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O réu opôs a esta pretensão a prescrição do direito de crédito da autora fundado naquela norma.
No recurso não se discute nem o preenchimento da previsão da norma que o réu deu causa ao acidente gerador dos danos indemnizados pela sua seguradora e que nessa ocasião conduzia com uma taxa de alcoolemia superior à legalmente nem que o direito da autora se encontra sujeito ao prezo de prescrição de três anos consagrado no artigo 49, n. 2, do Código Civil, nos termos do qual o direito de regresso entre os responsáveis prescreve no prazo de três anos, a contar do cumprimento.
A questão que vem colocada a esse respeito e que já se discutiu em instância consiste em saber em que data se deve considerar interrompido o prazo de prescrição.
Com efeito, a definição do momento em que a interrupção teve lugar é determinante para determinar se o direito se encontra ou não prescrito, podendo depois discutir-se se só parte dele se encontra prescrito.
A tese sustentada pela autora consiste em contar aquele prazo apenas a partir da data em que foi efectuado o último dos pagamentos parcelares que perfazem o montante que ela pretende obter do réu por via do direito de regresso.
Nos termos do artigo 32, n. 1, do Código Civil, a prescrição interrompe-se pela citação do devedor na acção na qual se manifesta a intenção de exercer o direito.
Como o último pagamento foi realizado em 212016 e a citação do réu só teve lugar em 002020, datas separadas entre si por mais de três anos, em princípio quando a citação foi efectuada o direito da autora estaria já prescrito, consequência que se reflectiria sobre a totalidade dos valores indemnizatórios que a mesma suportou.
Não será assim se por outra razão se dever considerar interrompida a prescrição em data anterior à da concretização da citação, de modo que se essa interrupção tiver ocorrido até ao dia 212019 último dia dos 3 haverá que concluir que o direito não prescreveu, podendo depois discutir-se se essa consequência jurídica abrange todos os pagamentos parcelares mesmo os realizados mais de três anos, apenas alguns deles e agrupados segundo que critério) ou mesmo somente o último deles, único relativamente ao qual ainda não tinham passado três anos sobre o cumprimento stricto.
Assume, pois, inteira relevância discutir no caso a aplicação do disposto no artigo 32, n. 2, do Código Civil que estabelece o seguinte: «Se a citação ou notificação se não fizer dentro de cinco dias depois de ter sido requerida, por causa não imputável ao requerente, tem-se a prescrição por interrompida logo que decorram os cinco dias».
Como vimos, em princípio a prescrição apenas se interrompe com a concretização da citação.
Resulta desta norma que a mera instauração da acção, exprimindo embora a intenção do credor de exercer o direito, não faz interromper a prescrição.
Para esse efeito, é ainda necessário que o devedor tome conhecimento dessa intenção através da sua citação para a acção.
O instituto da prescrição prende-se com razões de certeza e de segurança nas relações jurídicas, mas visa igualmente proteger os devedores das dificuldades de prova resultantes do decurso do tempo e exercer pressão sobre o titular do direito para que não descure o seu exercício cf.
Manuel de Andrade, in Teoria Geral da Relação Jurídica, vol.
, 1987, pág.
445-446; Meneses Cordeiro, in Tratado de Direito Civil Português, , Parte Geral, Tomo , 2005, pág.
159-162; Mota Pinto, in Teoria Geral do Direito Civil, 1983, págs.
373-374 e Vaz Serra, in Prescrição e Caducidade, in Boletim do Ministério da Justiça n. 107, pág.. Através dele procura-se dar resposta à preocupação da estabilização das situações jurídicas, de modo a dar às pessoas a segurança e a paz de saberem com antecedência o conteúdo da respectiva esfera jurídica, dando-lhes a oportunidade de fazerem a suas opções de vida, sabendo de antemão quais os direitos que possuem e quais as vinculações jurídicas a que estão sujeitas.
Ana Filipa Morais Antunes, in Estudos de Homenagem ao Prof. Sérvulo Correia, vol.
, página 39, escreveu que a «prescrição justifica-se em homenagem ao valor da segurança jurídica e da certeza do direito, mas, também, em nome do interesse particular do devedor, funcionando como reacção à inércia do titular do direito, fundada num imperativo de justiça .).
Na verdade, a prescrição é um instituto que se funda em interesses multifacetados.
Não existe, pois, uma só razão justificativa do instituto, nem tão-pouco consensos ao nível doutrinário .).
Os seus principais fundamentos são: a probabilidade de ter sido feito o pagamento; a presunção de renúncia do credor; a sanção da negligência do credor; a consolidação de situações de facto; a protecção do devedor contra a dificuldade de prova do pagamento; a necessidade social de segurança jurídica e certeza dos direitos; o imperativo de sanear a vida jurídica de direitos praticamente caducos; a exigência de promover o exercício oportuno dos direitos.» Para Pais de Vasconcelos, in Teoria Geral do Direito Civil, Edição, Almedina, página 380, «a prescrição é um efeito jurídico da inércia prolongada do titular do direito no seu exercício, e traduz-se em o direito prescrito sofrer na sua eficácia um enfraquecimento consistente em a pessoa vinculada poder recusar o cumprimento ou a conduta a que esteja adstrita.
Se o credor, ou o titular do direito, deixar de o exercer durante certo tempo, fixado na lei, o devedor, ou a pessoa vinculada, pode recusar o cumprimento, invocando a prescrição.» O fundamento da prescrição radica na negligência que o credor revela ao não exercer o seu direito durante o período de tempo em que seria legítimo esperar que ele o exercesse, se nisso estivesse interessado.
O prazo de prescrição está sujeito a causas de suspensão e de interrupção.
Ao estabelecer que a prescrição se interrompe apenas com a citação e já não com a instauração da acção, o artigo 32 do Código Civil confronta o credor com uma circunstância que ele não pode controlar: a oportunidade da realização da citação.
Em condições normais, instaurada a acção, seguir-se-á a breve trecho a citação.
Todavia, tal pode não suceder porque a máquina judiciária não funcionou com a diligência que era devida, porque o modo como está organizada a forma de processo conduz a que a citação apenas deva ser realizada após a prática de actos que o credor não controla ou por diversas outras razões.
Ora se a prescrição tem como motivação genética a inércia do credor, responsabilizando-o por uma omissão que ele tinha perfeitas condições para evitar, não parece compatibilizar-se com esse juízo o decurso de tempo imputável à máquina judiciária ou às regras processuais.
Por outras palavras, não parece justo que a protecção do devedor vá ao tempo de fazer com que o credor suporte o prejuízo de uma demora a que é inteiramente estranho cf.
Dias Marques, in Prescrição Extintiva, p. 148, apud Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 002010, Serra Baptista, in www.dgsi.pt).
Para resolver este dilema, a norma estabelece que se a citação ou notificação se não fizer dentro de cinco dias depois de ter sido requerida, por causa não imputável ao requerente, a prescrição tem-se por interrompida logo que decorram os cinco dias.
Esta solução tem como razão de ser evitar que recaia sobre o credor, ainda que o mesmo tenha, diligentemente, instaurado a acção a tempo de a citação se fazer antes de se completar o prazo prescricional, o risco de isso não suceder por questões que lhe sejam totalmente alheias, não devidas a culpa sua.
Para que a interrupção da prescrição ocorra ao abrigo do n. 2 do artigo 32 do Código Civil é necessário, em primeiro lugar, que o prazo prescricional ainda não esteja esgotado nem se esgote nos cinco dias posteriores à instauração da acção, depois que a citação não tenha sido realizada nesses cinco dias; a seguir que o facto de a citação não ter sido realizada nesses cinco dias não seja imputável ao credor, e finalmente que a citação venha a ser realizada o preceito só ficciona que a mesma teve lugar em data anterior, não que ela teve.
No caso concreto, discute-se se a não realização da citação nos cinco dias posteriores à instauração da acção se deveu ou não a causa imputável à autora.
Olhando apenas para a jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça e tomando por referência os Acórdãos que mais proximamente se pronunciaram sobre esta questão, encontramos na base de dados do Ministério da Justiça, no sitio www.dgsi.pt, a seguinte posição manifestada de forma reiterada e praticamente consensual: - Acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça de 03-07-2018, proc.
n. 1965/18TBCLD-A.CS1, e de 02-04-2019, proc.
n. 1772/04TVLSB.LS1, onde se escreveu: «O que se mostra relevante para aaplicação do apontado regime legal é que tenha havido por banda do requerente uma manifesta e objectiva infracção das regras processuais aplicáveis, cf.
Acórdão STJ de 4 de Novembro de 1992 Relator Dias Simão) e de 5 de Julho de 2018 deste mesmo Colectivo, in www.dgsi.pt.» - Acórdão Supremo Tribunal de Justiça 24-01-2019, proc.
n. 524/10TBTND-A.CS1, depois acompanhado no Acórdão de 11-07-2019, proc.
n. 1406/19T8ACB-A.CS1, onde se afirma a propósito do n. 2 do artigo 32 do Código Civil: «Trata-se de uma ficção legal, que funciona como uma verdadeira excepção ao mecanismo da interrupção da prescrição por via da citação ou notificação judicial e que tem a sua razão de ser na necessidade de proteger o titular do direito, quando este requereu antecipadamente a citação ou a notificação) judicial do devedor, e esta se atrasou sem culpa sua O efeito interruptivo da prescrição, estabelecido no n 2 do citado art.
323, pressupõe, assim, a concorrência de três requisitos: que o prazo prescricional ainda esteja a decorrer e assim se mantenha nos cinco dias posteriores à instauração da acção; que a citação não tenha sido realizada nesse prazo de cinco dias; que o retardamento da citação não seja imputável ao requerente E sobre a interpretação a dar à expressão «por causa não imputável ao requerente», é jurisprudência uniforme do Supremo Tribunal de Justiça que esta expressão legal deve ser interpretada em termos de causalidade objectiva, ou seja, a conduta do requerente só exclui a interrupção da prescrição quando tenha violado objectivamente a lei em qualquer termo processual até à efectivação da citação Nas palavras do Acórdão do STJ, de 002011 processo n 1228/08TBAGH.LS1) 9, o que é essencial para a aplicação do regime da citação «ficta» em 5 dias é que a conduta do requerente não haja implicado qualquer violação culposa de normas procedimentais ou adjectivas, radicando nessa infracção objectiva – e só nela – a preclusão do benefício emergente do referido n 2 do art.
32 Assim, a demora será imputável ao requerente quando se demonstre existir um nexo objectivo de causalidade entre a conduta do requerente, posterior ao requerimento para a citação, e o resultado de a citação ter sido efectivada para além do quinto dia posterior à apresentação daquele 1 Do mesmo modo, constitui entendimento pacífico na jurisprudência deste Supremo Tribunal que, quando a demora na citação resulta da desconjugação dos preceitos da lei de custas, de processo e de organização judiciária com as normas substantivas, o conflito deve solucionar-se no sentido da prevalência destas, sem que tal desconjugação possa imputar-se aos que requerem as citações 1 E ainda que, sendo a acção proposta com a antecedência mínima de 5 dias em relação à consumação do prazo prescricional, nem necessita o autor de requerer a citação antecipada para poder aproveitar do artigo 323, n 2 do Código Civil 12, pois, como se afirma no citado Acórdão do STJ de 002011, o que «releva decisivamente na aplicação do dito regime legal é o eventual cometimento pelo autor de uma infracção a regras procedimentais a que estava vinculado e que tenham sido causais da demora na consumação do acto de citação – e não uma «omissão» de actos ou diligências aceleratórias – que, porventura a terem sido adoptadas, poderiam permitir um curso mais célere do processo na sua fase liminar mas que constituem uma faculdade e não um dever ou ónus do autor».
- Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 12-09-2018, proc.
n. 5282/04TTLSB.LS1, que assinala: «A eficácia deste desvio depende da inexistência de causa imputável ao requerente na não efectivação da citação ou notificação.
Esta cláusula geral utilizada pela lei «por causa não imputável ao requerente» tem sido densificada em diversos arestos do Supremo Tribunal de Justiça no sentido de que a conduta do requerente só exclui a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei em qualquer termo processual e até à verificação da citação, devendo a referida expressão legal ser interpretada em termos de causalidade objectiva Acórdão de 20-06-2012, proferido no processo n. 347/18TTVNG.PS1; Acórdão de 20-10-2011, proferido no processo n. 329/00TTLRA.CS1 e Acórdão de 29-11-2016, proferido no processo n. 448/15TBSSB-A.ES1).
Trata-se de um entendimento referenciado e assumido pela doutrina também de forma pacífica cf.
Nota de J��lio Gomes ao art.
32 do Comentário ao Código Civil, Parte Geral, Universidade Católica Editora, pág..» - Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 29-11-2016, proc.
n. 448/15TBSSB-A.ES1, que decide: «É entendimento pacífico na jurisprudência do STJ que a conduta do requerente só não exclui a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei em qualquer termo processual até à verificação da citação, sendo que a expressão «causa não imputável ao requerente», usada no dito artigo, deve ser interpretada em termos de causalidade objectiva, só excluindo a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei em qualquer termo processual até à verificação da citação Acs.
de 30-04-1996, de 14-05-2002) e ainda o de 03-02-2011 1 em que expressamente se afirma "ora, por força do preceituado no art.
323 do , a prescrição interrompe-se pela citação na acção em que é formulada a pretensão indemnizatória – valendo, porém, inteiramente o regime de «citação ficta» consagrado no n 2 de tal preceito legal: se a citação se não fizer dentro de 5 dias depois de ter sido requerida, por causa não imputável ao requerente, tem-se a prescrição por interrompida logo que decorram os 5 dias”.
Como também se refere no acórdão de 2-10-07 2 "o efeito interruptivo da prescrição, estabelecido no n2 do referido preceito, pressupõe a concorrência de 3 requisitos: que o prazo prescricional ainda esteja a decorrer e assim se mantenha nos 5 dias posteriores à propositura da acção ;- que a citação não tenha sido realizada nesse prazo de 5 dias ;- que o retardamento na efectivação desse acto não seja imputável ao autor.
E este benefício, assim concedido ao autor, exige necessariamente que o demandante não tenha adjectivamente contribuído para que a informação não chegasse ao demandado no sobredito prazo de 5 dias; caso contrário, isto é, se a demora lhe for imputável, a lei retira-lhe o ficcionado benefício e manda atender, sem mais, à data da efectiva prática do acto informativo – devendo interpretar-se aquela expressão legal – causa não imputável ao requerente – em termos de causalidade objectiva, ou seja, a conduta do requerente só exclui a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei, em qualquer termo processual, até à verificação da citação”.» - Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 23-01-2014, proc.
n. 8021/08YYLSB-A.LS1, que sustenta: «Tem-se entendido pacificamente que a citação efectivada depois de decorridos os cinco dias após a apresentação do respectivo requerimento pelo credor não é imputável a este quando tal se fique a dever a razões inerentes à orgânica e funcionamento do tribunal, ou a razões de natureza processual e ou referentes à parte contrária, mas já o sendo, quando se demonstre existir um nexo objectivo de causalidade entre o comportamento processual do requerente, após a apresentação do requerimento de citação, e o facto desta ter sido concretizada para além do dia após a apresentação daquele.
E tal nexo verificar-se-á quando o credor Autor /Exequente) viole normas legais; como se escreveu no Ac.
deste STJ de 03-02-2011 Revista n. 1228/08TBAGH.LS1 - Secção, Rel.
Lopes do, "deve interpretar-se a expressão legal «causa não imputável ao requerente» – em termos de causalidade objectiva, ou seja, de a conduta do requerente só excluir a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei, em qualquer termo processual, até à verificação da citação”.
O atraso na citação será, portanto, da responsabilidade do requerente sempre que ele não pratique ou pratique mal os actos processuais que lhe incumbe realizar entre o momento da apresentação do requerimento nestes se incluindo também a correcta formalização do e o da citação ou, dito de outro modo, sempre que esta não possa efectivar-se por aqueles motivos.» - Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 03-02-2011, proc.
n. 1228/08TBAGH.LS1, depois citado regularmente noutros Acórdãos, que proclama «E este benefício, assim concedido ao autor , exige necessariamente que o demandante não tenha adjectivamente contribuído para que a informação não chegasse ao demandado no sobredito prazo de 5 dias; caso contrário, isto é, se a demora lhe for imputável, a lei retira-lhe o ficcionado benefício e manda atender, sem mais, à data da efectiva prática do acto informativo – devendo interpretar-se aquela expressão legal – causa não imputável ao requerente – em termos de causalidade objectiva, ou seja, a conduta do requerente só exclui a interrupção da prescrição quando tenha infringido objectivamente a lei, em qualquer termo processual, até à verificação da citação.
Saliente-se ainda, por um lado, que a exigência, formulada expressamente pelo de que o autor tivesse «requerido» a citação do réu carece presentemente de sentido e alcance prático, face ao estabelecimento pela lei de processo de um regime de oficiosidade da citação, na generalidade dos casos cometida directamente à secretaria : daqui decorre que, mesmo que, porventura, o A. não tivesse introduzido na parte final da petição inicial o tradicional e tabelar pedido de citação do R., tal «omissão» em nada poderá afectar a aplicabilidade do regime previsto no n2 do art.
323, já que sempre competirá à secretaria judicial proceder à citação do R. nos termos do art.
234 do CPC, não podendo imputar-se a tal hipotética omissão a menor consequência processual ou atraso na normal realização do acto, perante a vigência da referida regra da oficiosidade.
Consideramos, por outro lado que – proposta a acção com a antecedência mínima de 5 dias em relação à consumação do prazo prescricional – não pode extrair-se qualquer consequência desfavorável da circunstância de o A. não ter requerido que a citação «urgente» precedesse a distribuição, nos termos consentidos pelo art.
478 do CPC, ou de não ter, porventura, «acelerado» o andamento das diligências processuais a seu cargo, prescindindo, nomeadamente, dos prazos legalmente concedidos pela lei de processo para praticar qualquer acto ou diligência na fase liminar com que esteja onerado: o que é essencial para a aplicação, em seu benefício, do regime da citação «ficta» em 5 dias é que a sua conduta não haja implicado qualquer violação culposa de normas procedimentais ou adjectivas, radicando nessa infracção objectiva – e só nela – a preclusão do benefício emergente do referido n 2 do art.
32 Radica este entendimento, desde logo, em prementes necessidades de certeza e objectividade na aplicação prática do regime da citação «ficta», dificilmente conciliáveis com uma apreciação casuística do andamento de cada processo até ao acto de citação, de modo a realizar uma distinção, problemática e geradora de incerteza, entre os comportamentos do autor – todos eles processualmente lícitos – que lhe seriam ou não exigíveis, como forma de alcançar uma especial «aceleração» do processo, até se consumar o acto de citação.
O que, deste modo, releva decisivamente na aplicação do dito regime legal é o eventual cometimento pelo autor de uma infracção a regras procedimentais a que estava vinculado e que tenham sido causais da demora na consumação do acto de citação – e não uma «omissão» de actos ou diligências aceleratórias - que, porventura, a terem sido adoptadas, poderiam permitir um curso mais célere do processo na sua fase liminar, mas que constituem uma faculdade e não um dever ou ónus do autor.» Ora no caso defrontamo-nos com uma violação objectiva por parte da autora das normas adjectivas que devia ter levado em conta ao instaurar a acção para quele fosse, de seguida, tramitada judicialmente.
Com efeito, a acção foi instaurada pela autora em tribunal que não era o competente segundo as regras legais em vigor concernentes à divisão judicial do território.
A acção foi instaurada no Juízo Local Cível da Póvoa do Varzim quando o competente para preparar e julgar a acção era o Juízo Local Cível de Vila do Conde, conforme aquele veio a decidir, em conformidade, aliás, com a posição que logo a autora assumiu quando foi confrontada com a incompetência do tribunal onde a acção fora instaurada.
Quando propõe a acção, o autor deve determinar qual é o tribunal competente e instaurar a acção nesse tribunal uma vez que a competência do tribunal é um pressuposto indispensável para que este possa preparar e julgar a acção.
A incompetência, quer absoluta, quer relativa, do tribunal é mesmo configurada como uma excepção dilatória, cuja consequência é impedir o tribunal de conhecer do mérito da causa e determinar a absolvição da instância ou a remessa dos autos para outro tribunal, o tribunal competente artigos 57 e 57 do Código de Processo.
A causa objectiva e real de a citação não ter sido feita nos cinco dias após a instauração da acção foi essa falha da autora, uma vez que o tribunal se apercebeu de imediato da sua incompetência e actuou processualmente no sentido de conhecer dessa excepção dilatória por forma a ulteriormente remeter o processo para o tribunal onde a respectiva tramitação regular, conducente à citação, só foi iniciada.
É certo que nos casos em que a incompetência é do conhecimento oficioso, como aqui sucedia, a excepção pode ser suscitada e decidida até ao despacho saneador ou até ao primeiro despacho subsequente ao termo dos articulados artigo 10, n. 2, do Código de Processo, o que abre a possibilidade de mesmo numa acção instaurada num tribunal incompetente o tribunal iniciar a tramitação, proceder à citação do réu e este apresentar contestação.
Todavia, o momento processual fixado naquela norma é somente o limite à possibilidade de o tribunal conhecer oficiosamente da excepção, não equivale à fixação do momento em que ela só) pode ser conhecida.
A norma não impede o tribunal de conhecer da excepção logo no despacho inicial, recusando proceder a qualquer outro tramite processual, situação que se deve entender como a normal, a correcta, a expectável, precisamente porque os tribunais estão organizados por competências, estas encontram-se fixadas legalmente e devem ser observadas pelas partes aquando da instauração da acção e verificadas pelo tribunal nos casos em que o seu conhecimento oficioso é admitido ou a excepção foi arguida pela parte interessada.
Não há como deixar de concluir que a instauração da acção num tribunal incompetente não é o exercício de uma faculdade processual, é uma falha do autor que gera um vício.
Daí que não se possa entender que não sendo o autor responsável pelo modo como a lei processual rege o conhecimento desse vício, é exclusivamente imputável à máquina judiciária e às leis do processo o momento em que o mesmo pode ser conhecido e o tempo que a decisão demorar, não podendo o autor ser prejudicado por essa tramitação que não pode controlar.
O autor podia controlar a falha inicial e é ela que dá causa à não citação do réu nos cinco dias posteriores à instauração da acção.
Na decisão recorrida admite-se que a acção não deu entrada no tribunal competente, mas entende-se que não foi isso que impediu a realização da citação nos cinco dias seguintes, porque «mesmo que a acção tivesse dado entrada, logo, no Juízo Local Cível de Vila do Conde e diligenciando a Secretaria, de imediato, pela citação do Réu na morada constante da petição inicial, o Réu não seria citado, pois tinha alterado o seu domicilio e porque mesmo quando a carta é enviada para o seu domicílio – carta de citação de 202020 – a mesma não foi levantada pelo Réu veio devolvida com a informação de objecto não».
Trata-se de um raciocínio que não podemos acompanhar porque substitui a causa real por uma causa virtual, o que naturalmente não pode ser feito porque no nosso sistema jurídico a tese dominante é a de que a relevância negativa da causa virtual é excepcional e não a regra, aplicando-se somente nas situações em que expressamente a lei a reflecte, g. os casos dos artigos 49, 49 e 49 do Código Civil cf.
Pereira Coelho, in O Problema da Causa Virtual na Responsabilidade Civil, reimp., Almedina, Coimbra, 1998, página.
A citação não se fez nos cinco dias posteriores à instauração da acção porque, por falha da autora, a acção não foi instaurada no tribunal competente e como a incompetência era do conhecimento oficioso o tribunal procedeu de imediato à detecção da excepção dilatória correspondente e à tramitação da acção exclusivamente para conhecer e decidir a excepção.
Qualquer outra situação que se a acção tivesse sido instaurada no tribunal competente tudo indica que conduzisse igualmente ao resultado de a citação não vir a ser realizada naquele prazo de cinco dias, não passa, no caso concreto que nos ocupa, de uma causa virtual ou hipotética.
Refira-se que esta situação é perfeitamente equiparável àquelas a duas conhecidas em que o Supremo Tribunal de Justiça entendeu que a não citação do réu nos cinco dias posteriores à instauração da acção era imputável ao autor.
Referimo-nos ao Acórdão já citado de 02-04-2019, em que aquela decisão foi aplicada a um caso em que o autor instaurou a acção, mas não juntou a procuração forense apesar de a acção ser de constituição obrigatória de advogado e foi notificado para a juntar, tendo, entretanto, decorrido o prazo de cinco dias.
E ainda ao Acórdão de 28-10-2021, proc.
n. 15359/12T8LSB.LS1, in www.dgsi.pt, em que o mesmo foi decidido em relação a um caso em que o autor instaurou a acção pretendendo que a data da instauração correspondesse à data em que havia pedido a nomeação do patrono que a subscreve e. que a interrupção da prescrição ocorresse nos cinco dias posteriores a essa mas juntou um pedido de apoio judiciário que não esclarece se a nomeação era para a instauração dessa concreta acção.
Em conclusão, tendo sido por culpa da autora que a citação não se fez no prazo de 5 dias subsequente à instauração da acção, não tem aplicação ao caso o disposto no artigo 32, n. 2, do Código Civil, razão pela qual a prescrição do direito do autor não se interrompeu no dia 23-11-201 E como a citação, necessária nesse contexto para a interrupção da prescrição, também não foi concretizada nos dias 24 e 25 seguintes, o direito da autora prescreveu no término do dia 25-11-2019, quando se completaram três anos sobre o último dos pagamentos efectuados pela autora e cujo reembolso reclama por via de regresso.
Nesses termos, a decisão recorrida deve ser revogada, julgando-se prescrito o direito da autora e absolvendo-se o réu do pedido.
Do recurso da autora: O acabado de decidir sobre a prescrição conduz irremediavelmente à improcedência do recurso da autora.
A recorrente, partindo do pressuposto aceite pela decisão recorrida de a prescrição se ter interrompido antes de se completarem três anos sobre a data do último pagamento que fez aos lesados, pretende por via do recurso que esta Relação decida que essa interrupção se estende mesmo em relação a pagamentos efectuados mais de três anos antes.
O decidido quanto à prescrição e à sua não interrupção ao abrigo do n. 2 do artigo 32 do Código Civil, faz soçobrar essa pretensão.
O recurso é por isso improcedente.
Dispositivo: Pelo exposto, acordam os juízes do Tribunal da Relação julgar o recurso da autora improcedente e o recurso do réu procedente; em consequência, revogam a decisão recorrida e declaram prescrito o direito da autora, absolvendo o réu do pedido.
Custas dos recursos pela autora, a qual vai condenada a pagar ao réu, a título de custas de parte, o valor das taxas de justiça que suportou e eventuais encargos.Porto, 24 de Fevereiro de 202Os Juízes Desembargadores Aristides Rodrigues de Almeida R.to Francisca Mota Vieira Paulo Dias da Silva a presente peça processual foi produzida pelo Relator com o uso de meios informáticos e tem assinaturas electrónicas qualificadas
Acórdão deliberado em conferência na 5 secção criminal do Tribunal da Relação de Coimbra Relatório No Juízo Central Criminal de Coimbra, do Tribunal Judicial da Comarca de Coimbra, foi o arguido AA condenado pela prática de um crime de violência doméstica, agravado, p. e p. pelo artigo 152, n.s 1, alínea, 2 al., 4 e 5 do Código Penal na pena de 3três) anos de prisão; pela prática de um crime de extorsão, na forma continuada, p e p. pelas disposições conjugadas dos art.s 223, n 1, e 30, n 2, do Código Penal, na pena de ano e meses de prisão.
Em cúmulo jurídico foi decidido aplicar a pena única de 3 três) anos e 9 meses de prisão efetiva.
Foi condenado, na pena acessória de proibição de contacto com a vítima e de proibição de uso e porte de armas, pelo período de 3três) anos e 9 meses de prisão, incluindo-se o afastamento da residência e do local de trabalho desta e o seu cumprimento deve ser fiscalizado por meios técnicos de controlo à distância, sempre que o arguido esteja em liberdade.
Mais se determinou que o arguido frequentasse programas específicos de prevenção da violência doméstica.
Determinou-se, ainda, que o arguido AA, seja sujeito a tratamento à sua toxicodependência, nos termos do art.