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437, doutrinal e jurisprudencial deste recurso extraordinário encontra-se bem delineado. |
O recurso para fixação de jurisprudência penal tem requisitos ou muito claros e determinados: a) Mister é que os acórdãos em suposto antagonismo sejam proferidos no âmbito da mesma legislação. |
Sendo de requerer que, durante o intervalo da sua prolação, não haja ocorrido modificação legislativa que, de forma direta ou indiretamente, pudesse ter tido interferência na resolução da questão de direito em litígio art. |
437, n.. b) Importa ainda que nos dois acórdãos em suposto conflito, quer de Tribunais da Relação, quer do Supremo Tribunal de Justiça, ocorram realmente soluções opostas. |
Tal implica uma dupla homologia de base: devem ambos referir-se à mesma questão de direito, sem dúvida, mas tal não basta: antes de mais, devem, como parece óbvio, incidir sobre questões de facto idênticas. |
Porque, sem essa homologia factual, claudica qualquer semelhança de iure art. |
437, n. 2 e n. 1; cf. |
ainda, g., Acórdão do STJ de 04-02-2016, proferido no Proc. |
n.s 854/10TAMAI.Pl-A.Sl – Sumário, Ponto ,. ) |
Mais se exige que a questão que se considera ter sido decidida de forma contraditória haja efetivamente sido objeto de decisão expressa em ambos os acórdãos devem assentar em "soluções opostas”) art. |
437, n. 1; cf. |
ainda, g., Acórdão do STJ de 04-02-2016, proferido no Proc. |
n.s 854/10TAMAI.Pl-A.Sl – Sumário, Ponto ,. ) |
Ambos os acórdãos devem ter transitado em julgado cf. |
art. |
437, n. 4 e art. |
438, n.. e) E, naturalmente, é necessário que a questão em análise não tenha sido objeto de anterior fixação de jurisprudência. |
Além de que do acórdão recorrido não poder ser ainda objeto de recurso ordinário, salvo o disposto referido na última parte do n. 2 do art. |
437 se estiver de acordo com orientação já anteriormente fixada pelo Supremo Tribunal de Justiça). |
f) O Recorrente deve então instruir o recurso identificando o acórdão fundamento e apenas, aquele com o qual considera que acórdão recorrido se encontrará em oposição e, no caso de estar publicado, indicar o lugar da publicação art. |
438, n. 1 do. |
A admissibilidade de um recurso extraordinário para fixação de jurisprudência depende, assim, da verificação de requisitos formais e substanciais legalmente determinados arts. |
437 e 438, n.s 1 e 2, do e já objeto de vária jurisprudência. |
Recorde-se a síntese do Sumário do Acórdão deste Supremo Tribunal de Justiça de 27/01/2010, proferido no Proc. |
n. 6463/06TDLSB.L1-A.S1: "- A oposição relevante de acórdãos só se verifica quando, nos acórdãos em confronto, existam soluções de direito antagónicas e, não apenas, contraposição de fundamentos ou de afirmações, soluções de direito expressas e não implícitas, soluções jurídicas tomadas a título principal e não secundário. |
- As soluções jurídicas opostas devem reportar-se a uma mesma questão fundamental de direito, no quadro da mesma legislação aplicável e de uma mesma identidade de situações de facto. |
- A justificação da oposição de julgados, enquanto pressuposto do recurso extraordinário de fixação de jurisprudência, constitui um ónus do recorrente e corresponde à explicitação por ele, da causa de pedir quanto à fixação pretendida: por essa via, o recorrente indica as razões em que funda a alegada oposição de julgados, mencionando claramente a questão jurídica controversa. |
- Têm-se por verificados os pressupostos de interposição do aludido recurso, se acórdãos fundamento e recorrido foram proferidos no âmbito da mesma legislação, ambos se referem à mesma norma, aludem a uma situação de facto idêntica e concluem diferentemente relativamente à questão de direito, ocorrendo manifesta oposição de julgados.” O problema que se põe na oposição que deve verificar-se entre Acórdãos para a consideração da ocorrência da necessidade de fixação de jurisprudência não é meramente uma questão de Direito, mas começa, precisamente, nos factos. |
Poderá mesmo até dizer-se que falecendo a homologia substancial dos factos, que é pressuposto conditio sine qua non, tudo o mais decai. |
Ou seja, é da mais elementar razoabilidade que não bastam soluções jurídicas opostas, se os factos não mantiverem entre si significativas conexões de similitude. |
Ex factis jus oritur. |
Como já foi reconhecido por este Supremo Tribunal de Justiça, g. no Acórdão STJ 206/10T9FND.C1-A.S1, de 24/06/2020: "A identidade das situações de facto subjacente aos dois acórdãos em conflito é que permitiria estabelecer uma comparação que venha a concluir que, quanto à mesma questão de direito, existem soluções opostas e a necessidade de a questão decidida em termos contraditórios ser objeto de decisão expressa as soluções em oposição têm de ser expressamente.” Sumário,. |
Importa, pois, cotejar a factualidade em causa em cada um dos Acórdãos em confronto. |
E depois apreciar se as soluções jurídicas respetivas serão antinómicas ou não. |
Como é óbvio, não se podem considerar contraditórias, neste contexto, soluções sobre questões de facto diversas. |
Antes mesmo, pois, de as analisar de iure, há que aquilatar das situações de facto. |
Como claramente se expressa no Acórdão deste Supremo Tribunal de Justiça de 19-04-2017, Proc. |
n. 168/16TACTX.L1-A.S1: "A oposição de julgados, como pressuposto do recurso extraordinário para fixação de jurisprudência, implica que os acórdãos em confronto - recorrido e fundamento – se hajam debruçado e pronunciado sobre a mesma questão de direito, com consagração de soluções divergentes, perante situações ou casos idênticos, devendo a oposição reflectir-se expressamente nas decisões, razão pela qual só ocorre oposição relevante quando se verifiquem decisões antagónicas e não apenas mera contraposição de fundamentos ou de afirmações. |
- Só se pode considerar ocorrer identidade de situações ou casos quando a matéria de facto os factos dados por provados na decisão proferida sobre a matéria de é coincidente. |
- Não sendo a matéria de facto igual ou equivalente não se poderá concluir que a divergência do resultado decisório resulta de diferente interpretação e aplicação da mesma norma jurídica, ou seja, que se verifica oposição em termos de direito." |
sublinhados. |
A comparação a empreender tem de verificar se ocorre uma homologia de situações e crimes no plano fático), as quais tenham sido substrato para soluções jurídicas contudo diversas. |
Enfatiza o Ministério Público a diferença entre o recorrente ter cometido apenas um crime ou muitíssimos: " o arguido não cometeu apenas um crime continuado ou de trato de pornografia de menores mas: - 7494 sete , quatrocentos e noventa e crimes de pornografia de menores p. e p. pelo art. |
17 n. 1, al., do Código Penal, - 441 quatrocentos e quarenta e crimes de pornografia de menores p. e p. pelo art. |
17, n. , als. |
e, do Código Penal; - 350 trezentos e crimes de pornografia de menores p. e p. pelo art. |
17, n. 1, als. |
e, agravados, nos termos do disposto no art. |
177, n. 6, do Código Penal; e - 859 oitocentos e cinquenta e crimes de pornografia de menores p. e p. pelo art. |
17, n. 1, als. |
e, agravados, nos termos do disposto no art. |
177, n. 7 do Código Penal. |
...)". |
O que corresponde a outras tantas resoluções criminosas. |
Pelo contrário, no Acórdão fundamento, e ligando a questão ao problema da natureza do bem jurídico no caso violado, assim se sintetiza, no respetivo Sumário: "- A conduta do arguido que importou, partilhou e detinha com vista à partilha de 4349 ficheiros de conteúdo pornográfico de menores com idades inferiores a 16 e 14 anos de idade integra a prática pelo arguido de um único crime de pornografia de menores agravado, p. e p. pelo art. |
17, n. 1, als. |
e e art. |
17, n. 6 e 7, do CP, atenta a natureza do bem jurídico violado, na medida em que não é imediatamente a liberdade e autodeterminação sexual ou interesses exclusivamente pessoais que estão em causa na ilicitude em questão, mas um bem jurídico supra individual, de interesse público, de protecção e defesa da dignidade de menores, na produção de conteúdos pornográficos e divulgação ou circulação destes pela comunidade. |
- Ponderando a intensidade do dolo, que é directo, o período de tempo ao longo do qual o arguido praticou a actividade censurada e o conteúdo em concreto do material pornográfico detido pelo arguido, bem como a ilicitude da conduta do arguido não merece censura a pena de 6 anos e 6 meses de prisão aplicada em instância.”. |
Dir-se-ia que a natureza da decisão de delinquir, neste caso ao contrário do do Acórdão, é em si de unificação da resolução criminosa. |
A qual, por si só, não seria apta a permitir a consideração de um único crime continuado se o bem jurídico no caso concretamente violado fosse rigorosa e eminentemente pessoal. |
Porém, o Acórdão fundamento explicita a sua consideração de que a situação é mais matizada. |
Designadamente explicando: "A jurisprudência dos nossos Tribunais Superiores tem entendido que estamos perante um único crime quando o comportamento do agente tem na sua base o que designam por unidade resolutiva, que se não se confunde com resolução criminosa única, que move o agente para a prática reiterada de atos que, isoladamente considerados, já integrariam a prática do crime. |
Reiterar significa repetir, pelo que está em causa uma pluralidade de atos homogéneos. |
Embora a caracterização legal se não esgote nisso, os "atos reiterados” são opostos aos "atos sucessivos”, no sentido de praticados em ato seguido, o que aponta para a necessidade de um certo distanciamento temporal – pelo menos o suficiente para se arredar a existência de um crime contínuo – o que faz o crime perder o cariz episódico isolado, para passar a estruturar-se numa atividade que se vai verificando, multi-episodicamente, ao longo do tempo. |
Está em causa, como vimos, uma repetição de condutas homogéneas unificadas por uma mesma resolução criminosa. |
Assim, o agente age em cada uma das ocasiões em concretização de um móbil que previamente o animou e que abrange todos os atos praticados em cada uma dessas ocasiões. |
Age, pois, sob uma unidade resolutiva, reiterando um dado comportamento sempre que as circunstâncias o permitirem.”. |
Perante esta diferente tão diferente consideração há, obviamente, divergência de solução jurídica. |
Importa sublinhar que, neste momento processual, neste tipo específico de recurso, com requisitos bem balizados, não é, de forma alguma, do mérito das causas julgadas no Acórdão recorrido e no Acórdão fundamento que cumpre curar. |
Nesta sede judicatória, in casu, do que se trata é de proceder somente à comparação dos julgados com os critérios rigorosos já desenvolvidos, antes de mais de facto já se sabe que de iure há discrepância de soluções – mas sobre factualidade que se conclui ter sido diversamente. |
E aceitar a forma como os factos foram encarados, "lidos”, enquadrados. |
Sendo absolutamente vedado e descabido, como é óbvio, proceder agora a qualquer requalificação. |
Não sendo mister que nos inclinemos para nenhuma solução prévia, elas são data, e não ponto de discussão e decisão hic et nunc. |
Estamos num recurso para fixação de jurisprudência, e não noutro tipo de recurso. |
Uma primeira abordagem sintética comparativa leva imediatamente a uma grande homologia de situações de facto. |
Assim, no Acórdão recorrido, quanto à natureza do dolo, os factos são os seguintes: "2 O arguido sabia que os ficheiros de vídeo e imagem acima descritos, que detinha nos aludidos dispositivos de armazenamento, continham abusos sexuais cometidos contra crianças menores 14, 16 e 18 anos de idade. |
2 Não obstante, quis guardá-los e partilhá-los, como fez, por um grupo não determinado de pessoas, colocando os mesmos à disponibilização para uploud, a fim de assim satisfazer a sua libido e os seus instintos sexuais, o que conseguiu. |
2 O arguido quis ainda deter no seu computador programas de navegação anónima na internet e programas de partilha de dados peer to peer/emule), o que lhe permitiu aceder, guardar e partilhar os aludidos ficheiros de vídeo e de imagem contendo abusos sexuais de menores, o que aconteceu, dessa forma satisfazendo a sua libido. |
2 Além disso, tinha ainda conhecimento de que estes programas de partilha têm milhões de acessos e utilizadores, e que todos os ficheiros que ali se partilham são visualizados e difundidos por centenas de pessoas, assim conduzindo à sua difusão por um número não concretamente apurado de pessoas, o que, igualmente, quis e conseguiu. |
2 Agiu, em todos os momentos, livre, voluntária e conscientemente, bem sabendo que as suas condutas eram proibidas e punidas por lei penal.” E no Acórdão fundamento são estes: "1 O arguido sabia que todos os ficheiros de imagem e de vídeo acima descritos, que guardava no dispositivo de armazenamento "EQ02” e no disco rígido "HDD01”, eram relativos a abusos sexuais cometidos contra menores de catorze e dezasseis anos, alguns deles inequivocamente bebés e outros de tenra idade, bem sabendo que a sua aquisição, detenção, cedência ou partilha eram proibidas. |
2 Não obstante, quis guardá-los, a fim de satisfazer a sua líbido e instintos sexuais. |
2 Para além do que, através do Facebook e do Skydrive, cedeu a terceiros não identificados, imagens do teor das acima descritas. |
2 Assim como quis guardar os ditos ficheiros de imagem e de vídeo para trocá-los, com indivíduos desconhecidos, por outros ficheiros de idêntica índole, o que logrou, pois, que com eles os partilhou em número de vezes indeterminado, em busca dos que melhor correspondessem aos seus apetites sexuais e sempre com o objetivo de satisfazê-los. |
2 Sabendo que, deste modo, partilhava os ficheiros que ali guardava com diversas pessoas, conduzindo à sua divulgação para um elevado número não apurado de pessoas, o que igualmente quis e conseguiu. |
2 Tendo perfeito conhecimento que, ao adquirir, deter, ceder e partilhar os referidos ficheiros a troco de outros da mesma natureza, estava a induzir a exploração das crianças utilizadas para a realização das fotografias e dos filmes em causa, crianças que, para a satisfação sexual do arguido, sofreram efetivos e severos abusos sexuais, divulgando, assim, os referidos ficheiros através da Internet, que seguramente foram vistos por um grande número de pessoas em todo o mundo e que, dificilmente, dela deixarão de fazer parte; não obstante, quis e manteve o arguido tais condutas. |
2 Com as suas condutas, o arguido colocou em causa o sentimento de vergonha e pudor sexual, bem como a liberdade e autodeterminação sexual dos menores retratados nos aludidos ficheiros de imagem e de vídeo, prejudicando, desse modo, o livre desenvolvimento das suas personalidades. |
2 Sabia o arguido que as descritas condutas eram proibidas e punidas por lei, e tendo capacidade de determinação, não se inibiu de as cometer, agindo livre, consciente e deliberadamente.” Tais factos são obviamente idênticos. |
Em ambos os casos, o respetivo arguido tinha conhecimento da ilicitude da sua conduta e agiu deliberada, livre e conscientemente. |
Se porventura não tomou essas resoluções, num e noutro dos casos, da mesma maneira formando a sua voluntas de modo, do ponto de vista temporal, é questão que parece não afetar a impressiva materialidade dos crimes, que são idênticos, num e noutro dos casos. |
Já Posner Para além do Direito, trad. |
port. |
São Paulo, Martins Fontes, 2009, p. chamava subtilmente a atenção para a necessidade de acurar a perceção dos factos, por vezes prejudicada por algum academicismo de abordagem. |
No domínio judicial, então, não é concebível ignorar ou menosprezar a eloquência dos factos. |
A vertente do elemento subjetivo na temática da resolução criminosa, tendo por base a factualidade dada como provada, podendo parecer uma questão a considerar na análise de facto, é, porém, apreciada e valorada em sede de análise de jure, e portanto não poderá entravar a evidência incontrovertível da similitude factual concreta, do resultado dos atos por um e outro dos agentes praticados. |
Certo é que, em ambos os casos, os arguidos tinham dezenas de ficheiros de conteúdo pornográfico envolvendo menores e partilharam o mesmo. |
Esta factualidade tem um efeito hermenêutico de uma impressividade avassaladora, importando juízo não de pura apreciação passiva e mecânica dessa jurisprudência mecanicista de que falavam Holmes e, mas uma hermenêutica dinâmica, compreensiva. |
Mesmo situações borderline em geral de especial dificuldade - G.E.Anscombe, Human Life, Action and Ethics, Essays by, Imprint Academic, 2006, p. colocam à prova as teorias e as práticas nessas teorias baseadas dir-se-á até que é nessas situações que maiores reptos se. |
A questão é que, por muito que haja elementos que alguns considerarão ainda fácticos na forma de decisão criminosa de acordo com a respetiva disposição – cf. |
J. J. Gomes Canotilho, Para uma Teoria Pluralística da Jurisdição Constitucional no Estado Constitucional Democrático Português, in "Revista do Ministério Público”, Ano 9, n.s 33-34, janeiro-junho, 1988, p. 19, n.15), o que é significativo, impressivo, na situação comparativa dos dois Acórdãos é a gritante similitude dos factos. |
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