliações sobre um indivíduo ou estado de coisas (Sie sehen das anders; Olho para a situação da empresa como oportunidade não como fatalidade) e, ainda, em domínios epistémicos como a inferência, a busca e aquisição de conhecimento ou, ainda para além disso, como assumem a mera função genérica de referir um acontecer ou de relacionar acontecimentos no tempo e/ou no espaço (veja-se a função de ver e sehen nos seguintes exemplos: O velho cine-teatro viu-se rodeado de arranha-céus; Das 20. Jahrhundert sah den Aufstieg und den Fall des Nationalsozialismus; O século XX viu nascer a Internet). A análise centrar-se-á no recenseamento exaustivo dos sentidos destes verbos, elaborado a partir da observação do uso dos mesmos em corpora de língua escrita e, pontualmente, também de língua falada (cf. secção sobre corpora utilizados e constituição do corpus para este estudo), sem rejeitar o recurso a exemplos construídos, quando isso se revela necessário à elucidação de aspectos particulares da semântica dos verbos analisados ou de questões de natureza teórica; no caso do alemão, os exemplos construídos foram submetidos à apreciação de falantes de alemão como língua materna. No presente estudo não serão contempladas as expressões com ver, olhar e sehen que se situam no domínio da fraseologia (colocações e idiomatismos), visto que se trata de itens lexicais complexos, fixos ou semifixos, com características muito próprias, que ultrapassariam largamente os objectivos do estudo que me proponho realizar.
Humanidades
4,463
A utilização das novas tecnologias enquanto estratégia facilitadora do processo de ensino-aprendizagem
Novas tecnologias,Ensino
O presente documento constitui o Relatório Final de Estágio, surgindo como parte integrante da unidade curricular de Prática Pedagógica Supervisionada, no âmbito do Mestrado em Ensino de Inglês e de Alemão no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pretende ser uma reflexão sobre a Prática Pedagógica Supervisionada, que foi realizada na Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Dr. Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz, durante o ano letivo de 2011/2012, em que o tema “A utilização das novas tecnologias enquanto estratégia facilitadora do processo de ensino-aprendizagem” desempenha um papel central. Numa época em que os avanços tecnológicos se fazem sentir todos os dias e com grande intensidade, parece-me pertinente dedicar algum tempo ao estudo da influência que a utilização das novas tecnologias exerce sobre o processo de ensino-aprendizagem. Ao longo deste relatório tentarei demonstrar que os recursos tecnológicos podem ser uma mais-valia em contexto de aula e que as vantagens que advêm da sua utilização superam os aspetos menos positivos. Pretendo ainda apresentar situações didáticas concretas, tendo em conta a minha experiência pessoal ao longo do ano do Estágio e a colocação em prática de alguma da teoria estudada. Assim sendo, o presente relatório encontra-se dividido em três capítulos: • o primeiro capítulo, referente à escola, faz o enquadramento geográfico e socioeconómico, bem como a caracterização da escola e das turmas que me foram atribuídas, um 9º ano da disciplina de Inglês e um 11º ano da disciplina de Alemão; • no segundo capítulo apresento um resumo do meu percurso académico, profissional e pessoal, bem como uma autoavaliação do trabalho que desenvolvi ao longo do ano e apresento as razões que levaram à escolha do tema monográfico; • o terceiro e último capítulo inclui a fundamentação teórica do tema por mim escolhido para este relatório – “A utilização das novas tecnologias enquanto estratégia facilitadora do processo de ensino-aprendizagem” – e que serviu de base às atividades desenvolvidas ao longo da Prática Pedagógica. 
Humanidades
4,721
Irrupção e disrupção no teatro breve de Cervantes: modalidades metateatrais nos Ocho Entremeses
Metateatro,Teatro cervantino,Entremezes
A finalidade desta investigação é tornar visível a presença de mecanismos metateatrais nos Ocho entremeses de Cervantes, partindo dos conceitos de irrupção e disrupção. A utilização intensiva e diversificada de tais processos configura não apenas um gesto celebrativo face ao legado de Lope de Rueda, que albergava já diversos mecanismos desbordantes e de ordem tautológica, como um exercício de experimentação e de grande versatilidade técnica. Por outro lado, a centralidade e o caráter reiterado que tais procedimentos adquirem no contexto dos entremezes cervantinos traduz uma atitude simultaneamente defensiva e suspicaz face à crescente espetacularização que, no decurso dos séculos XVI e XVII, se ia adentrando no espaço público e nas práticas sociais de vários países europeus. Ao denunciar abertamente a endentação ilusória que movia o seu teatro breve, o dramaturgo estava na verdade a demarcá-lo ontologicamente de um mundo que promovia a encenação dos mais elementares gestos quotidianos, enovelando vida e representação. Esta opção do autor, mais do que um rasgo narcísico, instila no teatro uma função autorreguladora e o dever se reexaminar a cada passo, já que, sem se pôr em causa, correria o risco de ficar diluído na equação que o equiparava à vida. Instrumento revelador e multifuncional, o metateatro detém ainda um papel crucial na reconstituição da poética dramática cervantina, em particular no que toca estatuto do espetador. Esse esforço deliberado em denunciar os códigos e as engrenagens que operam sob o drama parece indiciar a firme convicção de que a plateia deve ser envolvida ativamente no espetáculo teatral e, em virtude disso, resgatada da letargia crítica a que fora votada, tanto pelos férreos ditames da estética clássica como pelos excessos da comedia nueva. Nessa medida, a dramaturgia cervantina radica claramente nos conceitos de distanciamento e de estranhamento, antecipando práticas teatrais que viriam a ser postuladas no século XX, em particular por Bertolt Brecht. Ostentando uma pulsão manifestamente invasiva e desorganizadora, as personagens que povoam os entremezes geram frequentes situações disruptivas que, polarizadas entre o caos e o estatismo, tendem a descentrar o drama, tornando-o bastante instável. O desenlace que observamos na maioria destas peças breves não representa, pois, um desfecho natural dos acontecimentos, mas um diferimento ou uma suspensão deliberativa, condenando as personagens e os espetadores à indeterminação ou ao retardamento. Espaço cáustico e mutilante, o teatro breve de Cervantes é fraguado nesta incapacidade de resolver os conflitos que ele mesmo promove, preferindo cauterizá-los através da dissonância festiva que encerra a maioria dos entremezes. Transgredindo frequentemente o papel que lhes foi adjudicado pelo dramaturgo, as personagens não hesitam ainda em exibir a sua vocação cénica (enquanto atores ou metteurs-en-scène), instaurando uma forte carga teatral no entrecho, que pode traduzir-se na reconfiguração do espaço dramático (repartido entre mirantes e mirados) ou na consumação de um embuste, recordando-nos assim que também nós somos signatários de um pacto ficcional e, nessa qualidade, espetadores de uma ilusão. Nos Entremeses, a rememoração desse acordo assume um conjunto muito alargado de formas, que podem substanciar-se na autoconsciência ficcional das personagens (eu), nas interpelações dirigidas ao leitor ou ao espetador (tu), na alusão a referentes e a figuras pertencentes à realidade (ele/a) ou na menção ao próprio pacto ficcional (isto). Sustentado nessa diversidade de procedimentos, o teatro breve de Cervantes assume declaradamente o seu caráter instável e repentista, marcado por inesperadas deflagrações que deslocam os limites do enredo para lá das expetativas inscritas em cada um dos oito títulos. Em todos eles, encontraremos formas disruptivas que tendem a ser desbordantes e reciprocamente invasivas, podendo ser enquadradas em três níveis: ficcional/dramático, que é, por excelência, o espaço das personagens; criativo/espetacular, relativo aos agentes que direta ou indiretamente participam no espetáculo teatral (dramaturgo, profissionais do teatro e espetadores); social/real, cujos referentes se situam no mundo externo. Cada um destes domínios, além de permeável à pressão exercida pelos patamares adjacentes, outorga liberdade de transferência às modalidades sob a sua alçada, consentindo que estas transponham os seus umbrais e cumpram também a sua vocação invasiva, o que confere grande fluidez e força disruptiva aos processos metateatrais inscritos em cada um dos Ocho entremeses. ABSTRACT The purpose of this research is to bring to light the presence of metatheatrical mechanisms in Cervantes’ Ocho entremeses, based on the concepts of irruption and disruption. The intensive and varied use of such processes comprises not only a celebrative token vis-à-vis the legacy of Lope de Rueda, which already harboured several boundless, tautological mechanisms, but also an exercise in experimentation and of great technical versatility. On the other hand, the centrality and reiterated nature that those procedures acquire within the context of the Cervantine interludes depicts an attitude that is simultaneously defensive and suspicious in view of the growing use of spectacularization, which, during the 16th and 17th centuries, permeated into the public arena and into social practices in various European countries. By openly exposing this illusory engagement, the vector of his short plays, the playwright was actually ethically demarcating them from a world that promoted the staging of the most elementary daily gestures, mingling life and acting. By making this choice, which is more than a narcissistic outburst, the author is instilling a self-regulating function into the theatre as well as the duty to re-examine itself with every step, as without questioning itself, it would run the risk of becoming diluted in the equation that paralleled it to life. Metatheatre is a revealing and multi-functional instrument that also plays a crucial part in re-building Cervantine dramatic poetics, especially with regard to the role of the spectator. This deliberate effort to expose the underlying codes and drivers of the drama seems to indicate the firm conviction that the audience must be actively involved in the theatrical show and, as such, torn from the critical lethargy to which it was assigned, both by the strict dictates of classical aesthetics and by the excesses of comedia nueva. As such, Cervantine drama is clearly founded on the concepts of alienation and estrangement, anticipating theatrical practices that would be postulated in the 20th century, especially by Bertolt Brecht. Displaying an obviously invasive and disorderly impetus, the characters that inhabit the interludes frequently cause disruptive situations, which, when polarised between chaos and quiescence, tend to de-centralise the drama, making it quite unstable. The ending we observe in the majority of these short plays does not, therefore, represent a natural outcome of the events, but a deferral or a deliberate suspension, condemning the characters and spectators to uncertainty or deferment. Cervantes’ short plays are a caustic, mutilating space, forged in this inability to resolve the disputes he himself promotes, preferring to cauterise them through the festive dissonance that closes the majority of the interludes. Often surpassing the roles allocated to them by the playwright, the characters also do not hesitate to exhibit their stage vocation (as players or metteurs-en-scène), introducing a strong theatrical sense into the storyline, which can be seen as the reconfiguration of the dramatic space (divided between mirantes and mirados) or in the consummation of a deception, reminding us that we too are the signatories of a fictional pact and, as such, spectators of an illusion. In the Entremeses, recollection of that covenant takes on a very wide variety of forms, which can materialise in the fictional self-conscience of the characters (I), in approaches to the reader or spectator (you), in the allusion to references and figures that are part of reality (he/she) or in a mention of the fictional pact itself (this). Based on that variety of procedures, Cervantes’ short plays openly assume an instable and improvised nature, marked by unexpected outbursts which move the boundaries of the plot beyond the expectations inscribed in each of the eight titles. We can find disruptive forms in all of them, which tend to be boundless and reciprocally invasive, and may be classified into three levels: fictional/dramatic, the place for characters par excellence; creative/spectacular, regarding the players who directly or indirectly participate in the theatrical show (playwright, stage professionals and spectators); social/actual, whose references are found in the outside world. Besides being permeable to the pressure exerted by the adjoining levels, each of these fields bestows freedom of transfer to the modalities under their remit, allowing them to cross their thresholds and also to fulfil their invasive vocation, which provides great fluidity and disruptive strength to the metatheatrical processes inscribed in each of the Ocho entremeses.
Humanidades
4,722
Areas linguístico-etnográficas românicas : processos tradicionais de moldar o queijo
Linguística -- línguas românicas,Etnolinguística -- fabrico do queijo
Estudo linguístico e etnográfico dos moldes artesanais para o queijo de ovelha em todo o espaço europeu de expressão românica. Ocupa-se dos nomes e das formas dos objectos, uma vez que muitas designações antigas só podem explicar-se pelo conhecimento da coisa. Segue os métodos da geografia linguística e das Wörter und Sachen (Palavras e Coisas) associados, quando se torna útil, a orientações mais recentes e a incursões interdisciplinares (história, arqueologia, etnologia, geografia humana). Os abundantes materiais recolhidos provêm sobretudo de atlas linguístico-etnográficos nacionais e regionais e, em relação a Portugal, do ILB (Inquérito Linguístico Boléo). A investigação sobre a origem e o percurso histórico de todos os nomes recolhidos (mais de duas centenas) permitiu uma ampla renovação, nos vários idiomas implicados, do que se sabia sobre um campo lexical vasto que ultrapassa o vocabulário técnico em causa em múltiplas direcções. Detectaram-se erros e lacunas nos dicionários etimológicos mais completos e mais consultados - prova de que continuam a ser necessários estudos parcelares deste género. Compreende os seguintes capítulos: Introdução; Áreas italo-suiças; Áreas romenas; Áreas galo-românicas; Áreas espanholas e galegas; Áreas portuguesas.
Humanidades
4,730
Uma poética da mobilidade : Jules Supervielle
Supervielle, Jules, 1884-1960 -- Romances -- Crítica e interpretacão
O estudo dos textos narrativos de Jules Supervielle, autor que se inscreve no panorama literário dos anos 30 e 40 de forma original, fugindo aos habituais parâmetros de categorização, revela a atracção exercida neste autor pela poética do evanescente. Com vista à abordagem global desta linha isotópica, propõem-se dois momentos distintos, mas complementares, de análise: no primeiro, proceder-se-á à avaliação de formas e de sinais textuais em que a incidência do parâmetro se faz sentir (Parte I); no segundo, dar-se-á conta dos seus sentidos mais profundos, transcendendo o nível imanente do texto, na procura de uma visão particular do homem e da escrita (Parte II). Na abordagem das formas e dos sinais, privilegiam-se os problemas atinentes às representações semânticas globais, com o intuito de evidenciar a estrutura temática do texto e os macro-signos que a suportam, operando quer ao nível da diegese, através do estudo das personagens (Capítulo I) e do espaço (Capítulo II), quer ao nível do discurso, através do estudo dos processos de textualidade e de intertextualidade nele postos em acção (Capítulo III). Evoluir-se-á assim de um nível transtópico, em que o texto é tomado nas suas grandes linhas de força temáticas e estruturais, a um nível tópico, imediato, onde a atenção incidirá no grão do texto, na sua tessitura interna mínima. Na segunda parte, e ultrapassando uma perspectiva de leitura que acompanhe, de uma forma imediata e imanente, a superfície do texto, procurar-se-ão os fundamentos pessoais de uma visão do homem (Capítulo I) e do mundo (Capítulo II), de um projecto estético e de uma concepção da criação literária (Capítulo III) que permitam dar consistência à edificação de um imaginário único e original. O percurso efectuado permitirá avaliar quanto, num espaço edificado sobre o valor da dispersão e do jogo ambíguo da descontinuidade e da analogia, a qualidade poética surge sempre na dependência das relações verbais, fonológicas ou semânticas, que constituem o tecido do texto.
Humanidades
4,733
A tradução literária numa perspectiva metodológica : problemas de tradução em Le livre des fuites, de J. M. G. Le Clézio
Le Clézio, J.-M. G., 1940- -- obra,Tradução literária
Neste trabalho apresenta-se uma tradução de francês para português de um excerto da obra literária Le Livre des fuites, do autor J.M.G. Le Clézio, assumindo como princípio norteador da tarefa de tradução o modelo funcionalista de Christiane Nord aplicado a tradução literária. Assim se pretende verificar na prática os aspectos mais e menos eficientes do modelo em questão, problematizando a sua aplicabilidade à tradução literária. Muitos teorizadores da tradução e até mesmo tradutores literários questionam a aplicabilidade de uma metodologia para a tarefa de tradução literária, pois consideram que o texto literário possui características muito próprias, que o tornam semelhante a uma manifestação artística, por conseguinte detentora de um carácter de criação e originalidade. Esta concepção de texto literário põe, então, em causa a possibilidade de aplicação de uma metodologia na sua tradução, pois coloca a seguinte questão: perante o carácter sui generis de cada obra, será que se podem aplicar princípios de ordem geral e repetitiva na tradução de textos literários? Do ponto de vista teórico, esta seria a questão-chave deste trabalho. Procura-se responder-lhe aqui, porém, essencialmente através de um exercício prático de tradução literária, mais concretamente através da tradução de um excerto da obra supracitada.
Humanidades
4,744
O Ensino e a Aprendizagem da Escrita em Educação e Formação de Adultos
Escrita em Língua Materna e língua estrangeira
O ensino e aprendizagem na Educação e Formação de Adultos estão contemplados numa lógica de “aprendizagem ao longo da vida”, onde se perspetiva um reconhecimento das competências do adulto, e/ou experiência profissional e onde se adquirem novas competências para um reingresso no mercado de trabalho. O estudo empírico realizado no âmbito deste projeto pretende verificar a viabilidade da aprendizagem e do aperfeiçoamento da escrita em língua materna e no que diz respeito à língua estrangeira, é feita uma descrição de uma experiência de prática pedagógica em unidade de curta duração em língua francesa, enquadrada na perspetiva do Français sur Objectifs Spécifiques.
Humanidades
4,745
A simulação como estratégia de motivação na aprendizagem de uma língua estrangeira
Motivação em Línguas
Este relatório é, em primeiro lugar, uma apresentação da escola onde concretizei a prática pedagógica e uma reflexão sobre as mesmas. Em segundo lugar, consiste na exposição da revisão bibliográfica, sobre a motivação e a simulação como estratégia para motivar a aprendizagem de uma língua estrangeira. A motivação dos alunos é essencial na aprendizagem de idiomas, tal como já foi demonstrado por investigadores como Gardner e Lambert (1972, 1985), Dörnyei (1994, 2001, 2005, 2009) e Williams e Burden (1999). De modo a estimular os alunos, o docente deve saber em que consiste a motivação e quais são as atitudes, crenças e estratégias de ensino que geram o interesse dos estudantes na aula de língua estrangeira (LE). Neste relatório, procede-se ao estudo de várias teorias sobre a motivação que ajudam a entender este conceito e analisam-se as crenças existentes no ensino de línguas, que influenciam a aprendizagem, especificamente, a crença de controlo sobre a aprendizagem e a crença na auto-eficácia. Além dos temas referidos, encontramos um estudo das características do docente motivador e de algumas estratégias de motivação, cujo conhecimento é importante para que o professor consiga estimular, manter e proteger o interesse pelo estudo da LE ao longo do processo de aprendizagem. Este trabalho monográfico é também composto pela apresentação de uma estratégia de motivação concreta: a simulação como estratégia de motivação na aula de LE. Na primeira fase, explica-se em que consiste uma simulação e os tipos de simulação que podem ser implementados na aula. Em seguida, expõem-se quatro exemplos práticos de simulações executadas durante o meu estágio pedagógico, cujo resultado positivo no desenvolvimento da motivação dos alunos demonstrou tratar-se de uma estratégia motivacional eficaz.
Humanidades
4,746
A produção escrita nas disciplinas de Português língua materna no 9°ano e Francês língua estrangeira no 7°ano de escolaridade
Expressão Escrita
Para além da apresentação do estágio pedagógico realizado em Português e Francês durante o ano de 2012-2013, e da reflexão sobre essa mesma prática, desenvolve-se neste Relatório um estudo sobre a competência da produção/expressão escrita, em língua materna e em língua estrangeira. Estudando produções escritas em situação de avaliação, criteriosamente selecionadas para serem representativas da realidade dos alunos em questão, pretende-se apresentar as dificuldades/erros dos discentes na produção/expressão escrita, bem como entender a natureza desses erros. O estudo aponta como mais evidentes os erros de sintaxe, de ortografia, de acentuação e de coesão textual. No seguimento da análise efetuada, propõem-se algumas estratégias de aprofundamento das matérias e superação dos problemas, nomeadamente atividades didático-pedagógicas que visam levar os alunos a melhorar o seu desempenho nas produções escritas nas duas línguas abordadas. Assim, procurou-se diversificar as atividades/estratégias e torná-las atrativas, de modo a facilitar a motivação e a dinâmica da aula. A produção escrita é vista neste relatório como um processo importante que incentiva os alunos a formar e a expressar ideias, sentimentos, interesses, preocupações, ou seja, a comunicar. Esta forma de comunicação exige a implementação de habilidades e estratégias que o aluno deve dominar e aplicar durante o processo de ensino/aprendizagem. Assim, podemos dizer que a expressão escrita no ensino da Língua Materna e da Língua Estrangeira é uma forte aliada para o sucesso da aprendizagem. Por conseguinte, deve ser encarada, não só como um mero meio utilizado para fins de avaliação, mas também como conteúdo específico de aprendizagem e competência importante a desenvolver.
Humanidades
4,747
A interação na expressão escrita nas aulas de ELE
Interação escrita
O presente relatório de estágio tem como objetivo fulcral a análise da interação na expressão escrita nas aulas de Espanhol como Língua Estrangeira (ELE). Após uma abordagem relativa ao contexto da Prática Pedagógica Supervisionada e de uma reflexão sobre essa mesma Prática, analisaremos de que forma a interação na expressão escrita poderá ser uma mais-valia para os alunos aquando da aprendizagem de ELE. Por isso, reconhecemos a aula como um espaço privilegiado de interação, daremos conta dos diferentes tipos de interação e apresentaremos algumas atividades que se podem desenvolver neste âmbito. A aplicação de algumas atividades de interação na expressão escrita durante a Prática Pedagógica Supervisionada, e que também descrevemos na parte final deste relatório, não é mais do que a experimentação prática das diferentes teorias apresentadas no tema monográfico. Defendemos, portanto, um ensino-aprendizagem da interação na expressão escrita assente numa perspetiva processual e que forneça aos discentes as ferramentas necessárias para comunicarem em diferentes situações com as quais se possam deparar no contexto real de uso da língua.
Humanidades
4,751
Estratégias de Correção Docente da Expressão Oral nas Aulas de E/LE
Correção,Expressão Oral
Estratégias de Correção para a Expressão Oral nas aulas de E/Le
Humanidades
4,752
A autoavaliação como instrumento de autorregulação dos progressos dos alunos
Autoavaliação,autorregulação das aprendizagens
Este trabalho tem como objetivo promover uma reflexão sobre a importância da autoavaliação dos alunos no desencadear de mecanismos pessoais que lhes permitam adquirir hábitos de autorregulação das suas aprendizagens.
Humanidades
4,754
Da técnica teatral à estratégia de motivação: a dramatização na aula de Espanhol como Língua Estrangeira
Motivação,Ensino,Aprendizagem,Dramatização,Estratégia,Motivación,Enseñanza,Aprendizaje,Dramatización,Estrategia
O presente relatório, desenvolvido no âmbito do estágio pedagógico, para além de fazer uma breve contextualização da prática pedagógica supervisionada e uma reflexão sobre a mesma, perspetiva a utilização da dramatização como estratégia motivacional na aula de língua estrangeira. Assim, a Parte I deste trabalho é composta pela caracterização dos contextos em que a prática pedagógica se inseriu e pela reflexão decorrente do trabalho desenvolvido. Na Parte II, apresentam-se os fundamentos teóricos relativos ao tema, com enfoque, em primeiro lugar, na relevância da motivação no processo de ensino/aprendizagem e, em segundo lugar, na integração da dramatização, no contexto educacional, pela sua potencialidade pedagógica e motivadora. Por último, explicita-se a aplicação didática da dramatização como estratégia de motivação na prática pedagógica supervisionada, com atividades desenvolvidas pelos discentes e pela docente.
Humanidades
4,755
O género textual notícia ao serviço da expressão escrita na aula de ELE
GÉNERO TEXTUAL
Este estudo é uma reflexão em torno da expressão escrita, uma vez que se trata de uma competência fundamental no ensino e aprendizagem de qualquer língua, porque propicia a aquisição e o desenvolvimento da competência comunicativa. Esta reflexão adquire ainda mais importância por estar relacionada com um projeto europeu, o eTwinning, que permite a colaboração e troca de experiências entre docentes de diferentes nacionalidades, desenvolvendo projetos que também implicam o trabalho dos alunos com o fim de os ajudar no aperfeiçoamento da sua competência linguística.
Humanidades
4,756
A Marcação do Género e do Número em Francês Língua Estrangeira
Francês Língua Estrangeira,Didática da Gramática,Morfossintaxe,Marcação do Género e do Número,Laboratório Gramatical
Na sequência de investigação anterior (Freitas, 2014), pretendemos com o presente relatório apresentar os resultados qualitativos de um projeto de investigação-ação inserido num curso de formação inicial de professores (Castro, 2010). O trabalho incide sobre o ensino e a aprendizagem da gramática do Francês Língua Estrangeira em contexto escolar, através da abordagem da marcação do género e do número (Franceschina, 2005; Wilmet, 2007), e assenta numa metodologia que privilegia a utilização de laboratórios gramaticais com os quais se trabalhará os conteúdos referidos (Brito, 1997). Além de apresentar a experiência de estágio, analisaremos o desempenho dos alunos ao longo do ano letivo utilizando as notas da observação de aulas, os resultados de dois testes de avaliação efetuados antes e depois da aplicação do laboratório gramatical, e os resultados de um teste de diagnóstico realizado no final do ano letivo. Verifica-se que os alunos aprendem facilmente as regras, ainda que evidenciem maiores dificuldades nas exceções, na relação entre oral e escrito e, sobretudo, nas interferências causadas pela influência da língua materna. Na parte final, apresentar-se-á algumas considerações finais, bem como ideias de estudos futuros.
Humanidades
4,872
Da literatura tradicional à literatura contemporânea : pontes e fronteiras
Ferreira, José Gomes, 1900-1985 -- obra,Vieira, Alice, 1943- -- obra,Torrado, António, 1939- -- obra
A investigação aborda os diferentes percursos que o texto tradicional tem feito ao longo dos anos, através de reelaborações muito diversas, que demonstram as suas variadíssimas potencialidades ideológicas, estéticas e pedagógicas, conforme os contextos em que são explorados. É o que explica o título desta dissertação. A tese é fundamentalmente consagrada ao estudo de ligações intertextuais que prendem à literatura narrativa tradicional portuguesa, considerada no âmbito do subgénero "conto", um "corpus" de textos ficcionais portugueses contemporâneos constituído por O Príncipe com Orelhas de Burro, de José Régio (publicado em 1942),.As Aventuras de João sem Medo, de José Gomes Ferreira (publicado em 1963), a colecção Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo, de António Torrado, (colecção com 16 títulos, publicada entre 1984 e 1987) e a colecção Histórias Tradicionais Portuguesas, de Alice Viera (com 14 títulos, publicados entre 1991 e 1998). Abarcamos, assim, um arco cronológico, no séc.XX, que vai da década de 40 à de 90, cujos textos têm funcionamentos pragmáticos distintos, em função de destinatários também diferentes, assumindo-se as Histórias de Torrado e Vieira, claramente, até pelas características gráficas, como dirigidas a um público infantil, ao contrário dos romances. O fundo tradicional que alimenta este corpus foi estudado através das grandes recolhas dos séculos XIX e XX (publicadas em colectâneas e em diversas revistas). A análise intertextual permitiu a verificação das virtualidades do fundo tradicional - o seu uso múltiplo: ideológico, didáctico, lúdico, a sua capacidade simbólica… A possibilidade da existência de situações híbridas e de mudança de estatuto dos textos são questões que a teorização literária actualmente contempla e o estudo que fizemos permite ilustrar a fluidez das fronteiras do campo literário. Analisámos, assim, a forma como se refaz o tradicional na época do esbatimento de fronteiras culturais, na sequência das transformações sociais, políticas, económicas, tecnológicas, etc. Tentar esclarecer a utilização recriadora do fundo tradicional em cada um dos autores seleccionados exigiu considerar: 1) o contexto histórico-cultural; 2) o macrotexto autoral para "situação" das obras seleccionadas; 3) a construção "poética" dos textos (processos de elaboração discursiva e de figuração ficcional – elementos diegéticos, sequencialização, construção do espaço e das personagens, simbolização, etc.); e ponto 4), naturalmente, também os hipotextos tradicionais e os processos da sua recriação, mais próxima (a que chamámos "recontos") ou mais afastada (reelaborações bastante transfiguradoras). Abordámos, primeiro, questões globais de interpenetração entre Oralidade e Escrita e entre memória colectiva e criação individual, onde Garrett e o Romantismo tinham necessariamente de ocupar um lugar de relevo; daí seja feita uma reflexão sobre a estética romântica, principal responsável pelo interesse desencadeado no séc. XIX pelos textos de tradição oral. O enquadramento teórico fundamental é o de um conceito de relatividade cultural que nos conduziu a uma reflexão sobre a relação multifacetada dos textos de tradição oral com a criação literária considerada "erudita". Insistimos no conceito de diálogo, não só por considerarmos que é efectivamente o processo predominante de interacção entre os vários textos que abordamos mas também porque temos consciência que o uso de taxinomias e classificações muitas vezes ambíguas, "fraccionam " artificialmente a Literatura e poderão sobressair demasiadas "fronteiras"; no entanto, necessitamos de as usar por questões de operacionalidade. Independentemente dos contextos sócio-ideológicos, parece ser na literatura para crianças que se aloja, de forma mais patente, o statu quo, mas também a subversão do universo dos contos tradicionais. A reabilitação destas histórias, que começam a desaparecer dos contextos pragmáticos da actualidade, nada tem de passadista, em nenhum dos quatro autores que abordámos mais detalhadamente. Reforçamos, assim, a postura de alguns investigadores que defendem a importância de uma abordagem dos contos ao nível da sua relação com o contexto sociocultural e portanto histórico, contrariando as abordagens puramente estruturais ou psicanalíticas, que ignoram estas dimensões. Chegados a este ponto da nossa reflexão, o próprio percurso que fizemos nos conduz à necessidade de a enquadrar na problemática mais vasta dos modos de existência da obra de arte, socorrendo-nos da teoria de Gérard Genette, em L’Oeuvre de l’art. Immanence et Transcendance(1994). Salvaguardando o carácter relativamente arbitrário de certas distinções, Genette estabelece aproximações e divergências entre artes aparentemente tão díspares como a literatura, a escultura ou a fotografia, perturbando, subvertendo, as classificações tradicionais e nesta sua postura encontramos o horizonte necessário para a compreensão do lugar que os textos dos autores que estudámos ocupam no tempo e no espaço actual. A aceitação dos diferentes modos de existência das obras como objectos de relação estética e a comprovação da fragilidade teórica das taxinomias a que se sujeita a classificação da arte, permite compreender os diferentes olhares sobre a Literatura Tradicional, o variável estatuto que lhe tem sido concedido ao longo das épocas, assim como torna aceitável, num quadro teórico e não apenas impressionista, a ambiguidade das relações entre Literatura Tradicional, Literatura Culta e Literatura Infantil e a própria ambiguidade de cada um destes conceitos.
Humanidades
4,888
A Lenda dos Sete Infantes: arqueologia de um destino épico medieval
Literatura medieval
Como todos os trabalhos, este tem uma história. Como sucede com muitos trabalhos, a história deste não é linear. Um projecto de investigação começa necessariamente pela escolha de um campo e pela definição do objecto a estudar. As minhas anteriores pesquisas, incidindo no cruzamento entre a literatura medieval românica, a cultura da nobreza peninsular dos séculos XII-XIV e a antropologia do imaginário, apontavam o âmbito no qual me deveria fixar. Como tinha já encetado pesquisa sobre as estruturas mítico-simbólicas subjacentes a narrativas historiográficas tratadas pelo conde de Barcelos e focando, numa perspectiva hermenêutica, a questão das alianças férteis entre guerreiros cristãos e donzelas mouras no contexto da divisão da terra de Espanha, a minha proposta de objecto acabou por recair na chamada lenda dos Sete Infantes de Lara, ou de Salas, de que a Crónica de 1344 contém uma das versões consideradas mais emblemáticas.
Humanidades
4,890
Ideias estéticas em Eça de Queirós
Queirós, Eça de, 1845-1900 -- ideias estéticas
A produção literária de Eça de Queirós evidencia uma grande preocupação de perscrutar e de expressar o real. Parte-se, pois, do estudo da germinação do Realismo nos primeiros textos queirosianos, para em seguida se analisar como se processa a sua afirmação nos textos teórico-reflexivos. De acordo com a revisão crítica que novas teorias da ficção imprimem à leitura do Realismo ­ nomeadamente a desenvolvida por Kendall Walton na obra Mimesis as Make-Believe ­ observa-se a intencionalidade do conhecido projecto de traçar uma "galeria" da sociedade portuguesa. Para se avaliar o carácter pioneiro da estética queirosiana são analisados os posicionamentos de escritores e críticos,responsáveis pela introdução da estética positivista e realista em Portugal, na década de 70. Este estudo permite ainda sopesar o dinamismo do pensamento de Eça de Queirós, que, integrando algumas conquistas realistas, parte à descoberta da diversidade criativa, sempre norteado pelo valor da originalidade. Analisa-se também como se plasma o diálogo das ideias estéticas na ficção queirosiana. Evidencia-se o entrosamento das diferentes perspectivas veiculadas por personagens e narradores, prescrevendo um papel activo para o leitor ­ o qual deve estabelecer todo um jogo de relações entre as perspectivas narrativas representadas e o mundo que o rodeia. A especificidade da representação queirosiana advém de uma acentuação do ridículo e do caricatural, postos ao serviço da sátira, a fim de que, rindo, o leitor possa desenvolver uma opinião crítica do mundo representado. Estuda-se, por fim, a crescente complexidade da composição ficcional queirosiana. A persistência da ideia de originalidade vai levar o romancista a procurar incessantemente novos meios de gerar a ficcionalidade, acentuando-se, nas narrativas queirosianas a partir de 1880, o jogo paródico derrogador de convenções da tradição literária. Conclui-se chamando a atenção para o facto de este percurso orientar Eça de Queirós para um posicionamento esteticista muito peculiar, o qual, pelo que remanesce da experiência realista, obriga a pensar em Realismo(s) no plural.
Humanidades
4,894
O ensino da literatura e a problemática dos géneros literários
Géneros literários -- literatura portuguesa
O estudo da problemática dos géneros literários e das suas relações com o ensino da literatura constitui o objecto da dissertação. Uma revisão da questão dos géneros na teoria da literatura contemporânea, na tradição clássica e no Romantismo ocupa a primeira parte do trabalho - Géneros literários e estudos literários -, onde se aborda também a leitura literária em contexto escolar. Na segunda parte - Configuração e recepção dos géneros - procura-se, em primeiro lugar, evidenciar o modo como as obras do corpus literário da dissertação (Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, Os Maias, de Eça de Queirós e Orfeu Rebelde, de Miguel Torga) representam categorias dos géneros literários. Segue-se um estudo de casos baseado na leitura destas obras: São apresentados os resultados de uma análise de testes de avaliação (o corpus didáctico) realizados por um grupo de alunos do Ensino Secundário. Iniciámos a terceira parte - Para uma teoria do ensino da literatura - contextualizando a situação teórica e institucional da didáctica da literatura, seguindo-se uma demonstração dos modos de articulação entre paradigmas literários e didácticos. Tem lugar, ainda, uma análise dos problemas de transferência de saberes teóricos com base na observação de práticas pedagógicas. Recentes subsídios no campo das metodologias de leitura permitem esboçar um quadro conceptual de integração de saberes no ensino da literatura, no intuito de favorecer a sua renovação pedagógica. No último capítulo são apresentadas estratégias para a construção da leitura escolar das obras do corpus, de acordo com o quadro metodológico sustentado. Como se procura demonstrar ao longo da tese, a concretização das propostas didácticas solicita novos modos de trabalho pedagógico, incluindo uma política escolar no que diz respeito à produção de material didáctico.
Humanidades
4,901
Sátira e lirismo : modelos de síntese no teatro de Gil Vicente
Vicente, Gil, 1465?-1537 -- teatro
Considerado na sua variedade estilística e genológica, o teatro vicentino apoia-se basicamente em duas referências modais: a Sátira e o Lirismo. O autor da Dissertação citada em epígrafe pretende evidenciar os modelos que presidem à articulação desses dois modos, procedendo em primeiro lugar à reavaliação do problema da génese da obra de Gil Vicente e concluindo que ela se revela influenciada pela grande tradição do teatro europeu do final da Idade Média (pelo francês, sobretudo), dela recolhendo, desde logo, as grandes linhas satíricas e líricas que enformam géneros como a farsa, a sottie, a moralidade ou o mistério. Na Segunda Parte estuda-se a Sátira, tal como ela aparece configurada nos autos vicentinos, tanto em termos de conteúdo como no que respeita a aspectos técnico-formais. Adoptando uma perspectiva pragmático-semântica, analisam-se nomeadamente algumas ocorrências de diálogo e de monólogo e, numa perspectiva temática e estrutural, pondera-se o aproveitamento de alguns dos géneros que mais contribuiram para a representação satírica: A farsa e a sottie. Esta parte do trabalho termina com uma interpretação da sátira e do cómico vicentino, equacionando a pertinência de conceitos como «carnaval», «grotesco», «burlesco» e «cultura popular» à luz dos quadros europeus da época. Na Terceira Parte, procede-se ao estudo dos principais modelos do lirismo vicentino, considerados numa base textual e macro-textual. Focam-se, concretamente, algumas incidências do lirismo tradicional (conotativo, celebrativo e demonstrativo) e tentam reconstituir-se, num outro plano, os contornos de um modelo de lirismo de natureza virtual e de alcance modelar. Na Quarta Parte, por fim, procede-se a um exame dos principais modelos que subordinam a articulação entre Sátira e Lirismo: Do modelo contrastivo e sequencial, que se oferece ao leitor numa perspectiva paradigmática, ao modelo da síntese, cabalmente ilustrado no género de cúpula que é a moralidade.
Humanidades
4,907
A recepção de Torquato Tasso na épica portuguesa do Barroco e Neoclassicismo
Literatura Comparada,Poesia épica -- Portugal
O volume intitulado A Recepção de Torquato Tasso na Épica Portuguesa do Barroco e Neoclassicismo é o primeiro volume de um projecto mais vasto que trata da recepção global não só da obra tassiana, como também da importância da sua biografia como modelo de "poeta perfeito", na Literatura Portuguesa, do Barroco aos nossos dias. Este tomo aborda a recepção da teoria do poema épico de matriz tassiana durante os dois períodos em causa, o Barroco e o Neoclassicismo. Considerada como o eixo teórico da épica barroca, em Portugal opôs-se a outro modelo representado pel’ Os Lusíadas, de Camões, dando origem a uma polémica travada entre os defensores de ambos os poemas. Contudo, na segunda metade do século XVII, ambas as tendências começam a amalgamar os respectivos códigos e a recepção da teoria tassiana do poema épico não se pode separar do contínuo processo de repensar a epopeia de acordo com os novos interesses e o novo gosto introduzidos pelas correntes e períodos literários mais recentes. Em simultâneo com a afirmação do Neoclassicismo, surgem também os primeiros indicadores da crise do género, que se tenta combater com a revalorização explícita da teoria tassiana do poema heróico, muito embora também esta já tivesse deixado de ser a resposta adequada a fim de revitalizar um tipo de poema, que outrora tinha sido tão popular, se bem que fosse considerada a forma literária mais aristocrática, quer entre autores, quer entre leitores. Torna-se, assim, demasiado perscritiva e, naturalmente, contrária ao gosto romântico, que, na altura, se difundia por toda a Europa. Fundada numa pesquisa atenta e exaustiva de obras de poética explícita, paratextos, dissertações poéticas e intervenções polémicas, bem como num amplo e variados corpus de poema épicos, que tratam de temas profanos e religiosos, ou de matérias celebrativas de carácter científico, de acordo com os interesses de novas correntes e tendências do Iluminismo, o principal objectivo deste trabalho visa a recolha, análise e interpretação de dados que melhor podem transmitir uma ideia tão completa, quanto possível do impacto da poética tassiana na génese dos poemas épicos portugueses destes períodos. As conclusões alcançadas facilitam, pois, a interpretação da produção literária referente a um género, que, na senda da obra de Camões, deu corpo a um largo número de peomas. Deste modo, a investigação desenvolvida fornece a possibilidade de apreciar, não só a importância da teoria poética tassiana, como também, e a par, a imitação de Camões, na produção épica e, consequentemente, na literatura e na cultura portuguesas dos séculos XVII e XVIII.
Humanidades
4,913
A negritude africana de língua portuguesa
Indigenismo haitiano
Na dissertação, historia-se a formação da Negritude de língua francesa (e a formação do seu conceito), para explicar o eclodir da corrente negritudinista africana de língua portuguesa. Estabelece-se a década de 50 como a da vigência da Negritude de língua portuguesa e determina-se um corpus alargado de cerca de 250 textos, contrariando a opinião generalizada de ser uma corrente com reduzidíssima expressão. Mostra-se como foi decisiva, nessa década, a instauração do discurso do negro para a africanização e autonomização das cinco novas literaturas de língua portuguesa.
Humanidades
4,915
Texto proverbial português : elementos para uma análise semântica e pragmática
Provérbio português -- análise semântica,Provérbio português -- pragmática
Esta dissertação comporta três partes: na Parte I, traça-se uma síntese crítica das principais propostas de definição e análise do texto proverbial até hoje desenvolvidas, quer no campo dos estudos paremiológicos, quer no campo da linguística e da semiótica. Passam-se em revista as definições empíricas tradicionais, a caracterização do provérbio como unidade fraseológica no âmbito do estruturalismo europeu, as propostas paremiológicas mais recentes - centradas no provérbio enquanto texto e desenvolvidas por Milner (1969), Dundes (1975) e Norrick (1985) -, a perspectivação semiótica do provérbio como signo de um sistema modelizante secundário, essencialmente teorizada por Permjakov e Zolkovskji (1978), e a definição semântica do provérbio em termos de signo-frase, construída por Kleiber (1989). Seguidamente, ainda na Parte I, delineam-se as matrizes teórico-metodológicas que enformam o trabalho. A análise desenvolvida é basicamente tributária dos quadros teóricos da semântica formal, da semântica lexical dos protótipos e da pragmática. A Parte II da dissertação é consagrada à análise semântica do provérbio enquanto texto mínimo autónomo. Comporta cinco capítulos, nos quais se abordam as seguintes questões: referência nominal, valores temporo-aspectuais, modalidades típicas do texto proverbial, conexões interproposicionais e mecanismos activados no processo de construção das interpretações-padrão dos provérbios figurados. A Parte III da dissertação consiste numa análise pragmática do provérbio contextualizado. Procurou-se construir uma tipologia das principais funções discursivas do provérbio inserido em sequências textuais mais vastas. Nesta perspectiva, impõs-se como dominante a questão da relevância cotextual e situacional dos provérbios, que comporta duas vertentes principais: o estudo das funções que os provérbios desempenham enquanto actos de linguagem, nomeadamente quando ocorrem em sequências argumentativas ou aparecem sob a forma de réplica autónoma em estruturas dialogais, e ainda o estudo das suas funções de organização da informação textual.
Humanidades
4,916
O sócio-código post-modernista no romance português contemporâneo : fios de Ariadne-Máscaras de Proteu
Carvalho, Mário de, 1944-,Saramago, José, 1922-,Pires, José Cardoso, 1925-1998,Cláudio, Mário, pseud.
Tendo como suporte O Delfim e Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires, Manual de Pintura e Caligrafia e História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, Amadeo e As Batalhas do Caia, de Mário Cláudio, Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto e A Paixão do Conde de Fróis, de Mário de Carvalho, o desenvolvimento do tema desta dissertação pretende, por um lado, equacionar as relações evidenciadas entre a literatura portuguesa post-modernista e anteriores coordenadas estéticas e ideológicas. Por outro lado, a exposição visa demonstrar que, apesar dessa articulação possível, a ficção portuguesa mais recente apresenta outras características que, seja pela peculiar conjugação a que são submetidas, seja pela sua peculiar utilização, parecem revestir-se de capacidades para instaurar um novo período literário. Os romances analisados permitem verificar, pois, a presença e o exercício (embrionários, ainda, em O Delfim) das principais linguagens estéticas que, na esteira do Post-Modernismo norte-americano, irão nortear o futuro do Post-Modernismo nacional. Não se apresentando, em termos latos, propriamente como uma novidade literária, a mistura de géneros e a decorrente fluidez genológica, a polifonia e a fragmentação narrativas, a metaficção (ou a modelização paródica da História em alguns romances), serão, todavia, sujeitas a nuances simbólicas e, em alguns casos, ostensivamente subversivas que, claramente, afastam os romances post-modernistas dos de uma linha romanesca tradicional.
Humanidades
4,918
Da Natureza da Exclamação Enquanto Conceito Teórico: Abrangências e Convívios Nocionais
Linguística
Iniciámos o nosso trabalho com um objectivo claramente delineado: pretendíamos descobrir onde é que a "exclamação", enquanto conceito linguístico, tem o seu início e onde tem o seu fim. O mesmo será dizer que a nossa tarefa correspondia a descobrir quais e quantos são os conceitos linguísticos que rodeiam o nosso objecto de estudo, conformando-lhe dessa forma fronteiras nocionais. Percorrendo diferentes áreas que recorrem ao termo "exclamação" como instrumento de análise, experimentámos a dificuldade daquilo a que nos tínhamos proposto. Os capítulos de conhecimento linguístico que examinámos – que foram correspondendo a etapas do nosso trabalho, capítulos do nosso discurso – não revelaram as coordenadas que procurávamos. Nem a sintaxe, nem a pragmática, nem o código escrito ou a prosódia mostraram ser endereços teóricos onde a "exclamação" seguramente fosse encontrada, com uma natureza conceptiva de objecto linguístico cabalmente formado ou formalizável. "Frase", "acto ilocutório", "sinal de pontuação", "prosódia", "interjeição", foram noções escrutinados como possíveis vizinhos nocionais da "exclamação", que lhe fornecessem a ambiência teorética em que se individuasse. Porém, o que verificámos, nestes movimentos de distanciamento ou aproximação, é haver distâncias indetermináveis. Afinal, a "exclamação" pode não ser um objecto que se submeta a este tipo de abordagem: parece não existir um ponto inicial ou um ponto final, no que concerne a "exclamação"; nunca é absolutamente obrigatória ou absolutamente inviável; de forma volúvel, ora comparece ora se subtrai ao convívio com os outros fenómenos linguísticos; não é fixável. Concluímos que a "exclamação" subsiste numa zona periférica do sistema linguístico, ou talvez de forma mais significativa, concluímos que pode muito bem ser que a "exclamação" não atinja frequentemente a dignidade de um conceito estritamente linguístico.
Humanidades
4,920
Estruturas com se Anafórico, Impessoal e Decausativo em Português
Linguística,Língua portuguesa,Linguística portuguesa,Língua portuguesa -- sintaxe
O presente estudo analisa diferentes tipos de estruturas do Português Europeu (PE) actual que incluem o clítico SE. Tendo por base uma abordagem de índole sintáctico-semântica, ancorada, particularmente, em aspectos como a argumentalidade e referencialidade deste clítico, as operações de reorganização temático-argumental a que está associado ou os matizes de interpretação a que se presta, propõe-se a seguinte organização das estruturas de SE: i) estruturas de SE anafórico, reflexas (A Maria inscreveu-se no curso de Verão) e recíprocas (Os candidatos criticaram-se mutuamente durante todo o debate); ii) estruturas de SE impessoal, de sujeito indeterminado (Procedeu-se à revisão das provas) e passivas de SE (Estes livros compraram-se em saldo); iii) estruturas de SE decausativo (Os vidros partiram-se com a ventania). As estruturas de SE inerente (Ela queixou-se da situação) não são estudadas em profundidade neste trabalho, em virtude de a sua análise requerer um rigoroso estudo diacrónico, não comportável no âmbito desta dissertação. Na Parte I deste estudo abordam-se as dimensões teóricas em que este se espalda. Nela se reflecte sobre o estatuto e comportamento do clítico SE (§ 1.2.) e sobre o modo como se correlaciona com outros elementos frásicos que com ele co-ocorrem, sobretudo com os predicadores verbais (§ 1.3.) a que se associa. De seguida, explora-se a relação entre a presença do clítico SE e a activação de operações de reorganização argumental ou diatésica (§ 2.), analisando-se, ainda, a importância destas últimas para a definição de vários patamares de (in)transitividade (§ 3.). A Parte II deste estudo é consagrada à análise dos padrões de uso de SE em PE actual. Para tal, organizam-se as estruturas sob escopo em função dos cinco tipos acima referidos (reflexas, recíprocas, de sujeito indeterminado, passivas e decausativas), analisando-as no que respeita às operações argumentais a que estão associadas e às propriedades sintáctico-semânticas exibidas pelo respectivo SN sujeito e pelos predicadores nelas incluídos. Em função desta análise, apuram-se as características do clítico SE que nelas actua, nomeadamente quanto ao seu estatuto argumental, à sua capacidade referencial e à influência que tem na determinação da organização sintáctico-semântica das estruturas em que opera. A investigação realizada permitiu verificar que o clítico que ocorre nas várias estruturas em análise exibe propriedades e comportamentos bastante diferentes. Na realidade, trata-se de um operador muito versátil que, em função das propriedades dos elementos frásicos com que co-ocorre, revela características distintas, nelas assentando a proposta de definição dos vários usos de SE acima elencados. Os diferentes usos de SE que identificámos distinguem-se, sobretudo, em função do estatuto [+/- argumental] do clítico, do argumento que materializa (quando dotado de estatuto argumental), do seu carácter referencialmente (não)autónomo e da influência que tem na organização e materialização da estrutura temático-argumental dos predicadores a que se associa, bem como na definição das leituras associadas às construções em que se integra. Assim, distinguem-se: i) usos argumentais de SE (nas estruturas reflexas, recíprocas, de sujeito indeterminado e passivas); ii) usos não argumentais (estruturas decausativas e de SE inerente); iii) usos de SE com capacidade referencial autónoma (SE indeterminador e SE apassivador); iv) usos em que o clítico se afigura como referencialmente dependente (SE reflexo e SE recíproco). Se há contextos em que SE está associado a importantes alterações na organização e materialização da estrutura temático-argumental dos predicadores (SE decausativo e SE apassivador) outros há em que tal não se verifica (SE reflexo, SE recíproco e SE indeterminador). Na realidade, independentemente destas diferenças, a presença do clítico SE está sempre associada à atenuação da manifestação sintáctico-lexical de um dos argumentos seleccionados pelos predicadores em uso: no caso das estruturas decausativas, a presença de SE sinaliza a total perda do argumento externo; nas restantes estruturas, SE ocorre como realização signicamente reduzida – porque cliticizada – de um dos argumentos verbais. Esta codificação compactada de um dos argumentos (ou a sua total anulação, no caso das estruturas decausativas) está associada à atenuação – em diferentes níveis e em diversos graus – da transitividade das estruturas em uso, podendo esta resultar de motivações de ordem semântico-ontológica (estruturas de SE anafórico) ou pragmático-discursiva (estruturas de SE impessoal e de SE decausativo).
Humanidades
4,921
Prefixação de Origem Proposicional na Língua Portuguesa
Prefixação -- Língua portuguesa,Prefixo -- língua portuguesa
O presente estudo visa descrever e explicar a formação de palavras por prefixação, mais especificamente a que envolve os elementos prefixais co-, contra-, entre-, inter-, so(b)-/sub-, sobre- e sem- da língua portuguesa, que procedem de preposições latinas, analisando as suas propriedades combinatórias e semânticas, assim como o modo como estas se repercutem no produto derivacional. Este trabalho ancora-se (i) no modelo associativo de formação de palavras, que defende a articulação estreita entre a estrutura formal e o significado do produto e concebe o constituinte morfológico como um domínio estruturado de construções, assente na interatividade entre a morfologia e os demais componentes da gramática, e (ii) na concepção da linguagem desenvolvida por Jackendoff (2002) que, no programa „arquitetura paralela‟, equaciona uma visão dinâmica de genolexia, partindo do pressuposto de que os operadores afixais transportam especificidades semânticas próprias que se correlacionam com os traços inscritos lexicalmente nas bases, sendo esta operação responsável pela formatação semântica final do produto. Procede-se, no capítulo I, (1) à explanação do modelo teórico-metodológico adotado e (2) à apresentação do status quaestionis sobre prefixação, designadamente no que concerne à relação estabelecida entre elementos preposicionais e elementos prefixais e às distintas propostas de classificação (semânticas, categoriais e não categoriais), aplicadas aos elementos prefixais do português. Segue-se, ainda neste capítulo, (3) a análise da prefixação enquanto processo de formação de palavras, problematizando-se algumas das propriedades comummente atribuídas aos operadores prefixais, nomeadamente (i) o seu caráter homo ou heterocategorial, (ii) o seu poder categorial, (iii) a sua capacidade de alteração da estrutura semântico-conceptual e da estrutura argumental da base a que se acopla e (iv) a informação semântica veiculada pelos elementos prefixais interagentes nos processos de formação de palavras em português. Defende-se, também, a adoção de critérios morfo-sintático-semânticos para a consideração dos elementos prefixais em três grupos distintos: (i) prefixos modificadores (elementos intransitivos que fazem uma predicação sobre as propriedades semânticas da base a que se acoplam, matizando, sobretudo pela introdução de informação de teor avaliativo, o seu significado), (ii) prefixos preposicionais (elementos transitivos que herdam o valor semântico - geralmente locativo - da preposição que lhe está na origem, e que aportam alteração da Estrutura Argumental – EA - da base) e (iii) prefixos argumentais (elementos que introduzem noções como a cooperatividade ou a reciprocidade e que apresentam a capacidade de realizar a alteração do preenchimento de um dos argumentos da base, nomeadamente ao nível dos actantes), podendo, em alternativa, desencadear alteração da EA da mesma. Seguidamente, procede-se, no capítulo II, à análise da prefixação instanciada pelos prefixos que, na fase atual da língua, coincidem com preposições configuracionalmente homólogas (co-, contra-, entre-, inter-, so(b)-/sub-, sobre- e sem-). Estes prefixos, não obstante procederem etimologicamente de preposições, são detentores de características diversas das evidenciadas pelos elementos preposicionais que estão na sua origem, o que se repercute no seu funcionamento enquanto prefixos modificadores, preposicionais ou argumentais. A análise do corpus, maioritariamente extraído de fontes lexicográficas, evidencia a existência de classes prefixais diferenciadas, que fazem da prefixação um domínio heterogéneo. A análise realizada permite-nos explicar, no capítulo III, a existência de diferentes graus de prefixização, desencadeados através de um processo de (des)gramaticalização (Castilho 1997, 2004; Hopper e Traugott 2003; Van Goethem 2009), que dá conta da passagem de uma preposição a um elemento prefixal, tendo por base, segundo Amiot e De Mulder (2002), critérios como (i) o caráter endo- ou exocêntrico do produto compósito, (ii) a homo- ou heterocategorialidade do elemento prefixal em causa, (iii) a manutenção/alteração, no produto, do género e do número da base e (iv) a (in)ativação, no elemento prefixal, de sentidos distintos do do elemento preposicional homólogo. Deste modo, defendemos, com base na análise dos produtos derivacionais prefixados com co-, contra-, entre-, inter-, so(b)-/sub-,sobre- e sem- que os elementos prefixais que coincidem formalmente com preposições devem ser posicionados numa escala, em função do seu grau de prefixização, a qual depende de um processo contínuo de (des)gramaticalização e lexicalização (in)acabadas, o que se repercute na classificação da prefixação como processo de formação de palavras de índole mais derivacional ou mais composicional.
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4,924
Metáforas psicanalíticas na obra de Mário de Sá-Carneiro. Uma hermenêutica da morte em vida
Carneiro, Mário de Sá, 1890-1916 -- obra
Com respeito pela autonomia dos valores estéticos e pela autonomia semântica de cada criação artística, mas procurando contribuir, numa perspectiva peculiar, para uma visão poliédrica da indeterminada plurissignificação das obras literárias, esta tese apresenta um olhar sobre as metáforas psicanalíticas na obra de Mário de Sá-Carneiro, sobretudo focando a histeria masculina (à luz de Freud e Lacan) diagnosticada em personagens da sua ficção narrativa, mas também no sujeito poético da sua obra lírica. A escrita de Sá-Carneiro parte de laivos decadentistas e simbolistas que, de forma genial, faz ultrapassar as conturbadas configurações finisseculares, para se integrarem inovadoramente no projeto do Primeiro Modernismo português, emergente em Orpheu. Vocação modernista, pois, Sá-Carneiro iniciou seu trajeto no teatro e fez de sua breve vida uma grande peça dramática e lírica, visível nos seus protagonistas e no seu ‗eu lírico‘. Uma obra reveladora de um grande exercício da escrita e da criação num curto espaço de tempo. Um (des)encontro entre um Eu perdido e ―Aquele Outro‖, aprisionado no intermédio, o poeta pairou sempre entre o princípio e o fim, encenando continuamente uma hermenêutica da morte em vida, insistente, histérica… Assim, teatralizou o próprio suicídio e, por um erro de cálculo, pousou definitivamente no infinito.
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4,930
Os Abolicionismos na Prosa Brasileira: de Maria Firmina dos Reis a Machado de Assis
Escravidão,Abolicionismo
No século da independência, do Império e da República, a existência do sistema esclavagista marcou decisivamente a história do Brasil, condicionando as mentalidades e o futuro da nação. Como tal, perante uma realidade insofismável, este trabalho procura demonstrar como no «século negro» a escravidão, a abolição, as relações entre senhores e escravos se estabeleceram, trazendo para a cena literária textos dramáticos e também narrativas (romances, novelas, contos, crónicas) de referências da literatura do Brasil, quase todas de autores bem conhecidos: Maria Firmina dos Reis, Joaquim Manuel de Macedo; Bernardo Guimarães, Aluísio Azevedo; e the last, but not the least, Machado de Assis. Ocupando um lapso de tempo considerável, da década de 50 do século XIX à primeira do século seguinte, e um número extenso de textos, a análise de Úrsula (1859) de Maria Firmina dos Reis, texto recentemente descoberto, As Vítimas Algozes (1869), A Escrava Isaura (1875), O Mulato (1881), O Cortiço (1890), “Virginius” (1864), “O Espelho” (1882), “Mariana” (1871), “O Caso da Vara” (1899), “Pai Contra Mãe” (1906), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Memorial de Aires (1908) e algumas crónicas machadianas, evidencia as formas diversas como os escritores brasileiros olharam para o problema da escravatura e defenderam, embora uns de forma mais explícita e flagrante que outros, a sua abolição. Quase todos os escritores mencionados se movimentaram em terrenos marcados pela dissimulação. Não se alheando do seu tempo e cônscios de que seriam agentes modeladores da sociedade, algumas dessas figuras, traduzem nos seus textos, sob a capa de um apelo abolicionista, ora uma mentalidade paternalista e racista, ora o desejo de manutenção de uma organização social assente no poder senhorial. Não se estranha por isso que, ao contrário dos senhores generosos, o desenho simbólico traçado do escravo e do homem de cor fosse caracterizado pela inferioridade, pela indigência, pela animalidade e por uma mente diabólica. Outros autores, por seu turno, não insistindo nesse esboço negativo, e até relevando alguns aspetos positivos, apresentam o negro, igualmente padronizado, ora simplesmente como a imagem projetada do branco – seja nos aspetos físicos, seja na forma de atuar –, ora como aquele que se compraz com a felicidade dos amos, omitindo os seus desejos mais intrínsecos. Todos, contudo, à exceção da fraturante Úrsula, que evidencia a assunção da africanidade do negro, mostram o homem de cor, seja escravo ou liberto, quase sempre como submisso e sem uma individualidade própria capaz de reivindicar uma outra realidade e assumir na plenitude a sua condição humana. Na verdade, não obstante todos os escritores analisados abordarem a questão da abolição, os motivos por que o fazem e a visão tida do problema não é uniforme. Daí que se fale em abolicionismos e não apenas em abolicionismo. Ainda assim, mesmo que sob o manto da segurança do fazendeiro, do preconceito da cor, da sentimentalidade, da crítica ao desejo de notoriedade burguesa, estes escritores, uns de forma mais consciente e crítica do que outros, evidenciando uma leitura histórica, social e política que problematiza as estruturas de domínio da sociedade brasileira e a forma como exercem a sua autoridade, escreveram e conceberam, indubitavelmente, a história brasileira de oitocentos.
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4,931
A poesia da mensagem angolana e a mensagem da poesia afro-brasileira
Poesia angolana
Este estudo de doutoramento representa uma reflexão sobre as obras de Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz, poetas fundadores da nova poesia angolana, representantes da revista Mensagem e do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, que tinham como palavra de ordem “Vamos descobrir Angola!”. Estudaremos também a poesia afro-brasileira de Solano Trindade, considerado o primeiro poeta da negritude brasileira, e a de Fred Souza Castro, que, embora não seja negro em sua epiderme, escreveu, nos anos 1950, um livro chamado Samba de roda, que trata da exploração da gente do massapê do Recôncavo Baiano, predominantemente negra, explorada nas plantações de cana de açúcar e dada à preservação da cultura afro-brasileira, muito forte na região. O objetivo maior deste estudo é analisar a poesia de Agostinho Neto como voz de um povo em busca de sua independência e como fonte de denúncia da exploração e alienação desse povo. Num outro momento, analisamos os outros quatro poetas, nessa mesma vertente, buscando estabelecer uma analogia com a poética de Neto, para saber até onde essas concepções se convergem e onde se distanciam, tendo sempre o “Poeta Presidente” como espelho, como ponto central das discussões, tendo em conta tratar-se de cinco poetas de tez socialista, todos vinculados às ideias de Marx e Engels.
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4,932
"Verba significant, res significantur": a receção dos Emblemata de Alciato na produção literária do Barroco em Portugal
Emblemática,Emblematics
Na senda do sucesso editorial do Emblematum liber (1531), composto pelo jurista milanês Andrea Alciato (1492-1550), a emblemática afirmou-se como tipologia literária, como forma de pensamento e como expressão artística, uma vez que a obra conheceu centenas de edições em diversos países europeus e originou um impressionante fenómeno de receção dinâmica por toda a Europa Moderna. Pretende-se, pois, com este estudo, avaliar os contornos da receção desse autor na literatura portuguesa do Barroco, aplicando os pressupostos metodológicos definidos pelos estudos comparatistas, de modo a enquadrar esse fenómeno na moldura mais abrangente do diálogo intertextual com modelos estrangeiros, sobretudo italianos. Num primeiro nível de abordagem, realiza-se um levantamento de dados relativos à circulação da obra de Alciato em território lusitano, salientando a existência de traduções manuscritas datadas dos séculos XVI e XVII, bem como a publicação parcelar dos emblemas alciatenses na Silva poetica de 1660. Destaca-se ainda o berço conimbricense dos primeiros comentários latinos à antologia de 1531, pois constituem prova do seu conhecimento no meio académico da Lusa Atenas. Procura-se, depois, demonstrar a receção dos Emblemata do jurista milanês em diferentes áreas da produção literária portuguesa, considerando o seu impacto no discurso teorético das artes poéticas e respigando o aproveitamento de formas e motivos alciatenses na inventio dos escritores nacionais. Promove-se, então, uma incursão comparatista nas diversas áreas da produção emblemática lusitana, de modo a salientar ecos de Alciato em cada uma dessas vertentes. Nos livros de emblemas morais e políticos, sugere-se, sobretudo, pontos de encontro e desencontro na representação simbólica e na funcionalidade estrutural dos compostos logo-icónicos. No âmbito das relações descritivas das festividades religiosas e políticas, enfatiza-se a utilização da emblemática ao serviço da legitimação simbólica e da propaganda ideológica dos poderes instituídos. Relativamente à utilização dos emblemas no contexto da pedagogia jesuíta, aponta-se alguns exemplos práticos de livros impressos e traduzidos em Portugal, a par de testemunhos manuscritos provenientes dos colégios. Revela-se, assim, diferentes facetas da receção de uma obra que se mostra fundamental para guiar os hermeneutas de hoje nos labirintos do imaginário poético da literatura portuguesa do Barroco.
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4,936
A Literatura Guineense: Contribuição para a Identidade da Nação
Identidade,Nação,Nacionalismo,Guiné-Bissau,Estado-nação,Literatura,Pós-colonialismo,Memória
Neste trabalho sobre Literatura Guineense em língua portuguesa, temos como objetivo descrever, analisar e discutir a construção da identidade nacional de um jovem país, fragilizado por sucessivos golpes de Estado. A viagem pelas obras dos autores que constituem o nosso corpus permitiu apreender os temas e as estratégias discursivas que cada escritor, cada poeta, foi produzindo, em prol de um objetivo comum: a construção de uma identidade nacional no meio de uma pluralidade étnica. Procuramos perceber pela voz dos seus poetas, a convivência entre a História e a poesia guineense em língua portuguesa, desde 1951, ano do primeiro poema datado de Vasco Cabral, até à atualidade. Há muito que o espaço literário guineense deixou de ser um vazio. Esta Literatura possui, desde o seu começo, uma função didática, informativa e formativa que procurou, através das tradições e culturas, resgatar a identidade nacional. A Literatura Guineense está muito enraizada em referências históricas e na expressão das vozes plurais das várias etnias, que povoam este pequeno território. Procuramos compreender, por um lado, de que modo os autores guineenses, através das suas estórias ficcionadas, se têm antecipado à História. Por outro lado, encontrar, pela mão destes mesmos autores, os motivos que os desanimam e os principais interessados na criação de um Estado-Nação “falhado”. Refletimos o lugar da língua portuguesa, enquanto herança do invasor e espaço de interferências criadoras. Na terceira e última parte, procuramos destacar, das obras que constituem o nosso corpus, as marcas da identidade nacional, o seja, o que distingue os guineenses, no geral: os seus modelos educacionais, os símbolos e rituais, os heróis e os sabores da Guiné-Bissau.
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4,937
Leitura e tratamento do texto literário na aula de Português. Espaço(s) e modo(s) de intervenção
Didática da Literatura,Leitura em voz alta,Performance,Voz humana,Formação de professores,Ensino do Português
A presente dissertação constitui um estudo sobre a leitura e o tratamento do texto literário na aula de português. Dada a amplitude do tema, o foco desse estudo é analisar modos de intervenção que, se bem que consignados em dispositivos oficiais reguladores do ensino do Português (língua, cultura e literatura), têm uma escassa presença na escola, nomeadamente no que se refere às intervenções no âmbito da leitura em voz alta em sala de aula. Assim, o objeto de estudo principal é a leitura em voz alta do texto literário, prática que, pelas suas características específicas, permite desenvolver competências básicas dos alunos na disciplina de Português. O trabalho apresenta uma dupla vertente. Procedemos, primeiramente, a uma análise teórica, a fim de explanar os domínios atinentes à leitura oralizada e às dimensões neles atuantes, para, de seguida, descrever e analisar modos de intervenção que tiveram lugar no terreno, ao longo de três anos. Estas duas linhas do nosso estudo complementam-se e concorrem para o estabelecimento de conclusões pertinentes no âmbito do ensino da Literatura e das questões relacionadas com a leitura em Portugal. Na Parte 1, seguindo uma perspetiva essencialmente diacrónica, procuramos compreender as perceções que se foram construindo em relação à leitura em voz alta ao longo dos tempos e em espaços geográficos afastados. Esta visão permite-nos enquadrar, de forma lúcida e coerente, as conceções atuais que se fazem desta prática de leitura e sublinhar a necessidade de revalorizá-la. Na Parte 2, seguindo uma perspetiva pedagógica e didática, explicitamos as caraterísticas específicas da leitura oralizada que permitem percecionar a sua relevância no âmbito escolar e social e no desenvolvimento de competências essenciais ao próprio indivíduo e cidadão. Registamos as diferenças e as semelhanças entre atividades de leitura diversas, como sejam a silenciosa e a oralizada, que se complementam e concorrem para finalidades comuns. Descrevemos e analisamos utilizações que se fazem da leitura oralizada, seja num contexto eminentemente social, seja no domínio educativo, relevando procedimentos específicos aquando da leitura oralizada de textos de tipologias diversas. Considerando a voz e o corpo como elementos fundamentais na prática de leitura em voz alta e na gestualidade que amplia e enriquece os atos comunicativos que qualquer leitura oralizada pretende estabelecer, analisamos dimensões ligadas à performance leitora que, em contexto educativo, permitem diversificar e enriquecer a leitura e, por conseguinte, potenciar o sucesso escolar na disciplina de Português, mas não só. Analisamos aspetos dos Programas de Português do Ensino Básico e das Metas Curriculares de Português do Ensino Básico, assim como do Programa e Metas Curriculares de Português do Ensino Secundário, que reforçam a necessidade de intensificar a prática da leitura em voz alta e sublinham a importância desta área para cimentar saberes e competências, sem esquecer a componente de avaliação da leitura. Na Parte 3, apresentamos um estudo de caso sobre a leitura em voz alta que desenvolvemos com professores e alunos e que incidiu na aplicação de inquéritos de opinião e na observação e participação em sessões de leitura. Dos dados obtidos, extraímos conclusões acerca das perspetivas que se vão criando em relação à leitura em voz alta e sugerimos abordagens inovadoras do texto literário, conducentes à melhoria das capacidades de compreensão e interpretação dos alunos. O projeto no âmbito da formação de professores que foi desenvolvido, no Funchal, em conjugação com a nossa investigação, tornou-se uma espécie de laboratório do estudo. Assim, os resultados atingidos com os Encontros de Leitura em Voz Alta “Ler com Amor” vão ao encontro dos estudos teóricos sobre a importância desta prática em contexto pedagógico. A promoção de atividades diversificadas de natureza académica e cultural, assim como o apoio de especialistas e de professores universitários e do ensino básico e secundário, de escritores, de atores e de contadores de histórias, constituíram, globalmente, um subsídio para a conceptualização do nosso objeto de estudo. O quadro conceptual apresentado, a observação e a análise de práticas de leitura oralizada em sala de aula, o percurso delineado e cumprido, as hipóteses que fomos seguindo e as conclusões que propomos não esgotam o tema, nem transformam, no imediato, o quadro da leitura e do ensino da Literatura em Portugal, mas são, quiçá, um horizonte para outros modos de ação. Pretendemos esboçar, com base na teoria e na prática, alternativas que podem contribuir para uma reconfiguração de objetivos e do próprio objeto da aula de Português, no que à leitura literária diz respeito. Na conclusão, a par dos limites do trabalho, sublinhamos as virtualidades da leitura em voz alta e o lugar que deve ocupar para uma reconfiguração, que consideramos necessária, do tratamento do texto literário na aula de Português.
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4,938
Contributos para o estudo da refutação em Português Europeu Contemporâneo
refutação,retificação,relações discursivas,negação metalinguística
O presente trabalho tem como objeto de análise a relação discursiva refutação e as construções em que esta é materializada em Português Europeu Contemporâneo. Operando ao nível pragmático-funcional, a refutação pode ser definida como a relação que se estabelece entre um enunciado, da responsabilidade de um locutor B, cuja função é rejeitar um outro e o enunciado, da responsabilidade de um locutor A, que é alvo de refutação. Prototipicamente, esta relação ocorre em textos dialogais e constitui-se como um ato reativo negativo, ameaçador da face de ambos os interlocutores. O segmento discursivo que desempenha esta função é tipicamente seguido de uma continuação discursiva que estabelece com este e com o enunciado alvo de refutação uma relação de retificação. Neste segmento, é apresentado, pelo locutor B, o elemento considerado mais adequado para substituir aquele que é alvo de refutação. Este segmento constitui-se igualmente como uma justificação da refutação levada a cabo. Na base de uma refutação poderá estar um vasto conjunto de aspetos relacionados, em sentido lato, com as condições de aceitabilidade do enunciado alvo. Nas suas ocorrências mais prototípicas, a refutação terá por base o que é dito ou implicitado no referido enunciado. Nas suas ocorrências mais periféricas, esta pode ter igualmente por base aspetos de ordem formal, relacionados com a sua "correção" linguística. Em ambos os casos, no escopo de um enunciado refutativo não se encontra tipicamente a totalidade do enunciado alvo, mas determinados constituintes que conduzem à sua inaceitabilidade do ponto de vista do locutor que o refuta. Tais constituintes são tipicamente focalizados por processos de vária ordem, onde se destacam a negação de constituinte, as construções de clivagem e a entoação contrastiva. A compreensão destes processos de ordem sintático-prosódica só é possível à luz da função discursiva das sequências em que ocorrem. Em Português Europeu, as sequências refutativo-retificativas podem moldar-se em dois tipos de construções paratáticas: construções de coordenação e construções de justaposição. Em construções de coordenação, os segmentos refutativo e retificativo podem assumir a forma não p, mas q ou ainda as formas não p, mas sim/mas antes/e sim q, em que as conjunções mas e e, coocorrendo sistematicamente com os advérbios sim e antes, parecem ter-se especializado na marcação de um valor refutativo-retificativo. Estas construções são aceitáveis quer com refutações baseadas no que é dito ou implicitado no enunciado alvo, quer com refutações baseadas em aspetos formais. Em construções de coordenação, os segmentos refutativo e retificativo podem ainda assumir formas especializadas na refutação de determinados aspetos do enunciado alvo, tais como a estrutura não só p, mas também q, especializada na refutação de aspetos atinentes ao conteúdo proposicional ou a Q-implicaturas associadas ao enunciado alvo, ou ainda as formas não é p, mas/mas sim/mas antes/e sim q e outras semelhantes, tais como não se diz p, mas/mas sim/mas antes/e sim q, especializadas na refutação de aspetos formais do referido enunciado. Em construções de justaposição do tipo não p || q, a conexão entre os segmentos refutativo e retificativo não é realizada por nenhuma conjunção, não havendo também qualquer restrição relativamente ao tipo de elementos que podem estar na base da refutação levada a cabo. Estas construções podem igualmente assumir formas especializadas na refutação de aspetos formais do enunciado alvo, como é o caso de não é p || é q ou outras de valor semelhante como não se diz p || diz-se q, ou ainda a forma p, não || q, que permite a refutação de enunciados negativos ou de enunciados não compatíveis com uma refutação do tipo não p || q. Em construções de justaposição, o segmento refutativo não é necessariamente realizado através de um enunciado negativo de caráter metalinguístico, tal como se verifica na generalidade construções refutativo-retificativas. Em construções de justaposição, podem ainda ocorrer as expressões sim, antes ou pelo contrário, em estruturas do tipo não p || sim/antes/pelo contrário q. Neste contexto, estas unidades comportam-se como conectores ou marcadores discursivos que, não contribuindo para as condições de verdade das sequências em que ocorrem, fornecem instruções sobre o modo como a relação entre estas deve ser computada. As construções não p || sim, antes q, onde as unidades sim e antes permitem realçar, respetivamente, o contraste de polaridade e o valor preferencial do segmento que prefaciam, apenas são aceitáveis quando na base da refutação se encontra o que é dito ou implicitado no enunciado alvo. A construção não p || pelo contrário q, dado o valor antitético da expressão conectiva nela presente, apenas é aceitável quando na base da refutação se encontra o conteúdo proposicional do enunciado alvo e, mais especificamente, quando entre este e o enunciado prefaciado por pelo contrário existem dois predicadores distintos que estabelecem entre si uma relação de antonímia. Em Português Europeu, estão ainda disponíveis outro tipo de expressões de natureza não conectiva que parecem igualmente ter-se especializado na marcação das relações de refutação e retificação, como é o caso das unidades lá, cá e agora (Martins, 2010) e da unidade nada, em construções do tipo [V_nada] (Pinto, 2011) que, em determinados contextos, parecem ter um valor inequivocamente refutativo, ou ainda da expressão mas é que parece constituir-se como um marcador de retificação. Estas unidades ocorrem predominantemente na oralidade, particularmente em registos informais, e o seu uso parece restringir-se aos casos em que, na base da refutação, se encontra o que é dito ou implicitado no enunciado alvo.
Humanidades
4,941
A Escrita Criativa para Literatura Infantil: Uma Abordagem Comparada
Literatura Comparada,Estudos Interartes,Escrita Criativa,Literatura Infantil contemporânea
Atualmente, a Literatura Infantil portuguesa percorre caminhos de grande inovação, experimentalismo e qualidade, encontrando-se ao nível da de outros países. Assim, tem sabido resistir a um contexto de crise económica e de desinvestimento cultural, em que se acentua o risco de desequilíbrio entre as dimensões ética, estética e pedagógica das narrativas para os mais novos, por um lado, e a vertente comercial, por outro. Isto deve-se a três gerações de escritores e a ilustradores de reconhecido mérito, que, em conjunto, dignificam a recente edição literária para crianças. Exploram-se temas novos, mas também se atualizam temáticas antigas e recuperam heróis de outros tempos. A par do investimento no conteúdo ficcional das histórias, a Literatura chama a atenção dos mais jovens para questões centrais da existência humana, num assumido realismo, que, todavia, não destapa por completo o véu da História. Traçar o panorama contemporâneo da edição para crianças, através de uma viagem exploratória e interdisciplinar pelas tendências atuais sentidas aquém e além-fronteiras, é um dos principais objetivos desta tese. Ela assenta no pressuposto de que comparar a literatura produzida em diferentes países afigura-se um meio eficaz para melhor compreender a evolução nacional e captar uma visão literária de conjunto. Por isso, à Literatura Comparada alia-se, ao longo do trabalho, a Escrita Criativa, na medida em que elenco e analiso em profundidade determinadas técnicas de redação para os mais jovens. Com o devido suporte conceptual, ilustro essas técnicas em obras recentes e mantenho uma abordagem comparatista em mente. Além disso, estudo as conjugações interartísticas na Literatura Infantil, com especial enfoque para as relações de complementaridade e contraponto entre texto e ilustração, enquanto fortíssimos vasos comunicantes. Para o efeito, dou especial atenção a álbuns narrativos e livros ilustrados canónicos e não canónicos, passíveis de leitura autónoma por crianças dos seis aos nove anos. Sobretudo nos álbuns, o conteúdo espraia-se cada vez mais pelos campos paratextuais, que dão um contributo decisivo para a obra literária no seu todo. Esta torna-se um produto cultural complexo e um objeto de conceção requintada, em que nenhum pormenor é deixado ao acaso. Por fim, teço algumas considerações sobre o futuro da Escrita Criativa para Literatura Infantil, debatendo os desenvolvimentos tecnológicos em curso e as suas implicações nos formatos privilegiados e nas novas tendências editoriais.
Humanidades
4,943
Exemplo Cosmopolita: João Vário, Arménio Vieira e José Luiz Tavares
Poesia cabo-verdiana,Crítica literária,Cosmopolitismo,João Vário,Arménio Vieira,José Luiz Tavares,Poetry,Literary criticism
Este estudo apresenta uma reflexão sobre as obras poéticas de João Vário, Arménio Vieira e José Luiz Tavares. Caracterizadas por uma expressão complexa e por um propósito cosmopolita, elas sustentam hoje a definição de um paradigma poético que se distingue do cânone instituído pelo modernismo neorrealista e nacionalista. A primeira parte começa por analisar os princípios e os juízos da crítica da poesia cabo-verdiana que, entre as décadas de 1940 e 1980, promovem o predomínio das estéticas neorrealistas e nacionalistas. Os exercícios de periodização literária e o teor prescritivo da crítica marxista, em que pontifica o nome de Manuel Ferreira, exercem uma influência determinante no âmbito do sistema literário cabo-verdiano. Exemplos desta autoridade são, por um lado, a proscrição da poesia anterior a Claridade, e, por outro, a circunscrição das “novas gramáticas” dos anos 70 ao âmbito da representação da “saga histórica”. O ponto seguinte revisita as opiniões críticas de T. Tio Tiofe e Arménio Vieira, apresentadas, pelos anos 70, nas “Epístolas ao meu irmão António” e nas páginas culturais do jornal Voz di Povo, respetivamente. Além de testemunharem a progressiva aproximação de Vieira às convicções de Vário, estas notas e comentários preparam e acompanham a afirmação de um novo modelo crítico, mais atento ao trabalho exercido sobre a linguagem poética e aos diálogos estabelecidos com diferentes textos e autores das literaturas estrangeiras (de língua portuguesa ou não). As opções do júri dos Jogos Florais 12 de Setembro, os critérios editoriais da revista Raízes e o ideário da antologia Mirabilis – De Veias ao Sol, entre outros, sustentam entretanto o aparecimento de uma nova geração de poetas, quase todos ligados ao Movimento Pró-Cultura, e que têm em José Vicente Lopes e José Luís Hopffer C. Almada os seus principais teóricos e críticos. A segunda parte deste trabalho divide-se em três capítulos, dedicados a cada um dos poetas estudados. O texto sobre João Vário começa por reavaliar o discurso crítico em torno dos seus nomes literários, situando-os relativamente ao exemplo de Fernando Pessoa e às teorias da complexidade social dos espaços crioulos. Em seguida, revisita o ambiente cultural e literário em que se forma João Vário, em Cabo Verde e (sobretudo) em Portugal, destacando as correntes existencialistas e metafísicas dos anos 50 e 60 e relevando a influência que elas tiveram na definição da sua poesia filosófica e neobarroca (como demonstram os Exemplos Geral e Relativo). A partir de George Steiner, o mesmo capítulo procura depois identificar algumas das causas da dificuldade (ontológica e contingente) da poesia de Vário. Consciente da condição por vezes ininteligível dos Exemplos, este ensaio termina com duas aproximações de Vário às obras assinadas por G. T. Didial (a propósito do tema da verosimilhança) e por T. Tio Tiofe (a propósito da singularidade genológica e das deslocações geopolíticas dos Livros de Notcha). O capítulo dedicado a Arménio Vieira, que constitui a parte nuclear deste estudo, começa por rever os principais tópicos e postulados da crítica da sua obra poética. Traça depois o percurso intelectual e artístico que parte do teor político dos seus primeiros poemas, do tempo de Seló (1963) e de Ariópe (1974), e termina com os critérios de exclusão do inaugural Poemas, publicado em 1981. A invenção de Silvenius, instigada por um excerto do Exemplo Próprio de Vário, bem como o tríptico que encerra os Poemas de 1981, dedicado a C. Valcorba e a Manuel Ferreira, assinalam então o abandono definitivo das estéticas neorrealistas e nacionalistas cabo-verdianas (e que inclui a condenação dos desvios totalitários do PAIGC). Segue-se a análise de alguns aspetos solipsistas da herança romântica de Vieira, que o conduzem à condição apátrida e cosmopolita de um bibliotecário de Babel (segundo a narrativa de Borges). Este capítulo prossegue com a observação de alguns exercícios de imitação de estilos alheios, entre os quais se encontra uma importante homenagem a João Vário, e termina com o exame de alguns cantos em louvor de diferentes figuras maiores da literatura e da filosofia (como sejam Homero, Heraclito, Espinosa, Pessoa ou Jorge Luís Borges). À semelhança do que sucede com João Vário, o capítulo sobre José Luiz Tavares começa por situar as coordenadas da sua formação cabo-verdiana, marcada pelo ideário da geração de Mirabilis, e do seu confronto posterior com a geração portuguesa que lhe é contemporânea. A exuberância lexical e metafórica de Tavares irá então opor-se ao prosaísmo e ao niilismo que, comumente identificados com Manuel de Freitas, dominam a poesia portuguesa dos anos 90 e do início do novo século. O ponto seguinte deste capítulo é dedicado à tradução de Paraíso Apagado por Um Trovão para a língua cabo-verdiana. As opções vocabulares e as frequentes paráfrases da versão crioula testemunham a escassa relação do português literário de Tavares com a sua língua materna; e confirmam, além disso, os muito diferentes estádios de maturidade artística destes dois idiomas. O penúltimo texto deste capítulo revisita “A deserção das musas”, de Agreste Matéria Mundo, onde Tavares, a partir de Burke, Heidegger ou Adorno, e na companhia de Rilke, E. M. Cioran ou Manoel de Barros, medita “em chave lírica” sobre a condição atual do poeta e da poesia. O regresso ao Paraíso Apagado por Um trovão pretende demonstrar, por fim, como a hospitalidade cosmopolita da poesia de José Luiz Tavares permitiu e promoveu a reconfiguração artística de Cabo Verde. Palavras-chave: cânone, crítica literária, poesia, cosmopolitismo, João Vário, Arménio Vieira, José Luiz Tavares
Humanidades
4,944
Fundamentos e práticas da adaptação de clássicos da literatura para leitores jovens
adaptação,clássico,cânone,instituição literária,escola
A presença do texto literário na escola, que conheceu séculos de inquestionada aceitação, confronta-se atualmente com uma aguda necessidade de justificação. Para se legitimar como matéria de conhecimento e como instrumento educativo, é-lhe hoje exigido que apresente argumentos de natureza mais ou menos utilitária que fundamentem o lugar que até há pouco tempo ocupou de forma indisputada no conjunto dos saberes transmitidos às sucessivas gerações. No atual cenário de dispersão e crescente especialização dos domínios de conhecimento, a escola, ao ser convocada para o desafio da massificação e da inclusão, pouco mais conseguiu do que transformar a leitura num instrumento transversal de aquisição de aprendizagens e reduzi-la à condição de estratégia rasa de integração dos indivíduos no funcionamento primário do mundo. No campo específico do ensino da língua materna, esta deriva implicou a secundarização do texto literário como objeto de fruição e de estudo, a redução do tempo letivo consagrado à sua leitura e, em termos institucionais, a progressiva redução do corpus de obras literárias indicado nos programas. No caso português, o cânone literário escolar está praticamente confinado aos textos imprescindíveis, à maioria os quais se aplica o rótulo de “clássicos”. Por alguma razão, estes textos continuam a justificar-se como objeto de leitura e matéria de discussão, pelo que a sua sobrevivência institucionalmente validada no cânone, alojado entre paredes tão estreitas e em condições de aceitação tão adversas quanto as que hoje são colocadas à literatura na escola, constitui matéria de grande interesse e de inegável força crítica no âmbito do pensamento atualmente produzido em torno do lugar e da função social (caso esta exista) das Humanidades. Este objeto é, porém, muito vasto, multifacetado e passível de análises metodologicamente muito diversas. Parte do fenómeno em pauta – a sobrevivência dos clássicos – decorre da sua mediação, junto do público jovem, por parte de produtos colocados no mercado sob a designação genérica de “adaptação”. A configuração destas adaptações como obras com existência separada do original, a sua relação textual com os clássicos de que nascem e para os quais necessariamente reenviam e as técnicas de escrita com que, nessas adaptações, se efetua a apropriação da matéria ficcional de base apontam para uma especificidade deste formato editorial que permite conceptualizá-lo enquanto modalidade dotada de autonomia discursiva e literária. Por outro lado, a sua utilização institucionalmente protegida ao abrigo de indicações programáticas que as valorizam e delas se servem, em contexto escolar, como mecanismos de preparação da interpretação dos originais é indicativa do papel que estes produtos são chamados a desempenhar no processo de sobrevivência institucional dos textos de partida no cânone. Da conjugação das dimensões técnica, ética e política do ato de adaptar um clássico da literatura para leitores jovens é possível desenhar uma tipologia que permite enquadrar teoricamente as diferentes vias com que o formato em pauta aborda o original de que se apropria. A demonstração da validade hermenêutica e operacional da proposta apresentada é feita através da análise exaustiva do processo de adaptação a que Os Lusíadas, o clássico da literatura portuguesa por excelência, foi submetido ao longo dos últimos 100 anos. O exame do corpus de adaptações d’Os Lusíadas publicadas nesse lapso de tempo comprova a íntima relação que existe entre essa tendência do mercado editorial e as orientações provenientes da instituição escolar, para além de servir de exemplo da correlação existente entre as opções discursivas, ideológicas e estilísticas tomadas por cada adaptador e os condicionalismos históricos, mentais e institucionais que interferem de forma muito evidente na elaboração de textos desta natureza.
Humanidades
4,947
Imago mortis. Cultura visual, ekphrasis e retórica da morte no Barroco luso-brasileiro
Morte,Poesia Visual,Emblemática,Barroco luso-brasileiro
Esta tese parte dos novos pressupostos teóricos e dos instrumentos metodológicos facultados pelo campo de estudos das materialidades da comunicação, da cultura e da literatura. A inovadora abordagem metodológica e científica ao nível dos estudos literários e interartes, que o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura vem propondo, permitiu o desenvolvimento de uma investigação que analisasse com particular acuidade os fenómenos de interação entre textualidade e visualidade no âmbito do Barroco luso-brasileiro. Por conseguinte, propõe-se estudar o valor semântico e a função expressiva de elementos da materialidade do texto, atentando nomeadamente na forma como se concretiza na superfície de inscrição, bem como os mecanismos que determinam a sua receção e interpretação, e que são inerentes à cultura visual e à produção literária deste período histórico-artístico. De um modo mais concreto, focar-se-ão elementos (tipo)gráficos, icónicos, semânticos, picturais e retórico formais que interferem na experiência cognitiva da leitura. O facto de se adotar uma perspetiva de investigação alicerçada na análise integrada das materialidades da literatura, das artes e da cultura possibilitou retirar um conjunto de inferências que dizem respeito à dimensão comunicativa dos textos e à sua configuração simbólico-expressiva. Neste sentido, foi necessário considerar os aspetos que integram o campo hermenêutico, mas também avaliar o impacto de todos os componentes espetaculares nos sujeitos, procurando convocar para este estudo a noção de “presença”, tal como foi definida por Hans Ulrich Gumbrecht, para analisar igualmente os aspetos do campo não-hermenêutico. Na base desta investigação encontra-se a imago mortis, que se manifesta na materialidade de um largo conjunto de textos, e que desde cedo se estabeleceu, na cultura ocidental, como pilar da antropologia cristã, cumprindo um duplo propósito estético e ético. Partindo da análise da influência que os textos precetivos mais preponderantes no período barroco tiveram sobre os autores que laboraram no espaço luso-brasileiro, pretende-se demonstrar que a relação entre ikon e logos constitui um procedimento lógico-retórico eficiente na concretização das faculdades do engenho e da agudeza. Com este propósito em vista, procurou-se definir um corpus textual em que a visualidade surge associada ao tema da morte, assim como a uma constelação de aspetos temáticos afins. Por essa razão, o horizonte de trabalho abrangerá diversos géneros literários e artísticos, em suporte manuscrito e impresso, com destaque para os textos visuais, a poesia artificiosa e a emblemática, implicando a articulação entre as componentes materiais que integram o “mecanismo do livro”. Como tal, a pesquisa desenvolveu-se dentro de um quadro analítico alargado, que teve forçosamente de considerar a história do livro, da gravura e das técnicas de reprodução, assim como as dimensões estético-literária, histórica, social e cultural que envolvem a produção textual na esfera da laudatio funebris barroca.
Humanidades
4,949
Como se constrói um clássico? Vozes Anoitecidas e Cada homem é uma raça, de Mia Couto: um estudo de caso numa “literatura emergente”
clássico,literatura emergente,biblioteca colonial,literatura moçambicana,Mia Couto,espaço e violência
Neste estudo pretendemos discutir o conceito de “clássico” em contexto pós-colonial através de um estudo de caso, nomeadamente a literatura moçambicana, com ênfase nos dois primeiros livros de contos do escritor moçambicano Mia Couto: Vozes Anoitecidas e Cada homem é uma raça. Ambas as obras foram publicadas em um período de Guerra Civil no país. A tese visa ainda pôr em causa o processo de construção das obras já referidas enquanto “clássicas” estabelecendo, para tanto, o diálogo com os estudos sobre o termo “clássico” de Coetzee, Fortini, Eliot, Borges, Calvino, Sainte-Beuve, Kermode, além de destacar a relação existente entre o “clássico” e as instituições de ensino, a partir da verificação do lugar ocupado por Mia Couto nos curricula dos cursos de Letras de universidades brasileiras, enfatizando as possíveis razões que fazem desse autor um clássico no contexto das literaturas africanas escritas em português. Para tanto, foram realizadas entrevistas com dez docentes de literaturas africanas de universidades brasileiras; editores das obras miacoutianas, no Brasil e em Portugal, e com a leitora responsável pela administração da página do autor em uma conhecida rede social. Será convocada a categoria do espaço, tanto do ponto de vista geopolítico quanto cultural, respectivamente, uma vez que nos propomos a discutir os pós-colonialismos em contexto português, brasileiro e africano (Santos, 2006) e o espaço Atlântico Sul (Alencastro, 2000) bem como o espaço enquanto focalização, categoria de análise literária, em leituras propostas para quatro contos extraídos dos livros que compõem o corpus desta tese, nomeadamente: “O dia em que explodiu Mabata-bata”, “A menina do futuro torcido”, “O apocalipse privado do tio Geguê” e “A Rosa Caramela”. Outras categorias de análise são convocadas: a violência, com ênfase em René Girard (1990), e a violência que as colonialidades engendram (Quijano, 2009). Do ponto de vista teórico, os pressupostos da antropologia literária (Iser, 1996) nortearão igualmente a reflexão sobre o clássico e a análise dos contos. No primeiro caso, o lugar de destaque do leitor, do ser humano, na configuração do estatuto do clássico. E, no segundo caso, a violência como disposição humana evidenciada em situações coloniais e pós-coloniais. Estamos cientes de que o “clássico” é um locus permanente de mudança e circula por vários espaços-tempos distintos. Por isso, a nossa pesquisa circundará, sobretudo, as seguintes questões: o que significaria pensar a construção do clássico numa literatura emergente, nomeadamente a moçambicana: cair nas armadilhas da “biblioteca colonial” (Mudimbe, 1994) ou, para além disso, favoreceria o desenvolvimento de outros paradigmas críticos no âmbito da compreensão desse conceito? Quais novas conotações o conceito de clássico pode assumir em contexto pós-colonial e quais as razões que levam Mia Couto a ser destaque no cânone das literaturas de língua portuguesa?
Humanidades
4,950
Ruy Belo e o Modernismo Brasileiro, Poesia, Espólio
Ruy Belo,Modernismo Brasileiro,Espólio,Intertextualidade
Esta tese propõe investigar como determinadas características, práticas e temáticas da literatura brasileira se encontram na construção do discurso poético de Ruy Belo (1933-1978), além de tentar perceber o seu interesse por certos aspectos culturais e político-sociais brasileiros. Para tanto, recorremos ao espólio do poeta, pela primeira vez explorado num trabalho científico, colocando em prática um método filológico que nos permite examinar, a partir uma perspectiva inédita, os mecanismos de produção poética de Ruy Belo. O material documental possui um papel seminal nas interrogações a que aqui tencionamos dar resposta. Procuramos saber que autores brasileiros Ruy Belo leu, e como os leu, sobretudo aqueles aos quais confessa ter ido “buscar a sua tradição modernista”. Neste sentido, os intercâmbios discursivos que desenvolvemos têm origem nas próprias inscrições materiais deixadas pelo poeta, num desafio de leitura que nos levou a comprovar intuições e hipóteses interpretativas a partir das descobertas feitas no espólio. O confronto da poesia de Ruy Belo, tal como o ensaiamos, com a obra de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima, bem como a leitura que faz dos regionalistas modernistas brasileiros, permite-nos concluir que uma investigação desenvolvida sob estes pressupostos contribui, em diversos planos, para que compreendamos melhor aquela poesia.
Humanidades
4,952
Reorganização sufixal no português arcaico
Portugues arcaico,Formação de palavras -- Lingua portuguesa,Operadores sufixais,Sufixo -- língua portuguesa -- séc. 13-16,Língua portuguesa arcaica
A presente dissertação insere-se no âmbito da Morfologia Histórica, com enfoque especial num paradigma sufixal do português arcaico (sécs. XIII a XVI): o da formação de nomina actionis deverbais. Através da análise evolutiva de um grupo de unidades corradicais – governação, governança, governo, governamento – representativo dos sufixos desse paradigma, pretende-se, por um lado, contribuir para a periodização do fenómeno da reorganização do paradigma sufixal formador de nomina actionis deverbais, e, por outro, identificar as motivações que terão conduzido a essa mudança. O corpus recolhido é constituído pela totalidade de ocorrências das quatro unidades lexicais num conjunto de documentos tipologicamente diversificados do período arcaico. A análise dos dados empíricos é levada a cabo sob três diferentes abordagens – interna, cognitiva e sociolinguística - favorecendo uma perspectivação causal multidimensional da evolução linguística. No que diz respeito à periodização, conclui-se que a reorganização sufixal deste grupo de unidades, embora não fique resolvida neste período (sécs. XIII - XVI), tem início e começa a delinear-se no português arcaico. Relativamente às causas da mudança ocorrida no grupo sufixal em análise, verifica-se que existe uma articulação entre as diferentes motivações frequentemente apontadas como causadoras de mudança linguística, nomeadamente os factores internos de simplificação sistémica e de preferência pela transparência formal, semântica e relacional; os factores cognitivos de saliência e percepção; e os factores sociolinguísticos de consciência linguística e de prestígio/estigma linguístico.
Humanidades
4,955
Aquisição do campo semântico do tempo em PLNM : análise de produções escritas e correlação com estratégias de ensino-aprendizagem
Língua portuguesa -- ensino/aprendizagem,Tempo -- língua portuguesa
Este trabalho pretende diagnosticar alguns processos de aquisição do campo semântico do tempo, por parte de alunos de Português língua não materna em fase inicial, em correlação com as estratégias de ensino/aprendizagem usadas em contexto de sala de aula. Para esse efeito, procedeu-se à análise da expressão de tempo em produções escritas, manuais/suportes didácticos e estratégias de ensino/aprendizagem, tendo sido estas últimas objecto de inquérito realizado junto das três docentes da disciplina de Composição, do 1º semestre do ano lectivo 2008/2009, do nível Elementar do Curso Anual de Língua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros. Do ponto de vista do enquadramento, o estudo fundamenta-se em contributos teóricos sobre o campo semântico do tempo desenvolvidos por Benveniste (1966 e 1974), Weinrich (1973) e Fonseca (1992). Por fim, o trabalho discute ainda a relevância do papel do professor e os efeitos da sua prática pedagógica, propondo tarefas e estratégias mais indicadas a utilizar na sala de aula
Humanidades
4,958
A poesia de Carlos Drummond de Andrade em manuais escolares do ensino médio no Brasil
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987 -- obra,Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987 -- ensino secundário -- Brasil,Literatura brasileira -- estudo e ensino
A leitura de um conjunto de manuais escolares de língua portuguesa, adotados, atualmente, em escolas do Ensino Médio, no Brasil, considerando o lugar do estudo da poesia, e mais especificamente o lugar do estudo do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, possibilita-nos assegurar que a compilação da poesia de Drummond nesses manuais (associada a um conjunto de orientações para o trabalho escolar) é castradora da leitura e do estudo do texto poético neste ciclo do ensino. Os estudos sobre os manuais escolares tendem a desconsiderar a legitimidade deste recurso didático no trabalho escolar, apesar de, em alguns casos pontuais, ponderarem a validade deste material didático. Consideramos que o estudo do texto poético nos manuais ainda é muito escasso, pelo que o mesmo continua a ser uma temática pertinente na investigação no âmbito da formação de professores de Português. Postas estas questões, admitimos que é adequado um estudo alargado acerca da poesia de Carlos Drummond de Andrade, em manuais escolares de língua portuguesa, incidindo sobre uma análise: i) dos objetivos da sua leitura e estudo no Ensino Médio; ii) do modo como o texto poético é estudado na perspectiva destes recursos; iii) da forma como os professores podem dinamizar o estudo desse texto a partir das sugestões dos manuais. A articulação desta análise tem por base alguns estudos que consideram, por um lado, componentes do texto literário e, por outro lado, capacidades necessárias ao leitor no ato da leitura literária, de acordo com os modos literários em que se enquadram. Neste sentido, apresentaremos diretrizes que esses estudos nos facultam para uma mais propícia e adequada escolarização da poesia de Carlos Drummond de Andrade em manuais do Ensino Médio. Como os pressupostos dos manuais escolares são limitativos do ponto de vista didático-pedagógico, sugerimos algumas alternativas para que o estudo da poética deste autor seja repensado, com vista a uma leitura mais alargada e, portanto, mais pertinente para a formação dos alunos-leitores.
Humanidades
4,962
Derivação nominal em-dor/a e em -deiro
Linguística portuguesa,Formação de palavras -- Dor/a -- português europeu,Formação de palavras -- Deiro/a -- português europeu
No âmbito da formação de palavras, o estudo da formação de nomes deverbais que designam, primordialmente, profissões e/ou instrumentos apresenta-se como de grande importância, quer sob o ponto de vista teórico, quer sob o ponto de vista do conhecimento da língua, em virtude de nos dar a conhecer recursos lexicais diversos que viabilizam a construção de denominações de um tão nuclear sector do léxico. Uma vez que esse paradigma de construção lexical integra mais do que um sufixo, o estudo de cada um, das suas condições e restrições de uso, permite entrever as motivações sócio- -culturais que a selecção de uns e de outros representa. Neste trabalho, analisam-se as bases dos produtos em –dor/a (cap. II, § 3.1) e em –deiro/a (cap. III, § 3.1), nas suas dimensões morfológica, semântica, eventivo-aspectual e argumental, operando-se do mesmo modo em relação aos produtos derivados em –dor/a e em –deiro/a (cap. II e cap. III, §§ 3.2). Identificam-se ainda as propriedades semânticas, eventivas e argumentais que são ou não herdadas pelos produtos a partir da base e descrevem-se as modalidades de actualização dessa herança. Ao nível semântico (cap. II e cap. III, §§ 3.2.3), estes produtos definem-se profunda e sistemicamente pelas significações agentiva e instrumental, embora se constate que alguns deles, e de um modo particular os derivados em –deiro/a, são portadores de diversos traços de significação (agentividade/instrumentalidade/acção, processo ou resultado/locatividade/intensidade), co-presentes, não raras vezes, num mesmo item. Por fim, atendendo a que grande parte dos produtos em –deiro/a remete para todo um campo semântico-referencial relacionado com actividades de cariz tradicional, agrário, doméstico, constata-se que é um sufixo pouco produtivo na “norma culta” actual, o que faz ponderar as dimensões sociolinguísticas que a opção por cada um dos sufixos envolve (cap. IV).
Humanidades
4,965
Advérbios em-mente no português europeu
Advérbios -- Lingua portuguesa
Não existe muita informação sobre a formação de advérbios em –mente em português. Todavia, trata-se de um processo de formação de palavras de uma grande produtividade, ainda que muitos destes advérbios, que tomam por base as formas femininas de adjectivos vários, não estejam, na sua esmagadora maioria, dicionarizados. O objectivo desta tese consiste essencialmente em explorar as regularidades e restrições na formação dos advérbios em -mente. Após uma reflexão teórica inicial (Capítulo II), discute-se no Capítulo. III a possibilidade de o sufixo –mente se combinar com bases de categorias lexicais diferentes. No capítulo IV estuda-se o comportamento do sufixo –mente com adjectivos simples, derivados e compostos e as condições de formação de advérbios em –mente. O trabalho empírico baseia-se em dados extraídos de diversos corpora e dicionários. Finalmente, extraem-se as regularidades e as restrições na combinação dos advérbios em –mente (Capítulo V). Os resultados e conclusões podem ser úteis para o ensino e a aprendizagem da língua portuguesa, especialmente como língua estrangeira e/ou segunda.
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